Imunidade “renovada” pelo jejum (sem desnutrição)?

 

 

O jejum intermitente deixou de ser apenas uma estratégia para emagrecimento e passou a despertar interesse por seus possíveis efeitos sobre o relógio biológico, a microbiota intestinal, o metabolismo e o sistema imunológico. Entre suas diferentes modalidades, o early time-restricted eating (eTRE) — concentração da alimentação nas primeiras horas do dia — parece particularmente interessante. É justamente aqui que surge uma possível aproximação com o método Mayr, no qual, dependendo do protocolo, as refeições podem ser concentradas aproximadamente entre 8 e 14 horas, ou, em versões mais flexíveis, entre 8 e 18 horas. Não se trata de dizer que Mayr e eTRE sejam métodos idênticos, mas de reconhecer que ambos valorizam um período alimentar mais precoce e um intervalo prolongado sem ingestão calórica.

 

Disclaimer: Este artigo tem caráter exclusivamente educativo e informativo e não substitui avaliação, diagnóstico ou orientação médica individualizada. As evidências científicas disponíveis sobre jejum intermitente, early time-restricted eating (eTRE), microbiota intestinal e possíveis efeitos imunológicos ainda são heterogêneas e, em muitos aspectos, preliminares. Resultados observados em estudos experimentais ou clínicos de curta duração não permitem afirmar que o jejum produza “renovação”, “rejuvenescimento” ou fortalecimento do sistema imunológico. A aplicação de estratégias de jejum deve considerar idade, estado nutricional, composição corporal, medicamentos, doenças preexistentes e objetivos individuais, sendo recomendável acompanhamento por profissional de saúde habilitado.

 

Uma hipótese nova: o jejum pode conversar com o sistema imunológico

Um dos estudos mais interessantes sobre o tema foi publicado em 2024 por Chen et al., que acompanharam 49 adultos durante 30 dias submetidos a uma janela alimentar de oito horas, das 9 às 17 horas. O estudo não foi randomizado e não teve um grupo-controle equivalente, portanto sua capacidade de demonstrar causalidade é limitada.

Ainda assim, os resultados chamaram atenção: houve redução da frequência de células T CD4+ senescentes e aumento de populações como Treg, Th1, células Tfh-like e células B. Paralelamente, foram observadas mudanças no repertório imune, em metabólitos séricos e na composição da microbiota, incluindo aumento de Akkermansia e de outros microrganismos considerados potencialmente favoráveis. Os autores descreveram o fenômeno como uma microbiota de perfil mais “jovem” e levantaram a possibilidade de efeitos sobre a imunossenescência (Chen et al., 2024).

É uma observação fascinante — mas devemos resistir à tentação de transformá-la em uma conclusão clínica. Não sabemos ainda se o jejum realmente “rejuvenesce” o sistema imunológico humano. O estudo sugere uma remodelação imunológica, não uma demonstração de rejuvenescimento. E 30 dias são insuficientes para afirmar que essas alterações produzam benefícios clínicos duradouros.

 

Por que o horário das refeições pode importar?

O organismo não funciona da mesma maneira durante as 24 horas do dia. Metabolismo, secreção hormonal, sensibilidade à insulina, expressão gênica e atividade de diversos órgãos obedecem a ritmos circadianos.

A alimentação também participa desses ritmos.

Por isso, não é necessariamente indiferente comer das 7 às 15 horas ou das 14 às 22 horas, mesmo quando o número de calorias seja semelhante.

Um estudo randomizado publicado na Nature Communications comparou diferentes janelas de alimentação e encontrou resultados metabólicos mais favoráveis quando a alimentação era concentrada na primeira parte do dia. O grupo submetido ao eTRF apresentou maior melhora da sensibilidade à insulina, menor glicemia de jejum, menor adiposidade e uma microbiota intestinal mais diversa que o grupo-controle (Xie et al., 2022).

Isso não significa que todo indivíduo precise obrigatoriamente terminar sua alimentação às 14 horas. Significa que o momento em que comemos pode ser uma variável biologicamente relevante.

 

E onde entra a microbiota?

