Bimagrumab – O Medicamento de Nome Estranho Que Propõe Emagrecimento Sem Perda Muscular

 

 

A medicina vive uma era de ouro no tratamento da obesidade, impulsionada pelos análogos do receptor de GLP-1, como a semaglutida. Esses medicamentos revolucionaram os consultórios ao proporcionar perdas ponderais antes só vistas em cirurgias bariátricas.

No entanto, médicos e pesquisadores enfrentam um dilema clínico incômodo: o chamado “preço do músculo”. Estima-se que entre 25% e 40% do peso perdido com dietas restritivas ou terapias incretinomiméticas tradicionais (Mounjaro, Ozempic e companhia) corresponda à massa magra (músculo esquelético), e não à gordura.

Essa perda muscular acentuada pode predispor o paciente à sarcopenia, reduzir a taxa metabólica basal e comprometer a funcionalidade física a longo prazo. É nesse cenário que surge o bimagrumab, um anticorpo monoclonal humano experimental que propõe desacoplar a perda de gordura da perda de tecido muscular.

 

 

O Mecanismo de Ação: Bloqueando os Freios do Músculo

Para compreender o bimagrumab, imagine que o corpo possui “freios químicos” naturais que impedem os músculos de crescerem indefinidamente. Os principais freios são proteínas chamadas miostatinas e activinas. Elas se ligam a receptores na superfície das células musculares, conhecidos como receptores de activina tipo II (ActRIIA e ActRIIB), enviando ordens para frear o desenvolvimento muscular.

O bimagrumab atua como um escudo molecular. Ele bloqueia especificamente os receptores ActRII. Sem o sinal de freio, o tecido muscular esquelético recebe um estímulo anabólico direto para se preservar ou crescer. O que mais surpreendeu a comunidade científica, contudo, foi o efeito metabólico secundário: ao atuar no tecido adiposo e aumentar a massa metabolicamente ativa, o fármaco dispara o gasto energético e induz uma queima profunda de gordura corporal, mesmo sem reduzir o apetite.

[Miostatinas / Activinas] –x [Bloqueio pelo Bimagrumab] x–> [Receptores ActRII]

┌────────────────────────────────┴────────────────────────────────┐

▼                                                                 ▼

Sinal de freio desligado                                          Redirecionamento metabólico

│                                                                 │

▼                                                                 ▼

Sinalização Anabólica Direta                                       Aumento do Gasto Energético

│                                                                 │

▼                                                                 ▼

GANHO/PRESERVAÇÃO MUSCULAR                                         QUEIMA DE GORDURA CORPORAL

 

Dos Primeiros Passos à Sinergia Perfeita

Inicialmente, o bimagrumab foi desenvolvido pela Novartis para tratar doenças de atrofia muscular patológica. Contudo, os cientistas notaram que voluntários com resistência à insulina que receberam o fármaco perderam gordura de forma massiva.

Isso levou ao histórico estudo de Fase 2 publicado no periódico JAMA Network Open, liderado por Laura Coleman e colaboradores (2021). O ensaio clínico avaliou pacientes com diabetes tipo 2 e obesidade ao longo de 48 semanas. Enquanto o grupo placebo quase não mudou de composição, os pacientes que usaram bimagrumab obtiveram uma redução de 20,5% na massa gorda total e, simultaneamente, um ganho de 3,6% em massa magra, acompanhados de uma melhora expressiva no controle glicêmico (redução da hemoglobina glicada – HbA1c).

A grande virada clínica ocorreu recentemente com os resultados do robusto estudo BELIEVE, publicado na revista Nature Medicine (2026). Os pesquisadores decidiram testar a terapia combinada: o poder central de redução de apetite da semaglutida somado à ação periférica de proteção muscular do bimagrumab.

Os achados impressionaram a endocrinologia:

  • Perda de Peso Ampliada: A combinação de dose alta de bimagrumab com semaglutida alcançou uma redução média de 22,1% do peso corporal às 72 semanas, superando amplamente o uso isolado de semaglutida (15,7%) ou de bimagrumab (10,8%).
  • Composição Qualitativa: Cerca de 92,2% de todo o peso perdido na combinação veio exclusivamente de gordura.
  • Preservação de Massa Magra: Enquanto o grupo que usou apenas semaglutida perdeu 7,4% de massa magra, a combinação segurou essa perda a apenas 2,9% — e o bimagrumab sozinho chegou a aumentar o músculo em 2,5%.

 

Tolerabilidade e Próximos Desafios

Nenhum medicamento é isento de efeitos colaterais. Pelo fato de alterar a sinalização muscular, o efeito colateral mais comum do bimagrumab são as cãibras e espasmos musculares involuntários, além de episódios de acne e diarreia leve. No entanto, os estudos apontam perfis de segurança aceitáveis e ausência de mortalidade nos testes conduzidos.

O bimagrumab (atualmente sob os holofotes de grandes farmacêuticas como a Eli Lilly, que adquiriu os direitos da molécula) representa uma mudança de paradigma: a transição de olhar apenas para o ponteiro da balança para focar na qualidade da composição corporal. Embora ainda precise passar pelos testes finais de Fase 3 antes de chegar às farmácias, ele desenha um futuro onde tratar a obesidade não significará fragilizar o corpo.

 

Advertência

As informações apresentadas neste artigo sobre o Bimagrumab são exclusivamente informativas e baseadas em dados científicos atuais. Este medicamento encontra-se em fase de estudos clínicos e ainda não está aprovado ou disponível para uso comercial generalizado com foco na perda de gordura ou ganho de massa magra.
Embora os resultados preliminares sejam promissores e tragam perspectivas inovadoras para a medicina metabólica, reforçamos os seguintes pontos:
    • Estilo de vida é insubstituível: Nenhuma intervenção farmacológica, por mais avançada que seja, substitui os pilares fundamentais de um estilo de vida saudável, como a alimentação equilibrada e a prática regular de exercícios físicos.
    • Segurança a longo prazo: Por se tratar de uma substância em desenvolvimento, o perfil completo de segurança, tolerabilidade e potenciais efeitos colaterais a longo prazo ainda não é conhecido com total certeza.
    • Cuidado com o entusiasmo excessivo: Alertamos contra promessas mirabolantes ou soluções consideradas “milagrosas”. O uso imprudente ou a busca por vias não oficiais representam graves riscos à saúde.

Qualquer decisão sobre tratamentos médicos, uso de substâncias ou mudanças drásticas na rotina de saúde deve ser obrigatoriamente discutida e avaliada com um médico especialista.

 

Referências Bibliográficas

  1. COLEMAN, Laura A. et al. Effect of Bimagrumab vs Placebo on Body Fat Mass Among Adults With Type 2 Diabetes and Obesity: A Phase 2 Randomized Clinical Trial. JAMA Network Open, v. 4, n. 1, e2033439, jan. 2021. Disponível em: https://jamanetwork.com/journals/jamanetworkopen/fullarticle/2774903. Acesso em: 21 jul. 2026.
  2. NATURE PORTFOLIO. Bimagrumab plus semaglutide alone or in combination for the treatment of obesity: a phase 2, randomized, placebo-controlled trial (BELIEVE). Nature Medicine, v. 32, n. 3, p. 612–625, mar. 2026. Disponível em: https://www.nature.com/articles/s41591-026-04204-0. Acesso em: 21 jul. 2026.

 

As Canetas Emagrecedoras Precisam Ser Usadas para Sempre?

 

Quando o medicamento ensina o corpo a viver sem ele. 

Disclaimer

Este artigo tem finalidade exclusivamente educativa e não substitui consulta médica. A decisão de iniciar, manter, reduzir ou interromper medicamentos para obesidade deve ser tomada individualmente, em conjunto com o médico assistente. Os exemplos apresentados são fictícios e têm apenas finalidade didática.

 

A pergunta que quase todo paciente faz

Desde que surgiram os novos medicamentos para emagrecer, uma dúvida aparece em praticamente todas as consultas: “Doutor, vou precisar tomar essa canetinha para o resto da vida?” A resposta mais honesta é: Depende.

Não porque os médicos não saibam responder, mas porque cada paciente tem uma história, uma biologia e um grau diferente de obesidade.

A obesidade é uma doença crônica, mas ela não se manifesta da mesma maneira em todas as pessoas. Algumas apresentam um excesso de peso relativamente recente, poucas doenças associadas e grande capacidade de mudar hábitos. Outras convivem há décadas com obesidade grave, diabetes, apneia do sono, hipertensão e inúmeras tentativas frustradas de emagrecimento.

Por isso, esperar que todos tenham exatamente a mesma evolução seria tão inadequado quanto imaginar que todos os pacientes com hipertensão ou diabetes possam suspender seus medicamentos após alguns meses de tratamento.

 

Uma janela de oportunidade

Os análogos das incretinas, como a semaglutida e a tirzepatida, produzem um efeito muito interessante.

Eles reduzem a fome. Aumentam a saciedade. Diminuem aquela sensação constante de pensar em comida. Muitos pacientes descrevem que, pela primeira vez em muitos anos, conseguem escolher os alimentos com calma, sem a ansiedade que antes parecia controlar suas decisões.

Talvez esse seja um dos maiores benefícios dessas medicações. Elas criam uma janela de oportunidade.

Durante esse período, enquanto o organismo oferece menos resistência ao emagrecimento, torna-se muito mais fácil implantar mudanças profundas na alimentação, iniciar atividade física, melhorar o sono, controlar o estresse e construir novos hábitos.

Em outras palavras, o medicamento pode facilitar aquilo que, antes, parecia impossível. É exatamente essa lógica que fundamenta os programas de Intensive Lifestyle Intervention (ILI), já consagrados em grandes estudos científicos, como o Look AHEAD, que demonstrou os benefícios de intervenções intensivas sobre alimentação, atividade física e comportamento (Look AHEAD Research Group, 2013).

Hoje, todas as principais diretrizes internacionais recomendam que a farmacoterapia seja sempre acompanhada por mudanças estruturadas no estilo de vida (Garvey et al., 2022).

 

Resumo Prático

A canetinha não ensina ninguém a viver de forma saudável.

Mas ela pode criar as condições biológicas para que essa aprendizagem finalmente aconteça.

 

Elizabeth: quando a medicação funciona como uma ponte

Imagine a história de Elizabeth (Personagem fictícia, inspirada em situações frequentes da prática clínica).

Elizabeth tinha obesidade grau I. Sua saúde era boa, mas ela carregava cerca de 17 quilos acima do peso considerado saudável. Já havia tentado inúmeras dietas, sempre com o mesmo resultado: perdia alguns quilos e depois recuperava tudo.

Ela sabia exatamente o que precisava fazer. O problema nunca foi falta de informação.  problema era conseguir manter as mudanças.

Depois de conversar com seu médico, iniciou um análogo das incretinas (canetas emagrecedoras) e, ao mesmo tempo, ingressou em um programa intensivo de mudança do estilo de vida.

Passou a caminhar regularmente. Descobriu o prazer da musculação. Aprendeu a organizar as refeições. Dormia melhor. Reduziu alimentos ultraprocessados. Voltou a cozinhar. A comida deixou de ocupar seus pensamentos o tempo todo.

Ao longo de quase um ano, perdeu os 17 quilos que a separavam do peso desejado. Mais importante do que isso: construiu uma nova rotina.

Quando esses hábitos já estavam sólidos, seu médico iniciou uma redução gradual da medicação.

Hoje, Elizabeth continua sendo acompanhada.Talvez nunca mais precise utilizar o medicamento. Talvez um dia precise voltar. Ninguém sabe. Mas isso deixou de ser a principal preocupação. O verdadeiro tratamento passou a ser seu novo estilo de vida.

 

Tânia: quando o tratamento precisa continuar

Agora imagine Tânia (também uma personagem fictícia).

Ela apresenta obesidade grave há muitos anos. Tem diabetes tipo 2. Hipertensão arterial. Apneia do sono. Dor nos joelhos. Esteatose hepática.

Já participou de inúmeros programas de emagrecimento. Perdia um pouco de peso. Recuperava tudo. Recomeçava. Seu organismo parece defender intensamente um peso elevado.

Após iniciar um agonista das incretinas (canetas emagrecedoras), Tânia também emagreceu. Sua glicemia melhorou. A pressão caiu. A disposição aumentou. Mas, ao tentar reduzir a medicação, a fome voltou de forma intensa e o peso começou novamente a subir.

Nesse caso, manter o tratamento por tempo prolongado talvez seja a decisão mais sensata. Isso não significa fracasso. Significa tratar uma doença crônica da mesma maneira que tratamos hipertensão, diabetes ou asma.

 

Resumo Prático

  • Nem todos os pacientes seguirão o mesmo caminho.
  • Alguns conseguirão manter os resultados apenas com hábitos saudáveis.
  • Outros precisarão de doses menores de manutenção.
  • E haverá aqueles que se beneficiarão do tratamento contínuo.

 

A medicina está caminhando para a personalização

Durante muitos anos, procurávamos uma única resposta para todos. Hoje sabemos que ela não existe. A tendência da medicina moderna é justamente a personalização.

Alguns pacientes utilizarão o medicamento como uma ponte para construir um novo estilo de vida. Outros precisarão dessa ponte por muito mais tempo.

O importante não é seguir uma regra fixa. É encontrar a estratégia que ofereça o maior benefício com o menor risco para cada pessoa.

 

Nossa Experiência na Lapinha

Na Lapinha, temos adotado essa filosofia de forma individualizada. Sempre que possível, o tratamento medicamentoso é iniciado simultaneamente a um Programa Intensivo de Intervenção no Estilo de Vida (Intensive Lifestyle Intervention – ILI). Quando os novos hábitos estão consolidados — geralmente após um período entre 6 e 18 meses, embora isso varie de pessoa para pessoa — pode-se considerar uma redução gradual da medicação, sempre com acompanhamento próximo da equipe.

Ainda não existem estudos robustos comprovando essa estratégia como rotina para todos os pacientes, mas ela se apoia em fundamentos fisiológicos consistentes e em uma ideia simples: aproveitar o período de maior saciedade proporcionado pelo medicamento para consolidar hábitos que possam sustentar os resultados no longo prazo. Se isso for possível, excelente. Se não for, o retorno ao tratamento medicamentoso não deve ser encarado como derrota, mas como parte do manejo de uma doença crônica.

