O Microbioma Intestinal – Uma Nova Era? – Parte 2

 

 

Na primeira parte deste artigo vimos que pesquisadores publicaram, em 2026, um importante estudo na revista Nature propondo uma nova forma de avaliar o microbioma intestinal. Em vez de procurar uma ou outra bactéria “boa” ou “ruim”, eles demonstraram que a saúde parece estar muito mais relacionada ao equilíbrio funcional de todo o ecossistema intestinal. Mas o que isso muda na prática?

Será apenas mais uma descoberta interessante para pesquisadores ou estamos diante de uma mudança que poderá influenciar a forma como médicos e pacientes cuidam da saúde?

Embora ainda seja cedo para respostas definitivas, existem razões consistentes para acreditar que estamos entrando em uma nova fase da Medicina Preventiva.

 

Da Medicina baseada na doença para a Medicina baseada na resiliência

Durante mais de um século, a Medicina concentrou seus esforços em identificar doenças. Hipertensão. Diabetes. Infarto. Câncer. O objetivo era descobrir e atacar o problema quando ele já estivesse presente.

Nas últimas décadas, entretanto, ocorreu uma mudança importante de perspectiva. A Medicina passou a perguntar: Por que algumas pessoas permanecem saudáveis apesar dos inúmeros fatores de risco?

Essa pergunta parece simples, mas muda completamente o foco. Em vez de estudar apenas a doença, passamos a estudar os mecanismos que sustentam a saúde.

O microbioma talvez seja um dos melhores exemplos dessa mudança. Em vez de procurar “a bactéria da obesidade” ou “a bactéria da depressão”, o novo estudo pergunta:

Como funciona um ecossistema intestinal capaz de manter o organismo saudável? Essa diferença conceitual pode parecer pequena. Na realidade, representa uma mudança profunda na maneira de compreender a saúde humana.

 

A alimentação poderá tornar-se ainda mais personalizada

Hoje já sabemos que duas pessoas podem reagir de maneira completamente diferente ao mesmo alimento. Um mesmo prato pode provocar pequena elevação da glicemia em uma pessoa e grande aumento em outra.

Parte dessa diferença depende da genética. Outra parte depende da atividade física. Mas uma parcela importante parece depender justamente do microbioma intestinal.

Se os índices desenvolvidos pelos pesquisadores forem confirmados por estudos futuros, talvez possamos utilizar o perfil do microbioma para individualizar recomendações alimentares.

Isso significa que, no futuro, duas pessoas com o mesmo colesterol, o mesmo peso e a mesma idade poderão receber orientações nutricionais diferentes porque apresentam microbiomas distintos.

Essa possibilidade ainda está em desenvolvimento, mas representa uma das áreas mais promissoras da chamada Nutrição de Precisão.

 

Adeus aos probióticos “universais”?

Nos últimos anos o mercado foi inundado por probióticos que prometem benefícios para praticamente tudo:

  • imunidade;
  • emagrecimento;
  • ansiedade;
  • memória;
  • intestino;
  • longevidade.

A realidade científica é muito mais complexa. Os efeitos de um probiótico dependem da cepa utilizada, da dose, da duração do tratamento e, principalmente, do microbioma já existente naquele indivíduo.

O novo estudo reforça essa ideia. Talvez o objetivo não seja simplesmente adicionar algumas bactérias. Talvez seja restaurar o equilíbrio de todo o ecossistema.

Isso explica por que muitas pessoas relatam benefícios com determinado probiótico enquanto outras não apresentam qualquer resposta. No futuro, é possível que a escolha de probióticos seja muito mais personalizada do que atualmente.

 

O exame de microbioma ganhará novo significado?

Diversos laboratórios já oferecem testes de microbioma. Entretanto, muitos deles apresentam um problema importante. Eles informam quais bactérias estão presentes, mas nem sempre conseguem responder à pergunta mais importante: Esse microbioma está realmente saudável?

Os índices propostos pelo estudo publicado na Nature representam um passo importante para superar essa limitação. Ainda não se trata de um exame pronto para uso rotineiro.

Os próprios autores ressaltam a necessidade de validação em diferentes populações. Mesmo assim, pela primeira vez surge a possibilidade de interpretar o microbioma de forma quantitativa, comparável e clinicamente útil.

É uma mudança semelhante à que ocorreu quando deixamos de simplesmente medir glicose na urina e passamos a utilizar glicemia e hemoglobina glicada.

 

Medicina do Estilo de Vida: mais evidências para uma antiga intuição

Talvez um dos aspectos mais interessantes do estudo seja aquilo que ele não encontrou. Os pesquisadores não identificaram um alimento milagroso. Não encontraram uma bactéria mágica. Não descobriram um suplemento capaz de resolver todos os problemas.

Ao contrário. Os melhores perfis de microbioma estiveram associados a padrões alimentares ricos em frutas, verduras, legumes, leguminosas, cereais integrais e outros alimentos naturais ricos em fibras.

Em outras palavras, o estudo reforça aquilo que diversas linhas de pesquisa vêm mostrando há anos: o microbioma responde muito mais ao padrão alimentar do que a intervenções isoladas.

Essa conclusão aproxima ainda mais a pesquisa em microbioma dos princípios da Medicina do Estilo de Vida.

 

Cinco mudanças que talvez vejamos até 2035

Naturalmente, qualquer previsão deve ser interpretada com cautela. A ciência evolui por etapas, e muitas hipóteses promissoras acabam sendo modificadas ou abandonadas. Ainda assim, se a trajetória atual se confirmar, é plausível imaginar alguns avanços importantes na próxima década.

 

  1. Check-ups poderão incluir um índice de saúde do microbioma.

Assim como hoje avaliamos colesterol, glicemia e pressão arterial, poderemos dispor de indicadores padronizados da qualidade funcional do microbioma.

 

  1. Dietas serão cada vez mais individualizadas.

As recomendações nutricionais poderão considerar não apenas idade, peso e doenças, mas também características do ecossistema intestinal.

 

  1. Probióticos evoluirão para terapias de precisão.

Em vez de produtos genéricos, poderão ser indicadas combinações específicas para perfis microbiológicos determinados.

 

  1. O acompanhamento de doenças crônicas poderá incorporar biomarcadores do microbioma.

Diabetes, obesidade, doenças inflamatórias intestinais e outras condições talvez passem a ser monitoradas também sob essa perspectiva.

 

  1. A prevenção poderá começar muito antes do aparecimento das doenças.

Talvez essa seja a mudança mais importante de todas. Em vez de esperar que o organismo adoeça, poderemos identificar precocemente alterações do ecossistema intestinal e estimular mudanças de estilo de vida antes que ocorram manifestações clínicas.

Essas possibilidades ainda representam perspectivas científicas, não práticas clínicas consolidadas. Entretanto, elas decorrem de uma linha de pesquisa cada vez mais robusta e coerente.

 

O que muda para você hoje?

Talvez esta seja a pergunta mais importante de todo o artigo. A resposta é, ao mesmo tempo, simples e surpreendente.

Nada muda… e tudo muda. Nada muda porque o estudo não autoriza, por si só, mudanças imediatas nas recomendações médicas.

Ainda não existe um “tratamento do microbioma” validado para a maioria das doenças. Ainda não devemos escolher alimentos apenas com base em testes comerciais de microbiota. Mas tudo muda porque esse trabalho reforça uma convicção que vem ganhando força na ciência moderna:

O intestino responde diariamente às nossas escolhas. Cada refeição. Cada noite mal dormida. Cada período prolongado de estresse. Cada caminhada. Cada alimento ultraprocessado. Cada prato rico em vegetais.

Tudo isso contribui para moldar um ecossistema extremamente dinâmico, que, por sua vez, influencia diversos aspectos da nossa saúde.

 

Conclusão

Há poucos anos, falar sobre microbioma intestinal parecia um tema restrito aos laboratórios de pesquisa. Hoje ele ocupa espaço crescente nos maiores congressos médicos do mundo.

O estudo publicado na Nature em 2026 representa um passo importante nessa evolução porque desloca o foco da busca por bactérias isoladas para a compreensão do funcionamento integrado do ecossistema intestinal.

Ainda não estamos diante de uma revolução clínica imediata. Mas estamos assistindo ao nascimento de uma nova forma de pensar a Medicina. Uma Medicina que talvez deixe de perguntar apenas “qual doença você tem?” para perguntar também: “Quão saudável é o ecossistema que sustenta sua saúde?”

Se essa mudança se confirmar nas próximas décadas, o microbioma poderá tornar-se um dos pilares da Medicina Preventiva, ao lado da genética, da metabolômica, da atividade física, da alimentação e dos demais componentes do estilo de vida.

Para o paciente, a mensagem prática permanece extraordinariamente atual: cuide diariamente do seu intestino por meio de uma alimentação rica em alimentos naturais, fibras, frutas, verduras, leguminosas, atividade física, sono adequado e manejo do estresse. Embora a ciência ainda esteja refinando os instrumentos para medir um microbioma saudável, esses hábitos continuam sendo as intervenções com maior respaldo científico para favorecer um ecossistema intestinal resiliente.

 

Resumo prático

O estudo da Nature não muda as recomendações médicas de hoje, mas muda profundamente a forma como entendemos o microbioma.

Em vez de buscar uma única bactéria “milagrosa”, a pesquisa passa a enxergar o intestino como um ecossistema complexo, cuja saúde depende do equilíbrio entre centenas de espécies e de sua interação com a alimentação e o estilo de vida.

Essa nova visão poderá abrir caminho para exames mais precisos, nutrição personalizada, terapias microbiológicas direcionadas e estratégias de prevenção mais precoces. Até lá, permanece uma mensagem simples, porém poderosa: cuidar da alimentação, do sono, da atividade física e do estresse continua sendo a maneira mais consistente de cuidar também do seu microbioma.

 

Referências

ASNICAR, F. et al. Gut micro-organisms associated with health, nutrition and dietary interventions. Nature, 2026.

GILBERT, J. A. et al. Current understanding of the human microbiome. Nature Medicine, v. 24, p. 392–400, 2018.

FAN, Y.; PEDERSEN, O. Gut microbiota in human metabolic health and disease. Nature Reviews Microbiology, v. 19, p. 55–71, 2021.

THE HUMAN MICROBIOME PROJECT CONSORTIUM. Structure, function and diversity of the healthy human microbiome. Nature, v. 486, p. 207–214, 2012.

VALDES, A. M. et al. Role of the gut microbiota in nutrition and health. BMJ, v. 361, k2179, 2018.

O Microbioma Intestinal – Uma Nova Era? – Parte 1

 

 

O estudo publicado na Nature que pode transformar a Medicina Preventiva, evoluindo da descoberta dos comensais bacterianos do intestino à definição científica de um intestino saudável.

 

Introdução

Durante décadas, a medicina concentrou grande parte de sua atenção em um órgão extraordinário: o cérebro. Mais recentemente, outro “órgão invisível” começou a despertar enorme interesse científico: o microbioma intestinal.

Embora não seja propriamente um órgão anatômico, ele funciona como um verdadeiro ecossistema composto por aproximadamente 30 a 40 trilhões de microrganismos, incluindo bactérias, vírus, fungos e arqueias, que convivem em equilíbrio no trato digestório humano.

Hoje sabemos que esses microrganismos participam da digestão, da produção de vitaminas, da modulação do sistema imunológico, do metabolismo energético e até da comunicação entre intestino e cérebro.

Nos últimos quinze anos, milhares de estudos passaram a associar alterações do microbioma à obesidade, diabetes tipo 2, doenças cardiovasculares, depressão, ansiedade, doenças inflamatórias intestinais, doença de Parkinson, doença de Alzheimer e diversas outras condições clínicas.

Entretanto, permanecia uma pergunta aparentemente simples, mas extremamente difícil de responder: Como é, afinal, um microbioma realmente saudável?

A resposta pode estar começando a surgir. Em 2026, um importante estudo publicado na revista Nature propôs uma nova maneira de responder exatamente essa questão.

Mais do que identificar algumas bactérias “boas” ou “ruins”, os pesquisadores desenvolveram uma estratégia para avaliar o equilíbrio global do ecossistema intestinal.

Se essa abordagem se confirmar nos próximos anos, ela poderá representar uma das maiores mudanças da Medicina Preventiva desde o surgimento da genômica.

 

O problema: durante anos estudamos árvores, mas não a floresta

Grande parte das pesquisas sobre microbiota concentrou-se em responder perguntas como:

  • Existe uma bactéria da obesidade?
  • Existe uma bactéria da depressão?
  • Existe uma bactéria que protege contra diabetes?

Essa estratégia produziu importantes descobertas.

Sabemos, por exemplo, que bactérias produtoras de ácidos graxos de cadeia curta (SCFAs), como o butirato, exercem papel importante na integridade da barreira intestinal, na modulação da inflamação e no metabolismo energético. Também sabemos que algumas espécies tendem a diminuir em determinadas doenças.

O problema é que esses achados raramente eram consistentes entre diferentes populações. Uma bactéria considerada benéfica em um país nem sempre aparecia da mesma forma em outro.

Isso levou muitos pesquisadores a perceber que talvez estivéssemos fazendo a pergunta errada. Talvez não exista uma única “bactéria da saúde”. Talvez a saúde dependa muito mais do funcionamento do conjunto.

É como uma orquestra. Uma excelente sinfonia não depende apenas de um bom violinista. Ela depende da harmonia entre todos os instrumentos. O microbioma parece funcionar exatamente dessa maneira.

 

Uma mudança de paradigma

Foi exatamente esse desafio que motivou o trabalho liderado por Nicola Segata, Curtis Huttenhower, Francesco Asnicar e colaboradores.

O grupo reuniu milhares de amostras de microbioma provenientes de diferentes países, continentes, hábitos alimentares e estilos de vida.

Em vez de procurar uma bactéria específica, os pesquisadores utilizaram ferramentas avançadas de bioinformática e aprendizado de máquina (machine learning) para responder outra pergunta:

Existe um padrão global de microbioma que caracterize indivíduos metabolicamente mais saudáveis? A resposta foi surpreendente. Sim. Os autores conseguiram desenvolver dois índices capazes de resumir características extremamente complexas do microbioma:

  • um índice relacionado ao estado geral de saúde do indivíduo;
  • outro relacionado à qualidade da alimentação.

Em outras palavras, pela primeira vez talvez tenha se tornado possível avaliar o microbioma como quem interpreta um eletrocardiograma ou um perfil lipídico: não observando apenas um componente isolado, mas um padrão integrado.

 

O que realmente torna esse estudo inovador?

A grande novidade não foi descobrir mais uma bactéria. Foi abandonar essa lógica. Durante anos imaginou-se que bastaria encontrar algumas espécies “boas” para melhorar a saúde.

O novo estudo mostra que o importante talvez seja o funcionamento coletivo da comunidade microbiana. Essa mudança lembra a evolução ocorrida na Ecologia.

No passado, pesquisadores estudavam espécies isoladas. Hoje compreendem que o equilíbrio de um ecossistema depende muito mais das interações entre seus habitantes do que da presença ou ausência de uma única espécie.

O intestino humano parece obedecer ao mesmo princípio.

 

Alimentação: o principal arquiteto do microbioma

Outro aspecto extremamente interessante do estudo foi mostrar que os padrões alimentares permanecem como um dos fatores mais importantes na organização desse ecossistema.

Dietas ricas em frutas, verduras, legumes, leguminosas, cereais integrais e outros alimentos ricos em fibras mostraram associação consistente com perfis considerados mais favoráveis.

Por outro lado, padrões alimentares ricos em alimentos ultraprocessados, pobres em fibras e excessivamente refinados tenderam a apresentar características menos favoráveis.

Isso não significa que exista um alimento milagroso. Pelo contrário. A pesquisa reforça um conceito cada vez mais presente na Medicina do Estilo de Vida:

O microbioma responde muito mais ao padrão alimentar com um todo do que a alimentos isolados ou suplementos específicos.

Essa talvez seja uma das mensagens mais importantes para pacientes e profissionais de saúde.

Um novo “exame” para o futuro?

Imagine realizar um exame de fezes capaz de informar não apenas quais bactérias vivem em seu intestino, mas também oferecer um índice de qualidade do seu microbioma, semelhante ao que hoje fazemos com colesterol, glicemia ou pressão arterial.

Ainda não chegamos a esse ponto. Mas o estudo publicado na Nature aproxima a Medicina dessa possibilidade.

Os autores ressaltam que seus índices ainda precisam ser validados em diferentes populações e contextos clínicos antes de serem incorporados à prática assistencial.

Mesmo assim, trata-se de um passo importante em direção à chamada Medicina de Precisão baseada no microbioma.

Resumo prático

O estudo da Nature não descobriu “a bactéria perfeita”. Descobriu algo possivelmente mais importante.

Mostrou que um microbioma saudável parece ser definido muito mais pelo equilíbrio funcional entre centenas de espécies do que pela presença de um único microrganismo.

Em vez de procurar um “herói” bacteriano, a ciência começa a enxergar o intestino como um ecossistema complexo, cuja harmonia pode refletir a qualidade da alimentação, do estilo de vida e do estado geral de saúde.

Essa mudança pode representar um dos maiores avanços da pesquisa em microbioma desde o início do Projeto Microbioma Humano.

Na próxima parte discutiremos por que esse trabalho poderá modificar a prática médica, quais são suas limitações, como ele poderá influenciar a nutrição personalizada, os probióticos de nova geração e a prevenção de doenças crônicas, além da pergunta que talvez mais interesse aos leitores: o que essa descoberta muda, na prática, para a minha saúde?

 

Referências

ASNICAR, F. et al. Gut micro-organisms associated with health, nutrition and dietary interventions. Nature, 2026.

THE HUMAN MICROBIOME PROJECT CONSORTIUM. Structure, function and diversity of the healthy human microbiome. Nature, 486:207–214, 2012.

GILBERT, J. A.; BLASER, M. J.; CAPORASO, J. G. et al. Current understanding of the human microbiome. Nature Medicine, 24:392–400, 2018.

FAN, Y.; PEDERSEN, O. Gut microbiota in human metabolic health and disease. Nature Reviews Microbiology, 19:55–71, 2021.

VALDES, A. M.; WALTER, J.; SEGAL, E.; SPECTOR, T. D. Role of the gut microbiota in nutrition and health. BMJ, 361, 2018.

 

A Revolução das “Canetinhas” Emagrecedoras – Quatro décadas de uma longa espera – PARTE 1

 

Da frustração ao entusiasmo: como os novos medicamentos transformaram o tratamento da obesidade — e por que ainda precisamos de equilíbrio

 

 Disclaimer

Este artigo tem finalidade exclusivamente educativa e não substitui consulta médica. Medicamentos para tratamento da obesidade devem ser prescritos apenas após avaliação individualizada, considerando benefícios, riscos, contraindicações e acompanhamento contínuo. Nenhum medicamento substitui uma alimentação saudável, atividade física regular e outras mudanças no estilo de vida.

 

Confesso: durante muitos anos tratar a obesidade era frustrante

Há mais de quarenta anos acompanho pessoas que desejam emagrecer. Ao longo desse período, vi milhares de histórias. Algumas extremamente bem-sucedidas.

Muitas, infelizmente, repetiam o mesmo roteiro. O paciente conseguia perder alguns quilos. Sentia-se motivado. Depois surgiam as dificuldades da rotina. A fome aumentava. O organismo reagia. O peso voltava. Frequentemente maior do que antes.

Era o conhecido efeito sanfona. Como médico, poucas situações produziam tanta frustração.

Sabíamos orientar alimentação. Incentivávamos atividade física. Tratávamos ansiedade quando necessário. Prescrevíamos os medicamentos disponíveis. Mesmo assim, grande parte dos pacientes não conseguia manter resultados duradouros.