A microbiota intestinal possui seus próprios ritmos diários e interage continuamente com a alimentação e com o relógio circadiano do hospedeiro.

Uma revisão sistemática publicada em Nutrition Reviews analisou estudos humanos e animais sobre TRE e jejum do Ramadã. Nos estudos humanos, foram observados aumentos da diversidade microbiana e alterações em gêneros como Faecalibacterium; em alguns estudos, também houve aumento de Akkermansia. Entre os achados observados no jejum do Ramadã estavam ainda bactérias como Roseburia, Butyricicoccus e outras relacionadas ao metabolismo de fibras e à produção de ácidos graxos de cadeia curta (SCFA). Os autores, entretanto, ressaltaram que a dieta continua sendo um dos principais determinantes da composição da microbiota (Ozkul et al., 2024).

Essa observação é fundamental. O benefício potencial do jejum provavelmente não está simplesmente em “ficar horas sem comer”. Pode resultar da combinação entre horário alimentar, qualidade da dieta, fibras, diversidade alimentar, ritmo circadiano e período de repouso metabólico.

 

Butirato: uma possível peça dessa engrenagem

Entre os produtos da microbiota, os ácidos graxos de cadeia curta — acetato, propionato e butirato — são particularmente interessantes.

O butirato é produzido principalmente pela fermentação bacteriana de fibras e exerce funções importantes no intestino. É utilizado como fonte energética pelos colonócitos, participa da manutenção da barreira intestinal e apresenta efeitos imunomoduladores.

Por isso, a possibilidade de que alterações no tempo de alimentação modifiquem a ecologia microbiana e, consequentemente, a produção de metabólitos como os SCFA oferece uma hipótese biologicamente plausível para explicar parte dos efeitos sistêmicos do jejum. Mas novamente: plausibilidade biológica não é prova de benefício clínico.

 

E o que surgiu de novo em 2025?

Um estudo publicado em Nutrients em 2025 é particularmente interessante porque comparou eTRE + restrição energética, TRE tardio + restrição energética e restrição energética isoladamente, acompanhando a microbiota de 76 pessoas com sobrepeso ou obesidade. No grupo eTRE, foram observadas mudanças na diversidade microbiana e aumento de gêneros como Faecalibacterium e Subdoligranulum. Algumas dessas alterações permaneceram no acompanhamento. Houve também associações entre Faecalibacterium e glicemia de jejum, embora as correlações tenham sido fracas (Habe et al., 2025).

Esse estudo é importante porque aproxima o conceito de eTRE de uma situação clínica real: não estamos falando apenas de modelos animais ou de mecanismos teóricos. Entretanto, ele também mostra por que devemos ser cautelosos: nem todas as alterações da microbiota foram diferentes entre os grupos, e a intervenção envolvia também restrição energética.

 

O sistema imunológico: uma segunda linha de investigação

A hipótese imunológica ganhou ainda mais interesse com um estudo publicado em 2026, um ensaio clínico randomizado cruzado em pacientes com antecedente de infarto. Os participantes fizeram duas semanas de TRE com alimentação entre 8 e 14 horas ou mantiveram sua alimentação habitual.

Comparado ao período-controle, o TRE foi associado a menor contagem de neutrófilos, menor relação neutrófilos/linfócitos, redução da expressão de CD11b nos neutrófilos e alterações anti-inflamatórias no transcriptoma dos monócitos, além de redução de marcadores de inflamação sistêmica de baixo grau. É importante notar que nem todos os parâmetros imunológicos se modificaram. (2026).

Esse trabalho é particularmente interessante para a discussão do Mayr porque a janela utilizada — 8 às 14 horas — é muito próxima do padrão de eTRE que você mencionou.

Ainda assim, são apenas duas semanas de intervenção e 19 participantes analisados. Portanto, o estudo reforça a hipótese de modulação imunológica, mas está muito longe de provar “renovação” ou “rejuvenescimento” do sistema imune.

 

Então, o método Mayr pode “renovar” o sistema imunológico?

