Emagreça e Continue Magro: na era das canetas, o protagonista continua sendo o estilo de vida

 

 O programa de emagrecimento sustentável da Lapinha combina intervenção intensiva sobre o estilo de vida, acompanhamento médico e, quando necessário, o uso criterioso das novas medicações para obesidade.

As chamadas “canetas emagrecedoras” mudaram profundamente o tratamento da obesidade. Semaglutida e tirzepatida podem produzir perdas de peso que, até poucos anos atrás, eram difíceis de alcançar apenas com medicamentos. No estudo SURMOUNT-1, por exemplo, a tirzepatida produziu perda média de até 20,9% do peso corporal em 72 semanas; no STEP 1, a semaglutida 2,4 mg associada à intervenção sobre o estilo de vida produziu perda média próxima de 15% em 68 semanas (Jastreboff et al., 2022; Wilding et al., 2021).

 

Mas, na Lapinha, não enxergamos essas medicações como concorrentes do nosso programa de emagrecimento. Enxergamos como aliadas. Por quê?

A eventual expectativa de que as novas medicações reduziriam a procura pelo programa “Emagreça e Continue Magro” não se confirmou. Há, primeiro, uma razão simples: a Lapinha oferece muito mais do que emagrecimento. Programas como Redução do Estresse, Bem Dormir Lapinha, Esporte e Performance, Saúde Sênior, Mayr Prevent, Detox, Saúde Personalizada e Antitabagismo, entre outros, têm objetivos próprios e continuam sendo procurados por pessoas que desejam, acima de tudo, mais saúde e qualidade de vida.

Mas existe uma segunda razão, mais profunda: a Lapinha nunca ensinou simplesmente a perder peso. Ensinamos a viver de maneira que o peso perdido possa ser mantido.

 

O medicamento pode abrir a janela. Quem precisa atravessá-la é o paciente.

A obesidade não é apenas um problema de força de vontade. Apetite, sono, estresse, ambiente alimentar, sedentarismo, relógio biológico, comportamento e metabolismo participam da sua manutenção.

Por isso, nosso programa utiliza a Intensive Lifestyle Intervention (ILI) — intervenção intensiva sobre o estilo de vida, baseada nas Medidas do Estilo de Vida (MEV):

  • alimentação saudável e individualizada;
  • atividade física adequada à condição e às preferências de cada pessoa;
  • sono adequado;
  • respeito ao ritmo circadiano e aos horários das refeições;
  • redução do estresse;
  • e, talvez o mais importante, a mudança da “chavinha mental”.

 

A caneta pode diminuir a fome. Mas ela não ensina, sozinha, a viver melhor.

É justamente aí que pode estar uma das grandes oportunidades proporcionadas pelos medicamentos incretínicos: ao reduzir o apetite e facilitar o emagrecimento, eles podem criar uma janela de oportunidade para que novos comportamentos sejam aprendidos, praticados e incorporados à vida.

 

Como funciona o “Emagreça e Continue Magro”

Nossa proposta é deliberadamente diferente de uma estratégia centrada exclusivamente na medicação.

Primeira etapa — estilo de vida.
O paciente inicia uma Intensive Lifestyle Intervention (ILI) estruturada, com acompanhamento e aplicação das Medidas do Estilo de Vida (MEV). O objetivo não é apenas perder peso, mas modificar as condições que levaram ao ganho de peso. Essa etapa pode se estender por pelo menos um ano.

Segunda etapa — quando necessário, apoio farmacológico.
Se, apesar de uma intervenção adequada sobre o estilo de vida, o paciente não consegue controlar o apetite, aderir ao plano ou atingir uma perda de peso clinicamente adequada, a farmacoterapia pode ser incorporada. Não substituímos as MEV pela medicação: acrescentamos a medicação às MEV. Em geral, esse apoio é mantido por pelo menos seis meses a um ano, com acompanhamento médico, avaliação de eficácia, tolerabilidade e segurança.

Terceira etapa — autonomia.
Quando possível, reduzimos progressivamente a dependência da medicação e reforçamos as MEV. Se o paciente consegue “voar sozinho”, mantendo as conquistas, segue sem medicamento. Se isso não for possível, a farmacoterapia pode ser retomada ou prolongada, de maneira individualizada e baseada em evidências.

O objetivo não é usar a maior quantidade possível de medicamento. É obter o máximo de benefício com o mínimo necessário.

 

E as novas medicações?

Hoje dispomos de diferentes agonistas incretínicos utilizados no tratamento do diabetes e/ou da obesidade, entre eles liraglutida, semaglutida e tirzepatida, além de outros agonistas do receptor de GLP-1 utilizados principalmente no diabetes, conforme indicação.

E a próxima geração já está chegando. Estão no radar moléculas como retatrutida, um agonista triplo de GIP/GLP-1/glucagon, CagriSema (cagrilintida + semaglutida), survodutida e outras estratégias em desenvolvimento. A retatrutida, por exemplo, apresentou resultados extraordinários nos estudos de fase 3 divulgados em 2026, com perdas de peso superiores a 20% em diferentes populações, mas ainda é investigacional e não deve ser confundida com medicamento disponível para uso clínico rotineiro.

Também surgem alternativas não injetáveis, como o orforglipron, um agonista oral de GLP-1 que já apresentou resultados de fase 3.

 

Perder peso sem perder saúde

Existe, entretanto, um lado da moeda que não pode ser ignorado. Perder peso não é necessariamente sinônimo de perder gordura.

Uma parte do peso perdido com medicamentos incretínicos pode corresponder à massa magra. No subestudo de composição corporal do SURMOUNT-1, aproximadamente 75% do peso perdido com tirzepatida correspondeu a gordura e 25% a massa magra. Isso não significa que a tirzepatida “cause perda muscular excessiva” — a proporção foi semelhante à observada no placebo —, mas mostra por que preservar músculo precisa fazer parte de qualquer programa sério de emagrecimento (Lundgren et al., 2025).

Por isso, na Lapinha, o acompanhamento não olha apenas para a balança. Avaliamos composição corporal, alimentação, atividade física e, especialmente, treinamento de força e adequada ingestão proteica, quando indicados.

Também acompanhamos cuidadosamente os efeitos adversos. Náuseas, vômitos, constipação e outros sintomas gastrointestinais são frequentes, sobretudo durante a escalada das doses. E existe uma questão que merece atenção especial: doenças da vesícula e das vias biliares. Uma grande metanálise de 76 ensaios clínicos encontrou aumento do risco desses eventos com agonistas de GLP-1, particularmente em doses maiores e tratamentos voltados à perda de peso (He et al., 2022).