 

O objetivo nunca foi abandonar a medicação

Existe um erro de perspectiva que merece ser evitado. O sucesso não deve ser medido por conseguir ou não interromper a canetinha. O verdadeiro sucesso é alcançar saúde.

Se isso acontecer sem medicamentos, ótimo. Se acontecer com doses baixas de manutenção, também é um excelente resultado.

Se exigir tratamento contínuo, mas com controle da obesidade, prevenção do diabetes, redução do risco cardiovascular e melhora da qualidade de vida, continua sendo um sucesso.

A medicina não deve perseguir metas ideológicas. Ela deve buscar aquilo que oferece mais saúde ao paciente.

 

Resumo Final

✔ Os análogos das incretinas podem criar uma janela de oportunidade para mudanças profundas no estilo de vida.

✔ Em alguns pacientes, essas mudanças poderão permitir a redução gradual ou até a suspensão da medicação.

✔ Em outros, o tratamento prolongado continuará sendo a melhor opção.

✔ A decisão deve ser sempre individualizada, baseada na resposta clínica, nas comorbidades e na capacidade de manter hábitos saudáveis.

✔ O objetivo não é abandonar o medicamento a qualquer custo, mas alcançar o melhor estado possível de saúde e qualidade de vida.

 

Conclusão

Talvez a pergunta mais importante não seja “Vou precisar usar essa canetinha para sempre?”, mas sim “O que farei enquanto ela estiver me ajudando?”.

Se esse período for aproveitado para transformar a alimentação, fortalecer os músculos, melhorar o sono, controlar o estresse e construir uma rotina saudável, o medicamento terá cumprido um papel que vai muito além da perda de peso: terá servido como uma ponte para uma vida diferente.

Alguns pacientes conseguirão atravessar essa ponte e seguir em frente apenas com seus novos hábitos. Outros precisarão continuar contando com o apoio da farmacoterapia para manter os benefícios conquistados. Ambas as situações são legítimas. O que realmente importa é que o tratamento seja seguro, individualizado e baseado nas melhores evidências disponíveis.

No fim das contas, a maior vitória não é retirar a medicação. É devolver ao paciente a saúde, a autonomia e a confiança de que uma mudança duradoura é possível. Talvez esse seja o verdadeiro significado da medicina do estilo de vida: utilizar todos os recursos científicos disponíveis — inclusive os medicamentos, quando bem indicados — para que, um dia, o protagonista da história deixe de ser a canetinha e passe a ser o próprio paciente.

 

Referências

GARVEY, W. T. et al. American Association of Clinical Endocrinology Clinical Practice Guideline for Comprehensive Medical Care of Patients with Obesity. Endocrine Practice, v. 28, n. 5, p. 528–562, 2022.

LOOK AHEAD RESEARCH GROUP. Cardiovascular effects of intensive lifestyle intervention in type 2 diabetes. New England Journal of Medicine, Boston, v. 369, n. 2, p. 145–154, 2013.

RUBINO, D. et al. Definition and diagnostic criteria of clinical obesity. The Lancet Diabetes & Endocrinology, v. 13, 2025.

WILDING, J. P. H. et al. Weight regain and cardiometabolic effects after withdrawal of semaglutide: the STEP 1 trial extension. Diabetes, Obesity and Metabolism, Hoboken, v. 24, n. 8, p. 1553–1564, 2022.

WHARTON, S. et al. Obesity in adults: a clinical practice guideline. Canadian Medical Association Journal (CMAJ), Ottawa, v. 192, n. 31, p. E875–E891, 2020.

 

 

 

 

A Revolução das “Canetinhas” Emagrecedoras – Para Onde Caminha o Tratamento da Obesidade? – PARTE 4

 

O futuro já começou. 

 

Estamos apenas no começo da revolução

Se alguém tivesse me dito, há vinte anos, que um medicamento poderia proporcionar perdas médias de peso superiores a 20%, provavelmente eu teria considerado um otimismo exagerado.

Naquela época, perder entre 5% e 10% do peso corporal já era visto como um excelente resultado. Hoje discutimos medicamentos capazes de produzir reduções próximas de 25% em parte dos pacientes.

Isso não significa que a obesidade esteja “curada”. Significa que a medicina entrou em uma nova era. E tudo indica que ainda estamos apenas no início.

 

A próxima geração de medicamentos

Os primeiros medicamentos modernos atuavam principalmente sobre um único mecanismo cerebral relacionado ao apetite. Os agonistas do GLP-1 inauguraram uma nova estratégia: utilizar hormônios naturalmente produzidos pelo intestino.

A seguir vieram os agonistas duplos, como a tirzepatida, que combina os efeitos do GLP-1 e do GIP. Agora estamos entrando na era dos agonistas múltiplos. A principal representante dessa nova geração é a retatrutida, que estimula simultaneamente três receptores hormonais:

  • GLP-1;
  • GIP;
  • glucagon.

Nos estudos clínicos de fase 2, os resultados impressionaram a comunidade científica, com reduções médias de peso próximas de 24% após 48 semanas nas doses mais elevadas, ainda com tendência de continuação da perda de peso ao final do estudo (Jastreboff et al., 2023).

Grandes estudos de fase 3 estão em andamento para confirmar esses achados em um número muito maior de participantes.

 

Outras terapias promissoras

A retatrutida provavelmente não será a última grande inovação. Diversos medicamentos encontram-se em desenvolvimento. Entre eles destacam-se:

 

CagriSema

Combina a semaglutida com a cagrilintida, um análogo da amilina, hormônio que também participa da sensação de saciedade.

A hipótese é que a atuação simultânea em diferentes vias reguladoras do apetite possa aumentar ainda mais a eficácia.

 

Amicretina

Outra molécula extremamente promissora.

Ela combina atividade sobre o receptor de GLP-1 com ação relacionada à amilina, podendo ser administrada por via subcutânea e, futuramente, também por via oral, dependendo dos resultados finais dos estudos.

Embora os dados ainda sejam preliminares, os primeiros ensaios clínicos apontam reduções expressivas de peso.

 

Combinações personalizadas

Muito provavelmente o futuro não será representado por um único medicamento.

Assim como ocorre na hipertensão arterial e no diabetes, diferentes combinações poderão ser utilizadas conforme o perfil clínico de cada paciente. A medicina da obesidade caminha rapidamente em direção à personalização.

 

Cuidado com falsificações!

A febre global em torno das “canetinhas emagrecedoras” abriu espaço para um mercado clandestino extremamente perigoso: a falsificação e a venda ilícita de medicamentos injetáveis.

Movidos pela promessa de um emagrecimento rápido ou pela busca por preços mais baixos diante do desabastecimento nas farmácias, milhares de pacientes estão comprando frascos falsificados na internet e em redes sociais.

No caso de moléculas revolucionárias como a retatrutida — o triplo agonista que promete perdas de peso ainda mais impressionantes —, o alerta deve ser máximo. A retatrutida ainda não está disponível para venda em nenhum lugar do mundo.

Ela continua em fase final de estudos clínicos (fase 3), com previsão de submissão e avaliação pelas agências regulatórias — como a FDA nos Estados Unidos e a Anvisa no Brasil — a partir de 2026 ou 2027.

A estimativa mais realista e prudente da comunidade científica e de analistas de mercado é que a aprovação da FDA ocorra em 2027 (com um cenário extremamente otimista abrindo margem para o fim de 2026 nos EUA).

No Brasil, a submissão e o processo de análise pela Anvisa costumam acontecer em seguida, o que geralmente empurra a chegada nas farmácias brasileiras para final de 2027 ou 2028

Qualquer produto oferecido hoje (julho de 2026) sob esse nome na internet, em clínicas estéticas ou no mercado paralelo é falso, ilegal e altamente arriscado.

Alergias graves, infecções por bactérias, contaminação por metais pesados e até choque anafilático são apenas alguns dos riscos reais de injetar substâncias desconhecidas produzidas em laboratórios clandestinos.

Agências regulatórias internacionais e a própria Anvisa têm emitido alertas constantes para que a população jamais adquira esses medicamentos fora de farmácias credenciadas ou sem a devida prescrição e acompanhamento médico.

A busca por um atalho estético não pode custar a sua vida: medicamento de verdade exige rigor científico, aprovação oficial dos órgãos de saúde e responsabilidade médica do início ao fim do tratamento.

 

A cirurgia bariátrica deixará de existir?

Provavelmente não. A cirurgia bariátrica continua sendo uma das intervenções mais eficazes para obesidade grave, proporcionando perdas importantes de peso, melhora do diabetes tipo 2 e redução da mortalidade em pacientes cuidadosamente selecionados (ASMBS; IFSO, 2022).

Entretanto, um cenário bastante interessante começa a surgir. Se medicamentos forem capazes de produzir reduções de peso próximas às obtidas por algumas técnicas cirúrgicas, parte dos pacientes poderá alcançar seus objetivos sem necessidade de uma intervenção invasiva.

Isso poderá representar:

  • menor risco cirúrgico;
  • menor tempo de recuperação;
  • maior aceitação do tratamento;
  • possibilidade de intervenção mais precoce.

É importante destacar que ainda aguardamos os resultados de longo prazo dos novos agonistas múltiplos para confirmar se esses benefícios se manterão ao longo dos anos. Por enquanto, trata-se de uma perspectiva promissora, e não de uma substituição definitiva da cirurgia bariátrica.

 

Resumo Prático

A cirurgia bariátrica continuará tendo um papel importante.

Mas é possível que, no futuro, um número crescente de pacientes consiga resultados semelhantes apenas com tratamento clínico bem conduzido.

 

A obesidade continuará sendo uma doença crônica

Existe uma expectativa equivocada de que esses medicamentos representem uma “cura”. Provavelmente não. Tudo indica que a obesidade continuará sendo uma doença crônica. Isso significa que muitos pacientes poderão necessitar de tratamento prolongado, assim como acontece com:

  • hipertensão arterial;
  • diabetes;
  • asma;
  • hipotireoidismo.

Essa visão não deve ser encarada como fracasso. Pelo contrário. Ela representa uma mudança de paradigma. Ninguém considera um fracasso o uso contínuo de medicamentos para controlar a pressão arterial.

Da mesma forma, utilizar tratamento prolongado para controlar uma doença crônica como a obesidade pode ser uma estratégia perfeitamente racional.

 

O que ainda precisamos aprender?

Apesar do enorme entusiasmo, várias perguntas permanecem abertas.

Por exemplo:

  • Qual será a segurança após 15 ou 20 anos de tratamento?
  • Quem realmente precisará utilizar medicamentos por toda a vida?
  • Em quais pacientes será possível suspender a medicação sem recuperar peso?
  • Como preservar ainda melhor a massa muscular durante perdas importantes de peso?
  • Como tornar esses medicamentos acessíveis para sistemas públicos de saúde?
  • Como evitar o uso inadequado por pessoas sem indicação médica?

Essas perguntas estão sendo investigadas por centenas de pesquisadores em todo o mundo.

 

A verdadeira revolução talvez não esteja na caneta

Talvez o maior legado desses medicamentos não seja apenas fazer pessoas emagrecerem. Talvez seja outro. Eles ajudaram a destruir um antigo preconceito.

Durante décadas, muitos indivíduos com obesidade ouviram que bastava “ter força de vontade”. Hoje sabemos que isso não corresponde à realidade.

A fome é regulada por circuitos hormonais extremamente sofisticados. O cérebro responde intensamente a esses sinais. A genética influencia esse processo. O ambiente moderno favorece o excesso de ingestão calórica. A microbiota intestinal participa da regulação metabólica. Dormir pouco aumenta a fome. O estresse modifica hormônios relacionados ao apetite.

A obesidade deixou definitivamente de ser compreendida apenas como uma falha moral ou comportamental. Passou a ser reconhecida como uma doença biológica complexa, que merece tratamento baseado em evidências e livre de estigmas. Essa talvez seja a maior vitória de todas.

 

O que realmente faz diferença

Depois de quatro décadas acompanhando pessoas com obesidade, continuo acreditando em uma verdade simples. Os medicamentos mudaram profundamente o tratamento. Mas continuam sendo parte do tratamento. Os maiores resultados aparecem quando diferentes estratégias caminham juntas:

✔ alimentação equilibrada;

✔ atividade física regular — especialmente exercícios de força;

✔ sono adequado;

✔ controle do estresse;

✔ acompanhamento nutricional;

✔ apoio psicológico quando necessário;

✔ tratamento medicamentoso, quando indicado.

Não existe concorrência entre essas abordagens. Existe complementaridade. Quanto mais elas se integram, maiores costumam ser os benefícios.

 

Resumo Final

O que aprendemos ao longo deste artigo?

✔ A obesidade é uma doença crônica, complexa e multifatorial.

✔ Durante décadas, os medicamentos disponíveis proporcionavam resultados modestos.

✔ Os agonistas das incretinas transformaram a farmacoterapia da obesidade ao restaurar mecanismos fisiológicos de saciedade.

✔ Liraglutida, semaglutida, tirzepatida e, possivelmente, retatrutida representam marcos sucessivos dessa evolução.

✔ Essas medicações são altamente eficazes, mas exigem indicação correta, acompanhamento médico e integração com mudanças no estilo de vida.

✔ O emagrecimento de qualidade depende da preservação da massa muscular, da boa nutrição e da prática regular de exercícios resistidos.

✔ O entusiasmo é justificável, mas o uso indiscriminado, estético ou sem supervisão médica precisa ser desencorajado.

✔ A ciência ainda responderá muitas perguntas, mas já mudou definitivamente a forma como compreendemos e tratamos a obesidade.

 

 

Conclusão

Durante muitos anos, médicos e pacientes caminharam lado a lado em uma jornada frequentemente marcada pela frustração. Sabíamos que emagrecer era possível, mas manter o peso perdido era um desafio enorme. Não por falta de empenho, mas porque lutávamos contra mecanismos biológicos que ainda eram pouco compreendidos.

Os análogos das incretinas mudaram esse cenário. Pela primeira vez, dispomos de medicamentos capazes de atuar sobre os próprios circuitos fisiológicos da fome e da saciedade, permitindo perdas de peso antes consideradas inalcançáveis com tratamento clínico. Trata-se de um dos maiores avanços da endocrinologia e da medicina metabólica nas últimas décadas.

