Medicina Genômica Personalizada na Lapinha – Parte 1

 

 

Como os testes genéticos podem ajudar na prevenção de doenças e na individualização dos tratamentos?

A genética pode revelar predisposições importantes, mas não determina o seu destino. Na maioria das vezes, o estilo de vida continua sendo o principal fator capaz de modificar o risco de adoecer.

A genética informa. O estilo de vida transforma!

 

 

A medicina está entrando em uma nova era

Durante muitos anos, a medicina baseou-se principalmente nos sintomas apresentados pelo paciente e nos resultados de exames laboratoriais e de imagem. Esse modelo continua sendo extremamente importante, mas um novo recurso vem ampliando nossa capacidade de compreender as diferenças entre as pessoas: a medicina genômica.

Os testes genéticos permitem identificar pequenas variações no DNA que podem influenciar o risco de desenvolver determinadas doenças, a forma como cada organismo responde a alguns medicamentos e, em situações específicas, orientar estratégias mais individualizadas de prevenção e tratamento.

Essa abordagem faz parte do conceito de medicina personalizada, também chamada de medicina de precisão, cujo objetivo é adaptar as decisões médicas às características de cada indivíduo (Collins; Varmus, 2015).

Entretanto, é importante esclarecer um aspecto fundamental: um teste genético não prevê o futuro. Na maioria das doenças comuns, como diabetes, obesidade, doenças cardiovasculares e depressão, dezenas ou centenas de genes interagem entre si e, principalmente, com fatores ambientais, como alimentação, atividade física, qualidade do sono, tabagismo, estresse e exposição a agentes ambientais.

Em outras palavras, os genes representam uma predisposição, e não uma sentença. Mesmo pessoas que apresentam maior risco genético podem reduzir significativamente suas chances de adoecer adotando hábitos saudáveis.

 

O que um teste genético pode — e o que ele não pode — revelar?

Nos últimos anos surgiram centenas de testes genéticos comercializados diretamente ao consumidor. Alguns oferecem informações realmente úteis; outros apresentam resultados interessantes do ponto de vista científico, mas ainda sem aplicação prática na medicina.

Na Lapinha, optamos por disponibilizar apenas exames que apresentam fundamentação biológica consistente e algum potencial de modificar a conduta clínica, sempre respeitando o nível atual das evidências científicas.

De forma geral, um teste genético pode ajudar a responder perguntas como:

  • Existe predisposição aumentada para determinadas doenças hereditárias?
  • Determinado medicamento pode causar mais efeitos colaterais em mim?
  • Posso precisar de doses diferentes de alguns medicamentos?
  • Tenho maior risco de desenvolver doença cardiovascular do que os exames tradicionais sugerem?
  • Existe alguma condição hereditária importante que possa beneficiar também meus familiares?

Por outro lado, nenhum teste genético consegue responder com segurança perguntas como:

  • “Vou desenvolver Alzheimer?”
  • “Com certeza terei diabetes?”
  • “Qual antidepressivo irá funcionar para mim?”
  • “Qual esporte devo praticar?”
  • “Minha genética impede que eu emagreça?”

Essas afirmações, infelizmente comuns em propagandas, não são sustentadas pelas melhores evidências científicas disponíveis.

 

Por que o protocolo Lapinha propõe consulta médica antes e depois do exame?*

Um exame genético isolado raramente fornece respostas completas. Seu verdadeiro valor está na interpretação dos resultados à luz da história clínica, dos antecedentes familiares, dos hábitos de vida e dos demais exames do paciente.

Por esse motivo, todos os testes genéticos oferecidos pela Lapinha são acompanhados por consulta médica antes da solicitação, para verificar se realmente existe indicação para o exame, e por uma consulta de devolutiva, na qual os resultados são interpretados de forma individualizada e transformados em orientações práticas.

Essa abordagem evita interpretações equivocadas e permite integrar a informação genética às demais estratégias de promoção da saúde, sempre dentro dos princípios da medicina baseada em evidências.

 

Os painéis genéticos oferecidos pela Lapinha*

Após ampla revisão da literatura científica, selecionamos oito painéis que apresentam os melhores níveis atuais de evidência e aplicabilidade clínica. Alguns já podem modificar diretamente a escolha de medicamentos, enquanto outros auxiliam principalmente na estratificação de risco e no planejamento preventivo.

* Em fase de implantação.

 

  1. Farmacogenômica Cardiovascular

Genes principais: SLCO1B1

 

O que esse exame avalia?