Aqui podemos formular uma hipótese cientificamente interessante:

A concentração da alimentação nas primeiras horas do dia, seguida de um período prolongado de jejum, pode favorecer uma organização metabólica e circadiana capaz de influenciar a microbiota intestinal e determinados componentes da resposta imune.

Essa hipótese encontra suporte em estudos humanos que mostram alterações da microbiota, de metabólitos e de células imunológicas após períodos de alimentação restrita no tempo.

Entretanto, ainda precisamos de ensaios maiores, mais longos e adequadamente controlados para saber se essas alterações representam benefício imunológico real e clinicamente relevante. E essa distinção é especialmente importante.

Não devemos dizer: “O método Mayr rejuvenesce o sistema imunológico.” Podemos dizer: “O padrão de alimentação precoce utilizado pelo método Mayr apresenta características semelhantes ao eTRE, uma estratégia que vem sendo investigada por seus possíveis efeitos sobre microbiota, metabolismo e imunidade.”

 

Um exemplo prático

Imagine uma pessoa que faz suas refeições entre 8 e 14 horas:

08:00 — café da manhã
Refeição completa, com proteínas, fibras, frutas e alimentos minimamente processados.

12:00–13:00 — almoço
Principal refeição do dia, nutricionalmente equilibrada e rica em vegetais.

14:00 — encerramento da alimentação
A partir daí, água e bebidas sem aporte calórico.

14:00–08:00 — período de jejum

São aproximadamente 18 horas sem ingestão calórica.

Em uma versão mais flexível:

08:00–18:00 — janela alimentar
18:00–08:00 — 14 horas de jejum.

 

Essa segunda modalidade é menos restritiva e pode ser mais fácil de manter em determinados pacientes. O ponto central não deveria ser transformar o relógio em uma nova regra rígida, mas reduzir a alimentação noturna, evitar o consumo contínuo de calorias ao longo do dia e respeitar, sempre que possível, a organização circadiana do organismo.

 

O que podemos levar para a prática?

  1. O horário importa.
    Além de “quanto comer”, o momento das refeições pode influenciar metabolismo, relógio circadiano e microbiota.
  2. Mais cedo pode ser biologicamente interessante.
    O eTRE concentra a alimentação na primeira parte do dia e apresenta resultados metabólicos promissores.
  3. A microbiota pode participar dessa resposta.
    Estudos humanos observaram alterações em Akkermansia, Faecalibacterium e outras bactérias após diferentes formas de jejum.
  4. Os SCFA são uma possível ponte.
    Butirato, propionato e acetato conectam a atividade microbiana à barreira intestinal, ao metabolismo e à regulação imune.
  5. “Renovação imunológica” ainda é uma hipótese.
    Os dados são estimulantes, mas não autorizam afirmar que o jejum rejuvenesça ou fortaleça clinicamente o sistema imunológico.

 

Conclusão

O interesse científico pelo jejum está mudando de foco. A pergunta já não é apenas “o jejum emagrece?”, mas também “o que acontece no organismo durante o período em que não estamos comendo?”

Uma das respostas possíveis envolve o diálogo entre relógio circadiano, metabolismo, microbiota e sistema imunológico.

Nesse contexto, o padrão de alimentação precoce do método Mayr é particularmente interessante. Ele compartilha características importantes com o eTRE e, portanto, pode ser considerado uma estratégia plausível para investigar os efeitos de períodos prolongados de jejum sobre esses sistemas. Mas a palavra-chave, neste momento, é possibilidade.

Os estudos sugerem remodelação da microbiota e alterações em determinados componentes imunológicos. Alguns resultados são bastante promissores. Outros são neutros ou inconsistentes. E os estudos ainda são relativamente pequenos e heterogêneos.

Portanto, a conclusão mais equilibrada é também a mais interessante:

O jejum precoce pode não apenas reduzir o tempo de exposição alimentar; pode também oferecer ao organismo um período de reorganização metabólica, circadiana, microbiana e imunológica. Se essa reorganização representa uma verdadeira “renovação” do sistema imune ainda é uma pergunta aberta — e muito interessante — para a ciência.

