Qual é o seu risco de sofrer um infarto ou um derrame? – O colesterol é realmente o vilão? – Parte 2

 

Na primeira parte vimos que o risco cardiovascular não depende apenas do colesterol. Idade, pressão arterial, diabetes, tabagismo, obesidade, história familiar e diversos outros fatores contribuem para determinar a probabilidade de um infarto ou derrame. Mas isso não diminui a importância do colesterol. Pelo contrário. Hoje existe um dos consensos científicos mais sólidos da Cardiologia moderna: O colesterol LDL participa diretamente da formação das placas de aterosclerose.

Isso não significa que ele seja o único responsável. Também não significa que todas as pessoas devam apresentar níveis extremamente baixos. Significa apenas que existe uma relação causal muito bem estabelecida entre LDL elevado e maior risco cardiovascular (Ference et al., 2017).

 

O colesterol não é um inimigo

Muitas pessoas acreditam que colesterol é uma substância prejudicial. Na realidade ocorre exatamente o oposto. Sem colesterol não haveria vida. O colesterol participa da formação:

  • das membranas celulares;
  • da bainha de mielina que envolve os nervos;
  • dos hormônios sexuais;
  • do cortisol;
  • da vitamina D;
  • dos ácidos biliares.

O problema não é produzir colesterol. O problema é quando determinadas partículas permanecem circulando em excesso durante muitos anos.

 

LDL: o verdadeiro protagonista da aterosclerose

O LDL significa Lipoproteína de Baixa Densidade (Low Density Lipoprotein). Na prática, trata-se do principal veículo de transporte de colesterol do fígado para os tecidos.

Quando sua concentração permanece elevada por muitos anos, parte dessas partículas consegue penetrar na parede das artérias. Ali inicia-se um processo inflamatório lento e progressivo.

Macrófagos passam a acumular colesterol. Formam-se as chamadas células espumosas. Com o passar dos anos surgem as placas de aterosclerose. Essas placas podem permanecer silenciosas durante décadas.

Quando uma delas rompe, forma-se um trombo que pode interromper completamente o fluxo sanguíneo. Dependendo do local, ocorre:

  • infarto do miocárdio;
  • AVC isquêmico;
  • obstrução das artérias das pernas;
  • outras manifestações da doença aterosclerótica.

É por isso que muitos especialistas costumam dizer: “O infarto começa vinte ou trinta anos antes da dor no peito.”

 

Quanto menor o LDL, melhor?

Durante muitos anos discutiu-se se existiria um limite abaixo do qual reduzir o LDL deixaria de trazer benefícios.

Hoje sabemos que, para pessoas de alto risco cardiovascular, níveis progressivamente menores de LDL continuam associados à redução de eventos cardiovasculares, sem evidências consistentes de prejuízo decorrente de valores muito baixos alcançados com tratamento adequado (CTT Collaboration, 2010; Mach et al., 2020).

Entretanto, isso não significa que todas as pessoas devam buscar o menor LDL possível. A meta depende do risco cardiovascular individual. Esse é um conceito fundamental. A Medicina moderna não trata apenas números. Ela trata pessoas.

 

As metas atuais de LDL

As diretrizes mais recentes da Sociedade Europeia de Cardiologia (ESC) e da Sociedade Brasileira de Cardiologia recomendam individualizar as metas conforme o risco cardiovascular. De forma simplificada:

 

Categoria de risco

 

Meta aproximada de LDL

Baixo risco <116 mg/dL
Risco moderado <100 mg/dL
Alto risco <70 mg/dL
Muito alto risco <55 mg/dL
Alguns pacientes de risco extremamente elevado e eventos recorrentes <40 mg/dL pode ser considerado em situações selecionadas

 

Essas metas podem sofrer pequenos ajustes conforme a diretriz utilizada e as características clínicas do paciente.

O princípio, entretanto, permanece o mesmo: Quanto maior o risco cardiovascular, mais rigoroso costuma ser o controle do LDL.

 

HDL: o famoso “colesterol bom”

Durante décadas o HDL foi chamado de “colesterol bom”. Existe um fundo de verdade nessa afirmação. O HDL participa do chamado transporte reverso de colesterol, removendo parte do colesterol da parede arterial e levando-o de volta ao fígado.

Pessoas com HDL naturalmente mais elevado costumam apresentar menor incidência de doença cardiovascular em estudos observacionais. Entretanto, surgiu uma surpresa.

Diversos medicamentos conseguiram aumentar bastante o HDL. Mesmo assim, não reduziram infartos nem mortalidade. Isso mostrou que: Mais importante do que a quantidade de HDL parece ser sua qualidade e funcionalidade.

Hoje o HDL continua sendo um marcador útil de risco. Mas deixou de ser um alvo terapêutico isolado.

 

Triglicerídeos – para que servem e o que revelam?

Os triglicerídeos representam outra forma de transporte de gordura. Valores elevados frequentemente refletem:

  • excesso de peso;
  • resistência à insulina;
  • diabetes;
  • abuso de álcool;
  • excesso de carboidratos refinados;
  • sedentarismo.

Além disso, partículas ricas em triglicerídeos também parecem contribuir para o desenvolvimento da aterosclerose. Na prática clínica, triglicerídeos elevados costumam sinalizar que o metabolismo merece atenção mais ampla.

Convém destacar que pessoas magras também podem apresentar triglicerídeos elevados.

 

Não-HDL e ApoB: os novos protagonistas

Durante muitos anos praticamente toda a atenção foi dirigida ao LDL. Hoje cresce o interesse por dois marcadores adicionais.

