SUPLEMENTOS E SAÚDE INTESTINAL — OUTROS SUPLEMENTOS E COMPOSTOS DE INTERESSE (Parte 3)

 

 

  1. COLÁGENO E OUTRAS SUBSTÂNCIAS

 

13.1. Colágeno hidrolisado

O colágeno fornece aminoácidos, incluindo glicina e prolina, envolvidos na síntese de proteínas estruturais.

Entretanto, a barreira intestinal não é formada apenas por colágeno, e a ingestão de colágeno hidrolisado não implica direcionamento específico desses aminoácidos para a mucosa intestinal.

Não há evidência clínica robusta demonstrando que suplementos de colágeno recuperem a permeabilidade intestinal patológica.

A utilização do colágeno pode ter outras indicações nutricionais ou clínicas, mas não deve ser apresentada como tratamento estabelecido para a barreira intestinal.

Evidência: muito baixa ou insuficiente.

 

13.2. Ômega-3

Os ácidos graxos ômega-3 participam da modulação de processos inflamatórios.

Embora apresentem aplicações clínicas reconhecidas em determinadas condições, não existem evidências consistentes de que sua suplementação restaure diretamente uma barreira intestinal comprometida na população geral.

Evidência: insuficiente para essa indicação específica.

 

13.3. Prebióticos concentrados: inulina, FOS e GOS

A inulina, os fruto-oligossacarídeos (FOS) e os galacto-oligossacarídeos (GOS) constituem substâncias fermentáveis capazes de modificar a atividade de determinados microrganismos intestinais.

Alguns estudos mostram alterações favoráveis em parâmetros da microbiota e de seus metabólitos.

Entretanto, a fermentação também pode aumentar gases e distensão abdominal.

Em pessoas com síndrome do intestino irritável ou suspeita de SIBO, quantidades elevadas desses compostos podem piorar os sintomas.

A presença de efeito prebiótico não significa que o suplemento seja necessariamente apropriado para todas as pessoas.

 

13.4. Probióticos em cápsulas

Probióticos são microrganismos vivos que, quando administrados em quantidades adequadas, podem proporcionar benefícios específicos à saúde.

Seus efeitos dependem da cepa, da dose, do produto e da condição clínica.

Por essa razão, um resultado positivo com determinada cepa não pode ser automaticamente atribuído a todas as espécies de Lactobacillus, Bifidobacterium ou a qualquer produto comercial contendo essas bactérias.

O consenso da World Gastroenterology Organisation reforça a importância de relacionar benefícios a cepas e indicações específicas (GUARNER et al., 2024).

Uma revisão Cochrane publicada em 2025 reuniu 47 estudos envolvendo mais de 15 mil participantes que receberam antibióticos.

Os resultados sugeriram que probióticos podem reduzir o risco de diarreia associada a antibióticos e proporcionar pequeno benefício absoluto na prevenção de diarreia associada a Clostridioides difficile, embora a certeza varie e a escolha das cepas permaneça importante (ESMAEILINEZHAD et al., 2025).

Entretanto, isso não significa que todos os probióticos restaurem a barreira intestinal ou que devam ser utilizados indiscriminadamente.

Em pacientes gravemente enfermos, imunossuprimidos ou com cateteres vasculares, determinadas formulações podem representar riscos específicos, incluindo infecções oportunistas.

 

  1. A REVISÃO DE 2025 SOBRE PREBIÓTICOS, PROBIÓTICOS E BARREIRA INTESTINAL

Uma importante metanálise foi publicada por Ghorbani e colaboradores, em 2025, na revista Pharmacological Research.

Os pesquisadores investigaram o efeito de prebióticos, probióticos e simbióticos sobre diferentes marcadores relacionados à integridade intestinal.

A revisão incluiu 46 estudos sobre probióticos e simbióticos e 22 estudos sobre prebióticos.

Os resultados sugeriram reduções de determinados marcadores, incluindo lipopolissacarídeos circulantes e medidas relatadas como zonulina (GHORBANI et al., 2025).

Esses achados são interessantes, mas exigem interpretação cuidadosa.

Primeiro, os estudos utilizaram populações, formulações e métodos diferentes, produzindo elevada heterogeneidade.

Segundo, alterar um marcador laboratorial não equivale necessariamente a demonstrar recuperação funcional da barreira intestinal ou melhora clínica sustentada.

Terceiro, alguns métodos comerciais utilizados para dosagem de zonulina apresentam problemas de especificidade analítica.

Scheffler e colaboradores demonstraram que um ensaio comercial amplamente utilizado não identificava especificamente a proteína inicialmente proposta como zonulina, reconhecendo também outras proteínas (SCHEFFLER et al., 2018).

Portanto, embora os resultados de Ghorbani et al. sejam promissores, não justificam afirmar que prebióticos e probióticos comercializados atualmente “reparam” de maneira comprovada a barreira intestinal.

A qualidade da medida utilizada é tão importante quanto o resultado estatístico apresentado.

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