Sair do Abismo: O Que Você Precisa Entender Sobre a Depressão – Parte 3 – O futuro já começou: neuromodulação, microbiota, medicina genômica e estilo de vida

 

 

A psiquiatria está mudando

Durante boa parte do século XX, a psiquiatria concentrou seus esforços no desenvolvimento de novos medicamentos. Eles salvaram e continuam salvando milhões de vidas.

Mas uma constatação chamou a atenção dos pesquisadores: mesmo com antidepressivos eficazes, psicoterapia e bons profissionais, uma parcela importante dos pacientes permanecia sintomática ou apresentava recaídas frequentes.

Essa percepção impulsionou uma nova forma de pensar. Em vez de procurar um único tratamento capaz de resolver todos os casos, a psiquiatria passou a integrar diferentes estratégias, considerando que a depressão resulta da interação entre fatores biológicos, psicológicos, sociais e ambientais.

Essa visão, hoje amplamente adotada pelas principais diretrizes internacionais, abriu espaço para terapias inovadoras e para uma valorização crescente da medicina do estilo de vida (Malhi et al., 2021; Kennedy et al., 2023).

 

Estimulação Magnética Transcraniana (EMT)

Imagine poder estimular áreas específicas do cérebro sem cirurgia, sem anestesia geral e sem necessidade de internação. É exatamente essa a proposta da Estimulação Magnética Transcraniana (EMT).

Por meio de pulsos magnéticos aplicados sobre o couro cabeludo, a técnica modula circuitos cerebrais envolvidos na regulação do humor, principalmente o córtex pré-frontal dorsolateral esquerdo, cuja atividade costuma estar reduzida em muitos pacientes com depressão (Lefaucheur et al., 2020).

A EMT é indicada principalmente para pacientes que não responderam adequadamente a um ou mais antidepressivos ou que apresentaram efeitos colaterais importantes.

O tratamento costuma ser realizado em sessões diárias durante quatro a seis semanas. Os efeitos adversos geralmente são leves, limitando-se a desconforto local ou cefaleia transitória. O risco de convulsões é extremamente baixo quando o procedimento é realizado de acordo com protocolos padronizados.

 

Resumo Prático

✔ Não é cirurgia.

✔ Não requer anestesia.

✔ Não provoca perda de memória.

✔ Pode beneficiar pacientes com depressão resistente.

 

Eletroconvulsoterapia (ECT): muito diferente do que o cinema mostrou

Poucos tratamentos médicos sofreram tanto preconceito quanto a eletroconvulsoterapia. Durante décadas, filmes e programas de televisão retrataram o procedimento como uma forma de punição ou violência. Nada poderia estar mais distante da realidade atual.

Hoje a ECT é realizada sob anestesia geral, com relaxamento muscular e monitorização rigorosa. Ela continua sendo considerada um dos tratamentos mais eficazes para depressão grave, especialmente quando há risco de suicídio, catatonia, sintomas psicóticos ou necessidade de resposta rápida (APA, 2022).

Sua principal limitação continua sendo a possibilidade de alterações transitórias da memória em parte dos pacientes, geralmente reversíveis ao longo do tempo.

 

A revolução da cetamina e da esketamina

Talvez nenhuma novidade tenha provocado tanto entusiasmo na psiquiatria nos últimos anos quanto a introdução da cetamina e, posteriormente, da esketamina intranasal.

Ao contrário dos antidepressivos tradicionais, que costumam levar semanas para produzir efeito, a esketamina pode reduzir sintomas depressivos graves e ideação suicida em poucas horas ou poucos dias em pacientes selecionados (Daly et al., 2019).

Seu mecanismo de ação envolve principalmente o sistema glutamatérgico e a rápida indução de neuroplasticidade, representando uma mudança importante na compreensão da biologia da depressão.

Entretanto, trata-se de um tratamento reservado para situações específicas, realizado em ambiente controlado e sempre associado ao acompanhamento psiquiátrico.

 

A farmacogenômica pode ajudar?

Outro campo em rápida expansão é a farmacogenômica, que procura entender como diferenças genéticas influenciam a resposta aos medicamentos.

Genes como CYP2D6 e CYP2C19 podem alterar a velocidade com que alguns antidepressivos são metabolizados. Em determinadas situações, esse conhecimento auxilia na escolha da medicação ou no ajuste da dose (CPIC, 2023).

Isso não significa que um teste genético indique automaticamente “o antidepressivo ideal”. A decisão continua dependendo da avaliação clínica, das características do paciente e de sua história de resposta aos tratamentos anteriores.

A farmacogenômica deve ser vista como uma ferramenta complementar, e não como substituta do raciocínio clínico.

 

O intestino também participa da conversa

Nas últimas duas décadas, uma área da pesquisa cresceu de forma impressionante: o estudo do eixo intestino-cérebro.

Hoje sabemos que os trilhões de microrganismos que vivem normalmente em nosso intestino produzem metabólitos capazes de influenciar a inflamação, o metabolismo, a função imunológica e a comunicação entre intestino e cérebro (Cryan et al., 2019).

Alguns estudos sugerem que determinadas alterações da microbiota podem estar associadas a sintomas depressivos. Entretanto, ainda não existem evidências suficientes para recomendar probióticos específicos como tratamento isolado da depressão.

O que já sabemos é que uma alimentação rica em frutas, verduras, legumes, fibras e alimentos minimamente processados favorece uma microbiota mais saudável e traz benefícios para a saúde física e mental.

 

A medicina do estilo de vida entrou definitivamente na psiquiatria

Talvez a maior transformação da psiquiatria moderna tenha sido reconhecer que medicamentos são fundamentais, mas não suficientes para muitos pacientes.

Cada vez mais estudos mostram que hábitos cotidianos influenciam diretamente o funcionamento cerebral.

 

Exercício físico

Uma das intervenções não farmacológicas mais bem documentadas é o exercício físico.

Meta-análises recentes mostram que exercícios aeróbicos, musculação, caminhadas rápidas e atividades como yoga podem reduzir significativamente sintomas depressivos, muitas vezes como complemento importante ao tratamento convencional (Noetel et al., 2024).

Além de melhorar o humor, o exercício favorece a neuroplasticidade, aumenta os níveis de BDNF, reduz marcadores inflamatórios e melhora o sono.

 

Sono

Dormir mal aumenta o risco de depressão. Ao mesmo tempo, a própria depressão frequentemente prejudica o sono.

Esse ciclo pode ser rompido com medidas simples de higiene do sono, tratamento da insônia e, quando indicado, Terapia Cognitivo-Comportamental para Insônia (CBT-I), atualmente considerada uma das intervenções mais eficazes para esse problema (Riemann et al., 2023).

 

Alimentação

O estudo SMILES mostrou que pacientes com depressão moderada a grave apresentaram melhora significativa quando adotaram um padrão alimentar semelhante à dieta mediterrânea, rico em vegetais, frutas, azeite de oliva, peixes, castanhas e grãos integrais (Jacka et al., 2017).

Isso não significa que exista uma “dieta antidepressiva”, mas reforça a ideia de que cérebro e metabolismo caminham juntos.

 

Luz solar, natureza e relações humanas

Exposição regular à luz natural, contato com áreas verdes, relacionamentos saudáveis, redução do isolamento social e abstinência do álcool também fazem parte das recomendações atuais para promoção da saúde mental.  São intervenções simples, de baixo custo e frequentemente negligenciadas.

 

Respostas além da ciência – na fé

A busca incessante da ciência por respostas neurológicas e psicológicas valida o que a humanidade pratica há milênios: a fé, a oração, a meditação e a religiosidade são escudos poderosos na preservação da saúde mental.

Quando um indivíduo medita, ora ou exercita sua devoção, o cérebro reduz drasticamente a hiperatividade da amígdala — o centro do medo e do estresse —, enquanto estimula o córtex pré-frontal, promovendo estabilidade emocional, resiliência e esperança.

 

Longe de serem meros escapes subjetivos, essas práticas atuam como agentes terapêuticos complementares fundamentais, capazes de reconfigurar a resposta humana ao sofrimento, mitigando os sintomas neurovegetativos da ansiedade crônica e oferecendo um suporte existencial robusto que ampara e resgata o indivíduo do abismo da depressão.

Uma revisão sistemática publicada no Journal of Clinical Psychology demonstrou de forma inequívoca que intervenções baseadas em práticas religiosas e espirituais, incluindo a meditação e a prece, possuem eficácia clínica estatisticamente significativa na redução de sintomas gerais de ansiedade e no suporte ao tratamento de quadros depressivos (Gonçalves et al., 2015).

De forma complementar, estudos clínicos controlados e randomizados comprovam que a prática da oração gera melhoras sustentadas nos níveis de otimismo e na redução da angústia mental, mantendo esses benefícios protetivos ativos a longo prazo na mente dos pacientes (Boelens et al., 2012).

 

Resumo Prático

Uma boa rotina diária continua sendo um dos melhores “remédios” para o cérebro.

✔ Exercício.

✔ Sono adequado.

✔ Alimentação saudável.

✔ Contato social.

✔ Natureza.

✔ Redução do álcool.

✔ Tratamento adequado quando necessário.

✔ Fé e oração representam amparo e forte apoio ao tratamento.

 

Esses fatores não substituem medicamentos quando eles são indicados, mas potencializam seus resultados.

 

O futuro da depressão

Os próximos anos prometem avanços importantes.

Pesquisadores investigam biomarcadores capazes de prever qual tratamento funcionará melhor para cada paciente.

A inteligência artificial poderá integrar informações clínicas, genéticas, metabólicas e comportamentais para apoiar decisões terapêuticas.

A metabolômica, a farmacogenômica, os escores poligênicos e novas formas de neuromodulação provavelmente ampliarão ainda mais as possibilidades da medicina personalizada.

Ainda estamos no início dessa jornada, mas a direção parece clara: caminhar para tratamentos cada vez mais individualizados.

 

Resumo Geral

✔ A depressão é uma doença complexa, mas tratável.

✔ Hoje dispomos de medicamentos mais seguros, psicoterapia baseada em evidências, neuromodulação e novas abordagens biológicas.

✔ Exercício, alimentação, sono e estilo de vida passaram a integrar definitivamente o tratamento moderno.

✔ O futuro aponta para uma psiquiatria cada vez mais personalizada.

 

Conclusão

Durante muito tempo acreditou-se que a depressão fosse apenas um desequilíbrio químico do cérebro. Hoje sabemos que ela envolve circuitos neurais, genética, inflamação, hormônios, microbiota intestinal, experiências de vida, relacionamentos e hábitos cotidianos. Essa nova compreensão mudou profundamente a maneira de cuidar das pessoas.

A boa notícia é que nunca tivemos tantas opções terapêuticas. Antidepressivos continuam sendo ferramentas fundamentais quando bem indicados. A psicoterapia ajuda a reconstruir formas mais saudáveis de pensar e enfrentar a vida. Técnicas como a estimulação magnética transcraniana e a esketamina ampliaram as possibilidades para casos resistentes. Ao mesmo tempo, ficou claro que exercício físico, sono adequado, alimentação equilibrada, vínculos sociais e manejo do estresse não são apenas recomendações genéricas: fazem parte do tratamento baseado em evidências.

Talvez a maior lição da psiquiatria moderna seja esta: não existe uma única causa para a depressão, e provavelmente nunca existirá um único tratamento capaz de resolver todos os casos. O futuro pertence à medicina personalizada, que combina ciência, experiência clínica e um olhar atento para a singularidade de cada pessoa.

E há uma mensagem que merece ser levada a todos os pacientes e familiares: a depressão é uma doença real, não um sinal de fraqueza. Ela pode causar intenso sofrimento, mas, na grande maioria dos casos, pode ser tratada com sucesso quando reconhecida precocemente e acompanhada por uma equipe qualificada. Buscar ajuda não é um sinal de derrota; é o primeiro passo para recuperar aquilo que a depressão tenta silenciar: a capacidade de sentir esperança, prazer e sentido na vida.

 

Referências

AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION. The American Psychiatric Association Practice Guideline for the Treatment of Patients with Major Depressive Disorder. 3. ed. Washington, DC: APA Publishing, 2022.

BOELENS, P. A., Reeves, R. R., Replogle, W. H., & Koenig, H. G. (2012). The effect of prayer on depression and anxiety: maintenance of positive influence one year after prayer intervention. Journal of Religion and Health, 51(3), 630–638.

CLINICAL PHARMACOGENETICS IMPLEMENTATION CONSORTIUM (CPIC). Clinical Pharmacogenetics Implementation Consortium (CPIC) Guideline for CYP2D6, CYP2C19 and selective serotonin reuptake inhibitors. Clinical Pharmacology & Therapeutics, v. 114, 2023.

CRYAN, J. F. et al. The microbiota-gut-brain axis. Physiological Reviews, Bethesda, v. 99, n. 4, p. 1877–2013, 2019.