Colesterol não-HDL – É obtido simplesmente subtraindo o HDL do colesterol total. Representa todas as partículas potencialmente aterogênicas. Sua interpretação é especialmente útil quando os triglicerídeos estão elevados.

 

 

ApoB – Cada partícula aterogênica contém aproximadamente uma molécula de Apolipoproteína B (ApoB). Por isso muitos pesquisadores acreditam que a ApoB representa uma estimativa ainda mais precisa da quantidade de partículas capazes de penetrar na parede arterial.

Nos últimos anos esse marcador ganhou destaque crescente em diretrizes internacionais, especialmente para pacientes com síndrome metabólica, diabetes ou hipertrigliceridemia. Provavelmente veremos sua utilização tornar-se cada vez mais frequente.

 

Lipoproteína(a) ou Lp(a): um fator de risco que nasce conosco

Entre todas as novidades da Cardiologia Preventiva, poucas despertaram tanto interesse quanto a lipoproteína(a), conhecida como Lp(a). Ela se parece com uma partícula de LDL.

Entretanto, possui uma proteína adicional chamada apolipoproteína(a). Na maioria das pessoas seu nível é determinado principalmente pela genética. Dieta e exercício físico exercem pouca influência sobre ela. Valores elevados estão associados a maior risco de:

  • infarto;
  • AVC;
  • estenose da válvula aórtica.

Atualmente recomenda-se que, pelo menos uma vez na vida, especialmente em indivíduos com história familiar de doença cardiovascular precoce, seja considerada a dosagem da Lp(a).

Novos medicamentos especificamente direcionados à redução da Lp(a) encontram-se em fase avançada de pesquisa clínica e representam uma das áreas mais promissoras da Cardiologia.

 

O colesterol é apenas uma parte da história

É perfeitamente possível encontrar pessoas com colesterol relativamente elevado e baixo risco cardiovascular. Também encontramos indivíduos com colesterol apenas discretamente aumentado, mas risco muito elevado. Isso acontece porque a aterosclerose resulta da interação de inúmeros fatores. Entre eles:

  • genética;
  • inflamação;
  • hipertensão;
  • diabetes;
  • tabagismo;
  • obesidade visceral;
  • sedentarismo;
  • qualidade da alimentação;
  • microbiota intestinal;
  • função renal;
  • idade.

Essa visão integrada representa uma das maiores mudanças da Cardiologia moderna.

 

Resumo prático

O colesterol continua sendo um dos principais fatores envolvidos na aterosclerose, mas não deve ser interpretado isoladamente.

O LDL permanece como o principal alvo do tratamento preventivo, especialmente em pessoas de maior risco cardiovascular.

O HDL continua sendo um importante marcador, embora seu aumento isolado não garanta proteção.

Triglicerídeos, colesterol não-HDL, ApoB e lipoproteína(a) ampliam nossa capacidade de compreender o risco individual e, cada vez mais, ajudam a personalizar a prevenção.

Na próxima parte veremos como reduzir efetivamente esse risco por meio da alimentação, atividade física, controle do peso, abandono do tabagismo e dos medicamentos atualmente disponíveis — das estatinas aos inibidores de PCSK9, passando pela ezetimiba, pelo ácido bempedoico e pelas novas terapias que estão transformando a prevenção cardiovascular.

 

Referências

CTT (Cholesterol Treatment Trialists’) Collaboration. Efficacy and safety of more intensive lowering of LDL cholesterol: a meta-analysis of data from 170,000 participants in 26 randomised trials. The Lancet. 2010.

FERENCE, B. A. et al. Low-density lipoproteins cause atherosclerotic cardiovascular disease. European Heart Journal. 2017.

MACH, F. et al. 2019 ESC/EAS Guidelines for the management of dyslipidaemias. European Heart Journal. 2020.

GRUNDY, S. M. et al. 2018 AHA/ACC Guideline on the Management of Blood Cholesterol. Circulation. 2019.

NORDESTGAARD, B. G. et al. Lipoprotein(a) as a cardiovascular risk factor: current status. European Heart Journal. 2010.

Sociedade Brasileira de Cardiologia. Atualização da Diretriz Brasileira de Dislipidemias e Prevenção da Aterosclerose. Arquivos Brasileiros de Cardiologia. Versão mais recente disponível.

Vegetarianismo e Veganismo: Benefícios, Limitações e Cuidados – Parte 2

 

 

Na primeira parte deste artigo vimos que vegetarianismo e veganismo representam muito mais do que uma simples escolha alimentar. Também discutimos que nem toda dieta baseada em vegetais é necessariamente saudável. Nesta segunda parte, analisaremos o que os principais estudos científicos realmente demonstram sobre os possíveis benefícios dessas dietas, bem como suas limitações e os nutrientes que merecem atenção especial.

 

O que a ciência demonstra com maior consistência?

Ao longo das últimas três décadas, centenas de estudos avaliaram os efeitos das dietas vegetarianas sobre diferentes doenças crônicas. Como ocorre em praticamente todas as pesquisas envolvendo nutrição, a interpretação dos resultados exige cautela. A maioria das evidências provém de grandes estudos observacionais, que permitem identificar associações, mas não demonstrar causalidade absoluta.

Ainda assim, quando diferentes estudos realizados em populações distintas apontam na mesma direção, aumenta nossa confiança de que exista um efeito biológico real.

