Qual é o seu risco de sofrer um infarto ou um derrame? – O futuro da prevenção cardiovascular – Parte 4

 

 

“A medicina do século XX tratava doenças. A medicina do século XXI procura identificar riscos antes que a doença apareça.”

Durante muito tempo, a prevenção cardiovascular baseou-se em poucos fatores: colesterol, pressão arterial, diabetes, tabagismo e idade. Esses continuam sendo pilares fundamentais, mas a ciência avança rapidamente para uma abordagem muito mais personalizada.

Hoje, além dos exames tradicionais, começam a ganhar espaço ferramentas capazes de revelar predisposições genéticas, identificar marcadores inflamatórios, compreender o papel da microbiota intestinal e utilizar algoritmos de inteligência artificial para estimar riscos com precisão cada vez maior. Estamos entrando na era da Medicina de Precisão.

 

Da Medicina baseada em médias para a Medicina personalizada

Até poucas décadas atrás, as decisões médicas eram tomadas principalmente com base em médias populacionais. Por exemplo: “Pacientes com LDL acima de determinado valor apresentam maior risco.”

Essa informação continua verdadeira. Entretanto, ela não explica por que duas pessoas com o mesmo colesterol podem evoluir de maneira completamente diferente. Hoje compreendemos que cada indivíduo possui uma combinação única de fatores:

  • genética;
  • microbiota intestinal;
  • composição corporal;
  • metabolismo;
  • hábitos de vida;
  • fatores ambientais;
  • história familiar.

É justamente essa combinação que a Medicina de Precisão procura compreender.

 

Medicina Genômica: quando o DNA ajuda a prever o futuro

Nos últimos anos, o custo do sequenciamento genético caiu drasticamente. Isso permitiu que testes antes restritos aos laboratórios de pesquisa passassem a fazer parte da prática clínica.

Na Cardiologia, um dos exemplos mais conhecidos é a hipercolesterolemia familiar, doença genética caracterizada por níveis muito elevados de LDL desde o nascimento. Esses pacientes apresentam risco significativamente maior de infarto precoce e costumam necessitar de tratamento intensivo desde jovens. Identificar esses indivíduos precocemente pode literalmente salvar vidas.

 

Escores de risco poligênico: uma nova camada de informação

Enquanto algumas doenças dependem de uma única mutação importante, a maioria dos casos de doença cardiovascular resulta da interação de centenas ou milhares de pequenas variações genéticas. Daí surgiram os chamados escores de risco poligênico (Polygenic Risk Scores – PRS).

Esses testes combinam milhares de variantes do DNA para estimar uma predisposição genética ao desenvolvimento de determinadas doenças. No caso da doença arterial coronariana, alguns estudos demonstram que indivíduos situados entre os maiores escores genéticos apresentam risco comparável ao de pessoas portadoras de mutações clássicas de hipercolesterolemia familiar (Khera et al., 2018).

Ainda não se recomenda seu uso universal, mas essa tecnologia poderá desempenhar papel crescente na prevenção personalizada.

 

Farmacogenômica: o medicamento certo para a pessoa certa

Outra área em rápida expansão é a farmacogenômica. Ela procura responder perguntas como:

  • Por que um medicamento funciona muito bem em uma pessoa e pouco em outra?
  • Por que alguns pacientes apresentam efeitos adversos enquanto outros não? Na Cardiologia já existem aplicações práticas. Por exemplo: SLCO1B1

Algumas variantes desse gene aumentam a probabilidade de sintomas musculares relacionados a determinadas estatinas.

Seu conhecimento pode auxiliar na escolha da medicação mais adequada em pacientes selecionados.

Outro exemplo envolve genes relacionados ao metabolismo de antiagregantes plaquetários, como o CYP2C19, que influenciam a resposta ao clopidogrel em determinadas situações clínicas.

 

A lipoproteína(a): provavelmente ouviremos falar muito dela

Na Parte II discutimos a Lp(a). Ela merece nova menção porque representa uma das áreas mais promissoras da Cardiologia Preventiva. Até recentemente pouco podia ser feito para reduzir seus níveis.

Hoje diversos medicamentos específicos encontram-se em estudos avançados, incluindo terapias baseadas em RNA de interferência e oligonucleotídeos antissenso.

Caso os resultados finais confirmem a redução de eventos cardiovasculares, a Lp(a) poderá transformar-se em um dos principais alvos terapêuticos da próxima década.

 

A microbiota intestinal muda a maneira de enxergar o coração

Durante décadas acreditava-se que intestino e coração pertenciam a universos completamente diferentes. Hoje sabemos que existe uma intensa comunicação entre eles.

Uma alimentação rica em fibras favorece o crescimento de bactérias produtoras de ácidos graxos de cadeia curta (SCFAs), especialmente butirato, propionato e acetato. Esses metabólitos parecem contribuir para:

  • redução da inflamação;
  • melhora da função endotelial;
  • maior integridade da barreira intestinal;
  • modulação imunológica;
  • melhor metabolismo glicídico.

Por outro lado, dietas muito ricas em alimentos ultraprocessados e carnes processadas podem favorecer a formação de metabólitos como o TMAO, associado em diversos estudos observacionais ao aumento do risco cardiovascular.

Ainda existem muitas perguntas sem resposta. Mas dificilmente a Cardiologia Preventiva do futuro ignorará a microbiota intestinal.

 

Metabolômica: uma fotografia dinâmica do metabolismo

Outro campo emergente é a metabolômica. Enquanto a genética mostra predisposições, a metabolômica procura identificar o que realmente está acontecendo naquele momento no organismo.

Ela avalia centenas de metabólitos presentes no sangue ou na urina, permitindo compreender alterações relacionadas ao metabolismo energético, ao estresse oxidativo, à função mitocondrial e às interações com a microbiota.

Embora ainda não faça parte da rotina da maioria dos consultórios e careça de validação clínica atualmente, representa uma ferramenta promissora tanto para ajudar a nortear condutas como para a Medicina Preventiva.

 

Inteligência Artificial: uma nova aliada do médico

A Inteligência Artificial não substitui o médico. Mas pode ajudá-lo a integrar uma quantidade gigantesca de informações. Algoritmos modernos já conseguem combinar:

  • exames laboratoriais;
  • eletrocardiograma;
  • tomografia;
  • ecocardiograma;
  • genética;
  • histórico clínico;
  • estilo de vida;
  • dados de dispositivos vestíveis (wearables).

Esses modelos tendem a estimar riscos de forma cada vez mais precisa e personalizada. O desafio continuará sendo interpretar esses resultados dentro do contexto clínico de cada paciente.

 

Como poderá ser um check-up cardiovascular daqui a dez anos?

Imagine uma consulta em um futuro próximo. Além da pressão arterial e do colesterol, o médico poderá dispor de informações como:

  • escore genético de risco;
  • perfil metabolômico;
  • composição da microbiota intestinal;
  • nível de atividade física registrado continuamente por dispositivos eletrônicos;
  • qualidade do sono;
  • variabilidade da frequência cardíaca;
  • glicemia monitorada continuamente;
  • inteligência artificial integrando todos esses dados.

Em vez de simplesmente dizer: “Seu colesterol está alto.” Talvez seja possível afirmar:

“Seu risco de desenvolver doença cardiovascular nas próximas duas décadas é baixo, moderado ou elevado, e estes são os fatores específicos que mais contribuem para esse risco.” Essa é a essência da Medicina de Precisão.

 

O que já é realidade e o que ainda está em construção?

É importante distinguir ciência consolidada de perspectivas futuras. Já fazem parte da prática clínica:

  • cálculo do risco cardiovascular;
  • metas individualizadas de LDL;
  • estatinas;
  • ezetimiba;
  • ácido bempedoico;
  • inibidores de PCSK9;
  • inclisirana;
  • dosagem da Lp(a) em pacientes selecionados;
  • testes genéticos para hipercolesterolemia familiar.

 

Estão em rápida expansão:

  • farmacogenômica;
  • escores de risco poligênico;
  • integração da microbiota à prática clínica;
  • metabolômica;
  • inteligência artificial aplicada à prevenção.

 

Essas ferramentas ainda evoluirão muito, mas apontam claramente para uma Medicina cada vez mais personalizada.

 

 

Conclusão prática

A prevenção cardiovascular vive um momento extraordinário. Nunca soubemos tanto sobre as causas da aterosclerose, nunca dispusemos de tantas estratégias eficazes para reduzir o risco de infarto e AVC, e nunca estivemos tão próximos de individualizar verdadeiramente a prevenção.

Entretanto, é importante lembrar que nenhuma tecnologia substitui os fundamentos. A alimentação continua importando. A atividade física continua importando. O sono continua importando. O controle do estresse continua importando. O abandono do cigarro continua importando. Os medicamentos corretamente indicados continuam salvando vidas.

As novas tecnologias não substituem esses pilares. Elas ajudam a identificar quem mais se beneficiará de cada intervenção. Essa talvez seja a maior mudança da Cardiologia moderna: deixar de tratar apenas doenças para cuidar, de forma personalizada, das pessoas e de seus riscos.

 

Resumo prático

  • A prevenção cardiovascular está migrando de uma abordagem baseada em médias populacionais para uma Medicina de Precisão.
  • A genética já permite identificar indivíduos com maior predisposição a doenças cardiovasculares e orientar o tratamento em situações específicas.
  • A farmacogenômica começa a auxiliar na escolha de medicamentos mais adequados para determinados pacientes.
  • A microbiota intestinal e a metabolômica representam áreas promissoras, embora muitas aplicações ainda estejam em desenvolvimento.
  • A Inteligência Artificial tende a integrar informações clínicas, laboratoriais e genéticas para estimativas de risco cada vez mais refinadas.
  • Apesar de todos esses avanços, os pilares da prevenção permanecem os mesmos: alimentação saudável, atividade física, abandono do tabagismo, controle dos fatores de risco e tratamento medicamentoso quando indicado.

 

Referências

FERENCE, B. A. et al. Low-density lipoproteins cause atherosclerotic cardiovascular disease. European Heart Journal, v. 38, p. 2459–2472, 2017.

KHERA, A. V. et al. Genome-wide polygenic scores for common diseases identify individuals with risk equivalent to monogenic mutations. Nature Genetics, v. 50, p. 1219–1224, 2018.

MACH, F. et al. 2019 ESC/EAS Guidelines for the management of dyslipidaemias. European Heart Journal, v. 41, p. 111–188, 2020.

NISSEN, S. E. et al. Bempedoic Acid and Cardiovascular Outcomes in Statin-Intolerant Patients. New England Journal of Medicine, v. 388, p. 1353–1364, 2023.

TANG, W. H. W. et al. Intestinal microbial metabolism of phosphatidylcholine and cardiovascular risk. New England Journal of Medicine, v. 368, p. 1575–1584, 2013.

VALDES, A. M.; WALTER, J.; SEGAL, E.; SPECTOR, T. D. Role of the gut microbiota in nutrition and health. BMJ, v. 361, k2179, 2018.

WORLD HEART FEDERATION. Lipoprotein(a): Clinical Guidance and Consensus Statement. 2022.

Qual é o seu risco de sofrer um infarto ou um derrame? – Como reduzir o risco cardiovascular? – Parte 3

 

 

“O melhor tratamento para um infarto continua sendo evitar que ele aconteça.”

Nas duas primeiras partes vimos que a aterosclerose é uma doença silenciosa, que se desenvolve lentamente ao longo de décadas, e que o colesterol LDL exerce um papel central nesse processo. A boa notícia é que hoje dispomos de um amplo conjunto de estratégias capazes de reduzir significativamente o risco de infarto, derrame (AVC) e morte cardiovascular. Curiosamente, nenhuma delas, isoladamente, faz milagres.

Os melhores resultados surgem quando mudanças consistentes no estilo de vida são combinadas, quando necessário, com medicamentos baseados em evidências científicas. Essa é justamente a filosofia da Medicina do Estilo de Vida.

