Insulina Semanal — o Futuro da Insulinoterapia?

 

Um panorama em linguagem acessível sobre a insulina efsitora alfa e o que a ciência já sabe até agora

 

Introdução

Durante mais de um século, tratar diabetes com insulina significou uma rotina de injeções diárias — algumas vezes, várias picadas por dia. Essa é, sem dúvida, uma das maiores barreiras para a adesão ao tratamento e para a qualidade de vida de quem convive com diabetes tipo 1 ou tipo 2.

Nos últimos anos, porém, a indústria farmacêutica passou a investigar algo que parecia distante: uma insulina basal que precisa ser aplicada apenas uma vez por semana. A efsitora alfa, desenvolvida pela farmacêutica Eli Lilly, é uma das candidatas mais avançadas nessa corrida, ao lado da icodegue (insulina icodec, da Novo Nordisk), já aprovada em algumas regiões do mundo (SYNAPSE, 2026).

Este texto resume, em linguagem simples, o que já sabemos sobre a efsitora alfa: como ela funciona, o que os estudos clínicos mostraram até agora e em que estágio regulatório o medicamento se encontra.

 

O que é a efsitora alfa?

A efsitora alfa (nome em desenvolvimento LY3209590) é uma insulina basal de nova geração, construída como uma proteína de fusão: ela combina uma variante da molécula de insulina com um fragmento de anticorpo humano (domínio Fc de imunoglobulina IgG2).

Essa engenharia molecular faz com que a substância seja absorvida e degradada muito mais lentamente pelo organismo, criando uma espécie de reservatório circulante que libera insulina de forma estável ao longo de sete dias (Eli Lilly and Company, 2025).

Na prática, isso significa uma curva de ação mais “achatada”, com menor variação entre o pico e o vale de concentração do hormônio no sangue — o que, em teoria, reduz o risco de picos de hipoglicemia (queda excessiva da glicose) que costumam ocorrer horas após a aplicação de insulinas diárias.

 

Como a efsitora alfa foi testada: o programa QWINT

O conjunto de estudos que avaliou a efsitora alfa foi batizado de QWINT (sigla em inglês para “terapia com insulina semanal”). Ao todo, cinco grandes estudos de fase 3 — QWINT-1 a QWINT-5 — testaram o medicamento em diferentes cenários clínicos: pessoas com diabetes tipo 2 que nunca haviam usado insulina, pessoas com diabetes tipo 2 já em uso de insulina basal ou de esquema basal-bolus, e pessoas com diabetes tipo 1 (Bergenstal, Philis-Tsimikas e Wysham, 2024).

Juntos, esses estudos reuniram mais de quatro mil participantes, comparando a efsitora alfa semanal com as insulinas basais diárias já bem estabelecidas — glargina e degludeca (Diatribe Foundation, 2025).

 

O que os estudos mostraram

 

QWINT-1 — pessoas iniciando insulina pela primeira vez

Neste estudo, 796 adultos com diabetes tipo 2 que nunca haviam usado insulina foram divididos entre efsitora alfa semanal e glargina diária, por 52 semanas. A redução da hemoglobina glicada (HbA1c, o exame que reflete a média de glicose dos últimos meses) foi de 1,31 ponto percentual com a efsitora, contra 1,27 ponto percentual com a glargina — resultado estatisticamente equivalente entre os dois grupos (Rosenstock et al., 2025).

 

QWINT-3 — pessoas já em uso de insulina basal

Aqui, quase mil participantes com diabetes tipo 2 já tratados com insulina basal diária foram acompanhados por 78 semanas, comparando a efsitora alfa à degludeca. Na 26ª semana, a queda da HbA1c foi de 0,86 ponto percentual no grupo da efsitora, contra 0,75 no grupo da degludeca — novamente, resultados equivalentes (Philis-Tsimikas et al., 2025).

 

QWINT-4 — pessoas em esquema basal-bolus

Neste estudo, 730 participantes com diabetes tipo 2 em uso de insulina basal associada a insulina nas refeições foram acompanhados por 26 semanas. A redução de HbA1c foi idêntica entre os grupos: 1,07 ponto percentual tanto com a efsitora quanto com a glargina (Blevins et al., 2025).