Entre os benefícios mais consistentemente observados destacam-se menor índice de obesidade, menor prevalência de diabetes tipo 2, níveis mais baixos de colesterol LDL, menor pressão arterial e redução do risco de algumas doenças cardiovasculares.

 

Obesidade: uma das evidências mais consistentes

Talvez um dos achados mais reproduzidos na literatura seja o menor índice de massa corporal (IMC) entre vegetarianos.

Um interessante estudo envolvendo mais de 96 mil participantes do Adventist Health Study-2 demonstrou que, em média, vegetarianos apresentavam IMC significativamente menor que indivíduos onívoros. Os veganos exibiram os menores valores, seguidos pelos ovolactovegetarianos, enquanto os consumidores habituais de carne apresentaram os maiores índices (Tonstad et al., 2009).

Diversos fatores provavelmente contribuem para esse resultado. Dietas baseadas em vegetais costumam apresentar maior teor de fibras, menor densidade energética, maior volume alimentar e maior poder de saciedade, favorecendo espontaneamente menor ingestão calórica.

Entretanto, convém lembrar que o emagrecimento não depende exclusivamente da exclusão da carne. Uma alimentação vegetariana ou vegana rica em doces, refrigerantes, frituras e ultraprocessados está longe de ser saudável e dificilmente produzirá esse benefício.

 

Diabetes tipo 2

Outra área em que os resultados têm sido bastante consistentes é a prevenção do diabetes tipo 2.

No próprio Adventist Health Study-2, um interessante estudo envolvendo dezenas de milhares de participantes observou que vegetarianos apresentavam risco significativamente menor de desenvolver diabetes tipo 2 quando comparados aos não vegetarianos, mesmo após ajustes para idade, sexo, atividade física e índice de massa corporal (Tonstad et al., 2009).

Mais recentemente, revisões sistemáticas e metanálises confirmaram que padrões alimentares predominantemente vegetais estão associados à melhora da sensibilidade à insulina, redução da hemoglobina glicada em indivíduos com diabetes e melhor controle metabólico, sobretudo quando baseados em alimentos integrais e minimamente processados.

Boa parte desse efeito parece decorrer da combinação entre perda de peso, maior ingestão de fibras, menor consumo de gorduras saturadas e melhora da qualidade global da alimentação.

 

Doenças cardiovasculares

As doenças cardiovasculares continuam sendo a principal causa de morte no mundo. Naturalmente, muitos pesquisadores procuraram avaliar se dietas vegetarianas influenciam esse risco.

Uma importante metanálise publicada por Dinu e colaboradores (2017), reunindo estudos envolvendo centenas de milhares de participantes, observou associação entre dietas vegetarianas e menores concentrações de colesterol total, colesterol LDL e pressão arterial, além de menor incidência de doença isquêmica do coração.

Outro interessante estudo publicado no Journal of the American Heart Association demonstrou que padrões alimentares vegetais compostos predominantemente por alimentos integrais estavam associados a menor risco de doença cardiovascular, enquanto dietas ricas em alimentos vegetais ultraprocessados apresentavam associação oposta (Satija et al., 2019).

Esses achados reforçam uma mensagem fundamental: não basta consumir alimentos de origem vegetal; é necessário priorizar alimentos pouco processados.

 

E quanto ao câncer?

Esse talvez seja um dos temas que mais desperta interesse do público.

Os estudos disponíveis sugerem que dietas ricas em frutas, verduras, legumes, cereais integrais e leguminosas podem contribuir para reduzir o risco de alguns tipos de câncer, especialmente colorretal. Entretanto, atribuir esse benefício exclusivamente ao vegetarianismo seria uma simplificação inadequada.

A menor ingestão de carnes processadas, reconhecidas pela International Agency for Research on Cancer como carcinogênicas para humanos quando consumidas regularmente, provavelmente representa um dos fatores envolvidos.

Além disso, alimentos vegetais fornecem fibras, antioxidantes, carotenoides, flavonoides e milhares de compostos bioativos que podem exercer efeitos favoráveis sobre inflamação, microbiota intestinal e metabolismo celular.

Por outro lado, até o momento não existem evidências suficientes para afirmar que simplesmente retirar a carne da alimentação reduza, por si só, o risco global de câncer. A qualidade geral da dieta continua sendo determinante.

 

Longevidade: promessa ou realidade?

Poucos assuntos despertam tanta curiosidade quanto a possibilidade de viver mais.

As populações vegetarianas estudadas em Loma Linda apresentam, de fato, expectativa de vida superior à média norte-americana. Entretanto, interpretar corretamente esses dados exige prudência.

Além da alimentação, esses indivíduos fumam menos, ingerem pouco álcool, praticam atividade física regularmente, possuem forte integração social, valorizam o descanso semanal e mantêm acompanhamento médico preventivo com maior frequência.

Portanto, embora diversos estudos observacionais sugiram associação entre padrões alimentares vegetarianos e menor mortalidade, é cientificamente mais correto afirmar que a alimentação constitui apenas um dos componentes de um estilo de vida globalmente saudável.

Essa conclusão está plenamente alinhada com os princípios da Medicina do Estilo de Vida, que enfatiza a atuação conjunta da alimentação, atividade física, sono adequado, controle do estresse, vínculos sociais e prevenção do tabagismo.

 

Nutrientes que merecem atenção

Apesar de seus inúmeros aspectos positivos, dietas vegetarianas e, principalmente, veganas podem apresentar limitações nutricionais quando não são cuidadosamente planejadas. A principal delas diz respeito à vitamina B12.