 

Referências

CHEN, Yiran et al. Time-restricted eating reveals a “younger” immune system and reshapes the intestinal microbiome in human. Redox Biology, v. 78, 103422, 2024. DOI: 10.1016/j.redox.2024.103422.

HABE, Bernarda et al. Effects of time-restricted eating (early and late) combined with energy restriction vs. energy restriction alone on the gut microbiome in adults with obesity. Nutrients, v. 17, n. 14, 2284, 2025. DOI: 10.3390/nu17142284.

MANOOGIAN, Emily N. C. et al. Time-restricted eating in adults with metabolic syndrome: a randomized controlled trial. Annals of Internal Medicine, v. 177, n. 11, p. 1462–1470, 2024. DOI: 10.7326/M24-0859.

XIE, Zhen et al. Randomized controlled trial for time-restricted eating in healthy volunteers without obesity. Nature Communications, 2022. DOI: 10.1038/s41467-022-28662-5.

OZKUL, C. et al. The effects of time-restricted eating and Ramadan fasting on gut microbiota composition: a systematic review of human and animal studies. Nutrition Reviews, v. 82, n. 6, p. 777–793, 2024. DOI: 10.1093/nutrit/nuad093.

EFFECT of 2 weeks of time-restricted eating on innate immunity and systemic inflammation in patients with a history of myocardial infarction: a randomized-controlled crossover study. Journal of the American Heart Association, 2026. DOI: 10.1161/JAHA.125.048092.

 

Qual é o seu risco de sofrer um infarto ou um derrame? – O futuro da prevenção cardiovascular – Parte 4

 

 

“A medicina do século XX tratava doenças. A medicina do século XXI procura identificar riscos antes que a doença apareça.”

Durante muito tempo, a prevenção cardiovascular baseou-se em poucos fatores: colesterol, pressão arterial, diabetes, tabagismo e idade. Esses continuam sendo pilares fundamentais, mas a ciência avança rapidamente para uma abordagem muito mais personalizada.

Hoje, além dos exames tradicionais, começam a ganhar espaço ferramentas capazes de revelar predisposições genéticas, identificar marcadores inflamatórios, compreender o papel da microbiota intestinal e utilizar algoritmos de inteligência artificial para estimar riscos com precisão cada vez maior. Estamos entrando na era da Medicina de Precisão.

 

Da Medicina baseada em médias para a Medicina personalizada

Até poucas décadas atrás, as decisões médicas eram tomadas principalmente com base em médias populacionais. Por exemplo: “Pacientes com LDL acima de determinado valor apresentam maior risco.”

Essa informação continua verdadeira. Entretanto, ela não explica por que duas pessoas com o mesmo colesterol podem evoluir de maneira completamente diferente. Hoje compreendemos que cada indivíduo possui uma combinação única de fatores:

  • genética;
  • microbiota intestinal;
  • composição corporal;
  • metabolismo;
  • hábitos de vida;
  • fatores ambientais;
  • história familiar.

É justamente essa combinação que a Medicina de Precisão procura compreender.

 

Medicina Genômica: quando o DNA ajuda a prever o futuro

Nos últimos anos, o custo do sequenciamento genético caiu drasticamente. Isso permitiu que testes antes restritos aos laboratórios de pesquisa passassem a fazer parte da prática clínica.

Na Cardiologia, um dos exemplos mais conhecidos é a hipercolesterolemia familiar, doença genética caracterizada por níveis muito elevados de LDL desde o nascimento. Esses pacientes apresentam risco significativamente maior de infarto precoce e costumam necessitar de tratamento intensivo desde jovens. Identificar esses indivíduos precocemente pode literalmente salvar vidas.

 

Escores de risco poligênico: uma nova camada de informação

Enquanto algumas doenças dependem de uma única mutação importante, a maioria dos casos de doença cardiovascular resulta da interação de centenas ou milhares de pequenas variações genéticas. Daí surgiram os chamados escores de risco poligênico (Polygenic Risk Scores – PRS).