DALY, E. J. et al. Efficacy and safety of intranasal esketamine adjunctive to oral antidepressant therapy in treatment-resistant depression. JAMA Psychiatry, Chicago, v. 76, n. 9, p. 893–903, 2019.

GONÇALVES, J. P., Lucchetti, G., Menezes, P. R., & Vallada, H. (2015). Religious and spiritual interventions in mental health care: a systematic review and meta-analysis of randomized controlled clinical trials. Journal of Clinical Psychology, 71(10), 1023–1039.

JACKA, F. N. et al. A randomised controlled trial of dietary improvement for adults with major depression (SMILES). BMC Medicine, London, v. 15, n. 23, 2017.

KENNEDY, S. H. et al. Canadian Network for Mood and Anxiety Treatments (CANMAT) 2023 Clinical Guidelines for the Management of Major Depressive Disorder. Canadian Journal of Psychiatry, 2023.

LEFAUCHEUR, J.-P. et al. Evidence-based guidelines on the therapeutic use of repetitive transcranial magnetic stimulation (rTMS). Clinical Neurophysiology, Amsterdam, v. 131, n. 2, p. 474–528, 2020.

MALHI, G. S. et al. Royal Australian and New Zealand College of Psychiatrists clinical practice guidelines for mood disorders. Australian & New Zealand Journal of Psychiatry, v. 55, n. 1, p. 7–117, 2021.

NOETEL, M. et al. Effect of exercise for depression: systematic review and network meta-analysis. BMJ, London, v. 384, e075847, 2024.

RIEMANN, D. et al. European guideline for the diagnosis and treatment of insomnia. Journal of Sleep Research, v. 32, 2023.

 

 

 

O Inimigo Duplo da Noite: quando a Insônia e a Apneia do Sono Se Fundem (COMISA)

 

Imagine deitar-se na cama exausto, lutar por horas para conseguir pegar no sono e, quando finalmente adormece, acordar sufocado, com o coração acelerado e uma sensação incômoda de pânico. Esse cenário não é apenas fruto de um dia estressante. Para milhões de pessoas, trata-se de uma tempestade biológica perfeita conhecida pela sigla médica COMISA (Comorbid Insomnia and Sleep Apnea), ou Insônia Comórbida com Apneia Obstrutiva do Sono.

Quando essa condição atinge o nível grave, ela deixa de ser apenas uma noite mal dormida e passa a funcionar como um sério fator de risco para a saúde física e mental. A seguir, entenda como esse distúrbio duplo se desenvolve, quais são as suas ameaças silenciosas e o que a ciência recomenda fazer para recuperar a qualidade de vida.

 

O que é a COMISA Grave?

A COMISA ocorre quando um indivíduo apresenta, simultaneamente, dois dos distúrbios de sono mais comuns: a Insônia Crônica e a Apneia Obstrutiva do Sono (AOS).

  • A Insônia é caracterizada pela dificuldade em iniciar o sono, mantê-lo ao longo da noite ou por despertar antes da hora desejada, gerando prejuízos severos durante o dia.
  • A Apneia é um problema físico/anatômico em que os tecidos da garganta relaxam a ponto de obstruir a passagem do ar, gerando paradas respiratórias, quedas na oxigenação do sangue e roncos altos.

Dizer que a COMISA é grave significa que o paciente enfrenta o pior dos dois mundos em alta intensidade. As crises de sufocamento noturno ocorrem dezenas de vezes por hora e a incapacidade de adormecer ou permanecer dormindo impede que o corpo encontre qualquer momento de repouso.

 

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|                      O CÍRCULO VICIOSO DA COMISA                |

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|   1. A Apneia obstrui a respiração e gera microdespertares      |

|                             ↓                                   |

|   2. O cérebro entra em estado de alerta e hiperativação        |

|                             ↓                                   |

|   3. A Insônia se instala (medo de dormir e fragmentação)       |

|                             ↓                                   |

|   4. O cansaço extremo piora o relaxamento muscular noturno     |

|                             ↓                                   |

|   (Retorna ao ponto 1, agravando progressivamente o quadro)    |

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Como a Condição Evolui?

A relação entre a insônia e a apneia cria um ciclo vicioso alimentado por dois mecanismos principais:

  1. O Alerta de Sufocamento: Toda vez que a pessoa para de respirar devido à apneia, o cérebro envia uma descarga de adrenalina para acordá-la e reabrir as vias aéreas. Esses “microdespertares” fragmentam o sono. Com o tempo, o sistema nervoso fica em estado de hiperativação constante, disparando a insônia.
  2. A Ansiedade Condicionada: Sabendo que a noite será pontuada por engasgos e cansaço, o paciente passa a associar a cama ao estresse. A mente cria uma resistência biológica ao sono antes mesmo de apagar as luzes.

 

Os Perigos Ocultos da COMISA Grave

De acordo com estudos populacionais e revisões clínicas recentes de especialistas na área médica, a combinação desses distúrbios gera danos acumulados muito maiores do que cada um traria isoladamente.

  • Alto Risco Cardiovascular: A COMISA Grave está associada a um risco até três vezes maior de hipertensão arterial resistente (aquela que não diminui mesmo com o uso de vários remédios) e a um aumento substancial na mortalidade cardiovascular, como infartos e AVCs.
  • Aumento da Mortalidade Geral: Estudos de longo prazo apontam que pessoas com o quadro combinado de COMISA têm um risco 50% a 70% maior de mortalidade por causas gerais se comparadas a indivíduos sem as patologias.
  • Saúde Mental Debilitada: A privação extrema de sono desregula os neurotransmissores, elevando drasticamente os índices de depressão grave, crises de ansiedade e fadiga crônica debilitante.

 

Resumo Didático: Os Impactos Clínicos da COMISA Grave

  • Cardíacos: Pressão alta grave, infarto do miocárdio e AVC.
  • Cognitivos: Déficits severos de memória, falta de foco e cansaço diurno.
  • Psicológicos: Ansiedade generalizada e depressão crônica.
  • Tratamento: Alta taxa de rejeição ao CPAP (máscara de ar), já que o fluxo de ar e a máscara tendem a assustar ou despertar quem já sofre de insônia.

 

O Que Fazer? O Caminho do Tratamento Especializado

O tratamento da COMISA exige uma estratégia conjunta e integrada, pois tratar apenas uma das pontas pode piorar a outra. Por exemplo, usar remédios indutores de sono tradicionais (calmantes e benzodiazepínicos) para controlar a insônia pode relaxar ainda mais os músculos da garganta, agravando perigosamente a apneia.

As diretrizes médicas internacionais apontam para as seguintes linhas de cuidado:

  1. Terapia Cognitivo-Comportamental para Insônia (TCC-I): Considerada o padrão-ouro de tratamento. Trata-se de uma intervenção psicológica estruturada que ensina o cérebro a desassociar a cama do estresse, eliminando os gatilhos mentais da insônia sem o uso de medicamentos nocivos à respiração.
  2. Pressão Positiva Contínua nas Vias Aéreas (CPAP): O uso do aparelho com máscara que injeta ar sob pressão estabiliza a respiração e impede os sufocamentos. Em casos de COMISA, a TCC-I geralmente é aplicada antes ou junto ao CPAP para que o paciente consiga tolerar o aparelho sem ter crises de insônia.
  3. Novas Abordagens Farmacológicas: Atualmente, os médicos especialistas contam com medicações modernas (como os antagonistas de receptores de orexina) que ajudam a regular o sono sem afetar o drive respiratório do paciente.

 

Modificações no Estilo de Vida e Higiene do Sono

Embora não substituam o tratamento médico e clínico, as mudanças comportamentais servem como base de sustentação essencial para recuperar as noites de sono:

  • Controle de Posição na Cama: Evite dormir de barriga para cima. Essa posição faz com que a gravidade empurre a língua para trás, piorando as obstruções da apneia. Prefira dormir de lado.
  • Higiene do Sono Estrita: Mantenha horários fixos para deitar e levantar todos os dias da semana. O quarto deve ser mantido totalmente escuro, silencioso e com temperatura agradável.
  • Desconexão Digital: Desligue telas (smartphones, televisores e computadores) pelo menos uma hora antes de ir para a cama. A luz azul inibe a produção natural de melatonina.
  • Restrição de Substâncias Provocadoras: Elimine o consumo de bebidas alcoólicas e de sedativos nas horas que antecedem o repouso, pois eles relaxam a musculatura respiratória. Reduza o uso de cafeína após as 14h.
  • Gerenciamento de Peso: A perda de gordura corporal reduz o acúmulo de tecido na região do pescoço, diminuindo diretamente a severidade física da apneia obstrutiva.

 

Resumo Didático: Guia Rápido de Sobrevivência Noturna

  • Durma de lado: Diminui os engasgos da apneia.
  • Zere o álcool à noite: Evita o relaxamento excessivo da garganta.
  • Rotina rígida: Deite e levante rigorosamente nos mesmos horários.
  • Saia da cama se não dormir: Se passar de 20 minutos acordado, mude de ambiente e faça uma atividade calma sob luz baixa. Só volte quando o sono surgir.

 

⚠️ AVISO MÉDICO LEGAL (DISCLAIMER)

Este artigo possui caráter exclusivamente educativo e informativo. As informações aqui contidas não substituem, em hipótese alguma, a avaliação, o diagnóstico ou o tratamento médico especializado. Caso você se identifique com os sintomas descritos, ou suspeite que você ou um familiar sofra de COMISA, busque imediatamente atendimento de um médico especialista em Medicina do Sono ou de um Neurologista. Apenas profissionais qualificados, amparados por exames diagnósticos adequados como a Polissonografia, podem prescrever e acompanhar terapias seguras e eficazes para o seu caso.

 

Referências Bibliográficas

BAHR, K. et al. Comorbid Insomnia and Obstructive Sleep Apnea (COMISA). Applied Sciences, [S. l.], v. 11, n. 18, p. 8430, set. 2021. Disponível em: https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC8430469/. Acesso em: 22 jul. 2026.

ALGORITHM for Comorbid Insomnia and Sleep Apnea (COMISA). American Academy of Sleep Medicine (AASM) / Sleep Education, [S. l.], jan. 2024. Disponível em: https://sleepeducation.org/wp-content/uploads/2024/01/COMISA-Algorithm.pdf. Acesso em: 22 jul. 2026.

SWEETMAN, A. et al. Comorbid Insomnia and Sleep Apnea (COMISA): from research to clinical practice. ResearchGate, [S. l.], ago. 2025. Disponível em: https://www.researchgate.net/publication/390986856_Comorbid_Insomnia_and_Sleep_Apnea_COMISA_from_research_to_clinical_practice. Acesso em: 22 jul. 2026.

THE HIDDEN Burden of COMISA: Clinical Implications and Treatment Interventions. Springer / PubMed Central (PMC), [S. l.], nov. 2025. Disponível em: https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC12992872/. Acesso em: 22 jul. 2026.

CO-MORBID Insomnia and Sleep Apnea and Cardiovascular Consequences: Is the Whole Greater Than Each Part?. BRN Reviews, [S. l.], abr. 2026. Disponível em: https://brnreviews.com/en/2026/co-morbid-insomnia-and-sleep-apnea-and-cardiovascular-consequences-is-the-whole-greater-than-each-part/. Acesso em: 22 jul. 2026.

MANEJO da insônia em distúrbios respiratórios do sono. European Respiratory Review (Edição em Português), [S. l.], v. 28, n. 153, 2019. Disponível em: ersnet.org. Acesso em: 22 jul. 2026.

ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DO SONO (ABS). Consenso de Diagnóstico e Tratamento da Insônia em âmbito nacional. São Paulo: ABS, jul. 2024. Disponível em: https://absono.com.br/wp-content/uploads/2024/07/30332-Consenso-Brasileiro-de-Insonia.pdf. Acesso em: 22 jul. 2026.

Descobri um Nódulo na Tireoide. E Agora?

 

Receber o resultado de um ultrassom informando a presença de um nódulo na tireoide costuma assustar. Muitas pessoas associam imediatamente a palavra “nódulo” ao câncer. Felizmente, isso quase nunca acontece.

A boa notícia é que mais de 90% dos nódulos da tireoide são benignos, ou seja, não são câncer e, muitas vezes, sequer necessitam de tratamento. O desafio da medicina moderna é identificar corretamente o pequeno grupo de nódulos que merece investigação ou tratamento, evitando cirurgias desnecessárias (Haugen et al., 2016; Durante et al., 2018).

 

O que é a tireoide?

A tireoide é uma pequena glândula localizada na parte da frente do pescoço, logo abaixo do “pomo de Adão”. Ela produz os hormônios T3 e T4, responsáveis por controlar o metabolismo, a temperatura corporal, os batimentos cardíacos, o funcionamento do intestino, o gasto de energia e diversos outros processos do organismo.