Produzida por microrganismos, e não pelos animais propriamente ditos, essa vitamina encontra-se naturalmente disponível em quantidades relevantes quase exclusivamente em alimentos de origem animal.

Sua deficiência pode provocar anemia megaloblástica, alterações neurológicas, neuropatia periférica, prejuízo cognitivo e aumento das concentrações de homocisteína.

Por essa razão, praticamente todas as sociedades científicas que publicam recomendações sobre alimentação vegetariana são unânimes em afirmar que veganos devem utilizar alimentos fortificados ou suplementação regular de vitamina B12.

Essa é uma das recomendações mais sólidas de toda a literatura científica sobre veganismo.

 

Outros nutrientes potencialmente limitantes

Além da vitamina B12, alguns nutrientes merecem monitorização individualizada.

Entre eles destacam-se:

  • ferro;
  • zinco;
  • cálcio;
  • iodo;
  • vitamina D;
  • ácidos graxos ômega-3 de cadeia longa (EPA e DHA);
  • proteína, especialmente em idosos, atletas ou indivíduos com maior demanda metabólica.

É importante destacar que isso não significa que dietas vegetarianas sejam inadequadas. Significa apenas que, assim como ocorre em qualquer padrão alimentar, elas precisam ser corretamente planejadas.

Na prática clínica, exames laboratoriais periódicos e orientação nutricional individualizada costumam ser suficientes para prevenir a maioria dessas deficiências.

 

O equilíbrio continua sendo a melhor escolha

À medida que a ciência evolui, torna-se cada vez mais evidente que o debate não deve opor vegetarianos e onívoros. A verdadeira questão é a qualidade da alimentação.

Uma dieta vegetariana rica em vegetais frescos, leguminosas, frutas, cereais integrais e oleaginosas provavelmente será muito mais saudável do que uma dieta onívora baseada em ultraprocessados.

Da mesma forma, uma alimentação onívora composta predominantemente por alimentos naturais, com consumo moderado de carnes, abundância de vegetais e reduzida quantidade de alimentos industrializados poderá oferecer excelente perfil nutricional.

Em outras palavras, o que a ciência vem mostrando de forma crescente é que a qualidade global da dieta importa muito mais do que a simples presença ou ausência de carne no prato.

Na terceira e última parte deste artigo discutiremos um aspecto igualmente importante: os impactos ambientais da produção de alimentos, as motivações éticas para o vegetarianismo, os desafios da sustentabilidade, o consumo consciente e os principais mitos e verdades que ainda cercam esse tema.

 

Referências

DINU, M. et al. Vegetarian, vegan diets and multiple health outcomes: a systematic review with meta-analysis of observational studies. Critical Reviews in Food Science and Nutrition, v. 57, n. 17, p. 3640–3649, 2017.

ORLICH, M. J. et al. Vegetarian dietary patterns and mortality in Adventist Health Study 2. JAMA Internal Medicine, v. 173, n. 13, p. 1230–1238, 2013.

SATIJA, A. et al. Plant-based dietary patterns and incidence of cardiovascular disease: prospective cohort study. Journal of the American Heart Association, v. 8, e012865, 2019.

TONSTAD, S. et al. Type of vegetarian diet, body weight, and prevalence of type 2 diabetes. Diabetes Care, v. 32, n. 5, p. 791–796, 2009.

MELINA, V.; CRAIG, W.; LEVIN, S. Position of the Academy of Nutrition and Dietetics: Vegetarian Diets. Journal of the Academy of Nutrition and Dietetics, v. 116, n. 12, p. 1970–1980, 2016.

CRAIG, W. J. et al. The safe and effective use of plant-based diets with guidelines for health professionals. Nutrients, v. 13, n. 11, 2021.

SUPLEMENTOS PARA A SAÚDE ÓSSEA – QUANDO USAR E QUANDO NÃO USAR

 

 

Quando pensamos em ossos fortes, a primeira imagem que costuma vir à mente é um comprimido de cálcio ou vitamina D. Durante muitos anos, criou-se a ideia de que esses suplementos deveriam ser utilizados por praticamente todos os adultos como forma de prevenir osteoporose e fraturas. Entretanto, a medicina baseada em evidências mostrou que a realidade é mais complexa.

 

Recentemente, um dos estudos mais robustos da história da medicina preventiva, publicado pelo prestigiado periódico britânico The BMJ, reuniu os resultados de 69 ensaios clínicos envolvendo mais de 153 mil participantes para responder a uma pergunta simples: tomar suplementos de cálcio ou vitamina D previne quedas e fraturas em pessoas saudáveis? A resposta foi surpreendente. Para adultos que vivem na comunidade e não apresentam deficiência conhecida, o benefício foi muito pequeno, próximo de zero (MASSÉ et al., 2026).

À primeira vista, essa conclusão pode levar a outro erro igualmente perigoso: acreditar que suplementos “não servem para nada”. Nada poderia estar mais distante da verdade. A palavra-chave é critério. Em medicina, tanto o excesso quanto a falta de tratamento podem trazer prejuízos. O segredo está em identificar quem realmente se beneficia da suplementação.

 

Quando a suplementação é realmente necessária?

Existem situações em que a reposição de cálcio e vitamina D é parte importante do tratamento. Pessoas com deficiência comprovada de vitamina D, pacientes com osteoporose, idosos institucionalizados ou com pouca exposição ao sol, indivíduos submetidos à cirurgia bariátrica ou portadores de doenças que dificultam a absorção intestinal podem necessitar de suplementação prescrita pelo médico (DEMAY et al., 2024).