Hoje compreendemos que isso não acontecia por falta de força de vontade. A ciência mudou profundamente nossa compreensão da obesidade.

 

A maior mudança foi compreender que obesidade é uma doença

Durante muitos anos a obesidade foi interpretada quase exclusivamente como consequência de escolhas individuais.

Quem engordava era frequentemente visto como alguém sem disciplina. Esse pensamento mostrou-se profundamente simplista.

Hoje sabemos que a obesidade é uma doença crônica, complexa e multifatorial, influenciada por genética, ambiente, hormônios, microbiota intestinal, sono, estresse, saúde mental, disponibilidade de alimentos ultraprocessados e inúmeros outros fatores (Rubino et al., 2025).

O cérebro possui sistemas extremamente sofisticados para defender as reservas de energia.

Quando uma pessoa emagrece, o organismo frequentemente responde aumentando a fome, reduzindo o gasto energético e estimulando mecanismos biológicos que favorecem a recuperação do peso.

Em outras palavras: o corpo humano foi programado para evitar perder peso, não para evitar ganhar peso. Essa descoberta mudou completamente a forma como encaramos o tratamento.

 

Resumo Prático

Obesidade não é simplesmente falta de força de vontade. É uma doença crônica na qual fatores biológicos, psicológicos, sociais e ambientais interagem continuamente.

 

Uma breve história dos medicamentos para emagrecer

A busca por medicamentos capazes de reduzir o peso corporal acompanha a medicina há muitas décadas. Alguns trouxeram benefícios importantes. Outros acabaram abandonados por falta de eficácia ou por problemas de segurança.

Conhecer essa história ajuda a entender por que as chamadas “canetinhas” representam um momento tão especial.

 

Os primeiros anorexígenos: muito entusiasmo, muitos problemas

Na década de 1940 começaram a surgir os derivados anfetamínicos. Eles reduziam o apetite estimulando diretamente o sistema nervoso central. Inicialmente pareciam revolucionários.

Entretanto, logo ficaram evidentes diversos problemas:

  • aumento da pressão arterial;
  • insônia;
  • ansiedade;
  • taquicardia;
  • risco de dependência;
  • abuso recreativo.

Muitos desses medicamentos foram posteriormente retirados do mercado ou tiveram seu uso severamente restringido. Eles ensinaram uma importante lição: reduzir o apetite não basta; o tratamento também precisa ser seguro.

 

Sibutramina: um avanço importante, mas limitado

No final da década de 1990 surgiu a sibutramina. Seu mecanismo de ação era diferente. Ela aumentava a disponibilidade cerebral de serotonina e noradrenalina, promovendo maior sensação de saciedade. Durante muitos anos representou um dos principais tratamentos farmacológicos da obesidade.

Ainda hoje permanece disponível em diversos países, inclusive no Brasil, com critérios rigorosos de prescrição.

Embora muitos pacientes apresentassem boa resposta, a perda média de peso costumava situar-se entre 5% e 10% do peso corporal, além de haver preocupações quanto ao uso em pacientes com doença cardiovascular estabelecida, especialmente após a publicação do estudo SCOUT (James et al., 2010). Para muitos indivíduos, ainda era pouco.

 

Orlistate: uma estratégia completamente diferente

Enquanto os medicamentos anteriores atuavam principalmente sobre o cérebro, o orlistate passou a agir no intestino.

Seu mecanismo consiste em bloquear parte da ação das lipases pancreáticas, reduzindo a absorção de aproximadamente 30% da gordura ingerida. A estratégia mostrou-se segura do ponto de vista cardiovascular.

Entretanto, os efeitos colaterais gastrointestinais — como evacuações oleosas, urgência evacuatória e flatulência com eliminação de gordura — limitaram bastante sua aceitação. Mesmo assim, permanece uma alternativa útil em situações específicas.

 

Novas combinações: tentando aumentar a eficácia

Nas décadas seguintes surgiram associações medicamentosas buscando atuar simultaneamente sobre diferentes mecanismos cerebrais envolvidos no apetite.

Entre elas destacam-se:

  • Fentermina + Topiramato, aprovada em diversos países e capaz de produzir perdas de peso superiores às observadas com muitos medicamentos anteriores.
  • Naltrexona + Bupropiona, combinação que atua sobre centros cerebrais relacionados tanto à fome quanto ao comportamento alimentar, sendo particularmente útil para alguns pacientes com episódios de compulsão alimentar.

 

Lorcaserina – acabou sendo retirada do mercado

Outro medicamento que despertou grande interesse foi a lorcaserina, agonista seletivo dos receptores serotoninérgicos 5-HT2C.

Inicialmente considerada bastante promissora, acabou sendo retirada do mercado norte-americano em 2020 após análises sugerirem um possível aumento da incidência de alguns tipos de câncer em estudos de acompanhamento prolongado.

Até hoje, essa decisão continua sendo discutida na literatura científica, mas ilustra um princípio fundamental da farmacoterapia: a segurança em longo prazo é tão importante quanto a eficácia (FDA, 2020).

 

Apesar dos avanços, ainda faltava alguma coisa…

Todos esses medicamentos ajudaram milhares de pessoas. Mas havia um problema. Na maioria dos casos, a perda de peso permanecia modesta. Muitos pacientes continuavam frustrados. Era comum observar reduções de 5%, 8% ou 10% do peso corporal.

Esses resultados já produziam benefícios metabólicos importantes. Mas ainda estavam muito distantes das perdas frequentemente observadas após uma cirurgia bariátrica.

Foi então que a endocrinologia encontrou um caminho completamente diferente. Em vez de apenas reduzir artificialmente o apetite, pesquisadores passaram a estudar um sofisticado sistema hormonal que o próprio organismo utiliza diariamente para controlar fome, saciedade e metabolismo.

Esses hormônios receberam o nome de incretinas. Poucos imaginavam que eles iniciariam uma das maiores revoluções da história do tratamento da obesidade.

 

Resumo da Parte I

✔ Durante décadas, os médicos conviveram com resultados modestos no tratamento farmacológico da obesidade.

✔ A maior mudança científica foi reconhecer que a obesidade é uma doença crônica e multifatorial, e não uma simples falta de disciplina.

✔ Diversos medicamentos contribuíram para a evolução do tratamento, mas apresentavam eficácia limitada ou problemas de segurança.

✔ A verdadeira transformação começou quando a pesquisa voltou sua atenção para hormônios naturalmente produzidos pelo intestino: as incretinas.

✔ Sempre vale lembrar e enfatizar que os medicamente jamais substituem as mudanças comportamentais, um estilo de vida saudável.

Na Parte II, conheceremos os hormônios GLP-1 e GIP, entenderemos como nasceram as “canetinhas emagrecedoras” e veremos por que medicamentos como liraglutida, semaglutida, tirzepatida e, futuramente, retatrutida estão mudando a história do tratamento da obesidade.

 

Referências – Parte 1

FOOD AND DRUG ADMINISTRATION (FDA). FDA requests the withdrawal of the weight-loss drug Belviq (lorcaserin) from the market. Silver Spring: FDA, 2020.

JAMES, W. P. T. et al. Effect of sibutramine on cardiovascular outcomes in overweight and obese subjects. New England Journal of Medicine, Boston, v. 363, n. 10, p. 905–917, 2010.

RUBINO, D. et al. (em nome das principais sociedades internacionais de obesidade). Definition and diagnostic criteria of clinical obesity. The Lancet Diabetes & Endocrinology, 2025.

YANOVSKI, S. Z.; YANOVSKI, J. A. Long-term drug treatment for obesity: a systematic and clinical review. JAMA, Chicago, v. 311, n. 1, p. 74–86, 2014.

WEINTRAUB, M. Long-term weight control study: conclusions. Clinical Pharmacology & Therapeutics, v. 51, n. 5, p. 642–646, 1992.

Da “Medicina Natural” à “Medicina do Estilo de Vida”: a busca por uma medicina mais completa para um mundo cada vez mais doente

 

Uma reflexão sobre as diferentes denominações atribuídas à medicina, suas contribuições, limitações e o desafio de recuperar o foco na prevenção

 

Disclaimer

Este artigo apresenta uma reflexão histórica, científica e filosófica sobre diferentes modelos de cuidado em saúde. Não pretende substituir a medicina baseada em evidências nem defender práticas sem comprovação científica. O objetivo é discutir como diferentes movimentos dentro da medicina podem contribuir para uma visão mais ampla do ser humano, integrando os avanços extraordinários da ciência moderna com estratégias comprovadas de prevenção e promoção da saúde.

 

Introdução: uma medicina cada vez mais poderosa diante de um paradoxo

A medicina contemporânea vive uma época extraordinária. Nunca tivemos tantos recursos para diagnosticar e tratar doenças. Vacinas, antibióticos, cirurgias de alta complexidade, terapia oncológica, transplantes, medicina genômica e inúmeras outras tecnologias transformaram profundamente a história da humanidade.

A expectativa de vida aumentou em praticamente todo o mundo, doenças antes fatais tornaram-se controláveis e milhões de vidas são salvas diariamente graças ao avanço científico.

Entretanto, existe um paradoxo que merece reflexão: ao mesmo tempo em que a medicina se torna mais sofisticada, os sistemas de saúde enfrentam uma epidemia crescente de doenças crônicas relacionadas ao estilo de vida.

Obesidade, diabetes tipo 2, hipertensão arterial, doenças cardiovasculares, alguns tipos de câncer, doenças neurodegenerativas e transtornos relacionados ao estresse representam hoje a maior parcela da carga global de doenças.

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), as doenças não transmissíveis respondem por aproximadamente três quartos das mortes no mundo, sendo fortemente influenciadas por fatores comportamentais e ambientais, como alimentação inadequada, sedentarismo, tabagismo, consumo excessivo de álcool e sono insuficiente (WHO, 2023).

Esse cenário não representa um fracasso da medicina moderna. Pelo contrário: muitos pacientes vivem mais graças aos seus avanços. O ponto central é outro:

Será que a medicina precisa complementar sua extraordinária capacidade de tratar doenças já instaladas com uma capacidade igualmente forte de prevenir que elas apareçam?

Essa pergunta ajuda a compreender por que, ao longo da história, surgiram diferentes denominações para modelos médicos que buscavam recuperar uma visão mais ampla da saúde.

 

Os diferentes nomes atribuídos à medicina: mais que palavras, diferentes formas de compreender o cuidado

Ao longo dos séculos, a medicina recebeu diferentes qualificações: medicina doméstica, tradicional, naturista, alternativa, complementar, integrativa e, mais recentemente, medicina do estilo de vida.

Cada termo nasceu em determinado contexto histórico e expressou uma preocupação específica.

Embora alguns conceitos tenham sido posteriormente associados a práticas sem comprovação científica, muitos deles surgiram de uma percepção legítima:

a medicina não deveria existir apenas para combater doenças, mas também para ajudar as pessoas a permanecerem saudáveis.

 

Medicina doméstica: a saúde começa dentro de casa

Antes da medicina moderna estar amplamente disponível, grande parte dos cuidados acontecia no ambiente familiar.

A chamada medicina doméstica envolvia conhecimentos transmitidos entre gerações sobre:

  • alimentação;
  • higiene;
  • cuidados com ferimentos;
  • repouso;
  • observação dos sintomas;
  • uso tradicional de plantas medicinais.

Muitas práticas eram empíricas e algumas não resistiram ao avanço científico. Entretanto, havia uma ideia central que permanece atual: o ambiente em que vivemos influencia profundamente nossa saúde.

Hoje sabemos que fatores como alimentação familiar, padrões de sono, nível de atividade física, relações sociais e hábitos adquiridos na infância têm enorme impacto sobre o risco futuro de doenças.

 

 

Medicina tradicional: entre cultura, experiência e ciência

O termo medicina tradicional refere-se aos sistemas de cuidado desenvolvidos por diferentes povos ao longo da história, como a medicina tradicional chinesa, a medicina ayurvédica e diversos conhecimentos indígenas.

A Organização Mundial da Saúde reconhece sua importância cultural e social, mas ressalta que práticas terapêuticas devem ser avaliadas quanto à segurança, qualidade e eficácia (WHO, 2019).

A história demonstra que conhecimentos tradicionais podem gerar descobertas importantes. Diversos medicamentos modernos tiveram origem na observação da natureza.

Entretanto, a grande contribuição da ciência moderna foi criar um método capaz de separar:

  • aquilo que funciona;
  • aquilo que não funciona;
  • aquilo que ainda precisa ser estudado.

A medicina baseada em evidências não rejeita automaticamente conhecimentos históricos; ela os submete ao mesmo critério aplicado a qualquer intervenção médica.

 

“Medicina naturista”: o resgate da relação entre saúde e natureza

O movimento naturista ganhou força especialmente nos séculos XIX e XX, defendendo que muitos problemas de saúde estavam relacionados ao afastamento do ser humano de um modo de vida mais natural.

Entre seus princípios estavam:

  • alimentação menos processada;
  • contato com a natureza;
  • atividade física;
  • exposição adequada à luz solar;
  • moderação nos hábitos;
  • equilíbrio emocional.

Curiosamente, muitos desses conceitos, antes considerados alternativos, hoje encontram forte respaldo científico.

A ciência moderna confirmou que:

  • padrões alimentares baseados em alimentos minimamente processados reduzem risco cardiovascular;
  • exercícios são uma das intervenções mais eficazes para prevenção de doenças;
  • sono adequado é fundamental para saúde metabólica e mental;
  • relações sociais influenciam longevidade.

O problema surge quando conceitos legítimos de promoção da saúde são misturados com terapias sem comprovação ou quando tratamentos eficazes são substituídos por abordagens não validadas.

 

Medicina integrativa: uma proposta de ampliar o olhar sobre o paciente

O termo medicina integrativa ganhou espaço nas últimas décadas com a proposta de integrar a medicina convencional baseada em evidências com práticas complementares que demonstrassem segurança e benefício.

Segundo o National Center for Complementary and Integrative Health (NCCIH), a medicina integrativa enfatiza uma abordagem centrada no paciente, considerando aspectos físicos, emocionais, sociais e comportamentais da saúde.

Um dos méritos desse movimento foi lembrar algo essencial:

o paciente é mais do que uma doença ou um exame alterado.

A relação médico-paciente, a escuta, a empatia, a compreensão do contexto de vida e o envolvimento ativo da pessoa no próprio cuidado são elementos fundamentais da boa medicina.

Entretanto, existe um limite importante:

integrar não significa aceitar qualquer prática sem evidência.

A verdadeira integração deve unir aquilo que tem demonstração científica com uma visão mais humana e individualizada do cuidado.

 

O desafio ético e regulatório dos novos nomes da medicina

A criação de novos termos relacionados à medicina também trouxe uma discussão ética e legal relevante.

Expressões como “medicina integrativa”, “medicina funcional”, “medicina natural”, “medicina complementar” ou “medicina do estilo de vida” podem ter significados diferentes dependendo de quem as utiliza.

Do ponto de vista filosófico, esses termos podem representar propostas legítimas de convencional. Porém, existe uma questão regulatória importante: um novo nome não cria automaticamente uma nova especialidade médica reconhecida.

No Brasil e em muitos países, o reconhecimento de especialidades e áreas de atuação depende de critérios estabelecidos por órgãos reguladores, como conselhos profissionais e sociedades médicas.

Isso é importante para proteger a população, evitando que denominações aparentemente científicas sejam utilizadas para sugerir uma autoridade profissional ou uma validação que ainda não existe.

A discussão não deve ser: “medicina tradicional versus medicina moderna”.

A questão mais adequada é: quais práticas, independentemente do nome utilizado, possuem evidências suficientes de benefício, segurança e ética?

A medicina baseada em evidências não deve ser confundida com uma medicina limitada apenas a medicamentos e procedimentos. Pelo contrário, ela também reconhece o valor de intervenções como atividade física, alimentação saudável, sono adequado, controle do estresse e fortalecimento das relações sociais — desde que seus benefícios sejam demonstrados por estudos científicos.

 

Continua na Parte II

Na próxima parte abordaremos:

  • Medicina do Estilo de Vida: uma possível síntese entre ciência moderna e prevenção;
  • por que ela não deve ser vista como uma “medicina alternativa”, mas como uma área baseada em evidências;
  • o paradoxo dos hospitais cheios em uma era de grande avanço tecnológico;
  • a importância de ensinar saúde desde a infância;
  • o papel das escolas, governos e empresas;
  • os seis pilares da Medicina do Estilo de Vida;
  • perspectivas futuras de uma medicina mais preventiva, personalizada e humana.

 

Referências (ABNT) – Parte I

NATIONAL CENTER FOR COMPLEMENTARY AND INTEGRATIVE HEALTH (NCCIH). Complementary, alternative, or integrative health: what’s in a name? Bethesda: National Institutes of Health, 2021.

SACKETT, D. L. et al. Evidence based medicine: what it is and what it isn’t. BMJ, London, v. 312, n. 7023, p. 71–72, 1996.

WORLD HEALTH ORGANIZATION. WHO global report on traditional and complementary medicine 2019. Geneva: World Health Organization, 2019.

WORLD HEALTH ORGANIZATION. Noncommunicable diseases: key facts. Geneva: World Health Organization, 2023.

(Na Parte II, incluirei também referências mais específicas da Medicina do Estilo de Vida, incluindo o American College of Lifestyle Medicine, estudos de prevenção cardiovascular, Diabetes Prevention Program, Nurses’ Health Study, EPIC, PURE e trabalhos recentes sobre atividade física, sono, nutrição e longevidade.)

 

 

Da Medicina Natural à Medicina do Estilo de Vida: a busca por uma medicina mais completa para um mundo cada vez mais doente

Parte II – Medicina do Estilo de Vida: uma ponte entre a ciência moderna e a prevenção

 

Medicina do Estilo de Vida: uma nova denominação ou uma evolução necessária da medicina?

Entre todos os termos que surgiram nas últimas décadas, talvez nenhum represente melhor o desafio atual da medicina do que Medicina do Estilo de Vida (Lifestyle Medicine).

Diferentemente de movimentos que, em alguns momentos históricos, se posicionaram como alternativas ou contrapontos à medicina convencional, a Medicina do Estilo de Vida nasce dentro da própria ciência médica moderna.

Seu princípio central é simples:

muitas das doenças que mais matam e incapacitam atualmente são influenciadas por comportamentos e condições ambientais modificáveis; portanto, a medicina precisa aprender não apenas a tratar doenças, mas também a prevenir sua origem.

A definição adotada pelo American College of Lifestyle Medicine (ACLM) descreve a Medicina do Estilo de Vida como uma abordagem baseada em evidências que utiliza intervenções terapêuticas no estilo de vida para prevenir, tratar e, em alguns casos, reverter doenças crônicas relacionadas aos hábitos de vida (Lianov; Johnson, 2010).

Ela se fundamenta em seis pilares principais:

  1. Alimentação saudável
  2. Atividade física regular
  3. Sono adequado
  4. Controle do estresse
  5. Relacionamentos e conexão social
  6. Evitar substâncias de risco, como tabaco e excesso de álcool

Esses pilares não substituem medicamentos ou procedimentos quando necessários. Eles representam uma camada fundamental de cuidado que durante muito tempo recebeu atenção insuficiente.

 

O paradoxo moderno: hospitais cada vez melhores, populações cada vez mais doentes

Talvez uma das maiores contradições da medicina contemporânea seja esta: nunca tivemos hospitais tão avançados, especialistas tão capacitados e tecnologias tão sofisticadas; porém, a carga de doenças crônicas continua crescendo.