 

A primeira receita continua sendo o estilo de vida

Quando um paciente recebe o diagnóstico de colesterol elevado, é comum perguntar: “Doutor, vou precisar tomar remédio?” A resposta, muitas vezes, é: “Antes de pensar no medicamento, vamos cuidar das causas.” A aterosclerose é influenciada por diversos fatores que podem ser modificados. Entre eles destacam-se:

  • alimentação;
  • atividade física;
  • excesso de gordura corporal, especialmente visceral;
  • tabagismo;
  • pressão arterial;
  • diabetes;
  • qualidade do sono;
  • estresse crônico;
  • consumo abusivo de álcool.

Em muitos indivíduos de baixo risco cardiovascular, essas mudanças podem ser suficientes para controlar os fatores de risco.

Em outros, especialmente aqueles de alto ou muito alto risco, elas continuam sendo indispensáveis, mas geralmente precisam ser associadas ao tratamento medicamentoso.

 

Alimentação: não existe um único modelo perfeito

A ciência da nutrição evoluiu muito nas últimas décadas. Hoje sabemos que o padrão alimentar como um todo importa mais do que um alimento isolado.

Diversos estudos demonstram benefícios consistentes de padrões alimentares ricos em alimentos naturais e minimamente processados, com abundância de vegetais, frutas, leguminosas, oleaginosas, grãos integrais e gorduras insaturadas (Estruch et al., 2018; Ludwig et al., 2024).

Entre os modelos mais estudados destacam-se:

  • dieta mediterrânea;
  • alimentação predominantemente baseada em vegetais;
  • dieta DASH;
  • alimentação rica em fibras e pobre em ultraprocessados.

Independentemente do modelo escolhido, alguns princípios permanecem praticamente universais:

  • reduzir alimentos ultraprocessados;
  • limitar gorduras trans;
  • controlar o consumo de açúcares adicionados;
  • preferir alimentos integrais;
  • consumir fibras diariamente.

 

Exercício físico: um dos medicamentos mais poderosos

Poucas intervenções apresentam impacto tão amplo quanto o exercício físico. A prática regular melhora simultaneamente:

  • pressão arterial;
  • resistência à insulina;
  • peso corporal;
  • composição corporal;
  • inflamação sistêmica;
  • função endotelial;
  • qualidade do sono;
  • saúde mental.

Além disso, reduz mortalidade cardiovascular e mortalidade por todas as causas.

As diretrizes recomendam, como regra geral:

  • pelo menos 150 a 300 minutos semanais de atividade aeróbica moderada;

ou

  • 75 a 150 minutos de atividade vigorosa.

Também é recomendável incluir treinamento de força pelo menos duas vezes por semana. Mais importante do que escolher o “melhor exercício” é encontrar uma atividade que possa ser mantida por muitos anos.

 

O cigarro continua sendo um dos maiores inimigos do coração

O tabagismo acelera praticamente todas as etapas da aterosclerose. Favorece:

  • inflamação;
  • estresse oxidativo;
  • lesão do endotélio;
  • trombose;
  • instabilidade das placas.

Parar de fumar reduz progressivamente o risco cardiovascular. Nunca é tarde para abandonar o cigarro.

 

E o álcool?

Durante muitos anos acreditou-se que pequenas quantidades de vinho poderiam proteger o coração. Hoje essa interpretação mudou completamente. Não há dose segura para o álcool, é conclusão atual.

Embora alguns estudos observacionais tenham sugerido, há décadas, algum possível benefício, pesquisas mais recentes indicam que grande parte desse aparente efeito protetor pode ser explicada por fatores de confusão, como estilo de vida, condição socioeconômica e padrão alimentar. Por exemplo, nos estudos observacionais que envolveram a dieta mediterrânea.

Assim, não existe recomendação médica para iniciar o consumo de bebidas alcoólicas visando proteção cardiovascular..

 

O peso corporal importa — mas a composição corporal importa ainda mais

Nem todo excesso de peso representa o mesmo risco. O acúmulo de gordura visceral — aquela localizada profundamente no abdome — está fortemente associado à inflamação crônica, resistência à insulina, hipertensão e dislipidemia.

Por outro lado, preservar a massa muscular tornou-se uma prioridade, especialmente após os 50 anos.

Perder peso à custa de músculo pode trazer consequências importantes para a saúde e para a longevidade. O objetivo não deve ser apenas emagrecer. Deve ser melhorar a composição corporal.

 

Microbiota intestinal: uma nova fronteira da Cardiologia

Nos últimos anos surgiu um protagonista inesperado. Os trilhões de micro-organismos que habitam nosso intestino parecem participar de diversos mecanismos relacionados ao risco cardiovascular.

Uma microbiota saudável favorece a produção de ácidos graxos de cadeia curta, ajuda na integridade da barreira intestinal e modula respostas inflamatórias.

Por outro lado, determinados padrões alimentares podem favorecer a produção de metabólitos potencialmente prejudiciais, como o TMAO (óxido de trimetilamina), associado em diversos estudos a maior risco cardiovascular, embora ainda existam aspectos em investigação (Tang et al., 2013).

Esse é um campo em rápida evolução. Ainda não tratamos pacientes com base exclusivamente na microbiota. Mas ela provavelmente fará parte da Cardiologia Preventiva do futuro.

 

Estatinas: uma das maiores conquistas da Medicina

Poucos medicamentos salvaram tantas vidas quanto as estatinas. Desde a introdução da lovastatina, no final da década de 1980, dezenas de grandes estudos clínicos demonstraram redução consistente de:

  • infarto;
  • AVC;
  • necessidade de angioplastia;
  • cirurgia de revascularização;
  • mortalidade cardiovascular.

As estatinas reduzem a produção hepática de colesterol por meio da inibição da enzima HMG-CoA redutase, aumentando a remoção de LDL da circulação.

Em média, cada redução de aproximadamente 39 mg/dL (1 mmol/L) no LDL-colesterol está associada a uma redução próxima de 20% a 25% nos eventos cardiovasculares maiores, segundo grandes metanálises da Cholesterol Treatment Trialists’ Collaboration (CTT Collaboration, 2010).

 

Estatinas: nem todas são iguais

Embora pertençam à mesma classe, diferem em potência.

 

Menor potência

  • pravastatina;
  • fluvastatina.

 

Potência intermediária

  • sinvastatina;
  • pitavastatina.

 

Maior potência

  • atorvastatina;
  • rosuvastatina.

 

Essa classificação ajuda o médico a escolher a intensidade do tratamento conforme o risco cardiovascular e a meta de LDL.

 

O medo das estatinas: realidade ou mito?

Poucos medicamentos geram tanta desconfiança quanto as estatinas. Na internet circulam relatos alarmantes sobre dores musculares, problemas de memória, lesão hepática e inúmeros outros efeitos adversos.

A ciência mostra um cenário mais equilibrado. Como qualquer medicamento, estatinas podem provocar efeitos adversos. Entretanto, eles são muito menos frequentes do que geralmente se imagina.

Além disso, estudos duplo-cegos demonstraram um fenômeno muito interessante. Quando pacientes não sabem se estão tomando estatina ou placebo, grande parte das dores musculares ocorre com frequência semelhante nos dois grupos.

Esse fenômeno recebeu o nome de efeito nocebo. Assim como o efeito placebo produz benefícios pela expectativa positiva, o efeito nocebo pode produzir sintomas desencadeados pela expectativa negativa (Wood et al., 2020). Isso não significa que todos os sintomas sejam imaginários.

Significa apenas que muitos pacientes conseguem utilizar outra estatina, em dose diferente ou em esquema alternativo após adequada reavaliação médica.

 

É mais perigoso tomar ou deixar de tomar?

Essa talvez seja uma das perguntas mais importantes da prevenção cardiovascular. Em um indivíduo jovem, saudável e de baixo risco, muitas vezes nenhuma estatina será necessária.

Entretanto, para um paciente que já sofreu infarto, possui diabetes associado a alto risco, hipercolesterolemia familiar ou doença aterosclerótica estabelecida, deixar de tratar o LDL pode representar um risco muito maior do que utilizar uma estatina corretamente indicada. Toda decisão médica envolve avaliar riscos e benefícios.

Nesse contexto, inúmeros estudos demonstram que, para pacientes com indicação adequada, os benefícios superam amplamente os riscos.

 

Quando a estatina não basta

Mesmo utilizando estatinas de alta potência, alguns pacientes não atingem a meta de LDL. Nesses casos podem ser associados outros medicamentos.

 

Ezetimiba

Reduz a absorção intestinal de colesterol. É geralmente a primeira medicação associada às estatinas. Apresenta excelente perfil de segurança.

 

Ácido bempedoico

Atua antes da HMG-CoA redutase, em uma enzima chamada ATP-citrato liase. Como é ativado principalmente no fígado, tende a produzir menos sintomas musculares. Representa excelente opção para pacientes intolerantes às estatinas ou que necessitam redução adicional do LDL.

O estudo CLEAR Outcomes demonstrou redução significativa de eventos cardiovasculares em pacientes com intolerância às estatinas (Nissen et al., 2023).

 

Inibidores de PCSK9

Medicamentos como evolocumabe e alirocumabe promovem reduções muito expressivas do LDL, frequentemente superiores a 50%. São particularmente úteis em:

  • hipercolesterolemia familiar;
  • prevenção secundária;
  • pacientes que permanecem acima da meta apesar do tratamento convencional.

 

Inclisirana

É uma terapia baseada em RNA de interferência. Sua principal vantagem é a comodidade. Após a fase inicial, costuma ser administrada apenas duas vezes por ano. Representa um dos avanços mais interessantes da Medicina de Precisão aplicada às dislipidemias.

 

A prevenção personalizada

Cada vez mais o tratamento deixa de seguir uma fórmula única. Hoje o médico considera simultaneamente:

  • risco cardiovascular global;
  • idade;
  • expectativa de vida;
  • presença de diabetes;
  • função renal;
  • histórico familiar;
  • Lp(a);
  • tolerância às medicações;
  • preferências do paciente.

Essa abordagem individualizada melhora a adesão e aumenta as chances de sucesso a longo prazo.

 

Resumo prático

A redução do risco cardiovascular começa pelo estilo de vida: alimentação saudável, atividade física regular, abandono do tabagismo, sono adequado, controle do peso e manejo do estresse continuam sendo pilares fundamentais.

Quando essas medidas não são suficientes — ou quando o risco cardiovascular já é elevado — os medicamentos tornam-se aliados importantes. Entre eles, as estatinas permanecem como o tratamento de primeira linha devido à robustez das evidências científicas.

Para pacientes que não atingem as metas ou apresentam intolerância, hoje existem alternativas eficazes, como ezetimiba, ácido bempedoico, inibidores de PCSK9 e inclisirana.

Mais do que escolher um medicamento, o objetivo é reduzir o risco de infarto, AVC e morte cardiovascular, preservando qualidade e expectativa de vida.

 

Referências

BAIGENT, C. et al. Efficacy and safety of cholesterol-lowering treatment: prospective meta-analysis of data from 90,056 participants in 14 randomised trials of statins. The Lancet. 2005.

CTT (Cholesterol Treatment Trialists’) Collaboration. Efficacy and safety of more intensive lowering of LDL cholesterol. The Lancet. 2010.

ESTRUCH, R. et al. Primary Prevention of Cardiovascular Disease with a Mediterranean Diet Supplemented with Extra-Virgin Olive Oil or Nuts. New England Journal of Medicine. Reanálise publicada em 2018.

LUDWIG, D. S. et al. Nutrition science at a crossroads: modern evidence for dietary patterns and cardiometabolic health. Nature Medicine. 2024.

NISSEN, S. E. et al. Bempedoic Acid and Cardiovascular Outcomes in Statin-Intolerant Patients. New England Journal of Medicine. 2023.

TANG, W. H. W. et al. Intestinal microbial metabolism of phosphatidylcholine and cardiovascular risk. New England Journal of Medicine. 2013.