Entretanto, toda revolução traz consigo novos desafios. O entusiasmo não pode abrir espaço para o uso indiscriminado, para promessas irreais ou para a ilusão de que existe uma solução simples para um problema complexo. Nenhuma caneta substitui alimentação adequada, exercício físico, sono de qualidade, saúde emocional e acompanhamento profissional.

Talvez a maior contribuição dessas medicações seja outra: elas ajudaram a mostrar que a obesidade não é um defeito de caráter nem uma simples falta de disciplina. É uma doença crônica, multifatorial e biologicamente determinada em grande parte, que merece ser tratada com o mesmo respeito, seriedade e base científica dedicados às demais doenças crônicas.

A verdadeira revolução, portanto, não está apenas na tecnologia das novas canetas. Está na mudança de olhar. Saímos de uma época em que muitos pacientes eram culpabilizados por não conseguir emagrecer para uma era em que compreendemos melhor a biologia da obesidade e dispomos de ferramentas muito mais eficazes para ajudá-los. Se soubermos utilizar esses recursos com responsabilidade, bom senso e humanidade, talvez estejamos diante de um dos capítulos mais transformadores da história da medicina preventiva e metabólica.

 

Referências– Parte 4

AMERICAN SOCIETY FOR METABOLIC AND BARIATRIC SURGERY (ASMBS); INTERNATIONAL FEDERATION FOR THE SURGERY OF OBESITY AND METABOLIC DISORDERS (IFSO). 2022 ASMBS/IFSO Indications for Metabolic and Bariatric Surgery. Surgery for Obesity and Related Diseases, v. 18, n. 12, p. 1345–1356, 2022.

JASTREBOFF, A. M. et al. Triple-hormone receptor agonist retatrutide for obesity: a phase 2 trial. New England Journal of Medicine, Boston, v. 389, n. 6, p. 514–526, 2023.

KNOP, F. K.; MÜLLER, T. D. The future of obesity pharmacotherapy. Nature Reviews Endocrinology, London, v. 20, 2024.

MÜLLER, T. D. et al. Anti-obesity drug discovery: advances and challenges. Nature Reviews Drug Discovery, London, v. 21, p. 201–223, 2022.

RUBINO, D. et al. Definition and diagnostic criteria of clinical obesity. The Lancet Diabetes & Endocrinology, 2025.

A Revolução das “Canetinhas” Emagrecedoras – Entre a esperança e o exagero – PARTE 3

 

Como usar essa revolução com responsabilidade

 

Toda grande descoberta corre o risco de virar um modismo

A história da medicina mostra um fenômeno curioso. Sempre que surge um tratamento realmente inovador, duas reações costumam aparecer. A primeira é a resistência. A segunda é o entusiasmo excessivo.

Foi assim com os antibióticos. Com os antidepressivos. Com as estatinas. E agora estamos assistindo ao mesmo fenômeno com os análogos incretínicos.

Basta abrir as redes sociais para encontrar promessas como:

  • “Emagreça sem esforço.”
  • “A caneta faz todo o trabalho.”
  • “Adeus dieta.”
  • “Perca 20 kg em poucos meses.”

Infelizmente, essas mensagens simplificam um tratamento que é muito mais complexo. Os medicamentos representam uma extraordinária ferramenta terapêutica. Mas continuam sendo apenas uma ferramenta.

 

As canetas não substituem mudanças no estilo de vida

Talvez esta seja a principal mensagem deste artigo. Os medicamentos reduzem a fome. Facilitam o controle alimentar. Diminuem a compulsão. Aumentam a saciedade.

Mas eles não aprendem no lugar do paciente. Não escolhem os alimentos.Não compram frutas. Não fazem musculação. Não melhoram o sono. Não controlam o estresse. Não substituem uma alimentação adequada em proteínas, fibras, vitaminas e minerais.

Quando essas mudanças não acompanham o tratamento, parte dos benefícios tende a desaparecer ao longo do tempo.

As principais diretrizes internacionais são unânimes: a farmacoterapia deve ser integrada a um programa estruturado de mudanças no estilo de vida (Garvey et al., 2022; Wharton et al., 2020).

 

Resumo Prático

Medicamentos potencializam hábitos saudáveis. Eles não conseguem substituí-los.

 

Quem realmente deve utilizar esses medicamentos?

Os análogos incretínicos não foram desenvolvidos para qualquer pessoa que deseje perder alguns quilos antes das férias.

Em geral, são indicados para adultos com:

✔ IMC ≥30 kg/m² (obesidade);

ou

✔ IMC ≥27 kg/m² associado a doenças relacionadas ao excesso de peso, como:

  • diabetes tipo 2;
  • hipertensão arterial;
  • apneia obstrutiva do sono;
  • dislipidemia;
  • doença cardiovascular;
  • doença hepática gordurosa associada à disfunção metabólica (MASLD).

Esses critérios podem variar conforme o país, a agência regulatória e o medicamento específico.

 

Quem não deve utilizar?

Embora sejam medicamentos bastante seguros para a maioria dos pacientes, existem contraindicações importantes.

Entre elas:

  • gravidez;
  • amamentação;
  • história pessoal ou familiar de carcinoma medular da tireoide;
  • síndrome de neoplasia endócrina múltipla tipo 2 (MEN2);
  • hipersensibilidade ao medicamento.

Também exigem cautela em pacientes com determinadas doenças gastrointestinais graves ou pancreatite prévia, situação em que a decisão deve ser individualizada.

 

Os efeitos colaterais mais comuns

A boa notícia é que a maioria dos efeitos adversos não é grave. Os mais frequentes são:

  • náuseas;
  • sensação de estômago cheio;
  • refluxo;
  • vômitos;
  • constipação;
  • diarreia.

Eles costumam aparecer durante o aumento das doses e tendem a diminuir com o tempo. Por isso, a titulação gradual é tão importante.

 

Os riscos que quase ninguém comenta – a maior preocupação dos especialistas

Aqui existe um ponto extremamente importante. Quando o emagrecimento é muito rápido, o organismo perde não apenas gordura. Também pode perder:

  • massa muscular;
  • água corporal;
  • densidade mineral óssea, em menor grau, com risco de osteopenia e osteoporose;
  • reservas de micronutrientes.

Em outras palavras: nem todo quilograma perdido representa gordura. Essa é uma das maiores preocupações atuais dos especialistas.

 

Perder músculos não é um bom negócio

Imagine duas pessoas que emagreceram exatamente 20 kg.

A primeira perdeu:

  • 17 kg de gordura;
  • 3 kg de músculos.

A segunda perdeu:

  • 11 kg de gordura;
  • 9 kg de músculos.

Na balança, o resultado é igual. Na saúde, completamente diferente.

A preservação da massa muscular reduz risco de quedas, melhora o metabolismo, aumenta a autonomia funcional e favorece a manutenção do peso em longo prazo. Por isso, as diretrizes atuais recomendam fortemente:

  • ingestão adequada de proteínas (não aquém nem além das recomendações);
  • treinamento de força (musculação ou exercícios resistidos);
  • atividade física regular durante todo o tratamento.

 

Resumo Prático

O objetivo não é apenas emagrecer. É emagrecer perdendo principalmente gordura e preservando tanto a massa muscular como a saúde.

 

Quando emagrecer demais também pode fazer mal

Alguns pacientes praticamente deixam de sentir fome. À primeira vista isso parece excelente. Mas pode tornar-se um problema.

Quando a ingestão alimentar torna-se muito pequena, começam a aparecer sinais como:

  • queda de cabelo;
  • fraqueza;
  • fadiga;
  • unhas frágeis;
  • deficiência de ferro;
  • deficiência de vitamina B12;
  • deficiência de folato;
  • deficiência de proteínas;
  • perda excessiva de massa muscular.

Nessas situações, muitas vezes é necessário reduzir a dose do medicamento, revisar o plano alimentar ou intensificar o acompanhamento nutricional.

O objetivo nunca deve ser simplesmente “comer o mínimo possível”. O objetivo é nutrir o organismo adequadamente enquanto ocorre a perda de gordura.

 

Existe risco de câncer de tireoide?

Provavelmente esta seja a dúvida mais frequente dos pacientes. Nos estudos com roedores, alguns agonistas do GLP-1 aumentaram a incidência de carcinoma medular da tireoide.

Entretanto, até o momento, esse achado não foi confirmado em seres humanos nos grandes ensaios clínicos nem nos estudos observacionais disponíveis.

Mesmo assim, por precaução, esses medicamentos permanecem contraindicados para pessoas com história pessoal ou familiar de carcinoma medular da tireoide e para portadores de MEN2.

A ciência continua acompanhando cuidadosamente essa questão, mas atualmente não há evidência convincente de aumento desse tipo de câncer na população geral tratada com esses medicamentos (Pottegård et al., 2025; EMA, FDA).

 

E pancreatite? E pedra na vesícula?

Outra preocupação frequente envolve a pancreatite. Os grandes estudos não demonstraram aumento consistente do risco de pancreatite aguda, embora episódios possam ocorrer raramente e exijam suspensão imediata da medicação e investigação clínica.

Já a colelitíase (pedras na vesícula) merece atenção especial. Ela parece ocorrer com maior frequência durante perdas rápidas de peso — fenômeno que também é observado após dietas muito restritivas e cirurgia bariátrica. Assim, parte do risco está relacionada ao próprio emagrecimento acelerado e não necessariamente ao medicamento em si. Nos próximos tópicos aprofundamos este assunto.

 

Canetinhas emagrecedoras e cálculos na vesícula: quando vale a pena redobrar a atenção?

Um aspecto pouco conhecido pelos pacientes — e que merece atenção especial dos médicos — é a relação entre os análogos incretínicos (as “canetinhas”) e as doenças da vesícula biliar.

Hoje sabemos que medicamentos como liraglutida, semaglutida e tirzepatida aumentam discretamente o risco de eventos biliares, como colelitíase, colecistite e coledocolitíase (Sodhi et al., 2022; He et al., 2022).

Isso ocorre por dois mecanismos principais. O primeiro é o retardo do esvaziamento da vesícula biliar, provavelmente relacionado à redução da liberação de colecistocinina (CCK), favorecendo a estase biliar.

O segundo é a perda rápida de peso, que aumenta a saturação de colesterol na bile e facilita a formação de lama biliar e cálculos, fenômeno já conhecido também após dietas muito restritivas e cirurgia bariátrica.

Embora diferentes estudos tenham encontrado magnitudes distintas de risco para doenças da vesícula biliar durante o uso dos agonistas do GLP-1, essa aparente discrepância é esperada e não representa uma contradição.

Na meta-análise de He et al. (2022), por exemplo, observou-se um aumento relativo de aproximadamente 37% no risco de doenças biliares, enquanto outras análises e revisões apontam aumentos que podem se aproximar de 50% em determinados subgrupos, especialmente quando são utilizadas doses mais elevadas, por períodos prolongados e no tratamento da obesidade (Sodhi et al., 2022).

Essas diferenças decorrem de metodologias distintas, populações estudadas, definições dos desfechos e características dos pacientes avaliados.

Apesar dessas variações, todas as evidências convergem para a mesma conclusão prática: os agonistas das incretinas podem aumentar o risco de eventos biliares em indivíduos suscetíveis, razão pela qual uma avaliação individualizada é recomendada antes do início do tratamento, sobretudo em pacientes com colelitíase prévia, lama biliar ou história de cólicas biliares.

Nessas situações, a decisão terapêutica deve ponderar cuidadosamente os benefícios metabólicos esperados em relação ao risco potencial de complicações biliares.

 

 

Quando operar a vesícula (colecistectomia)?

Felizmente, o risco absoluto permanece relativamente baixo. Entretanto, a situação merece atenção especial em pacientes que já apresentam colelitíase, principalmente quando existem múltiplos microcálculos ou lama biliar, pois essas pequenas concreções têm maior probabilidade de migrar pelo ducto biliar, obstruir a ampola de Vater e desencadear uma pancreatite aguda de origem biliar.

Nesses casos, o problema deixa de ser um possível efeito direto do medicamento sobre o pâncreas e passa a ser uma complicação mecânica decorrente da doença biliar preexistente.

Por esse motivo, muitos especialistas defendem uma avaliação criteriosa da vesícula antes do início do tratamento, especialmente em pacientes com história de cólica biliar.

Quando a colelitíase é sintomática, a colecistectomia videolaparoscópica (cirurgia de retirada da vesícula) já possui indicação bem estabelecida pelas diretrizes internacionais, independentemente do uso de agonistas do GLP-1.

Nos pacientes assintomáticos, a decisão deve ser individualizada. Embora a presença de cálculos não seja considerada contraindicação absoluta ao tratamento, pacientes com múltiplos microcálculos, lama biliar ou episódios prévios de dor biliar podem justificar uma discussão mais cuidadosa entre clínico, endocrinologista e cirurgião sobre a conveniência de tratar primeiro a doença da vesícula antes de iniciar uma terapia destinada a promover perda rápida de peso.

Em situações nas quais a cirurgia não seja indicada ou o paciente opte por não realizá-la, alguns estudos sugerem que o ácido ursodesoxicólico (UDCA) pode reduzir a formação de cálculos durante períodos de emagrecimento acelerado.

Entretanto, seu uso preventivo ainda não faz parte da rotina das principais diretrizes para pacientes tratados com agonistas das incretinas e deve ser avaliado caso a caso.

 

Resumo Prático

✔ Os agonistas do GLP-1 e do GIP podem aumentar discretamente o risco de doenças da vesícula biliar, sobretudo durante perdas rápidas de peso.

✔ Pacientes com cálculos biliares prévios devem ser avaliados individualmente antes do início do tratamento.

✔ Colelitíase sintomática continua tendo indicação cirúrgica conforme as diretrizes, independentemente do uso desses medicamentos.

✔ Em pacientes com múltiplos microcálculos ou lama biliar, e/ou quando o paciente tem histórico de cólica biliar, a decisão sobre tratar primeiro a vesícula pode ser especialmente relevante para reduzir o risco de pancreatite biliar.

 

 

O que acontece quando o tratamento é interrompido?

Talvez esta seja a informação mais importante de todo o artigo. Muitas pessoas imaginam que esses medicamentos funcionem como um antibiótico: usa-se durante alguns meses, cura-se o problema, e pronto.

A obesidade não funciona assim. Ela é uma doença crônica.

Os estudos STEP mostraram que, após a interrupção da semaglutida, muitos participantes recuperaram parte importante do peso perdido ao longo do ano seguinte (Wilding et al., 2022).