Por isso, medicação eficaz não significa medicação inofensiva. A indicação, a dose, a duração, os exames e o acompanhamento precisam ser individualizados.

 

A filosofia da Lapinha

As canetas representam uma das maiores evoluções recentes no tratamento da obesidade. Não somos contra elas. Somos contra seu uso sem propósito.

Não queremos simplesmente produzir um número menor na balança. Queremos que a pessoa emagreça, preserve sua massa muscular, melhore seus marcadores metabólicos, durma melhor, movimente-se mais, coma melhor e adquira autonomia para cuidar da própria saúde.

É por isso que as canetas podem ser aliadas do “Emagreça e Continue Magro”, e não suas inimigas.

Perder peso sem perder a saúde.

Usar o medicamento quando ele é necessário — e não quando ele pode ser evitado.
Transformar a janela de oportunidade criada pela redução do apetite em uma mudança permanente de estilo de vida.

Porque, no final, a grande conquista não é apenas emagrecer. É viver melhor, com mais saúde e mais anos de vida com qualidade.

 

Referências

JASTREBOFF, A. M. et al. Tirzepatide once weekly for the treatment of obesity. New England Journal of Medicine, v. 387, p. 205-216, 2022. DOI: 10.1056/NEJMoa2206038.

WILDING, J. P. H. et al. Once-weekly semaglutide in adults with overweight or obesity. New England Journal of Medicine, v. 384, p. 989-1002, 2021. DOI: 10.1056/NEJMoa2032183.

HE, L. et al. Association of glucagon-like peptide-1 receptor agonist use with risk of gallbladder and biliary diseases: a systematic review and meta-analysis of randomized clinical trials. JAMA Internal Medicine, v. 182, n. 5, p. 513-519, 2022. DOI: 10.1001/jamainternmed.2022.0338.

LUNDGREN, J. R. et al. Body composition changes during weight reduction with tirzepatide in the SURMOUNT-1 study of adults with obesity or overweight. Diabetes, Obesity and Metabolism, 2025. DOI: 10.1111/dom.16275.

JASTREBOFF, A. M. et al. Triple-hormone-receptor agonist retatrutide for obesity: a phase 2 trial. New England Journal of Medicine, v. 389, p. 514-526, 2023. DOI: 10.1056/NEJMoa2301972.

GARVEY, W. T. et al. Coadministered cagrilintide and semaglutide in adults with overweight or obesity. New England Journal of Medicine, v. 393, p. 635-647, 2025. DOI: 10.1056/NEJMoa2502081.

Qual é o seu risco de sofrer um infarto ou um derrame? – Como reduzir o risco cardiovascular? – Parte 3

 

 

“O melhor tratamento para um infarto continua sendo evitar que ele aconteça.”

Nas duas primeiras partes vimos que a aterosclerose é uma doença silenciosa, que se desenvolve lentamente ao longo de décadas, e que o colesterol LDL exerce um papel central nesse processo. A boa notícia é que hoje dispomos de um amplo conjunto de estratégias capazes de reduzir significativamente o risco de infarto, derrame (AVC) e morte cardiovascular. Curiosamente, nenhuma delas, isoladamente, faz milagres.

Os melhores resultados surgem quando mudanças consistentes no estilo de vida são combinadas, quando necessário, com medicamentos baseados em evidências científicas. Essa é justamente a filosofia da Medicina do Estilo de Vida.

 

A primeira receita continua sendo o estilo de vida

Quando um paciente recebe o diagnóstico de colesterol elevado, é comum perguntar: “Doutor, vou precisar tomar remédio?” A resposta, muitas vezes, é: “Antes de pensar no medicamento, vamos cuidar das causas.” A aterosclerose é influenciada por diversos fatores que podem ser modificados. Entre eles destacam-se:

  • alimentação;
  • atividade física;
  • excesso de gordura corporal, especialmente visceral;
  • tabagismo;
  • pressão arterial;
  • diabetes;
  • qualidade do sono;
  • estresse crônico;
  • consumo abusivo de álcool.

Em muitos indivíduos de baixo risco cardiovascular, essas mudanças podem ser suficientes para controlar os fatores de risco.

Em outros, especialmente aqueles de alto ou muito alto risco, elas continuam sendo indispensáveis, mas geralmente precisam ser associadas ao tratamento medicamentoso.

 

Alimentação: não existe um único modelo perfeito

A ciência da nutrição evoluiu muito nas últimas décadas. Hoje sabemos que o padrão alimentar como um todo importa mais do que um alimento isolado.

Diversos estudos demonstram benefícios consistentes de padrões alimentares ricos em alimentos naturais e minimamente processados, com abundância de vegetais, frutas, leguminosas, oleaginosas, grãos integrais e gorduras insaturadas (Estruch et al., 2018; Ludwig et al., 2024).

Entre os modelos mais estudados destacam-se:

  • dieta mediterrânea;
  • alimentação predominantemente baseada em vegetais;
  • dieta DASH;
  • alimentação rica em fibras e pobre em ultraprocessados.

Independentemente do modelo escolhido, alguns princípios permanecem praticamente universais:

  • reduzir alimentos ultraprocessados;
  • limitar gorduras trans;
  • controlar o consumo de açúcares adicionados;
  • preferir alimentos integrais;
  • consumir fibras diariamente.

 

Exercício físico: um dos medicamentos mais poderosos

Poucas intervenções apresentam impacto tão amplo quanto o exercício físico. A prática regular melhora simultaneamente:

  • pressão arterial;
  • resistência à insulina;
  • peso corporal;
  • composição corporal;
  • inflamação sistêmica;
  • função endotelial;
  • qualidade do sono;
  • saúde mental.

Além disso, reduz mortalidade cardiovascular e mortalidade por todas as causas.

As diretrizes recomendam, como regra geral:

  • pelo menos 150 a 300 minutos semanais de atividade aeróbica moderada;

ou

  • 75 a 150 minutos de atividade vigorosa.

Também é recomendável incluir treinamento de força pelo menos duas vezes por semana. Mais importante do que escolher o “melhor exercício” é encontrar uma atividade que possa ser mantida por muitos anos.

 

O cigarro continua sendo um dos maiores inimigos do coração

O tabagismo acelera praticamente todas as etapas da aterosclerose. Favorece:

  • inflamação;
  • estresse oxidativo;
  • lesão do endotélio;
  • trombose;
  • instabilidade das placas.

Parar de fumar reduz progressivamente o risco cardiovascular. Nunca é tarde para abandonar o cigarro.

 

E o álcool?

Durante muitos anos acreditou-se que pequenas quantidades de vinho poderiam proteger o coração. Hoje essa interpretação mudou completamente. Não há dose segura para o álcool, é conclusão atual.