Um nódulo é simplesmente uma área da glândula que cresceu de forma diferente do restante do tecido. Esse crescimento pode ser sólido, cheio de líquido (cístico) ou misto. Ter um nódulo não significa, por si só, que exista uma doença grave.

 

Quão frequentes são os nódulos?

Os nódulos da tireoide estão entre os achados mais comuns da endocrinologia. Quando o médico examina apenas o pescoço, consegue sentir nódulos em cerca de 4 a 7% dos adultos.

Entretanto, quando se realiza um ultrassom de alta resolução, pequenos nódulos podem ser encontrados em 20 a 70% da população adulta, especialmente após os 50 anos (Durante et al., 2018).

Isso significa que muitas pessoas convivem com nódulos durante toda a vida sem jamais apresentar qualquer problema.

 

Eles estão ficando mais frequentes?

Sim, mas existe uma explicação importante. Nas últimas décadas houve um aumento expressivo do número de diagnósticos de nódulos e também de câncer de tireoide.

Hoje sabemos que boa parte desse aumento ocorreu porque os exames de imagem ficaram muito mais sensíveis. Pequenos nódulos, que antigamente passavam despercebidos, passaram a ser encontrados durante ultrassonografias realizadas por outros motivos.

Curiosamente, apesar do aumento do número de diagnósticos, a mortalidade por câncer de tireoide permaneceu praticamente estável em muitos países, mostrando que muitos tumores descobertos atualmente apresentam comportamento pouco agressivo (Vaccarella et al., 2021).

Esse conhecimento mudou profundamente a forma como os médicos tratam essa doença.

 

Quem tem maior risco?

Os nódulos são muito mais comuns em:

  • mulheres;
  • pessoas acima dos 40 ou 50 anos;
  • indivíduos com deficiência de iodo (hoje menos frequente em países que utilizam sal iodado);
  • pessoas com história familiar de doenças da tireoide;
  • pacientes expostos à radiação na infância ou adolescência.

Ter um nódulo, entretanto, continua sendo muito mais comum do que desenvolver câncer.

 

Quais são os sintomas?

Na maioria das vezes, não existe sintoma algum. O nódulo costuma ser descoberto:

  • durante um ultrassom realizado por outro motivo;
  • em exames de check-up;
  • quando o próprio paciente percebe um pequeno caroço no pescoço;
  • durante o exame físico realizado pelo médico.

Quando maiores, alguns nódulos podem provocar:

  • sensação de pressão no pescoço;
  • dificuldade para engolir;
  • rouquidão persistente;
  • desconforto ao deitar;
  • sensação de “bolo na garganta”.

É importante lembrar que esses sintomas podem ocorrer também por diversas outras causas.

 

O nódulo altera o funcionamento da tireoide?

Na maioria das pessoas, não. Grande parte dos nódulos aparece em indivíduos com função hormonal normal.

Por isso, um dos primeiros exames solicitados costuma ser o TSH, que avalia como a tireoide está funcionando.

Quando o TSH está diminuído, pode haver um nódulo produtor de hormônios (“nódulo quente”), situação em que, muitas vezes, também é indicada uma cintilografia da tireoide (ATA, 2016).

 

Existe relação com doenças autoimunes?

Existe, mas ela não é obrigatória. A principal doença autoimune da tireoide é a tireoidite de Hashimoto.

Pessoas com Hashimoto podem apresentar nódulos, embora a maioria deles também seja benigna.

Alguns estudos sugerem discreto aumento do risco de carcinoma papilífero em pacientes com Hashimoto, mas essa associação ainda é motivo de discussão científica e não significa que todo paciente com tireoidite desenvolverá câncer (ETA, 2023).

 

Como o médico investiga um nódulo?

A avaliação começa com três etapas simples:

  1. História clínica

O médico pergunta sobre:

  • crescimento rápido;
  • rouquidão;
  • dificuldade para engolir;
  • exposição prévia à radioterapia;
  • casos de câncer de tireoide na família.
  1. Exame físico

Durante a consulta, observa-se:

  • tamanho da glândula;
  • consistência do nódulo;
  • mobilidade;
  • presença de linfonodos aumentados no pescoço.

Esses achados ajudam a definir o risco.

  1. Exames laboratoriais

O principal exame é o TSH.

Dependendo do caso, podem ser solicitados T4 livre, anticorpos antitireoidianos e calcitonina em situações específicas.

 

O ultrassom mudou completamente o diagnóstico

O exame mais importante para avaliar um nódulo é a ultrassonografia. Ela informa muito mais do que o tamanho do nódulo. O radiologista analisa características capazes de estimar o risco de malignidade, como:

  • se o nódulo é sólido ou cístico;
  • sua ecogenicidade (mais claro ou mais escuro);
  • presença de microcalcificações;
  • formato;
  • regularidade das bordas;
  • invasão de estruturas vizinhas;
  • alterações nos linfonodos do pescoço.

Hoje sabemos que essas características são muito mais importantes do que o tamanho isoladamente.

 

O que é o TI-RADS?

Para facilitar a interpretação dos exames, foi criado um sistema internacional chamado TI-RADS (Thyroid Imaging Reporting and Data System).

Ele funciona de maneira semelhante ao BI-RADS utilizado na mamografia.

Cada característica observada no ultrassom recebe uma pontuação.

No final, o nódulo é classificado em uma categoria de risco:

  • TR1 – benigno.
  • TR2 – praticamente benigno.
  • TR3 – baixo risco.
  • TR4 – risco intermediário.
  • TR5 – alta suspeita de malignidade.

É importante entender que TR5 não significa diagnóstico de câncer. Apenas indica que o nódulo merece investigação mais cuidadosa, geralmente com punção aspirativa, dependendo também do seu tamanho (Tessler et al., 2017).

 

Resumo prático

O que tranquiliza?

✔ Mais de 90% dos nódulos são benignos.

✔ Muitos nunca precisarão de cirurgia.

✔ O ultrassom é capaz de identificar com boa precisão quais nódulos apresentam maior risco.

✔ Nem todo nódulo precisa de punção.

Quando procurar um endocrinologista?

✔ Surgimento de um nódulo palpável.

✔ Crescimento perceptível do pescoço.

✔ Rouquidão persistente.

✔ Dificuldade para engolir.

✔ Histórico familiar de câncer de tireoide.

✔ Exposição à radiação durante a infância.

Na segunda parte veremos quando é necessário realizar a punção por agulha fina (PAAF), o que significa a classificação de Bethesda, quando a cirurgia é indicada, quais pacientes podem apenas ser acompanhados, o papel da radiofrequência, os avanços da medicina genômica e o que realmente funciona para cuidar da saúde da tireoide.

 

Disclaimer

Este artigo tem finalidade exclusivamente educativa e não substitui a consulta médica. A presença de um nódulo na tireoide não significa, necessariamente, câncer. A avaliação deve ser individualizada e realizada por profissional habilitado.

 

Referências

AMERICAN THYROID ASSOCIATION (ATA). HAUGEN, B. R. et al. 2015 American Thyroid Association Management Guidelines for Adult Patients with Thyroid Nodules and Differentiated Thyroid Cancer. Thyroid, v. 26, n. 1, p. 1-133, 2016.

DURANTE, C. et al. Long-term surveillance of benign thyroid nodules: ultrasonography behavior and clinical implications. JAMA, v. 313, n. 9, p. 926-935, 2015.

TESSLER, F. N. et al. ACR Thyroid Imaging, Reporting and Data System (ACR TI-RADS): White Paper of the ACR TI-RADS Committee. Journal of the American College of Radiology, v. 14, n. 5, p. 587-595, 2017.

VACCARELLA, S. et al. The impact of diagnostic changes on the rise in thyroid cancer incidence: a population-based study. The Lancet Diabetes & Endocrinology, v. 9, n. 5, p. 323-330, 2021.

EUROPEAN THYROID ASSOCIATION (ETA). 2023 European Thyroid Association Clinical Practice Guidelines for thyroid nodule management. European Thyroid Journal, 2023.

 

 

Nódulos da Tireoide – Parte 2

 

Como saber se um nódulo é benigno ou maligno?

Depois do ultrassom, a dúvida mais comum é: “Será que esse nódulo é câncer?”

Felizmente, a medicina dispõe hoje de excelentes ferramentas para responder a essa pergunta, e a maioria delas permite evitar cirurgias desnecessárias.

 

O ultrassom é o primeiro filtro

Como vimos na primeira parte, o ultrassom não serve apenas para medir o tamanho do nódulo. Ele analisa características que ajudam a estimar o risco de malignidade.

Por exemplo, um nódulo sólido, muito escuro (hipoecoico), com bordas irregulares, microcalcificações e formato “mais alto do que largo” desperta mais preocupação do que um nódulo cístico ou predominantemente líquido, de contornos regulares (Tessler et al., 2017; ETA, 2023).

É justamente a combinação dessas características que determina a classificação pelo ACR TI-RADS. Mas existe um detalhe importante: Nem todo nódulo classificado como TI-RADS 4 ou 5 é câncer.

Da mesma forma, nem todo nódulo precisa ser puncionado. O tamanho do nódulo e suas características são analisados em conjunto para decidir a melhor conduta.

 

O que é a punção da tireoide?

Quando o risco é considerado suficiente, o médico pode solicitar uma Punção Aspirativa por Agulha Fina (PAAF). Apesar do nome assustar, trata-se de um procedimento simples.

Com auxílio do ultrassom, uma agulha muito fina é introduzida no nódulo para retirar algumas células, que serão analisadas pelo patologista.

Na maioria das vezes:

  • não é necessário internamento;
  • não há necessidade de anestesia geral;
  • o procedimento dura poucos minutos;
  • o paciente retorna às suas atividades logo em seguida.

A PAAF tornou-se um dos exames mais importantes da endocrinologia moderna porque evita milhares de cirurgias desnecessárias todos os anos (Haugen et al., 2016).

 

O que é o Sistema Bethesda?

Depois da punção, o resultado não vem simplesmente como “benigno” ou “maligno”.

Os patologistas utilizam uma classificação internacional chamada Sistema Bethesda, que organiza os resultados em seis categorias.

Bethesda I

O material coletado foi insuficiente para análise.

Normalmente é necessário repetir a punção.

Bethesda II

Resultado benigno.

É a situação mais frequente.

O risco de câncer costuma ser inferior a 3%.

Na maioria dos casos, apenas acompanhamento periódico é suficiente.

Bethesda III

Resultado indeterminado.

Algumas células apresentam alterações, mas ainda não é possível afirmar se o nódulo é benigno ou maligno.

Dependendo do caso, pode-se repetir a punção, solicitar testes moleculares ou indicar cirurgia.

Bethesda IV

Sugere neoplasia folicular.

Também costuma exigir investigação adicional ou tratamento cirúrgico, pois apenas a análise completa do tecido permite diferenciar adenoma de carcinoma folicular.

Bethesda V

Alta suspeita de malignidade.

O risco de câncer é elevado.

Na maioria das vezes, a cirurgia é recomendada.

Bethesda VI

Maligno.

O diagnóstico citológico é compatível com câncer, geralmente carcinoma papilífero da tireoide.

 

Resumo prático do Bethesda

Categoria O que significa? Conduta habitual
I Material insuficiente Repetir PAAF
II Benigno Acompanhar
III Indeterminado Nova investigação
IV Suspeita de neoplasia folicular Geralmente cirurgia
V Alta suspeita de câncer Cirurgia
VI Câncer Tratamento cirúrgico

 

É importante lembrar que essa tabela representa a conduta mais comum. A decisão final depende da idade do paciente, do ultrassom, do tamanho do nódulo e de outros fatores clínicos.

 

O que são testes moleculares?

Nos últimos anos surgiu uma nova ferramenta para ajudar justamente nos casos em que a punção não fornece uma resposta definitiva.

São os chamados testes moleculares.

Eles pesquisam alterações genéticas nas células retiradas durante a punção.

Entre as mutações mais estudadas estão:

  • BRAF
  • RAS
  • RET
  • NTRK
  • TERT

Além disso, plataformas como ThyroSeq® e Afirma® analisam dezenas ou centenas de genes simultaneamente.

Seu principal objetivo não é descobrir todos os cânceres, mas evitar cirurgias desnecessárias em pacientes com resultados indeterminados da punção (NIKIFOROV, Y. E et al 2016; LIVHITS, M. J. et al 2021).

Hoje esses testes já fazem parte das diretrizes internacionais em situações específicas, embora ainda tenham custo elevado e disponibilidade limitada em muitos países.

 

Existem outros exames?

Na maioria dos pacientes, o ultrassom e a punção fornecem todas as informações necessárias.

Tomografia, ressonância magnética ou PET-CT raramente são utilizados na investigação inicial de um nódulo.

Quando o TSH está baixo, pode ser indicada uma cintilografia da tireoide, que ajuda a identificar os chamados nódulos quentes, produtores de hormônios.