Esses testes combinam milhares de variantes do DNA para estimar uma predisposição genética ao desenvolvimento de determinadas doenças. No caso da doença arterial coronariana, alguns estudos demonstram que indivíduos situados entre os maiores escores genéticos apresentam risco comparável ao de pessoas portadoras de mutações clássicas de hipercolesterolemia familiar (Khera et al., 2018).

Ainda não se recomenda seu uso universal, mas essa tecnologia poderá desempenhar papel crescente na prevenção personalizada.

 

Farmacogenômica: o medicamento certo para a pessoa certa

Outra área em rápida expansão é a farmacogenômica. Ela procura responder perguntas como:

  • Por que um medicamento funciona muito bem em uma pessoa e pouco em outra?
  • Por que alguns pacientes apresentam efeitos adversos enquanto outros não? Na Cardiologia já existem aplicações práticas. Por exemplo: SLCO1B1

Algumas variantes desse gene aumentam a probabilidade de sintomas musculares relacionados a determinadas estatinas.

Seu conhecimento pode auxiliar na escolha da medicação mais adequada em pacientes selecionados.

Outro exemplo envolve genes relacionados ao metabolismo de antiagregantes plaquetários, como o CYP2C19, que influenciam a resposta ao clopidogrel em determinadas situações clínicas.

 

A lipoproteína(a): provavelmente ouviremos falar muito dela

Na Parte II discutimos a Lp(a). Ela merece nova menção porque representa uma das áreas mais promissoras da Cardiologia Preventiva. Até recentemente pouco podia ser feito para reduzir seus níveis.

Hoje diversos medicamentos específicos encontram-se em estudos avançados, incluindo terapias baseadas em RNA de interferência e oligonucleotídeos antissenso.

Caso os resultados finais confirmem a redução de eventos cardiovasculares, a Lp(a) poderá transformar-se em um dos principais alvos terapêuticos da próxima década.

 

A microbiota intestinal muda a maneira de enxergar o coração

Durante décadas acreditava-se que intestino e coração pertenciam a universos completamente diferentes. Hoje sabemos que existe uma intensa comunicação entre eles.

Uma alimentação rica em fibras favorece o crescimento de bactérias produtoras de ácidos graxos de cadeia curta (SCFAs), especialmente butirato, propionato e acetato. Esses metabólitos parecem contribuir para:

  • redução da inflamação;
  • melhora da função endotelial;
  • maior integridade da barreira intestinal;
  • modulação imunológica;
  • melhor metabolismo glicídico.

Por outro lado, dietas muito ricas em alimentos ultraprocessados e carnes processadas podem favorecer a formação de metabólitos como o TMAO, associado em diversos estudos observacionais ao aumento do risco cardiovascular.

Ainda existem muitas perguntas sem resposta. Mas dificilmente a Cardiologia Preventiva do futuro ignorará a microbiota intestinal.

 

Metabolômica: uma fotografia dinâmica do metabolismo

Outro campo emergente é a metabolômica. Enquanto a genética mostra predisposições, a metabolômica procura identificar o que realmente está acontecendo naquele momento no organismo.

Ela avalia centenas de metabólitos presentes no sangue ou na urina, permitindo compreender alterações relacionadas ao metabolismo energético, ao estresse oxidativo, à função mitocondrial e às interações com a microbiota.

Embora ainda não faça parte da rotina da maioria dos consultórios e careça de validação clínica atualmente, representa uma ferramenta promissora tanto para ajudar a nortear condutas como para a Medicina Preventiva.

 

Inteligência Artificial: uma nova aliada do médico

A Inteligência Artificial não substitui o médico. Mas pode ajudá-lo a integrar uma quantidade gigantesca de informações. Algoritmos modernos já conseguem combinar:

  • exames laboratoriais;
  • eletrocardiograma;
  • tomografia;
  • ecocardiograma;
  • genética;
  • histórico clínico;
  • estilo de vida;
  • dados de dispositivos vestíveis (wearables).

Esses modelos tendem a estimar riscos de forma cada vez mais precisa e personalizada. O desafio continuará sendo interpretar esses resultados dentro do contexto clínico de cada paciente.

 

Como poderá ser um check-up cardiovascular daqui a dez anos?