Nesses casos, o objetivo não é simplesmente aumentar um número no exame de sangue, mas reduzir complicações, preservar a saúde óssea e diminuir o risco de fraturas.

Por outro lado, para adultos saudáveis, sem fatores de risco e com alimentação equilibrada, a suplementação rotineira “por garantia” raramente oferece benefícios demonstráveis (MASSÉ et al., 2026).

 

Vitamina D: qual é o nível ideal?

Muitas pessoas se preocupam excessivamente com o valor da vitamina D nos exames laboratoriais. Atualmente, a maioria das diretrizes considera que concentrações séricas de 25-hidroxivitamina D [25(OH)D] acima de 20 ng/mL são suficientes para manter a saúde óssea da população geral saudável (DEMAY et al., 2024; GÓMEZ et al., 2024).

Entretanto, a interpretação desses valores deve ser individualizada. A diretriz mais recente da Endocrine Society recomenda que a decisão de dosar ou suplementar vitamina D seja baseada no contexto clínico, e não na busca de um valor laboratorial único para toda a população (DEMAY et al., 2024).

Ainda assim, algumas sociedades e consensos especializados continuam considerando concentrações em torno de 30 ng/mL como um alvo desejável para determinados grupos de maior risco — como pacientes com osteoporose, doenças osteometabólicas ou síndromes de má absorção — embora esse ponto permaneça objeto de debate científico (GÓMEZ et al., 2024).

Em atletas de alto rendimento ou pessoas submetidas a treinamento intenso, revisões sistemáticas recentes sugerem que a correção da deficiência de vitamina D pode estar associada à melhora da força muscular, da potência anaeróbica e do desempenho físico. Entretanto, as evidências sobre prevenção de lesões e fraturas por estresse ainda são inconsistentes, não justificando a suplementação indiscriminada em indivíduos com níveis adequados da vitamina (WYATT et al., 2024; SHULER et al., 2012).

 

O melhor remédio para os ossos talvez não esteja na farmácia

Embora cálcio e vitamina D sejam importantes, eles representam apenas parte da equação.

Os ossos são tecidos vivos que se renovam continuamente. Eles respondem ao estímulo mecânico produzido pelos músculos durante atividades como caminhada, corrida, dança e, principalmente, exercícios de fortalecimento muscular.

Esse processo é conhecido há mais de um século pela chamada Lei de Wolff: quanto maior o estímulo adequado recebido pelo osso, maior tende a ser sua adaptação estrutural. Estudos modernos mostram que essa remodelação depende de mecanismos biológicos complexos ativados pela carga mecânica, tornando o exercício físico um dos principais fatores para a manutenção da massa óssea ao longo da vida (ROBLING; CASTILLO; TURNER, 2006).

Além do exercício, uma alimentação adequada em proteínas de boa qualidade, cálcio proveniente dos alimentos, exposição solar segura quando possível, sono adequado, manutenção do peso corporal e abandono do tabagismo também desempenham papel fundamental na prevenção da osteoporose.

 

O caminho do meio

Na área da saúde, respostas simples raramente são as melhores.

A ciência atual não apoia a suplementação indiscriminada de cálcio e vitamina D para todas as pessoas. Da mesma forma, também não recomenda abandonar completamente esses suplementos quando existe uma indicação clínica bem estabelecida.

A melhor estratégia continua sendo a individualização. Em vez de tomar suplementos por conta própria ou descartá-los com base em manchetes, vale a pena conversar com seu médico, avaliar seus fatores de risco e decidir, juntos, qual é a melhor conduta.

Em outras palavras, ossos fortes não dependem apenas de um comprimido. Eles são construídos diariamente por uma combinação de alimentação equilibrada, atividade física regular, estilo de vida saudável e, quando necessário, suplementação orientada por profissionais de saúde.

 

Referências

DEMAY, M. B.; PITTAS, A. G.; BIKLE, D. D. et al. Vitamin D for the Prevention of Disease: An Endocrine Society Clinical Practice Guideline. The Journal of Clinical Endocrinology & Metabolism, v. 109, n. 8, p. 1907–1947, 2024.

GÓMEZ, O.; CAMPUSANO, C.; CERDAS-P., S. et al. Clinical Practice Guidelines of the Latin American Federation of Endocrinology for the Use of Vitamin D in the Maintenance of Bone Health: Recommendations for the Latin American Context. Archives of Osteoporosis, v. 19, art. 46, 2024.

MASSÉ, O. et al. Calcium, vitamin D, or combined supplementation to prevent fractures and falls: systematic review and meta-analysis. BMJ, v. 393, e088050, 2026.

ROBLING, A. G.; CASTILLO, A. B.; TURNER, C. H. Biomechanical and molecular regulation of bone remodeling. Annual Review of Biomedical Engineering, v. 8, p. 455–498, 2006.

ROSEN, C. J. et al. The 2011 report on dietary reference intakes for calcium and vitamin D from the Institute of Medicine: what clinicians need to know. The Journal of Clinical Endocrinology & Metabolism, v. 96, n. 1, p. 53–58, 2012.

SHULER, F. D. et al. Sports health benefits of vitamin D. Sports Health, v. 4, n. 6, p. 496–501, 2012.

WYATT, P. B. et al. Effects of Vitamin D Supplementation in Elite Athletes: A Systematic Review. Orthopaedic Journal of Sports Medicine, v. 12, n. 1, 2024. doi:10.1177/23259671231220371.