Embora alguns estudos observacionais tenham sugerido, há décadas, algum possível benefício, pesquisas mais recentes indicam que grande parte desse aparente efeito protetor pode ser explicada por fatores de confusão, como estilo de vida, condição socioeconômica e padrão alimentar. Por exemplo, nos estudos observacionais que envolveram a dieta mediterrânea.

Assim, não existe recomendação médica para iniciar o consumo de bebidas alcoólicas visando proteção cardiovascular..

 

O peso corporal importa — mas a composição corporal importa ainda mais

Nem todo excesso de peso representa o mesmo risco. O acúmulo de gordura visceral — aquela localizada profundamente no abdome — está fortemente associado à inflamação crônica, resistência à insulina, hipertensão e dislipidemia.

Por outro lado, preservar a massa muscular tornou-se uma prioridade, especialmente após os 50 anos.

Perder peso à custa de músculo pode trazer consequências importantes para a saúde e para a longevidade. O objetivo não deve ser apenas emagrecer. Deve ser melhorar a composição corporal.

 

Microbiota intestinal: uma nova fronteira da Cardiologia

Nos últimos anos surgiu um protagonista inesperado. Os trilhões de micro-organismos que habitam nosso intestino parecem participar de diversos mecanismos relacionados ao risco cardiovascular.

Uma microbiota saudável favorece a produção de ácidos graxos de cadeia curta, ajuda na integridade da barreira intestinal e modula respostas inflamatórias.

Por outro lado, determinados padrões alimentares podem favorecer a produção de metabólitos potencialmente prejudiciais, como o TMAO (óxido de trimetilamina), associado em diversos estudos a maior risco cardiovascular, embora ainda existam aspectos em investigação (Tang et al., 2013).

Esse é um campo em rápida evolução. Ainda não tratamos pacientes com base exclusivamente na microbiota. Mas ela provavelmente fará parte da Cardiologia Preventiva do futuro.

 

Estatinas: uma das maiores conquistas da Medicina

Poucos medicamentos salvaram tantas vidas quanto as estatinas. Desde a introdução da lovastatina, no final da década de 1980, dezenas de grandes estudos clínicos demonstraram redução consistente de:

  • infarto;
  • AVC;
  • necessidade de angioplastia;
  • cirurgia de revascularização;
  • mortalidade cardiovascular.

As estatinas reduzem a produção hepática de colesterol por meio da inibição da enzima HMG-CoA redutase, aumentando a remoção de LDL da circulação.

Em média, cada redução de aproximadamente 39 mg/dL (1 mmol/L) no LDL-colesterol está associada a uma redução próxima de 20% a 25% nos eventos cardiovasculares maiores, segundo grandes metanálises da Cholesterol Treatment Trialists’ Collaboration (CTT Collaboration, 2010).

 

Estatinas: nem todas são iguais

Embora pertençam à mesma classe, diferem em potência.

 

Menor potência

  • pravastatina;
  • fluvastatina.

 

Potência intermediária

  • sinvastatina;
  • pitavastatina.

 

Maior potência

  • atorvastatina;
  • rosuvastatina.

 

Essa classificação ajuda o médico a escolher a intensidade do tratamento conforme o risco cardiovascular e a meta de LDL.

 

O medo das estatinas: realidade ou mito?

Poucos medicamentos geram tanta desconfiança quanto as estatinas. Na internet circulam relatos alarmantes sobre dores musculares, problemas de memória, lesão hepática e inúmeros outros efeitos adversos.

A ciência mostra um cenário mais equilibrado. Como qualquer medicamento, estatinas podem provocar efeitos adversos. Entretanto, eles são muito menos frequentes do que geralmente se imagina.

Além disso, estudos duplo-cegos demonstraram um fenômeno muito interessante. Quando pacientes não sabem se estão tomando estatina ou placebo, grande parte das dores musculares ocorre com frequência semelhante nos dois grupos.

Esse fenômeno recebeu o nome de efeito nocebo. Assim como o efeito placebo produz benefícios pela expectativa positiva, o efeito nocebo pode produzir sintomas desencadeados pela expectativa negativa (Wood et al., 2020). Isso não significa que todos os sintomas sejam imaginários.

Significa apenas que muitos pacientes conseguem utilizar outra estatina, em dose diferente ou em esquema alternativo após adequada reavaliação médica.

 

É mais perigoso tomar ou deixar de tomar?

Essa talvez seja uma das perguntas mais importantes da prevenção cardiovascular. Em um indivíduo jovem, saudável e de baixo risco, muitas vezes nenhuma estatina será necessária.

Entretanto, para um paciente que já sofreu infarto, possui diabetes associado a alto risco, hipercolesterolemia familiar ou doença aterosclerótica estabelecida, deixar de tratar o LDL pode representar um risco muito maior do que utilizar uma estatina corretamente indicada. Toda decisão médica envolve avaliar riscos e benefícios.

Nesse contexto, inúmeros estudos demonstram que, para pacientes com indicação adequada, os benefícios superam amplamente os riscos.

 

Quando a estatina não basta

Mesmo utilizando estatinas de alta potência, alguns pacientes não atingem a meta de LDL. Nesses casos podem ser associados outros medicamentos.

 

Ezetimiba

Reduz a absorção intestinal de colesterol. É geralmente a primeira medicação associada às estatinas. Apresenta excelente perfil de segurança.

 

Ácido bempedoico

Atua antes da HMG-CoA redutase, em uma enzima chamada ATP-citrato liase. Como é ativado principalmente no fígado, tende a produzir menos sintomas musculares. Representa excelente opção para pacientes intolerantes às estatinas ou que necessitam redução adicional do LDL.

O estudo CLEAR Outcomes demonstrou redução significativa de eventos cardiovasculares em pacientes com intolerância às estatinas (Nissen et al., 2023).

 

Inibidores de PCSK9

Medicamentos como evolocumabe e alirocumabe promovem reduções muito expressivas do LDL, frequentemente superiores a 50%. São particularmente úteis em:

  • hipercolesterolemia familiar;
  • prevenção secundária;
  • pacientes que permanecem acima da meta apesar do tratamento convencional.

 

Inclisirana

É uma terapia baseada em RNA de interferência. Sua principal vantagem é a comodidade. Após a fase inicial, costuma ser administrada apenas duas vezes por ano. Representa um dos avanços mais interessantes da Medicina de Precisão aplicada às dislipidemias.

 

A prevenção personalizada

Cada vez mais o tratamento deixa de seguir uma fórmula única. Hoje o médico considera simultaneamente:

  • risco cardiovascular global;
  • idade;
  • expectativa de vida;
  • presença de diabetes;
  • função renal;
  • histórico familiar;
  • Lp(a);
  • tolerância às medicações;
  • preferências do paciente.