As estatinas estão entre os medicamentos mais utilizados para reduzir o colesterol e prevenir infarto e acidente vascular cerebral. Embora sejam seguras para a grande maioria das pessoas, alguns pacientes apresentam maior predisposição genética para desenvolver dores musculares ou, raramente, lesões musculares mais importantes.

O principal gene envolvido nesse processo é o SLCO1B1, responsável pelo transporte das estatinas para o interior das células do fígado.

 

Quando esse exame pode mudar a conduta médica?

Pacientes que apresentam variantes de menor atividade desse gene possuem maior risco de efeitos musculares, especialmente quando utilizam sinvastatina. Nesses casos, o médico pode optar por reduzir a dose ou preferir outras estatinas, como pravastatina ou rosuvastatina, que apresentam menor influência desse mecanismo (CPIC; Pirmohamed, 2023).

 

Para quem pode ser indicado?

  • Pessoas que necessitam iniciar tratamento com estatinas.
  • Pacientes que apresentaram dores musculares durante o uso desses medicamentos.
  • Indivíduos com necessidade de tratamento prolongado para redução do colesterol.

 

Nível atual de evidência: Muito alto.

Esse é um dos testes farmacogenômicos mais bem estabelecidos da medicina atual.

 

  1. Farmacogenômica Psiquiátrica

Genes principais: CYP2D6 e CYP2C19

 

O que esse exame avalia?

Cada pessoa metaboliza antidepressivos em velocidade diferente. Enquanto alguns indivíduos eliminam esses medicamentos lentamente, aumentando o risco de efeitos colaterais, outros os metabolizam rapidamente, podendo obter menor benefício com as doses habituais.

Os genes CYP2D6 e CYP2C19 são responsáveis por grande parte dessas diferenças.

 

Quando esse exame pode mudar a conduta médica?

O resultado pode orientar o médico na escolha do antidepressivo e no ajuste da dose de medicamentos como escitalopram, citalopram, sertralina, paroxetina, fluoxetina, venlafaxina, duloxetina, amitriptilina e nortriptilina, reduzindo a probabilidade de efeitos adversos ou de resposta insuficiente (CPIC).

É importante destacar que o exame não determina qual antidepressivo será o melhor, mas fornece informações que podem facilitar a individualização do tratamento.

 

Para quem pode ser indicado?

  • Pacientes com depressão ou transtornos de ansiedade que apresentaram efeitos adversos importantes.
  • Pessoas com dificuldade para encontrar um antidepressivo eficaz.
  • Casos em que se prevê necessidade de tratamento prolongado.

 

Nível atual de evidência: Alto.

 

 

  1. Farmacogenômica do Folato na Depressão Resistente

Gene principal: MTHFR

O que esse exame avalia?

O gene MTHFR participa da conversão do ácido fólico em sua forma biologicamente ativa, o L-metilfolato, essencial para a produção de neurotransmissores envolvidos no funcionamento cerebral.

Algumas variantes desse gene reduzem parcialmente a atividade da enzima. Entretanto, isso não significa que a pessoa desenvolverá depressão, nem que todos os portadores necessitem de suplementação.

 

Quando esse exame pode mudar a conduta médica?

Em pacientes com transtorno depressivo maior resistente ao tratamento, especialmente quando existem alterações no metabolismo do folato, o resultado pode reforçar a indicação do uso de L-metilfolato como terapia complementar ao antidepressivo.

Estudos clínicos demonstraram melhora significativa da resposta terapêutica com 15 mg/dia de L-metilfolato em pacientes com depressão resistente (Papakostas et al., 2012).

 

Para quem pode ser indicado?

  • Pacientes com depressão resistente.
  • Pessoas que não responderam adequadamente a diferentes antidepressivos.
  • Casos selecionados, sempre associados à avaliação clínica e laboratorial.

 

Nível atual de evidência: Moderado.

 

  1. Gene APOE: Avaliação do Risco Genético para Doença de Alzheimer

Gene principal: APOE

 

O que esse exame avalia?

Entre todos os genes conhecidos relacionados à doença de Alzheimer de início tardio, o APOE, especialmente seu alelo ε4, é o marcador genético isolado com maior respaldo científico.

Pessoas portadoras de uma ou duas cópias desse alelo apresentam maior probabilidade de desenvolver a doença ao longo da vida. Entretanto, muitas jamais apresentarão sintomas, enquanto outras pessoas sem esse alelo também podem desenvolver Alzheimer.

 

Quando esse exame pode mudar a conduta médica?

Embora o resultado não estabeleça o diagnóstico, ele pode auxiliar na estratificação de risco, orientar o acompanhamento de indivíduos com forte histórico familiar e contribuir para decisões clínicas em centros especializados, especialmente na era das terapias modificadoras da doença (Alzheimer’s Association, 2025).