Isso não significa que o medicamento “vicia”. Significa apenas que, quando o tratamento deixa de atuar sobre os mecanismos biológicos da fome, o organismo tende novamente a defender seu peso anterior.

Essa observação reforça um conceito cada vez mais aceito: para muitos pacientes, o tratamento da obesidade poderá ser de longa duração, assim como ocorre com hipertensão arterial ou diabetes.

 

Vou precisar mesmo usar as canetinhas para sempre?

As “canetinhas” para emagrecer podem funcionar como uma excelente rampa de lançamento para novos hábitos!

Especialistas sugerem usar a medicação por períodos de 6 a 18 meses em conjunto com um programa de Intervenção Intensiva no Estilo de Vida (ILI).

A ideia é aproveitar aquela fase em que o apetite está menor e a motivação está alta para transformar a rotina de verdade. Quando o novo estilo de vida já virou um hábito natural, começa-se a reduzir a dose do remédio aos poucos, mantendo um acompanhamento de perto para ver como o corpo reage.

Na Lapinha, fazemos exatamente isso: combinamos o programa de estilo de vida com uma retirada gradual e segura do medicamento ao longo de 6 a 18 meses. Cada organismo responde de um jeito, e embora essa abordagem integrada ainda esteja sendo acompanhada a longo prazo, os primeiros passos acenam com a promessa de um emagrecimento definitivo focado nas Mudanças de Estilo de Vida (MEVs).

 

O médico continua sendo insubstituível

As “canetinhas” representam um enorme avanço.Mas não eliminam a necessidade do acompanhamento médico.É o médico quem avalia:

  • se existe indicação;
  • qual medicamento é mais adequado;
  • qual dose utilizar;
  • como minimizar efeitos adversos;
  • quando interromper;
  • como preservar massa muscular;
  • quais exames acompanhar.

Além disso, um bom tratamento frequentemente envolve nutricionista, educador físico e, em muitos casos, psicólogo. Obesidade é uma doença multifatorial. E seu tratamento precisa ser multidisciplinar.

 

Resumo da Parte III

✔ Os análogos incretínicos são ferramentas extraordinárias, mas não substituem mudanças permanentes no estilo de vida.

✔ O maior objetivo não é apenas perder peso, e sim perder gordura preservando músculos, ossos e qualidade de vida.

✔ O acompanhamento médico é indispensável para indicar corretamente o tratamento, monitorar efeitos adversos e prevenir deficiências nutricionais.

✔ Em muitos pacientes, a obesidade exigirá tratamento prolongado, assim como outras doenças crônicas.

 

Na Parte IV, encerraremos esta jornada discutindo o futuro da farmacoterapia da obesidade: retatrutida, amicretina, cagrisema e outros agonistas múltiplos; como essas terapias podem reduzir a necessidade de cirurgia bariátrica em parte dos pacientes; o impacto econômico e social dessa revolução; e, sobretudo, por que o verdadeiro sucesso continuará dependendo da combinação entre ciência, estilo de vida e acompanhamento médico responsável.

 

Referências – Parte 3

EUROPEAN ASSOCIATION FOR THE STUDY OF THE LIVER (EASL). EASL Clinical Practice Guidelines on the prevention, diagnosis and treatment of gallstones. Journal of Hepatology, Amsterdam, v. 65, n. 1, p. 146–181, 2016.

GARVEY, W. T. et al. American Association of Clinical Endocrinology Clinical Practice Guideline for Comprehensive Medical Care of Patients with Obesity. Endocrine Practice, v. 28, n. 5, p. 528–562, 2022.

HE, L. et al. Association of glucagon-like peptide-1 receptor agonist use with risk of gallbladder and biliary diseases: systematic review and meta-analysis of randomized clinical trials. JAMA Internal Medicine, Chicago, v. 182, n. 5, p. 513–519, 2022.

POTTEGÅRD, A. et al. Risk of thyroid cancer among users of GLP-1 receptor agonists: a multinational cohort study. Thyroid, 2025.

SHAUKAT, A. et al. ACG Clinical Guideline: Diagnosis and Management of Biliary Diseases. American Journal of Gastroenterology. (Consultar a versão mais recente disponível da diretriz, pois há atualizações periódicas.)

SUGERMAN, H. J. et al. A multicenter, placebo-controlled, randomized, double-blind prospective trial of prophylactic ursodiol for the prevention of gallstone formation following gastric-bypass-induced rapid weight loss. American Journal of Surgery, New York, v. 169, n. 1, p. 91–96, 1995

WHARTON, S. et al. Obesity in adults: a clinical practice guideline. CMAJ, Ottawa, v. 192, n. 31, p. E875–E891, 2020.

WILDING, J. P. H. et al. Weight regain and cardiometabolic effects after withdrawal of semaglutide: the STEP 1 trial extension. Diabetes, Obesity and Metabolism, Hoboken, v. 24, n. 8, p. 1553–1564, 2022.

A Revolução das “Canetinhas” Emagrecedoras – Quando o intestino começou a ensinar o cérebro a comer menos – PARTE 2

 

 Durante décadas, acreditou-se que a fome era controlada principalmente pelo estômago. Hoje sabemos que essa visão era apenas parte da história.

Na realidade, o intestino funciona como um sofisticado órgão endócrino, capaz de produzir diversos hormônios que informam ao cérebro quando devemos comer, quando já estamos satisfeitos e como nosso organismo deve utilizar os nutrientes.

Entre esses hormônios, dois ganharam enorme importância:

  • GLP-1 (Peptídeo semelhante ao glucagon tipo 1);
  • GIP (Polipeptídeo insulinotrópico dependente da glicose).

Essas substâncias são chamadas incretinas.

Em pessoas saudáveis, elas são liberadas naturalmente logo após as refeições.

Sua função é preparar o organismo para receber os alimentos.

 

O que fazem as incretinas?

Embora atuem em vários órgãos, seus principais efeitos podem ser resumidos em cinco ações:

✔ Estimulam a liberação de insulina. Mas apenas quando a glicemia está elevada, reduzindo o risco de hipoglicemia.

✔ Reduzem a produção de glucagon. O glucagon é um hormônio que aumenta a glicemia. Ao diminuir sua liberação, ajudam no controle do diabetes.

✔ Retardam o esvaziamento do estômago. Os alimentos permanecem mais tempo no estômago. A saciedade dura mais. A fome demora mais para voltar.

✔ Atuam diretamente no cérebro. Esse talvez seja o efeito mais importante. As incretinas alcançam centros cerebrais envolvidos no controle do apetite, reduzindo a sensação de fome e diminuindo o interesse por alimentos altamente calóricos (Müller et al., 2019).

Muitos pacientes descrevem algo curioso: “Pela primeira vez, consigo passar perto de uma padaria sem sentir vontade de entrar.” Ou: “A comida deixou de ocupar meus pensamentos o tempo todo.”

Esse fenômeno tem sido chamado popularmente de “silêncio alimentar” (food noise reduction), expressão que não corresponde a um diagnóstico médico, mas descreve uma experiência relatada por muitos pacientes em uso desses medicamentos.

✔ Favorecem perda de peso. Como consequência da menor fome e maior saciedade, ocorre redução espontânea da ingestão calórica.

É importante destacar: esses medicamentos não queimam gordura diretamente. Eles facilitam que a pessoa coma menos. A perda de peso decorre principalmente desse balanço energético negativo.

 

 

Resumo Prático

As incretinas não “derretem gordura”. Elas ajudam o cérebro e o organismo a recuperar mecanismos naturais de saciedade que, em muitas pessoas com obesidade, encontram-se alterados. Não substituem as medidas do estilo de vida.

Atenção: As incretinas não tomam o lugar da alimentação saudável nem da atividade física estruturada. Mas dão um tempo, uma oportunidade, para o paciente incorporar bons hábitos com mais facilidade. É uma janela de oportunidade. Não uma substituição do estilo de vida saudável por recursos farmacológicos.

 

Liraglutida (nomes comerciais mais conhecidos Saxenda e Victoza): a pioneira das canetas para obesidade

Em 2014 surgiu um marco histórico. A liraglutida 3,0 mg tornou-se o primeiro agonista do GLP-1 aprovado especificamente para tratamento da obesidade.

Aplicada por via subcutânea uma vez ao dia, demonstrou perdas médias de aproximadamente 8% do peso corporal, associadas à melhora da glicemia, da pressão arterial e de diversos fatores de risco cardiovascular (Pi-Sunyer et al., 2015).

Foi um enorme avanço. Pela primeira vez muitos pacientes conseguiam permanecer mais tempo saciados. Mesmo assim, ainda havia espaço para resultados melhores.

 

Como é utilizada?

A dose é aumentada gradualmente para reduzir náuseas:

  • 0,6 mg/dia
  • 1,2 mg/dia
  • 1,8 mg/dia
  • 2,4 mg/dia
  • 3,0 mg/dia (dose-alvo)

 

Principais efeitos colaterais

  • náuseas;
  • sensação de empachamento;
  • vômitos;
  • constipação;
  • diarreia.

Na maioria das vezes são leves e transitórios.

 

Semaglutida (nomes comerciais mais conhecidos Ozempic e Wegovy): quando a obesidade entrou em uma nova era

Em 2021, a publicação do estudo STEP 1, no New England Journal of Medicine, mudou completamente o cenário.

A semaglutida 2,4 mg, aplicada apenas uma vez por semana, produziu uma perda média de aproximadamente 15% do peso corporal, resultado nunca antes observado com um medicamento aprovado para obesidade (Wilding et al., 2021).

Esse número chamou atenção porque começava a se aproximar dos resultados obtidos com algumas técnicas cirúrgicas.

Outro aspecto importante foi a melhora de diversos parâmetros metabólicos:

  • diabetes;
  • hipertensão;
  • esteatose hepática;
  • qualidade de vida;
  • risco cardiovascular.

Mais recentemente, o estudo SELECT demonstrou que a semaglutida reduziu eventos cardiovasculares maiores em pessoas com obesidade e doença cardiovascular estabelecida, mesmo na ausência de diabetes (Lincoff et al., 2023).

Esse resultado marcou uma mudança de paradigma: o medicamento deixou de ser visto apenas como um agente para perda de peso e passou a demonstrar benefícios cardiovasculares independentes.

 

Como é utilizada?

A titulação habitual é semanal:

  • 0,25 mg
  • 0,5 mg
  • 1,0 mg
  • 1,7 mg
  • 2,4 mg

Cada etapa costuma durar quatro semanas, podendo ser ajustada conforme a tolerabilidade.

Tirzepatida (nomes comerciais Mounjaro e Zepbound): a primeira dupla incretina

Quando parecia difícil superar a semaglutida, surgiu uma nova estratégia. Em vez de estimular apenas o GLP-1, pesquisadores passaram a ativar simultaneamente:

  • GLP-1
  • GIP

Nascia a tirzepatida. O estudo SURMOUNT-1 mostrou perdas médias superiores a 20% do peso corporal, com alguns participantes ultrapassando 25% (Jastreboff et al., 2022).

Pela primeira vez, muitos endocrinologistas passaram a discutir algo impensável poucos anos antes:

seria possível alcançar resultados próximos aos da cirurgia bariátrica utilizando apenas tratamento medicamentoso em uma parcela dos pacientes?

Ainda não existe resposta definitiva.

Mas os resultados são extraordinários.

 

Como é utilizada?

Aplicação semanal.

Escalonamento habitual:

  • 2,5 mg
  • 5 mg
  • 7,5 mg
  • 10 mg
  • 12,5 mg
  • 15 mg

O aumento gradual reduz significativamente os efeitos gastrointestinais.

 

Resumo Prático

Medicamento Hormônio Frequência Perda média de peso*
Liraglutida GLP-1 Diária ~8%
Semaglutida GLP-1 Semanal ~15%
Tirzepatida GLP-1 + GIP Semanal ~21%

* Valores médios observados em grandes ensaios clínicos, associados a mudanças no estilo de vida. A resposta individual pode variar.

 

Retatrutida: a próxima fronteira

Se a tirzepatida surpreendeu por estimular dois hormônios, a retatrutida deu mais um passo. Ela atua simultaneamente sobre três receptores:

  • GLP-1;
  • GIP;
  • glucagon.

À primeira vista, estimular o receptor do glucagon parece contraditório, pois esse hormônio aumenta a glicemia.

Entretanto, ele também aumenta o gasto energético e favorece a utilização de gordura corporal. O desafio dos pesquisadores foi equilibrar esses efeitos, potencializando os benefícios metabólicos sem provocar descontrole glicêmico.

Os resultados dos estudos iniciais impressionaram. No ensaio de fase 2 publicado no New England Journal of Medicine, participantes tratados com as doses mais altas atingiram perdas médias de peso próximas de 24% em 48 semanas, com tendência de continuação da perda ao final do acompanhamento (Jastreboff et al., 2023).

Atualmente, (julho de 2026) a retatrutida está sendo avaliada em grandes estudos de fase 3 para confirmar sua eficácia e segurança. Caso esses resultados sejam confirmados e as agências regulatórias aprovem seu uso, poderemos assistir a uma nova mudança de paradigma.

Em alguns pacientes, medicamentos poderão atingir reduções de peso próximas às obtidas com determinadas técnicas de cirurgia bariátrica. Isso não significa que a cirurgia deixará de existir.

Mas talvez ela passe a ser indicada para um grupo menor de pessoas, especialmente aquelas com obesidade mais grave ou que não respondam adequadamente ao tratamento clínico.

 

Mas toda revolução exige prudência…

Os resultados são realmente impressionantes. Entretanto, existe um risco.

Quando uma tecnologia produz grande entusiasmo, frequentemente surgem exageros. E foi exatamente isso que começou a acontecer com as “canetinhas”.

Elas passaram a ser utilizadas por pessoas sem indicação médica, por razões puramente estéticas, em doses inadequadas, sem acompanhamento nutricional e, muitas vezes, sem qualquer preocupação com perda de massa muscular ou qualidade da alimentação.

É justamente sobre esses riscos — e sobre como utilizar esses medicamentos de forma responsável — que falaremos na Parte III.

 

Referências – Parte 2

JASTREBOFF, A. M. et al. Tirzepatide once weekly for the treatment of obesity. New England Journal of Medicine, Boston, v. 387, p. 205–216, 2022.