A Receita Quilométrica: O Limiar entre a Suplementação Científica e a Toxicidade

 

 

Imagine a seguinte cena em um consultório médico: um paciente jovem, fisicamente ativo e preocupado com a própria saúde procura atendimento devido a desconforto abdominal persistente, náuseas recorrentes e episódios de palpitação. Durante a anamnese, apresenta uma lista extensa de suplementos e fórmulas manipuladas, incluindo vitaminas em altas doses, minerais, aminoácidos, fitoterápicos e estimulantes diversos. Nenhuma deficiência nutricional havia sido documentada previamente, e grande parte das substâncias fora prescrita com a promessa de melhorar energia, imunidade, composição corporal ou longevidade.

Embora esse exemplo seja hipotético, situações semelhantes têm se tornado cada vez mais frequentes na prática clínica. A suplementação nutricional representa uma ferramenta valiosa quando utilizada para corrigir deficiências comprovadas, complementar necessidades específicas ou apoiar determinadas condições clínicas. Entretanto, a crescente popularização de prescrições extensas, frequentemente desvinculadas de critérios diagnósticos claros, levanta questionamentos importantes sobre eficácia, segurança e racionalidade terapêutica.

 

O Fascínio das Soluções Complexas

Existe uma percepção difundida de que uma combinação de múltiplos nutrientes produziria benefícios superiores aos obtidos por intervenções mais simples. Contudo, a fisiologia humana não necessariamente responde de forma linear ao aumento da quantidade de substâncias ingeridas.

Vitaminas, minerais e compostos bioativos participam de redes metabólicas complexas e frequentemente compartilham mecanismos de absorção, transporte e utilização celular. O excesso de determinados nutrientes pode interferir na absorção de outros ou alterar mecanismos regulatórios naturais do organismo. Além disso, diversos nutrientes podem competir entre si em vias metabólicas específicas, tornando improvável que “mais” seja automaticamente sinônimo de “melhor” (Bouayed e Bohn, 2010).

Quanto maior o número de substâncias utilizadas simultaneamente, maior também a dificuldade de identificar a origem de eventuais efeitos adversos, intolerâncias ou interações medicamentosas. Embora indivíduos saudáveis possuam ampla capacidade de metabolização e excreção, o uso prolongado e desnecessário de múltiplos suplementos pode aumentar a carga metabólica sobre fígado e rins, particularmente em pessoas suscetíveis ou portadoras de doenças pré-existentes.

 

Soroterapia: Entre a Medicina e o Marketing

Nos últimos anos, tornou-se popular a oferta de chamados “soros da imunidade”, “soros energéticos” ou “soros da beleza”, frequentemente comercializados como estratégias de promoção da saúde e prevenção de doenças.

É importante destacar que a administração intravenosa de nutrientes possui indicações médicas legítimas em contextos específicos, como nutrição parenteral, correção de deficiências graves ou situações clínicas especiais. Entretanto, a utilização rotineira dessas infusões em indivíduos saudáveis carece de evidências científicas robustas que demonstrem benefícios consistentes para desempenho físico, rejuvenescimento ou fortalecimento imunológico.

Além disso, qualquer procedimento intravenoso envolve riscos inerentes, incluindo infecções, flebites, reações adversas e erros de dosagem. Por esse motivo, diversas sociedades médicas e especialistas em medicina baseada em evidências recomendam cautela diante de promessas terapêuticas que extrapolem os dados científicos atualmente disponíveis.

 

O Paradoxo dos Antioxidantes

Poucos conceitos são tão atraentes quanto a ideia de combater o envelhecimento por meio da ingestão de antioxidantes. De fato, o estresse oxidativo participa de inúmeros processos patológicos, e nutrientes antioxidantes desempenham funções importantes na manutenção da saúde (Halliwell e Gutteridge, 2015).

Entretanto, a biologia humana é mais complexa do que uma simples batalha entre radicais livres e antioxidantes.

As espécies reativas de oxigênio exercem funções fisiológicas fundamentais, participando da defesa imunológica, da comunicação celular, da adaptação ao exercício físico e de diversos processos metabólicos. Dessa forma, níveis moderados de oxidação não representam necessariamente um problema; em muitos casos, são essenciais para o funcionamento normal do organismo (Halliwell e Gutteridge, 2015).

Estudos experimentais demonstram que alguns antioxidantes podem apresentar comportamento pró-oxidante em determinadas circunstâncias, especialmente quando utilizados em doses elevadas e isoladamente (Bouayed e Bohn, 2010). Revisões da literatura também mostram que os benefícios teóricos observados em modelos laboratoriais nem sempre se traduzem em vantagens clínicas quando antioxidantes são utilizados indiscriminadamente em seres humanos (Seifried et al., 2007).

Isso não significa que vitaminas antioxidantes sejam prejudiciais por definição, mas reforça um princípio fundamental da fisiologia: equilíbrio é mais importante do que excesso.

 

Testosterona e a Busca pelo Desempenho

Outro fenômeno crescente é o uso de testosterona e outros andrógenos por indivíduos sem hipogonadismo diagnosticado.

A terapia de reposição hormonal possui papel estabelecido no tratamento de homens com deficiência androgênica clinicamente comprovada. Contudo, sua utilização para fins estéticos, ganho de massa muscular ou melhora inespecífica da vitalidade permanece controversa. As diretrizes da Endocrine Society (Bhasin et al., 2018) e da American Urological Association (Mulhall et al., 2018) recomendam que o tratamento seja reservado a pacientes que apresentem sintomas compatíveis associados a níveis laboratoriais reduzidos de testosterona.