WOOD, F. A. et al. Effects of statin therapy, placebo, and no treatment on muscle symptoms: the SAMSON trial. New England Journal of Medicine. 2020.

Qual é o seu risco de sofrer um infarto ou um derrame? – O colesterol é realmente o vilão? – Parte 2

 

Na primeira parte vimos que o risco cardiovascular não depende apenas do colesterol. Idade, pressão arterial, diabetes, tabagismo, obesidade, história familiar e diversos outros fatores contribuem para determinar a probabilidade de um infarto ou derrame. Mas isso não diminui a importância do colesterol. Pelo contrário. Hoje existe um dos consensos científicos mais sólidos da Cardiologia moderna: O colesterol LDL participa diretamente da formação das placas de aterosclerose.

Isso não significa que ele seja o único responsável. Também não significa que todas as pessoas devam apresentar níveis extremamente baixos. Significa apenas que existe uma relação causal muito bem estabelecida entre LDL elevado e maior risco cardiovascular (Ference et al., 2017).

 

O colesterol não é um inimigo

Muitas pessoas acreditam que colesterol é uma substância prejudicial. Na realidade ocorre exatamente o oposto. Sem colesterol não haveria vida. O colesterol participa da formação:

  • das membranas celulares;
  • da bainha de mielina que envolve os nervos;
  • dos hormônios sexuais;
  • do cortisol;
  • da vitamina D;
  • dos ácidos biliares.

O problema não é produzir colesterol. O problema é quando determinadas partículas permanecem circulando em excesso durante muitos anos.

 

LDL: o verdadeiro protagonista da aterosclerose

O LDL significa Lipoproteína de Baixa Densidade (Low Density Lipoprotein). Na prática, trata-se do principal veículo de transporte de colesterol do fígado para os tecidos.

Quando sua concentração permanece elevada por muitos anos, parte dessas partículas consegue penetrar na parede das artérias. Ali inicia-se um processo inflamatório lento e progressivo.

Macrófagos passam a acumular colesterol. Formam-se as chamadas células espumosas. Com o passar dos anos surgem as placas de aterosclerose. Essas placas podem permanecer silenciosas durante décadas.

Quando uma delas rompe, forma-se um trombo que pode interromper completamente o fluxo sanguíneo. Dependendo do local, ocorre:

  • infarto do miocárdio;
  • AVC isquêmico;
  • obstrução das artérias das pernas;
  • outras manifestações da doença aterosclerótica.

É por isso que muitos especialistas costumam dizer: “O infarto começa vinte ou trinta anos antes da dor no peito.”

 

Quanto menor o LDL, melhor?

Durante muitos anos discutiu-se se existiria um limite abaixo do qual reduzir o LDL deixaria de trazer benefícios.

Hoje sabemos que, para pessoas de alto risco cardiovascular, níveis progressivamente menores de LDL continuam associados à redução de eventos cardiovasculares, sem evidências consistentes de prejuízo decorrente de valores muito baixos alcançados com tratamento adequado (CTT Collaboration, 2010; Mach et al., 2020).

Entretanto, isso não significa que todas as pessoas devam buscar o menor LDL possível. A meta depende do risco cardiovascular individual. Esse é um conceito fundamental. A Medicina moderna não trata apenas números. Ela trata pessoas.

 

As metas atuais de LDL

As diretrizes mais recentes da Sociedade Europeia de Cardiologia (ESC) e da Sociedade Brasileira de Cardiologia recomendam individualizar as metas conforme o risco cardiovascular. De forma simplificada:

 

Categoria de risco

 

Meta aproximada de LDL

Baixo risco <116 mg/dL
Risco moderado <100 mg/dL
Alto risco <70 mg/dL
Muito alto risco <55 mg/dL
Alguns pacientes de risco extremamente elevado e eventos recorrentes <40 mg/dL pode ser considerado em situações selecionadas

 

Essas metas podem sofrer pequenos ajustes conforme a diretriz utilizada e as características clínicas do paciente.

O princípio, entretanto, permanece o mesmo: Quanto maior o risco cardiovascular, mais rigoroso costuma ser o controle do LDL.

 

HDL: o famoso “colesterol bom”

Durante décadas o HDL foi chamado de “colesterol bom”. Existe um fundo de verdade nessa afirmação. O HDL participa do chamado transporte reverso de colesterol, removendo parte do colesterol da parede arterial e levando-o de volta ao fígado.

Pessoas com HDL naturalmente mais elevado costumam apresentar menor incidência de doença cardiovascular em estudos observacionais. Entretanto, surgiu uma surpresa.

Diversos medicamentos conseguiram aumentar bastante o HDL. Mesmo assim, não reduziram infartos nem mortalidade. Isso mostrou que: Mais importante do que a quantidade de HDL parece ser sua qualidade e funcionalidade.

Hoje o HDL continua sendo um marcador útil de risco. Mas deixou de ser um alvo terapêutico isolado.

 

Triglicerídeos – para que servem e o que revelam?

Os triglicerídeos representam outra forma de transporte de gordura. Valores elevados frequentemente refletem:

  • excesso de peso;
  • resistência à insulina;
  • diabetes;
  • abuso de álcool;
  • excesso de carboidratos refinados;
  • sedentarismo.

Além disso, partículas ricas em triglicerídeos também parecem contribuir para o desenvolvimento da aterosclerose. Na prática clínica, triglicerídeos elevados costumam sinalizar que o metabolismo merece atenção mais ampla.

Convém destacar que pessoas magras também podem apresentar triglicerídeos elevados.

 

Não-HDL e ApoB: os novos protagonistas

Durante muitos anos praticamente toda a atenção foi dirigida ao LDL. Hoje cresce o interesse por dois marcadores adicionais.

Colesterol não-HDL – É obtido simplesmente subtraindo o HDL do colesterol total. Representa todas as partículas potencialmente aterogênicas. Sua interpretação é especialmente útil quando os triglicerídeos estão elevados.

 

 

ApoB – Cada partícula aterogênica contém aproximadamente uma molécula de Apolipoproteína B (ApoB). Por isso muitos pesquisadores acreditam que a ApoB representa uma estimativa ainda mais precisa da quantidade de partículas capazes de penetrar na parede arterial.

Nos últimos anos esse marcador ganhou destaque crescente em diretrizes internacionais, especialmente para pacientes com síndrome metabólica, diabetes ou hipertrigliceridemia. Provavelmente veremos sua utilização tornar-se cada vez mais frequente.

 

Lipoproteína(a) ou Lp(a): um fator de risco que nasce conosco

Entre todas as novidades da Cardiologia Preventiva, poucas despertaram tanto interesse quanto a lipoproteína(a), conhecida como Lp(a). Ela se parece com uma partícula de LDL.

Entretanto, possui uma proteína adicional chamada apolipoproteína(a). Na maioria das pessoas seu nível é determinado principalmente pela genética. Dieta e exercício físico exercem pouca influência sobre ela. Valores elevados estão associados a maior risco de:

  • infarto;
  • AVC;
  • estenose da válvula aórtica.

Atualmente recomenda-se que, pelo menos uma vez na vida, especialmente em indivíduos com história familiar de doença cardiovascular precoce, seja considerada a dosagem da Lp(a).

Novos medicamentos especificamente direcionados à redução da Lp(a) encontram-se em fase avançada de pesquisa clínica e representam uma das áreas mais promissoras da Cardiologia.

 

O colesterol é apenas uma parte da história

É perfeitamente possível encontrar pessoas com colesterol relativamente elevado e baixo risco cardiovascular. Também encontramos indivíduos com colesterol apenas discretamente aumentado, mas risco muito elevado. Isso acontece porque a aterosclerose resulta da interação de inúmeros fatores. Entre eles:

  • genética;
  • inflamação;
  • hipertensão;
  • diabetes;
  • tabagismo;
  • obesidade visceral;
  • sedentarismo;
  • qualidade da alimentação;
  • microbiota intestinal;
  • função renal;
  • idade.

Essa visão integrada representa uma das maiores mudanças da Cardiologia moderna.

 

Resumo prático

O colesterol continua sendo um dos principais fatores envolvidos na aterosclerose, mas não deve ser interpretado isoladamente.

O LDL permanece como o principal alvo do tratamento preventivo, especialmente em pessoas de maior risco cardiovascular.

O HDL continua sendo um importante marcador, embora seu aumento isolado não garanta proteção.

Triglicerídeos, colesterol não-HDL, ApoB e lipoproteína(a) ampliam nossa capacidade de compreender o risco individual e, cada vez mais, ajudam a personalizar a prevenção.

Na próxima parte veremos como reduzir efetivamente esse risco por meio da alimentação, atividade física, controle do peso, abandono do tabagismo e dos medicamentos atualmente disponíveis — das estatinas aos inibidores de PCSK9, passando pela ezetimiba, pelo ácido bempedoico e pelas novas terapias que estão transformando a prevenção cardiovascular.

 

Referências

CTT (Cholesterol Treatment Trialists’) Collaboration. Efficacy and safety of more intensive lowering of LDL cholesterol: a meta-analysis of data from 170,000 participants in 26 randomised trials. The Lancet. 2010.

FERENCE, B. A. et al. Low-density lipoproteins cause atherosclerotic cardiovascular disease. European Heart Journal. 2017.

MACH, F. et al. 2019 ESC/EAS Guidelines for the management of dyslipidaemias. European Heart Journal. 2020.

GRUNDY, S. M. et al. 2018 AHA/ACC Guideline on the Management of Blood Cholesterol. Circulation. 2019.

NORDESTGAARD, B. G. et al. Lipoprotein(a) as a cardiovascular risk factor: current status. European Heart Journal. 2010.

Sociedade Brasileira de Cardiologia. Atualização da Diretriz Brasileira de Dislipidemias e Prevenção da Aterosclerose. Arquivos Brasileiros de Cardiologia. Versão mais recente disponível.

Existe um LDL (Colesterol “Mau”) Mais Perigoso? – O que realmente reduz o risco cardiovascular? – Parte 2

 

Conhecer o inimigo é básico numa batalha. Mas saber como combatê-lo é ainda mais crítico.

 O colesterol que você come… e o colesterol que seu fígado produz

Uma das maiores surpresas para quem começa a estudar colesterol é descobrir que a maior parte dele não vem da alimentação.

Embora os alimentos de origem animal contenham colesterol, estima-se que, em condições habituais, cerca de 70% a 80% do colesterol circulante seja produzido pelo próprio organismo, principalmente pelo fígado, enquanto aproximadamente 20% a 30% provêm da dieta. Além disso, existe um sofisticado mecanismo de compensação: quando ingerimos mais colesterol, o fígado tende a reduzir sua produção; quando ingerimos menos, tende a produzi-lo em maior quantidade (Goldstein; Brown, 2015).

Isso explica por que duas pessoas com a mesma alimentação podem apresentar níveis muito diferentes de colesterol. A genética, a resistência à insulina, o peso corporal, a atividade física, o funcionamento do fígado e diversos hormônios influenciam esse equilíbrio.

Em outras palavras: comer colesterol não significa, necessariamente, ter colesterol alto.

 

Resumo Prático

✔ O colesterol da dieta importa.

✔ Mas ele explica apenas parte da história.

✔ O principal “fabricante” de colesterol é o próprio fígado.

 

A dieta ainda faz diferença?

Faz, e muita. Mas talvez não exatamente da forma como imaginávamos há algumas décadas.

Hoje sabemos que o excesso de gorduras saturadas, encontrado em grandes quantidades em carnes gordurosas, embutidos, manteiga, alguns queijos e produtos ultraprocessados, pode reduzir a atividade dos receptores hepáticos de LDL, dificultando sua remoção da circulação (Grundy et al., 2019). Por outro lado, uma alimentação rica em:

  • verduras;
  • frutas;
  • legumes;
  • leguminosas;
  • grãos integrais;
  • azeite de oliva;
  • castanhas;
  • peixes;
  • fibras solúveis (como aveia, cevada e psyllium),

favorece um perfil lipídico mais saudável e reduz o risco cardiovascular (Estruch et al., 2018).