Essa abordagem individualizada melhora a adesão e aumenta as chances de sucesso a longo prazo.

 

Resumo prático

A redução do risco cardiovascular começa pelo estilo de vida: alimentação saudável, atividade física regular, abandono do tabagismo, sono adequado, controle do peso e manejo do estresse continuam sendo pilares fundamentais.

Quando essas medidas não são suficientes — ou quando o risco cardiovascular já é elevado — os medicamentos tornam-se aliados importantes. Entre eles, as estatinas permanecem como o tratamento de primeira linha devido à robustez das evidências científicas.

Para pacientes que não atingem as metas ou apresentam intolerância, hoje existem alternativas eficazes, como ezetimiba, ácido bempedoico, inibidores de PCSK9 e inclisirana.

Mais do que escolher um medicamento, o objetivo é reduzir o risco de infarto, AVC e morte cardiovascular, preservando qualidade e expectativa de vida.

 

Referências

BAIGENT, C. et al. Efficacy and safety of cholesterol-lowering treatment: prospective meta-analysis of data from 90,056 participants in 14 randomised trials of statins. The Lancet. 2005.

CTT (Cholesterol Treatment Trialists’) Collaboration. Efficacy and safety of more intensive lowering of LDL cholesterol. The Lancet. 2010.

ESTRUCH, R. et al. Primary Prevention of Cardiovascular Disease with a Mediterranean Diet Supplemented with Extra-Virgin Olive Oil or Nuts. New England Journal of Medicine. Reanálise publicada em 2018.

LUDWIG, D. S. et al. Nutrition science at a crossroads: modern evidence for dietary patterns and cardiometabolic health. Nature Medicine. 2024.

NISSEN, S. E. et al. Bempedoic Acid and Cardiovascular Outcomes in Statin-Intolerant Patients. New England Journal of Medicine. 2023.

TANG, W. H. W. et al. Intestinal microbial metabolism of phosphatidylcholine and cardiovascular risk. New England Journal of Medicine. 2013.

WOOD, F. A. et al. Effects of statin therapy, placebo, and no treatment on muscle symptoms: the SAMSON trial. New England Journal of Medicine. 2020.

O Microbioma Intestinal – Uma Nova Era? – Parte 1

 

 

O estudo publicado na Nature que pode transformar a Medicina Preventiva, evoluindo da descoberta dos comensais bacterianos do intestino à definição científica de um intestino saudável.

 

Introdução

Durante décadas, a medicina concentrou grande parte de sua atenção em um órgão extraordinário: o cérebro. Mais recentemente, outro “órgão invisível” começou a despertar enorme interesse científico: o microbioma intestinal.

Embora não seja propriamente um órgão anatômico, ele funciona como um verdadeiro ecossistema composto por aproximadamente 30 a 40 trilhões de microrganismos, incluindo bactérias, vírus, fungos e arqueias, que convivem em equilíbrio no trato digestório humano.

Hoje sabemos que esses microrganismos participam da digestão, da produção de vitaminas, da modulação do sistema imunológico, do metabolismo energético e até da comunicação entre intestino e cérebro.

Nos últimos quinze anos, milhares de estudos passaram a associar alterações do microbioma à obesidade, diabetes tipo 2, doenças cardiovasculares, depressão, ansiedade, doenças inflamatórias intestinais, doença de Parkinson, doença de Alzheimer e diversas outras condições clínicas.

Entretanto, permanecia uma pergunta aparentemente simples, mas extremamente difícil de responder: Como é, afinal, um microbioma realmente saudável?

A resposta pode estar começando a surgir. Em 2026, um importante estudo publicado na revista Nature propôs uma nova maneira de responder exatamente essa questão.

Mais do que identificar algumas bactérias “boas” ou “ruins”, os pesquisadores desenvolveram uma estratégia para avaliar o equilíbrio global do ecossistema intestinal.

Se essa abordagem se confirmar nos próximos anos, ela poderá representar uma das maiores mudanças da Medicina Preventiva desde o surgimento da genômica.

 

O problema: durante anos estudamos árvores, mas não a floresta

Grande parte das pesquisas sobre microbiota concentrou-se em responder perguntas como:

  • Existe uma bactéria da obesidade?
  • Existe uma bactéria da depressão?
  • Existe uma bactéria que protege contra diabetes?

Essa estratégia produziu importantes descobertas.

Sabemos, por exemplo, que bactérias produtoras de ácidos graxos de cadeia curta (SCFAs), como o butirato, exercem papel importante na integridade da barreira intestinal, na modulação da inflamação e no metabolismo energético. Também sabemos que algumas espécies tendem a diminuir em determinadas doenças.

O problema é que esses achados raramente eram consistentes entre diferentes populações. Uma bactéria considerada benéfica em um país nem sempre aparecia da mesma forma em outro.

Isso levou muitos pesquisadores a perceber que talvez estivéssemos fazendo a pergunta errada. Talvez não exista uma única “bactéria da saúde”. Talvez a saúde dependa muito mais do funcionamento do conjunto.

É como uma orquestra. Uma excelente sinfonia não depende apenas de um bom violinista. Ela depende da harmonia entre todos os instrumentos. O microbioma parece funcionar exatamente dessa maneira.

 

Uma mudança de paradigma

Foi exatamente esse desafio que motivou o trabalho liderado por Nicola Segata, Curtis Huttenhower, Francesco Asnicar e colaboradores.

O grupo reuniu milhares de amostras de microbioma provenientes de diferentes países, continentes, hábitos alimentares e estilos de vida.

Em vez de procurar uma bactéria específica, os pesquisadores utilizaram ferramentas avançadas de bioinformática e aprendizado de máquina (machine learning) para responder outra pergunta:

Existe um padrão global de microbioma que caracterize indivíduos metabolicamente mais saudáveis? A resposta foi surpreendente. Sim. Os autores conseguiram desenvolver dois índices capazes de resumir características extremamente complexas do microbioma:

  • um índice relacionado ao estado geral de saúde do indivíduo;
  • outro relacionado à qualidade da alimentação.

Em outras palavras, pela primeira vez talvez tenha se tornado possível avaliar o microbioma como quem interpreta um eletrocardiograma ou um perfil lipídico: não observando apenas um componente isolado, mas um padrão integrado.

 

O que realmente torna esse estudo inovador?

A grande novidade não foi descobrir mais uma bactéria. Foi abandonar essa lógica. Durante anos imaginou-se que bastaria encontrar algumas espécies “boas” para melhorar a saúde.