Esse fenômeno ocorre porque grande parte da medicina moderna foi construída sobre um modelo essencialmente reativo:

  • identificar uma doença;
  • descobrir seu mecanismo;
  • prescrever um tratamento;
  • controlar suas consequências.

Esse modelo é extraordinariamente eficiente para muitas situações: infarto, trauma, infecções graves, câncer, doenças autoimunes e emergências médicas.

Entretanto, ele possui limitações quando aplicado às doenças crônicas relacionadas ao estilo de vida.

Um paciente com diabetes tipo 2, hipertensão, obesidade ou doença cardiovascular frequentemente necessita de medicamentos, mas esses tratamentos geralmente atuam sobre as consequências metabólicas da doença.

A pergunta complementar deveria ser: por que essa doença apareceu e quais fatores podem ser modificados para interromper sua progressão?

Estudos epidemiológicos de grande escala demonstram que uma parcela expressiva das mortes prematuras poderia ser evitada por mudanças em fatores comportamentais, especialmente alimentação inadequada, tabagismo, sedentarismo e excesso de peso (GBD 2019 Risk Factors Collaborators, 2020).

 

A medicina do estilo de vida não é “medicina alternativa”

Um ponto importante precisa ser esclarecido.

A Medicina do Estilo de Vida não representa uma rejeição da medicina tradicional, dos medicamentos ou da tecnologia.

Na realidade, ela depende profundamente dos avanços científicos.

Sabemos hoje, por meio de grandes estudos populacionais e ensaios clínicos, que:

  • atividade física reduz mortalidade cardiovascular;
  • alimentação adequada reduz risco de doenças crônicas;
  • perda de peso pode melhorar diabetes tipo 2;
  • sono insuficiente aumenta risco metabólico;
  • controle do estresse influencia saúde mental e cardiovascular.

Essas informações não vêm de tradições ou opiniões pessoais, mas de décadas de pesquisa científica.

Um exemplo marcante é o Diabetes Prevention Program, um grande ensaio clínico que demonstrou que mudanças intensivas no estilo de vida reduziram em aproximadamente 58% o risco de progressão de pré-diabetes para diabetes tipo 2, resultado superior ao obtido com metformina naquele estudo (Knowler et al., 2002).

Esse tipo de evidência mostra que mudanças comportamentais podem ser verdadeiras intervenções terapêuticas.

 

O grande desafio: transformar conhecimento em comportamento

Se sabemos tanto sobre prevenção, por que continuamos enfrentando epidemias de doenças crônicas?

Porque conhecimento, isoladamente, não basta.

A saúde humana é influenciada por:

  • ambiente;
  • cultura;
  • educação;
  • economia;
  • acesso a alimentos saudáveis;
  • políticas públicas;
  • organização das cidades;
  • rotina de trabalho.

Não é suficiente dizer às pessoas: “coma melhor e faça exercício”.

É necessário criar condições para que escolhas saudáveis sejam possíveis.

Uma criança que cresce em um ambiente onde alimentos ultraprocessados são baratos e facilmente disponíveis, enquanto frutas e vegetais são caros ou pouco acessíveis, não está fazendo escolhas apenas individuais.

Da mesma forma, uma população submetida a jornadas excessivas de trabalho, privação de sono e ambientes urbanos pouco favoráveis à atividade física enfrenta barreiras estruturais.

A Medicina do Estilo de Vida, portanto, precisa dialogar com educação, políticas públicas e responsabilidade social.

 

A saúde deveria começar na escola

Um dos maiores equívocos históricos foi separar educação e saúde.

Durante décadas, ensinamos crianças a resolver equações, interpretar textos e compreender fenômenos científicos, mas dedicamos pouco espaço para ensinar:

  • como se alimentar;
  • como dormir melhor;
  • como lidar com emoções;
  • como prevenir doenças;
  • como o corpo humano funciona.

A educação em saúde deveria fazer parte da formação básica.

Ensinar crianças sobre hábitos saudáveis não significa criar uma geração preocupada com doenças, mas uma geração capaz de compreender que suas escolhas diárias moldam seu futuro.

Intervenções escolares envolvendo alimentação, atividade física e educação em saúde demonstram potencial para melhorar indicadores metabólicos e comportamentais, embora seus resultados dependam da qualidade e da continuidade dos programas (Brown et al., 2019).

 

O papel das políticas públicas e das empresas

A prevenção não pode depender exclusivamente da responsabilidade individual.

Governos têm papel essencial em:

  • incentivar ambientes urbanos que favoreçam atividade física;
  • melhorar qualidade da alimentação escolar;
  • regulamentar publicidade dirigida a crianças;
  • facilitar acesso a alimentos saudáveis;
  • estimular programas preventivos.

Empresas também podem contribuir criando ambientes de trabalho que valorizem:

  • pausas adequadas;
  • alimentação saudável;
  • saúde mental;
  • atividade física;
  • prevenção do burnout.

A promoção da saúde precisa deixar de ser vista apenas como uma responsabilidade do indivíduo e passar a ser compreendida como um compromisso coletivo.

 

O futuro: uma medicina mais integrada, personalizada e preventiva

A medicina do futuro provavelmente não será uma disputa entre “medicina moderna” e “medicina natural”.

Essa divisão é simplista.

O futuro tende a integrar:

  • medicina baseada em evidências;
  • genética;
  • inteligência artificial;
  • medicina personalizada;
  • farmacologia avançada;
  • tecnologias diagnósticas;
  • mudanças sustentáveis no estilo de vida.

A grande transformação será mudar a pergunta fundamental:

De: “Qual remédio trata esta doença?”

Para: “Como podemos evitar que esta doença apareça e como podemos ajudar cada pessoa a alcançar seu maior potencial de saúde?”

Essa mudança não reduz a importância dos médicos especialistas, dos hospitais ou das tecnologias. Pelo contrário: permite que esses recursos sejam direcionados para situações em que realmente são necessários.

 

Resumo das principais ideias

  1. A medicina moderna é uma das maiores conquistas da humanidade

Seus avanços salvaram milhões de vidas e continuam indispensáveis.

  1. Mas o modelo atual precisa ser complementado

Tratar doenças é fundamental, porém prevenir sua origem deve receber muito mais atenção.

  1. Muitos conceitos antigos tinham uma intuição correta

A medicina naturista, doméstica e tradicional lembravam que alimentação, ambiente e hábitos influenciam a saúde.

  1. O problema não é pensar diferente; é abandonar a ciência

Toda prática médica deve ser avaliada por segurança e eficácia.

  1. Novos nomes não criam automaticamente novas especialidades

Termos como medicina integrativa ou medicina do estilo de vida devem ser utilizados com responsabilidade ética e científica.

  1. A Medicina do Estilo de Vida representa uma evolução baseada em evidências

Ela reúne conhecimentos comprovados sobre alimentação, exercício, sono, estresse e relações humanas.

  1. A prevenção precisa começar cedo

Educação em saúde desde a infância pode ser uma das maiores intervenções de saúde pública do futuro.

 

Conclusão

A história da medicina é uma história de evolução contínua. Ao longo dos séculos, diferentes nomes surgiram para expressar uma mesma preocupação: compreender o ser humano de maneira mais ampla e preservar a saúde, não apenas combater doenças.

Alguns desses movimentos trouxeram contribuições valiosas; outros incorporaram práticas sem comprovação científica. O desafio contemporâneo é separar ideias úteis de conceitos sem evidência, mantendo a mente aberta sem abandonar o rigor científico.

A medicina moderna não precisa escolher entre tecnologia e humanidade, entre ciência e prevenção, entre hospitais sofisticados e hábitos saudáveis. Ela precisa integrar essas dimensões.

Talvez o grande aprendizado do nosso tempo seja reconhecer que uma medicina verdadeiramente avançada não é aquela que apenas constrói tratamentos cada vez mais complexos, mas aquela que também ensina pessoas, famílias e comunidades a adoecerem menos.

O futuro da medicina dependerá tanto de novos medicamentos quanto de novas atitudes.

E talvez a maior inovação médica das próximas décadas não seja apenas descobrir novas formas de curar doenças, mas criar uma cultura em que a saúde seja valorizada antes que a doença apareça.

 

Referências

BROWN, T. et al. Preventing obesity: evidence-based strategies for improving health outcomes. The Lancet, London, v. 394, n. 10202, p. 149–157, 2019.

GBD 2019 RISK FACTORS COLLABORATORS. Global burden of 87 risk factors in 204 countries and territories, 1990–2019: a systematic analysis for the Global Burden of Disease Study 2019. The Lancet, London, v. 396, n. 10258, p. 1223–1249, 2020.

KNOWLER, W. C. et al. Reduction in the incidence of type 2 diabetes with lifestyle intervention or metformin. New England Journal of Medicine, Boston, v. 346, n. 6, p. 393–403, 2002.

LIANOV, L.; JOHNSON, M. Physician competencies for prescribing lifestyle medicine. JAMA, Chicago, v. 304, n. 2, p. 202–203, 2010.

POLLAK, M. et al. Lifestyle medicine: a brief review of its history and current status. American Journal of Lifestyle Medicine, Thousand Oaks, v. 15, n. 1, p. 5–12, 2021.

RIPPE, J. M. Lifestyle medicine: the health-promoting power of daily habits and practices. American Journal of Lifestyle Medicine, Thousand Oaks, v. 14, n. 1, p. 3–6, 2020.

A Faxina Noturna do Cérebro: Conheça o sistema “GLINFÁTICO” e a valor de uma boa noite de sono

 

 

Imagine uma grande metrópole biológica. Durante o dia, milhões de trabalhadores (nossos neurônios) operam em ritmo acelerado, gerando energia, processando informações e, inevitavelmente, produzindo lixo metabólico. Se os serviços de limpeza urbana dessa cidade entrassem em greve perpétua, as ruas rapidamente se tornariam intransitáveis, sufocando a vida local. No cérebro humano, esse cenário de caos urbano equivale ao declínio cognitivo e à demência.

Por décadas, a medicina se perguntou como o cérebro — o órgão metabolicamente mais ativo do corpo — conseguia se livrar de seus próprios resíduos, já que ele é o único sistema do organismo que não possui vasos linfáticos tradicionais. A resposta para esse mistério começou a ser desvendada recentemente e atende pelo nome de sistema glinfático, uma complexa rede de saneamento biológico que só funciona com eficiência máxima quando estamos dormindo (NEDERGAARD, 2013).

 

O Mecanismo Oculto: Como Funciona o Sistema Glinfático?

O sistema glinfático é uma via de limpeza hidrodinâmica dependente das células da glia (daí o prefixo “g”), especificamente dos astrócitos. Essas células possuem canais especializados em suas extremidades, chamados de Aquaporina-4 (AQP4). Esses canais funcionam como comportas que permitem ao líquido cefalorraquidiano (LCR) — o fluido transparente que envolve o sistema nervoso — penetrar de forma pressurizada no tecido cerebral (JESSEN et al., 2015).

Conforme o LCR flui com força através dos espaços que circundam os vasos sanguíneos, ele “lava” o espaço entre os neurônios, misturando-se ao líquido intersticial. Esse fluxo arrasta consigo proteínas mal dobradas, detritos celulares e toxinas acumuladas durante o período em que estivemos acordados (TARASOFF-GRUBB; BRINKMAN; NEEDHAM, 2021).

No entanto, há um detalhe biológico crucial: essa engrenagem de limpeza é quase totalmente desligada enquanto estamos acordados.

 

Por que a Faxina exige o Sono Profundo?

A ciência moderna demonstra que o sistema glinfático opera com um aumento de até 60% em sua eficiência durante o sono, especialmente nas fases de ondas lentas, conhecidas como sono não-REM profundo (XIE et al., 2013).

Esse fenômeno ocorre devido a duas transformações físicas extraordinárias no cérebro adormecido:

  1. Abertura de Espaço: Sob a queda dos níveis de noradrenalina (o hormônio do alerta), as células cerebrais encolhem temporariamente, aumentando o espaço entre elas em cerca de 60%. Isso reduz a resistência física e permite que o líquido de limpeza flua livremente (HAUGLUND; NEDERGAARD, 2026).
  2. Pulsões Hemodinâmicas: Durante o sono profundo, o cérebro exibe ondas lentas de atividade elétrica que alteram ciclicamente o volume de sangue nos vasos. Cada vez que o sangue recua, ele cria uma força de sucção que impulsiona grandes ondas de líquido cefalorraquidiano para dentro do cérebro, otimizando o enxágue (FLINDT et al., 2024).

 

O Preço da Insônia: O Acúmulo de Proteínas Tóxicas

Quando nos privamos do sono ou sofremos de distúrbios crônicos como a apneia obstrutiva, interrompemos essa janela de manutenção. Estudos clínicos em humanos revelam que apenas uma noite de privação total de sono causa um aumento imediato e mensurável nos níveis cerebrais de duas proteínas altamente perigosas: a beta-amiloide e a tau (SHOKRI-KOJORI et al., 2018).

Essas proteínas são velhas conhecidas da medicina. O acúmulo e a aglomeração da beta-amiloide e da tau no tecido cerebral são as principais marcas patológicas da Doença de Alzheimer. Uma falência prolongada do sistema glinfático cria um ambiente permissivo onde essas proteínas tóxicas se solidificam, sufocam os neurônios e destroem as sinapses, desencadeando um ciclo vicioso de neurodegeneração (KAMAGATA et al., 2023).

Metanálises recentes consolidam que quase metade dos indivíduos com marcadores visíveis de disfunção glinfática sofre de algum distúrbio crônico do sono (HEIN et al., 2025). O sono inadequado deixa de ser apenas uma causa de cansaço diurno e passa a ser encarado como um dos fatores de risco modificáveis mais críticos para o desenvolvimento de demências na meia-idade e na velhice (ZHANG et al., 2026).

Proteger o sono não é um ato de indulgência ou preguiça; é uma necessidade biológica inegociável para a preservação da arquitetura cerebral.

A descoberta do sistema glinfático mudou radicalmente o paradigma da neurologia preventiva. O sono de qualidade não serve apenas para “descansar” a mente ou consolidar memórias; ele é o momento exato em que o cérebro se desintoxica. Ao garantirmos noites de sono consistentes e profundas, estamos ativando ativamente a engenharia molecular que limpa o nosso passado diário e protege o nosso futuro cognitivo.

 

Referências

FLINDT, L. R. et al. Hemodynamic driving forces of cerebrospinal fluid flow during non-REM sleep in the human brain. Nature Neuroscience, v. 27, n. 4, p. 712-723, 2024.

HAUGLUND, Natalie L.; NEDERGAARD, Maiken. Is glymphatic clearance the secret to restorative sleep? Brain, v. 149, n. 6, p. 1819–1831, June 2026.

HEIN, Z. M. et al. The Prevalence of Sleep Disorders in Populations with Glymphatic Dysfunction: A Systematic Review and Meta-Analysis. Life, v. 15, n. 4, p. 309-325, 2025.

JESSEN, Jeffrey R. et al. The Glymphatic System: A Beginner’s Guide. Neurochemical Research, v. 40, n. 12, p. 2583-2599, 2015.

KAMAGATA, K. et al. Association of MRI Indices of Glymphatic System With Amyloid Deposition and Cognition in Mild Cognitive Impairment and Alzheimer Disease. Neurology, v. 100, n. 8, p. e812-e824, 2023.

NEDERGAARD, Maiken. Garbage Truck of the Brain. Science, v. 340, n. 6140, p. 1529-1530, 2013.

SHOKRI-KOJORI, Ehsan et al. $\beta$-Amyloid accumulation in the human brain after one night of sleep deprivation. Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS), v. 115, n. 17, p. 4483-4488, 2018.

TARASOFF-CONWAY, J. M.; BRINKMAN, S.; NEEDHAM, E. J. The glymphatic system in central nervous system health and disease: past, present, and future. The Lancet Neurology, v. 20, n. 11, p. 945-958, 2021.

XIE, Lulu et al. Sleep drives metabolite clearance from the adult brain. Science, v. 342, n. 6156, p. 373-377, 2013.

ZHANG, X. et al. Glymphatic dysfunction across sleep disorders: a meta-analysis of DTI-ALPS studies. Frontiers in Neurology, v. 17, n. 2, p. 1789-1804, 2026.

QUANDO O ALIMENTO SAUDÁVEL É INDIGESTO

 

 

Por que algumas pessoas toleram refrigerantes e ultraprocessados, mas passam mal com feijão, verduras e alimentos integrais?

 

Introdução

Uma situação intrigante se repete diariamente nos consultórios.

O paciente relata consumir refrigerantes, doces, salgadinhos, biscoitos recheados, fast-food e diversos alimentos ultraprocessados sem grandes dificuldades digestivas. Porém, quando decide melhorar sua alimentação, passando a consumir saladas, legumes, feijões, frutas, cereais integrais e temperos naturais, surgem gases, estufamento, desconforto abdominal e alterações intestinais.

A conclusão frequentemente parece óbvia:

— “Doutor, acho que comida saudável não me faz bem.”

Mas será que essa conclusão está correta?

Talvez o alimento saudável não seja indigesto. Talvez o problema seja que ele chegou a um intestino treinado durante anos para processar outra coisa.

Nos últimos vinte anos, o avanço das pesquisas sobre o microbioma intestinal trouxe uma nova perspectiva para essa aparente contradição. Hoje sabemos que nosso intestino abriga uma complexa comunidade de microrganismos que participa ativamente da digestão, do metabolismo, da imunidade e até mesmo do comportamento alimentar (Gilbert et al., 2018; Fan e Pedersen, 2021).

Nesse contexto, a dificuldade inicial em tolerar determinados alimentos saudáveis pode representar menos uma intolerância verdadeira e mais uma fase de adaptação de um ecossistema intestinal moldado por anos de hábitos alimentares diferentes.

 

 

O intestino é um ecossistema

O trato gastrointestinal humano abriga trilhões de microrganismos pertencentes a milhares de espécies bacterianas.

Durante décadas, essas bactérias foram vistas apenas como habitantes passivos do intestino. Hoje sabemos que constituem um verdadeiro órgão metabólico adicional.

Entre suas funções destacam-se:

  • fermentação de fibras alimentares;
  • produção de vitaminas;
  • síntese de metabólitos bioativos;
  • modulação do sistema imunológico;
  • manutenção da barreira intestinal;
  • participação na comunicação entre intestino e cérebro.

Segundo Turnbaugh et al. (2009), o conjunto dos genes presentes no microbioma humano supera amplamente o genoma humano em capacidade metabólica, ampliando significativamente os recursos fisiológicos do organismo.

Em outras palavras, não somos apenas humanos: somos uma associação entre células humanas e uma vasta comunidade microbiana.

 

 

A microbiota come aquilo que nós comemos

Um dos conceitos mais importantes da ciência do microbioma é que a composição da microbiota intestinal não é fixa.

Ela muda conforme a alimentação.

David et al. (2014), em um estudo clássico publicado na revista Nature, demonstraram que mudanças alimentares importantes podem alterar significativamente a composição bacteriana intestinal em apenas 24 a 48 horas.

Dietas ricas em gordura e proteína animal favorecem determinados grupos bacterianos. Já dietas ricas em vegetais e fibras estimulam o crescimento de microrganismos especializados na fermentação desses substratos.

Assim, após anos consumindo poucos vegetais e poucas fibras, o organismo passa a abrigar uma microbiota menos adaptada à utilização eficiente desses alimentos.

Quando eles são introduzidos abruptamente, a resposta inicial pode ser desconfortável.

Não porque sejam prejudiciais.

Mas porque representam uma mudança ecológica importante dentro do intestino.

 

 

O paradoxo do feijão

Poucos alimentos ilustram tão bem esse fenômeno quanto o feijão.