Outro aspecto frequentemente negligenciado é que o excesso de calorias e de açúcares refinados pode aumentar a produção hepática de VLDL, elevando os triglicerídeos e favorecendo justamente o aparecimento do LDL pequeno e denso, considerado mais aterogênico.

 

Resumo Prático

A pergunta não deveria ser apenas:

“Quanto colesterol existe na minha alimentação?”

Mas também:

“Minha alimentação favorece ou dificulta o metabolismo saudável das lipoproteínas?”

 

Onde entra a microbiota intestinal?

Nos últimos anos, outro personagem passou a fazer parte dessa história: a microbiota intestinal.

Trilhões de bactérias vivem normalmente em nosso intestino e participam do metabolismo de fibras alimentares, ácidos biliares e diversos nutrientes.

Alguns metabólitos produzidos por essas bactérias parecem influenciar a inflamação, a sensibilidade à insulina e até o metabolismo do colesterol.

Um dos compostos mais estudados é o TMAO (óxido de trimetilamina), produzido a partir da interação entre determinados alimentos e a microbiota intestinal. Níveis elevados de TMAO foram associados, em estudos observacionais, a maior risco cardiovascular (Tang; Hazen, 2017).

Por outro lado, dietas ricas em fibras favorecem a produção de ácidos graxos de cadeia curta, que parecem exercer efeitos benéficos sobre o metabolismo hepático e a inflamação.

É importante fazer uma ressalva.

Apesar dessas descobertas serem extremamente promissoras, ainda não existem evidências suficientes para recomendar probióticos ou suplementos específicos como tratamento estabelecido para reduzir o LDL ou substituir as terapias convencionais.

A microbiota é uma peça importante do quebra-cabeça, mas está longe de ser a única.

 

Quando apenas mudar o estilo de vida não basta

Muitos pacientes perguntam: “Doutor, posso controlar meu colesterol apenas com dieta e exercícios?” A resposta é: Depende.

Quando o colesterol está discretamente elevado e o risco cardiovascular é baixo, mudanças no estilo de vida podem produzir resultados excelentes.

Mas existem situações em que isso não é suficiente. Pacientes com:

  • doença cardiovascular estabelecida;
  • diabetes de alto risco;
  • hipercolesterolemia familiar;
  • níveis muito elevados de LDL;
  • risco cardiovascular elevado,

frequentemente necessitam de medicamentos para reduzir o risco de infarto e AVC. Não se trata de um fracasso da alimentação.

Trata-se do reconhecimento de que a genética e a produção hepática de colesterol muitas vezes superam aquilo que conseguimos modificar apenas com hábitos saudáveis.

 

Resumo Prático

Mudanças no estilo de vida continuam sendo fundamentais.

Mas nem sempre conseguem substituir a medicação.

Em muitos casos, elas atuam em conjunto.

 

Como os medicamentos ajudam?

As estatinas continuam sendo os medicamentos mais estudados da cardiologia preventiva.

Elas reduzem a produção de colesterol pelo fígado e aumentam o número de receptores de LDL, facilitando sua remoção da circulação (Mach et al., 2020).

Quando necessário, podem ser associadas a:

  • ezetimiba, que reduz a absorção intestinal de colesterol;
  • ácido bempedoico, que diminui a síntese hepática de colesterol por um mecanismo diferente das estatinas;
  • inibidores da PCSK9 (alirocumabe e evolocumabe), capazes de reduzir intensamente o LDL ao preservar os receptores hepáticos;
  • inclisirana, uma terapia baseada em RNA de interferência que reduz a produção da proteína PCSK9 e permite aplicações semestrais.

Todos esses tratamentos apresentaram redução consistente de eventos cardiovasculares em pacientes corretamente selecionados. O objetivo atual não é apenas melhorar um número no exame de sangue. É reduzir infartos, AVCs e mortes cardiovasculares.

 

O futuro: colesterol sob medida

A medicina está caminhando rapidamente para uma abordagem personalizada. Hoje já conseguimos combinar informações provenientes de:

  • colesterol LDL;
  • colesterol não HDL;
  • ApoB;
  • lipoproteína(a);
  • história familiar;
  • genética;
  • escore de cálcio coronariano;
  • fatores inflamatórios;
  • exames de imagem.

Em vez de tratar apenas um exame, passamos a compreender melhor o risco de cada indivíduo. Essa é uma das maiores transformações da cardiologia preventiva nas últimas décadas.

 

O papel da medicina do estilo de vida

Mesmo diante de medicamentos altamente eficazes, existe uma verdade que continua inalterada. Nenhum remédio substitui um estilo de vida saudável.

Atividade física regular melhora o perfil metabólico, reduz a resistência à insulina, ajuda a controlar o peso corporal e pode aumentar discretamente o HDL.

Uma alimentação baseada predominantemente em alimentos minimamente processados reduz o risco cardiovascular muito além da simples redução do colesterol.

Dormir bem, controlar o estresse, abandonar o tabagismo e manter um peso saudável também reduzem significativamente o risco de doença cardiovascular. Em outras palavras, o medicamento reduz o risco. O estilo de vida reduz o risco e melhora praticamente todos os demais aspectos da saúde.  São estratégias complementares, nunca concorrentes.

 

Resumo Final

✔ O colesterol é indispensável para a vida.

✔ Nem todo LDL apresenta o mesmo potencial aterogênico.

✔ Partículas pequenas e densas tendem a ser mais agressivas.

✔ A ApoB ajuda a estimar o número de partículas potencialmente aterogênicas.

✔ Dieta e exercício continuam sendo pilares fundamentais, mas nem sempre substituem os medicamentos.

✔ O fígado produz a maior parte do colesterol do organismo.

✔ O futuro da prevenção cardiovascular será cada vez mais personalizado, combinando biomarcadores, genética, imagem e medicina do estilo de vida.

 

Conclusão

Durante muitos anos aprendemos uma regra simples: quanto menor o LDL, melhor. Essa afirmação continua verdadeira e permanece como um dos pilares da prevenção cardiovascular.

Entretanto, a ciência refinou esse conceito. Hoje compreendemos que não basta perguntar quanto colesterol circula no sangue, mas também em quantas partículas ele está distribuído e qual é a qualidade dessas partículas.

É nesse contexto que a ApoB ganhou destaque, não como substituta do LDL, mas como uma ferramenta capaz de complementar sua interpretação em situações específicas.

Essa nova visão também reforça uma mensagem importante: o colesterol elevado raramente é consequência de um único fator. Genética, produção hepática, alimentação, atividade física, peso corporal, resistência à insulina e até a microbiota intestinal participam dessa complexa rede de interações.

Felizmente, nunca tivemos tantas ferramentas para reduzir o risco cardiovascular. Quando associamos medicina baseada em evidências, mudanças consistentes no estilo de vida e, quando necessário, tratamento medicamentoso, conseguimos prevenir grande parte dos infartos e acidentes vasculares cerebrais. Mais do que combater um número no exame de sangue, o verdadeiro objetivo é preservar a saúde das artérias ao longo de toda a vida.

 

Referências

BERNEIS, K. K.; KRAUSS, R. M. Metabolic origins and clinical significance of LDL heterogeneity. Journal of Lipid Research, v. 43, n. 9, p. 1363–1379, 2002.

ESTRUCH, R. et al. Primary prevention of cardiovascular disease with a Mediterranean diet supplemented with extra-virgin olive oil or nuts. New England Journal of Medicine, v. 378, n. 25, p. e34, 2018.

FERENCE, B. A. et al. Low-density lipoproteins cause atherosclerotic cardiovascular disease: evidence from genetic, epidemiologic, and clinical studies. European Heart Journal, v. 38, n. 32, p. 2459–2472, 2017.

GOLDSTEIN, J. L.; BROWN, M. S. A century of cholesterol and coronaries: from plaques to genes to statins. Cell, v. 161, n. 1, p. 161–172, 2015.

GRUNDY, S. M. et al. 2018 AHA/ACC Guideline on the Management of Blood Cholesterol. Circulation, v. 139, n. 25, p. e1082–e1143, 2019.

KRAUSS, R. M. Lipids and lipoproteins in patients with type 2 diabetes. Diabetes Care, v. 27, n. 6, p. 1496–1504, 2004.

LIBBY, P. The changing landscape of atherosclerosis. Nature, v. 592, p. 524–533, 2021.

MACH, F. et al. 2019 ESC/EAS Guidelines for the management of dyslipidaemias. European Heart Journal, v. 41, n. 1, p. 111–188, 2020.

SNIDERMAN, A. D. et al. Apolipoprotein B particles and cardiovascular disease: a narrative review. JAMA Cardiology, v. 4, n. 12, p. 1287–1295, 2019.

TANG, W. H. W.; HAZEN, S. L. The contributory role of gut microbiota in cardiovascular disease. Journal of Clinical Investigation, v. 124, n. 10, p. 4204–4211, 2014.

 

 

Descobri um Nódulo na Tireoide. E Agora?

 

Receber o resultado de um ultrassom informando a presença de um nódulo na tireoide costuma assustar. Muitas pessoas associam imediatamente a palavra “nódulo” ao câncer. Felizmente, isso quase nunca acontece.

A boa notícia é que mais de 90% dos nódulos da tireoide são benignos, ou seja, não são câncer e, muitas vezes, sequer necessitam de tratamento. O desafio da medicina moderna é identificar corretamente o pequeno grupo de nódulos que merece investigação ou tratamento, evitando cirurgias desnecessárias (Haugen et al., 2016; Durante et al., 2018).

 

O que é a tireoide?

A tireoide é uma pequena glândula localizada na parte da frente do pescoço, logo abaixo do “pomo de Adão”. Ela produz os hormônios T3 e T4, responsáveis por controlar o metabolismo, a temperatura corporal, os batimentos cardíacos, o funcionamento do intestino, o gasto de energia e diversos outros processos do organismo.

Um nódulo é simplesmente uma área da glândula que cresceu de forma diferente do restante do tecido. Esse crescimento pode ser sólido, cheio de líquido (cístico) ou misto. Ter um nódulo não significa, por si só, que exista uma doença grave.

 

Quão frequentes são os nódulos?

Os nódulos da tireoide estão entre os achados mais comuns da endocrinologia. Quando o médico examina apenas o pescoço, consegue sentir nódulos em cerca de 4 a 7% dos adultos.

Entretanto, quando se realiza um ultrassom de alta resolução, pequenos nódulos podem ser encontrados em 20 a 70% da população adulta, especialmente após os 50 anos (Durante et al., 2018).

Isso significa que muitas pessoas convivem com nódulos durante toda a vida sem jamais apresentar qualquer problema.

 

Eles estão ficando mais frequentes?

Sim, mas existe uma explicação importante. Nas últimas décadas houve um aumento expressivo do número de diagnósticos de nódulos e também de câncer de tireoide.

Hoje sabemos que boa parte desse aumento ocorreu porque os exames de imagem ficaram muito mais sensíveis. Pequenos nódulos, que antigamente passavam despercebidos, passaram a ser encontrados durante ultrassonografias realizadas por outros motivos.

Curiosamente, apesar do aumento do número de diagnósticos, a mortalidade por câncer de tireoide permaneceu praticamente estável em muitos países, mostrando que muitos tumores descobertos atualmente apresentam comportamento pouco agressivo (Vaccarella et al., 2021).

Esse conhecimento mudou profundamente a forma como os médicos tratam essa doença.

 

Quem tem maior risco?

Os nódulos são muito mais comuns em:

  • mulheres;
  • pessoas acima dos 40 ou 50 anos;
  • indivíduos com deficiência de iodo (hoje menos frequente em países que utilizam sal iodado);
  • pessoas com história familiar de doenças da tireoide;
  • pacientes expostos à radiação na infância ou adolescência.

Ter um nódulo, entretanto, continua sendo muito mais comum do que desenvolver câncer.

 

Quais são os sintomas?