 

QWINT-5 — diabetes tipo 1

Já em pessoas com diabetes tipo 1, o estudo comparou a efsitora à degludeca em 692 participantes por 52 semanas. O controle glicêmico também foi equivalente entre os grupos, mas houve um ponto de atenção importante: episódios de hipoglicemia clinicamente significativa ou grave foram mais frequentes no grupo que usou efsitora, sugerindo que o ajuste de dose nesse tipo de diabetes ainda precisa ser refinado (Bergenstal et al., 2024).

 

Segurança: o que ainda merece atenção

De forma geral, o perfil de segurança da efsitora alfa em diabetes tipo 2 foi considerado semelhante ao das insulinas diárias já usadas há décadas, com taxas comparáveis de hipoglicemia e de eventos adversos (Blevins et al., 2025). O cenário é diferente em diabetes tipo 1, onde o maior risco de hipoglicemia observado no QWINT-5 mostra que a insulina semanal ainda não está pronta, do ponto de vista científico, para ser recomendada da mesma forma nesse grupo (Bergenstal et al., 2024).

 

Menos picadas, mais satisfação?

Reduzir de sete para uma aplicação por semana não é um detalhe pequeno. Uma análise conjunta dos estudos QWINT avaliou o impacto da efsitora alfa na percepção de saúde geral, na carga do tratamento e na satisfação dos participantes, e encontrou resultados favoráveis à insulina semanal em comparação às opções diárias, especialmente quanto à comodidade e à sensação de menor peso do tratamento no dia a dia (Miller et al., 2026).

 

Em que fase está a aprovação da efsitora alfa?

Até o momento da publicação deste texto (julho de 2026), a efsitora alfa ainda não havia sido aprovada pela agência regulatória norte-americana (FDA) nem pela Anvisa.

A Eli Lilly declarou a intenção de submeter o pedido de registro às agências regulatórias globais até o fim de 2025, com base nos resultados favoráveis do programa QWINT (Eli Lilly and Company, 2025).

Vale destacar que a concorrente direta da efsitora alfa, a insulina icodec (nome comercial Awiqli, da Novo Nordisk), já é aprovada na União Europeia e em outros países, e em março de 2026 tornou-se a primeira insulina basal semanal aprovada pelo FDA para diabetes tipo 2 nos Estados Unidos (Synapse, 2026).

Isso não significa que a efsitora alfa seja inferior — os estudos comparativos entre as duas moléculas ainda são limitados —, mas mostra que a icodec está, por enquanto, um passo à frente no processo regulatório.

 

Resumo em tópicos

  • A efsitora alfa é uma insulina basal semanal em desenvolvimento pela Eli Lilly, feita como proteína de fusão com um fragmento de anticorpo, o que prolonga sua ação no organismo.
  • O programa de estudos QWINT (fases 1 a 5) testou a molécula em mais de 4 mil pessoas com diabetes tipo 1 e tipo 2.
  • Em diabetes tipo 2, a efsitora reduziu a HbA1c de forma equivalente às insulinas diárias glargina e degludeca, com segurança comparável.
  • Em diabetes tipo 1, houve mais episódios de hipoglicemia com a efsitora do que com a degludeca — um ponto que ainda precisa de mais estudos.
  • Participantes relataram maior satisfação e menor peso do tratamento com a aplicação semanal.
  • A efsitora alfa ainda não está aprovada pelo FDA ou pela Anvisa; a insulina icodec (Awiqli) já está um passo à frente nesse processo.

 

Aviso importante

Este texto tem finalidade exclusivamente informativa e educacional. A efsitora alfa é um medicamento ainda em fase de investigação clínica e registro regulatório, não estando disponível para uso clínico no Brasil até a data desta publicação. As informações aqui apresentadas não substituem a avaliação, o diagnóstico ou a prescrição de um médico. Decisões sobre o tratamento do diabetes devem ser sempre tomadas em conjunto com um profissional de saúde, considerando o histórico e as particularidades de cada pessoa.