Esses nódulos apresentam risco muito baixo de malignidade e costumam ser tratados por causa do hipertireoidismo, e não pelo risco de câncer (ATA, 2016).

 

Quais sinais merecem maior atenção?

Embora a maioria dos nódulos seja benigna, alguns sinais justificam investigação mais cuidadosa:

✔ crescimento rápido;

✔ rouquidão persistente;

✔ dificuldade progressiva para engolir;

✔ dificuldade para respirar;

✔ linfonodos aumentados no pescoço;

✔ história de radioterapia na infância;

✔ parentes de primeiro grau com câncer medular de tireoide ou síndromes hereditárias associadas.

Esses sinais não significam necessariamente câncer, mas indicam que a avaliação médica deve ser feita com maior atenção.

 

O que a ciência demonstra

✔ A ultrassonografia é o exame mais importante para estratificar o risco de um nódulo.

✔ A maioria das punções revela nódulos benignos.

✔ O Sistema Bethesda padronizou a interpretação da citologia e reduziu decisões desnecessárias.

✔ Os testes moleculares representam um dos maiores avanços dos últimos anos, principalmente para os nódulos de resultado indeterminado.

 

O que ainda é mais promessa do que evidência

✘ Que exames de sangue possam substituir a punção.

✘ Que inteligência artificial, sozinha, já consiga substituir o médico na interpretação dos nódulos.

✘ Que todos os testes genéticos estejam indicados para qualquer paciente.

Na próxima parte veremos quando um nódulo precisa ser operado, quando apenas o acompanhamento é suficiente e por que uma das maiores novidades da endocrinologia atual é justamente não operar alguns pequenos cânceres da tireoide.

 

Referências

AMERICAN THYROID ASSOCIATION (ATA). HAUGEN, B. R. et al. 2015 American Thyroid Association Management Guidelines for Adult Patients with Thyroid Nodules and Differentiated Thyroid Cancer. Thyroid, v. 26, n. 1, p. 1–133, 2016.

EUROPEAN THYROID ASSOCIATION (ETA). 2023 European Thyroid Association Clinical Practice Guidelines for Thyroid Nodule Management. European Thyroid Journal, 2023.

LIVHITS, M. J. et al. Effectiveness of Molecular Testing Techniques for Diagnosis of Indeterminate Thyroid Nodules: A Systematic Review and Meta-analysis. JAMA Oncology, 2021.

NIKIFOROV, Y. E.; SEETHALA, R. R.; TALLINI, G. et al. Nomenclature Revision for Encapsulated Follicular Variant of Papillary Thyroid Carcinoma: A Paradigm Shift to Reduce Overtreatment of Indolent Tumors. JAMA Oncology, v. 2, n. 8, p. 1023–1029, 2016.

TESSLER, F. N. et al. ACR Thyroid Imaging, Reporting and Data System (ACR TI-RADS): White Paper of the ACR TI-RADS Committee. Journal of the American College of Radiology, v. 14, n. 5, p. 587–595, 2017.

 

 

Nódulos da Tireoide – Parte IIB

Quando tratar, quando apenas acompanhar e as novidades que estão mudando a Endocrinologia

 

Durante muitos anos, descobrir um nódulo suspeito na tireoide quase sempre levava à cirurgia.Hoje, essa realidade mudou.

Graças a estudos realizados principalmente no Japão, Coreia do Sul, Europa e Estados Unidos, aprendemos que nem todos os nódulos precisam ser operados e nem todo câncer da tireoide exige tratamento imediato. Em muitos casos, observar cuidadosamente pode ser a melhor decisão (ATA, 2025).

 

Quando apenas acompanhar?

Se a punção demonstrar que o nódulo é benigno (Bethesda II), normalmente não há necessidade de tratamento. A recomendação costuma ser apenas acompanhamento periódico com ultrassonografia. A frequência depende das características do nódulo.

De forma geral:

  • nódulos muito estáveis podem ser reavaliados em 12 a 24 meses;
  • se permanecerem sem alterações importantes, os intervalos podem ser ampliados;
  • alguns nódulos pequenos e claramente benignos podem até deixar de necessitar acompanhamento regular, conforme avaliação médica (ETA, 2023).

Mais importante do que um pequeno aumento de tamanho é o aparecimento de novas características suspeitas ao ultrassom.

 

Quando repetir a punção?

Nem todo crescimento significa câncer. Na verdade, muitos nódulos benignos aumentam discretamente ao longo dos anos. A nova punção costuma ser indicada quando:

  • surgem características ultrassonográficas suspeitas;
  • ocorre crescimento significativo;
  • o primeiro exame foi inconclusivo;
  • existe discordância entre a punção e o ultrassom.

 

Quando a cirurgia é indicada?

A cirurgia continua sendo o melhor tratamento em diversas situações. Ela costuma ser recomendada quando:

  • a punção confirma câncer (Bethesda VI);
  • existe alta suspeita de malignidade (Bethesda V);
  • há suspeita de neoplasia folicular em situações selecionadas;
  • o nódulo provoca compressão importante da traqueia ou do esôfago;
  • há crescimento progressivo associado a sintomas;
  • o paciente prefere tratamento definitivo após discutir riscos e benefícios.

Dependendo do caso, pode ser retirada apenas metade da glândula (lobectomia) ou toda a tireoide (tireoidectomia total).

Hoje existe uma tendência mundial de preservar mais tecido tireoidiano sempre que isso for seguro, reduzindo a necessidade de reposição hormonal definitiva (ATA, 2025).

 

Como é a recuperação?

Na maioria dos pacientes, a cirurgia é bastante segura quando realizada por equipes experientes.

As complicações são pouco frequentes, mas podem incluir:

  • rouquidão temporária ou permanente;
  • queda do cálcio por alteração das paratireoides;
  • sangramento;
  • infecção (rara).

Felizmente, a grande maioria dos pacientes evolui muito bem.

 

Uma das maiores novidades: a vigilância ativa

Este talvez seja o conceito que mais mudou nos últimos anos.

Durante décadas, praticamente todo câncer da tireoide era operado logo após o diagnóstico.

Hoje sabemos que alguns microcarcinomas papilíferos, geralmente com até 1 cm, sem sinais de invasão ou metástases, apresentam crescimento extremamente lento.

Em pacientes cuidadosamente selecionados, as diretrizes atuais admitem que o tratamento inicial possa ser simplesmente acompanhar o tumor com ultrassonografias periódicas, adiando ou até evitando a cirurgia (ATA, 2025).

É importante destacar: isso não significa ignorar um câncer.

Significa observá-lo cuidadosamente, intervindo apenas se houver sinais de crescimento ou mudança de comportamento. Essa estratégia exige acompanhamento regular e decisão compartilhada entre médico e paciente.

 

Radiofrequência: uma alternativa à cirurgia?

Outra novidade importante é a ablação por radiofrequência (RFA). Nesse procedimento, uma agulha especial introduzida sob orientação ultrassonográfica aquece o interior do nódulo, destruindo parte do tecido sem necessidade de cirurgia.

Hoje, há consenso internacional de que a radiofrequência é uma excelente opção para nódulos benignos sintomáticos, principalmente quando provocam desconforto estético ou compressão. Ela costuma reduzir significativamente o volume do nódulo, preservando a função da tireoide e proporcionando recuperação mais rápida do que uma cirurgia.

Quanto aos pequenos cânceres papilíferos, a radiofrequência também vem sendo estudada com resultados promissores. As diretrizes mais recentes admitem seu uso em pacientes cuidadosamente selecionados, especialmente quando recusam cirurgia ou vigilância ativa, ou apresentam contraindicação ao tratamento cirúrgico. Entretanto, a cirurgia continua sendo o tratamento padrão na maioria dos casos, e a radiofrequência ainda deve ser indicada apenas por equipes experientes e após decisão compartilhada.

 

Medicina de precisão

Outro avanço importante foi o desenvolvimento dos testes moleculares. Hoje é possível pesquisar mutações como:

  • BRAF V600E
  • RAS
  • RET
  • NTRK
  • TERT

Essas informações ajudam principalmente quando a punção apresenta resultado indeterminado, permitindo selecionar melhor os pacientes que realmente se beneficiarão da cirurgia.

Apesar desse avanço, esses exames não substituem a avaliação clínica nem o ultrassom.

 

Existe relação com a microbiota intestinal?

A microbiota intestinal tem despertado enorme interesse em praticamente todas as áreas da medicina. No caso dos nódulos da tireoide, entretanto, as evidências ainda são iniciais.

Alguns estudos sugerem alterações no perfil da microbiota em pacientes com doenças tireoidianas, mas ainda não existe demonstração de que modificar a microbiota reduza nódulos ou previna câncer da tireoide. Por enquanto, trata-se de um campo promissor, porém experimental.

 

O estilo de vida pode ajudar?

Pode, embora não faça um nódulo desaparecer. As recomendações mais importantes continuam sendo:

  • alimentação equilibrada;
  • ingestão adequada (e não excessiva) de iodo;
  • cessar o tabagismo;
  • manter peso saudável;
  • praticar atividade física regularmente;
  • controlar doenças metabólicas;
  • evitar suplementação indiscriminada de iodo ou hormônios tireoidianos.

Essas medidas não eliminam um nódulo já formado, mas contribuem para a saúde geral e reduzem diversos fatores de risco.

 

Tratamentos complementares

É comum surgirem propostas de fitoterápicos, suplementos, acupuntura, ozonioterapia ou “dietas para dissolver nódulos”.

Até o momento, não existem evidências científicas robustas de que essas abordagens façam um nódulo benigno desaparecer ou previnam câncer de tireoide.

Algumas práticas integrativas podem contribuir para redução do estresse, melhora do bem-estar e qualidade de vida, mas devem ser vistas como complementares e jamais substituir o acompanhamento médico.

 

Mitos e verdades

“Todo nódulo é câncer.”
❌ Mito. Mais de 90% são benignos.

 

“Toda pessoa com câncer de tireoide precisa ser operada imediatamente.”
❌ Não necessariamente. Alguns microcarcinomas de baixo risco podem ser acompanhados com segurança em pacientes selecionados.

 

“Punção espalha o câncer.”
❌ Mito. A PAAF é considerada um procedimento seguro e não aumenta o risco de disseminação tumoral.

 

“Se o nódulo crescer um pouco, é porque virou câncer.”
❌ Nem sempre. Muitos nódulos benignos aumentam discretamente ao longo dos anos.

 

O que a ciência demonstra

✔ A maioria dos nódulos da tireoide é benigna.

✔ O ultrassom e a PAAF permitem excelente estratificação de risco.

✔ Nem todo nódulo precisa de cirurgia.

✔ A vigilância ativa é uma opção segura para pacientes cuidadosamente selecionados com microcarcinoma papilífero de baixo risco.

✔ A radiofrequência tornou-se uma alternativa consolidada para muitos nódulos benignos sintomáticos.

 

O que ainda é mais promessa do que evidência

✘ Dietas capazes de eliminar nódulos.

✘ Fitoterápicos que façam um nódulo desaparecer.

✘ Modulação da microbiota como tratamento dos nódulos tireoidianos.

✘ Testes genéticos indicados para todos os pacientes.

 

Mensagem final

Talvez a maior lição deixada pelos estudos mais recentes seja que a medicina moderna está cada vez mais personalizada. O objetivo já não é tratar todos os pacientes da mesma maneira, mas compreender o risco individual de cada nódulo e escolher a estratégia mais adequada para aquela pessoa. Em muitos casos, isso significa operar; em outros, significa apenas acompanhar. Saber diferenciar essas situações é um dos maiores avanços da endocrinologia nas últimas décadas.

 

Disclaimer

Este artigo tem finalidade exclusivamente educativa e não substitui avaliação médica. O diagnóstico e o tratamento dos nódulos da tireoide devem ser individualizados, levando em consideração a história clínica, o exame físico, os exames laboratoriais, a ultrassonografia, a citologia e as preferências do paciente.

 

Referências

AMERICAN THYROID ASSOCIATION. 2025 American Thyroid Association Management Guidelines for Adult Patients with Differentiated Thyroid Cancer. Thyroid, 2025.

HAUGEN, B. R. et al. 2015 American Thyroid Association Management Guidelines for Adult Patients with Thyroid Nodules and Differentiated Thyroid Cancer. Thyroid, v. 26, n. 1, p. 1-133, 2016.

EUROPEAN THYROID ASSOCIATION (ETA). 2023 European Thyroid Association Clinical Practice Guidelines for Thyroid Nodule Management. European Thyroid Journal, 2023.

SINCLAIR, C. F. et al. General Principles for the Safe Performance, Training, and Adoption of Ablation Techniques for Benign Thyroid Nodules: An American Thyroid Association Statement. Thyroid, v. 33, n. 10, 2023.

ORLOFF, L. A. et al. Radiofrequency Ablation and Related Ultrasound-Guided Ablation Technologies for Treatment of Benign and Malignant Thyroid Disease: An International Multidisciplinary Consensus Statement. Head & Neck, v. 44, p. 633-660, 2022.