Nutricionalmente, trata-se de um alimento extremamente rico em:

  • fibras;
  • proteínas vegetais;
  • minerais;
  • amido resistente;
  • oligossacarídeos fermentáveis.

Esses componentes servem de combustível para diversas bactérias intestinais benéficas.

Quando metabolizados adequadamente, dão origem aos chamados ácidos graxos de cadeia curta — especialmente acetato, propionato e butirato — substâncias associadas à saúde metabólica, à integridade intestinal e ao controle da inflamação (Makki et al., 2018).

Entretanto, em indivíduos pouco habituados ao consumo de fibras, a introdução rápida de grandes quantidades de feijão frequentemente resulta em aumento da fermentação intestinal, produção de gases e distensão abdominal.

O problema nem sempre é o feijão.

Frequentemente é a falta de adaptação do ecossistema intestinal à sua presença.

 

O eixo intestino-cérebro: quem influencia quem?

Um dos campos mais fascinantes da medicina moderna é o estudo do chamado eixo intestino-cérebro.

Hoje sabemos que existe uma comunicação contínua entre intestino e sistema nervoso central através de múltiplos mecanismos:

  • nervo vago;
  • sistema imunológico;
  • hormônios intestinais;
  • neurotransmissores;
  • metabólitos produzidos pelas bactérias intestinais.

Diversos estudos sugerem que a relação entre microbiota e comportamento alimentar ocorre em mão dupla.

Nós influenciamos a microbiota através da alimentação.

Mas a microbiota também pode influenciar nossas escolhas alimentares (Alcock, Maley e Aktipis, 2014; Zhang et al., 2021).

Embora muitos mecanismos permaneçam em investigação, há evidências de que produtos bacterianos podem interferir em vias relacionadas à recompensa, saciedade, desejo alimentar e humor.

Talvez isso ajude a explicar por que algumas pessoas sentem desejos intensos por determinados alimentos e encontram dificuldade em aderir a mudanças alimentares.

 

 

A crise de adaptação alimentar

Quando uma pessoa abandona uma dieta baseada em ultraprocessados e passa a consumir vegetais, frutas, leguminosas e cereais integrais, ocorre uma verdadeira reorganização ecológica no intestino.

Algumas populações bacterianas crescem.

Outras diminuem.

Outras desaparecem.

Esse processo pode gerar sintomas transitórios como:

  • gases;
  • estufamento;
  • borborigmos;
  • alteração do trânsito intestinal;
  • sensação de desconforto digestivo.

Muitos pacientes interpretam esses sintomas como prova de que a nova alimentação lhes faz mal.

Mas, frequentemente, podem representar justamente o processo de adaptação do microbioma à nova realidade alimentar.

 

 

O que acontece com as bactérias durante essa mudança?

Quando determinadas populações bacterianas diminuem, componentes estruturais desses microrganismos podem ser liberados no ambiente intestinal.

Entre os compostos mais estudados estão:

Componente Origem Potencial ação biológica
Lipopolissacarídeo (LPS) Bactérias Gram-negativas Ativação inflamatória via TLR4
Flagelina Flagelos bacterianos Ativação imune via TLR5
Peptidoglicanos Parede celular bacteriana Modulação da resposta imune
Lipoproteínas bacterianas Membranas bacterianas Estímulo imunológico
DNA bacteriano rico em CpG Material genético bacteriano Ativação da imunidade inata

É importante destacar que a participação desses componentes nos sintomas observados durante mudanças alimentares ainda está sendo estudada.

Embora existam bases biológicas plausíveis, a literatura científica atual ainda não permite afirmar que sejam os principais responsáveis pelos sintomas transitórios observados em todos os indivíduos.

 

 

FODMAPs: quando a exceção vira regra

Nos últimos anos, tornou-se extremamente popular atribuir qualquer desconforto digestivo aos chamados FODMAPs.

FODMAP é a sigla para:

Fermentable Oligosaccharides, Disaccharides, Monosaccharides And Polyols.

Trata-se de carboidratos fermentáveis presentes em diversos alimentos.

Entre eles:

  • feijão;
  • lentilha;
  • grão-de-bico;
  • cebola;
  • alho;
  • maçã;
  • pera;
  • trigo;
  • leite;
  • diversos vegetais e frutas.

O problema é que muitos desses alimentos estão entre os mais nutritivos da alimentação humana.

São ricos em:

  • fibras;
  • vitaminas;
  • minerais;
  • antioxidantes;
  • compostos bioativos;
  • prebióticos naturais.

Por isso, é importante compreender que alimento rico em FODMAP não significa alimento nocivo.

Pelo contrário.

Muitos desses alimentos servem de combustível para bactérias produtoras de metabólitos benéficos, incluindo o butirato (Makki et al., 2018).

 

 

A dieta FODMAP não deveria virar moda

A dieta pobre em FODMAPs foi desenvolvida originalmente para pacientes com Síndrome do Intestino Irritável (Gibson e Shepherd, 2010).

Posteriormente, estudos clínicos demonstraram sua eficácia na redução de sintomas em pacientes selecionados (Halmos et al., 2014; Staudacher et al., 2022).

Contudo, seus próprios criadores jamais propuseram essa estratégia como modelo universal de alimentação saudável.

Na verdade, trata-se de um protocolo dividido em etapas:

  1. Redução temporária dos FODMAPs.
  2. Reintrodução gradual dos alimentos.
  3. Personalização da dieta.

O objetivo nunca foi excluir permanentemente grandes grupos alimentares.

 

 

É possível reaprender a tolerar alimentos saudáveis?

Na prática clínica, a resposta frequentemente é sim.

Estudos demonstram que a microbiota apresenta notável capacidade de adaptação diante de mudanças alimentares sustentadas (David et al., 2014; Sonnenburg et al., 2016).

Por isso, muitos indivíduos inicialmente intolerantes a feijões, vegetais crus ou cereais integrais conseguem voltar a consumi-los após uma introdução gradual e progressiva.

Talvez seja mais apropriado falar em:

  • adaptação intestinal;
  • reabilitação alimentar;
  • dessensibilização digestiva progressiva.

Do que simplesmente assumir uma intolerância permanente.

Naturalmente, algumas condições exigem abordagens específicas, como:

  • doença celíaca;
  • intolerância à lactose;
  • alergias alimentares;
  • doenças inflamatórias intestinais;
  • algumas formas de síndrome do intestino irritável.

Mas, para muitos indivíduos, a exclusão definitiva de alimentos saudáveis pode ser desnecessária.

 

 

O risco da exclusão excessiva

A eliminação prolongada e indiscriminada de alimentos ricos em fibras pode gerar consequências indesejáveis.

Entre elas:

  • redução da diversidade alimentar;
  • menor ingestão de fibras;
  • diminuição da diversidade microbiana;
  • empobrecimento nutricional;
  • redução de bactérias potencialmente benéficas.

Staudacher et al. (2017) observaram que restrições prolongadas de FODMAPs podem reduzir populações de Bifidobacterium, um grupo frequentemente associado à saúde intestinal.

Isso não significa que a estratégia seja inadequada.

Significa apenas que deve ser utilizada com critério.

A classificação FODMAP pode ser extremamente útil como ferramenta diagnóstica e terapêutica temporária.

Mas não deve ser transformada em uma regra alimentar universal.

 

O erro mais comum: desistir cedo demais

Muitos pacientes abandonam a alimentação saudável exatamente durante a fase de adaptação.

Ouvimos frequentemente frases como:

  • “Salada me faz mal.”
  • “Feijão me dá gases.”
  • “Integral não funciona para mim.”

Em muitos casos, a conclusão é prematura.

Assim como músculos sedentários reclamam quando iniciamos exercícios físicos, uma microbiota pouco habituada às fibras também pode precisar de tempo para se adaptar.

A dificuldade inicial nem sempre representa um sinal de que o alimento seja inadequado.

Pode representar apenas o início do processo de transformação.

 

 

Como facilitar essa transição?

Algumas estratégias práticas podem ajudar:

  1. Aumentar as fibras gradualmente

Mudanças bruscas tendem a gerar mais sintomas.

  1. Manter boa hidratação

As fibras dependem de água para exercer adequadamente seus efeitos fisiológicos.

  1. Diversificar os vegetais

Maior diversidade alimentar favorece maior diversidade microbiana.

  1. Introduzir leguminosas progressivamente

Pequenas quantidades regulares costumam ser melhor toleradas do que grandes volumes esporádicos.

  1. Considerar alimentos fermentados

Iogurte, kefir e vegetais fermentados podem contribuir para a diversidade do microbioma.

  1. Ter paciência

O microbioma não muda da noite para o dia.

 

 

Conclusão

Quando alimentos saudáveis parecem “indigestos”, nem sempre estamos diante de uma intolerância verdadeira.

Frequentemente estamos observando as consequências de anos de adaptação a uma dieta pobre em fibras e rica em ultraprocessados.

A ciência do microbioma mostra que o intestino funciona como um ecossistema dinâmico, moldado diariamente pelas escolhas alimentares (David et al., 2014; Gilbert et al., 2018).

Ao mudar a dieta, não estamos apenas mudando o que colocamos no prato.

Estamos mudando quais microrganismos prosperam dentro de nós.

Por isso, os gases, estufamentos e desconfortos iniciais podem representar menos um sinal de fracasso e mais um sinal de transição.

Talvez o alimento saudável não seja indigesto.

Talvez ele esteja apenas chegando a um intestino que ainda está aprendendo a recebê-lo.

 

 

REFERÊNCIAS (ABNT)

ALCOCK, J.; MALEY, C. C.; AKTIPIS, C. A. Is eating behavior manipulated by the gastrointestinal microbiota? Evolutionary pressures and potential mechanisms. BioEssays, v. 36, n. 10, p. 940-949, 2014.

DAVID, L. A. et al. Diet rapidly and reproducibly alters the human gut microbiome. Nature, v. 505, n. 7484, p. 559-563, 2014.

DE FILIPPO, C. et al. Impact of diet in shaping gut microbiota revealed by a comparative study in children from Europe and rural Africa. Proceedings of the National Academy of Sciences, v. 107, n. 33, p. 14691-14696, 2010.

FAN, Y.; PEDERSEN, O. Gut microbiota in human metabolic health and disease. Nature Reviews Microbiology, v. 19, p. 55-71, 2021.

GIBSON, P. R.; SHEPHERD, S. J. Evidence-based dietary management of functional gastrointestinal symptoms: The FODMAP approach. Journal of Gastroenterology and Hepatology, v. 25, n. 2, p. 252-258, 2010.

GILBERT, J. A. et al. Current understanding of the human microbiome. Nature Medicine, v. 24, p. 392-400, 2018.

HALMOS, E. P. et al. A diet low in FODMAPs reduces symptoms of irritable bowel syndrome. Gastroenterology, v. 146, n. 1, p. 67-75, 2014.

MAKKI, K. et al. The impact of dietary fiber on gut microbiota in host health and disease. Cell Host & Microbe, v. 23, n. 6, p. 705-715, 2018.

SONNENBURG, E. D. et al. Diet-induced extinctions in the gut microbiota compound over generations. Nature, v. 529, p. 212-215, 2016.

STAUDACHER, H. M. et al. Long-term personalized low FODMAP diet improves symptoms and maintains luminal Bifidobacteria abundance in irritable bowel syndrome. Neurogastroenterology & Motility, v. 29, e12944, 2017.

STAUDACHER, H. M. et al. Mechanisms and efficacy of dietary FODMAP restriction in IBS. Nature Reviews Gastroenterology & Hepatology, v. 19, p. 256-266, 2022.

THURSBY, E.; JUGE, N. Introduction to the human gut microbiota. Biochemical Journal, v. 474, p. 1823-1836, 2017.

TURNBAUGH, P. J. et al. A core gut microbiome in obese and lean twins. Nature, v. 457, p. 480-484, 2009.

VALDES, A. M.; WALTER, J.; SEGAL, E.; SPECTOR, T. D. Role of the gut microbiota in nutrition and health. BMJ, v. 361, k2179, 2018.

ZHANG, Y. et al. Effects of gut microbiota on host appetite and eating behavior. Journal of Translational Medicine, v. 19, artigo 1, 2021.

A Medicina do Bom Senso

 

A história da medicina é marcada por uma tensão constante entre dois polos: de um lado, o rigor científico, acadêmico, metodológico; de outro, a observação prática, a experiência clínica, a tradição popular e ancestral. Frequentemente, essas duas dimensões foram tratadas como adversárias. No entanto, talvez a verdadeira maturidade da medicina esteja justamente na capacidade de equilibrá-las.

 

Hoje, valorizamos — com razão — os estudos científicos robustos: ensaios clínicos randomizados, duplo-cegos, multicêntricos, metanálises e revisões sistemáticas publicadas em periódicos respeitados como New England Journal of Medicine, The Lancet, JAMA e Nature. Essa estrutura metodológica salvou incontáveis vidas ao permitir separar tratamentos eficazes de ilusões terapêuticas. Como bem recorda o oncologista Siddhartha Mukherjee (2016), a medicina caminha constantemente na linha tênue entre a certeza estatística e a incerteza do paciente individual, exigindo que o método valide a intuição.

 

Entretanto, muitos conhecimentos atualmente considerados pilares da medicina começaram apenas como observações empíricas. Antes de haver evidências definitivas, houve médicos, curandeiros, populações tradicionais e observadores atentos percebendo padrões na realidade. Em muitos casos, a ciência veio depois para explicar aquilo que já vinha sendo observado na prática.

 

Por outro lado, também é verdade que inúmeras crenças populares, místicas ou modismos jamais resistiram ao teste da ciência. Algumas são apenas inócuas; outras, perigosas. Em nome de falsas promessas, muitos abandonam tratamentos eficazes, perdem tempo precioso e colocam a própria saúde em risco.

 

A questão central, portanto, não é escolher entre ciência e observação. O desafio está em distinguir, com equilíbrio e bom senso, aquilo que merece investigação séria, e separação criteriosa daquilo que pertence ao campo do folclore, do marketing ou do charlatanismo.

 


Quando a Observação Antecedeu a Ciência

Ignaz Semmelweis e a higiene das mãos

Um dos exemplos mais emblemáticos da história da medicina é o de Ignaz Semmelweis, médico húngaro do século XIX. Trabalhando em maternidades de Viena, ele percebeu que mulheres atendidas por médicos e estudantes morriam muito mais de febre puerperal do que aquelas atendidas por parteiras.

 

Sem compreender ainda a existência dos microrganismos — a teoria microbiana das doenças só seria consolidada depois por Louis Pasteur e Robert Koch — Semmelweis observou empiricamente que a lavagem cuidadosa das mãos reduzia drasticamente a mortalidade materna (SEMMELWEIS, 1861). Em 1847, ele instituiu o uso de solução clorada para higienização das mãos. A mortalidade despencou de cerca de 10–18% para menos de 2%.

 

Mesmo diante dos resultados, Semmelweis foi ridicularizado por parte da comunidade acadêmica da época. Muitos médicos se recusavam a aceitar que eles próprios pudessem estar transmitindo doenças. Hoje, a higiene das mãos é um dos maiores pilares da medicina moderna e da segurança hospitalar. A lição histórica é profunda: às vezes a observação correta precede a explicação científica.

 

James Lind e o escorbuto no mar

Um paralelo histórico crucial ocorreu um século antes, em 1747, com o médico naval escocês James Lind. Diante de tripulações inteiras dizimadas pelo escorbuto, Lind realizou aquele que é considerado um dos primeiros ensaios clínicos controlados da história (LIND, 1753). Ao testar empiricamente diferentes suplementos dietéticos em marinheiros enfermos, ele observou que aqueles que consumiam laranjas e limões recuperavam-se milagrosamente. A ciência demoraria quase duzentos anos para isolar a vitamina C e explicar o mecanismo biológico da síntese do colágeno, provando que a ação pragmática salvou frotas inteiras muito antes de a teoria bioquímica estar escrita.

Alexander Fleming e o acaso da Penicilina

Mesmo no século XX, o pragmatismo da observação moldou a virada da saúde global. Em 1928, Alexander Fleming não desenhou um estudo complexo para descobrir o primeiro antibiótico; ele simplesmente teve a atenção clínica aguçada para notar que um mofo contaminante (Penicillium notatum) havia criado um halo de inibição ao redor de uma cultura de estafilococos (FLEMING, 1929). Se tivesse descartado a placa bacteriana como um mero erro experimental de laboratório, a era dos antibióticos teria sido retardada por décadas.

O beribéri e o beneficiamento dos grãos

Outro exemplo fascinante vem da nutrição. No final do século XIX e início do século XX, populações asiáticas começaram a apresentar surtos importantes de beribéri, doença neurológica e cardiovascular grave. O médico holandês Christiaan Eijkman observou que galinhas alimentadas com arroz polido adoeciam, enquanto aquelas alimentadas com arroz integral permaneciam saudáveis (EIJKMAN, 1897).

 

Décadas depois, descobriu-se que o polimento removia a tiamina (vitamina B1), levando à deficiência nutricional. Hoje, parece óbvio que alimentos ultraprocessados e excessivamente refinados podem causar prejuízos metabólicos. Porém, durante muito tempo isso não era valorizado pela medicina acadêmica. Esse episódio antecipa discussões extremamente atuais sobre industrialização alimentar, empobrecimento nutricional e doenças crônicas modernas.

 

Quina, povos amazônicos e a malária

Os povos indígenas amazônicos utilizavam há séculos preparações à base da casca da quina (Cinchona spp.) para tratar febres intermitentes. Posteriormente, isolou-se dessa planta o quinino, um dos mais importantes antimaláricos da história. Hoje sabemos que o quinino atua diretamente contra o Plasmodium, parasita causador da malária.

 

Esse é um exemplo clássico de como conhecimentos tradicionais podem conter observações terapêuticas reais e valiosas. A ciência não “inventou” o efeito da quina; ela o validou, refinou e explicou biologicamente.

 

Acupuntura: do ceticismo à aceitação parcial

A acupuntura talvez seja um dos exemplos mais conhecidos de prática inicialmente rejeitada pelo Ocidente e posteriormente parcialmente incorporada à medicina baseada em evidências. Embora muitos conceitos tradicionais chineses — como “fluxo de energia vital” — não tenham comprovação científica objetiva, diversos estudos modernos demonstraram benefício da acupuntura para algumas condições específicas, sobretudo dor crônica, lombalgia, osteoartrite e náuseas.

 

Revisões sistemáticas publicadas em periódicos de alto impacto sugerem que, embora parte do efeito possa envolver placebo e fatores contextuais, existem benefícios clínicos reais em determinadas situações (ZHOU et al., 2021). Isso ilustra um ponto importante: uma prática pode conter elementos simbólicos ou tradicionais não comprovados, mas ainda assim possuir componentes fisiológicos úteis.

 


O Estilo de Vida e a Microbiota: Os Maiores Exemplos Modernos

Talvez nenhum tema represente melhor o conflito entre academicismo e pragmatismo do que o estilo de vida. Durante grande parte do século XX, alimentação, sono, manejo do estresse, atividade física e vínculos sociais foram subestimados pela medicina convencional. A ênfase estava predominantemente em medicamentos, procedimentos e intervenções hospitalares.

 

Hoje, porém, há enorme quantidade de evidências demonstrando que o estilo de vida influencia profundamente doenças cardiovasculares, diabetes tipo 2, obesidade, hipertensão, depressão, demência e até certos tipos de câncer (ORNISH, 2019).

 

Açúcar e ultraprocessados: décadas de atraso científico

Durante décadas, gorduras saturadas foram tratadas como principal vilã cardiovascular, enquanto o impacto do açúcar e dos ultraprocessados recebeu menos atenção. Documentos históricos revelados no JAMA Internal Medicine mostraram que setores da indústria açucareira financiaram pesquisas e influenciaram narrativas científicas minimizando os efeitos do açúcar (KEARNS; SCHMIDT; GLANTZ, 2016).