JASTREBOFF, A. M. et al. Triple-hormone receptor agonist retatrutide for obesity: a phase 2 trial. New England Journal of Medicine, Boston, v. 389, n. 6, p. 514–526, 2023.

LINCOFF, A. M. et al. Semaglutide and cardiovascular outcomes in obesity without diabetes. New England Journal of Medicine, Boston, v. 389, p. 2221–2232, 2023.

MÜLLER, T. D. et al. Anti-obesity drug discovery: advances and challenges. Nature Reviews Drug Discovery, London, v. 21, p. 201–223, 2022.

PI-SUNYER, X. et al. A randomized, controlled trial of 3.0 mg of liraglutide in weight management. New England Journal of Medicine, Boston, v. 373, p. 11–22, 2015.

WILDING, J. P. H. et al. Once-weekly semaglutide in adults with overweight or obesity. New England Journal of Medicine, Boston, v. 384, p. 989–1002, 2021.

A Revolução das “Canetinhas” Emagrecedoras – Quatro décadas de uma longa espera – PARTE 1

 

Da frustração ao entusiasmo: como os novos medicamentos transformaram o tratamento da obesidade — e por que ainda precisamos de equilíbrio

 

 Disclaimer

Este artigo tem finalidade exclusivamente educativa e não substitui consulta médica. Medicamentos para tratamento da obesidade devem ser prescritos apenas após avaliação individualizada, considerando benefícios, riscos, contraindicações e acompanhamento contínuo. Nenhum medicamento substitui uma alimentação saudável, atividade física regular e outras mudanças no estilo de vida.

 

Confesso: durante muitos anos tratar a obesidade era frustrante

Há mais de quarenta anos acompanho pessoas que desejam emagrecer. Ao longo desse período, vi milhares de histórias. Algumas extremamente bem-sucedidas.

Muitas, infelizmente, repetiam o mesmo roteiro. O paciente conseguia perder alguns quilos. Sentia-se motivado. Depois surgiam as dificuldades da rotina. A fome aumentava. O organismo reagia. O peso voltava. Frequentemente maior do que antes.

Era o conhecido efeito sanfona. Como médico, poucas situações produziam tanta frustração.

Sabíamos orientar alimentação. Incentivávamos atividade física. Tratávamos ansiedade quando necessário. Prescrevíamos os medicamentos disponíveis. Mesmo assim, grande parte dos pacientes não conseguia manter resultados duradouros.

Hoje compreendemos que isso não acontecia por falta de força de vontade. A ciência mudou profundamente nossa compreensão da obesidade.

 

A maior mudança foi compreender que obesidade é uma doença

Durante muitos anos a obesidade foi interpretada quase exclusivamente como consequência de escolhas individuais.

Quem engordava era frequentemente visto como alguém sem disciplina. Esse pensamento mostrou-se profundamente simplista.

Hoje sabemos que a obesidade é uma doença crônica, complexa e multifatorial, influenciada por genética, ambiente, hormônios, microbiota intestinal, sono, estresse, saúde mental, disponibilidade de alimentos ultraprocessados e inúmeros outros fatores (Rubino et al., 2025).

O cérebro possui sistemas extremamente sofisticados para defender as reservas de energia.

Quando uma pessoa emagrece, o organismo frequentemente responde aumentando a fome, reduzindo o gasto energético e estimulando mecanismos biológicos que favorecem a recuperação do peso.

Em outras palavras: o corpo humano foi programado para evitar perder peso, não para evitar ganhar peso. Essa descoberta mudou completamente a forma como encaramos o tratamento.

 

Resumo Prático

Obesidade não é simplesmente falta de força de vontade. É uma doença crônica na qual fatores biológicos, psicológicos, sociais e ambientais interagem continuamente.

 

Uma breve história dos medicamentos para emagrecer

A busca por medicamentos capazes de reduzir o peso corporal acompanha a medicina há muitas décadas. Alguns trouxeram benefícios importantes. Outros acabaram abandonados por falta de eficácia ou por problemas de segurança.

Conhecer essa história ajuda a entender por que as chamadas “canetinhas” representam um momento tão especial.

 

Os primeiros anorexígenos: muito entusiasmo, muitos problemas

Na década de 1940 começaram a surgir os derivados anfetamínicos. Eles reduziam o apetite estimulando diretamente o sistema nervoso central. Inicialmente pareciam revolucionários.

Entretanto, logo ficaram evidentes diversos problemas:

  • aumento da pressão arterial;
  • insônia;
  • ansiedade;
  • taquicardia;
  • risco de dependência;
  • abuso recreativo.

Muitos desses medicamentos foram posteriormente retirados do mercado ou tiveram seu uso severamente restringido. Eles ensinaram uma importante lição: reduzir o apetite não basta; o tratamento também precisa ser seguro.

 

Sibutramina: um avanço importante, mas limitado

No final da década de 1990 surgiu a sibutramina. Seu mecanismo de ação era diferente. Ela aumentava a disponibilidade cerebral de serotonina e noradrenalina, promovendo maior sensação de saciedade. Durante muitos anos representou um dos principais tratamentos farmacológicos da obesidade.

Ainda hoje permanece disponível em diversos países, inclusive no Brasil, com critérios rigorosos de prescrição.

Embora muitos pacientes apresentassem boa resposta, a perda média de peso costumava situar-se entre 5% e 10% do peso corporal, além de haver preocupações quanto ao uso em pacientes com doença cardiovascular estabelecida, especialmente após a publicação do estudo SCOUT (James et al., 2010). Para muitos indivíduos, ainda era pouco.

 

Orlistate: uma estratégia completamente diferente

Enquanto os medicamentos anteriores atuavam principalmente sobre o cérebro, o orlistate passou a agir no intestino.

Seu mecanismo consiste em bloquear parte da ação das lipases pancreáticas, reduzindo a absorção de aproximadamente 30% da gordura ingerida. A estratégia mostrou-se segura do ponto de vista cardiovascular.

Entretanto, os efeitos colaterais gastrointestinais — como evacuações oleosas, urgência evacuatória e flatulência com eliminação de gordura — limitaram bastante sua aceitação. Mesmo assim, permanece uma alternativa útil em situações específicas.

 

Novas combinações: tentando aumentar a eficácia

Nas décadas seguintes surgiram associações medicamentosas buscando atuar simultaneamente sobre diferentes mecanismos cerebrais envolvidos no apetite.

Entre elas destacam-se:

  • Fentermina + Topiramato, aprovada em diversos países e capaz de produzir perdas de peso superiores às observadas com muitos medicamentos anteriores.
  • Naltrexona + Bupropiona, combinação que atua sobre centros cerebrais relacionados tanto à fome quanto ao comportamento alimentar, sendo particularmente útil para alguns pacientes com episódios de compulsão alimentar.

 

Lorcaserina – acabou sendo retirada do mercado

Outro medicamento que despertou grande interesse foi a lorcaserina, agonista seletivo dos receptores serotoninérgicos 5-HT2C.

Inicialmente considerada bastante promissora, acabou sendo retirada do mercado norte-americano em 2020 após análises sugerirem um possível aumento da incidência de alguns tipos de câncer em estudos de acompanhamento prolongado.

Até hoje, essa decisão continua sendo discutida na literatura científica, mas ilustra um princípio fundamental da farmacoterapia: a segurança em longo prazo é tão importante quanto a eficácia (FDA, 2020).

 

Apesar dos avanços, ainda faltava alguma coisa…

Todos esses medicamentos ajudaram milhares de pessoas. Mas havia um problema. Na maioria dos casos, a perda de peso permanecia modesta. Muitos pacientes continuavam frustrados. Era comum observar reduções de 5%, 8% ou 10% do peso corporal.

Esses resultados já produziam benefícios metabólicos importantes. Mas ainda estavam muito distantes das perdas frequentemente observadas após uma cirurgia bariátrica.

Foi então que a endocrinologia encontrou um caminho completamente diferente. Em vez de apenas reduzir artificialmente o apetite, pesquisadores passaram a estudar um sofisticado sistema hormonal que o próprio organismo utiliza diariamente para controlar fome, saciedade e metabolismo.

Esses hormônios receberam o nome de incretinas. Poucos imaginavam que eles iniciariam uma das maiores revoluções da história do tratamento da obesidade.

 

Resumo da Parte I

✔ Durante décadas, os médicos conviveram com resultados modestos no tratamento farmacológico da obesidade.

✔ A maior mudança científica foi reconhecer que a obesidade é uma doença crônica e multifatorial, e não uma simples falta de disciplina.

✔ Diversos medicamentos contribuíram para a evolução do tratamento, mas apresentavam eficácia limitada ou problemas de segurança.

✔ A verdadeira transformação começou quando a pesquisa voltou sua atenção para hormônios naturalmente produzidos pelo intestino: as incretinas.

✔ Sempre vale lembrar e enfatizar que os medicamente jamais substituem as mudanças comportamentais, um estilo de vida saudável.

Na Parte II, conheceremos os hormônios GLP-1 e GIP, entenderemos como nasceram as “canetinhas emagrecedoras” e veremos por que medicamentos como liraglutida, semaglutida, tirzepatida e, futuramente, retatrutida estão mudando a história do tratamento da obesidade.

 

Referências – Parte 1

FOOD AND DRUG ADMINISTRATION (FDA). FDA requests the withdrawal of the weight-loss drug Belviq (lorcaserin) from the market. Silver Spring: FDA, 2020.

JAMES, W. P. T. et al. Effect of sibutramine on cardiovascular outcomes in overweight and obese subjects. New England Journal of Medicine, Boston, v. 363, n. 10, p. 905–917, 2010.

RUBINO, D. et al. (em nome das principais sociedades internacionais de obesidade). Definition and diagnostic criteria of clinical obesity. The Lancet Diabetes & Endocrinology, 2025.

YANOVSKI, S. Z.; YANOVSKI, J. A. Long-term drug treatment for obesity: a systematic and clinical review. JAMA, Chicago, v. 311, n. 1, p. 74–86, 2014.

WEINTRAUB, M. Long-term weight control study: conclusions. Clinical Pharmacology & Therapeutics, v. 51, n. 5, p. 642–646, 1992.

Autocontrole Alimentar: o verdadeiro desafio, mais que perder peso, é ver a comida com outros olhos

 

Por que alguns conseguem emagrecer e manter o peso enquanto outros vivem no efeito sanfona?

 

A maior batalha não acontece na balança

Vivemos em uma época curiosa. Nunca houve tanta informação sobre alimentação saudável. Nunca tivemos tantos aplicativos, livros, vídeos, dietas e medicamentos para emagrecer.

Mesmo assim, a obesidade continua aumentando em praticamente todo o mundo (World Obesity Federation, 2024). Isso mostra uma realidade intrigante:

O problema raramente é falta de informação.

A maioria das pessoas sabe que frutas costumam ser melhores que refrigerantes. Sabe que excesso de açúcar faz mal. Sabe que alimentos ultraprocessados devem ser evitados.

O verdadeiro desafio está em outro lugar.

O desafio é manter boas escolhas quando a rotina aperta, quando o estresse aumenta ou quando a comida deixa de ser apenas alimento e passa a representar conforto, prazer ou recompensa.

 

A comida alimenta muito mais do que o corpo

Comemos por fome. Mas também comemos por ansiedade:

Por comemoração.

Por tristeza.

Por hábito.

Por educação.

Por nostalgia.

Por companhia.

Por tédio.

A alimentação possui um enorme significado simbólico.

Desde a infância, aprendemos que comida pode representar carinho (“a sobremesa da avó”), recompensa (“você merece”), celebração (“vamos sair para comer”), acolhimento (“coma para se sentir melhor”) ou até compensação após um dia difícil.

Por isso, emagrecer não depende apenas de conhecer calorias. Depende de compreender qual papel a comida exerce na própria vida.

 

Os três tipos de fome

Uma forma prática de entender esse processo é diferenciar três mecanismos que frequentemente se misturam.

 

  1. Fome homeostática

É a fome verdadeira. O organismo necessita de energia e envia sinais para que você procure alimento. Ela diminui naturalmente após uma refeição equilibrada. É um mecanismo fisiológico essencial para a sobrevivência.

 

  1. Fome emocional

Aqui o organismo não precisa necessariamente de energia.

Quem precisa é a mente:

Ansiedade.

Solidão.

Frustração.

Raiva.

Estresse.

Cansaço.

A comida passa a funcionar como reguladora das emoções. Ela oferece alívio temporário. O problema é que o desconforto emocional permanece, enquanto as calorias ficam.

 

  1. Fome hedônica

Talvez seja a mais poderosa na sociedade moderna. Ela nasce do prazer.

Você acabou de almoçar. Está satisfeito. Mas alguém oferece um pedaço de bolo.

Ou aparece um anúncio irresistível. Ou passa diante de uma vitrine. O cérebro ativa seus circuitos de recompensa. Você come porque deseja. Não porque necessita.

Estudos em neurociência mostram que alimentos ultraprocessados, ricos em açúcar, gordura e sal, ativam intensamente sistemas cerebrais relacionados à recompensa, tornando o autocontrole mais difícil, principalmente em ambientes onde esses alimentos estão disponíveis o tempo todo (Berthoud, 2011; Lowe; Butryn, 2007).

 

Recomendação Prática

Antes de comer, faça uma pergunta simples:

Estou com fome do corpo ou fome da mente?

Essa pequena pausa muda muitas decisões.

 

Os novos medicamentos ajudam. Mas não fazem milagres.

Medicamentos como semaglutida, tirzepatida e outros análogos incretínicos representam um dos maiores avanços da medicina no tratamento da obesidade.

Eles reduzem o apetite, aumentam a saciedade e ajudam muitas pessoas a perder peso de forma consistente (Rubino et al., 2023).

Entretanto, existe um equívoco crescente. Algumas pessoas acreditam que o medicamento fará todo o trabalho. Não fará. Ele reduz o volume da batalha. Mas não luta sozinho.

Se antigos hábitos permanecerem intactos, se o ambiente continuar favorecendo escolhas inadequadas e se a pessoa não desenvolver novas estratégias para lidar com emoções, rotina e situações sociais, parte dos benefícios tende a desaparecer, especialmente após a interrupção do tratamento.

O medicamento pode diminuir a fome. Mas ele não reorganiza automaticamente a relação da pessoa com a comida.

 

Faça um pacto consigo mesmo

Dietas normalmente possuem data para terminar. Mudanças de identidade não.