2024 International Expert Consensus on Ultrasound-Guided Thermal Ablation for T1N0M0 Papillary Thyroid Cancer. Radiology, 2025 (consenso internacional publicado eletronicamente com atualização de 2025).

 

 

 

Quando a Pressão Alta Vem de uma Glândula: Conheça o Hiperaldosteronismo Primário

 

 

A maioria das pessoas acredita que toda pressão alta é consequência do excesso de sal, do estresse, da herança familiar ou do envelhecimento. Embora isso seja verdade em muitos casos, existe uma causa que costuma passar despercebida e que, em algumas pessoas, pode até ser curada: o hiperaldosteronismo primário (HAP).

Trata-se de uma doença das glândulas suprarrenais (também chamadas de adrenais), pequenas estruturas localizadas acima dos rins, responsáveis pela produção de diversos hormônios importantes para o organismo.

Hoje, o hiperaldosteronismo primário é reconhecido como a causa hormonal mais comum de hipertensão arterial secundária, ou seja, aquela em que existe uma doença específica provocando a elevação da pressão arterial (Adler et al., 2025).

 

O que acontece nessa doença?

As glândulas suprarrenais produzem um hormônio chamado aldosterona. Sua principal função é ajudar o organismo a controlar a quantidade de sódio, potássio e água no corpo.

Quando tudo funciona normalmente, a produção desse hormônio aumenta ou diminui conforme a necessidade.

No hiperaldosteronismo primário, entretanto, uma ou ambas as glândulas passam a produzir aldosterona em excesso, mesmo quando o organismo não precisa.

Esse excesso faz com que os rins retenham sódio e água e eliminem mais potássio pela urina. Como consequência, ocorre aumento do volume de sangue circulante e da pressão arterial.

Além disso, sabe-se hoje que a aldosterona em excesso não apenas aumenta a pressão, mas também exerce efeitos diretos sobre o coração, os vasos sanguíneos e os rins, favorecendo inflamação, fibrose e lesões desses órgãos (Yang et al., 2024).

 

É uma doença rara?

Surpreendentemente, não. Durante muitos anos acreditou-se que fosse uma condição incomum. Hoje sabemos que ela é muito mais frequente do que se imaginava.

As diretrizes mais recentes da Endocrine Society estimam que o hiperaldosteronismo esteja presente em cerca de 5% a 14% das pessoas com hipertensão atendidas na atenção primária, podendo atingir até 30% dos pacientes com hipertensão resistente, aquela que permanece elevada apesar do uso de vários medicamentos (Adler et al., 2025).

Isso significa que milhões de pessoas podem apresentar essa doença sem saber.

 

Quem tem maior risco?

A doença pode surgir em qualquer idade, mas é mais frequentemente diagnosticada entre 30 e 60 anos.

Ela deve ser especialmente lembrada em pessoas que apresentam:

  • pressão alta de difícil controle;
  • necessidade de três ou mais medicamentos para controlar a pressão;
  • pressão muito alta antes dos 40 anos;
  • queda do potássio no sangue sem explicação aparente;
  • nódulo em uma das glândulas suprarrenais descoberto em exames de imagem;
  • histórico familiar de hipertensão grave ou acidente vascular cerebral (AVC) em idade precoce.

Curiosamente, muitas pessoas apresentam níveis normais de potássio. Ou seja, ter potássio normal não exclui a doença, um conceito que mudou bastante nos últimos anos (Adler et al., 2025).

Quais são os sintomas?

Em muitos casos, o único sinal é a própria hipertensão.

Quando presentes, os sintomas costumam estar relacionados à perda excessiva de potássio e podem incluir:

  • fraqueza muscular;
  • cansaço;
  • câimbras frequentes;
  • palpitações;
  • sede excessiva;
  • aumento da quantidade de urina;
  • formigamentos.

Em situações mais graves, níveis muito baixos de potássio podem provocar arritmias cardíacas potencialmente perigosas.

 

Quais são as causas?

As duas causas mais comuns são:

Adenoma produtor de aldosterona – um pequeno tumor benigno em uma das glândulas suprarrenais.

Hiperplasia adrenal bilateral – aumento da produção hormonal pelas duas glândulas, sem formação de um tumor único.

Mais recentemente, a medicina descobriu que muitos adenomas apresentam mutações adquiridas em genes como KCNJ5, CACNA1D, ATP1A1 e ATP2B3, responsáveis por alterar o funcionamento das células da adrenal e estimular a produção exagerada de aldosterona. Essas descobertas abriram novas perspectivas para a medicina de precisão, embora ainda não façam parte da rotina clínica da maioria dos pacientes (Adler et al., 2025).

 

Existe relação com doenças autoimunes?

Ao contrário de outras doenças hormonais, como diabetes tipo 1 ou tireoidite de Hashimoto, o hiperaldosteronismo primário não é considerado uma doença autoimune.

Na maioria dos casos, sua origem está relacionada a alterações benignas da própria glândula suprarrenal ou a mutações adquiridas em suas células.

 

Como os médicos fazem o diagnóstico?

A investigação começa com um exame de sangue relativamente simples.

São dosados dois hormônios:

  • aldosterona;
  • renina.

 

A relação entre eles — conhecida como relação aldosterona/renina (RAR) — é atualmente o principal exame de rastreamento recomendado pelas sociedades médicas internacionais (Adler et al., 2025).

Quando o resultado sugere hiperaldosteronismo, normalmente são realizados exames confirmatórios e, posteriormente, tomografia das suprarrenais. Em muitos pacientes também é necessário um exame especializado chamado cateterismo das veias adrenais, considerado o método mais preciso para identificar se o excesso hormonal está vindo de apenas uma glândula ou das duas (Farah et al., 2025).

 

Um resumo prático

Você deve conversar com seu médico sobre a possibilidade de hiperaldosteronismo primário se apresentar:

✔ Pressão alta antes dos 40 anos.

✔ Hipertensão resistente ao tratamento.

✔ Uso de três ou mais medicamentos para controlar a pressão.

✔ Potássio baixo.

✔ Nódulo na adrenal.

✔ Histórico familiar de AVC ou hipertensão grave em idade precoce.

O reconhecimento precoce da doença é importante porque, diferentemente da hipertensão comum, o hiperaldosteronismo primário possui tratamento específico e, em muitos casos, pode ser controlado de forma muito mais eficaz ou até mesmo curado quando a causa é um adenoma localizado.

 

(Continua na Parte II: tratamento, cirurgia, medicamentos, estilo de vida, mitos, novidades da genética e o que realmente diz a ciência.)

 

Disclaimer

Este artigo tem finalidade exclusivamente educativa e não substitui a consulta médica. Pressão alta persistente, especialmente quando de difícil controle ou acompanhada de alterações no potássio, deve ser investigada por um médico. Nunca interrompa ou modifique medicamentos por conta própria.

 

Referências

ADLER, G. K. et al. Primary Aldosteronism: An Endocrine Society Clinical Practice Guideline. The Journal of Clinical Endocrinology & Metabolism, v. 110, n. 9, p. 2453–2495, 2025.

FARAH, M. H. et al. A Systematic Review Supporting the Endocrine Society Clinical Practice Guideline on Management of Primary Aldosteronism. The Journal of Clinical Endocrinology & Metabolism, v. 110, n. 9, p. e2833–e2844, 2025.

YANG, J. et al. Challenges in Diagnosing and Managing the Spectrum of Primary Aldosteronism. Journal of the Endocrine Society, v. 8, n. 7, 2024.

 

 

Quando a Pressão Alta Vem de uma Glândula: Conheça o Hiperaldosteronismo Primário – Parte II

 

Tem tratamento? Na maioria dos casos, sim.

A boa notícia é que o hiperaldosteronismo primário está entre as causas de hipertensão com tratamento mais específico. Em muitos pacientes, controlar a produção excessiva de aldosterona melhora significativamente a pressão arterial e reduz o risco de infarto, acidente vascular cerebral (AVC), insuficiência cardíaca, fibrilação atrial e doença renal crônica (Adler et al., 2025).

O tratamento depende da causa da doença.

 

Quando a alteração está em apenas uma glândula

Se os exames mostrarem que apenas uma glândula suprarrenal está produzindo aldosterona em excesso — geralmente por causa de um pequeno adenoma benigno — a cirurgia para retirada dessa glândula (adrenalectomia laparoscópica) costuma ser o tratamento de escolha.

Em muitos pacientes, a pressão arterial melhora de forma importante após a cirurgia. Alguns deixam de precisar de medicamentos; outros continuam usando remédios, mas em menor quantidade e com melhor controle da pressão (Farah et al., 2025).

 

Quando as duas glândulas produzem aldosterona em excesso

Quando o problema envolve ambas as suprarrenais, a cirurgia normalmente não é indicada.

Nesses casos, o tratamento é feito com medicamentos chamados antagonistas do receptor mineralocorticoide, que bloqueiam a ação da aldosterona.

Os mais utilizados são:

  • Espironolactona;
  • Eplerenona.

Esses medicamentos reduzem a pressão arterial, ajudam a normalizar os níveis de potássio e diminuem os danos causados pelo excesso de aldosterona ao coração, aos vasos sanguíneos e aos rins (Adler et al., 2025).

 

O estilo de vida continua sendo importante?

Sim. Embora não elimine a produção excessiva de aldosterona, um estilo de vida saudável potencializa os resultados do tratamento.

As principais recomendações incluem:

  • reduzir o consumo de sal;
  • manter peso adequado;
  • praticar atividade física regularmente;
  • evitar o tabagismo;
  • limitar o consumo de bebidas alcoólicas;
  • tratar adequadamente a apneia obstrutiva do sono, quando presente.

Essas medidas ajudam no controle da pressão arterial e reduzem o risco cardiovascular global.

 

Existe algum tratamento complementar?

Muitos pacientes perguntam sobre acupuntura, fitoterápicos, suplementos ou terapias naturais.

Até o momento, não existem evidências científicas robustas de que essas abordagens reduzam a produção de aldosterona ou substituam o tratamento convencional.

Algumas práticas, como atividade física supervisionada, técnicas de relaxamento, meditação e manejo do estresse, podem contribuir para o bem-estar e auxiliar no controle da pressão arterial como um todo, mas não tratam o hiperaldosteronismo primário (ESH Task Force, 2024).

Da mesma forma, não há estudos clínicos de boa qualidade demonstrando benefício específico de fitoterápicos, hidroterapia ou acupuntura para essa doença.

 

Quais são os principais mitos?

“Minha pressão alta é apenas nervosismo.”

Nem sempre. Quando a pressão permanece elevada apesar do tratamento ou surge muito cedo, é importante investigar causas hormonais.

“Se meu potássio está normal, não posso ter hiperaldosteronismo.”

Mito.

Hoje sabemos que uma parcela significativa dos pacientes apresenta potássio normal no momento do diagnóstico (Adler et al., 2025).

“Se eu operar, nunca mais terei pressão alta.”

Nem sempre.

A cirurgia corrige a produção excessiva de aldosterona, mas alguns pacientes continuam hipertensos devido a outros fatores, como predisposição genética, envelhecimento ou lesões vasculares já estabelecidas.

 

Quais doenças podem se parecer com o hiperaldosteronismo?

O médico também considera outras causas de hipertensão secundária, entre elas:

  • estenose da artéria renal;
  • síndrome de Cushing;
  • feocromocitoma;
  • doenças da tireoide;
  • apneia obstrutiva do sono;
  • uso de medicamentos como corticoides e anticoncepcionais em situações específicas.

Por isso, o diagnóstico deve ser individualizado.

 

Existem situações de emergência?

O hiperaldosteronismo primário raramente provoca uma emergência por si só.

Entretanto, níveis muito baixos de potássio podem favorecer:

  • arritmias cardíacas;
  • fraqueza muscular intensa;
  • paralisia muscular;
  • alterações importantes do ritmo cardíaco.

Além disso, a hipertensão não tratada aumenta o risco de complicações graves, como infarto, AVC e insuficiência cardíaca.

 

O que há de novo na ciência?

Nos últimos anos, os avanços mais importantes ocorreram em três áreas.

  1. Mais pessoas estão sendo diagnosticadas

As novas diretrizes recomendam ampliar o rastreamento em pacientes com hipertensão resistente, hipertensão de início precoce, hipocalemia e nódulos na suprarrenal. Isso tem aumentado o reconhecimento da doença (Adler et al., 2025).

  1. Medicina genômica

Pesquisas identificaram mutações em genes como KCNJ5, CACNA1D, ATP1A1 e ATP2B3, que ajudam a explicar por que alguns adenomas produzem grandes quantidades de aldosterona. Embora esses testes ainda não façam parte da rotina clínica, eles abrem caminho para abordagens mais individualizadas no futuro (Yang et al., 2024).