O uso inadequado pode levar à supressão da produção natural do hormônio, redução da fertilidade, alterações testiculares e diversas repercussões metabólicas. Também podem ocorrer elevação do hematócrito, alterações do perfil lipídico e potenciais repercussões cardiovasculares em grupos suscetíveis, especialmente quando doses suprafisiológicas são utilizadas por períodos prolongados (Bhasin et al., 2018; Mulhall et al., 2018).

 

Energéticos e Estimulantes: Quando a Energia Cobra Seu Preço

As bebidas energéticas e os suplementos pré-treino conquistaram amplo espaço entre estudantes, profissionais e praticantes de atividade física.

Em doses moderadas, a cafeína pode melhorar o estado de alerta, a atenção e o desempenho esportivo, especialmente em modalidades de resistência e atividades que exigem concentração (Spriet, 2014). Entretanto, o consumo excessivo ou repetido ao longo do dia pode gerar efeitos adversos importantes.

Entre os problemas mais frequentemente observados estão ansiedade, insônia, tremores, palpitações, aumento transitório da pressão arterial e desconforto gastrointestinal. Em indivíduos predispostos, doses elevadas podem contribuir para arritmias cardíacas e outros eventos cardiovasculares (Spriet, 2014).

Além disso, a privação crônica de sono frequentemente induzida pelo uso inadequado de estimulantes compromete mecanismos fundamentais de recuperação física, cognitiva e metabólica, criando um ciclo de fadiga e dependência comportamental.

 

O Verdadeiro Papel da Suplementação

Nenhuma dessas observações deve ser interpretada como uma crítica à suplementação baseada em evidências.

Ao contrário, existem situações nas quais a reposição nutricional representa uma das intervenções mais eficazes disponíveis na prática clínica.

Entre os exemplos clássicos estão a reposição de vitamina B12 em indivíduos com deficiência documentada, o tratamento da anemia ferropriva com suplementação de ferro, a utilização de ácido fólico no período periconcepcional para prevenção de defeitos do tubo neural e a correção de deficiência de vitamina D quando clinicamente indicada (World Health Organization, 2012).

Da mesma forma, determinadas formulações de ômega-3 possuem respaldo científico para o manejo de hipertrigliceridemia em contextos específicos, quando utilizadas dentro das recomendações clínicas estabelecidas.

Nesses cenários, o benefício decorre da identificação adequada da necessidade clínica, da escolha correta da dose e do acompanhamento profissional.

A diferença entre uma intervenção racional e uma prática potencialmente nociva não está na existência do suplemento, mas na qualidade do diagnóstico que justifica sua utilização.

 

Considerações Finais

A medicina moderna dispõe hoje de recursos extraordinários para corrigir deficiências nutricionais, melhorar desfechos clínicos e promover saúde. No entanto, o entusiasmo p

 

Referências

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A Ilusão das Soluções Injetáveis: O Custo Ético e Clínico do Modismo dos “Soros da Beleza e Imunidade”

Nos últimos anos, as redes sociais foram inundadas por promessas de vitalidade instantânea, rejuvenescimento e blindagem imunológica através de procedimentos conhecidos como “soroterapia” ou “nutrição endovenosa”. Clínicas elegantes oferecem coquetéis personalizados de vitaminas, minerais, aminoácidos e antioxidantes diretamente na veia, prometendo otimizar a saúde de forma rápida. No entanto, por trás do brilho do marketing e do ambiente luxuoso de muitos desses estabelecimentos, esconde-se um fenômeno preocupante que desafia os pilares da boa prática médica e da bioética: o comércio da falsa necessidade.

A medicina baseada em evidências (MBE) pressupõe que qualquer intervenção clínica deve ser pautada pelo equilíbrio entre eficácia demonstrada, segurança e custo-benefício. Quando esses critérios são substituídos pelo lucro financeiro derivado de procedimentos sem respaldo científico, a medicina se desvirtua.


O Ecossistema do “Mercenarismo Médico”

O modelo de negócios que impulsiona a soroterapia indiscriminada frequentemente segue um roteiro previsível. O paciente é atraído por promessas de performance ou estética e submetido a consultas de valores elevados. Nelas, costuma-se solicitar uma bateria de exames laboratoriais desnecessários — muitos sem qualquer validação para os sintomas apresentados —, cujos resultados são interpretados de forma distorcida através de “valores de referência ótimos” artificialmente estreitos. O objetivo, quase sempre, é encontrar falsas deficiências que justifiquem a prescrição de fórmulas caras e exclusivas, frequentemente manipuladas ou administradas na própria clínica.

Essa prática configura o que a literatura e os órgãos reguladores apontam como uma mercantilização perigosa da saúde. A prescrição de tratamentos sem fundamentação científica com o objetivo principal de aumentar o faturamento clínico viola o Código de Ética Médica e compromete a integridade da profissão.

A suplementação de nutrientes e antioxidantes é uma ferramenta terapêutica valiosa, mas seu uso legítimo restringe-se a situações de deficiência clinicamente e laboratorialmente constatadas (como anemia ferropriva crônica, síndromes de má absorção, pós-operatório de cirurgia bariátrica ou desnutrição severa). Fora desse cenário, a administração endovenosa carece de justificativa biológica. O trato gastrointestinal humano evoluiu para atuar como uma barreira e um regulador altamente eficiente da absorção de nutrientes. Ignorar essa via fisiológica sem indicação precisa é submeter o paciente a riscos desnecessários.