Além disso, conhecer esse risco pode estimular intervenções precoces sobre fatores modificáveis, como controle da pressão arterial, atividade física, alimentação, qualidade do sono e estímulo cognitivo, medidas reconhecidamente associadas à redução do risco de demência (Livingston et al., 2024).

 

Para quem pode ser indicado?

  • Pessoas com forte histórico familiar de doença de Alzheimer.
  • Indivíduos interessados em programas personalizados de prevenção.
  • Casos selecionados após aconselhamento médico.

 

Nível atual de evidência: Alto, embora sua interpretação exija cautela e sempre deva ser acompanhada de aconselhamento médico.

(Continua na Parte 2.)

Modas, Mitos e Verdades: a Medicina que Resiste ao Tempo

 

 

 Por que certas ideias médicas explodem, viram manchete e desaparecem — enquanto os princípios de sempre continuam de pé, discretos e inabaláveis O ovo era o vilão. Depois virou mocinho. A gordura matava. Depois salvava. A proteína curava tudo. Depois virou excesso. A história da medicina está cheia de certezas que duraram uma estação e de modismos que custaram — e ainda custam — a saúde de muitas pessoas.

 

A roda que nunca para de girar

Existe um padrão que se repete com perturbadora regularidade no mundo da saúde: uma descoberta científica — muitas vezes preliminar, frequentemente mal interpretada — é amplificada pela mídia, abraçada pela indústria e transformada em promessa salvadora. Livros tornam-se best-sellers. Suplementos esgotam nas prateleiras. Clínicas especialistas surgem da noite para o dia. E então, quando a fumaça dissipa, o que sobra é, na maioria das vezes, decepção.

Não se trata de ceticismo barato. Trata-se de um fenômeno documentado e estudado. Goldacre (2012), no livro Bad Science — e em publicações na revista BMJ —, descreveu com precisão cirúrgica como a mídia transforma achados de estudos em animais, ou estudos observacionais de pequena escala, em manchetes do tipo “descoberto o alimento que cura o câncer”. O problema é estrutural: jornais precisam de audiência, indústrias precisam de mercado, e a nuance científica raramente vende.

O nutricionista e pesquisador David Katz, da Universidade Yale, sintetizou bem o problema numa revisão publicada no Annual Review of Public Health (Katz; Meller, 2014): “Sabemos muito sobre o que é uma dieta saudável. O problema é que esse conhecimento não rende manchetes.” Comer mais vegetais, mover-se, dormir bem e não fumar não tem lobby poderoso, não gera patente, não vira trending topic.

“Sabemos muito sobre o que é uma dieta saudável. O problema é que esse conhecimento não rende manchetes.” — Katz e Meller, 2014

 

O ovo: de vilão a mártir da desinformação

Poucos exemplos ilustram tão bem a dança dos modismos quanto a trajetória do ovo na cultura nutricional ocidental. Entre as décadas de 1960 e 2010, o ovo foi sistematicamente vilipendiado. A lógica parecia irrefutável: ovos contêm colesterol; colesterol causa doença cardiovascular; logo, ovos matam. Simples, elegante, errado!

O problema começa no estudo original que deu origem a essa narrativa. Ancel Keys, nos anos 1950 e 1960, conduziu o famoso Seven Countries Study — que correlacionou consumo de gordura saturada com mortalidade cardiovascular. O estudo era real, mas a extrapolação para o ovo foi precipitada. Mais tarde, análises independentes demonstraram que Keys havia selecionado apenas os países que confirmavam sua hipótese, ignorando dezenas que contradiziam (Yerushalmy; Hilleboe, 1957, citado em Ravnskov, 2002).

Décadas depois, metanálise publicada no British Medical Journal por Rong e colaboradores (2013), reunindo dados de 17 estudos prospectivos com mais de 3 milhões de pessoas-ano de acompanhamento, não encontrou associação significativa entre consumo moderado de ovos (até um por dia) e risco cardiovascular em populações saudáveis. A revisão sistemática de Blesso e Fernandez (2018), no Nutrients, foi além: demonstrou que o ovo inteiro melhora o perfil de partículas LDL (tornando-as maiores e menos aterogênicas) e eleva o HDL de forma favorável.

Mas atenção: isso não autoriza o extremo oposto. Hoje circulam nas redes recomendações para consumir 10, 12 ovos por dia, associadas a protocolos carnívoros radicais. Estudo de Zhong e colaboradores (2019), publicado no JAMA com 29.615 participantes e seguimento médio de 17,5 anos, demonstrou associação dose-dependente entre consumo elevado de colesterol dietético e risco cardiovascular. Ou seja: moderação continua sendo a palavra científica mais importante — e menos popular.