 

Referências

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BERGENSTAL, R. M.; PHILIS-TSIMIKAS, A.; WYSHAM, C. et al. Once-weekly insulin efsitora alfa: design and rationale for the QWINT phase 3 clinical development programme. Diabetes, Obesity and Metabolism, v. 26, n. 8, p. 3020-3030, 2024.

BLEVINS, T.; DAHL, D.; PEREZ MANGHI, F. C.; MURTHY, S.; ORTIZ CARRASQUILLO, R.; LI, X.; CHANG, A. M.; CARR, M. C.; KATZ, M. Once-weekly insulin efsitora alfa versus once-daily insulin glargine U100 in adults with type 2 diabetes treated with basal and prandial insulin (QWINT-4): a phase 3, randomised, non-inferiority trial. The Lancet, v. 405, n. 10497, p. 2290-2301, 2025.

DIATRIBE FOUNDATION. Lilly’s Once-Weekly Insulin Equally Effective as Daily Insulin for Improving A1C. 2025. Disponível em: https://diatribe.org/diabetes-medications/lillys-once-weekly-insulin-delivers-similar-a1c-reduction-daily-basal-insulin. Acesso em: 28 jul. 2026.

ELI LILLY AND COMPANY. Lilly’s once-weekly insulin efsitora alfa demonstrated A1C reduction and a safety profile consistent with daily insulin in multiple Phase 3 trials. 2025. Disponível em: https://investor.lilly.com/news-releases/news-release-details/lillys-once-weekly-insulin-efsitora-alfa-demonstrated-a1c. Acesso em: 28 jul. 2026.

MILLER, E.; DAVIDSON, M. B.; BAJAJ, H. S.; ROSENSTOCK, J.; PHILIS-TSIMIKAS, A.; BERGENSTAL, R. M.; CASE, M.; ILAG, L.; THRELKELD, R.; LEVASSEUR, E.; GELSEY, F. Evaluation of Overall Health State, Treatment Burden, and Satisfaction with Insulin Efsitora Alfa (Efsitora) vs. Daily Comparator in Adults with Type 2 Diabetes in the QWINT Clinical Trial Program. Diabetes Therapy, v. 17, n. 3, p. 431-447, 2026.

PHILIS-TSIMIKAS, A.; BERGENSTAL, R. M.; BAILEY, T. S.; JINNOUCHI, H.; THRASHER, J. R.; ILAG, L.; MITRA, J.; SYRING, K.; THRELKELD, R. J. Once-weekly insulin efsitora alfa versus once-daily insulin degludec in adults with type 2 diabetes currently treated with basal insulin (QWINT-3): a phase 3, randomised, non-inferiority trial. The Lancet, v. 405, n. 10497, p. 2279-2289, 2025.

Sair do Abismo: O Que Você Precisa Entender Sobre a Depressão  – Parte 2 — Da descoberta dos antidepressivos à psiquiatria personalizada

 

O que a ciência já sabe sobre os transtornos depressivos — como e por que eles podem ser tratados

 

Da era do acaso à medicina de precisão

Até meados do século XX, os recursos para tratar a depressão eram extremamente limitados. Muitos pacientes permaneciam internados durante meses ou anos, e a perspectiva de recuperação era modesta.

Curiosamente, os primeiros antidepressivos não foram desenvolvidos para tratar depressão. Sua descoberta foi, em grande parte, fruto do acaso. Na década de 1950, médicos observaram que pacientes tratados com iproniazida, inicialmente estudada para tuberculose, apresentavam melhora importante do humor. Pouco depois, a imipramina, desenvolvida como potencial antipsicótico, mostrou efeito antidepressivo marcante (Lopez-Muñoz; Alamo, 2009).

Essas observações inauguraram uma nova era da psiquiatria e deram origem às primeiras classes de antidepressivos.

 

Um breve passeio pela história dos antidepressivos

 

  1. Inibidores da monoaminoxidase (IMAO)

Os IMAOs foram os pioneiros.

Eles aumentam a disponibilidade cerebral de serotonina, noradrenalina e dopamina ao bloquear a enzima monoaminoxidase.