  1. Danos além da pressão arterial

Hoje sabemos que o excesso de aldosterona causa lesões diretas no coração, nos vasos e nos rins, mesmo quando a pressão arterial parece relativamente controlada. Isso reforça a importância de diagnosticar e tratar precocemente a doença (Adler et al., 2025).

Até o momento, não existem evidências consistentes de que alterações da microbiota intestinal desempenhem papel direto no desenvolvimento do hiperaldosteronismo primário. Essa área permanece em investigação, mas ainda não há aplicações clínicas.

 

Uma nova forma de entender o hiperaldosteronismo

Hoje, em julho de 2026, parece haver uma mudança importante de perspectiva em relação ao que se ensinava há 10 ou 15 anos: o hiperaldosteronismo provavelmente não é uma doença “tudo ou nada”. Durante muito tempo, acreditava-se que as pessoas ou tinham a doença claramente estabelecida, com níveis muito elevados de aldosterona e pressão alta difícil de controlar, ou simplesmente não a tinham. Pesquisas mais recentes sugerem que a realidade pode ser mais complexa. Alguns indivíduos aparentemente classificados como portadores de “hipertensão comum” podem apresentar formas leves ou iniciais de produção inadequada de aldosterona, suficientes para contribuir para a elevação da pressão arterial, mas não o bastante para preencher os critérios clássicos da doença (Adler et al., 2025; Rossi et al., 2025).

Se essa hipótese continuar sendo confirmada pelos estudos, ela poderá mudar a forma como a medicina investiga e trata a hipertensão arterial nas próximas décadas. No entanto, é importante destacar que essa ainda é uma área em evolução. As principais sociedades médicas já reconhecem esse conceito como promissor, mas ainda não recomendam ampliar o diagnóstico ou modificar o tratamento com base apenas nessa nova visão. Em outras palavras, trata-se de uma das descobertas mais interessantes da endocrinologia atual, porém ainda em processo de consolidação científica.

 

O que a ciência demonstra

✔ O hiperaldosteronismo primário é uma das causas mais comuns de hipertensão secundária.

✔ Muitas pessoas permanecem sem diagnóstico por vários anos.

✔ O tratamento reduz significativamente o risco cardiovascular.

✔ Em casos selecionados, a cirurgia pode proporcionar remissão da doença.

✔ O bloqueio da ação da aldosterona protege coração, rins e vasos sanguíneos.

 

O que ainda é mais promessa do que evidência

✘ Que suplementos, fitoterápicos ou “detox” possam tratar o hiperaldosteronismo.

✘ Que acupuntura reduza a produção de aldosterona.

✘ Que mudanças na microbiota intestinal sejam um tratamento comprovado para essa doença.

✘ Que toda pessoa com pressão alta deva realizar investigação extensa para hiperaldosteronismo. O rastreamento deve seguir critérios clínicos estabelecidos pelas diretrizes.

 

Mensagem final

O hiperaldosteronismo primário é um excelente exemplo de como a medicina evoluiu nas últimas décadas. O que antes era considerado uma doença rara hoje é reconhecido como uma causa relativamente frequente de hipertensão arterial, especialmente nos casos de difícil controle.

A boa notícia é que, quando identificado precocemente, ele pode ser tratado de forma eficaz e, em muitos pacientes, até mesmo curado. Por isso, pessoas com hipertensão resistente, pressão alta em idade jovem, potássio baixo ou histórico familiar sugestivo devem conversar com seu médico sobre a possibilidade de investigação.

Reconhecer essa doença pode representar muito mais do que controlar a pressão arterial: pode significar reduzir o risco de infarto, AVC, insuficiência cardíaca e doença renal ao longo da vida.

 

Disclaimer

Este artigo tem finalidade exclusivamente educativa e não substitui a consulta médica. O diagnóstico e o tratamento do hiperaldosteronismo primário exigem avaliação individualizada por profissional habilitado. Nunca interrompa ou altere medicamentos por conta própria.

 

Referências

ADLER, G. K. et al. Primary Aldosteronism: An Endocrine Society Clinical Practice Guideline. The Journal of Clinical Endocrinology & Metabolism, v. 110, n. 9, p. 2453–2495, 2025.

FARAH, M. H. et al. A Systematic Review Supporting the Endocrine Society Clinical Practice Guideline on Management of Primary Aldosteronism. The Journal of Clinical Endocrinology & Metabolism, v. 110, n. 9, p. e2833–e2844, 2025.

YANG, J. et al. Challenges in Diagnosing and Managing the Spectrum of Primary Aldosteronism. Journal of the Endocrine Society, v. 8, n. 7, 2024.

MANCIA, G. et al. 2024 European Society of Hypertension Guidelines for the Management of Arterial Hypertension. Journal of Hypertension, 2024.

Rossi, G. P. et al. The Unmet Needs in Primary Aldosteronism: From Screening to Targeted Therapy. Hypertension, v. 82, 2025.

Cortisol baixo e Doença de Addison – quando a energia se esvai pela queda do cortisol

 

Conheça os sinais, entenda as causas e saiba por que o diagnóstico precoce pode salvar vidas

 

Qual a diferença entre hipocortisolismo e Doença de Addison

Para explicar a diferença entre o hipocortisolismo e a Doença de Addison, os médicos costumam usar a metáfora da lâmpada e do interruptor.

Imagine que o cortisol é a luz que ilumina e dá energia ao corpo. O hipocortisolismo é simplesmente a escuridão: o termo médico para dizer que falta luz no organismo. Mas a escuridão pode acontecer porque a lâmpada queimou ou porque o interruptor na parede quebrou.

É aí que entra a Doença de Addison. Ela ocorre quando a “lâmpada” (a glândula suprarrenal) é completamente destruída, geralmente por um ataque do próprio sistema imunológico.

Quando o problema é em Addison, a falta de cortisol vem acompanhada da perda de outros hormônios vitais, como a aldosterona, o que desregula a pressão arterial e os sais do corpo. Por outro lado, o hipocortisolismo genérico pode ser apenas um “interruptor desligado” — como acontece quando o cérebro (a hipófise) deixa de mandar o estímulo correto, ou quando o uso prolongado de corticoides em comprimido faz a glândula “dormir”.

Em resumo: todo paciente com Doença de Addison tem hipocortisolismo, mas nem todo hipocortisolismo é Addison. Enquanto o primeiro termo descreve o sintoma final, o segundo dá nome e sobrenome à falha direta na fábrica de hormônios.

Aqui está o resumo prático para fixar os conceitos:

Característica Hipocortisolismo (Geral) Doença de Addison (Insuficiência adrenal primária)
O que significa? É o estado de falta de cortisol no corpo. É a destruição física da glândula suprarrenal.
Onde está o defeito? Na glândula, no cérebro ou induzido por remédios. Exclusivamente na própria glândula suprarrenal.
Falta mais algum hormônio? Geralmente não, apenas o cortisol é afetado. Sim. Falta cortisol e também a aldosterona.
Sintoma visual clássico A pele mantém a coloração normal. Hiperpigmentação (pele e gengivas escurecidas).
Causa mais comum Uso e interrupção abrupta de corticoides. Ataque autoimune contra a glândula.

 

 

Disclaimer

Este artigo tem finalidade exclusivamente educativa e não substitui a consulta médica. Sintomas como fadiga intensa, perda de peso, pressão baixa ou escurecimento da pele podem estar relacionados a diversas doenças, e somente uma avaliação médica, associada aos exames adequados, permite estabelecer o diagnóstico correto. Nunca interrompa ou inicie o uso de corticoides por conta própria.

 

Uma doença rara, mas muito importante

Imagine que seu organismo possua uma espécie de “gerenciador de crises”. Sempre que você enfrenta um desafio — uma infecção, uma cirurgia, um trauma, um período de estresse intenso ou até mesmo uma noite mal dormida — esse sistema entra em ação para manter a pressão arterial, controlar o açúcar no sangue, regular a resposta inflamatória e fornecer energia às células.

O principal responsável por esse trabalho é um hormônio chamado cortisol, produzido pelas glândulas suprarrenais (também chamadas adrenais), localizadas acima dos rins.

Na Doença de Addison, também conhecida como insuficiência adrenal primária, essas glândulas deixam de produzir quantidades suficientes de cortisol e, frequentemente, também de aldosterona, outro hormônio essencial para o equilíbrio do sódio, do potássio e da pressão arterial (Bornstein et al., 2016).

Embora seja considerada uma doença rara, seu reconhecimento é extremamente importante. Sem tratamento, a deficiência hormonal pode evoluir para uma crise adrenal, uma emergência médica potencialmente fatal. Felizmente, quando diagnosticada precocemente e tratada corretamente, a maioria dos pacientes pode levar uma vida longa, ativa e produtiva.

 

Como o cortisol trabalha no organismo?

O cortisol costuma ser conhecido como o “hormônio do estresse”. A expressão é verdadeira, mas incompleta.

Na realidade, ele é um dos hormônios mais importantes para a sobrevivência humana. Entre suas principais funções estão:

  • manter a pressão arterial;
  • ajudar no controle da glicemia;
  • permitir que o organismo utilize gorduras, proteínas e carboidratos como fonte de energia;
  • modular a resposta inflamatória e imunológica;
  • contribuir para o funcionamento do cérebro, da memória e do humor;
  • preparar o organismo para enfrentar situações de maior demanda física.

Sua produção é cuidadosamente controlada por um sistema conhecido como eixo hipotálamo-hipófise-adrenal, no qual o cérebro monitora continuamente a necessidade de cortisol e envia sinais para que as suprarrenais produzam exatamente a quantidade necessária.

Em pessoas saudáveis, esse sistema funciona como um termostato hormonal: produz pouco quando tudo está tranquilo e aumenta rapidamente a produção durante doenças, cirurgias ou outros eventos estressantes.

 

O que acontece quando o cortisol falta?

Quando as suprarrenais deixam de produzir cortisol, praticamente todos os sistemas do organismo são afetados.

A produção de glicose torna-se menos eficiente, favorecendo episódios de hipoglicemia, especialmente em crianças e pessoas mais magras. A pressão arterial tende a cair porque os vasos sanguíneos respondem menos aos mecanismos que normalmente mantêm sua contração. A pessoa sente um cansaço desproporcional aos esforços realizados, perde força muscular e pode apresentar perda de peso importante.

Na Doença de Addison, além do cortisol, geralmente também há deficiência de aldosterona, hormônio responsável por reter sódio e eliminar potássio pelos rins.

Como consequência:

  • ocorre perda de sódio pela urina;
  • o organismo perde água;
  • a pressão arterial diminui;
  • o potássio tende a aumentar;
  • surge intensa vontade de consumir alimentos salgados.

Esse conjunto de alterações explica boa parte dos sintomas da doença (Bornstein et al., 2016; Husebye et al., 2021).

 

Resumo Prático

Sem cortisol, o organismo apresenta dificuldade para:

✔ manter a pressão arterial;

✔ controlar a glicemia;

✔ produzir energia suficiente;

✔ responder ao estresse físico;

✔ regular adequadamente a inflamação.

 

Sem aldosterona, ocorre:

✔ perda de sal;

✔ desidratação;

✔ queda da pressão arterial;

✔ aumento do potássio;

✔ desejo intenso por alimentos salgados.

 

Quem pode desenvolver a Doença de Addison?

A insuficiência adrenal primária pode surgir em qualquer idade, inclusive na infância, mas é diagnosticada com maior frequência entre os 30 e 50 anos. A doença acomete homens e mulheres, embora algumas séries mostrem discreto predomínio no sexo feminino, provavelmente porque sua principal causa é uma doença autoimune, condição mais frequente nas mulheres (Husebye et al., 2021).

Sua prevalência é estimada entre 100 e 140 casos por milhão de habitantes, caracterizando-a como uma doença rara. Apesar disso, acredita-se que parte dos casos permaneça sem diagnóstico durante meses ou anos, pois os sintomas iniciais são inespecíficos e frequentemente atribuídos ao estresse, depressão, anemia, fibromialgia ou síndrome da fadiga crônica (Bornstein et al., 2016).

 

Quais são as principais causas?

Antigamente, a tuberculose era a principal causa da Doença de Addison. Com o controle dessa infecção em muitos países, esse cenário mudou.

Hoje, cerca de 80% a 90% dos casos em países desenvolvidos decorrem de uma adrenalite autoimune. Nessa condição, o sistema imunológico passa a produzir anticorpos que atacam lentamente as células do córtex adrenal, reduzindo progressivamente a produção hormonal (Bornstein et al., 2016).

Outras causas incluem:

  • tuberculose adrenal;
  • infecções fúngicas;
  • hemorragia das suprarrenais;
  • metástases de diversos tipos de câncer;
  • doenças infiltrativas, como amiloidose e hemocromatose;
  • adrenoleucodistrofia (mais comum em homens jovens);
  • alterações genéticas raras;
  • remoção cirúrgica das suprarrenais.