O novo estudo mostra que o importante talvez seja o funcionamento coletivo da comunidade microbiana. Essa mudança lembra a evolução ocorrida na Ecologia.

No passado, pesquisadores estudavam espécies isoladas. Hoje compreendem que o equilíbrio de um ecossistema depende muito mais das interações entre seus habitantes do que da presença ou ausência de uma única espécie.

O intestino humano parece obedecer ao mesmo princípio.

 

Alimentação: o principal arquiteto do microbioma

Outro aspecto extremamente interessante do estudo foi mostrar que os padrões alimentares permanecem como um dos fatores mais importantes na organização desse ecossistema.

Dietas ricas em frutas, verduras, legumes, leguminosas, cereais integrais e outros alimentos ricos em fibras mostraram associação consistente com perfis considerados mais favoráveis.

Por outro lado, padrões alimentares ricos em alimentos ultraprocessados, pobres em fibras e excessivamente refinados tenderam a apresentar características menos favoráveis.

Isso não significa que exista um alimento milagroso. Pelo contrário. A pesquisa reforça um conceito cada vez mais presente na Medicina do Estilo de Vida:

O microbioma responde muito mais ao padrão alimentar com um todo do que a alimentos isolados ou suplementos específicos.

Essa talvez seja uma das mensagens mais importantes para pacientes e profissionais de saúde.

Um novo “exame” para o futuro?

Imagine realizar um exame de fezes capaz de informar não apenas quais bactérias vivem em seu intestino, mas também oferecer um índice de qualidade do seu microbioma, semelhante ao que hoje fazemos com colesterol, glicemia ou pressão arterial.

Ainda não chegamos a esse ponto. Mas o estudo publicado na Nature aproxima a Medicina dessa possibilidade.

Os autores ressaltam que seus índices ainda precisam ser validados em diferentes populações e contextos clínicos antes de serem incorporados à prática assistencial.

Mesmo assim, trata-se de um passo importante em direção à chamada Medicina de Precisão baseada no microbioma.

Resumo prático

O estudo da Nature não descobriu “a bactéria perfeita”. Descobriu algo possivelmente mais importante.

Mostrou que um microbioma saudável parece ser definido muito mais pelo equilíbrio funcional entre centenas de espécies do que pela presença de um único microrganismo.

Em vez de procurar um “herói” bacteriano, a ciência começa a enxergar o intestino como um ecossistema complexo, cuja harmonia pode refletir a qualidade da alimentação, do estilo de vida e do estado geral de saúde.

Essa mudança pode representar um dos maiores avanços da pesquisa em microbioma desde o início do Projeto Microbioma Humano.

Na próxima parte discutiremos por que esse trabalho poderá modificar a prática médica, quais são suas limitações, como ele poderá influenciar a nutrição personalizada, os probióticos de nova geração e a prevenção de doenças crônicas, além da pergunta que talvez mais interesse aos leitores: o que essa descoberta muda, na prática, para a minha saúde?

 

Referências

ASNICAR, F. et al. Gut micro-organisms associated with health, nutrition and dietary interventions. Nature, 2026.

THE HUMAN MICROBIOME PROJECT CONSORTIUM. Structure, function and diversity of the healthy human microbiome. Nature, 486:207–214, 2012.

GILBERT, J. A.; BLASER, M. J.; CAPORASO, J. G. et al. Current understanding of the human microbiome. Nature Medicine, 24:392–400, 2018.

FAN, Y.; PEDERSEN, O. Gut microbiota in human metabolic health and disease. Nature Reviews Microbiology, 19:55–71, 2021.

VALDES, A. M.; WALTER, J.; SEGAL, E.; SPECTOR, T. D. Role of the gut microbiota in nutrition and health. BMJ, 361, 2018.

 

Medicina Genômica Personalizada na Lapinha – Parte 1

 

 

Como os testes genéticos podem ajudar na prevenção de doenças e na individualização dos tratamentos?

A genética pode revelar predisposições importantes, mas não determina o seu destino. Na maioria das vezes, o estilo de vida continua sendo o principal fator capaz de modificar o risco de adoecer.

A genética informa. O estilo de vida transforma!

 

 

A medicina está entrando em uma nova era

Durante muitos anos, a medicina baseou-se principalmente nos sintomas apresentados pelo paciente e nos resultados de exames laboratoriais e de imagem. Esse modelo continua sendo extremamente importante, mas um novo recurso vem ampliando nossa capacidade de compreender as diferenças entre as pessoas: a medicina genômica.

Os testes genéticos permitem identificar pequenas variações no DNA que podem influenciar o risco de desenvolver determinadas doenças, a forma como cada organismo responde a alguns medicamentos e, em situações específicas, orientar estratégias mais individualizadas de prevenção e tratamento.

Essa abordagem faz parte do conceito de medicina personalizada, também chamada de medicina de precisão, cujo objetivo é adaptar as decisões médicas às características de cada indivíduo (Collins; Varmus, 2015).

Entretanto, é importante esclarecer um aspecto fundamental: um teste genético não prevê o futuro. Na maioria das doenças comuns, como diabetes, obesidade, doenças cardiovasculares e depressão, dezenas ou centenas de genes interagem entre si e, principalmente, com fatores ambientais, como alimentação, atividade física, qualidade do sono, tabagismo, estresse e exposição a agentes ambientais.

Em outras palavras, os genes representam uma predisposição, e não uma sentença. Mesmo pessoas que apresentam maior risco genético podem reduzir significativamente suas chances de adoecer adotando hábitos saudáveis.

 

O que um teste genético pode — e o que ele não pode — revelar?

Nos últimos anos surgiram centenas de testes genéticos comercializados diretamente ao consumidor. Alguns oferecem informações realmente úteis; outros apresentam resultados interessantes do ponto de vista científico, mas ainda sem aplicação prática na medicina.

Na Lapinha, optamos por disponibilizar apenas exames que apresentam fundamentação biológica consistente e algum potencial de modificar a conduta clínica, sempre respeitando o nível atual das evidências científicas.

De forma geral, um teste genético pode ajudar a responder perguntas como:

  • Existe predisposição aumentada para determinadas doenças hereditárias?
  • Determinado medicamento pode causar mais efeitos colaterais em mim?
  • Posso precisar de doses diferentes de alguns medicamentos?
  • Tenho maior risco de desenvolver doença cardiovascular do que os exames tradicionais sugerem?
  • Existe alguma condição hereditária importante que possa beneficiar também meus familiares?

Por outro lado, nenhum teste genético consegue responder com segurança perguntas como:

  • “Vou desenvolver Alzheimer?”
  • “Com certeza terei diabetes?”
  • “Qual antidepressivo irá funcionar para mim?”
  • “Qual esporte devo praticar?”
  • “Minha genética impede que eu emagreça?”