O Que Diz a Ciência: Ausência de Evidências e Riscos Reais

A premissa de que doses maciças de antioxidantes e vitaminas injetáveis previnem doenças crônicas ou retardam o envelhecimento já foi amplamente testada e refutada por estudos de alta qualidade metodológica.

Um impressionante estudo com mais de 11.000 voluntários, conduzido por pesquisadores da Universidade de Oxford e publicado no periódico de alto impacto The Lancet (Heart Protection Study Collaborative Group, 2002), investigou os efeitos da suplementação prolongada com vitaminas antioxidantes (Vitamina E, C e Beta-caroteno). Após cinco anos de acompanhamento nesse ensaio clínico randomizado e duplo-cego, os resultados mostraram categoricamente que a suplementação não reduziu a mortalidade por causas cardiovasculares ou câncer, tampouco trouxe benefícios vasculares, demonstrando que o excesso de antioxidantes não se traduz em proteção biológica.

Além da falta de eficácia, os riscos associados à administração desnecessária de micronutrientes são reais. A toxicidade por hipervitaminose (especialmente de vitaminas lipossolúveis como A e D) e a sobrecarga renal ou hepática são complicações documentadas.

Uma robusta revisão sistemática com metanálise publicada no JAMA (Bjelakovic et al., 2007), que analisou 68 ensaios clínicos randomizados envolvendo um total de 232.606 participantes, avaliou os efeitos de suplementos antioxidantes na mortalidade. Os autores concluíram que o tratamento com beta-caroteno, vitamina A e vitamina E pode, na verdade, aumentar a mortalidade geral. O estudo acendeu um alerta definitivo na comunidade científica sobre o perigo de romper o equilíbrio redox do organismo com megadoses artificiais.

Mais recentemente, o monitoramento de desfechos de longo prazo manteve esse posicionamento. Um amplo estudo de coorte baseado nos dados do UK Biobank, publicado no The American Journal of Clinical Nutrition (Nishi et al., 2024), acompanhou mais de 300.000 indivíduos para avaliar a associação entre o uso regular de suplementos multivitamínicos e a incidência de doenças cardiovasculares e mortalidade. Os pesquisadores confirmaram que o uso rotineiro de suplementos por indivíduos saudáveis não reduziu o risco de mortalidade por todas as causas, reforçando a premissa de que a suplementação em populações eutróficas e sem deficiências reais é clinicamente inútil.

Além disso, o próprio ato da infusão endovenosa impõe riscos inerentes ao procedimento, como flebite, infecções bacterianas decorrentes de falhas de assepsia, reações anafiláticas a componentes da fórmula e sobrecarga volêmica aguda.


O Caso da Auto-Hemoterapia: Uma Prática Sem Amparo

No mesmo espectro de terapias desprovidas de respaldo científico sólido encontra-se a auto-hemoterapia — procedimento que consiste na retirada de sangue venoso do próprio indivíduo e sua imediata reinfecção por via intramuscular, sob a alegação de “estimular o sistema imunológico”.

A prática é formalmente condenada e proibida pelos principais órgãos reguladores de saúde. O Conselho Federal de Medicina (CFM), por meio da Resolução nº 2.121/2015, e a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), por meio da Nota Técnica nº 01/2007, proíbem expressamente a realização da auto-hemoterapia. Não existem ensaios clínicos randomizados ou revisões sistemáticas indexadas que comprovem sua eficácia ou segurança. Os riscos incluem desde abscessos glúteos graves e infecções locais até a transmissão de patógenos por manejo inadequado do sangue, configurando um risco sanitário injustificável.


O Desvio de Foco e o Verdadeiro Caminho da Saúde

O principal dano indireto dos modismos terapêuticos e da soroterapia comercial é o desvio de atenção. Ao vender a ilusão de que a saúde e a longevidade podem ser compradas em um frasco de infusão a cada quinzena, essas práticas desestimulam os pacientes a investirem no que realmente transforma a biologia humana: as escolhas diárias de estilo de vida.

Nenhum coquetel endovenoso é capaz de anular os efeitos colaterais do sedentarismo, do tabagismo, do estresse crônico, da privação de sono e de uma dieta ultraprocessada. A verdadeira promoção da saúde fundamenta-se em pilares sólidos, validados por décadas de epidemiologia e pesquisa clínica:

  • Alimentação Equilibrada: Rica em alimentos sazonais, fibras e micronutrientes obtidos pela via fisiológica (oral).

  • Atividade Física Regular: Exercícios aeróbicos e de contra-resistência, que regulam o metabolismo e a saúde cardiovascular de forma sistêmica.

  • Medicina Preventiva de Precisão: Realização de rastreamento diagnóstico (screening) baseado na idade, gênero e histórico familiar, focado na detecção precoce de patologias reais (como hipertensão, dislipidemia e neoplasias).

A boa medicina acolhe, investiga com critério, trata as deficiências reais com rigor técnico e protege o paciente contra intervenções iatrogênicas ou puramente mercadológicas. Fugir das tendências efêmeras e valorizar a prática médica baseada em evidências científicas continua sendo a estratégia mais segura e eficaz para a preservação da saúde e do bem-estar.


Referências

AGÊNCIA NACIONAL DE VIGILÂNCIA SANITÁRIA (ANVISA). Nota Técnica nº 01/2007/GGTOD/ANVISA: Esclarecimentos sobre a prática da Auto-hemoterapia. Brasília: ANVISA, 2007.

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CONSELHO FEDERAL DE MEDICINA (CFM). Resolução CFM nº 2.121/2015: Proíbe a prática da auto-hemoterapia. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 2015.

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