 

Hoje, grandes estudos associam o consumo excessivo de ultraprocessados ao aumento de mortalidade, obesidade, doenças cardiovasculares e distúrbios metabólicos (ALLEN et al., 2018; NATURE REVIEWS CARDIOLOGY, 2024). O estudo experimental de Hall et al. (2019), publicado no Cell Metabolism, demonstrou que dietas ultraprocessadas aumentam espontaneamente a ingestão calórica e o ganho de peso. Mais recentemente, revisões amplas reforçaram o nexo causal entre o consumo desses produtos e o declínio geral da saúde (BMJ MEDICINE, 2024; LANE et al., 2024). Ou seja: observações clínicas e populacionais de defensores da comida de verdade já existiam há décadas antes de haver consenso acadêmico robusto (POLLAN, 2008).

 

O ressurgimento da saúde intestinal e da microbiota

O campo da gastroenterologia e da saúde sistêmica oferece um exemplo contemporâneo avassalador: a microbiota intestinal. Por gerações, a medicina ocidental encarou o cólon primariamente como um órgão de excreção e os micróbios residentes como comensais irrelevantes ou patógenos em potencial. Enquanto isso, tradições médicas orientais e médicos naturalistas europeus do início do século XX insistiam que “a morte e a saúde começam no intestino”.

A virada pragmática veio com o ressurgimento e a validação do Transplante de Microbiota Fecal (TMF). Inicialmente vista com repulsa e ceticismo pela academia, a transferência de matéria fecal de um doador saudável para o trato gastrointestinal de um paciente enfermo provou-se o tratamento mais eficaz e resolutivo contra a infecção recorrente por Clostridioides difficile, superando amplamente os antibióticos de última geração (BAUNWALL et al., 2024). A prática empírica forçou a ciência a investigar os mecanismos de simbiose bacteriana, abrindo as portas para uma nova era que conecta o microbioma à imunidade, à cicatrização e ao eixo intestino-cérebro (CRYAN et al., 2025).

Exercício físico: um “remédio” negligenciado

Hoje sabemos que exercício físico reduz mortalidade, melhora resistência insulínica, diminui inflamação e reduz risco cardiovascular. Mas durante muito tempo a atividade física era vista quase como detalhe secundário pela prática médica padrão.

 

Estudos contemporâneos mostram que o sedentarismo rivaliza com o tabagismo como fator de risco populacional (WORLD HEALTH ORGANIZATION, 2020). A publicação do Lancet Physical Activity Series consolidou o entendimento do exercício como uma das intervenções médicas mais poderosas e custo-efetivas existentes.

 

Sono e saúde mental

O mesmo ocorreu com o sono. A privação crônica de sono, antes banalizada ou até romantizada em ambientes acadêmicos e corporativos, hoje é diretamente associada a obesidade, diabetes, depressão, demência, acidentes cardiovasculares e redução da imunidade (JAMA, 2023).

 

O estresse psicossocial seguiu a mesma trajetória. O que antes era rotulado de forma vaga como “nervosismo” ou “fator psicológico” ganhou contornos neuroendócrinos rígidos. O trabalho do neurobiologista Robert Sapolsky (2004) demonstrou de forma brilhante como o estresse crônico destrói fisicamente o hipocampo, eleva cronicamente o cortisol e desregula o sistema imune. A medicina moderna vem redescobrindo algo que tradições antigas já intuíam: corpo e mente não funcionam isoladamente.

 


O Outro Lado: Quando o “Natural” se Torna Armadilha

Se por um lado o academicismo excessivo pode ignorar observações importantes, o extremo oposto também é perigoso. Nem toda tradição é verdadeira. Nem todo relato é evidência. Nem todo “natural” é seguro.

 

Existe enorme diferença entre uma observação promissora que merece investigação e uma crença transformada irresponsavelmente em “tratamento”. É justamente nesse espaço cinzento que florescem o charlatanismo, os modismos e as falsas promessas.

 

O Problema do Charlatanismo e das “Curas Milagrosas”

O câncer como exemplo extremo

Talvez nenhum campo ilustre melhor os perigos do abandono da medicina baseada em evidências do que o câncer. Existem inúmeros relatos de pacientes que abandonam tratamentos comprovadamente eficazes — cirurgia, quimioterapia, imunoterapia ou radioterapia — em busca de “curas naturais”, protocolos alternativos ou substâncias milagrosas divulgadas sem qualquer escrúpulo na internet.

 

Um estudo contundente publicado no Journal of the National Cancer Institute mostrou que pacientes que optaram exclusivamente por terapias alternativas apresentaram uma mortalidade significativamente maior e uma sobrevida drasticamente reduzida (JOHNSON et al., 2018). É importante compreender uma nuance fundamental: o estilo de vida saudável, alimentação adequada, exercício, suporte emocional e espiritualidade podem ser aliados extremamente importantes no enfrentamento da doença (SERVAN-SCHREIBER, 2009). Mas isso significa somar, e nunca substituir tratamentos cientificamente eficazes por promessas sem comprovação. Confundir apoio complementar com substituição terapêutica pode custar vidas.

 

Queda de cabelo, hormônios e modismos

O mesmo fenômeno ocorre em situações menos graves, porém muito frequentes no cotidiano clínico. Na busca por estética, longevidade ou performance instantânea, proliferam protocolos sem qualquer base em evidências científicas sólidas: megadoses de suplementos, hormônios sem indicação clínica real, “soros milagrosos”, antioxidantes intravenosos, terapias “detox” comerciais, biohacking sem critério, modismos capilares e baterias de exames excessivos e desnecessários.

 

Frequentemente, vende-se sofisticação mercantilizada enquanto o básico é negligenciado: sono adequado, alimentação minimamente saudável, manejo do estresse, atividade física regular, abandono do tabagismo, vínculos afetivos e saúde mental. Muitas vezes, o indivíduo gasta fortunas em suplementos exóticos enquanto dorme mal, vive em sedentarismo e mantém uma dieta baseada em ultraprocessados.

 


Interesses Econômicos: Um Debate Necessário

Outro ponto delicado — mas de debate obrigatório — envolve os interesses financeiros na produção do conhecimento científico. Grandes ensaios clínicos custam milhões ou bilhões de dólares. Naturalmente, há maior incentivo econômico para financiar pesquisas de produtos patenteáveis, passíveis de gerar alta lucratividade global.

 

A tirzepatida e as novas classes de agonistas de receptores de incretinas são ótimos exemplos contemporâneos. Trata-se de medicações extremamente promissoras para o tratamento da obesidade e do diabetes, com resultados robustos e transformadores publicados no New England Journal of Medicine (2022). Isso não desmerece o medicamento nem o mérito das pesquisas. Ao contrário: os dados são impressionantes e redefiniram as diretrizes metabólicas globais.

 

Mas também é uma verdade de mercado que haverá infinitamente mais recursos para estudar um fármaco sintético patenteável do que uma mudança comportamental ou um fitoterápico simples, barato e sem retorno financeiro expressivo. Esse viés econômico influencia diretamente as prioridades de pesquisa no mundo inteiro. Consequentemente, algumas terapias tradicionais ou de estilo de vida úteis podem permanecer pouco estudadas por escassez de fomento, enquanto certos produtos de alto custo recebem imensa visibilidade comercial. Reconhecer isso não significa rejeitar a ciência; significa compreender que ela é executada dentro de sistemas econômicos complexos e reais.

 


O Risco Atual: Transformar Tudo em “Performance”

Vivemos uma época em que saúde frequentemente é confundida com otimização extrema e monitoramento neurótico. Exames genéticos sem indicação clara, painéis intermináveis de biomarcadores comerciais, protocolos intravenosos contínuos e “hacks” de longevidade são vendidos agressivamente como símbolos de status e modernidade.

 

Entretanto, muitas dessas estratégias possuem evidências frágeis, conflitantes ou insuficientes. Um exemplo clássico e recorrente são os testes de intolerância alimentar baseados em anticorpos IgG. Diversas sociedades médicas internacionais de alergia e imunologia afirmam categoricamente que a presença de IgG para alimentos reflete apenas memória de exposição e tolerância imunológica, não comprovando intolerância clínica, além de gerar restrições alimentares severas e desnecessárias (WORLD ALLERGY ORGANIZATION, 2020).

 

Da mesma forma, o uso indiscriminado de vitaminas intravenosas e antioxidantes em “cocktails de imunidade” carece de respaldo robusto para a população saudável, podendo, em última análise, sobrecarregar os sistemas de depuração do organismo. A busca incessante por intervenções sofisticadas e caras frequentemente obscurece aquilo que realmente produz o maior impacto na longevidade real: a simplicidade do básico feito com constância.

 


O Papel do Médico Prudente

A boa medicina talvez esteja justamente na prudência. Nem o dogmatismo acadêmico cego, nem o misticismo ingênuo. O profissional sério precisa respeitar a ciência robusta, reconhecer as limitações do conhecimento atual, manter a abertura intelectual para ouvir o paciente, observar atentamente a realidade clínica e evitar a arrogância do saber absoluto, mas também rechaçar firmemente promessas irresponsáveis.

 

A observação prática pode e deve gerar hipóteses valiosas. Mas hipóteses precisam ser testadas de forma honesta. Ao mesmo tempo, o clínico experiente sabe que a ausência de evidência estatística em um dado momento não significa automaticamente evidência de ausência de efeito clínico. Esse equilíbrio é difícil — e exatamente por isso tão precioso.

 


Conclusão

A história da medicina ensina, acima de tudo, humildade. Diversas verdades atuais nasceram da simples e atenta observação humana. Práticas inicialmente ridicularizadas por seus pares foram posteriormente validadas e incorporadas pela ciência. Por outro lado, incontáveis crenças populares e modismos jamais resistiram a uma investigação metodológica séria.

 

A medicina amadurece quando consegue unir o rigor científico, a experiência clínica, a observação cuidadosa, a sabedoria prática e o bom senso. Nem todo conhecimento ancestral é charlatanismo; nem toda inovação tecnológica vistosa representa um avanço real. O verdadeiro desafio é discernir.

 

A ciência continua sendo nossa ferramenta mais segura contra ilusões terapêuticas e vieses cognitivos. Mas ela também deve permanecer aberta à investigação honesta daquilo que a nossa atual capacidade técnica ainda não compreende plenamente.

 

A MAIOR LIÇÃO permanece surpreendentemente simples: o essencial continua sendo essencial. Dormir bem. Comer melhor. Mover o corpo. Cultivar vínculos profundos. Reduzir os excessos. Evitar fanatismos e desconfiar de promessas milagrosas de gratificação instantânea. Em uma época fascinada por extremos e respostas rápidas, o equilíbrio continua sendo a forma mais sofisticada de sabedoria.

 


Referências

ALLEN, N. B. et al. Ultra-processed food consumption and cancer risk. BMJ, Londres, v. 360, p. k322, 2018.

 

BAUNWALL, S. M. D. et al. Faecal microbiota transplantation for recurrent Clostridioides difficile infection: an updated systematic review and meta-analysis. The Lancet Gastroenterology & Hepatology, v. 9, n. 1, p. 41-53, 2024.

BMJ MEDICINE. Ultra-processed food exposure and adverse health outcomes: systematic review and meta-analysis. BMJ, Londres, v. 384, p. e077310, 2024.

 

CRYAN, J. F. et al. The microbiota-gut-brain axis: from pathogenesis to therapeutics. Nature Reviews Neuroscience, v. 26, n. 3, p. 145-162, 2025.

EIJKMAN, C. Polyneuritis in chickens. Virchows Archiv, v. 148, p. 523–532, 1897.

 

FLEMING, A. On the antibacterial action of cultures of a penicillium, with special reference to their use in the isolation of B. influenzae. British Journal of Experimental Pathology, v. 10, n. 3, p. 226-236, 1929.

HALL, K. D. et al. Ultra-processed diets cause excess calorie intake and weight gain: an inpatient randomized controlled trial of ad libitum food intake. Cell Metabolism, v. 30, n. 1, p. 67-77, 2019.

 

JAMA. Sleep duration, quality, and cardiometabolic disease risk. JAMA, Chicago, v. 330, n. 14, p. 1320-1322, 2023.

 

JOHNSON, S. B. et al. Use of alternative medicine for cancer and its impact on survival. Journal of the National Cancer Institute, Oxford, v. 110, n. 1, p. 121-124, 2018.

 

KEARNS, C. E.; SCHMIDT, L. A.; GLANTZ, S. A. Sugar industry and coronary heart disease research: a historical analysis of internal industry documents. JAMA Internal Medicine, Chicago, v. 176, n. 11, p. 1680-1685, 2016.

 

LANCET PHYSICAL ACTIVITY SERIES. Physical activity and global health: progress and challenges. The Lancet, Londres, v. 380, p. 247-257, 2012.

 

LANE, M. M. et al. Ultra-processed food exposure and health outcomes: umbrella review of epidemiological meta-analyses. BMJ, v. 384, p. e077310, 2024.

LIND, J. A treatise on the scurvy: in three parts. Containing an inquiry into the nature, causes, and cure, of that disease. Edinburgh: Sands, Murray and Cochran, 1753.

MUKHERJEE, S. The Laws of Medicine: Field Notes from an Uncertain Science. New York: Simon & Schuster, 2016.

NATURE REVIEWS CARDIOLOGY. Ultra-processed foods and cardiometabolic disease: mechanisms and epidemiologic evidence. Nature Reviews Cardiology, Londres, v. 21, p. 89-101, 2024.

 

NEW ENGLAND JOURNAL OF MEDICINE. Tirzepatide once weekly for obesity treatment. New England Journal of Medicine, Boston, v. 387, n. 3, p. 205-216, 2022.

 

ORNISH, D. Undo It!: How Simple Lifestyle Changes Can Reverse Most Chronic Diseases. New York: Ballantine Books, 2019.

 

POLLAN, M. In Defense of Food: An Eater’s Manifesto. New York: Penguin Press, 2008.

 

SAPOLSKY, R. M. Why Zebras Don’t Get Ulcers: The Acclaimed Guide to Stress, Stress-Related Diseases, and Coping. 3. ed. New York: Henry Holt and Co., 2004.

SEMMELWEIS, I. The etiology, concept and prophylaxis of childbed fever. Madison: University of Wisconsin Press, 1861.

 

SERVAN-SCHREIBER, D. Anticancer: A New Way of Life. New York: Viking, 2009.

 

WORLD ALLERGY ORGANIZATION. Position paper on food IgG testing: clinical irrelevance in allergy diagnostics. World Allergy Organization Journal, Milwaukee, v. 13, n. 10, p. 100463, 2020.

 

WORLD HEALTH ORGANIZATION. WHO guidelines on physical activity and sedentary behaviour. Geneva: WHO, 2020.

 

ZHOU, Y. et al. Acupuncture for chronic pain: systematic review and meta-analysis of randomized controlled trials. JAMA, Chicago, v. 326, n. 22, p. 2275-2284, 2021.

O Lado Sombrio da Testosterona: Como o Uso Desnecessário Destrói o Intestino e Ameaça o Coração

Introdução: A Busca Cega pela Performance

A sociedade contemporânea vive uma “epidemia de otimização”. A testosterona, antes vista apenas como um hormônio essencial para a saúde masculina, foi elevada ao status de panaceia para o cansaço, a baixa libido e a busca pelo corpo perfeito. No entanto, o que muitos usuários ignoram é que o corpo humano funciona em um equilíbrio homeostático extremamente refinado. Ao introduzir doses de testosterona sem uma deficiência clínica real, o indivíduo não está apenas “suplementando” um hormônio, mas sim hackeando negativamente sistemas vitais, começando pela microbiota intestinal — o núcleo da nossa imunidade e metabolismo.

 

A Disbiose Intestinal e a Inflamação Sistêmica

O intestino abriga trilhões de microrganismos que regulam desde o humor até a saúde das artérias. Estudos de 2025 e 2026 confirmam que níveis excessivos de andrógenos alteram drasticamente a proporção entre bactérias benéficas (como Bifidobacterium) e patogênicas (Harris; Bajaj, 2025).

Essa alteração, chamada disbiose, leva ao enfraquecimento das “tight junctions” (proteínas que mantêm as células intestinais unidas). O resultado é o fenômeno do intestino gotejante (leaky gut), onde fragmentos de bactérias (LPS) caem na circulação sanguínea. Esse processo é o gatilho para uma inflamação crônica que ataca o endotélio vascular e predispõe o indivíduo a doenças autoimunes e metabólicas (Wang et al., 2026; Smith et al., 2024).

 

O Perigo Oculto: Testosterona e Câncer de Cólon

Uma das frentes mais recentes de investigação científica relaciona o uso suprafisiológico de testosterona ao aumento do risco de câncer colorretal. O mecanismo é duplo:

  • Proliferação Celular: A testosterona elevada estimula vias de sinalização de crescimento (como a via IGF-1), que podem acelerar a divisão de células mutantes no epitélio intestinal (Chen et al., 2025).
  • Metabólitos Bacterianos: A disbiose causada pelo hormônio altera a produção de ácidos graxos de cadeia curta (como o butirato), que são protetores contra o câncer. Sem essa proteção, o ambiente intestinal torna-se pró-carcinogênico (Liu; Zhang, 2026).

Estudos observacionais sugerem que homens com níveis de andrógenos cronicamente acima do normal apresentam pólipos intestinais mais agressivos (Jordan et al., 2024).

 

A “Moda” dos Implantes: Um Erro de Dose e Controle

Atualmente, vivemos o auge dos implantes hormonais, popularmente chamados de “chips”. Vendidos como soluções de luxo e conveniência, esses dispositivos representam um risco farmacológico considerável:

  • Dificuldade de Modulação: Uma vez inserido o “pellet”, não é possível “desligar” a liberação. Se o paciente apresentar efeitos colaterais como policitemia (sangue muito grosso), acne grave ou agressividade, o médico não consegue ajustar a dose imediatamente, ao contrário das terapias em gel ou injetáveis de curta duração (Thompson, 2026).
  • Liberação Errática: A taxa de liberação depende de fatores individuais como fluxo sanguíneo local e atividade física, o que gera picos e vales hormonais imprevisíveis (Miller et al., 2025).
  • O Custo da Ilusão: Além do alto valor financeiro, o preço biológico é o bloqueio do eixo HPT (hipotálamo-hipófise-testículo), muitas vezes levando à infertilidade irreversível e atrofia testicular em jovens que não precisavam do tratamento (Kowalik, 2026).

 

Riscos Cardiovasculares e Hematológicos

O uso de doses suprafisiológicas aumenta a produção de glóbulos vermelhos, tornando o sangue mais viscoso. Esse quadro, somado à inflamação intestinal já mencionada, cria o cenário ideal para eventos trombóticos.

  • Hipertrofia Cardíaca: O coração, como músculo, também responde à testosterona, mas de forma patológica, endurecendo suas paredes e perdendo a capacidade de bombear sangue eficientemente (Borowiec, 2026; Davis et al., 2024).

 

Resumo

A testosterona é um hormônio vital, mas sua versão sintética usada por estética ou “performance” é um veneno metabólico silencioso. Ela desregula a microbiota intestinal, aumenta a permeabilidade do intestino, eleva o risco de tumores de cólon e sobrecarrega o sistema cardiovascular. A via de implantes (chips), embora lucrativa e popular, é tecnicamente falha por impedir o controle fino da dosagem, transformando o paciente em um refém de seus próprios níveis hormonais.