Essas afirmações, infelizmente comuns em propagandas, não são sustentadas pelas melhores evidências científicas disponíveis.

 

Por que o protocolo Lapinha propõe consulta médica antes e depois do exame?*

Um exame genético isolado raramente fornece respostas completas. Seu verdadeiro valor está na interpretação dos resultados à luz da história clínica, dos antecedentes familiares, dos hábitos de vida e dos demais exames do paciente.

Por esse motivo, todos os testes genéticos oferecidos pela Lapinha são acompanhados por consulta médica antes da solicitação, para verificar se realmente existe indicação para o exame, e por uma consulta de devolutiva, na qual os resultados são interpretados de forma individualizada e transformados em orientações práticas.

Essa abordagem evita interpretações equivocadas e permite integrar a informação genética às demais estratégias de promoção da saúde, sempre dentro dos princípios da medicina baseada em evidências.

 

Os painéis genéticos oferecidos pela Lapinha*

Após ampla revisão da literatura científica, selecionamos oito painéis que apresentam os melhores níveis atuais de evidência e aplicabilidade clínica. Alguns já podem modificar diretamente a escolha de medicamentos, enquanto outros auxiliam principalmente na estratificação de risco e no planejamento preventivo.

* Em fase de implantação.

 

  1. Farmacogenômica Cardiovascular

Genes principais: SLCO1B1

 

O que esse exame avalia?

As estatinas estão entre os medicamentos mais utilizados para reduzir o colesterol e prevenir infarto e acidente vascular cerebral. Embora sejam seguras para a grande maioria das pessoas, alguns pacientes apresentam maior predisposição genética para desenvolver dores musculares ou, raramente, lesões musculares mais importantes.

O principal gene envolvido nesse processo é o SLCO1B1, responsável pelo transporte das estatinas para o interior das células do fígado.

 

Quando esse exame pode mudar a conduta médica?

Pacientes que apresentam variantes de menor atividade desse gene possuem maior risco de efeitos musculares, especialmente quando utilizam sinvastatina. Nesses casos, o médico pode optar por reduzir a dose ou preferir outras estatinas, como pravastatina ou rosuvastatina, que apresentam menor influência desse mecanismo (CPIC; Pirmohamed, 2023).

 

Para quem pode ser indicado?

  • Pessoas que necessitam iniciar tratamento com estatinas.
  • Pacientes que apresentaram dores musculares durante o uso desses medicamentos.
  • Indivíduos com necessidade de tratamento prolongado para redução do colesterol.

 

Nível atual de evidência: Muito alto.

Esse é um dos testes farmacogenômicos mais bem estabelecidos da medicina atual.

 

  1. Farmacogenômica Psiquiátrica

Genes principais: CYP2D6 e CYP2C19

 

O que esse exame avalia?

Cada pessoa metaboliza antidepressivos em velocidade diferente. Enquanto alguns indivíduos eliminam esses medicamentos lentamente, aumentando o risco de efeitos colaterais, outros os metabolizam rapidamente, podendo obter menor benefício com as doses habituais.

Os genes CYP2D6 e CYP2C19 são responsáveis por grande parte dessas diferenças.

 

Quando esse exame pode mudar a conduta médica?

O resultado pode orientar o médico na escolha do antidepressivo e no ajuste da dose de medicamentos como escitalopram, citalopram, sertralina, paroxetina, fluoxetina, venlafaxina, duloxetina, amitriptilina e nortriptilina, reduzindo a probabilidade de efeitos adversos ou de resposta insuficiente (CPIC).

É importante destacar que o exame não determina qual antidepressivo será o melhor, mas fornece informações que podem facilitar a individualização do tratamento.

 

Para quem pode ser indicado?

  • Pacientes com depressão ou transtornos de ansiedade que apresentaram efeitos adversos importantes.
  • Pessoas com dificuldade para encontrar um antidepressivo eficaz.
  • Casos em que se prevê necessidade de tratamento prolongado.

 

Nível atual de evidência: Alto.

 

 

  1. Farmacogenômica do Folato na Depressão Resistente

Gene principal: MTHFR

O que esse exame avalia?

O gene MTHFR participa da conversão do ácido fólico em sua forma biologicamente ativa, o L-metilfolato, essencial para a produção de neurotransmissores envolvidos no funcionamento cerebral.

Algumas variantes desse gene reduzem parcialmente a atividade da enzima. Entretanto, isso não significa que a pessoa desenvolverá depressão, nem que todos os portadores necessitem de suplementação.

 

Quando esse exame pode mudar a conduta médica?

Em pacientes com transtorno depressivo maior resistente ao tratamento, especialmente quando existem alterações no metabolismo do folato, o resultado pode reforçar a indicação do uso de L-metilfolato como terapia complementar ao antidepressivo.

Estudos clínicos demonstraram melhora significativa da resposta terapêutica com 15 mg/dia de L-metilfolato em pacientes com depressão resistente (Papakostas et al., 2012).

 

Para quem pode ser indicado?

  • Pacientes com depressão resistente.
  • Pessoas que não responderam adequadamente a diferentes antidepressivos.
  • Casos selecionados, sempre associados à avaliação clínica e laboratorial.

 

Nível atual de evidência: Moderado.

 

  1. Gene APOE: Avaliação do Risco Genético para Doença de Alzheimer

Gene principal: APOE

 

O que esse exame avalia?

Entre todos os genes conhecidos relacionados à doença de Alzheimer de início tardio, o APOE, especialmente seu alelo ε4, é o marcador genético isolado com maior respaldo científico.

Pessoas portadoras de uma ou duas cópias desse alelo apresentam maior probabilidade de desenvolver a doença ao longo da vida. Entretanto, muitas jamais apresentarão sintomas, enquanto outras pessoas sem esse alelo também podem desenvolver Alzheimer.

 

Quando esse exame pode mudar a conduta médica?

Embora o resultado não estabeleça o diagnóstico, ele pode auxiliar na estratificação de risco, orientar o acompanhamento de indivíduos com forte histórico familiar e contribuir para decisões clínicas em centros especializados, especialmente na era das terapias modificadoras da doença (Alzheimer’s Association, 2025).

Além disso, conhecer esse risco pode estimular intervenções precoces sobre fatores modificáveis, como controle da pressão arterial, atividade física, alimentação, qualidade do sono e estímulo cognitivo, medidas reconhecidamente associadas à redução do risco de demência (Livingston et al., 2024).

 

Para quem pode ser indicado?

  • Pessoas com forte histórico familiar de doença de Alzheimer.
  • Indivíduos interessados em programas personalizados de prevenção.
  • Casos selecionados após aconselhamento médico.