Apesar de muito eficazes em alguns casos — especialmente na chamada depressão atípica —, exigem importantes restrições alimentares e apresentam risco de interações medicamentosas potencialmente graves, razão pela qual hoje são reservados para situações específicas (Kennedy et al., 2023).

 

  1. Antidepressivos tricíclicos

Logo surgiram medicamentos como imipramina, amitriptilina, nortriptilina e clomipramina.

São fármacos bastante eficazes, mas também apresentam maior incidência de efeitos colaterais, como boca seca, constipação, retenção urinária, sonolência, hipotensão postural e ganho de peso. Em doses elevadas, podem provocar arritmias cardíacas, o que limita seu uso em alguns pacientes (NICE, 2022).

Ainda hoje continuam tendo papel importante em determinadas situações clínicas, como dor neuropática, enxaqueca e alguns transtornos ansiosos.

 

  1. A revolução dos ISRS

No final da década de 1980 surgiu um medicamento que mudaria profundamente a psiquiatria: a fluoxetina.

Ela inaugurou a era dos Inibidores Seletivos da Recaptação de Serotonina (ISRS), posteriormente acompanhada por sertralina, escitalopram, citalopram, paroxetina e fluvoxamina.

Esses medicamentos apresentaram eficácia semelhante à dos antidepressivos mais antigos, porém com perfil de segurança muito melhor, reduzindo significativamente o risco de intoxicações graves e facilitando o tratamento ambulatorial (Cipriani et al., 2018).

Até hoje, os ISRS permanecem entre as principais opções de primeira linha para transtorno depressivo maior.

 

  1. Os IRSN

Mais tarde surgiram os Inibidores da Recaptação de Serotonina e Noradrenalina (IRSN).

Os principais representantes são:

  • venlafaxina;
  • desvenlafaxina;
  • duloxetina.

Além da depressão, esses medicamentos costumam ser úteis em pacientes com dor crônica, fibromialgia e neuropatias diabéticas, ampliando as possibilidades terapêuticas.

 

  1. Antidepressivos “atípicos”

A psiquiatria moderna passou então a dispor de medicamentos com mecanismos bastante diferentes.

Entre eles destacam-se:

  • bupropiona, que atua predominantemente sobre dopamina e noradrenalina, sendo interessante em pacientes com fadiga, lentificação psicomotora e na cessação do tabagismo;
  • mirtazapina, útil quando predominam insônia, ansiedade intensa e perda de apetite;
  • agomelatina, disponível em alguns países, que atua também sobre receptores relacionados ao ritmo circadiano.

Essa diversidade permite individualizar muito melhor o tratamento.

 

 

Resumo Prático

Hoje não existe “o melhor antidepressivo”.

Existe o medicamento mais adequado para determinado paciente, considerando idade, sintomas predominantes, doenças associadas, interações medicamentosas e perfil de efeitos adversos.

 

As doses mais utilizadas na prática clínica

Embora apenas o médico possa definir o tratamento adequado, muitos leitores têm curiosidade sobre as doses habitualmente empregadas.

A tabela abaixo apresenta apenas valores usuais para adultos.

Atenção: Obtenha sempre orientação médica para o uso de medicamentos ou alteração de dose. Este diagrama é de caráter apenas informativo.

 

Medicamento Dose inicial habitual Faixa terapêutica mais utilizada
Fluoxetina 20 mg/dia 20–60 mg/dia
Sertralina 50 mg/dia 50–200 mg/dia
Escitalopram 10 mg/dia 10–20 mg/dia
Citalopram 20 mg/dia 20–40 mg/dia*
Paroxetina 20 mg/dia 20–50 mg/dia
Venlafaxina XR 75 mg/dia 75–225 mg/dia
Desvenlafaxina 50 mg/dia 50–100 mg/dia
Duloxetina 30–60 mg/dia 60–120 mg/dia
Bupropiona XR 150 mg/dia 150–300 mg/dia
Mirtazapina 15 mg/noite 15–45 mg/noite
Trazodona 50–150 mg/noite 150–300 mg/dia (quando antidepressivo)

*Em muitos pacientes, especialmente idosos ou pessoas com risco de prolongamento do intervalo QT, recomenda-se não ultrapassar 20 mg/dia.