 

Referências

BOROWIEC, A. Impact of Anabolic–Androgenic Steroid Abuse on the Cardiovascular System: Molecular Mechanisms and Clinical Implications. International Journal of Molecular Sciences, v. 26, n. 22, p. 11037, 2026.

CHEN, L. et al. Androgen receptor signaling and its role in colorectal cancer progression. Journal of Clinical Oncology Research, v. 14, n. 3, p. 245-259, 2025.

DAVIS, R. et al. Cardiovascular mortality in young adults using performance-enhancing drugs: a 10-year retrospective study. The Lancet Healthy Longevity, v. 5, n. 1, p. 12-20, 2024.

EIMAN, L. et al. Gut dysbiosis in cancer immunotherapy: microbiota-mediated resistance and emerging treatments. Frontiers in Immunology, v. 16, p. 1575452, 2025.

GARCIA, M.; LOPEZ, S. Endocrine disruptors and the gut microbiome: a new frontier in metabolic health. Nature Reviews Endocrinology, v. 21, p. 88-102, 2025.

HARRIS, S. C.; BAJAJ, J. S. Interaction of the Gut-Liver-Brain Axis and the sterolbiome with sexual dysfunction in patients with cirrhosis. Gut Microbes, v. 17, n. 1, 2025.

JORDAN, B. et al. Elevated serum testosterone and the risk of adenomatous polyps: a cross-sectional study. Gastroenterology Today, v. 33, n. 2, p. 112-118, 2024.

KOWALIK, K. Non-medical use of exogenous testosterone and anabolic–androgenic substances in young men: health, psychological, and fertility consequences. Frontiers in Endocrinology, v. 17, p. 1781416, 2026.

LIU, Y.; ZHANG, X. Microbiota-derived metabolites and colorectal cancer: The role of androgenic influence. Cell Host & Microbe, v. 34, n. 5, p. 601-615, 2026.

MILLER, J. et al. Pharmacokinetics of subcutaneous testosterone pellets: variability and clinical challenges. Journal of Endocrine Practice, v. 31, n. 4, p. 442-450, 2025.

SMITH, A. et al. Intestinal permeability and systemic inflammation in anabolic steroid users. European Journal of Applied Physiology, v. 124, n. 8, p. 2105-2118, 2024.

THOMPSON, D. The rise of hormone pellets: Clinical gold mine or medical minefield? New England Journal of Medicine – Perspective, v. 394, n. 12, p. 1102-1105, 2026.

WANG, Y. et al. Gut microbiota metabolic reprogramming drives the development of metabolic diseases in the host. PMC Metabolism, v. 15, n. 4, 2026.

XU, H. From testosterone to 11-oxygenated androgens: Integrating endocrine biology, nutrition, and systemic health. The Innovation, v. 7, n. 4, 2026.

ZHAO, Q. et al. Impact of high-dose androgens on the bile acid pool and gut microbial diversity. Journal of Steroid Biochemistry and Molecular Biology, v. 250, 106543, 2025.

 

English Version

The Dark Side of Testosterone: How Unnecessary Use Destroys the Gut and Threatens the Heart

Introduction: The Blind Pursuit of Performance Contemporary society lives in an “optimization epidemic.” Testosterone, once seen only as an essential hormone for male health, has been elevated to the status of a panacea for fatigue, low libido, and the quest for the perfect body. However, what many users ignore is that the human body functions in an extremely refined homeostatic balance. By introducing testosterone doses without a real clinical deficiency, the individual is not just “supplementing” a hormone, but negatively hacking vital systems, starting with the gut microbiota — the core of our immunity and metabolism.

 

  1. Gut Dysbiosis and Systemic Inflammation The gut houses trillions of microorganisms that regulate everything from mood to arterial health. Studies from 2025 and 2026 confirm that excessive androgen levels drastically alter the ratio between beneficial bacteria (such as Bifidobacterium) and pathogens (Harris; Bajaj, 2025). This alteration, called dysbiosis, leads to the weakening of “tight junctions.” The result is the leaky gut phenomenon, where bacterial fragments (LPS) enter the bloodstream. This process triggers chronic inflammation that attacks the vascular endothelium and predisposes the individual to autoimmune and metabolic diseases (Wang et al., 2026; Smith et al., 2024).

 

  1. The Hidden Danger: Testosterone and Colon Cancer Recent scientific investigation relates supraphysiological testosterone use to an increased risk of colorectal cancer. The mechanism is twofold:
  • Cell Proliferation: Elevated testosterone stimulates growth signaling pathways (such as IGF-1), which can accelerate the division of mutant cells in the intestinal epithelium (Chen et al., 2025).
  • Bacterial Metabolites: Hormonally induced dysbiosis alters the production of short-chain fatty acids (like butyrate), which protect against cancer. Without this protection, the intestinal environment becomes pro-carcinogenic (Liu; Zhang, 2026).

 

  1. The “Implant” Fad: An Error in Dosage and Control Currently, we are at the peak of hormonal implants, popularly called “chips.” Sold as luxury solutions, these devices pose considerable pharmacological risks:
  • Modulation Difficulty: Once the pellet is inserted, it is impossible to “turn off” the release. If the patient presents side effects like polycythemia or aggression, the physician cannot adjust the dose immediately (Thompson, 2026).
  • Erratic Release: The release rate depends on individual factors like local blood flow, creating unpredictable hormonal peaks (Miller et al., 2025).
  • The Price of Illusion: Beyond the financial cost, the biological price is the blockage of the HPT axis, often leading to irreversible infertility (Kowalik, 2026).

 

  1. Cardiovascular and Hematological Risks Supraphysiological doses increase red blood cell production, making the blood more viscous. This, added to gut inflammation, creates the ideal scenario for thrombotic events and cardiac hypertrophy (Borowiec, 2026; Davis et al., 2024).

Summary Testosterone is vital, but its synthetic version used for aesthetics is a silent metabolic poison. It deregulates the gut microbiota, increases intestinal permeability, raises the risk of colon tumors, and strains the cardiovascular system.

 

Version Française

La Face Cachée de la Testostérone : Comment l’Usage Inutile Détruit l’Intestin et Menace le Cœur

Introduction : La Quête Aveugle de la Performance La société contemporaine vit une « épidémie d’optimisation ». La testostérone est devenue une panacée pour la fatigue et le corps parfait. Cependant, introduire de la testostérone sans carence réelle pirate négativement des systèmes vitaux, à commencer par le microbiote intestinal.

  1. Dysbiose Intestinale et Inflammation Systémique Des études de 2025 et 2026 confirment que des niveaux excessifs d’androgènes altèrent le ratio entre bactéries bénéfiques et pathogènes (Harris ; Bajaj, 2025). Cela affaiblit les « jonctions serrées », provoquant un intestin perméable (leaky gut). Ce processus déclenche une inflammation chronique attaquant l’endothélium vasculaire (Wang et al., 2026).
  2. Le Danger Caché : Testostérone et Cancer du Côlon L’usage supraphysiologique est lié au cancer colorectal par la stimulation des voies de croissance (IGF-1) et la réduction des acides gras protecteurs comme le butyrate (Chen et al., 2025 ; Liu ; Zhang, 2026).
  3. La Mode des Implants : Une Erreur de Dosage Les « chips » hormonaux posent des risques : l’impossibilité d’arrêter la libération en cas d’effets secondaires et une absorption erratique selon le flux sanguin (Thompson, 2026 ; Miller et al., 2025).
  4. Risques Cardiovasculaires L’augmentation de la viscosité sanguine et l’hypertrophie cardiaque augmentent le risque d’infarctus (Borowiec, 2026).

Résumé La testostérone synthétique à des fins esthétiques dérègle le microbiote, augmente la perméabilité intestinale et surcharge le système cardiovasculaire.

 

Versión en Español

El Lado Oscuro de la Testosterona: Cómo el Uso Innecesario Destruye el Intestino y Amenaza al Corazón

Introducción: La Búsqueda Ciega del Rendimiento La testosterona se ha elevado al estatus de panacea. Sin embargo, su uso sin deficiencia clínica hackea negativamente sistemas vitales, comenzando por la microbiota intestinal, el núcleo de nuestra inmunidad.

  1. Disbiosis Intestinal e Inflamación Sistémica Niveles excesivos de andrógenos alteran la proporción de bacterias beneficiosas (Harris; Bajaj, 2025). Esto provoca el intestino permeable, permitiendo que toxinas entren en el torrente sanguíneo, generando inflamación crónica (Wang et al., 2026).
  2. Riesgo de Cáncer de Colón El uso suprafisiológico estimula la proliferación celular (IGF-1) y altera los metabolitos protectores, creando un ambiente pro-carcinogénico en el colon (Chen et al., 2025; Liu; Zhang, 2026).
  3. La Moda de los Implantes: Falta de Control Los “chips” impiden la modulación de la dosis. Si hay efectos secundarios, no se puede detener la liberación, además de causar picos hormonales impredecibles (Thompson, 2026).
  4. Riesgos Cardiovasculares El exceso hormonal espesa la sangre y provoca hipertrofia cardíaca patológica (Borowiec, 2026).

Resumen La testosterona estética es un veneno metabólico silencioso que desregula el intestino y eleva el riesgo de tumores y eventos cardiovasculares.

 

Deutsche Version

Die dunkle Seite des Testosterons: Wie unnötiger Gebrauch den Darm zerstört und das Herz gefährdet

Einleitung: Das blinde Streben nach Leistung Testosteron wird heute oft als Allheilmittel für Vitalität missverstanden. Ohne klinischen Mangel führt die Zufuhr jedoch zu einer negativen Manipulation lebenswichtiger Systeme, beginnend mit der Darmmikrobiota.

  1. Darmdysbiose und systemische Entzündung Studien aus den Jahren 2025 und 2026 bestätigen, dass überschüssige Androgene das Gleichgewicht zwischen nützlichen und pathogenen Bakterien stören (Harris; Bajaj, 2025). Dies führt zum Leaky-Gut-Syndrom, welches chronische Entzündungen im gesamten Gefäßsystem auslöst (Wang et al., 2026).
  2. Versteckte Gefahr: Testosteron und Darmkrebs Supraphysiologische Dosen fördern das Zellwachstum (IGF-1-Pfad) und reduzieren schützende Fettsäuren im Darm, was das Risiko für Kolorektalkrebs erhöht (Chen et al., 2025; Liu; Zhang, 2026).
  3. Der “Implantat-Modetrend”: Dosierungsfehler Hormon-Pellets (“Chips”) sind riskant, da die Freisetzung nicht gestoppt oder moduliert werden kann, wenn Nebenwirkungen auftreten. Zudem ist die Freisetzung unvorhersehbar (Thompson, 2026; Miller et al., 2025).
  4. Kardiovaskuläre Risiken Erhöhte Blutviskosität und Herzhypertrophie führen zu einem massiv erhöhten Risiko für Herzinfarkte und Schlaganfälle (Borowiec, 2026).

Zusammenfassung Synthetisches Testosteron zu ästhetischen Zwecken ist ein metabolisches Gift, das die Darmflora schädigt und das Herz-Kreislauf-System schwer belastet.

 

Full References

(Applied to all versions)

BOROWIEC, A. Impact of Anabolic–Androgenic Steroid Abuse on the Cardiovascular System: Molecular Mechanisms and Clinical Implications. International Journal of Molecular Sciences, v. 26, n. 22, p. 11037, 2026. CHEN, L. et al. Androgen receptor signaling and its role in colorectal cancer progression. Journal of Clinical Oncology Research, v. 14, n. 3, p. 245-259, 2025. DAVIS, R. et al. Cardiovascular mortality in young adults using performance-enhancing drugs. The Lancet Healthy Longevity, v. 5, n. 1, p. 12-20, 2024. EIMAN, L. et al. Gut dysbiosis in cancer immunotherapy. Frontiers in Immunology, v. 16, p. 1575452, 2025. GARCIA, M.; LOPEZ, S. Endocrine disruptors and the gut microbiome. Nature Reviews Endocrinology, v. 21, p. 88-102, 2025. HARRIS, S. C.; BAJAJ, J. S. Interaction of the Gut-Liver-Brain Axis and the sterolbiome. Gut Microbes, v. 17, n. 1, 2025. JORDAN, B. et al. Elevated serum testosterone and the risk of adenomatous polyps. Gastroenterology Today, v. 33, n. 2, p. 112-118, 2024. KOWALIK, K. Non-medical use of exogenous testosterone and anabolic–androgenic substances in young men. Frontiers in Endocrinology, v. 17, p. 1781416, 2026. LIU, Y.; ZHANG, X. Microbiota-derived metabolites and colorectal cancer. Cell Host & Microbe, v. 34, n. 5, p. 601-615, 2026. MILLER, J. et al. Pharmacokinetics of subcutaneous testosterone pellets: variability and clinical challenges. Journal of Endocrine Practice, v. 31, n. 4, p. 442-450, 2025. SMITH, A. et al. Intestinal permeability and systemic inflammation in anabolic steroid users. European Journal of Applied Physiology, v. 124, n. 8, p. 2105-2118, 2024. THOMPSON, D. The rise of hormone pellets: Clinical gold mine or medical minefield? NEJM – Perspective, v. 394, n. 12, p. 1102-1105, 2026. WANG, Y. et al. Gut microbiota metabolic reprogramming drives the development of metabolic diseases. PMC Metabolism, v. 15, n. 4, 2026. XU, H. From testosterone to 11-oxygenated androgens: Integrating endocrine biology and health. The Innovation, v. 7, n. 4, 2026. ZHAO, Q. et al. Impact of high-dose androgens on the bile acid pool and gut microbial diversity. Journal of Steroid Biochemistry, v. 250, 106543, 2025.

BALANÇA, A TRAIDORA

 

Dr. Daniel S. F. Boarim, diretor médico da Lapinha

 

Quando a balança lhe conta que você perdeu pouco ou até nenhum peso num determinado intervalo de tempo, o que isso significa? O corpo impõe seu ritmo ao emagrecimento. Quando alguém exagera na dose da dieta e do exercício, leva uma lição inesquecível, que pode incluir queda de pressão, queda de glicemia, moleza, fraqueza ou até um estranho congelamento na perda de peso. Além de passar mal, você se desnorteia. O corpo não protesta à toa!

 

Você está fazendo tudo direitinho. Comendo certo e se exercitando. Consciência tranquila. Até se permite sonhar vestindo aquela coleção há tantos verões socada lá no fundo do guarda-roupa.

Mas, passada uma semana do início do programa, ao subir na balança, o susto.

Não emagreci quase nada! É isso mesmo?! Não é possível. Tanto sacrifício para quê? O que há de errado?

E vem a raiva. Raiva da balança, da dieta, da nutricionista, do personal, do médico, de você mesmo. Frustração, desânimo.

E agora? Nunca mais o manequim dos bons tempos?

 

O pesadelo

 

Apesar dos spas, pílulas, injeções, dietas e academias, você, que já tentou ou está tentando emagrecer e se manter magro, provavelmente já sentiu na carne a impiedade da balança.

É daqueles pesadelos que faz muita gente chutar o pau da barraca.

Desistir?  Eis a sina de uma incompreensível frustração, que se repete todo dia.

Tem mesmo muita gente nesse barco – sobrecarregado e avariado. Estima-se que quase um terço da população do mundo afluente e emergente está tentando desesperadamente perder peso nesse exato momento. A maioria sem êxito, ou com êxito apenas temporário.

Nos Estados Unidos, dois terços da população sofrem com sobrepeso e obesidade. No Brasil, já é metade da polução.

Quando falamos em emagrecimento, falamos no recorde mundial de tentativas fracassadas.

Tentar entender isso, aprofundar-se nas causas ocultas e incultas, por mais impossível e irritante que pareça, é o primeiro passo da virada.

Por que o fracasso? Todos sabemos do “peso” dos comportamentos, da transferência insana de cargas emocionais para a comida. Isso explica grande parte do problema. Fatores metabólicos, culturais e genéticos mancomunam-se para explicar a outra parte. Mas não há como livrar-se de uma certa aura de mistério, incompreensão e sobretudo inquietação.

O desafio de mudar sustentavelmente – veja bem, sustentavelmente – rotinas engordativas e pouco saudáveis, só é entendido por quem passa ou já passou por isso. Mas, enquanto quem está fora racionaliza de modo frio e calculista pelas calorias, quem está dentro tende a avaliar pela emoção.

 

Balança – aliada ou traidora?

 

Nessa busca dramática, a ansiedade é um vilão sorrateiro. Quando você se dá conta, o impulso da comilança já acordou. Enquanto estiver fora de controle, não haverá como impor rédeas ao desejo. Comer torna-se a válvula de escape do desassossego emocional. E o seu cérebro vai se acostumando, até que a autossabotagem degenera em negação. A vítima prefere nem pensar nisso. Come sem arrazoar, enquanto sufoca o apelo do córtex pré-frontal pela racionalidade.

Nesse joguete, a balança geralmente fica de fora. Mas sempre, invariavelmente, chega o dia em que se “cai na real”. Você resolve subir nela. E bate a agonia. Algo precisa ser feito e já!

É quando o mesmo desespero que o levou a comer desenfreadamente desperta impulsos igualmente nada racionais, só que no sentido oposto. É quando a balança se torna, paradoxalmente, companheira e traidora. Bate uma paranoia de pesagens sucessivas, uma fixação pela perda de peso a qualquer preço, o mais rápido possível. Mesmo que os quilos extras tenham se acumulado por anos sob um policiamento desleixado, o alvo agora é perdê-lo em semanas sob uma observação alucinada.

Porém, nenhuma obsessão irracional dura muito. Logo o fôlego acaba e o ciclo recomeça impiedoso. A ansiedade que a balança não pode mitigar é desviada novamente para o conforto da comida. Claro que isso é flertar com o abismo do fracasso, mas é onde quase todos caem.

 

Como a balança “engana” você

 

Há três armadilhas clássicas em que a balança pode “ludibriar” você, atrapalhando mais que ajudando:

  1. A balança no curto prazo não diz muita coisa! O peso sempre flutua para mais e para menos de modo fisiológico, por causa da expansão ou retração dos líquidos corporais, também pelo conteúdo digestivo, sem um padrão que possa ser generalizado. Por isso, comparar a variação da balança no curto prazo, comparar-se com você mesmo em outros tempos e, pior ainda, comparar-se com outras pessoas, são a receita da decepção e da loucura!
  2. O ganho de massa magra pode mascarar a perda de peso no curto prazo. É desejável e comum ganhar alguma massa magra ao seguir-se um plano correto de exercícios e dieta. Isso é mais frequente em pessoas de compleição mais “forte”, ou com alguma memória muscular, mas pode acontecer com qualquer um. O resultado é uma perda pífia ou um platô. O que não significa que você não esteja emagrecendo, claro, se estiver fazendo tudo certinho. Também não há como avaliar corretamente perdas ou ganhos de massa magra no prazo de dias, mesmo poucas semanas.
  3. Perder mais peso não quer dizer que você esteja emagrecendo mais. Às vezes, surpreendentemente é exatamente o contrário! Dietas muito rígidas podem levar a maior perda de massa muscular, enquanto dietas mais adequadas, com menor defasagem calórica, ajudam a preservar e estimular o crescimento da boa massa muscular.

 

Sofrimento desnecessário

 

Vamos explicar melhor este assunto tão desconcertante, que muita gente reluta em aceitar, e gera tanto sofrimento desnecessário.

Afinal, a balança não me põe a par da realidade?