 

Uma doença que frequentemente não vem sozinha

Por ser predominantemente autoimune, a Doença de Addison pode fazer parte das chamadas Síndromes Poliglandulares Autoimunes, nas quais diferentes glândulas endócrinas são acometidas pelo mesmo mecanismo imunológico.

As associações mais frequentes incluem:

  • tireoidite de Hashimoto;
  • doença de Graves;
  • diabetes mellitus tipo 1;
  • doença celíaca;
  • anemia perniciosa;
  • vitiligo;
  • insuficiência ovariana primária.

Por esse motivo, uma pessoa diagnosticada com Addison deve ser periodicamente investigada para outras doenças autoimunes, assim como indivíduos portadores dessas doenças devem ter seus sintomas cuidadosamente avaliados caso surja suspeita de insuficiência adrenal (Betterle; Dal Pra; Mantero, 2002; Bornstein et al., 2016).

 

Quais são os sintomas?

A instalação costuma ser lenta e progressiva.

Os primeiros sintomas podem ser discretos e facilmente confundidos com excesso de trabalho, envelhecimento ou estresse.

Os mais comuns incluem:

  • fadiga persistente;
  • fraqueza muscular;
  • perda de peso involuntária;
  • diminuição do apetite;
  • náuseas;
  • dor abdominal;
  • tontura ao levantar;
  • pressão arterial baixa;
  • desejo intenso por alimentos salgados.

Um dos sinais mais característicos da Doença de Addison é o escurecimento da pele (hiperpigmentação), principalmente nas cicatrizes, cotovelos, joelhos, pregas das mãos, gengivas e mucosa da boca. Esse fenômeno ocorre porque a deficiência de cortisol leva a um aumento da produção de ACTH pela hipófise. O ACTH é derivado da mesma molécula que origina o hormônio estimulador dos melanócitos (MSH), responsável por estimular a produção de melanina, o pigmento que confere cor à pele (Bornstein et al., 2016).

Nem todos os pacientes apresentam esse sinal, mas quando ele está presente, associado à fadiga e à hipotensão, deve despertar forte suspeita diagnóstica.

 

Resumo Prático: quando pensar em Doença de Addison?

Considere essa possibilidade quando houver:

  • fadiga intensa e persistente sem explicação;
  • perda de peso involuntária;
  • pressão arterial baixa, especialmente com tonturas ao levantar;
  • desejo frequente por alimentos salgados;
  • náuseas e desconforto abdominal recorrentes;
  • escurecimento da pele ou das mucosas;
  • hiponatremia ou hipercalemia sem causa evidente;
  • presença de outras doenças autoimunes.

Muitas vezes, nenhum desses sinais isoladamente chama atenção. Entretanto, a combinação de vários deles aumenta significativamente a probabilidade do diagnóstico, justificando uma investigação específica.

 

Na Parte II, veremos como confirmar o diagnóstico, interpretar corretamente o cortisol e o ACTH, quando solicitar o teste de estímulo com cosintropina, os principais diagnósticos diferenciais, o tratamento, a crise adrenal, as orientações essenciais ao paciente, o papel do estilo de vida e as atualidades científicas, incluindo os avanços em genética, imunologia e microbiota intestinal.

 

Referências 

BETTERLE, C.; DAL PRA, C.; MANTERO, F. Autoimmune adrenal insufficiency and autoimmune polyendocrine syndromes: autoantibodies, autoantigens, and their applicability in diagnosis and disease prediction. Endocrine Reviews, Washington, v. 23, n. 3, p. 327–364, 2002.

BORNSTEIN, S. R. et al. Diagnosis and treatment of primary adrenal insufficiency: an Endocrine Society Clinical Practice Guideline. Journal of Clinical Endocrinology & Metabolism, Oxford, v. 101, n. 2, p. 364–389, 2016.

HUSEBYE, E. S. et al. Consensus statement on the diagnosis, treatment and follow-up of patients with primary adrenal insufficiency. Journal of Internal Medicine, Hoboken, v. 290, n. 1, p. 26–44, 2021

 

 

Parte II-A – Como é feito o diagnóstico e qual é o tratamento?

Na primeira parte deste artigo, vimos que a Doença de Addison é uma insuficiência das glândulas suprarrenais, geralmente causada por um processo autoimune, que impede a produção adequada de cortisol e, frequentemente, também de aldosterona. Nesta segunda parte, entenderemos como o médico confirma o diagnóstico, quais exames são realmente úteis e como é realizado o tratamento.

 

Como suspeitar da doença?

Embora seja considerada rara, a Doença de Addison não é excepcional. O maior desafio é que seus sintomas costumam surgir lentamente e podem ser confundidos com diversas outras condições mais comuns.

A suspeita deve ser considerada quando uma pessoa apresenta fadiga persistente, perda de peso sem causa aparente, pressão arterial baixa, tonturas ao levantar-se, desejo frequente por alimentos salgados, náuseas, dores abdominais recorrentes ou escurecimento progressivo da pele e das mucosas. A presença de doenças autoimunes, como diabetes tipo 1, tireoidite de Hashimoto, doença celíaca ou vitiligo, aumenta ainda mais essa possibilidade (Bornstein et al., 2016).

O reconhecimento desses sinais é essencial, pois quanto mais cedo a doença for identificada, menor será o risco de evolução para uma crise adrenal.

 

Como confirmar o diagnóstico?

O diagnóstico é feito por meio da combinação entre história clínica, exame físico e exames laboratoriais. Nenhum exame deve ser interpretado isoladamente.

  1. Cortisol sérico pela manhã

O primeiro exame solicitado costuma ser a dosagem de cortisol sérico entre 7 e 9 horas da manhã, período em que sua concentração normalmente é mais elevada.

De maneira geral:

  • Abaixo de 3 µg/dL (83 nmol/L): resultado fortemente sugestivo de insuficiência adrenal.
  • Acima de 15–18 µg/dL (414–500 nmol/L): praticamente exclui o diagnóstico na maioria dos pacientes.
  • Entre 3 e 15 µg/dL: representa uma faixa intermediária, exigindo exames adicionais.

É importante destacar que esses valores podem variar discretamente conforme o método laboratorial utilizado, motivo pelo qual a interpretação deve sempre considerar os valores de referência do laboratório e o contexto clínico (Bornstein et al., 2016; Husebye et al., 2021).

 

Atenção: Cortisol no sangue falsamente baixo por causa de medicamentos

É fundamental lembrar que o uso recente de corticoides pode suprimir drasticamente o cortisol matinal, gerando um resultado falsamente baixo. Isso acontece frequentemente quando o paciente tomou, dias antes, uma injeção de betametasona para dor, ou se está usando corticoide oral para tratar uma tosse ou inflamação. O que muitos esquecem é que até mesmo o uso de cremes, pomadas e colírios com cortisona pode ser absorvido pela pele e interferir no exame de sangue.

 

  1. ACTH: a peça que ajuda a identificar a causa

Sempre que houver suspeita de insuficiência adrenal, recomenda-se dosar simultaneamente o ACTH plasmático, preferencialmente antes do início de qualquer tratamento com corticoides.

A interpretação é relativamente simples:

  • ACTH muito elevado: significa que a hipófise está estimulando intensamente as suprarrenais, mas elas não conseguem responder. Esse padrão caracteriza a insuficiência adrenal primária, ou Doença de Addison.
  • ACTH baixo ou inadequadamente normal: indica que o problema provavelmente está na hipófise ou no hipotálamo, caracterizando a insuficiência adrenal secundária ou terciária.

Essa diferenciação é importante porque o tratamento e a investigação complementar são diferentes.

 

  1. O teste de estímulo com ACTH (cosintropina)

Quando o cortisol basal não permite estabelecer o diagnóstico com segurança, realiza-se o teste de estimulação com ACTH, considerado o principal teste confirmatório.

Nesse exame, administra-se uma forma sintética do ACTH (cosintropina) e mede-se a resposta das suprarrenais.

Em pessoas saudáveis, o cortisol aumenta significativamente após o estímulo. Já na Doença de Addison, as glândulas suprarrenais estão lesionadas e praticamente não conseguem aumentar sua produção hormonal.

Nos ensaios laboratoriais atuais, o ponto de corte considerado normal pode variar conforme o método analítico, razão pela qual a interpretação deve seguir as recomendações do laboratório e das diretrizes mais recentes (El-Farhan et al., 2017; Husebye et al., 2021).

 

  1. Outros exames importantes

Uma vez confirmado o diagnóstico, costuma-se solicitar outros exames para determinar sua causa e avaliar possíveis repercussões.

Entre eles destacam-se:

  • sódio e potássio;
  • glicemia;
  • ureia e creatinina;
  • atividade de renina plasmática;
  • aldosterona;
  • anticorpos anti-21-hidroxilase;
  • função tireoidiana;
  • vitamina B12;
  • pesquisa de doença celíaca quando indicada.

Quando os anticorpos anti-21-hidroxilase estão presentes, o diagnóstico de adrenalite autoimune torna-se bastante provável.

Nos casos em que esses anticorpos são negativos ou existe suspeita de outra etiologia, podem ser necessários exames de imagem, como tomografia computadorizada das suprarrenais.

 

Resumo Prático

Exames mais importantes

✔ Cortisol sérico (7–9 horas)

✔ ACTH plasmático

✔ Teste de estímulo com ACTH (cosintropina)

✔ Sódio e potássio

✔ Renina e aldosterona

✔ Anticorpos anti-21-hidroxilase

✔ Exames de imagem quando indicados

 

Existe diagnóstico diferencial?

Sim. A Doença de Addison pode ser confundida com diversas doenças que também cursam com fadiga, emagrecimento e queda da pressão arterial.

Entre elas destacam-se:

  • hipotireoidismo;
  • anemia;
  • depressão;
  • síndrome da fadiga crônica;
  • fibromialgia;
  • doença celíaca;
  • insuficiência cardíaca;
  • neoplasias;
  • doenças infecciosas crônicas, como tuberculose.

Além disso, algumas pessoas recebem equivocadamente o diagnóstico de “fadiga adrenal”, condição amplamente divulgada na internet, mas que não é reconhecida pelas principais sociedades científicas. Falaremos mais sobre esse tema adiante.

 

Como é feito o tratamento?

O tratamento consiste na reposição dos hormônios que o organismo deixou de produzir.

O objetivo não é administrar doses elevadas de corticoides, mas reproduzir o mais fielmente possível a produção fisiológica normal.

 

Reposição de cortisol

A medicação de primeira escolha é a hidrocortisona, por apresentar perfil farmacológico semelhante ao cortisol natural.

Na maioria dos adultos utiliza-se uma dose total de 15 a 25 mg por dia, dividida em duas ou três administrações.

Habitualmente:

  • maior dose ao acordar;
  • segunda dose no início da tarde;
  • eventualmente uma pequena terceira dose no final da tarde.

Essa estratégia procura reproduzir o ritmo circadiano normal do organismo.

Quando a hidrocortisona não está disponível, podem ser utilizados:

  • prednisona;
  • prednisolona.

Esses medicamentos possuem maior duração de ação e exigem ajustes individualizados.

 

Reposição de aldosterona

Como a Doença de Addison compromete também a produção de aldosterona, a maioria dos pacientes necessita de reposição com fludrocortisona.

A dose costuma variar entre 0,05 e 0,2 mg por dia, sendo ajustada conforme:

  • pressão arterial;
  • sódio;
  • potássio;
  • atividade de renina plasmática.

Essa reposição normalmente não é necessária nas insuficiências adrenais secundárias ou terciárias, pois a produção de aldosterona costuma permanecer preservada.

 

O acompanhamento é tão importante quanto a medicação

Ao contrário do que ocorre em outras doenças hormonais, não existe um exame laboratorial capaz de indicar exatamente a dose ideal de hidrocortisona para cada paciente.

O ajuste do tratamento baseia-se principalmente na avaliação clínica.

O médico observa aspectos como:

  • disposição física;
  • peso corporal;
  • pressão arterial;
  • sintomas de hipotensão;
  • qualidade do sono;
  • presença de edema;
  • ganho excessivo de peso;
  • aumento da glicemia;
  • osteoporose.

Doses insuficientes mantêm os sintomas da doença; doses excessivas podem provocar efeitos semelhantes aos do excesso de corticoides, incluindo hipertensão, diabetes, perda de massa óssea e maior risco cardiovascular.

O objetivo é sempre encontrar o menor esquema capaz de proporcionar boa qualidade de vida e prevenir crises adrenais.

 

 

Resumo Prático

Tratamento da Doença de Addison

✔ Hidrocortisona é o tratamento de escolha.

✔ A dose procura imitar a produção normal do cortisol.

✔ A maioria dos pacientes também necessita de fludrocortisona.

✔ O tratamento costuma ser mantido por toda a vida.

✔ O ajuste é feito principalmente pela avaliação clínica.