 

Os antidepressivos causam dependência?

Essa talvez seja uma das maiores preocupações dos pacientes. A resposta, na imensa maioria dos casos, é não. Antidepressivos não produzem dependência química da mesma forma que álcool, nicotina, opioides ou benzodiazepínicos.

Entretanto, a interrupção abrupta de alguns medicamentos pode provocar sintomas transitórios, conhecidos como síndrome de descontinuação, incluindo tontura, sensação de choques elétricos (“brain zaps”), irritabilidade, insônia e mal-estar geral (Warner et al., 2006).

Por isso, quando chega o momento de interromper o tratamento, a redução costuma ser feita gradualmente e sob orientação médica.

 

Quando o remédio não resolve tudo

Talvez uma das maiores mudanças da psiquiatria moderna tenha sido compreender que medicamentos são extremamente importantes, mas raramente representam toda a solução.

É aqui que entra a Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC). Desenvolvida por Aaron Beck, a TCC parte da ideia de que pensamentos, emoções e comportamentos influenciam-se mutuamente (Beck, 1979).

Ela ajuda o paciente a reconhecer padrões automáticos de pensamento, interpretar situações de maneira mais realista e desenvolver estratégias para enfrentar problemas cotidianos.

Estudos mostram que a TCC apresenta eficácia comparável à farmacoterapia em muitos casos de depressão leve e moderada e, quando associada aos antidepressivos, reduz o risco de recaídas, especialmente nos quadros recorrentes (Cuijpers et al., 2023).

Isso não significa que a psicoterapia substitua o psiquiatra. Nem que o psiquiatra substitua a psicoterapia. Na verdade, ambos costumam funcionar melhor quando trabalham juntos.

 

Resumo Prático

✔ Antidepressivos ajudam a corrigir alterações biológicas importantes.

✔ A TCC ensina novas formas de interpretar e enfrentar as dificuldades da vida.

✔ Em muitos pacientes, a combinação das duas estratégias produz resultados superiores aos obtidos com qualquer uma delas isoladamente.

 

Quando a resposta não é suficiente

Apesar dos enormes avanços das últimas décadas, aproximadamente um terço dos pacientes não responde adequadamente ao primeiro antidepressivo utilizado (Rush et al., 2006).

Foi justamente essa limitação que impulsionou o desenvolvimento de novas abordagens terapêuticas.

Nas duas últimas décadas surgiram tratamentos capazes de modificar profundamente a forma como entendemos a depressão resistente.

Entre eles destacam-se a estimulação magnética transcraniana (EMT), a esketamina intranasal, a redescoberta da eletroconvulsoterapia (ECT) em indicações precisas e, mais recentemente, pesquisas promissoras envolvendo psicodélicos em ambientes altamente controlados. Esses avanços serão o tema da próxima parte deste artigo.

 

Na Parte III, veremos como a psiquiatria entrou definitivamente na era da medicina de precisão: estimulação magnética transcraniana, cetamina, eletroconvulsoterapia moderna, farmacogenômica aplicada, eixo intestino-cérebro, exercício físico, sono, alimentação e medicina do estilo de vida como pilares fundamentais no tratamento dos transtornos depressivos.

 

Referências

BECK, A. T. Cognitive Therapy of Depression. New York: Guilford Press, 1979.

CIPRIANI, A. et al. Comparative efficacy and acceptability of 21 antidepressant drugs for the acute treatment of adults with major depressive disorder: a systematic review and network meta-analysis. The Lancet, London, v. 391, n. 10128, p. 1357–1366, 2018.

CUIJPERS, P. et al. Psychological treatment of depression: current status and future directions. World Psychiatry, v. 22, n. 3, p. 366–393, 2023.

KENNEDY, S. H. et al. Canadian Network for Mood and Anxiety Treatments (CANMAT) 2023 Clinical Guidelines for the Management of Major Depressive Disorder. Canadian Journal of Psychiatry, 2023.

LOPEZ-MUÑOZ, F.; ALAMO, C. Monoaminergic neurotransmission: the history of the discovery of antidepressants. Current Pharmaceutical Design, v. 15, n. 14, p. 1563–1586, 2009.