Não estou falando de balanças desreguladas, mas de interpretação errada. Isso mesmo, a tentativa simplória de comparar um número com o outro em qualquer intervalo de tempo pode falsear resultados. Veja porquê:

A balança, desde que obviamente bem regulada, mostra fielmente seu peso corporal pontual, num dado momento, mas NÃO DISTINGUE outros três parâmetros vitais, que fazem parte da equação do emagrecimento, permitindo por isso interpretações disparatadas:

 

  1. CICLO DOS LÍQUIDOS CORPORAIS
  2. COMPOSIÇÃO CORPORAL
  3. MEDIDAS CORPORAIS

 

Isso quer dizer que se você OLHAR SÓ PARA A BALANÇA, principalmente no CURTO PRAZO, poderá tirar CONCLUSÕES ERRADAS sobre o seu corpo, como achar que está emagrecendo enquanto está engordando, ou o contrário, achar que está engordando enquanto está emagrecendo. Vamos aos itens mais importantes:

 

  1. VARIAÇÃO DIÁRIA – De um dia para o outro, mesmo da manhã à noite, seu corpo pode acumular significativa quantidade de líquidos e alimentos, o que leva a variação normal de peso, que pode nalguns casos ultrapassar um quilo, para cima ou para baixo. E quando você se pesa, digamos, num horário em que estes acúmulos (liquidos e alimentos) estão em baixa e depois, no dia seguinte, quando estão em alta, ficará intrigado, para não dizer outra coisa mais realista, imaginando erradamente haver engordado. E pode ocorrer exatamente o contrário – alguém imagina que emagreceu, ao passo que, infelizmente, isso não aconteceu, ou ocorreu numa magnitude bem menor.
  2. VARIAÇÃO SEMANAL De uma semana para outra os líquidos também têm seu ciclo normal (em algumas situações pode ser patológico ou induzido por medicamentos). Ocorre mais frequentemente em mulheres que ainda menstruam, na fase pré-menstrual, ou qualquer pessoa em qualquer idade que tenda a “inchar”. Flutuações hormonais são comuns, e podem forçar maior volume de água para o terceiro espaço (entre a célula e o vaso sanguíneo), algo que às vezes se nota, outras vezes não, mas a balança não perdoa! A perda de um quilo em uma semana pode ser mascarada por 1,5 kg de acúmulos no momento da pesagem, levando a um saldo positivamente desanimador de meio kg a mais. E inúmeras possibilidades, para mais e para menos, até com variação zerada, podem se listar aqui. Resultados enganadores e enlouquecedores!
  3. VARIAÇÃO MENSAL De um mês para o outro, embora essa margem de erro diminua, na hipótese de se estar fazendo tudo direitinho, ainda assim os mesmos fatores que acabamos de citar podem interferir na confiabilidade do resultado da balança, quando se compara apenas o ponto de partida com o de chegada. Ao fazer exercício físico, sua massa muscular aumentará enquanto o percentual de gordura encolherá. E isso é tudo que se pode desejar: diminuição das medidas, saúde e percepção de estar mais disposto. Imagine que frustração se, no momento da pesagem, todos aqueles fatores de confundimento estiverem juntos! E, somados ainda ao fator positivo que acabamos de citar, o aumento dos músculos, que pesam mais que a gordura, pois são mais densos, a confusão será maior!

Agora imagine o contrário, uma perda maior que a esperada, comemorada, mas que na verdade reflete um resultado ruim, quando por causa de uma dieta restritiva demais, a perda muscular foi brutal!

 

A balança sozinha então não diz tudo

 

Exatamente. Quando a balança lhe conta que você perdeu menos peso ou nenhum peso num determinado intervalo, mesmo você fazendo o certo, ela não quer dizer que você não emagreceu.

O contrário, quando ela lhe diz que está perdendo muito, também não quer dizer que você está eliminando gordura. É até mais provável que esteja eliminando também água e músculos, numa proporção indesejável.

Na linha do tempo, principalmente num segmento curtinho, a variação de peso nem sempre reflete o resultado do esforço. Mas o médio e o longo prazo, mesmo numa curva oscilante e relutante, vão recompensar o perseverante, que não se deixa desanimar pelo imediatismo do aparente paradoxo da balança.

 

O corpo não protesta à toa!

 

Mas vale lembrar outra coisa importante. Na medida que você vai chegando perto da sua meta metabólica, daquilo que seu corpo, sua constituição e seu metabolismo entendem como ideal e saudável para você, o ritmo de emagrecimento diminuirá. Em outras palavras, a curva da perda de peso tende normalmente a desacelerar cada vez mais. E quem não está tanto acima do peso assim, perderá mais devagar.

O corpo, então, impõe seu ritmo ao emagrecimento. Quando alguém exagera na dose da dieta e do exercício, poderá sofrer uma lição inesquecível de queda de pressão, queda de glicemia, moleza, fraqueza, e até de uma estranha parada na perda de peso. Enfim, além de passar mal, você pode desapontar-se. O corpo não protesta à toa!

 

Resumindo, a balança é um parâmetro avaliativo bem pobre para emagrecimento em certos intervalos e em certas condições, especialmente no curto prazo, mas ao mesmo tempo indispensável para desenharmos a tendência da variabilidade de peso, ao longo de semanas e meses. Isso quer dizer que ganhos ou perdas, principalmente em prazos curtos, não cravam que você engordou ou emagreceu.

Seu foco, então, qual deve ser? Manter-se inabalável na linha, fazendo a coisa certa, sem se deixar afetar, mirando o alvo. Pesando-se racionalmente, na frequência indicada, sem paranoias, e “exercitando a paciência do paciente”. Os resultados certamente virão a seu tempo, seguindo os padrões fisiológicos de sua individualidade metabólica!

 

NOTA IMPORTANTE: POR QUE NÃO FAZEMOS A BIOIMPEDÂNCIA NA ENTRADA 

 

Trata-se de um exame de boa sensibilidade e especificidade para acompanhar a evolução da composição corporal, massa magra, massa muscular, massa gorda, água corporal, etc. Porém, como acontece com a balança, tem suas limitações metodológicas.

Não adianta ficar repetindo com frequência semanal, pois, como todo exame, tem seu tempo em que a variabilidade dos dados começa a apontar tendências, e para a bioimpedância isso é desejavelmente trinta dias.

Por isso não fazemos, na Lapinha, a bioimpedância na entrada de permanências de poucas semanas. Além do mais, na chegada, as pessoas estão mais “inchadas”, e as intensas mudanças que acontecem na dieta e nos exercícios ao longo da hospedagem resultarão em interpretações comparativas bem falseadas! Por isso, fazemos só na saída de quem fica uma semana ou mais, quando você estará mais “enxuto”.

 

 

 

ENGLISH

 

THE SCALE IS BETRAYING YOU

 

Dr. Daniel S. F. Boarim, Medical Director of Lapinha

 

When the scale shows you’ve lost little or no weight in a given period of time, what does that mean? The body dictates its own pace of weight loss. When someone overdoes their diet and exercise, they experience an unforgettable lesson, which can include low blood pressure, low blood sugar, lethargy, weakness, or even a strange weight loss freeze. Besides feeling sick, you feel disappointed. Your body doesn’t protest for nothing!

 

You’re doing everything right. Eating right and exercising. Your conscience is clear. You even allow yourself to dream of wearing that collection you’ve had tucked away in the back of your closet for so many summers.

But, a week after starting the program, when you step on the scale, you’re shocked.

I’ve barely lost any weight! Is that right?! It’s impossible. So much sacrifice for what? What’s wrong?

And anger sets in. Anger at the scale, the diet, the nutritionist, the personal trainer, the doctor, yourself. Frustration, discouragement.

What now? Never again the figure of the good old days?

 

The nightmare

 

Despite spas, pills, injections, diets, and gyms, you, who have tried or are trying to lose weight and stay slim, have probably experienced the scale’s relentlessness firsthand.

It’s one of those nightmares that makes many people give up.

Give up? This is the fate of an incomprehensible frustration, repeated every day.

There are indeed many people in this boat – overwhelmed and damaged. It is estimated that almost a third of the population of the affluent and emerging world is desperately trying to lose weight right now. Most are unsuccessful, or with only temporary success.

In the United States, two-thirds of the population is overweight or obese. In Brazil, half the population is already overweight.

When we talk about weight loss, we’re talking about the world record for failed attempts.

Trying to understand this, delving into the hidden and unexplored causes, as impossible and irritating as it may seem, is the first step toward a change.

Why the failure? We all know about the “weight” of behaviors, the insane transfer of emotional burdens to food. This explains much of the problem. Metabolic, cultural, and genetic factors combine to explain the other part. But there’s no way to shake off a certain aura of mystery, incomprehension, and, above all, unease.

The challenge of sustainably changing—and remember, sustainably—fat-gaining and unhealthy routines is only understood by those who are or have been through it. But while those on the outside rationalize coldly and calculatingly based on calories, those on the inside tend to evaluate based on emotions.

 

Scales—ally or traitor?

 

In this dramatic quest, anxiety is a sneaky villain. Before you know it, the urge to binge has already awakened. As long as it’s out of control, there’s no way to rein in the desire. Eating becomes an escape valve for emotional unease. And your brain gets used to it, until the self-sabotage degenerates into denial. The victim prefers not to think about it. They eat without reasoning, while stifling the prefrontal cortex’s call for rationality.

In this game, the scale is usually left out. But always, invariably, the day comes when reality hits. You decide to step on it. And the agony sets in. Something needs to be done, and now!

This is when the same desperation that drove you to binge eat awakens equally irrational impulses, only in the opposite direction. This is when the scale becomes, paradoxically, both a companion and a traitor. A paranoia of successive weigh-ins sets in, a fixation on losing weight at any cost, as quickly as possible. Even if the extra pounds have accumulated for years under lax policing, the goal now is to lose them in weeks under frenzied observation.

However, no irrational obsession lasts long. Soon the breath runs out and the cycle begins again mercilessly. The anxiety that the scale can’t alleviate is diverted once again to the comfort of food. Of course, this is flirting with the abyss of failure, but it’s where almost everyone falls.

 

How the Scale “Tricks” You

 

There are three classic traps that the scale can “trick” you into, hindering you more than helping:

The scale doesn’t tell you much in the short term! Weight always fluctuates up and down physiologically, due to the expansion or contraction of body fluids, and also due to digestive contents, without a generalizable pattern. Therefore, comparing the scale’s fluctuations in the short term, comparing yourself to yourself in other times, and, even worse, comparing yourself to other people, are a recipe for disappointment and madness!

Gaining lean mass can mask short-term weight loss. It’s desirable and common to gain some lean mass when following a proper exercise and diet plan. This is more common in people with a stronger build or with some muscle memory, but it can happen to anyone. The result is minimal weight loss or a plateau. This doesn’t mean you’re not  losing weight, of course, if you’re doing everything right. There’s also no way to accurately assess lean mass gains or losses over a period of days, even a few weeks.

Losing more weight doesn’t mean you’re getting fit and healthier. Sometimes, surprisingly, it’s quite the opposite! Very strict diets can lead to greater muscle loss, while more appropriate diets, with a smaller calorie gap, help preserve and stimulate the growth of healthy muscle mass.

 

 

Unnecessary Suffering

 

Let’s explain this disconcerting topic in more detail, which many people are reluctant to accept and which causes so much unnecessary suffering.

After all, doesn’t the scale tell me the truth?

I’m not talking about unbalanced scales, but about misinterpretation. That’s right, the simplistic attempt to compare one number with another over any given timeframe can distort results. Here’s why:

The scale, as long as it’s properly adjusted, accurately displays your body weight at a given moment, but it DOES NOT DISTINGUISH three other vital parameters that are part of the weight loss equation, thus allowing for disparate interpretations:

BODY FLUID CYCLE
BODY COMPOSITION
BODY MEASUREMENTS

This means that if you ONLY LOOK AT THE SCALE, especially in the SHORT TERM, you could draw WRONG CONCLUSIONS about your body, such as thinking you’re losing weight while you’re gaining weight, or vice versa, thinking you’re gaining weight while you’re losing weight. Let’s get to the most important points:

DAILY VARIATION – From one day to the next, even from morning to night, your body can accumulate a significant amount of fluid and food, leading to normal weight fluctuations, which can in some cases exceed a kilogram, either up or down. And when you weigh yourself, say, at a time when these accumulations (fluids and food) are low and then, the next day, when they are high, you will be puzzled, not to mention more realistically, mistakenly imagining you’ve gained weight. And the exact opposite can occur—someone imagines they’ve lost weight, when, unfortunately, this hasn’t happened, or has occurred to a much lesser extent.
WEEKLY VARIATION: From one week to the next, fluids also have their normal cycle (in some situations, it can be pathological or medication-induced). This occurs more frequently in women who are still menstruating, in the premenstrual phase, or anyone of any age who tends to “bloat.” Hormonal fluctuations are common and can force a greater volume of water into the third space (between the cell and the blood vessel), something that is sometimes noticeable, sometimes not, but the scale is unforgiving! A one-kilogram loss in a week can be masked by 1.5 kg of excess weight at the time of weighing, leading to a positively discouraging weight loss of half a kg. And countless possibilities, both higher and lower, even with zero variation, can be listed here. Misleading and maddening results!
MONTHLY VARIATION From one month to the next, although this margin of error decreases, assuming you’re doing everything correctly, the same factors we just mentioned can still interfere with the reliability of the scale’s results when comparing only the starting point with the finishing point. By exercising, your muscle mass will increase while your body fat percentage will decrease. And that’s all you can hope for: a reduction in measurements, health, and a feeling of being more energetic. Imagine the frustration if, at the time of weighing, all those confounding factors were combined! And, added to the positive factor we just mentioned—the increase in muscle, which weighs more than fat because it’s denser—the confusion will be even greater!

Now imagine the opposite: a greater-than-expected loss, celebrated, but which actually reflects a poor result, when, due to an overly restrictive diet, the muscle loss was brutal!

 

The scale alone doesn’t tell the whole story

 

Exactly. When the scale tells you that you’ve lost less weight or none at all in a given period, even if you’re doing the right thing, it doesn’t mean you haven’t lost weight.

On the contrary, when it tells you that you’re losing a lot, it also doesn’t mean you’re losing fat. It’s even more likely that you’re also losing water and muscle, at an undesirable rate.

Over time, especially over a short period, weight fluctuations don’t always reflect the results of your efforts. But the medium and long term, even on a wavering and reluctant curve, will reward the persevering, who doesn’t let themselves be discouraged by the immediacy of the scale’s apparent paradox.

 

The body doesn’t protest for nothing!

 

But it’s worth remembering another important thing. As you get closer to your metabolic goal—what your body, constitution, and metabolism understand as ideal and healthy for you—the rate of weight loss will slow down. In other words, the weight loss curve typically tends to slow down more and more. And those who aren’t significantly overweight will lose weight more slowly.

The body, then, imposes its own pace on weight loss. When someone overdoes diet and exercise, they may experience an unforgettable experience of low blood pressure, low blood sugar, sluggishness, weakness, and even a strange halt in weight loss. In short, besides feeling sick, you may be disappointed. The body doesn’t protest for nothing!

In short, the scale is a very poor evaluative parameter for weight loss at certain intervals and under certain conditions, especially in the short term, but at the same time, it is essential for charting the trend of weight variability over weeks and months. This means that gains or losses, especially in the short term, do not guarantee that you have gained or lost weight.

So, what should your focus be? Staying steadfastly on track, doing the right thing, without letting yourself be affected, aiming for the target. Weighing yourself rationally, at the recommended frequency, without paranoia, and “exercising patient patience.” The results will certainly come in due time, following the physiological patterns of your metabolic individuality!

 

 

 

IMPORTANT NOTE: WHY WE DON’T PERFORM BIOIMPEDANCE AT ADMISSION AT LAPINHA

 

This is a test with good sensitivity and specificity for monitoring the evolution of body composition, lean mass, muscle mass, fat mass, body water, etc. However, as with the scale, it has its methodological limitations.

There’s no point in repeating it weekly, because, like any test, there’s a time when data variability begins to show trends, and for bioimpedance, this is ideally thirty days.

That’s why, at Lapinha, we don’t perform bioimpedance testing upon arrival for guests staying for a few weeks. Furthermore, upon arrival, people are more “bloated,” and the intense changes in diet and exercise that occur throughout their stay will result in very false comparative interpretations! That’s why we only perform it upon departure for those staying a week or more, when you’re leaner.

QUANDO USAR TESTOSTERONA DE MODO SEGURO E CIENTIFICAMENTE EMBASADO?

 

 

Dra Jacy M. Alves, MD Endocrinologista e Dr Daniel S. F. Boarim, MD Nutrólogo

 

Certamente, você conhece alguém que faz reposição hormonal com testosterona ou talvez você mesmo a utilize. Mas você tem ideia dos verdadeiros riscos/benefícios por trás dessa prescrição, que virou moda nos últimos anos? Principalmente entre os que buscam um corpo escultural e musculoso, a testosterona acena como um recurso “promissor”. Mas você sabe a que preço?  Vale a pena?

 

Quando é indicada a terapia de reposição com testosterona? (TRT)

 

A terapia de reposição de testosterona (TRT) envolve riscos importantes, e por isso deve ser utilizada de forma muito criteriosa e baseada em evidências, considerando as diretrizes das Sociedades Médicas e recomendações atuais.

A TRT tem poucas indicações cientificamente seguras e aceitas. A mais reconhecida é para homens com hipogonadismo devidamente confirmado, que é caracterizado por níveis baixos de testosterona associados a sintomas clínicos, como disfunção sexual, perda de massa muscular, fadiga e diminuição da densidade óssea. [1-3]

 

Onde mora o perigo?

 

Aqui mora o perigo. Digamos que os seus níveis de testosterona estejam na faixa da normalidade e algum prescritor afirme que, “suplementando” para trazê-los mais para cima, você se sentirá muito melhor. Mesmo que isso fosse comprovado, os grandes riscos (principalmente aumento da morbimortalidade cardiovascular) não compensariam os discutíveis “benefícios”.

Como vimos, o uso seguro da testosterona requer confirmação do diagnóstico de hipogonadismo, que deve ser feito por meio de duas medições matinais de testosterona total, que mostrem níveis efetivamente reduzidos. [2-3] Confirmado o diagnóstico, a TRT, desde que corretamente conduzida, pode ser benéfica para melhorar a função sexual, o desejo sexual e a densidade óssea em homens com hipogonadismo. [4-5]

No entanto, os benefícios em outras condições, como função cognitiva, humor e capacidade física, são menos claros, necessitando estudos adicionais. Não se justifica o uso de testosterona apenas para “melhorar” o humor, a massa muscular e o desempenho físico ou mental, como se vem apregoando, estando seus níveis normais, ou seja, não havendo um diagnóstico confirmado de hipogonadismo masculino. [4-5]

 

É indicada na infertilidade? Quando é contraindicada?

 

Se o problema é infertilidade masculina, bom pontuar que a TRT é, ao contrário, contraindicada, pois pode interromper a espermatogênese normal.[3] Além disso, envolve riscos no caso de homens com câncer de próstata não tratado ou câncer de mama, e em pacientes que tiveram infarto do miocárdio ou acidente vascular cerebral.[1][3] A segurança cardiovascular da TRT ainda é uma área de preocupação, e a FDA nos EUA alerta para aumento do risco de complicações cardiovasculares.[2][5]

 

E para mulheres?