 

Nível atual de evidência: Alto, embora sua interpretação exija cautela e sempre deva ser acompanhada de aconselhamento médico.

(Continua na Parte 2.)

Modas, Mitos e Verdades: a Medicina que Resiste ao Tempo

 

 

 Por que certas ideias médicas explodem, viram manchete e desaparecem — enquanto os princípios de sempre continuam de pé, discretos e inabaláveis O ovo era o vilão. Depois virou mocinho. A gordura matava. Depois salvava. A proteína curava tudo. Depois virou excesso. A história da medicina está cheia de certezas que duraram uma estação e de modismos que custaram — e ainda custam — a saúde de muitas pessoas.

 

A roda que nunca para de girar

Existe um padrão que se repete com perturbadora regularidade no mundo da saúde: uma descoberta científica — muitas vezes preliminar, frequentemente mal interpretada — é amplificada pela mídia, abraçada pela indústria e transformada em promessa salvadora. Livros tornam-se best-sellers. Suplementos esgotam nas prateleiras. Clínicas especialistas surgem da noite para o dia. E então, quando a fumaça dissipa, o que sobra é, na maioria das vezes, decepção.

Não se trata de ceticismo barato. Trata-se de um fenômeno documentado e estudado. Goldacre (2012), no livro Bad Science — e em publicações na revista BMJ —, descreveu com precisão cirúrgica como a mídia transforma achados de estudos em animais, ou estudos observacionais de pequena escala, em manchetes do tipo “descoberto o alimento que cura o câncer”. O problema é estrutural: jornais precisam de audiência, indústrias precisam de mercado, e a nuance científica raramente vende.

O nutricionista e pesquisador David Katz, da Universidade Yale, sintetizou bem o problema numa revisão publicada no Annual Review of Public Health (Katz; Meller, 2014): “Sabemos muito sobre o que é uma dieta saudável. O problema é que esse conhecimento não rende manchetes.” Comer mais vegetais, mover-se, dormir bem e não fumar não tem lobby poderoso, não gera patente, não vira trending topic.

“Sabemos muito sobre o que é uma dieta saudável. O problema é que esse conhecimento não rende manchetes.” — Katz e Meller, 2014

 

O ovo: de vilão a mártir da desinformação

Poucos exemplos ilustram tão bem a dança dos modismos quanto a trajetória do ovo na cultura nutricional ocidental. Entre as décadas de 1960 e 2010, o ovo foi sistematicamente vilipendiado. A lógica parecia irrefutável: ovos contêm colesterol; colesterol causa doença cardiovascular; logo, ovos matam. Simples, elegante, errado!

O problema começa no estudo original que deu origem a essa narrativa. Ancel Keys, nos anos 1950 e 1960, conduziu o famoso Seven Countries Study — que correlacionou consumo de gordura saturada com mortalidade cardiovascular. O estudo era real, mas a extrapolação para o ovo foi precipitada. Mais tarde, análises independentes demonstraram que Keys havia selecionado apenas os países que confirmavam sua hipótese, ignorando dezenas que contradiziam (Yerushalmy; Hilleboe, 1957, citado em Ravnskov, 2002).

Décadas depois, metanálise publicada no British Medical Journal por Rong e colaboradores (2013), reunindo dados de 17 estudos prospectivos com mais de 3 milhões de pessoas-ano de acompanhamento, não encontrou associação significativa entre consumo moderado de ovos (até um por dia) e risco cardiovascular em populações saudáveis. A revisão sistemática de Blesso e Fernandez (2018), no Nutrients, foi além: demonstrou que o ovo inteiro melhora o perfil de partículas LDL (tornando-as maiores e menos aterogênicas) e eleva o HDL de forma favorável.

Mas atenção: isso não autoriza o extremo oposto. Hoje circulam nas redes recomendações para consumir 10, 12 ovos por dia, associadas a protocolos carnívoros radicais. Estudo de Zhong e colaboradores (2019), publicado no JAMA com 29.615 participantes e seguimento médio de 17,5 anos, demonstrou associação dose-dependente entre consumo elevado de colesterol dietético e risco cardiovascular. Ou seja: moderação continua sendo a palavra científica mais importante — e menos popular.

 

A dieta da proteína: quando o excesso vira dogma

Nenhum macronutriente foi tão glorificado nos últimos vinte anos quanto a proteína. A narrativa é sedutora: proteínas constroem músculos, saciam, aceleram o metabolismo, são os “tijolos da vida”. Tudo verdadeiro — até o ponto em que deixa de ser.

A recomendação global de organismos como a World Health Organization (WHO, 2007) para pessoas saudáveis é de 0,8 g de proteína por kg de peso corporal por dia. Para atletas e idosos, há consenso para valores entre 1,2 e 1,6 g/kg/dia (Morton et al., 2018 — metanálise no British Journal of Sports Medicine com 49 ensaios clínicos). Acima disso, os ganhos adicionais de massa muscular são marginais e os riscos começam a aparecer.

Levine e colaboradores (2014), no Cell Metabolism, acompanharam 6.381 adultos por 18 anos e encontraram que consumo elevado de proteína animal na meia-idade associou-se a aumento de 4 vezes no risco de morte por câncer — com a associação mediada em grande parte pelo IGF-1, fator de crescimento insulínico estimulado pelo excesso proteico. A ressalva: esse risco parece se inverter após os 65 anos, quando a proteína adequada (não excessiva!) passa a ser protetora. Mais uma vez: contexto, dose, individualização.

 

Peptídeos, soroterapia e o negócio da esperança

A onda dos peptídeos é a versão contemporânea de promessas milenares. Alguns têm uso médico legítimo — análogos do GLP-1 para obesidade e diabetes, colágeno hidrolisado para articulações. O problema está na extrapolação selvagem. Revisão sistemática de Elad e colaboradores (2022), no Pharmacology & Therapeutics, concluiu que a vasta maioria dos “peptídeos funcionais” comercializados para longevidade e performance carece de ensaios clínicos randomizados em humanos que comprovem segurança e eficácia.

A soroterapia — infusões intravenosas de vitaminas e minerais — tem nicho clínico real e restrito: repleção de deficiências documentadas, suporte oncológico adjuvante. Fora desse contexto, a evidência para uso rotineiro em pessoas saudáveis é, conforme revisão de Lawson e colaboradores (2015) no Journal of Evidence-Based Complementary & Alternative Medicine, de baixa qualidade.

Modismos surgem na borda da ciência — onde os dados são preliminares, a esperança é grande e o ceticismo ainda não chegou.