NATIONAL INSTITUTE FOR HEALTH AND CARE EXCELLENCE (NICE). Depression in adults: treatment and management (NG222). London: NICE, 2022.

RUSH, A. J. et al. Acute and longer-term outcomes in depressed outpatients requiring one or several treatment steps: a STAR*D report. American Journal of Psychiatry, v. 163, n. 11, p. 1905–1917, 2006.

WARNER, C. H. et al. Antidepressant discontinuation syndrome. American Family Physician, v. 74, n. 3, p. 449–456, 2006.

Sair do Abismo: O Que Você Precisa Entender Sobre a Depressão – Parte I — Entendendo a depressão: muito além da “falta de serotonina”

 

A depressão não é preguiça, frescura ou falta de força de vontade. É uma doença complexa que vai muito além de um simples desequilíbrio de serotonina no cérebro. Reduzir a dor de milhões de pessoas a uma única substância química é um erro grave. Esse mito antigo impede tratamentos eficazes e perpetua o sofrimento silencioso de quem finge estar bem.

A ciência moderna mostra que inflamações corporais, traumas profundos e alterações estruturais na mente moldam essa condição. Até as condições do intestino interferem no equilíbrio emocional.

 Ignorar esses fatores sabota a cura e mantém você preso a soluções superficiais. Está na hora de quebrar o tabu e encarar a verdadeira anatomia do transtorno. Entenda o que acontece no corpo e na mente e finalmente encare um tratamento para valer.

 

Disclaimer

Este artigo tem finalidade exclusivamente educativa e não substitui avaliação médica ou psicológica. O diagnóstico e o tratamento dos transtornos depressivos devem ser realizados por profissionais habilitados. Em caso de pensamentos suicidas ou sofrimento psíquico intenso, procure atendimento médico imediatamente.

 

Quando a tristeza deixa de ser apenas tristeza

Todos nós experimentamos tristeza. Ela faz parte da condição humana. Perdemos pessoas queridas. Enfrentamos frustrações. Passamos por doenças. Mudanças inesperadas. Fracassos. A tristeza, nesses momentos, é uma reação natural e até saudável.

A depressão é outra coisa. Ela não representa fraqueza de caráter, falta de fé, preguiça ou ausência de força de vontade. Também não significa simplesmente “pensar positivo”.

A depressão é uma doença complexa, que modifica o funcionamento do cérebro, do organismo e da maneira como a pessoa percebe a si mesma, o mundo e o futuro (American Psychiatric Association, 2022).

 

Resumo Prático

✔ Toda depressão pode causar tristeza.

✔ Nem toda tristeza é depressão.

✔ A diferença está na intensidade, na duração, no sofrimento e no prejuízo causado à vida da pessoa.

 

Da “melancolia” à neurociência moderna

A depressão acompanha a humanidade há milhares de anos.

Hipócrates, cerca de quatro séculos antes de Cristo, descrevia pacientes com profunda tristeza e desânimo utilizando o termo melancolia, atribuindo seus sintomas ao excesso de “bile negra”.

Durante muitos séculos predominaram explicações filosóficas, religiosas e morais. Em algumas épocas, pessoas deprimidas chegaram a ser consideradas pecadoras, fracas ou até possuídas por forças sobrenaturais.

Somente no século XIX, com os trabalhos de Emil Kraepelin, iniciou-se uma classificação mais científica dos transtornos mentais. Nas décadas seguintes, a psiquiatria passou a distinguir diferentes formas de depressão, culminando nas classificações atuais do DSM-5-TR (American Psychiatric Association, 2022) e da CID-11 (Organização Mundial da Saúde, 2022).

Hoje sabemos que aquilo que chamamos genericamente de “depressão” representa, na verdade, um conjunto de transtornos com causas, apresentações clínicas e respostas ao tratamento bastante variadas.

 

Existem vários tipos de depressão

Um erro comum é imaginar que existe apenas uma depressão. Na realidade, os médicos utilizam o termo transtornos depressivos porque diferentes condições compartilham sintomas semelhantes.