Em vez de fazer promessas exageradas, experimente construir um compromisso diferente. Não um contrato com a balança. Mas consigo mesmo. Algo como:

“Independentemente do tempo necessário, decido cuidar melhor da minha saúde. Haverá dias bons e dias difíceis. Mas não abandonarei esse compromisso.”

Essa mudança parece sutil. Mas transforma o foco. Você deixa de perseguir apenas um número. Passa a construir uma nova forma de viver.

 

Tenha sempre dois planos

Grande parte das pessoas consegue alimentar-se bem quando tudo está sob controle. O problema começa quando a rotina muda:

Viagens.

Casamentos.

Aniversários.

Férias.

Restaurantes.

Reuniões.

Congestionamentos.

Plantões.

É justamente aí que muitos abandonam completamente seus objetivos. Uma estratégia simples consiste em criar dois planos.

 

Plano A

Sua rotina habitual. Como você pretende comer na maior parte dos dias.

Esse plano representa cerca de 80 a 90% da sua vida.

 

Plano B

Os dias inevitavelmente diferentes.

Nele, o objetivo não é perfeição.

É minimizar danos.

Você pode decidir antecipadamente:

  • evitar repetir sobremesas;
  • escolher apenas um alimento mais calórico;
  • comer devagar;
  • priorizar proteínas e vegetais;
  • compensar o excesso voltando imediatamente à rotina no dia seguinte.

Quem não possui um Plano B costuma transformar um jantar especial em um fim de semana inteiro de exageros.

 

Resumo Prático

Não é o aniversário que faz engordar.

É quando o aniversário vira sexta-feira.

Que vira sábado.

Que vira domingo.

Que vira “segunda-feira eu começo”.

 

Autocontrole não significa rigidez

Existe outro mito importante. Autocontrole não é viver em sofrimento permanente. Também não significa nunca comer uma sobremesa. Pessoas que conseguem manter o peso por muitos anos geralmente apresentam outra característica. Elas são consistentes. Não perfeitas. Erram. Exageram ocasionalmente. Mas voltam rapidamente ao plano original. Sem culpa. Sem desistir.

 

Conclusão

O maior desafio do emagrecimento não está na falta de conhecimento nem na ausência de medicamentos eficazes. Está na construção de uma nova relação com a comida e consigo mesmo. Alimentar-se é um ato biológico, mas também emocional, social e cultural. Por isso, estratégias duradouras precisam ir além das calorias e considerar os diferentes tipos de fome, os gatilhos do ambiente e a maneira como cada pessoa lida com suas emoções.

Os análogos incretínicos representam um avanço extraordinário e podem ser decisivos para muitas pessoas. Contudo, seu maior potencial aparece quando são acompanhados por mudanças consistentes no estilo de vida. Emagrecer é importante. Mais importante ainda é desenvolver habilidades que permitam manter os resultados ao longo dos anos.

No fim das contas, o sucesso não depende de uma dieta perfeita nem de força de vontade infinita. Depende de pequenas escolhas repetidas todos os dias. E talvez o compromisso mais poderoso não seja aquele firmado com a balança, mas o pacto silencioso de cuidar da própria saúde, mesmo quando a rotina sair do roteiro.

 

Disclaimer

Este artigo tem finalidade educativa e não substitui acompanhamento médico ou nutricional. O tratamento da obesidade deve ser individualizado e pode incluir mudanças no estilo de vida, apoio psicológico, medicamentos e, em alguns casos, cirurgia bariátrica.

 

Resumo Final

✔ Antes de comer, pergunte-se: é fome física, emocional ou apenas vontade de sentir prazer?

✔ Medicamentos ajudam, mas não substituem hábitos. Os análogos de GLP-1 e GIP reduzem a fome e aumentam a saciedade, mas não mudam, sozinhos, a relação com a comida.

✔ Faça um pacto consigo mesmo. Não busque perfeição; busque constância.

✔ Tenha sempre um Plano A e um Plano B. O sucesso depende menos dos dias ideais e mais de como você reage quando eles deixam de ser ideais.

✔ Lembre-se: autocontrole não é restrição permanente. É a capacidade de fazer escolhas conscientes, repetidas ao longo do tempo.

 

Referências

BERTHOUD, H. R. Metabolic and hedonic drives in the neural control of appetite: who is the boss? Current Opinion in Neurobiology, v. 21, n. 6, p. 888–896, 2011.

LOWE, M. R.; BUTRYN, M. L. Hedonic hunger: a new dimension of appetite? Physiology & Behavior, v. 91, n. 4, p. 432–439, 2007.

RUBINO, D. et al. Effect of continued weekly subcutaneous semaglutide vs placebo on weight loss maintenance in adults with overweight or obesity: the STEP 4 randomized clinical trial. JAMA, v. 325, n. 14, p. 1414–1425, 2021.

WORLD OBESITY FEDERATION. World Obesity Atlas 2024. London: World Obesity Federation, 2024.

O Poder de um Remédio Sem Comprimidos – Exercício Físico Regular

 

Poucas intervenções na medicina moderna possuem um nível de evidência tão robusto quanto a prática regular de exercícios físicos. Diferentemente de muitos tratamentos que atuam sobre uma única doença, o exercício exerce efeitos simultâneos sobre praticamente todos os sistemas do organismo: cardiovascular, metabólico, musculoesquelético, neurológico, imunológico e psicológico.

A atividade física regular reduz o risco de doenças cardiovasculares, diabetes tipo 2, hipertensão arterial, obesidade, osteoporose, alguns tipos de câncer, depressão, ansiedade e mortalidade geral (WHO, 2024; Warburton & Bredin, 2017). Estudos epidemiológicos demonstram que indivíduos fisicamente ativos apresentam risco de morte prematura 20% a 30% menor em comparação aos sedentários.

Talvez por isso o exercício físico seja frequentemente descrito como o “medicamento” mais subutilizado da medicina.

 

O Que as Diretrizes Recomendam?

A Organização Mundial da Saúde (OMS), o American College of Sports Medicine (ACSM) e a American Heart Association (AHA) recomendam para adultos:

  • 150 a 300 minutos semanais de atividade aeróbica moderada; ou
  • 75 a 150 minutos semanais de atividade vigorosa;
  • exercícios de fortalecimento muscular pelo menos 2 vezes por semana;
  • redução do tempo sedentário.

Uma observação importante é que os benefícios começam muito antes dessas metas. Sair do sedentarismo já produz ganhos significativos de saúde.

 

Os Principais Tipos de Exercício e Seus Benefícios

  1. Exercícios Aeróbicos

São atividades que utilizam predominantemente o metabolismo oxidativo e envolvem grandes grupos musculares por períodos prolongados.

Exemplos

  • Caminhada
  • Corrida
  • Bicicleta
  • Natação
  • Remo
  • Dança
  • Elíptico

Benefícios Cientificamente Comprovados

  • Redução da pressão arterial
  • Melhora da sensibilidade à insulina
  • Controle glicêmico
  • Redução do colesterol LDL
  • Aumento do HDL
  • Melhora da função endotelial
  • Redução do risco cardiovascular
  • Controle do peso corporal
  • Melhora da saúde mental
  • Aumento da longevidade

Segundo Lee et al. (2012), a simples prática de 15 minutos diários de atividade física foi associada a aumento de aproximadamente três anos na expectativa de vida.

Exercícios e melhora do perfil lipídico e do colesterol “mau” (LDL-c)

Diversas evidências demonstram que a prática regular de exercícios físicos melhora o perfil lipídico.

O efeito mais consistente do exercício é sobre capacidade cardiorrespiratória, triglicerídeos, HDL e risco cardiovascular global.

A redução do LDL existe, mas costuma ser modesta, variando conforme intensidade do treinamento, perda de peso associada, dieta e perfil metabólico inicial.

Para o leitor não médico, é importante lembrar que muitas vezes apenas as medidas do estilo de vida, embora sempre necessárias, não serão suficientes. Será preciso a intervenção farmacológica, o que pode significar estatinas.

Vamos a estudos robustos que associam o perfil lipídico aos exercícios físicos: Em uma das maiores meta-análises publicadas até o momento, envolvendo 148 estudos randomizados e mais de 8.600 participantes, o treinamento físico foi associado a reduções significativas do colesterol total, LDL-colesterol e triglicerídeos, além de aumento do HDL-colesterol. Os benefícios foram observados com diferentes modalidades de exercício, incluindo treinamento aeróbico, resistido e combinado, reforçando o papel da atividade física como componente fundamental da prevenção cardiovascular (Van de Velde et al., 2024).

Uma revisão sistemática e meta-análise de ensaios clínicos randomizados publicada em 2023 mostrou que programas de exercício físico em adultos com sobrepeso e obesidade foram capazes de melhorar o perfil lipídico, apresentando efeito semelhante ou complementar às intervenções dietéticas para redução do LDL-colesterol, especialmente quando exercício e dieta foram combinados (Bellicha et al., 2023).

 

  1. Musculação (Treinamento Resistido)

Durante décadas acreditou-se que musculação servia apenas para estética ou desempenho esportivo. Hoje sabemos que ela é fundamental para a saúde.

O treinamento resistido combate um dos principais marcadores do envelhecimento: a perda progressiva de massa muscular (sarcopenia).

Benefícios

  • Aumento da força muscular
  • Preservação da massa magra
  • Melhora da densidade óssea
  • Redução do risco de quedas
  • Melhor controle glicêmico
  • Aumento do metabolismo basal
  • Maior autonomia funcional
  • Melhora da composição corporal

Meta-análises recentes mostram que a musculação promove aumentos consistentes de força, massa muscular e funcionalidade em adultos e idosos (Schoenfeld et al., 2023; Grgic et al., 2023).

Além disso, evidências recentes sugerem que aproximadamente 90 a 120 minutos semanais de treinamento resistido já estão associados à redução significativa da mortalidade por todas as causas.

 

  1. Alongamentos e Treinamento de Mobilidade

Embora frequentemente negligenciados, os exercícios de flexibilidade possuem papel importante.

Benefícios

  • Melhora da amplitude articular
  • Maior eficiência dos movimentos
  • Redução da rigidez muscular
  • Facilitação das atividades diárias
  • Melhora da postura
  • Auxílio na prevenção de determinadas lesões por encurtamentos musculares

É importante destacar que os estudos atuais não sustentam que o alongamento isoladamente previna todas as lesões esportivas, como se acreditava antigamente. Seu principal benefício parece estar relacionado à mobilidade funcional e qualidade do movimento (Behm et al., 2016).

 

Como Começar com Segurança?

Uma das maiores barreiras é imaginar que o treinamento ideal precisa ser complexo.

Na realidade, a melhor estratégia é começar de forma simples.

 

Princípios Básicos

  1. Progressão Gradual

Aumentar volume e intensidade lentamente.

  1. Regularidade

Treinar pouco, mas consistentemente, é melhor do que treinar excessivamente por poucas semanas.

  1. Recuperação

O corpo melhora durante o descanso, não durante o exercício.

  1. Individualização

Idade, doenças, condicionamento e objetivos devem ser considerados.

 

É Necessário Fazer Exames Antes de Começar?

A resposta depende do perfil do indivíduo.

As diretrizes atuais do ACSM tornaram-se menos restritivas do que no passado.

Para indivíduos jovens, assintomáticos e sem doenças conhecidas, frequentemente não são necessários exames extensos antes de iniciar exercícios leves a moderados.

Por outro lado, avaliação médica é recomendada para:

  • Portadores de doenças cardiovasculares
  • Hipertensos
  • Diabéticos
  • Pessoas com sintomas cardíacos
  • Indivíduos sedentários que pretendem iniciar exercícios intensos
  • Pessoas acima de meia-idade com múltiplos fatores de risco cardiovascular

 

Exames Frequentemente Solicitados

Dependendo da avaliação clínica:

Básicos

  • Hemograma
  • Glicemia
  • Hemoglobina glicada
  • Perfil lipídico
  • Função renal
  • Função hepática

Cardiológicos

  • Eletrocardiograma
  • Teste ergométrico
  • Ecocardiograma (quando indicado)

Outros

  • Avaliação ortopédica
  • Bioimpedância ou composição corporal
  • Avaliação funcional

A decisão deve ser individualizada pelo médico assistente.

 

Exemplos de Planos de Treinamento

Iniciante Absoluto

Semana 1 a 4

3 vezes por semana

  • Caminhada: 20–30 minutos
  • Agachamento livre: 2 séries
  • Flexão na parede: 2 séries
  • Remada elástica: 2 séries
  • Alongamentos leves

 

Objetivo: Saúde Geral

Segunda

Musculação (corpo inteiro)

Terça

Caminhada rápida 40 minutos

Quarta

Musculação

Quinta

Mobilidade e alongamentos

Sexta

Musculação

Sábado

Atividade recreativa

Domingo

Descanso

 

Objetivo: Emagrecimento

  • 150–300 minutos semanais de aeróbico
  • 2–4 sessões de musculação
  • Déficit calórico supervisionado

As evidências mostram que a combinação de exercício aeróbico e musculação produz melhores resultados para composição corporal do que qualquer modalidade isoladamente.

 

Quando o Exercício Deixa de Ser Saudável?

Embora o exercício seja extremamente benéfico, mais nem sempre significa melhor.

Existe um fenômeno chamado overtraining syndrome (síndrome do excesso de treinamento), caracterizado por um desequilíbrio entre carga de treino e recuperação. No próximo tópico esclarecemos melhor este tema.

 

Queda de Performance: Quando Treinar Mais Significa Render Menos

Embora o treinamento físico seja indispensável para a melhora do desempenho esportivo, existe um limite além do qual o aumento da carga deixa de produzir adaptações positivas e passa a comprometer a performance. Esse fenômeno é conhecido como overreaching não funcional ou, em casos mais prolongados e graves, síndrome do overtraining. Nessa situação, o organismo não consegue se recuperar adequadamente entre as sessões de treino, resultando em fadiga persistente, piora do rendimento, sensação de esforço aumentada para atividades habituais e redução da capacidade de gerar força, velocidade ou resistência.