 

Na Parte II-B, abordaremos a complicação mais grave da doença — a crise adrenal —, explicaremos como preveni-la, discutiremos os principais mitos (inclusive a chamada “fadiga adrenal”), apresentaremos as novidades em genética e medicina de precisão, o que realmente se sabe sobre microbiota intestinal e finalizaremos com orientações práticas sobre estilo de vida, acompanhamento e perspectivas futuras.

 

Referências

BORNSTEIN, S. R. et al. Diagnosis and treatment of primary adrenal insufficiency: an Endocrine Society Clinical Practice Guideline. Journal of Clinical Endocrinology & Metabolism, Oxford, v. 101, n. 2, p. 364–389, 2016.

EL-FARHAN, N. et al. Method-specific serum cortisol responses to the adrenocorticotropin test: comparison of gas chromatography-mass spectrometry and five automated immunoassays. Clinical Endocrinology, Oxford, v. 86, n. 5, p. 673–680, 2017.

HUSEBYE, E. S. et al. Consensus statement on the diagnosis, treatment and follow-up of patients with primary adrenal insufficiency. Journal of Internal Medicine, Hoboken, v. 290, n. 1, p. 26–44, 2021.

FLESERIU, M. et al. Hormonal replacement in hypopituitarism in adults: an Endocrine Society Clinical Practice Guideline. Journal of Clinical Endocrinology & Metabolism, Oxford, v. 101, n. 11, p. 3888–3921, 2016.

 

 

Parte II-B – Crise adrenal, educação do paciente, mitos, estilo de vida e perspectivas futuras

Até aqui vimos como a Doença de Addison é diagnosticada e tratada. Nesta última parte, abordaremos o aspecto mais importante da doença: a prevenção da crise adrenal, uma complicação potencialmente fatal, além de esclarecer alguns mitos bastante difundidos e apresentar os avanços mais recentes da pesquisa científica.

 

Crise adrenal: uma emergência médica que não pode esperar

A principal complicação da Doença de Addison é a crise adrenal, também chamada de crise addisoniana. Trata-se de uma emergência médica caracterizada por deficiência aguda de cortisol, situação em que o organismo perde a capacidade de responder adequadamente a um estresse importante.

Ela pode ocorrer como primeira manifestação da doença ou em pacientes já diagnosticados que, por algum motivo, não conseguem aumentar temporariamente a reposição de corticoides diante de situações de maior demanda.

Os desencadeantes mais comuns incluem:

  • infecções acompanhadas de febre;
  • gastroenterites com vômitos ou diarreia;
  • cirurgias;
  • traumatismos;
  • exercício físico extremamente intenso em pessoas não orientadas;
  • suspensão abrupta da hidrocortisona;
  • estresse físico importante.

Nessas circunstâncias, um organismo saudável aumenta rapidamente a produção de cortisol. O paciente com Doença de Addison não consegue fazer isso e, por essa razão, pode evoluir rapidamente para choque circulatório.

 

Quais são os sinais de alerta?

Os sintomas costumam surgir rapidamente e pioram em poucas horas.

Os principais são:

  • intensa fraqueza;
  • queda importante da pressão arterial;
  • tontura ou desmaios;
  • náuseas e vômitos persistentes;
  • dor abdominal intensa;
  • desidratação;
  • confusão mental;
  • sonolência excessiva;
  • hipoglicemia;
  • febre, quando existe infecção associada.

Sem tratamento imediato, a crise adrenal pode evoluir para choque e colocar a vida em risco (Bornstein et al., 2016).

 

Resumo Prático

Procure atendimento imediatamente se ocorrerem:

✔ vômitos persistentes;

✔ diarreia intensa;

✔ desmaios;

✔ queda importante da pressão;

✔ incapacidade de ingerir a medicação;

✔ confusão mental;

✔ dor abdominal intensa.

Essas situações exigem avaliação médica urgente.

 

Como prevenir uma crise adrenal?

A boa notícia é que a maioria das crises pode ser evitada.

O princípio básico é bastante simples: quando o organismo necessita de mais cortisol, o paciente também precisa receber uma dose maior do medicamento.

Esse conceito é conhecido internacionalmente como “sick day rules” (regras para os dias de doença).

Em situações como febre, infecções ou pequenos procedimentos, o médico geralmente orienta aumentar temporariamente a dose da hidrocortisona. Já em cirurgias de médio e grande porte ou em doenças graves, a reposição costuma ser realizada por via intravenosa no ambiente hospitalar.

Esses ajustes devem sempre seguir orientação médica individualizada.

 

Educação do paciente: parte do tratamento

A educação do paciente é considerada um dos pilares do tratamento moderno da insuficiência adrenal.

Estudos demonstram que pacientes bem orientados apresentam menor incidência de crises adrenais e melhor qualidade de vida (Husebye et al., 2021).

Entre as principais recomendações estão:

  • nunca interromper o tratamento por conta própria;
  • portar cartão, pulseira ou colar de identificação médica;
  • informar sempre o diagnóstico em consultas, internações ou procedimentos cirúrgicos;
  • aprender quando aumentar temporariamente a dose da hidrocortisona;
  • manter acompanhamento regular com o endocrinologista;
  • quando indicado, ter acesso a hidrocortisona injetável para uso emergencial.

 

Resumo Prático

Cinco atitudes que salvam vidas

✔ Nunca interrompa o tratamento.

✔ Aprenda quando aumentar temporariamente a dose.

✔ Informe seu diagnóstico sempre que receber atendimento médico.

✔ Utilize identificação médica.

✔ Mantenha consultas regulares.

 

Mitos e verdades

Existe “fadiga adrenal”?

Provavelmente não.

Nos últimos anos, tornou-se comum encontrar na internet informações afirmando que o estresse crônico “esgota” as glândulas suprarrenais, causando um quadro chamado fadiga adrenal.

Embora pessoas submetidas ao estresse possam apresentar fadiga, alterações do sono, ansiedade ou dificuldade de concentração, não existem evidências científicas consistentes de que esses sintomas sejam causados por uma incapacidade das suprarrenais de produzir cortisol. Revisões sistemáticas concluíram que o conceito de “fadiga adrenal” não é reconhecido pelas principais sociedades científicas e que os testes frequentemente utilizados para sustentá-lo, como perfis de cortisol salivar ao longo do dia, não são validados para esse diagnóstico (Cadegiani; Kater, 2016).

Isso não significa que o sofrimento dessas pessoas seja imaginário, mas sim que a causa dos sintomas costuma estar relacionada a outros fatores, como distúrbios do sono, ansiedade, depressão, sobrecarga física, doenças metabólicas ou uso de medicamentos, exigindo uma investigação adequada.

Já a Doença de Addison é uma condição completamente diferente: trata-se de uma doença bem definida, com alterações hormonais mensuráveis, critérios diagnósticos estabelecidos e tratamento específico.

 

O que há de novo na pesquisa científica?

Genética e medicina de precisão

Nos últimos anos, estudos genéticos ampliaram significativamente a compreensão da Doença de Addison autoimune. Variantes em genes relacionados ao sistema imunológico, especialmente no complexo HLA, além de genes como CTLA4, PTPN22 e BACH2, aumentam a predisposição ao desenvolvimento da doença. Esses achados ajudam a explicar por que algumas pessoas desenvolvem Addison isoladamente, enquanto outras apresentam síndromes poliglandulares autoimunes. No momento, porém, esses testes têm aplicação predominantemente em pesquisa e ainda não fazem parte da rotina diagnóstica (Røyrvik; Husebye, 2022).

 

Microbiota intestinal

A influência da microbiota intestinal sobre o sistema imunológico é um dos campos mais promissores da medicina. Alterações na composição das bactérias intestinais têm sido associadas a diversas doenças autoimunes. No entanto, especificamente para a Doença de Addison, as evidências ainda são preliminares. Embora existam hipóteses de que o eixo intestino-imunidade possa participar do desenvolvimento da doença, não há comprovação de que probióticos, prebióticos ou intervenções direcionadas à microbiota previnam ou tratem a insuficiência adrenal. Esse é um tema de intensa investigação, mas ainda sem aplicação clínica estabelecida.

 

Novas formulações de hidrocortisona

Nos últimos anos, formulações de hidrocortisona de liberação modificada foram desenvolvidas com o objetivo de reproduzir de maneira mais fiel o ritmo circadiano normal do cortisol. Estudos clínicos mostram melhora da qualidade de vida, redução da fadiga e melhor controle metabólico em parte dos pacientes, embora esses medicamentos ainda tenham disponibilidade limitada em muitos países e sua indicação deva ser individualizada (Martin-Grace et al., 2024).

 

O estilo de vida pode ajudar?

Nenhuma mudança no estilo de vida substitui a reposição hormonal. Ainda assim, hábitos saudáveis desempenham papel importante no controle da doença e na prevenção de complicações.

Entre as principais recomendações estão:

  • manter alimentação equilibrada;
  • garantir boa hidratação, especialmente em dias quentes ou durante atividade física;
  • praticar exercícios regularmente, respeitando a orientação médica e seus limites, evitando-se excessos;
  • dormir adequadamente;
  • manter a vacinação em dia;
  • tratar prontamente infecções;
  • controlar rigorosamente outras doenças autoimunes quando presentes;
  • evitar tabagismo e consumo excessivo de álcool.

Também é importante conversar previamente com o endocrinologista antes de viagens longas, cirurgias programadas ou atividades físicas de alta intensidade, pois essas situações podem exigir ajustes temporários na reposição hormonal.

 

Resumo Prático

Hábitos que ajudam no controle da doença

✔ Alimentação equilibrada.

✔ Boa hidratação.

✔ Exercícios físicos regulares.

✔ Sono adequado.

✔ Vacinação atualizada.

✔ Controle de outras doenças autoimunes.

✔ Consultas periódicas.

 

Conclusão

A Doença de Addison é uma enfermidade rara, mas de grande relevância clínica. Seus sintomas costumam surgir lentamente e podem ser confundidos com diversas outras condições, o que frequentemente atrasa o diagnóstico. Felizmente, quando existe suspeita clínica, exames simples permitem iniciar a investigação e testes específicos confirmam o diagnóstico com elevada precisão.

O tratamento baseia-se na reposição dos hormônios que o organismo deixou de produzir e, quando realizado corretamente, permite que a maioria dos pacientes leve uma vida longa, ativa e com boa qualidade. Mais do que prescrever medicamentos, cuidar de pessoas com insuficiência adrenal significa capacitá-las para compreender sua doença, reconhecer situações de risco e agir rapidamente diante de sinais de alerta.

Por fim, é importante lembrar que o conhecimento sobre a Doença de Addison continua evoluindo. Os avanços na genética, na imunologia e na medicina de precisão vêm ampliando nossa compreensão sobre sua origem e poderão, no futuro, contribuir para estratégias de prevenção e tratamentos cada vez mais individualizados. Até lá, o diagnóstico precoce, a educação do paciente e a adesão ao tratamento permanecem as ferramentas mais eficazes para evitar complicações e preservar a qualidade de vida.

 

Referências

BANCOS, I.; HAHNER, S.; TOMLINSON, J.; ARLT, W. Diagnosis and management of adrenal insufficiency. The Lancet Diabetes & Endocrinology, London, v. 3, n. 3, p. 216–226, 2015. DOI: 10.1016/S2213-8587(14)70142-1.

BEUSCHLEIN, F. et al. European Society of Endocrinology and Endocrine Society Joint Clinical Guideline: Diagnosis and Therapy of Glucocorticoid-Induced Adrenal Insufficiency. Journal of Clinical Endocrinology & Metabolism, Oxford, v. 109, n. 7, p. 1657–1683, 2024. DOI: 10.1210/clinem/dgae250.

BORNSTEIN, S. R. et al. Diagnosis and treatment of primary adrenal insufficiency: an Endocrine Society Clinical Practice Guideline. Journal of Clinical Endocrinology & Metabolism, Oxford, v. 101, n. 2, p. 364–389, 2016.

CADEGIANI, F. A.; KATER, C. E. Adrenal fatigue does not exist: a systematic review. BMC Endocrine Disorders, London, v. 16, art. 48, 2016.

HUSEBYE, E. S. et al. Consensus statement on the diagnosis, treatment and follow-up of patients with primary adrenal insufficiency. Journal of Internal Medicine, Hoboken, v. 290, n. 1, p. 26–44, 2021.

MARTIN-GRACE, J.; TOMKINS, M.; O’REILLY, M. W.; SHERLOCK, M. Iatrogenic adrenal insufficiency in adults. Nature Reviews Endocrinology, London, v. 20, n. 4, p. 209–227, 2024. DOI: 10.1038/s41574-023-00929-x.

RØYRVIK, E. C.; HUSEBYE, E. S. Autoimmune Addison disease. Nature Reviews Endocrinology, London, v. 18, n. 9, p. 548–564, 2022. DOI: 10.1038/s41574-022-00653-y.

 

 

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