Na maioria das vezes, não existe sintoma algum. O nódulo costuma ser descoberto:

  • durante um ultrassom realizado por outro motivo;
  • em exames de check-up;
  • quando o próprio paciente percebe um pequeno caroço no pescoço;
  • durante o exame físico realizado pelo médico.

Quando maiores, alguns nódulos podem provocar:

  • sensação de pressão no pescoço;
  • dificuldade para engolir;
  • rouquidão persistente;
  • desconforto ao deitar;
  • sensação de “bolo na garganta”.

É importante lembrar que esses sintomas podem ocorrer também por diversas outras causas.

 

O nódulo altera o funcionamento da tireoide?

Na maioria das pessoas, não. Grande parte dos nódulos aparece em indivíduos com função hormonal normal.

Por isso, um dos primeiros exames solicitados costuma ser o TSH, que avalia como a tireoide está funcionando.

Quando o TSH está diminuído, pode haver um nódulo produtor de hormônios (“nódulo quente”), situação em que, muitas vezes, também é indicada uma cintilografia da tireoide (ATA, 2016).

 

Existe relação com doenças autoimunes?

Existe, mas ela não é obrigatória. A principal doença autoimune da tireoide é a tireoidite de Hashimoto.

Pessoas com Hashimoto podem apresentar nódulos, embora a maioria deles também seja benigna.

Alguns estudos sugerem discreto aumento do risco de carcinoma papilífero em pacientes com Hashimoto, mas essa associação ainda é motivo de discussão científica e não significa que todo paciente com tireoidite desenvolverá câncer (ETA, 2023).

 

Como o médico investiga um nódulo?

A avaliação começa com três etapas simples:

  1. História clínica

O médico pergunta sobre:

  • crescimento rápido;
  • rouquidão;
  • dificuldade para engolir;
  • exposição prévia à radioterapia;
  • casos de câncer de tireoide na família.
  1. Exame físico

Durante a consulta, observa-se:

  • tamanho da glândula;
  • consistência do nódulo;
  • mobilidade;
  • presença de linfonodos aumentados no pescoço.

Esses achados ajudam a definir o risco.

  1. Exames laboratoriais

O principal exame é o TSH.

Dependendo do caso, podem ser solicitados T4 livre, anticorpos antitireoidianos e calcitonina em situações específicas.

 

O ultrassom mudou completamente o diagnóstico

O exame mais importante para avaliar um nódulo é a ultrassonografia. Ela informa muito mais do que o tamanho do nódulo. O radiologista analisa características capazes de estimar o risco de malignidade, como:

  • se o nódulo é sólido ou cístico;
  • sua ecogenicidade (mais claro ou mais escuro);
  • presença de microcalcificações;
  • formato;
  • regularidade das bordas;
  • invasão de estruturas vizinhas;
  • alterações nos linfonodos do pescoço.

Hoje sabemos que essas características são muito mais importantes do que o tamanho isoladamente.

 

O que é o TI-RADS?

Para facilitar a interpretação dos exames, foi criado um sistema internacional chamado TI-RADS (Thyroid Imaging Reporting and Data System).

Ele funciona de maneira semelhante ao BI-RADS utilizado na mamografia.

Cada característica observada no ultrassom recebe uma pontuação.

No final, o nódulo é classificado em uma categoria de risco:

  • TR1 – benigno.
  • TR2 – praticamente benigno.
  • TR3 – baixo risco.
  • TR4 – risco intermediário.
  • TR5 – alta suspeita de malignidade.

É importante entender que TR5 não significa diagnóstico de câncer. Apenas indica que o nódulo merece investigação mais cuidadosa, geralmente com punção aspirativa, dependendo também do seu tamanho (Tessler et al., 2017).

 

Resumo prático

O que tranquiliza?

✔ Mais de 90% dos nódulos são benignos.

✔ Muitos nunca precisarão de cirurgia.

✔ O ultrassom é capaz de identificar com boa precisão quais nódulos apresentam maior risco.

✔ Nem todo nódulo precisa de punção.

Quando procurar um endocrinologista?

✔ Surgimento de um nódulo palpável.

✔ Crescimento perceptível do pescoço.

✔ Rouquidão persistente.

✔ Dificuldade para engolir.

✔ Histórico familiar de câncer de tireoide.

✔ Exposição à radiação durante a infância.

Na segunda parte veremos quando é necessário realizar a punção por agulha fina (PAAF), o que significa a classificação de Bethesda, quando a cirurgia é indicada, quais pacientes podem apenas ser acompanhados, o papel da radiofrequência, os avanços da medicina genômica e o que realmente funciona para cuidar da saúde da tireoide.

 

Disclaimer

Este artigo tem finalidade exclusivamente educativa e não substitui a consulta médica. A presença de um nódulo na tireoide não significa, necessariamente, câncer. A avaliação deve ser individualizada e realizada por profissional habilitado.

 

Referências

AMERICAN THYROID ASSOCIATION (ATA). HAUGEN, B. R. et al. 2015 American Thyroid Association Management Guidelines for Adult Patients with Thyroid Nodules and Differentiated Thyroid Cancer. Thyroid, v. 26, n. 1, p. 1-133, 2016.

DURANTE, C. et al. Long-term surveillance of benign thyroid nodules: ultrasonography behavior and clinical implications. JAMA, v. 313, n. 9, p. 926-935, 2015.

TESSLER, F. N. et al. ACR Thyroid Imaging, Reporting and Data System (ACR TI-RADS): White Paper of the ACR TI-RADS Committee. Journal of the American College of Radiology, v. 14, n. 5, p. 587-595, 2017.

VACCARELLA, S. et al. The impact of diagnostic changes on the rise in thyroid cancer incidence: a population-based study. The Lancet Diabetes & Endocrinology, v. 9, n. 5, p. 323-330, 2021.

EUROPEAN THYROID ASSOCIATION (ETA). 2023 European Thyroid Association Clinical Practice Guidelines for thyroid nodule management. European Thyroid Journal, 2023.

 

 

Nódulos da Tireoide – Parte 2

 

Como saber se um nódulo é benigno ou maligno?

Depois do ultrassom, a dúvida mais comum é: “Será que esse nódulo é câncer?”

Felizmente, a medicina dispõe hoje de excelentes ferramentas para responder a essa pergunta, e a maioria delas permite evitar cirurgias desnecessárias.

 

O ultrassom é o primeiro filtro

Como vimos na primeira parte, o ultrassom não serve apenas para medir o tamanho do nódulo. Ele analisa características que ajudam a estimar o risco de malignidade.

Por exemplo, um nódulo sólido, muito escuro (hipoecoico), com bordas irregulares, microcalcificações e formato “mais alto do que largo” desperta mais preocupação do que um nódulo cístico ou predominantemente líquido, de contornos regulares (Tessler et al., 2017; ETA, 2023).

É justamente a combinação dessas características que determina a classificação pelo ACR TI-RADS. Mas existe um detalhe importante: Nem todo nódulo classificado como TI-RADS 4 ou 5 é câncer.

Da mesma forma, nem todo nódulo precisa ser puncionado. O tamanho do nódulo e suas características são analisados em conjunto para decidir a melhor conduta.

 

O que é a punção da tireoide?

Quando o risco é considerado suficiente, o médico pode solicitar uma Punção Aspirativa por Agulha Fina (PAAF). Apesar do nome assustar, trata-se de um procedimento simples.

Com auxílio do ultrassom, uma agulha muito fina é introduzida no nódulo para retirar algumas células, que serão analisadas pelo patologista.

Na maioria das vezes:

  • não é necessário internamento;
  • não há necessidade de anestesia geral;
  • o procedimento dura poucos minutos;
  • o paciente retorna às suas atividades logo em seguida.

A PAAF tornou-se um dos exames mais importantes da endocrinologia moderna porque evita milhares de cirurgias desnecessárias todos os anos (Haugen et al., 2016).

 

O que é o Sistema Bethesda?

Depois da punção, o resultado não vem simplesmente como “benigno” ou “maligno”.

Os patologistas utilizam uma classificação internacional chamada Sistema Bethesda, que organiza os resultados em seis categorias.

Bethesda I

O material coletado foi insuficiente para análise.

Normalmente é necessário repetir a punção.

Bethesda II

Resultado benigno.

É a situação mais frequente.

O risco de câncer costuma ser inferior a 3%.

Na maioria dos casos, apenas acompanhamento periódico é suficiente.

Bethesda III

Resultado indeterminado.

Algumas células apresentam alterações, mas ainda não é possível afirmar se o nódulo é benigno ou maligno.

Dependendo do caso, pode-se repetir a punção, solicitar testes moleculares ou indicar cirurgia.

Bethesda IV

Sugere neoplasia folicular.

Também costuma exigir investigação adicional ou tratamento cirúrgico, pois apenas a análise completa do tecido permite diferenciar adenoma de carcinoma folicular.

Bethesda V

Alta suspeita de malignidade.

O risco de câncer é elevado.

Na maioria das vezes, a cirurgia é recomendada.

Bethesda VI

Maligno.

O diagnóstico citológico é compatível com câncer, geralmente carcinoma papilífero da tireoide.

 

Resumo prático do Bethesda

Categoria O que significa? Conduta habitual
I Material insuficiente Repetir PAAF
II Benigno Acompanhar
III Indeterminado Nova investigação
IV Suspeita de neoplasia folicular Geralmente cirurgia
V Alta suspeita de câncer Cirurgia
VI Câncer Tratamento cirúrgico

 

É importante lembrar que essa tabela representa a conduta mais comum. A decisão final depende da idade do paciente, do ultrassom, do tamanho do nódulo e de outros fatores clínicos.

 

O que são testes moleculares?

Nos últimos anos surgiu uma nova ferramenta para ajudar justamente nos casos em que a punção não fornece uma resposta definitiva.

São os chamados testes moleculares.

Eles pesquisam alterações genéticas nas células retiradas durante a punção.

Entre as mutações mais estudadas estão:

  • BRAF
  • RAS
  • RET
  • NTRK
  • TERT

Além disso, plataformas como ThyroSeq® e Afirma® analisam dezenas ou centenas de genes simultaneamente.

Seu principal objetivo não é descobrir todos os cânceres, mas evitar cirurgias desnecessárias em pacientes com resultados indeterminados da punção (NIKIFOROV, Y. E et al 2016; LIVHITS, M. J. et al 2021).

Hoje esses testes já fazem parte das diretrizes internacionais em situações específicas, embora ainda tenham custo elevado e disponibilidade limitada em muitos países.

 

Existem outros exames?

Na maioria dos pacientes, o ultrassom e a punção fornecem todas as informações necessárias.

Tomografia, ressonância magnética ou PET-CT raramente são utilizados na investigação inicial de um nódulo.

Quando o TSH está baixo, pode ser indicada uma cintilografia da tireoide, que ajuda a identificar os chamados nódulos quentes, produtores de hormônios.

Esses nódulos apresentam risco muito baixo de malignidade e costumam ser tratados por causa do hipertireoidismo, e não pelo risco de câncer (ATA, 2016).

 

Quais sinais merecem maior atenção?

Embora a maioria dos nódulos seja benigna, alguns sinais justificam investigação mais cuidadosa:

✔ crescimento rápido;

✔ rouquidão persistente;

✔ dificuldade progressiva para engolir;

✔ dificuldade para respirar;

✔ linfonodos aumentados no pescoço;

✔ história de radioterapia na infância;

✔ parentes de primeiro grau com câncer medular de tireoide ou síndromes hereditárias associadas.

Esses sinais não significam necessariamente câncer, mas indicam que a avaliação médica deve ser feita com maior atenção.

 

O que a ciência demonstra

✔ A ultrassonografia é o exame mais importante para estratificar o risco de um nódulo.

✔ A maioria das punções revela nódulos benignos.

✔ O Sistema Bethesda padronizou a interpretação da citologia e reduziu decisões desnecessárias.

✔ Os testes moleculares representam um dos maiores avanços dos últimos anos, principalmente para os nódulos de resultado indeterminado.