Paradoxalmente, o atleta passa a treinar mais e obter resultados cada vez piores. Além da queda objetiva da performance, podem surgir alterações do humor, distúrbios do sono, redução da motivação e maior susceptibilidade a lesões. Segundo o consenso do Comitê Olímpico Internacional (IOC), a recuperação insuficiente frente a cargas excessivas de treinamento constitui um dos principais fatores envolvidos na queda de desempenho em atletas de diferentes modalidades, sendo a periodização adequada e a monitorização da recuperação componentes fundamentais para evitar esse problema (Budgett et al., 2024). Em outras palavras, não é durante o treino que o corpo se fortalece, mas durante a recuperação subsequente; quando essa recuperação é inadequada, o excesso de exercício pode produzir exatamente o efeito oposto ao desejado.

 

Lesões

Entre as mais comuns:

  • Tendinites
  • Fascite plantar
  • Fraturas por estresse
  • Lesões musculares
  • Lesões articulares

 

Perda de Massa Muscular

Quando o organismo permanece em estado catabólico prolongado:

  • aumenta cortisol;
  • reduz recuperação;
  • diminui síntese proteica;
  • ocorre perda de massa magra.

 

Alterações Hormonais 

Podem surgir:

  • redução da testosterona;
  • alterações menstruais;
  • fadiga persistente;
  • piora do sono.

 

Quando o exercício pode prejudicar a imunidade

Hoje sabe-se que o exercício moderado melhora diversos aspectos da vigilância imunológica do corpo, enquanto períodos prolongados de treinamento intenso associados a recuperação insuficiente podem aumentar temporariamente a susceptibilidade a infecções respiratórias, especialmente em atletas de endurance. Alguns autores mais recentes sugerem que parte do aumento de infecções observado em atletas de elite também pode estar relacionado a fatores concomitantes, como viagens frequentes, déficit energético, privação de sono e estresse psicológico. Ainda assim, o conceito geral permanece válido e útil para a prática clínica.

A literatura descreve a chamada “curva em J” da imunidade relacionada ao exercício físico:

  • Sedentarismo → maior risco de infecções.
  • Exercício moderado e regular → menor risco de infecções e melhor funcionamento do sistema imune.
  • Exercício excessivo associado à recuperação insuficiente → aumento transitório da suscetibilidade a infecções, particularmente do trato respiratório superior.

Esse fenômeno foi inicialmente descrito por Nieman (1994) e posteriormente aprofundado por Walsh et al. (2011). Evidências mais recentes demonstram que a prática regular de exercícios de intensidade moderada promove melhor circulação de células imunológicas, redução da inflamação crônica de baixo grau e aprimoramento da vigilância imunológica (Campbell & Turner, 2018; Nieman & Wentz, 2019). Por outro lado, períodos prolongados de treinamento intenso, especialmente quando associados a déficit energético, privação de sono e recuperação inadequada, podem gerar uma fase transitória de maior vulnerabilidade imunológica, favorecendo o aparecimento de infecções respiratórias e comprometendo o desempenho esportivo (Simpson et al., 2020; Walsh et al., 2021).

Embora a antiga hipótese da “janela aberta” de imunossupressão pós-exercício tenha sido parcialmente revisada, permanece bem estabelecido que o equilíbrio entre treinamento e recuperação é essencial para que os benefícios imunológicos do exercício sejam plenamente alcançados. Em outras palavras, o exercício regular fortalece o sistema imune; o excesso crônico sem recuperação adequada pode produzir exatamente o efeito contrário.

 

O Melhor Exercício é Aquele Que Você Consegue Manter

Uma das mensagens mais importantes da ciência moderna do exercício é que não existe treino perfeito.

Existe o treino que você consegue fazer de forma consistente.

A combinação de atividade aeróbica, fortalecimento muscular e mobilidade representa atualmente a estratégia mais respaldada pelas evidências para promover saúde, funcionalidade e longevidade.

Mais importante do que buscar programas complexos é abandonar o sedentarismo e incorporar movimento à rotina diária.

 

Disclaimer

Este artigo tem finalidade exclusivamente educativa e informativa. Antes de iniciar qualquer programa de exercícios físicos, especialmente na presença de doenças cardiovasculares, metabólicas, ortopédicas ou outras condições clínicas relevantes, procure avaliação médica e orientação de profissionais habilitados, como médico do esporte, cardiologista, fisiatra, fisioterapeuta e educador físico.

 

Referências

BEHM, D. G. et al. Acute effects of muscle stretching on physical performance, range of motion, and injury incidence in healthy active individuals: a systematic review. Applied Physiology, Nutrition, and Metabolism, v. 41, n. 1, p. 1-11, 2016.

BELLICHA, A.; van BAALEN, B.; BATTISTA, F.; et al. Exercise training, dietary intervention, or combined interventions and their effects on lipid profiles in adults with overweight and obesity: a systematic review and meta-analysis of randomized clinical trials. Nutrition, Metabolism and Cardiovascular Diseases, v. 33, n. 9, p. 1662–1683, 2023.

BUDGETT, R.; SOLIGARD, T.; ENGBRETSEN, L.; et al. International Olympic Committee consensus statement on load management and the prevention of health problems in athletes. British Journal of Sports Medicine, v. 58, n. 19, p. 1107–1123, 2024. DOI: 10.1136/bjsports-2024-108079.

CAMPBELL, J. P.; TURNER, J. E. Debunking the myth of exercise-induced immune suppression: redefining the impact of exercise on immunological health across the lifespan. Frontiers in Immunology, Lausanne, v. 9, art. 648, 2018. DOI: 10.3389/fimmu.2018.00648.

GRGIC, J. et al. The influence of resistance training prescription variables on skeletal muscle mass, strength and physical function in healthy adults: umbrella review. Sports Medicine, v. 53, p. 963-987, 2023.

LEE, I. M. et al. Exercise and life expectancy: a prospective cohort study. Lancet, v. 379, n. 9834, p. 219-229, 2012.

NIEMAN, D. C. Exercise, upper respiratory tract infection, and the immune system. Medicine & Science in Sports & Exercise, v. 26, n. 2, p. 128-139, 1994.

NIEMAN, D. C.; WENTZ, L. M. The compelling link between physical activity and the body’s defense system. Journal of Sport and Health Science, Shanghai, v. 8, n. 3, p. 201-217, 2019. DOI: 10.1016/j.jshs.2018.09.009.

SCHOENFELD, B. J.; GRGIC, J.; KRIEGER, J. Dose-response relationship between weekly resistance training volume and increases in muscle mass: updated systematic review and meta-analysis. Sports Medicine, 2023.

SIMPSON, R. J.; KUNZ, H.; ALCORN, J.; LAAKSONEN, D. E. Exercise and the regulation of immune functions. Progress in Molecular Biology and Translational Science, v. 135, p. 355-380, 2020.

VAN DE VELDE, T.; DE DECKER, D.; SCHOENFELD, N. A.; et al. The Effect of Exercise Training on Blood Lipids: A Systematic Review and Meta-analysis. Sports Medicine, 2024.

WALSH, N. P. et al. Position statement. Part one: immune function and exercise. Exercise Immunology Review, v. 17, p. 6-63, 2011.

WALSH, N. P.; GLEESON, M.; PYNE, D. B.; et al. Part one: immune function and exercise. Exercise Immunology Review, v. 17, p. 6-63, 2011.

WALSH, N. P.; OLIVER, S. J.; WIERZBICKI, S.; et al. Exercise, immune health and COVID-19: a review and perspective. Sports Medicine, Auckland, v. 51, n. 10, p. 2013-2026, 2021. DOI: 10.1007/s40279-021-01466-1.

WARBURTON, D. E. R.; BREDIN, S. S. D. Health benefits of physical activity: a systematic review of current systematic reviews. Current Opinion in Cardiology, v. 32, n. 5, p. 541-556, 2017.

WORLD HEALTH ORGANIZATION. WHO Guidelines on Physical Activity and Sedentary Behaviour. Geneva: WHO, 2020.

WORLD HEALTH ORGANIZATION. Physical Activity: Fact Sheet. Geneva: WHO, atualização de 2024.

Jejum Intermitente: Ciência, Promessas, Benefícios e Mitos – Parte 2 de 3

 

 

O Que a Ciência Realmente Mostra: Benefícios, Riscos e Exageros

Na primeira parte deste artigo, vimos que o jejum acompanha a humanidade há milênios, que o trabalho de Yoshinori Ohsumi revolucionou nossa compreensão da autofagia e que o interesse científico moderno pelo tema cresceu rapidamente nas últimas décadas.

Mas a pergunta que realmente interessa à maioria das pessoas é outra:

O jejum intermitente funciona?

A resposta curta é: sim, em determinadas circunstâncias e para determinados objetivos.

A resposta completa, entretanto, é muito mais interessante.

Mas vale enfatizar que algumas afirmações frequentemente repetidas em redes sociais — como “o jejum aumenta dramaticamente a longevidade humana”, “cura câncer”,  ou “ativa autofagia profunda após exatamente X horas” — não possuem atualmente evidência clínica robusta em humanos e serão tratadas criticamente na Parte III, juntamente com a microbiota intestinal e o eixo intestino-cérebro.

 

Jejum Intermitente Emagrece?

A principal razão pela qual a maioria das pessoas procura o jejum intermitente continua sendo a perda de peso.

As evidências atuais sugerem que ele pode ser uma ferramenta eficaz para emagrecimento, sobretudo quando ajuda o indivíduo a reduzir espontaneamente sua ingestão calórica total.

Entretanto, um detalhe importante costuma ser omitido nas redes sociais:

o jejum não “quebra as leis da fisiologia”.

Em última análise, a perda de peso continua dependendo de um balanço energético negativo, ou seja, gastar mais energia do que se consome ao longo do tempo.

Uma importante revisão sistemática e meta-análise publicada por Varady e colaboradores observou que diferentes modalidades de jejum intermitente produzem perdas de peso clinicamente relevantes em indivíduos com sobrepeso e obesidade, frequentemente variando entre 3% e 8% do peso corporal ao longo de algumas semanas ou meses (VARADY et al., 2022).

Outro estudo que recebeu ampla atenção foi publicado no New England Journal of Medicine. Nessa revisão, os autores concluíram que os benefícios observados provavelmente resultam de uma combinação de redução da ingestão energética, alterações hormonais e adaptações metabólicas relacionadas ao período de jejum (DE CABO; MATTSON, 2019).

Portanto, o jejum pode ajudar muitas pessoas a emagrecer, mas não porque possua propriedades “mágicas”. Ele funciona principalmente como uma estratégia comportamental e metabólica que facilita a redução do consumo energético em determinados indivíduos.

 

Jejum Intermitente é Superior às Dietas Convencionais?

Aqui encontramos uma das maiores surpresas da literatura científica.

Diversos ensaios clínicos randomizados compararam jejum intermitente com dietas tradicionais de restrição calórica contínua.

O resultado mais comum foi o seguinte:

ambas funcionam.

Na maioria dos estudos, quando a redução calórica total é semelhante, as diferenças de perda de peso entre os métodos tendem a ser pequenas ou inexistentes (LIU et al., 2022; SUN et al., 2024).

Isso significa que o melhor método costuma ser aquele que o indivíduo consegue manter a longo prazo.

Algumas pessoas sentem enorme dificuldade em controlar porções diariamente, mas adaptam-se bem a uma janela alimentar restrita.

Outras experimentam exatamente o oposto.

A adesão continua sendo um dos fatores mais importantes para o sucesso.

 

O Impacto Sobre a Resistência à Insulina

Uma das áreas mais promissoras do jejum intermitente envolve a saúde metabólica.

Durante períodos sem alimentação ocorre redução dos níveis de insulina circulante, permitindo maior mobilização de gordura armazenada e menor exposição crônica do organismo a esse hormônio.

Diversos estudos demonstraram melhora de parâmetros relacionados à resistência à insulina, especialmente em indivíduos com excesso de peso, obesidade ou pré-diabetes (DE CABO; MATTSON, 2019; SUN et al., 2024).

Uma revisão abrangente publicada em 2024 encontrou evidências consistentes de melhora em indicadores glicêmicos e metabólicos em vários protocolos de restrição alimentar temporal (SUN et al., 2024).

Entretanto, isso não significa que pessoas diabéticas devam iniciar jejuns prolongados por conta própria.

Pacientes em uso de insulina ou determinados medicamentos hipoglicemiantes podem apresentar risco aumentado de hipoglicemia e necessitam de acompanhamento médico individualizado.

 

Saúde Cardiovascular: Promessas e Realidade

O jejum intermitente também tem sido estudado em relação à saúde cardiovascular.

Alguns ensaios clínicos identificaram reduções modestas em:

  • pressão arterial;
  • triglicerídeos;
  • colesterol LDL;
  • marcadores inflamatórios.

Esses benefícios parecem ocorrer principalmente em indivíduos que também apresentam perda de peso associada (DE CABO; MATTSON, 2019).

No entanto, ainda não existem evidências robustas demonstrando que o jejum intermitente reduza diretamente mortalidade cardiovascular ou aumente a longevidade em humanos.

Essa distinção é importante.

Melhorar fatores de risco não é necessariamente a mesma coisa que comprovar redução de eventos clínicos importantes.

 

E Quanto à Longevidade?

Talvez nenhum tema gere mais entusiasmo.

Em modelos animais, especialmente leveduras, vermes, moscas e roedores, a restrição energética frequentemente está associada ao aumento da expectativa de vida.

Entretanto, extrapolar esses resultados para seres humanos é extremamente complexo.

Até o momento, não existem ensaios clínicos capazes de demonstrar que o jejum intermitente prolonga a vida humana.

O que existe são evidências indiretas de melhora em alguns marcadores associados ao envelhecimento saudável (LONGO; PANDA, 2016).

A ciência ainda não permite afirmar que jejuar fará alguém viver mais.

 

Os Possíveis Benefícios Cognitivos

Outra área de intenso interesse envolve o cérebro.

Em modelos experimentais, períodos de restrição alimentar parecem aumentar a resistência neuronal ao estresse metabólico e estimular mecanismos celulares relacionados à plasticidade cerebral (MATTSON et al., 2018).

Em seres humanos, alguns estudos sugerem possíveis benefícios sobre:

  • clareza mental;
  • concentração;
  • regulação do apetite;
  • percepção de energia.

Contudo, os resultados permanecem heterogêneos e ainda insuficientes para conclusões definitivas.

 

Nem Tudo São Benefícios: Os Riscos do Jejum

A popularização do jejum muitas vezes ignora seus potenciais efeitos adversos.