Imagine uma consulta em um futuro próximo. Além da pressão arterial e do colesterol, o médico poderá dispor de informações como:

  • escore genético de risco;
  • perfil metabolômico;
  • composição da microbiota intestinal;
  • nível de atividade física registrado continuamente por dispositivos eletrônicos;
  • qualidade do sono;
  • variabilidade da frequência cardíaca;
  • glicemia monitorada continuamente;
  • inteligência artificial integrando todos esses dados.

Em vez de simplesmente dizer: “Seu colesterol está alto.” Talvez seja possível afirmar:

“Seu risco de desenvolver doença cardiovascular nas próximas duas décadas é baixo, moderado ou elevado, e estes são os fatores específicos que mais contribuem para esse risco.” Essa é a essência da Medicina de Precisão.

 

O que já é realidade e o que ainda está em construção?

É importante distinguir ciência consolidada de perspectivas futuras. Já fazem parte da prática clínica:

  • cálculo do risco cardiovascular;
  • metas individualizadas de LDL;
  • estatinas;
  • ezetimiba;
  • ácido bempedoico;
  • inibidores de PCSK9;
  • inclisirana;
  • dosagem da Lp(a) em pacientes selecionados;
  • testes genéticos para hipercolesterolemia familiar.

 

Estão em rápida expansão:

  • farmacogenômica;
  • escores de risco poligênico;
  • integração da microbiota à prática clínica;
  • metabolômica;
  • inteligência artificial aplicada à prevenção.

 

Essas ferramentas ainda evoluirão muito, mas apontam claramente para uma Medicina cada vez mais personalizada.

 

 

Conclusão prática

A prevenção cardiovascular vive um momento extraordinário. Nunca soubemos tanto sobre as causas da aterosclerose, nunca dispusemos de tantas estratégias eficazes para reduzir o risco de infarto e AVC, e nunca estivemos tão próximos de individualizar verdadeiramente a prevenção.

Entretanto, é importante lembrar que nenhuma tecnologia substitui os fundamentos. A alimentação continua importando. A atividade física continua importando. O sono continua importando. O controle do estresse continua importando. O abandono do cigarro continua importando. Os medicamentos corretamente indicados continuam salvando vidas.

As novas tecnologias não substituem esses pilares. Elas ajudam a identificar quem mais se beneficiará de cada intervenção. Essa talvez seja a maior mudança da Cardiologia moderna: deixar de tratar apenas doenças para cuidar, de forma personalizada, das pessoas e de seus riscos.

 

Resumo prático

  • A prevenção cardiovascular está migrando de uma abordagem baseada em médias populacionais para uma Medicina de Precisão.
  • A genética já permite identificar indivíduos com maior predisposição a doenças cardiovasculares e orientar o tratamento em situações específicas.
  • A farmacogenômica começa a auxiliar na escolha de medicamentos mais adequados para determinados pacientes.
  • A microbiota intestinal e a metabolômica representam áreas promissoras, embora muitas aplicações ainda estejam em desenvolvimento.
  • A Inteligência Artificial tende a integrar informações clínicas, laboratoriais e genéticas para estimativas de risco cada vez mais refinadas.
  • Apesar de todos esses avanços, os pilares da prevenção permanecem os mesmos: alimentação saudável, atividade física, abandono do tabagismo, controle dos fatores de risco e tratamento medicamentoso quando indicado.

 

Referências

FERENCE, B. A. et al. Low-density lipoproteins cause atherosclerotic cardiovascular disease. European Heart Journal, v. 38, p. 2459–2472, 2017.

KHERA, A. V. et al. Genome-wide polygenic scores for common diseases identify individuals with risk equivalent to monogenic mutations. Nature Genetics, v. 50, p. 1219–1224, 2018.

MACH, F. et al. 2019 ESC/EAS Guidelines for the management of dyslipidaemias. European Heart Journal, v. 41, p. 111–188, 2020.

NISSEN, S. E. et al. Bempedoic Acid and Cardiovascular Outcomes in Statin-Intolerant Patients. New England Journal of Medicine, v. 388, p. 1353–1364, 2023.