 

A dieta da proteína: quando o excesso vira dogma

Nenhum macronutriente foi tão glorificado nos últimos vinte anos quanto a proteína. A narrativa é sedutora: proteínas constroem músculos, saciam, aceleram o metabolismo, são os “tijolos da vida”. Tudo verdadeiro — até o ponto em que deixa de ser.

A recomendação global de organismos como a World Health Organization (WHO, 2007) para pessoas saudáveis é de 0,8 g de proteína por kg de peso corporal por dia. Para atletas e idosos, há consenso para valores entre 1,2 e 1,6 g/kg/dia (Morton et al., 2018 — metanálise no British Journal of Sports Medicine com 49 ensaios clínicos). Acima disso, os ganhos adicionais de massa muscular são marginais e os riscos começam a aparecer.

Levine e colaboradores (2014), no Cell Metabolism, acompanharam 6.381 adultos por 18 anos e encontraram que consumo elevado de proteína animal na meia-idade associou-se a aumento de 4 vezes no risco de morte por câncer — com a associação mediada em grande parte pelo IGF-1, fator de crescimento insulínico estimulado pelo excesso proteico. A ressalva: esse risco parece se inverter após os 65 anos, quando a proteína adequada (não excessiva!) passa a ser protetora. Mais uma vez: contexto, dose, individualização.

 

Peptídeos, soroterapia e o negócio da esperança

A onda dos peptídeos é a versão contemporânea de promessas milenares. Alguns têm uso médico legítimo — análogos do GLP-1 para obesidade e diabetes, colágeno hidrolisado para articulações. O problema está na extrapolação selvagem. Revisão sistemática de Elad e colaboradores (2022), no Pharmacology & Therapeutics, concluiu que a vasta maioria dos “peptídeos funcionais” comercializados para longevidade e performance carece de ensaios clínicos randomizados em humanos que comprovem segurança e eficácia.

A soroterapia — infusões intravenosas de vitaminas e minerais — tem nicho clínico real e restrito: repleção de deficiências documentadas, suporte oncológico adjuvante. Fora desse contexto, a evidência para uso rotineiro em pessoas saudáveis é, conforme revisão de Lawson e colaboradores (2015) no Journal of Evidence-Based Complementary & Alternative Medicine, de baixa qualidade.

Modismos surgem na borda da ciência — onde os dados são preliminares, a esperança é grande e o ceticismo ainda não chegou.

 

O “detox” e a fisiologia que ninguém conta

O mercado global de produtos “detox” movimentou mais de 50 bilhões de dólares em 2022 — apesar de um fato biológico simples: o corpo humano possui um sistema de desintoxicação extraordinariamente eficiente, composto pelo fígado, rins, pulmões, pele e sistema linfático, que trabalham ininterruptamente, desde que não sejam estorvados. E vale lembrar que somos nós que colocamos pedrinhas e pedronas no caminho da nossa saúde – alimentação errada, sono ruim, sedentarismo, tabagismo, álcool e por aí vai.

Klein e Kiat (2015), numa revisão no Journal of Human Nutrition and Dietetics, analisaram 15 estudos sobre dietas e produtos “detox” comerciais e concluíram que nenhum apresentava ensaio clínico randomizado de qualidade suficiente para embasar as afirmações.

Isso não significa que períodos de alimentação simples, anti-inflamatória ou jejum intermitente bem conduzido sejam sem valor — muito pelo contrário. Mas o mecanismo é fisiológico: reduzir carga inflamatória, restaurar sensibilidade insulínica, permitir autofagia celular — processos premiados com o Nobel de Medicina de 2016 (Ohsumi, 2016).

 

Por que os modismos funcionam: psicologia e neurociência

Kahneman (2011), em décadas de pesquisa premiadas com o Nobel de Economia (2002), descreveu o “viés de disponibilidade”: tendemos a julgar como provável o que é fácil de lembrar — e uma manchete impactante é muito mais memorável do que um estudo de coorte de 20 anos.

Loewenstein, Brennan e Volpp (2007), no JAMA, documentaram o papel das emoções nas decisões de saúde: pessoas preferem intervenções com resultados imediatos e tangíveis — mesmo quando são menos eficazes — a mudanças de comportamento graduais com benefícios de longo prazo. Um “detox relâmpago” promete resultado rápido, visível, sentido. Já uma dieta mediterrânea ou outro plano saudável de alimentação, levado a capricho por décadas, promete saúde real. A neurobiologia do prazer imediato sempre preferiu a primeira opção.