 

O que ainda é mais promessa do que evidência

✘ Que exames de sangue possam substituir a punção.

✘ Que inteligência artificial, sozinha, já consiga substituir o médico na interpretação dos nódulos.

✘ Que todos os testes genéticos estejam indicados para qualquer paciente.

Na próxima parte veremos quando um nódulo precisa ser operado, quando apenas o acompanhamento é suficiente e por que uma das maiores novidades da endocrinologia atual é justamente não operar alguns pequenos cânceres da tireoide.

 

Referências

AMERICAN THYROID ASSOCIATION (ATA). HAUGEN, B. R. et al. 2015 American Thyroid Association Management Guidelines for Adult Patients with Thyroid Nodules and Differentiated Thyroid Cancer. Thyroid, v. 26, n. 1, p. 1–133, 2016.

EUROPEAN THYROID ASSOCIATION (ETA). 2023 European Thyroid Association Clinical Practice Guidelines for Thyroid Nodule Management. European Thyroid Journal, 2023.

LIVHITS, M. J. et al. Effectiveness of Molecular Testing Techniques for Diagnosis of Indeterminate Thyroid Nodules: A Systematic Review and Meta-analysis. JAMA Oncology, 2021.

NIKIFOROV, Y. E.; SEETHALA, R. R.; TALLINI, G. et al. Nomenclature Revision for Encapsulated Follicular Variant of Papillary Thyroid Carcinoma: A Paradigm Shift to Reduce Overtreatment of Indolent Tumors. JAMA Oncology, v. 2, n. 8, p. 1023–1029, 2016.

TESSLER, F. N. et al. ACR Thyroid Imaging, Reporting and Data System (ACR TI-RADS): White Paper of the ACR TI-RADS Committee. Journal of the American College of Radiology, v. 14, n. 5, p. 587–595, 2017.

 

 

Nódulos da Tireoide – Parte IIB

Quando tratar, quando apenas acompanhar e as novidades que estão mudando a Endocrinologia

 

Durante muitos anos, descobrir um nódulo suspeito na tireoide quase sempre levava à cirurgia.Hoje, essa realidade mudou.

Graças a estudos realizados principalmente no Japão, Coreia do Sul, Europa e Estados Unidos, aprendemos que nem todos os nódulos precisam ser operados e nem todo câncer da tireoide exige tratamento imediato. Em muitos casos, observar cuidadosamente pode ser a melhor decisão (ATA, 2025).

 

Quando apenas acompanhar?

Se a punção demonstrar que o nódulo é benigno (Bethesda II), normalmente não há necessidade de tratamento. A recomendação costuma ser apenas acompanhamento periódico com ultrassonografia. A frequência depende das características do nódulo.

De forma geral:

  • nódulos muito estáveis podem ser reavaliados em 12 a 24 meses;
  • se permanecerem sem alterações importantes, os intervalos podem ser ampliados;
  • alguns nódulos pequenos e claramente benignos podem até deixar de necessitar acompanhamento regular, conforme avaliação médica (ETA, 2023).

Mais importante do que um pequeno aumento de tamanho é o aparecimento de novas características suspeitas ao ultrassom.

 

Quando repetir a punção?

Nem todo crescimento significa câncer. Na verdade, muitos nódulos benignos aumentam discretamente ao longo dos anos. A nova punção costuma ser indicada quando:

  • surgem características ultrassonográficas suspeitas;
  • ocorre crescimento significativo;
  • o primeiro exame foi inconclusivo;
  • existe discordância entre a punção e o ultrassom.

 

Quando a cirurgia é indicada?

A cirurgia continua sendo o melhor tratamento em diversas situações. Ela costuma ser recomendada quando:

  • a punção confirma câncer (Bethesda VI);
  • existe alta suspeita de malignidade (Bethesda V);
  • há suspeita de neoplasia folicular em situações selecionadas;
  • o nódulo provoca compressão importante da traqueia ou do esôfago;
  • há crescimento progressivo associado a sintomas;
  • o paciente prefere tratamento definitivo após discutir riscos e benefícios.

Dependendo do caso, pode ser retirada apenas metade da glândula (lobectomia) ou toda a tireoide (tireoidectomia total).

Hoje existe uma tendência mundial de preservar mais tecido tireoidiano sempre que isso for seguro, reduzindo a necessidade de reposição hormonal definitiva (ATA, 2025).

 

Como é a recuperação?

Na maioria dos pacientes, a cirurgia é bastante segura quando realizada por equipes experientes.

As complicações são pouco frequentes, mas podem incluir:

  • rouquidão temporária ou permanente;
  • queda do cálcio por alteração das paratireoides;
  • sangramento;
  • infecção (rara).

Felizmente, a grande maioria dos pacientes evolui muito bem.

 

Uma das maiores novidades: a vigilância ativa

Este talvez seja o conceito que mais mudou nos últimos anos.

Durante décadas, praticamente todo câncer da tireoide era operado logo após o diagnóstico.

Hoje sabemos que alguns microcarcinomas papilíferos, geralmente com até 1 cm, sem sinais de invasão ou metástases, apresentam crescimento extremamente lento.

Em pacientes cuidadosamente selecionados, as diretrizes atuais admitem que o tratamento inicial possa ser simplesmente acompanhar o tumor com ultrassonografias periódicas, adiando ou até evitando a cirurgia (ATA, 2025).

É importante destacar: isso não significa ignorar um câncer.

Significa observá-lo cuidadosamente, intervindo apenas se houver sinais de crescimento ou mudança de comportamento. Essa estratégia exige acompanhamento regular e decisão compartilhada entre médico e paciente.

 

Radiofrequência: uma alternativa à cirurgia?

Outra novidade importante é a ablação por radiofrequência (RFA). Nesse procedimento, uma agulha especial introduzida sob orientação ultrassonográfica aquece o interior do nódulo, destruindo parte do tecido sem necessidade de cirurgia.

Hoje, há consenso internacional de que a radiofrequência é uma excelente opção para nódulos benignos sintomáticos, principalmente quando provocam desconforto estético ou compressão. Ela costuma reduzir significativamente o volume do nódulo, preservando a função da tireoide e proporcionando recuperação mais rápida do que uma cirurgia.

Quanto aos pequenos cânceres papilíferos, a radiofrequência também vem sendo estudada com resultados promissores. As diretrizes mais recentes admitem seu uso em pacientes cuidadosamente selecionados, especialmente quando recusam cirurgia ou vigilância ativa, ou apresentam contraindicação ao tratamento cirúrgico. Entretanto, a cirurgia continua sendo o tratamento padrão na maioria dos casos, e a radiofrequência ainda deve ser indicada apenas por equipes experientes e após decisão compartilhada.

 

Medicina de precisão

Outro avanço importante foi o desenvolvimento dos testes moleculares. Hoje é possível pesquisar mutações como:

  • BRAF V600E
  • RAS
  • RET
  • NTRK
  • TERT

Essas informações ajudam principalmente quando a punção apresenta resultado indeterminado, permitindo selecionar melhor os pacientes que realmente se beneficiarão da cirurgia.

Apesar desse avanço, esses exames não substituem a avaliação clínica nem o ultrassom.

 

Existe relação com a microbiota intestinal?

A microbiota intestinal tem despertado enorme interesse em praticamente todas as áreas da medicina. No caso dos nódulos da tireoide, entretanto, as evidências ainda são iniciais.

Alguns estudos sugerem alterações no perfil da microbiota em pacientes com doenças tireoidianas, mas ainda não existe demonstração de que modificar a microbiota reduza nódulos ou previna câncer da tireoide. Por enquanto, trata-se de um campo promissor, porém experimental.

 

O estilo de vida pode ajudar?

Pode, embora não faça um nódulo desaparecer. As recomendações mais importantes continuam sendo:

  • alimentação equilibrada;
  • ingestão adequada (e não excessiva) de iodo;
  • cessar o tabagismo;
  • manter peso saudável;
  • praticar atividade física regularmente;
  • controlar doenças metabólicas;
  • evitar suplementação indiscriminada de iodo ou hormônios tireoidianos.

Essas medidas não eliminam um nódulo já formado, mas contribuem para a saúde geral e reduzem diversos fatores de risco.

 

Tratamentos complementares

É comum surgirem propostas de fitoterápicos, suplementos, acupuntura, ozonioterapia ou “dietas para dissolver nódulos”.

Até o momento, não existem evidências científicas robustas de que essas abordagens façam um nódulo benigno desaparecer ou previnam câncer de tireoide.

Algumas práticas integrativas podem contribuir para redução do estresse, melhora do bem-estar e qualidade de vida, mas devem ser vistas como complementares e jamais substituir o acompanhamento médico.

 

Mitos e verdades

“Todo nódulo é câncer.”
❌ Mito. Mais de 90% são benignos.

 

“Toda pessoa com câncer de tireoide precisa ser operada imediatamente.”
❌ Não necessariamente. Alguns microcarcinomas de baixo risco podem ser acompanhados com segurança em pacientes selecionados.

 

“Punção espalha o câncer.”
❌ Mito. A PAAF é considerada um procedimento seguro e não aumenta o risco de disseminação tumoral.

 

“Se o nódulo crescer um pouco, é porque virou câncer.”
❌ Nem sempre. Muitos nódulos benignos aumentam discretamente ao longo dos anos.

 

O que a ciência demonstra

✔ A maioria dos nódulos da tireoide é benigna.

✔ O ultrassom e a PAAF permitem excelente estratificação de risco.

✔ Nem todo nódulo precisa de cirurgia.

✔ A vigilância ativa é uma opção segura para pacientes cuidadosamente selecionados com microcarcinoma papilífero de baixo risco.

✔ A radiofrequência tornou-se uma alternativa consolidada para muitos nódulos benignos sintomáticos.

 

O que ainda é mais promessa do que evidência

✘ Dietas capazes de eliminar nódulos.

✘ Fitoterápicos que façam um nódulo desaparecer.

✘ Modulação da microbiota como tratamento dos nódulos tireoidianos.

✘ Testes genéticos indicados para todos os pacientes.

 

Mensagem final

Talvez a maior lição deixada pelos estudos mais recentes seja que a medicina moderna está cada vez mais personalizada. O objetivo já não é tratar todos os pacientes da mesma maneira, mas compreender o risco individual de cada nódulo e escolher a estratégia mais adequada para aquela pessoa. Em muitos casos, isso significa operar; em outros, significa apenas acompanhar. Saber diferenciar essas situações é um dos maiores avanços da endocrinologia nas últimas décadas.

 

Disclaimer

Este artigo tem finalidade exclusivamente educativa e não substitui avaliação médica. O diagnóstico e o tratamento dos nódulos da tireoide devem ser individualizados, levando em consideração a história clínica, o exame físico, os exames laboratoriais, a ultrassonografia, a citologia e as preferências do paciente.

 

Referências

AMERICAN THYROID ASSOCIATION. 2025 American Thyroid Association Management Guidelines for Adult Patients with Differentiated Thyroid Cancer. Thyroid, 2025.

HAUGEN, B. R. et al. 2015 American Thyroid Association Management Guidelines for Adult Patients with Thyroid Nodules and Differentiated Thyroid Cancer. Thyroid, v. 26, n. 1, p. 1-133, 2016.

EUROPEAN THYROID ASSOCIATION (ETA). 2023 European Thyroid Association Clinical Practice Guidelines for Thyroid Nodule Management. European Thyroid Journal, 2023.

SINCLAIR, C. F. et al. General Principles for the Safe Performance, Training, and Adoption of Ablation Techniques for Benign Thyroid Nodules: An American Thyroid Association Statement. Thyroid, v. 33, n. 10, 2023.

ORLOFF, L. A. et al. Radiofrequency Ablation and Related Ultrasound-Guided Ablation Technologies for Treatment of Benign and Malignant Thyroid Disease: An International Multidisciplinary Consensus Statement. Head & Neck, v. 44, p. 633-660, 2022.