TANG, W. H. W. et al. Intestinal microbial metabolism of phosphatidylcholine and cardiovascular risk. New England Journal of Medicine, v. 368, p. 1575–1584, 2013.

VALDES, A. M.; WALTER, J.; SEGAL, E.; SPECTOR, T. D. Role of the gut microbiota in nutrition and health. BMJ, v. 361, k2179, 2018.

WORLD HEART FEDERATION. Lipoprotein(a): Clinical Guidance and Consensus Statement. 2022.

CONSTIPAÇÃO INTESTINAL: MUITO ALÉM DE “IR AO BANHEIRO POUCAS VEZES” – PARTE 1

 

A constipação intestinal é uma das queixas gastrointestinais mais frequentes na prática clínica, afetando aproximadamente 10% a 20% da população adulta mundial, com maior prevalência entre mulheres, idosos e indivíduos fisicamente inativos (Black & Ford, 2018).

Embora frequentemente seja entendida apenas como a diminuição do número de evacuações, a constipação representa uma condição muito mais complexa. Ela pode envolver esforço excessivo para evacuar, fezes endurecidas, sensação de evacuação incompleta, necessidade de manobras auxiliares e importante impacto na qualidade de vida.

Nas últimas décadas, o conhecimento científico sobre a constipação avançou significativamente. Evidências crescentes sugerem que fatores relacionados ao estilo de vida, alimentação, microbiota intestinal, hidratação, atividade física, qualidade do sono e organização do ritmo circadiano influenciam a função intestinal e podem contribuir para o desenvolvimento ou perpetuação da constipação em parte dos indivíduos.

Além do desconforto cotidiano, a constipação pode associar-se a complicações locais, aumento da utilização dos serviços de saúde e piora da qualidade de vida, especialmente quando se torna crônica.


Aviso Importante

As informações apresentadas neste artigo possuem finalidade exclusivamente educativa e informativa. Elas não substituem consulta médica, diagnóstico individualizado ou acompanhamento profissional.

A constipação intestinal pode resultar de múltiplas condições clínicas, incluindo doenças gastrointestinais, endocrinológicas, neurológicas, metabólicas e efeitos adversos de medicamentos. Por esse motivo, sintomas persistentes ou recorrentes devem ser avaliados por um profissional de saúde.

O uso inadequado de laxantes, fitoterápicos ou suplementos pode provocar efeitos adversos, mascarar doenças subjacentes e retardar diagnósticos importantes.

Procure avaliação médica especialmente se a constipação estiver associada a:

  • sangue nas fezes;
  • anemia;
  • perda de peso involuntária;
  • dor abdominal progressiva;
  • vômitos persistentes;
  • início recente dos sintomas após os 50 anos;
  • histórico familiar de câncer colorretal;
  • histórico familiar de doença inflamatória intestinal;
  • mudança persistente do hábito intestinal.

O que é constipação intestinal?

Não existe uma definição única baseada exclusivamente na frequência evacuatória.

Embora evacuar menos de três vezes por semana seja um dos critérios tradicionalmente utilizados, muitas pessoas evacuam diariamente e ainda assim apresentam sintomas compatíveis com constipação.

Segundo os Critérios de Roma IV (Drossman et al., 2016), o diagnóstico de constipação funcional pode ser estabelecido quando o indivíduo apresenta pelo menos dois dos seguintes sintomas em mais de 25% das evacuações:

  • esforço evacuatório;
  • fezes endurecidas ou fragmentadas;
  • sensação de evacuação incompleta;
  • sensação de bloqueio ou obstrução anorretal;
  • necessidade de manobras digitais;
  • menos de três evacuações espontâneas por semana.

Essa definição reflete melhor a experiência real dos pacientes do que a simples contagem de evacuações.


A importância da consistência das fezes

A consistência das fezes frequentemente fornece informações mais úteis do que a frequência evacuatória isolada.

A Escala de Bristol, proposta por Lewis e Heaton (1997), classifica as fezes em sete categorias.

Padrões mais associados à constipação

Tipo 1

Pequenos fragmentos endurecidos, semelhantes a bolinhas.