 

Para mulheres, a única indicação baseada em evidências para a terapia com testosterona é o tratamento do transtorno do desejo sexual hipoativo (HSDD), e deve ser administrada com cuidado para atingir concentrações fisiológicas pré-menopáusicas.[6]

Não há dados suficientes para apoiar o uso de testosterona para outros sintomas ou condições clínicas em mulheres.[6] A terapia deve ser cuidadosamente monitorada para garantir que os níveis de testosterona no sangue permaneçam dentro das concentrações fisiológicas pré-menopáusicas. .[6]

O transtorno do desejo sexual hipoativo (HSDD) é diagnosticada com base em critérios clínicos bem estabelecidos. O HSDD é caracterizado pela ausência persistente ou falta de desejo por atividade sexual, que está associada a um sofrimento pessoal significativo e/ou dificuldades interpessoais. É crucial que esses sintomas não possam ser mais bem explicados por outro transtorno primário, medicação ou condição médica geral. [7-8]

Para o diagnóstico, é importante realizar uma avaliação biopsicossocial abrangente, que considere fatores biológicos, psicológicos e socioculturais, além de influências interpessoais.[7][9] Ferramentas de triagem validadas, como o Decreased Sexual Desire Screener, podem ser úteis para identificar a necessidade de uma avaliação mais aprofundada.[7][10]

O diagnóstico também deve distinguir entre HSDD generalizado adquirido e outras formas de interesse sexual reduzido. A avaliação clínica deve incluir uma história médica e sexual detalhada e, em alguns casos, um exame físico. [11-12] A presença de sofrimento pessoal é um critério essencial para o diagnóstico, conforme estabelecido pelo Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5).[11]

O HSDD é uma condição reconhecida e tratável, com opções de tratamento que incluem intervenções não farmacológicas, como terapia sexual e psicoterapia, além de tratamentos farmacológicos aprovados, como a flibanserina e o bremelanotida, ambos aprovados pela FDA para mulheres pré-menopáusicas nos Estados Unidos. [7-9]

Um estudo sistemático e meta-análise envolvendo sete ensaios clínicos randomizados com 3.035 participantes demonstrou que o uso de testosterona transdérmica em mulheres pós-menopáusicas resultou em melhorias significativas na função sexual em comparação com o placebo. No entanto, o tratamento foi associado a eventos adversos androgênicos, como acne e crescimento de pelos.[13]

A literatura também destaca que, embora a testosterona seja uma ferramenta terapêutica valiosa, ainda há uma falta de dados sobre a segurança a longo prazo, especialmente em relação ao risco cardiovascular e de câncer.[15] [16-17] Além disso, não há preparações de testosterona aprovadas especificamente para mulheres, o que leva ao uso off-label de formulações destinadas a homens, com ajustes de dose para evitar níveis supra fisiológicos de testosterona. [6-17]

As diretrizes de consenso global indicam que a única indicação baseada em evidências para a terapia com testosterona em mulheres é o tratamento do HSDD. Recomenda-se que a avaliação clínica completa seja realizada para identificar e tratar outros fatores contribuintes para a disfunção sexual antes de iniciar a terapia com testosterona.[6]

A terapia com testosterona pode ser considerada para mulheres pós-menopáusicas com HSDD, desde que outras causas tenham sido minuciosamente excluídas. No entanto, devido à falta de dados sobre a segurança a longo prazo, é crucial que seu uso seja cauteloso, com monitoramento cuidadoso dos níveis hormonais e possíveis efeitos adversos. Uma abordagem cuidadosa e individualizada é essencial para garantir o tratamento eficaz e seguro do HSDD.

 

Como monitorar a reposição de testosterona em homens?

 

A monitorização dos pacientes em TRT é crucial, incluindo a avaliação da resposta clínica e a medição de testosterona total, hematócrito e antígeno prostático específico (PSA). [1-2] A escolha da formulação de testosterona (transdérmica ou intramuscular) deve considerar a eficácia clínica, os custos e as preferências do paciente.[5]

 

Efeitos colaterais

 

Há efeitos secundários bem conhecidos do excesso de testosterona, como aumento de pelos e espinhas, aumento da próstata em homens e atrofia das mamas em mulheres, insônia,  alteração de humor, irritabilidade, edema (inchaço geral), cólicas pélvicas ou até mesmo um retorno da menstruação. Altos níveis de testosterona também podem elevar os níveis de estrogênio, já que uma parte da testosterona é convertida em estrogênio [18]

 

Resumindo

 

O modismo de prescrever testosterona indiscriminadamente é irresponsável e implica enorme perigo à saúde, e essa indicação deve ser seriamente considerada apenas em casos de hipogonadismo confirmado nos homens e o transtorno do desejo sexual hipoativo em mulheres, com uma avaliação cuidadosa dos riscos e benefícios, e monitorização contínua para garantir a segurança e eficácia do tratamento.

É crucial que a decisão de iniciar a terapia com testosterona seja baseada em uma avaliação clínica completa e que os pacientes sejam informados sobre os potenciais riscos e benefícios do tratamento. Além disso, a segurança a longo prazo da terapia com testosterona, especialmente em mulheres, ainda não foi estabelecida.

 

Referências

  1. EMAS Position Statement: Testosterone Replacement Therapy in Older Men. Kanakis GA, Pofi R, Goulis DG, et al. Maturitas. 2023;178:107854. doi:10.1016/j.maturitas.2023.107854.
  2. Testosterone Therapy: Review of Clinical Applications. Petering RC, Brooks NA. American Family Physician. 2017;96(7):441-449.
  3. Evaluation and Management of Testosterone Deficiency: AUA Guideline. Mulhall JP, Trost LW, Brannigan RE, et al. The Journal of Urology. 2018;200(2):423-432. doi:10.1016/j.juro.2018.03.115.
  4. Testosterone Therapy: What We Have Learned From Trials. Corona G, Torres LO, Maggi M. The Journal of Sexual Medicine. 2020;17(3):447-460. doi:10.1016/j.jsxm.2019.11.270.
  5. Testosterone Treatment in Adult Men With Age-Related Low Testosterone: A Clinical Guideline From the American College of Physicians. Qaseem A, Horwitch CA, Vijan S, et al. Annals of Internal Medicine. 2020;172(2):126-133. doi:10.7326/M19-0882.
  6. Global Consensus Position Statement on the Use of Testosterone Therapy for Women. Davis SR, Baber R, Panay N, et al. The Journal of Clinical Endocrinology and Metabolism. 2019;104(10):4660-4666. doi:10.1210/jc.2019-01603.
  7. Female Hypoactive Sexual Desire Disorder: A Practical Guide to Causes, Clinical Diagnosis, and Treatment. Kingsberg SA, Simon JA. Journal of Women’s Health (2002). 2020;29(8):1101-1112. doi:10.1089/jwh.2019.7865.
  8. Hypoactive Sexual Desire Disorder in Women: Physiology, Assessment, Diagnosis, and Treatment. Pettigrew JA, Novick AM. Journal of Midwifery & Women’s Health. 2021;66(6):740-748. doi:10.1111/jmwh.13283.
  9. Hypoactive Sexual Desire Disorder: International Society for the Study of Women’s Sexual Health (ISSWSH) Expert Consensus Panel Review. Goldstein I, Kim NN, Clayton AH, et al. Mayo Clinic Proceedings. 2017;92(1):114-128. doi:10.1016/j.mayocp.2016.09.018.
  10. Instruments for Screening, Diagnosis, and Management of Patients With Generalized Acquired Hypoactive Sexual Desire Disorder. Derogatis LR, Revicki DA, Clayton AH. Journal of Women’s Health (2002). 2020;29(6):806-814. doi:10.1089/jwh.2019.7917.
  11. Female Sexual Dysfunction: Focus on Low Desire. Kingsberg SA, Woodard T. Obstetrics and Gynecology. 2015;125(2):477-486. doi:10.1097/AOG.0000000000000620.
  12. The International Society for the Study of Women’s Sexual Health Process of Care for Management of Hypoactive Sexual Desire Disorder in Women. Clayton AH, Goldstein I, Kim NN, et al. Mayo Clinic Proceedings. 2018;93(4):467-487. doi:10.1016/j.mayocp.2017.11.002.
  13. Efficacy and Safety of Transdermal Testosterone in Postmenopausal Women With Hypoactive Sexual Desire Disorder: A Systematic Review and Meta-Analysis. Achilli C, Pundir J, Ramanathan P, et al. Fertility and Sterility. 2017;107(2):475-482.e15. doi:10.1016/j.fertnstert.2016.10.028.
  14. Systemic Testosterone for the Treatment of Female Sexual Interest and Arousal Disorder (FSIAD) in the Postmenopause.
  15. Ribera Torres L, Anglès-Acedo S, López Chardi L, Mension Coll E, Castelo-Branco C. Gynecological Endocrinology: The Official Journal of the International Society of Gynecological Endocrinology. 2024;40(1):2364220. doi:10.1080/09513590.2024.2364220.
  16. Androgen Therapy in Women.Vegunta S, Kling JM, Kapoor E. Journal of Women’s Health (2002). 2020;29(1):57-64. doi:10.1089/jwh.2018.7494.
  17. Risks of Testosterone for Postmenopausal Women. Pinkerton JV, Blackman I, Conner EA, Kaunitz AM. Endocrinology and Metabolism Clinics of North America. 2021;50(1):139-150. doi:10.1016/j.ecl.2020.10.007.
  18. Information on Testosterone Hormone Therapy, University of California, San Francisco, July 2020.

 

ENGLISH

 

WHEN TO USE TESTOSTERONE IN A SAFE AND SCIENTIFICALLY SUPPORTED WAY?

Dr. Jacy M. Alves MD, Dr Daniel S F Boarim MD

 

You certainly know someone who uses testosterone replacement therapy or perhaps you use it yourself. But do you have any idea of ​​the real risks/benefits behind this prescription, which has become fashionable in recent years? Especially among those seeking a sculpted and muscular body, testosterone beckons as a “promising” resource. But do you know the price? Is it worth it?

 

When is testosterone replacement therapy indicated? (TRT)

Testosterone replacement therapy (TRT) involves significant risks, and therefore must be used very carefully and based on evidence, considering the guidelines of Medical Societies and current recommendations.

TRT has few scientifically safe and accepted indications. The most recognized is for men with duly confirmed hypogonadism, which is characterized by low testosterone levels associated with clinical symptoms, such as sexual dysfunction, loss of muscle mass, fatigue and decreased bone density. [1-3]

 

Where does the danger lie?

 

Here lies the danger. Let’s say your testosterone levels are in the normal range and some prescriber claims that by “supplementing” to raise them further, you will feel much better. Even if this were proven, the great risks (mainly increased cardiovascular morbidity and mortality) would not compensate for the debatable “benefits”.

As we have seen, the safe use of testosterone requires confirmation of the diagnosis of hypogonadism, which should be done through two morning measurements of total testosterone, which show effectively reduced levels. [2-3] Once the diagnosis is confirmed, TRT, as long as it is correctly administered, can be beneficial in improving sexual function, sexual desire and bone density in men with hypogonadism. [4-5]

However, the benefits in other conditions, such as cognitive function, mood and physical capacity, are less clear and require additional studies. There is no justification for using testosterone just to “improve” mood, muscle mass and physical or mental performance, as has been claimed, if its levels are normal, that is, there is no confirmed diagnosis of male hypogonadism. [4-5]

Is it indicated for infertility? When is it contraindicated?

If the problem is male infertility, it is worth noting that TRT is, on the contrary, contraindicated, as it can interrupt normal spermatogenesis.[3] In addition, it involves risks in the case of men with untreated prostate cancer or breast cancer, and in patients who have had a myocardial infarction or stroke.[1][3] The cardiovascular safety of TRT is still an area of ​​concern, and the FDA in the US warns of an increased risk of cardiovascular complications.[2][5]

 

What about women?

 

For women, the only evidence-based indication for testosterone therapy is the treatment of hypoactive sexual desire disorder (HSDD), and it should be administered with caution to achieve premenopausal physiologic concentrations.[6]

There are insufficient data to support the use of testosterone for other symptoms or medical conditions in women.[6] Therapy should be carefully monitored to ensure that blood testosterone levels remain within premenopausal physiologic concentrations. .[6]

Hypoactive sexual desire disorder (HSDD) is diagnosed based on well-established clinical criteria. HSDD is characterized by the persistent or recurrent absence of sexual thoughts or fantasies and/or lack of desire for sexual activity, which is associated with significant personal distress and/or interpersonal difficulties. It is crucial that these symptoms cannot be better accounted for by another underlying disorder, medication, or general medical condition. [7-8]

A comprehensive biopsychosocial assessment that considers biological, psychological, and sociocultural factors, as well as interpersonal influences, is important for diagnosis.[7][9] Validated screening tools, such as the Decreased Sexual Desire Screener, may be helpful in identifying the need for further evaluation.[7][10]

Diagnosis should also distinguish between acquired generalized HSDD and other forms of decreased sexual interest. Clinical evaluation should include a detailed medical and sexual history and, in some cases, a physical examination.[11-12] The presence of personal distress is an essential criterion for diagnosis, as established by the Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders (DSM-5).[11]

HSDD is a recognized and treatable condition, with treatment options that include nonpharmacologic interventions such as sex therapy and psychotherapy, as well as approved pharmacologic treatments such as flibanserin and bremelanotide, both of which are FDA-approved for premenopausal women in the United States. [7–9]

A systematic review and meta-analysis involving seven randomized controlled trials with 3,035 participants demonstrated that the use of transdermal testosterone in postmenopausal women resulted in significant improvements in sexual function compared to placebo. However, the treatment was associated with androgenic adverse events, such as acne and hair growth.[13]

The literature also highlights that although testosterone is a valuable therapeutic tool, there is still a lack of data on long-term safety, especially regarding cardiovascular and cancer risk.[15] [16-17] In addition, there are no testosterone preparations specifically approved for women, which leads to off-label use of formulations intended for men, with dose adjustments to avoid supraphysiological testosterone levels.[6-17]

Global consensus guidelines indicate that the only evidence-based indication for testosterone therapy in women is the treatment of HSDD. It is recommended that a thorough clinical evaluation be performed to identify and address other contributing factors to sexual dysfunction prior to initiating testosterone therapy.[6]

Testosterone therapy may be considered for postmenopausal women with HSDD, provided that other causes have been thoroughly excluded. However, due to the lack of data on long-term safety, it is crucial that its use be cautious, with careful monitoring of hormone levels and potential adverse effects. A careful and individualized approach is essential to ensure effective and safe treatment of HSDD.

How to monitor testosterone replacement therapy in men?

 

Monitoring of patients on TRT is crucial, including assessment of clinical response and measurement of total testosterone, hematocrit, and prostate-specific antigen (PSA).[1-2] The choice of testosterone formulation (transdermal or intramuscular) should consider clinical efficacy, cost, and patient preferences.[5]

 

In summary

 

The trend of prescribing testosterone indiscriminately is irresponsible and poses enormous health risks, and this indication should be seriously considered only in cases of confirmed hypogonadism in men and hypoactive sexual desire disorder in women, with a careful assessment of the risks and benefits, and ongoing monitoring to ensure the safety and efficacy of the treatment.

It is crucial that the decision to initiate testosterone therapy be based on a thorough clinical evaluation and that patients are informed of the potential risks and benefits of treatment. Furthermore, the long-term safety of testosterone therapy, especially in women, has not yet been established.

 

References

  1. EMAS Position Statement: Testosterone Replacement Therapy in Older Men. Kanakis GA, Pofi R, Goulis DG, et al. Maturitas. 2023;178:107854. doi:10.1016/j.maturitas.2023.107854.
  2. Testosterone Therapy: Review of Clinical Applications. Petering RC, Brooks NA. American Family Physician. 2017;96(7):441-449.
  3. Evaluation and Management of Testosterone Deficiency: AUA Guideline. Mulhall JP, Trost LW, Brannigan RE, et al. The Journal of Urology. 2018;200(2):423-432. doi:10.1016/j.juro.2018.03.115.
  4. Testosterone Therapy: What We Have Learned From Trials. Corona G, Torres LO, Maggi M. The Journal of Sexual Medicine. 2020;17(3):447-460. doi:10.1016/j.jsxm.2019.11.270.
  5. Testosterone Treatment in Adult Men With Age-Related Low Testosterone: A Clinical Guideline From the American College of Physicians. Qaseem A, Horwitch CA, Vijan S, et al. Annals of Internal Medicine. 2020;172(2):126-133. doi:10.7326/M19-0882.
  6. Global Consensus Position Statement on the Use of Testosterone Therapy for Women. Davis SR, Baber R, Panay N, et al. The Journal of Clinical Endocrinology and Metabolism. 2019;104(10):4660-4666. doi:10.1210/jc.2019-01603.
  7. Female Hypoactive Sexual Desire Disorder: A Practical Guide to Causes, Clinical Diagnosis, and Treatment. Kingsberg SA, Simon JA. Journal of Women’s Health (2002). 2020;29(8):1101-1112. doi:10.1089/jwh.2019.7865.
  8. Hypoactive Sexual Desire Disorder in Women: Physiology, Assessment, Diagnosis, and Treatment. Pettigrew JA, Novick AM. Journal of Midwifery & Women’s Health. 2021;66(6):740-748. doi:10.1111/jmwh.13283.
  9. Hypoactive Sexual Desire Disorder: International Society for the Study of Women’s Sexual Health (ISSWSH) Expert Consensus Panel Review. Goldstein I, Kim NN, Clayton AH, et al. Mayo Clinic Proceedings. 2017;92(1):114-128. doi:10.1016/j.mayocp.2016.09.018.
  10. Instruments for Screening, Diagnosis, and Management of Patients With Generalized Acquired Hypoactive Sexual Desire Disorder. Derogatis LR, Revicki DA, Clayton AH. Journal of Women’s Health (2002). 2020;29(6):806-814. doi:10.1089/jwh.2019.7917.
  11. Female Sexual Dysfunction: Focus on Low Desire. Kingsberg SA, Woodard T. Obstetrics and Gynecology. 2015;125(2):477-486. doi:10.1097/AOG.0000000000000620.
  12. The International Society for the Study of Women’s Sexual Health Process of Care for Management of Hypoactive Sexual Desire Disorder in Women. Clayton AH, Goldstein I, Kim NN, et al. Mayo Clinic Proceedings. 2018;93(4):467-487. doi:10.1016/j.mayocp.2017.11.002.
  13. Efficacy and Safety of Transdermal Testosterone in Postmenopausal Women With Hypoactive Sexual Desire Disorder: A Systematic Review and Meta-Analysis. Achilli C, Pundir J, Ramanathan P, et al. Fertility and Sterility. 2017;107(2):475-482.e15. doi:10.1016/j.fertnstert.2016.10.028.
  14. Systemic Testosterone for the Treatment of Female Sexual Interest and Arousal Disorder (FSIAD) in the Postmenopause.
  15. Ribera Torres L, Anglès-Acedo S, López Chardi L, Mension Coll E, Castelo-Branco C. Gynecological Endocrinology: The Official Journal of the International Society of Gynecological Endocrinology. 2024;40(1):2364220. doi:10.1080/09513590.2024.2364220.
  16. Androgen Therapy in Women.Vegunta S, Kling JM, Kapoor E. Journal of Women’s Health (2002). 2020;29(1):57-64. doi:10.1089/jwh.2018.7494.
  17. Risks of Testosterone for Postmenopausal Women.Pinkerton JV, Blackman I, Conner EA, Kaunitz AM. Endocrinology and Metabolism Clinics of North America. 2021;50(1):139-150. doi:10.1016/j.ecl.2020.10.007.

 

 

 

 

Receba nosso conteúdo

Tenha acesso em primeira mão às nossas novidades e programações especiais

A Lapinha se compromete em proteger e respeitar sua privacidade. Usaremos suas informações pessoais apenas para administrar sua conta e fornecer os produtos e serviços que você nos solicitou. Ocasionalmente, gostaríamos de entrar em contato sobre nossas ofertas, bem como sobre outros conteúdos que possam ser de seu interesse. Você pode optar por desinscrever-se de nosso mailing a qualquer momento.

Lar Lapeano de Saúde LTDA - CNPJ 75.189.597/0001-63. Todos os direitos reservados.