Entre os sintomas mais frequentemente relatados estão:

  • fome intensa;
  • irritabilidade;
  • cefaleia;
  • fadiga;
  • tonturas;
  • dificuldade de concentração;
  • redução do desempenho esportivo em algumas circunstâncias.

Esses sintomas costumam ser transitórios, mas nem sempre.

Além disso, determinadas populações exigem atenção especial.

 

Quem Deve Ter Cuidado ou Evitar o Jejum?

O jejum intermitente pode não ser apropriado para:

  • gestantes;
  • lactantes;
  • crianças;
  • adolescentes em crescimento;
  • indivíduos com histórico de transtornos alimentares;
  • pessoas com baixo peso;
  • pacientes com doenças debilitantes;
  • idosos frágeis;
  • diabéticos em uso de medicamentos com risco de hipoglicemia.

Nesses grupos, a avaliação individualizada é particularmente importante.

 

Há Risco de Perda de Massa Muscular?

Sim, principalmente para pessoas previamente sarcopênicas (debilitadas, com pouco músculo), ou que já estejam inseridas num contexto alimentar restritivo. Este é talvez um dos receios mais frequentes em relação ao jejum intermitente, e uma das perguntas mais recorrentes.

Mas há uma boa notícia. O organismo possui mecanismos adaptativos que procuram preservar a musculatura nas fases iniciais do jejum. Nas primeiras 12 a 24 horas (pode variar de pessoa para pessoa), a maior parte da energia provém da utilização do glicogênio hepático e da mobilização crescente de gordura corporal. Com a progressão do jejum, ocorre aumento da produção de corpos cetônicos, que passam a servir como importante combustível para o cérebro e outros tecidos, reduzindo a necessidade de utilização de aminoácidos musculares para produção de glicose. Esse fenômeno é considerado uma estratégia metabólica de preservação da massa magra (CAHILL, 2006; DE CABO; MATTSON, 2019).

Entretanto, quando os períodos de jejum se tornam excessivamente prolongados, repetitivos ou são associados a ingestão insuficiente de macronutrientes, particularmente carboidratos e proteínas, baixo peso corporal, envelhecimento, sarcopenia, doenças debilitantes ou ausência de estímulo muscular por exercícios de resistência, o organismo pode aumentar gradualmente a degradação de proteínas musculares para fornecer aminoácidos destinados à gliconeogênese e outras funções vitais.

Uma revisão publicada na Nature Reviews Endocrinology destaca que protocolos bem conduzidos de jejum intermitente geralmente preservam a massa magra de forma relativamente satisfatória, especialmente quando acompanhados de adequada ingestão proteica e treinamento de força. Ainda assim, parte da perda ponderal observada em alguns estudos pode incluir uma fração de massa muscular, sobretudo em indivíduos mais vulneráveis ou submetidos a restrições energéticas muito intensas (VARADY et al., 2022). Em outras palavras, o maior risco para a musculatura não parece ser o jejum intermitente moderado, individualizado e bem planejado, mas sim o jejum prolongado, inadequadamente conduzido e associado à desnutrição proteica e ao sedentarismo.

 

O Perigo dos Extremos

Talvez a maior lição da literatura científica seja que o jejum intermitente não deve ser encarado nem como vilão nem como solução universal.

De um lado, existem pessoas que afirmam que qualquer período sem alimentação é prejudicial.

Do outro, há quem atribua ao jejum propriedades quase milagrosas.

Ambas as posições são incompatíveis com o conhecimento científico atual.

O que as melhores evidências sugerem é algo muito mais equilibrado:

Para indivíduos adequadamente selecionados, o jejum intermitente pode ser uma ferramenta útil para perda de peso, melhora metabólica e organização alimentar.

Mas seus benefícios dependem do contexto, da qualidade da alimentação, da adesão ao longo prazo e das características individuais de cada pessoa.

Na próxima parte abordaremos uma das áreas mais fascinantes da pesquisa moderna: a relação entre jejum intermitente, microbiota intestinal, eixo intestino-cérebro, inflamação, imunidade e saúde metabólica.

 

REFERÊNCIAS

CAHILL, George F. Fuel metabolism in starvation. Annual Review of Nutrition, Palo Alto, v. 26, p. 1–22, 2006.

DE CABO, Rafael; MATTSON, Mark P. Effects of intermittent fasting on health, aging, and disease. New England Journal of Medicine, Boston, v. 381, n. 26, p. 2541–2551, 2019. DOI: 10.1056/NEJMra1905136.

LIU, Ding et al. Intermittent fasting versus continuous energy restriction for weight loss and cardiometabolic outcomes: a systematic review and meta-analysis of randomized controlled trials. eClinicalMedicine, London, v. 48, 101477, 2022.

LONGO, Valter D.; PANDA, Satchidananda. Fasting, circadian rhythms, and time-restricted feeding in healthy lifespan. Cell Metabolism, Cambridge, v. 23, n. 6, p. 1048–1059, 2016. DOI: 10.1016/j.cmet.2016.06.001.

MATTSON, Mark P.; LONGO, Valter D.; HARVIE, Michelle. Impact of intermittent fasting on health and disease processes. Ageing Research Reviews, Amsterdam, v. 39, p. 46–58, 2017. DOI: 10.1016/j.arr.2016.10.005.

SUN, Ming-Li et al. Intermittent fasting and health outcomes: an umbrella review of systematic reviews and meta-analyses of randomized controlled trials. eClinicalMedicine, London, v. 70, 102519, 2024.

VARADY, Krista A. et al. Clinical application of intermittent fasting for weight loss: progress and future directions. Nature Reviews Endocrinology, London, v. 18, p. 309–321, 2022.

 

 

 

 

Jejum Intermitente: Ciência, Promessas, Benefícios e Mitos – Parte 1 de 3

 

 

O Fascínio Humano Pelo Jejum

Poucos temas despertam tanta curiosidade atualmente quanto o jejum intermitente.

Para alguns, ele representa uma ferramenta poderosa para perda de peso e melhora metabólica. Para outros, tornou-se quase uma filosofia de vida. Nas redes sociais, não faltam promessas de rejuvenescimento, longevidade, “limpeza” do organismo e até prevenção de praticamente todas as doenças conhecidas.

Como costuma acontecer quando um tema científico ganha popularidade, a verdade encontra-se em algum lugar entre o entusiasmo exagerado e o ceticismo absoluto.

O jejum não é uma invenção moderna. Na realidade, acompanha a humanidade há milênios.

Diversas tradições religiosas incorporaram períodos de abstinência alimentar muito antes de a ciência começar a estudar seus efeitos fisiológicos. Cristianismo, judaísmo, islamismo, hinduísmo e budismo possuem práticas de jejum documentadas há séculos.

Do ponto de vista adaptativo, nossos ancestrais também experimentavam naturalmente períodos de escassez alimentar. O organismo humano desenvolveu mecanismos sofisticados para sobreviver a essas fases sem acesso contínuo à comida.

A ciência moderna passou a investigar se tais adaptações poderiam trazer benefícios além da simples sobrevivência.

 

AVISO LEGAL (DISCLAIMER)

Este artigo tem finalidade exclusivamente informativa e educacional. Seu conteúdo não constitui prescrição médica, nutricional ou terapêutica e não deve ser utilizado para diagnóstico, prevenção ou tratamento de doenças.

As evidências científicas sobre jejum intermitente continuam em evolução. Nem todos os indivíduos são candidatos apropriados para essa estratégia alimentar. Crianças, adolescentes em fase de crescimento, gestantes, lactantes, pessoas com transtornos alimentares, indivíduos desnutridos ou portadores de determinadas doenças devem ser avaliados individualmente por profissionais de saúde habilitados.

Antes de iniciar qualquer protocolo de jejum, consulte seu médico e demais profissionais de saúde responsáveis pelo seu acompanhamento.

 

 

O Que é Jejum Intermitente?

O termo “jejum intermitente” não descreve uma dieta específica, mas um padrão alimentar.

Diferentemente das dietas tradicionais, que se concentram principalmente em “o que comer”, o jejum intermitente enfatiza “quando comer”.

Existem diversas modalidades:

 

Restrição de Tempo Alimentar (Time-Restricted Eating)

A mais popular atualmente.

O indivíduo concentra sua alimentação em uma janela específica do dia.

Exemplos:

  • 12:12 (12 horas de alimentação e 12 de jejum)
  • 14:10
  • 16:8
  • 18:6

 

Dieta 5:2

A pessoa se alimenta normalmente durante cinco dias da semana e reduz drasticamente a ingestão calórica em dois dias não consecutivos.

 

Jejum em Dias Alternados

Alternância entre dias de alimentação habitual e dias de grande restrição energética.

Cada modalidade possui características próprias, vantagens e limitações.

 

Como o Assunto Entrou na Literatura Científica?

Embora estudos metabólicos sobre privação alimentar existam há muitas décadas, o interesse científico moderno pelo jejum intensificou-se especialmente a partir dos anos 1990 e 2000.

Inicialmente, boa parte das pesquisas ocorreu em modelos animais.

Roedores submetidos a protocolos de restrição alimentar apresentavam alterações metabólicas intrigantes:

  • melhora da sensibilidade à insulina;
  • redução de gordura corporal;
  • alterações em vias inflamatórias;
  • aumento da resistência celular ao estresse.

Esses resultados estimularam uma explosão de pesquisas em humanos nas décadas seguintes.

 

Yoshinori Ohsumi e a Descoberta que Ressignificou o Jejum

É impossível falar sobre jejum sem mencionar o cientista japonês Yoshinori Ohsumi.

Em 2016, Ohsumi recebeu o Prêmio Nobel de Fisiologia ou Medicina por seus trabalhos fundamentais na compreensão da autofagia.

O termo autofagia significa literalmente “comer a si mesmo”.

Apesar do nome parecer alarmante, trata-se de um mecanismo essencial à vida.

As células constantemente produzem proteínas defeituosas, organelas envelhecidas e componentes danificados. A autofagia funciona como um sofisticado sistema de reciclagem celular, removendo estruturas comprometidas e reutilizando seus componentes.

O grande mérito de Ohsumi foi identificar genes e mecanismos fundamentais envolvidos nesse processo, utilizando inicialmente leveduras como modelo experimental. Seu trabalho permitiu compreender como as células regulam a reciclagem interna e abriu caminho para milhares de pesquisas subsequentes envolvendo envelhecimento, câncer, neurodegeneração e metabolismo.

Entretanto, um ponto importante merece destaque.

A descoberta de Ohsumi não demonstrou que jejum intermitente cura doenças nem estabeleceu um protocolo específico de horas de jejum para humanos.

Essa associação surgiu posteriormente, quando pesquisadores observaram que períodos de restrição energética podem ativar vias celulares relacionadas à autofagia. A intensidade, duração e relevância clínica desse fenômeno em seres humanos ainda permanecem objeto de investigação científica.

Muitas afirmações populares sobre “24 horas”, “48 horas” ou “72 horas” para ativar autofagia extrapolam significativamente aquilo que a literatura científica consegue afirmar com segurança atualmente.

 

O Que Acontece no Organismo Durante o Jejum?

Após uma refeição, o organismo utiliza principalmente a glicose proveniente dos alimentos como fonte energética.

Com o passar das horas sem alimentação, ocorrem mudanças graduais:

  1. Redução dos níveis de insulina.
  2. Mobilização das reservas de glicogênio hepático.
  3. Aumento progressivo da utilização de gordura corporal como combustível.
  4. Produção de corpos cetônicos em jejuns mais prolongados.

Essas alterações não acontecem de forma abrupta nem seguem exatamente os mesmos tempos em todas as pessoas.

Fatores como:

  • idade;
  • sexo;
  • composição corporal;
  • atividade física;
  • estado metabólico;
  • quantidade de carboidratos consumidos previamente;

podem modificar significativamente a resposta individual.

 

O Que Dizem as Melhores Evidências Atuais?

Uma das análises mais abrangentes publicadas recentemente foi uma revisão “umbrella” (revisão de revisões sistemáticas e metanálises) envolvendo estudos randomizados sobre jejum intermitente.

Publicada em 2024 na revista eClinicalMedicine (grupo Lancet), a revisão concluiu que existem evidências razoavelmente consistentes para perda de peso, melhora da resistência à insulina e alguns parâmetros cardiometabólicos, especialmente em indivíduos com excesso de peso ou obesidade (SUN et al., 2024).

Entretanto, os autores também ressaltaram que a qualidade das evidências varia conforme o desfecho estudado e que muitas perguntas importantes ainda permanecem sem resposta.

Em outras palavras:

O jejum intermitente possui potencial terapêutico real.

Mas não constitui a solução universal frequentemente apresentada nas redes sociais.

 

O Primeiro Grande Alerta: Benefícios Não Significam Milagres

Talvez o maior erro da divulgação popular seja transformar resultados promissores em promessas extraordinárias.

A literatura científica atual sugere benefícios plausíveis para:

  • perda de peso;
  • resistência à insulina;
  • saúde metabólica;
  • alguns marcadores cardiovasculares.

Por outro lado, não existem evidências robustas demonstrando que o jejum intermitente seja uma cura para câncer, demência, doenças autoimunes ou envelhecimento.

A boa ciência costuma avançar mais lentamente do que os vídeos de internet.

E isso é algo positivo.

Na próxima parte abordaremos os benefícios clinicamente demonstrados, os riscos, as contraindicações, os exageros midiáticos e o que as pesquisas mais recentes revelam sobre perda de peso e saúde metabólica.

 

REFERÊNCIAS

OHSUMI, Y. Historical landmarks of autophagy research. Cell Research, v. 24, n. 1, p. 9–23, 2014.

SUN, Ming-Li et al. Intermittent fasting and health outcomes: an umbrella review of systematic reviews and meta-analyses of randomised controlled trials. ClinicalMedicine, v. 70, 102519, 2024.

Receba nosso conteúdo

Tenha acesso em primeira mão às nossas novidades e programações especiais

A Lapinha se compromete em proteger e respeitar sua privacidade. Usaremos suas informações pessoais apenas para administrar sua conta e fornecer os produtos e serviços que você nos solicitou. Ocasionalmente, gostaríamos de entrar em contato sobre nossas ofertas, bem como sobre outros conteúdos que possam ser de seu interesse. Você pode optar por desinscrever-se de nosso mailing a qualquer momento.

Lar Lapeano de Saúde LTDA - CNPJ 75.189.597/0001-63. Todos os direitos reservados.