 

O que resiste: os axiomas que o tempo confirma

Existe um conjunto de intervenções cujo suporte científico não apenas sobreviveu ao tempo, mas cresceu com ele — acumulando metanálises, revisões sistemáticas e ensaios de alta qualidade apontando consistentemente na mesma direção:

 

  • Dieta mediterrânea: reduz 30% do risco cardiovascular (Estruch et al., 2013 — NEJM, 7.447 participantes)
  • Exercício físico regular: reduz mortalidade total em 31-35% (Arem et al., 2015 — JAMA, 661.137 participantes)
  • Sono adequado (7-9h): associado a menor mortalidade e risco metabólico (Cappuccio et al., 2010)
  • Não fumar: acrescenta até 10 anos de expectativa de vida (Doll et al., 2004 — BMJ, 50 anos de seguimento)
  • Moderação/abstinência de álcool: sem dose segura para câncer (Wood et al., 2018 — The Lancet, 599.912 participantes)
  • Vínculos sociais: isolamento aumenta mortalidade com risco equivalente ao tabagismo (Holt-Lunstad et al., 2010 — PLOS Medicine)
  • Controle de peso com atenção à massa muscular: reduz risco de diabetes, doença cardiovascular, certos cânceres (GBD 2015 Obesity Collaborators — NEJM)

 

Note que nenhum item dessa lista envolve suplemento, protocolo relâmpago, peptídeo exclusivo ou terapia intravenosa cara. Todos têm evidência de nível A — o mais alto da hierarquia científica!

 

A hierarquia que importa (e que os modismos ignoram)

Ioannidis (2005), em artigo seminal no PLOS Medicine — “Why Most Published Research Findings Are False” —, demonstrou matematicamente que a maioria dos resultados positivos em estudos individuais com amostras pequenas são falsos positivos. Esse artigo tornou-se um dos mais citados da história da medicina e impulsionou uma era de maior rigor metodológico.

A lição prática é direta: antes de adotar qualquer intervenção médica ou nutricional, suplemento ou protocolo, faça quatro perguntas essenciais:

  • Há metanálise ou revisão sistemática sobre o assunto?
  • Quantas pessoas foram estudadas?
  • Por quanto tempo?
  • Quem financiou a pesquisa?

Essas questões simples filtram 90% do ruído informativo. Isso não significa que devemos ignorar as novidades ou desprezar o saber ancestral, como a acupuntura. Estudos clínicos robustos são caros, e geralmente apenas grandes indústrias e instituições de peso têm recursos para patrociná-los. É justamente aqui que entra o bom senso.

Além de buscar evidências científicas sólidas, é fundamental indagar: há quanto tempo esse método é conhecido? Se uma prática resiste desde tempos imemoriais — e não se trata apenas de folclore ou misticismo —, o filtro do tempo se encarrega de eliminar as falsas promessas, que raramente se sustentam por gerações. Partimos da premissa de que o que sobrevive ao tempo na medicina carrega eficácia real e, por isso, merece ser submetido a investigações científicas mais aprofundadas.

O equilíbrio deve prevalecer: não podemos ser excessivamente acadêmicos, nem puramente empiristas ou pragmáticos. O segredo está em ter a acurácia necessária para filtrar informações e ponderar riscos com sabedoria.

Antes de adotar qualquer promessa de saúde: existe metanálise? Quantas pessoas? Por quanto tempo? Quem pagou a pesquisa?

A ciência que envelhece bem

Comer comida de verdade — predominantemente plantas, pouco processada. Mover o corpo diariamente. Dormir o suficiente. Não fumar. Cuidar dos vínculos humanos. Gerenciar o estresse. Esses são os axiomas da saúde que resistem ao tempo, às modas e às manchetes.

Os modismos virão e passarão. O ovo voltará a ser vilão e depois mocinho novamente, dependendo de qual estudo o jornal resolver reportar esta semana. Novos “superalimentos” serão descobertos. Novos peptídeos prometerão a imortalidade. E a indústria do bem-estar continuará crescendo sobre a insegurança humana e o desejo legítimo de viver melhor.

Mas os axiomas ficam. A ciência que envelhece bem não é aquela que explode nas redes sociais — é aquela que sobrevive ao teste do tempo, à replicação independente e ao escrutínio dos pares.

Às vezes, a coisa mais revolucionária que um médico pode prescrever é: durma bem, coma mais vegetais, caminhe todo dia e mantenha seus laços afetivos. Não tem patente. Não tem margem de lucro. Mas tem evidência.

 

 

 

Referências

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Artigo de caráter educacional. Consulte sempre um profissional de saúde qualificado para orientação individualizada

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