Tipo 2

Fezes em formato de salsicha, porém endurecidas e grumosas.

Esses padrões geralmente refletem trânsito intestinal mais lento e maior reabsorção de água no cólon.

Por outro lado, os tipos 3 e 4 costumam representar o padrão considerado mais fisiológico.


Como o estilo de vida influencia o intestino?

1. Hidratação

A água participa diretamente da formação e hidratação do bolo fecal.

Quando a ingestão hídrica é insuficiente, o organismo tende a aumentar a reabsorção de líquidos no intestino grosso, favorecendo o endurecimento das fezes.

É importante destacar que aumentar a ingestão de água nem sempre resolve a constipação crônica em indivíduos já adequadamente hidratados. Entretanto, a desidratação pode agravar significativamente o problema.

Estudos observacionais mostram associação entre baixa ingestão de líquidos e maior prevalência de constipação (Markland et al., 2013).


2. Dieta pobre em fibras

As fibras alimentares exercem múltiplos efeitos benéficos sobre o funcionamento intestinal.

Elas:

  • aumentam o volume fecal;
  • favorecem a retenção de água nas fezes;
  • estimulam mecanicamente a motilidade intestinal;
  • servem como substrato para a microbiota intestinal.

A alimentação ocidental moderna, frequentemente rica em alimentos ultraprocessados e pobre em vegetais, frutas e leguminosas, está associada a menor ingestão de fibras e maior prevalência de constipação (Makki et al., 2018).

Fontes importantes incluem:

  • frutas;
  • verduras;
  • legumes;
  • feijões;
  • lentilhas;
  • sementes;
  • cereais integrais.

 

3. Sedentarismo

A atividade física parece exercer efeito favorável sobre a motilidade gastrointestinal.

Estudos clínicos e observacionais sugerem que indivíduos fisicamente ativos apresentam menor prevalência de constipação e melhor trânsito intestinal quando comparados aos sedentários (De Schryver et al., 2005).

Embora o exercício não seja uma solução universal, ele constitui uma das intervenções não farmacológicas mais recomendadas pelas diretrizes atuais.


4. Ignorar o reflexo evacuatório

O desejo de evacuar resulta de reflexos fisiológicos complexos.

Adiar repetidamente a evacuação por motivos profissionais, sociais ou comportamentais pode contribuir para redução progressiva da sensibilidade retal e piora dos sintomas ao longo do tempo.

Por essa razão, recomenda-se respeitar o reflexo evacuatório sempre que possível.


5. Sono e ritmo circadiano

O trato gastrointestinal possui mecanismos regulatórios que acompanham o ciclo sono-vigília.

A motilidade intestinal tende a aumentar após o despertar e após as refeições, especialmente devido ao reflexo gastrocólico.

Estudos experimentais sugerem que alterações do ritmo circadiano podem influenciar a microbiota intestinal, a motilidade gastrointestinal e a função metabólica (Voigt et al., 2016).

Embora a relação causal ainda esteja sendo investigada, indivíduos submetidos a privação crônica de sono ou trabalho em turnos apresentam maior frequência de queixas gastrointestinais, incluindo constipação.


Constipação e microbiota intestinal

Uma das áreas mais ativas da gastroenterologia contemporânea é o estudo da microbiota intestinal.

Diversos estudos demonstraram diferenças na composição microbiana entre indivíduos com constipação crônica e indivíduos sem sintomas (Ohkusa et al., 2019).

Entre os mecanismos potencialmente envolvidos destacam-se:

  • alterações na fermentação das fibras;
  • redução da produção de ácidos graxos de cadeia curta;
  • modulação da motilidade intestinal;
  • alterações na comunicação entre intestino e sistema nervoso central.

O butirato, um ácido graxo produzido pela fermentação bacteriana das fibras, parece exercer papel relevante na fisiologia colônica.

Apesar dos avanços recentes, ainda não existe uma assinatura microbiológica única capaz de explicar todos os casos de constipação, o que reforça o caráter multifatorial da doença.

CONTINUA NA PARTE 2

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