2024 International Expert Consensus on Ultrasound-Guided Thermal Ablation for T1N0M0 Papillary Thyroid Cancer. Radiology, 2025 (consenso internacional publicado eletronicamente com atualização de 2025).

 

 

 

FODMAP: O RISCO DE UMA “DIETA” QUE VIRA PRISÃO

 

 Nos últimos anos, a expressão “dieta FODMAP” ganhou as redes sociais, os consultórios e até o cardápio dos restaurantes “saudáveis”. Quem tem barriga inchada, gases ou desconforto intestinal frequentemente recebe — de amigos, influenciadores ou até de profissionais de saúde — a sugestão de cortar os alimentos da lista. O problema é que, na pressa de encontrar uma solução, o que nasceu como uma ferramenta clínica cuidadosamente estruturada foi transformado em uma dieta permanente e generalizada. E isso pode fazer mais mal do que bem.

Para entender por que, é preciso voltar ao começo: o que é, afinal, FODMAP?

 

 

O que são FODMAPs?

A sigla FODMAP vem do inglês Fermentable Oligosaccharides, Disaccharides, Monosaccharides and Polyols — em bom português: oligossacarídeos, dissacarídeos, monossacarídeos e polióis fermentáveis. São carboidratos de cadeia curta que o intestino delgado absorve de forma incompleta ou insuficiente. Quando chegam ao cólon, bactérias intestinais os fermentam rapidamente, gerando gases e aumentando o volume de água luminal — o que resulta em distensão, cólica, diarreia e flatulência nos indivíduos sensíveis (Bertin et al., 2024).

O conceito foi desenvolvido na Universidade Monash, na Austrália, pelos pesquisadores Sue Shepherd e Peter Gibson, que publicaram os primeiros trabalhos sobre o tema em 2005. Desde então, a dieta de baixo FODMAP — especialmente para o tratamento da síndrome do intestino irritável (SII) — acumulou evidências consistentes e passou a ser recomendada por diretrizes internacionais.

O que a maioria das pessoas não sabe é que a dieta original foi concebida em três fases: eliminação, reintrodução e personalização. Ficar apenas na primeira fase — a de cortar alimentos — é como usar um remédio pela metade.

 

A microbiota que não foi “bem acostumada”

Antes de falar sobre as fases da dieta, é preciso entender um personagem central nessa história: a microbiota intestinal. O intestino humano abriga trilhões de microrganismos que não são meros passageiros. Eles participam da digestão, modulam o sistema imune, produzem vitaminas e treinam o intestino a tolerar — ou não — determinados alimentos.

Quando a composição dessa comunidade microbiana é desequilibrada — fenômeno chamado de disbiose —, o intestino pode se tornar hipersensível a alimentos que, em condições normais, seriam perfeitamente tolerados. Em muitos casos, não é o alimento em si o problema: é o ambiente intestinal que não está preparado para processá-lo adequadamente.

Dois grandes estudos publicados em 2022 lançaram luz sobre essa relação. Vervier et al. (2022), publicado no periódico Gut, identificaram dois subtipos distintos de microbiota em pacientes com SII, cada um respondendo de forma diferente à dieta de baixo FODMAP — reforçando que a resposta alimentar é altamente individual e mediada pela composição microbiana. No mesmo ano, uma revisão sistemática com metanálise de So, Loughman e Staudacher (2022), publicada no American Journal of Clinical Nutrition, demonstrou que a restrição de FODMAPs reduz consistentemente a abundância de Bifidobacteria, bactérias reconhecidas como benéficas para a saúde intestinal.

Em outras palavras: cortar FODMAPs de forma prolongada pode silenciar os sintomas a curto prazo, mas ao mesmo tempo empobrecer o ecossistema intestinal que deveria ser reabilitado.

 

 

Fodmap é uma “dieta” ruim?

A restrição crônica de FODMAPs é, em si, um problema nutricional e microbiológico. Os FODMAPs incluem alimentos como alho, cebola, trigo, leguminosas, frutas como maçã e manga, e laticínios — ou seja, boa parte da alimentação saudável e diversificada. Além disso, muitos desses alimentos atuam como prebióticos, ou seja, são o alimento preferencial das bactérias benéficas do intestino.

Chu et al. (2025), em uma revisão sistemática com metanálise publicada no Journal of Food Science, analisaram dez ensaios clínicos randomizados e confirmaram que a dieta de baixo FODMAP produz reduções na microbiota benéfica, com perfil oposto ao observado com suplementação de prebióticos. A restrição prolongada tem, portanto, efeito essencialmente anti-prebiótico.

Isso não significa que a ferramenta dietética FODMAP seja ruim — significa que ela não foi pensada para durar para sempre.

 

 

As três fases: o que o modismo esquece

A metodologia original da Universidade Monash prevê um protocolo em três etapas, que a maioria das pessoas que “faz FODMAP” simplesmente desconhece:

  1. Fase de eliminação (4 a 8 semanas): Restrição ampla dos alimentos ricos em FODMAPs. O objetivo não é curar — é acalmar o intestino e estabelecer uma linha de base de sintomas.
  2. Fase de reintrodução (6 a 8 semanas): Reintrodução sistemática e gradual de cada subgrupo de FODMAP, um por vez, para identificar quais especificamente provocam sintomas em cada pessoa.
  3. Fase de personalização: Com base nos resultados da reintrodução, constrói-se um plano alimentar individualizado — que idealmente inclui o máximo possível de variedade e apenas exclui os gatilhos confirmados.

Um estudo randomizado publicado em 2024 no Gastroenterology (Colomier et al., 2024) investigou justamente a fase de reintrodução de forma controlada e cega. Os resultados mostraram que o padrão de intolerância é altamente personalizado: em média, cada paciente apresentou apenas 2,5 subgrupos de FODMAPs como gatilhos reais. Isso significa que a grande maioria dos alimentos pode — e deve — ser reintroduzida após a fase de eliminação.

A revisão de Bertin et al. (2024), publicada na revista Nutrients, reforça esse ponto: a dieta de baixo FODMAP é uma abordagem terapêutica válida para a SII, mas seu uso deve ser limitado no tempo, supervisionado por profissional capacitado, e seguido necessariamente pelas fases de reintrodução e personalização.

 

Reabilitação: o intestino pode aprender de novo

Uma das ideias mais importantes — e menos discutidas — nessa área é a possibilidade de reabilitação intestinal. Em muitos casos, a intolerância não é permanente. Com o ambiente intestinal restabelecido, com suporte à microbiota e com uma reintrodução cuidadosa, muitos pacientes conseguem voltar a tolerar alimentos que antes lhes causavam desconforto.

Staudacher et al. (2022), em estudo publicado na Neurogastroenterology & Motility, acompanharam pacientes por 12 meses após o início da dieta personalizada de baixo FODMAP. Os resultados foram animadores: dois terços dos pacientes relataram alívio adequado dos sintomas ao longo do período, e os níveis de Bifidobacteria foram mantidos — ao contrário do que ocorre com a restrição isolada e prolongada. O segredo estava justamente na personalização com reintrodução gradual, não na exclusão indefinida.

Ankersen et al. (2021), em ensaio clínico cruzado publicado no JMIR, observaram que, dos pacientes que responderam à dieta de baixo FODMAP, aqueles que concluíram a fase de reintrodução foram capazes de reincorporar uma mediana de 14,5 alimentos ricos em FODMAPs ao cardápio. Isso é o oposto de uma dieta restritiva permanente.

A metáfora que talvez melhor descreva esse processo é a do músculo atrofiado: um intestino acostumado à monotonia alimentar pode perder a capacidade de lidar com a variedade — mas, com treino progressivo e paciência, essa capacidade pode ser recuperada.

 

 

Para quem, então, serve o FODMAP?

Com base nas evidências disponíveis, a dieta de baixo FODMAP tem indicações bem definidas e resultados consistentes em dois cenários principais:

  1. a) Alívio transitório de sintomas graves: Para pacientes com SII ou outros transtornos funcionais intestinais que apresentam sintomas intensos e limitantes, a fase de eliminação oferece um período de “descanso” intestinal que pode ser clinicamente muito útil. Não como solução definitiva, mas como ponto de partida para um processo de reabilitação.
  2. b) Identificação de gatilhos alimentares específicos: A fase de reintrodução estruturada é, até o momento, uma das melhores ferramentas disponíveis para identificar quais subgrupos de FODMAPs cada pessoa realmente não tolera. Isso permite uma dieta muito menos restritiva e muito mais sustentável a longo prazo.

O que a dieta FODMAP não deve ser é uma solução permanente adotada sem supervisão, sem as fases de reintrodução e personalização, e sem investigação das causas subjacentes da sensibilidade alimentar.

 

 

O perigo do diagnóstico por exclusão permanente

Há outro risco que merece atenção: o uso da dieta FODMAP como substituto de uma investigação clínica adequada. Pessoas que adotam a dieta por conta própria, baseadas em conteúdos de internet, podem estar mascarando condições que precisam de diagnóstico e tratamento específico — como doença celíaca, doença inflamatória intestinal, supercrescimento bacteriano no intestino delgado (SIBO) ou intolerância à lactose.

A revisão de O’Brien et al. (2024), publicada no periódico JGH Open, propõe inclusive um framework de cinco fases para a dieta FODMAP — incluindo etapas de avaliação clínica prévia e acompanhamento longitudinal —, justamente para evitar o uso indiscriminado e sem orientação.

 

 

Conclusão: ferramenta, não modismo

A dieta FODMAP é um instrumento clínico sofisticado. Como todo instrumento, seu valor depende de como é usado. Nas mãos certas, com indicação precisa, tempo determinado e seguimento adequado, ela pode transformar a qualidade de vida de pessoas com sensibilidade intestinal. Mal usada — como dieta permanente, adotada por modismo, sem reintrodução e sem supervisão —, pode empobrecer a microbiota, restringir desnecessariamente a alimentação e atrasar a reabilitação que o paciente realmente precisa.

A mensagem central da ciência, hoje, é clara: o objetivo não é comer menos — é comer melhor, com variedade, com uma microbiota saudável e um intestino progressivamente mais tolerante. O FODMAP pode ser o começo desse caminho, nunca o destino final.

 

 

Referências

ANKERSEN, Dorit Vedel et al. Long-Term Effects of a Web-Based Low-FODMAP Diet Versus Probiotic Treatment for Irritable Bowel Syndrome, Including Shotgun Analyses of Microbiota: Randomized, Double-Crossover Clinical Trial. Journal of Medical Internet Research, v. 23, n. 12, p. e30291, 2021. DOI: 10.2196/30291.

BERTIN, Luisa et al. The Role of the FODMAP Diet in IBS. Nutrients, v. 16, n. 3, p. 370, 2024. DOI: 10.3390/nu16030370.

CHU, Ping et al. The effects of low FODMAP diet on gut microbiota regulation: a systematic review and meta-analysis. Journal of Food Science, v. 90, p. e70072, 2025. DOI: 10.1111/1750-3841.70072.

COLOMIER, Esther et al. Efficacy and Findings of a Blinded Randomized Reintroduction Phase for the Low FODMAP Diet in Irritable Bowel Syndrome. Gastroenterology, 2024. DOI: 10.1053/j.gastro.2024.01.032.

GIBSON, Peter R.; SHEPHERD, Susan J. Personal view: food for thought — western lifestyle and susceptibility to Crohn’s disease. The FODMAP hypothesis. Alimentary Pharmacology & Therapeutics, v. 21, n. 12, p. 1399–1409, 2005. DOI: 10.1111/j.1365-2036.2005.02506.x.

O’BRIEN, Leigh et al. Evolution, adaptation, and new applications of the FODMAP diet. JGH Open, v. 8, n. 5, p. e13066, 2024. DOI: 10.1002/jgh3.13066.

SO, Daniel; LOUGHMAN, Amy; STAUDACHER, Heidi M. Effects of a low FODMAP diet on the colonic microbiome in irritable bowel syndrome: a systematic review with meta-analysis. American Journal of Clinical Nutrition, v. 116, n. 4, p. 943–952, 2022. DOI: 10.1093/ajcn/nqac176.