 

O “detox” e a fisiologia que ninguém conta

O mercado global de produtos “detox” movimentou mais de 50 bilhões de dólares em 2022 — apesar de um fato biológico simples: o corpo humano possui um sistema de desintoxicação extraordinariamente eficiente, composto pelo fígado, rins, pulmões, pele e sistema linfático, que trabalham ininterruptamente, desde que não sejam estorvados. E vale lembrar que somos nós que colocamos pedrinhas e pedronas no caminho da nossa saúde – alimentação errada, sono ruim, sedentarismo, tabagismo, álcool e por aí vai.

Klein e Kiat (2015), numa revisão no Journal of Human Nutrition and Dietetics, analisaram 15 estudos sobre dietas e produtos “detox” comerciais e concluíram que nenhum apresentava ensaio clínico randomizado de qualidade suficiente para embasar as afirmações.

Isso não significa que períodos de alimentação simples, anti-inflamatória ou jejum intermitente bem conduzido sejam sem valor — muito pelo contrário. Mas o mecanismo é fisiológico: reduzir carga inflamatória, restaurar sensibilidade insulínica, permitir autofagia celular — processos premiados com o Nobel de Medicina de 2016 (Ohsumi, 2016).

 

Por que os modismos funcionam: psicologia e neurociência

Kahneman (2011), em décadas de pesquisa premiadas com o Nobel de Economia (2002), descreveu o “viés de disponibilidade”: tendemos a julgar como provável o que é fácil de lembrar — e uma manchete impactante é muito mais memorável do que um estudo de coorte de 20 anos.

Loewenstein, Brennan e Volpp (2007), no JAMA, documentaram o papel das emoções nas decisões de saúde: pessoas preferem intervenções com resultados imediatos e tangíveis — mesmo quando são menos eficazes — a mudanças de comportamento graduais com benefícios de longo prazo. Um “detox relâmpago” promete resultado rápido, visível, sentido. Já uma dieta mediterrânea ou outro plano saudável de alimentação, levado a capricho por décadas, promete saúde real. A neurobiologia do prazer imediato sempre preferiu a primeira opção.

 

O que resiste: os axiomas que o tempo confirma

Existe um conjunto de intervenções cujo suporte científico não apenas sobreviveu ao tempo, mas cresceu com ele — acumulando metanálises, revisões sistemáticas e ensaios de alta qualidade apontando consistentemente na mesma direção:

 

  • Dieta mediterrânea: reduz 30% do risco cardiovascular (Estruch et al., 2013 — NEJM, 7.447 participantes)
  • Exercício físico regular: reduz mortalidade total em 31-35% (Arem et al., 2015 — JAMA, 661.137 participantes)
  • Sono adequado (7-9h): associado a menor mortalidade e risco metabólico (Cappuccio et al., 2010)
  • Não fumar: acrescenta até 10 anos de expectativa de vida (Doll et al., 2004 — BMJ, 50 anos de seguimento)
  • Moderação/abstinência de álcool: sem dose segura para câncer (Wood et al., 2018 — The Lancet, 599.912 participantes)
  • Vínculos sociais: isolamento aumenta mortalidade com risco equivalente ao tabagismo (Holt-Lunstad et al., 2010 — PLOS Medicine)
  • Controle de peso com atenção à massa muscular: reduz risco de diabetes, doença cardiovascular, certos cânceres (GBD 2015 Obesity Collaborators — NEJM)

 

Note que nenhum item dessa lista envolve suplemento, protocolo relâmpago, peptídeo exclusivo ou terapia intravenosa cara. Todos têm evidência de nível A — o mais alto da hierarquia científica!

 

A hierarquia que importa (e que os modismos ignoram)

Ioannidis (2005), em artigo seminal no PLOS Medicine — “Why Most Published Research Findings Are False” —, demonstrou matematicamente que a maioria dos resultados positivos em estudos individuais com amostras pequenas são falsos positivos. Esse artigo tornou-se um dos mais citados da história da medicina e impulsionou uma era de maior rigor metodológico.

A lição prática é direta: antes de adotar qualquer intervenção médica ou nutricional, suplemento ou protocolo, faça quatro perguntas essenciais:

  • Há metanálise ou revisão sistemática sobre o assunto?
  • Quantas pessoas foram estudadas?
  • Por quanto tempo?
  • Quem financiou a pesquisa?

Essas questões simples filtram 90% do ruído informativo. Isso não significa que devemos ignorar as novidades ou desprezar o saber ancestral, como a acupuntura. Estudos clínicos robustos são caros, e geralmente apenas grandes indústrias e instituições de peso têm recursos para patrociná-los. É justamente aqui que entra o bom senso.

Além de buscar evidências científicas sólidas, é fundamental indagar: há quanto tempo esse método é conhecido? Se uma prática resiste desde tempos imemoriais — e não se trata apenas de folclore ou misticismo —, o filtro do tempo se encarrega de eliminar as falsas promessas, que raramente se sustentam por gerações. Partimos da premissa de que o que sobrevive ao tempo na medicina carrega eficácia real e, por isso, merece ser submetido a investigações científicas mais aprofundadas.

O equilíbrio deve prevalecer: não podemos ser excessivamente acadêmicos, nem puramente empiristas ou pragmáticos. O segredo está em ter a acurácia necessária para filtrar informações e ponderar riscos com sabedoria.

Antes de adotar qualquer promessa de saúde: existe metanálise? Quantas pessoas? Por quanto tempo? Quem pagou a pesquisa?

A ciência que envelhece bem

Comer comida de verdade — predominantemente plantas, pouco processada. Mover o corpo diariamente. Dormir o suficiente. Não fumar. Cuidar dos vínculos humanos. Gerenciar o estresse. Esses são os axiomas da saúde que resistem ao tempo, às modas e às manchetes.

Os modismos virão e passarão. O ovo voltará a ser vilão e depois mocinho novamente, dependendo de qual estudo o jornal resolver reportar esta semana. Novos “superalimentos” serão descobertos. Novos peptídeos prometerão a imortalidade. E a indústria do bem-estar continuará crescendo sobre a insegurança humana e o desejo legítimo de viver melhor.

Mas os axiomas ficam. A ciência que envelhece bem não é aquela que explode nas redes sociais — é aquela que sobrevive ao teste do tempo, à replicação independente e ao escrutínio dos pares.

Às vezes, a coisa mais revolucionária que um médico pode prescrever é: durma bem, coma mais vegetais, caminhe todo dia e mantenha seus laços afetivos. Não tem patente. Não tem margem de lucro. Mas tem evidência.

 

 

 

Referências

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Artigo de caráter educacional. Consulte sempre um profissional de saúde qualificado para orientação individualizada

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