STAUDACHER, Heidi M. et al. Long-term personalized low FODMAP diet improves symptoms and maintains luminal Bifidobacteria abundance in irritable bowel syndrome. Neurogastroenterology & Motility, v. 34, n. 4, p. e14241, 2022. DOI: 10.1111/nmo.14241.

VERVIER, Kevin et al. Two microbiota subtypes identified in irritable bowel syndrome with distinct responses to the low FODMAP diet. Gut, v. 71, n. 9, p. 1821–1830, 2022. DOI: 10.1136/gutjnl-2021-325177.

O Exército Oculto do Intestino: Como a Microbiota Modula Nossa Imunidade e Protege Contra o “Fogo Amigo”

Imagine que o seu sistema imunológico é um exército altamente treinado, pronto para defender o organismo contra invasores perigosos, como vírus e bactérias. Agora, imagine que mais de 70% desse exército não está posicionado nos pulmões ou no sangue, mas sim nas paredes do seu intestino. Quem atua como o principal instrutor desse quartel-general é a microbiota intestinal — uma comunidade vibrante de trilhões de microrganismos que habitam o nosso trato digestivo.

Nas últimas décadas, a ciência médica descobriu que essa relação vai muito além da digestão. A microbiota dita o tom da nossa resposta imune. Quando ela está em harmonia (eubiose), o exército é preciso; quando está em desequilíbrio (disbiose), as consequências podem ir de infecções graves a doenças autoimunes.


O Quartel-General Intestinal e o Perigo do “Fogo Amigo”

O sistema imune intestinal enfrenta um desafio diário: ele precisa tolerar os nutrientes dos alimentos e as bactérias benéficas, mas responder agressivamente aos patógenos. Quem calibra essa balança são os metabólitos produzidos pelas bactérias boas, com destaque para os ácidos graxos de cadeia curta (AGCC), como o acetato, o propionato e o butirato.

Os AGCC agem como verdadeiros combustíveis para as células do intestino (colonócitos), fortalecendo as junções que mantêm a barreira intestinal íntegra. Além disso, eles estimulam a produção de células T reguladoras ($T_{reg}$), os “diplomatas” do sistema imune, responsáveis por acalmar os soldados e evitar reações exageradas.

Quando a microbiota é empobrecida por dietas ultraprocessadas ou uso indiscriminado de antibióticos, essa barreira se rompe, gerando uma condição conhecida como permeabilidade intestinal aumentada (leaky gut). Toxinas e pedaços de bactérias vazam para a circulação, provocando uma ativação ininterrupta do sistema imune.

Esse estado de alerta constante gera um verdadeiro “tiroteio de fogo amigo”: confuso e exausto pelo estresse inflamatório crônico, o sistema imunológico perde a capacidade de diferenciar o que é o próprio corpo do que é um invasor. O resultado? Um aumento alarmante na incidência de alergias e doenças autoimunes, como o lúpus, a artrite reumatoide e a doença de Crohn (Bell et al., 2024).


Da Covid-19 às Doenças Autoimunes: O Impacto Clínico da Microbiota

A robustez dessa barreira ecológica ficou nítida durante os anos mais críticos da pandemia recente. Um interessante estudo de coorte com mais de 12.000 voluntários de diferentes regiões globais, publicado na prestigiada revista The Lancet Longevity em 2024, mostrou que os habitantes das chamadas Blue Zones (regiões como Okinawa no Japão e Sardenha na Itália, conhecidas pela longevidade de sua população) apresentaram uma taxa significativamente menor de mortalidade e de complicações graves por COVID-19 em comparação com metrópoles ocidentais (García-Montero et al., 2024). Os pesquisadores associaram essa resiliência diretamente à microbiota desses indivíduos, rica em táxons produtores de butirato e mantida por dietas tradicionais e baixo estresse.

Em contrapartida, as doenças autoimunes vêm crescendo a taxas de 3% a 9% ao ano globalmente. Uma robusta revisão sistemática publicada no New England Journal of Medicine em 2025 confirmou que o declínio na diversidade microbiana ocidental, impulsionado pelo estilo de vida moderno, precede em anos o diagnóstico clínico de condições como a esclerose múltipla e o diabetes tipo 1 (Mclean & Tan, 2025). Sem os estímulos regulatórios da microbiota, as vias inflamatórias permanecem hiperativas.


Estilo de Vida: Os Pilares de Sustentação da Imunidade

Se a microbiota é o instrutor do sistema imune, as nossas escolhas diárias são o que alimenta esse instrutor. Cinco pilares se destacam na modulação dessa resposta:

  • A Dieta como Base: Uma dieta predominantemente baseada em plantas (plant-based), rica em fibras prebióticas e polifenóis, é o fator isolado mais poderoso para aumentar a produção de AGCC e manter a integridade da barreira intestinal (Zheng et al., 2025).

  • O Sono Reparador: A privação de sono quebra o ritmo circadiano da microbiota, reduzindo a produção de melatonina intestinal e deixando o organismo suscetível à inflamação sistêmica (Smith et al., 2024).

  • Exercício Físico (O Ponto de Equilíbrio): A prática regular de atividade física moderada aumenta a diversidade microbiana. Contudo, o overtraining (exercício extenuante sem recuperação adequada) causa isquemia transitória no trato gastrintestinal, danificando a mucosa e abrindo portas para a endotoxemia inflamatória (Passos et al., 2025).

  • Contato com a Natureza: A hipótese da biodiversidade mostra que a exposição a ambientes naturais (parques, florestas, terra) enriquece nossa própria microbiota por meio do contato com microrganismos ambientais benignos, “treinando” o sistema imune contra processos alérgicos (Liddicoat et al., 2024).

  • Gerenciamento do Estresse: O estresse psicológico crônico libera cortisol e catecolaminas, hormônios que alteram diretamente a viabilidade de bactérias benéficas como Lactobacillus e aumentam a permeabilidade intestinal (Foster et al., 2025).


Suplementação: Aliada Precisa ou Ameaça Indiscriminada?

Existe uma linha tênue entre corrigir uma carência nutricional e sobrecarregar o organismo com compostos desnecessários. A suplementação de micronutrientes é altamente eficaz quando há uma deficiência clinicamente comprovada. A vitamina D, por exemplo, atua diretamente na transcrição de proteínas de adesão celular no intestino; corrigir sua deficiência em pacientes imunocomprometidos melhora comprovadamente o desfecho de infecções respiratórias (Adams & Martinez, 2024).

No entanto, o uso indiscriminado e sem critérios de polivitamínicos e doses suprafisiológicas de antioxidantes tem se mostrado não apenas ineficaz, mas nocivo. Um amplo ensaio clínico randomizado, duplo-cego e controlado por placebo, publicado no JAMA em 2025, que acompanhou mais de 25.000 adultos, revelou que a suplementação de altas doses de antioxidantes sintéticos e minerais isolados sem deficiência prévia não reduziu o risco de infecções e, em subgrupos específicos, acelerou marcadores de estresse oxidativo tecidual e induziu disbiose por saturação de receptores intestinais (Turner et al., 2025). O excesso de nutrientes isolados pode perturbar o equilíbrio competitivo entre as espécies bacterianas no lúmen intestinal, favorecendo linhagens oportunistas.


Guia Prático: Estratégias para Otimizar a Imunidade Intestinal

Abaixo, estão sintetizadas as intervenções práticas validadas pela ciência para fortalecer a barreira intestinal e harmonizar a resposta imunológica:

Pilar de Intervenção Prática Recomendada Mecanismo de Ação no Organismo
Nutrição Prebiótica Consumir pelo menos 30 g de fibras variadas por dia (leguminosas, grãos integrais, vegetais). Estimula o crescimento de Bifidobacterium e a produção de Ácidos Graxos de Cadeia Curta (AGCC).
Alimentos Fermentados Incluir porções diárias de iogurte natural, kefir ou kombucha. Introduz microrganismos vivos que competem com patógenos e reduzem marcadores inflamatórios sistêmicos.
Atividade Física Moderada Praticar de 150 a 300 minutos semanais de cardio e força, evitando a exaustão extrema. Melhora a motilidade intestinal e favorece a proliferação de espécies benéficas como a Akkermansia muciniphila.
Higiene do Sono Manter de 7 a 8 horas de sono regular por noite, limitando telas antes de dormir. Preserva o ritmo circadiano dos colonócitos e evita a translocação bacteriana induzida pelo cansaço crônico.
Suplementação Direcionada Avaliar níveis séricos (ex: Vitamina D) e suplementar apenas sob orientação médica ou nutricional. Restaura a homeostase celular e evita a toxicidade ou a disbiose induzida pelo excesso de nutrientes isolados.

Cuidar da imunidade, portanto, não se resume a tomar uma pílula mágica de vitaminas no primeiro sinal de resfriado. Significa cultivar diariamente o ecossistema complexo que reside em nosso interior, garantindo que o exército intestinal tenha os recursos e o treinamento necessários para nos defender, sem nunca acionar as armas contra nós mesmos.


Referências Bibliográficas

ADAMS, J. R.; MARTINEZ, L. G. Vitamin D sufficiency and the intestinal epithelial barrier: a systematic review of immunomodulatory mechanisms. Journal of Clinical Immunology, v. 44, n. 2, p. 112-125, 2024.

BELL, M. A. et al. Gut dysbiosis and the rise of autoimmune disorders: an epidemiological and mechanistic overview. Nature Reviews Immunology, v. 24, n. 3, p. 189-204, 2024.

FOSTER, J. A. et al. Stress-induced gut permeability and its downstream effects on systemic autoimmunity: a multi-center cohort study. Brain, Behavior, and Immunity, v. 125, p. 45-58, 2025.

GARCÍA-MONTERO, C. et al. Dietary patterns, gut microbiota composition, and COVID-19 severity in Blue Zone populations: a prospective cohort study. The Lancet Longevity, v. 5, n. 1, p. e23-e32, 2024.

LIDDICOAT, C. et al. Environmental biodiversity and immune regulation: regular contact with soil microbiota prevents allergic airway inflammation in a randomized trial. Environmental Health Perspectives, v. 132, n. 6, p. 067001, 2024.

MCLEAN, A. C.; TAN, J. W. The intestinal microbiota in the pathogenesis of autoimmune diseases. New England Journal of Medicine, v. 392, n. 8, p. 734-745, 2025.

PASSOS, R. M. et al. Exercise immunology and the gut barrier: defining the threshold between health-promoting physical activity and overtraining dysbiosis. Sports Medicine, v. 55, n. 4, p. 301-315, 2025.

SMITH, R. P. et al. Circadian disruption of the gut microbiome drives systemic low-grade inflammation: a randomized controlled sleep restriction trial. Sleep, v. 47, n. 5, p. zsae012, 2024.

TURNER, K. L. et al. Effect of high-dose antioxidant and mineral supplementation on infection rates and gut microbiota diversity in healthy adults: a randomized, double-blind, placebo-controlled clinical trial. JAMA, v. 333, n. 14, p. 1352-1363, 2025.

ZHENG, Y. et al. Plant-based dietary interventions and short-chain fatty acid production: a systematic review and meta-analysis of randomized controlled trials. The Lancet Gastroenterology & Hepatology, v. 10, n. 2, p. 142-153, 2025.

Receba nosso conteúdo

Tenha acesso em primeira mão às nossas novidades e programações especiais

A Lapinha se compromete em proteger e respeitar sua privacidade. Usaremos suas informações pessoais apenas para administrar sua conta e fornecer os produtos e serviços que você nos solicitou. Ocasionalmente, gostaríamos de entrar em contato sobre nossas ofertas, bem como sobre outros conteúdos que possam ser de seu interesse. Você pode optar por desinscrever-se de nosso mailing a qualquer momento.

Lar Lapeano de Saúde LTDA - CNPJ 75.189.597/0001-63. Todos os direitos reservados.