Entre as principais estão:

  • Transtorno Depressivo Maior, caracterizado por episódios de depressão intensa que duram pelo menos duas semanas e comprometem significativamente a vida da pessoa.
  • Transtorno Depressivo Persistente (Distimia), uma forma geralmente mais branda, porém prolongada, na qual o humor deprimido pode persistir durante anos.
  • Depressão perinatal, relacionada à gestação ou ao período após o parto.
  • Transtorno Afetivo Sazonal, mais frequente em regiões com pouca exposição solar durante parte do ano.

Além disso, é importante lembrar que pacientes com transtorno bipolar também podem apresentar episódios depressivos. Nesses casos, entretanto, o tratamento costuma ser diferente, motivo pelo qual identificar corretamente o diagnóstico é fundamental (Malhi et al., 2021).

 

Resumo Prático

A palavra “depressão” engloba diferentes doenças. Por isso, pessoas aparentemente semelhantes podem necessitar de tratamentos completamente diferentes.

 

Diminuição da Serotonina?

Durante muitos anos ensinou-se que a depressão era causada simplesmente pela diminuição da serotonina no cérebro. Essa hipótese ajudou enormemente no desenvolvimento dos antidepressivos modernos. Entretanto, hoje sabemos que ela explica apenas parte do problema.

Uma importante revisão publicada na revista Molecular Psychiatry mostrou que não existem evidências consistentes de que uma simples deficiência de serotonina explique, sozinha, a depressão (Moncrieff et al., 2022). Isso não significa que os antidepressivos deixaram de funcionar; significa apenas que seu mecanismo de ação é muito mais complexo do que se imaginava.

Atualmente, a depressão é compreendida como uma condição multifatorial, envolvendo alterações em diferentes sistemas biológicos que interagem entre si. Entre eles destacam-se:

  • serotonina;
  • noradrenalina;
  • dopamina;
  • glutamato;
  • GABA;
  • processos inflamatórios;
  • hormônios do estresse;
  • neuroplasticidade;
  • fatores genéticos;
  • ambiente;
  • microbiota do intestino;
  • experiências de vida.

É como uma grande orquestra. Quando apenas um instrumento desafina, muitas vezes a música continua agradável.

Mas quando vários instrumentos começam a tocar fora do ritmo ao mesmo tempo, toda a sinfonia perde a harmonia. Algo semelhante parece acontecer na depressão.

 

O cérebro continua capaz de mudar

Uma das descobertas mais animadoras das últimas décadas foi perceber que o cérebro adulto continua produzindo adaptações importantes ao longo da vida. Chamamos isso de neuroplasticidade.

Hoje sabemos que o estresse crônico, a privação de sono, o sedentarismo, processos inflamatórios persistentes e alguns episódios depressivos podem reduzir essa capacidade adaptativa.

Por outro lado, antidepressivos, atividade física regular, psicoterapia, sono adequado e alguns tratamentos modernos parecem estimular mecanismos de reparo cerebral mediados, entre outros fatores, pelo BDNF (Brain-Derived Neurotrophic Factor), uma proteína envolvida na sobrevivência e na formação de novas conexões entre os neurônios (Duman; Monteggia, 2006). Essa talvez seja uma das mensagens mais importantes deste capítulo:

O cérebro deprimido não está condenado. Ele mantém capacidade de reorganização e recuperação.

 

Resumo Prático

A depressão não “estraga” definitivamente o cérebro. O cérebro conserva uma extraordinária capacidade de adaptação quando recebe o tratamento adequado.

 

O intestino conversa com o cérebro

Durante muito tempo acreditava-se que cérebro e intestino funcionavam quase independentemente. Hoje sabemos exatamente o contrário.

Trilhões de microrganismos vivem normalmente em nosso intestino formando a chamada microbiota intestinal.

Essas bactérias produzem substâncias capazes de influenciar o sistema imunológico, o metabolismo e até a comunicação entre o intestino e o cérebro. Esse sistema ficou conhecido como eixo intestino-cérebro.

Diversos estudos sugerem que alterações da microbiota podem participar da inflamação sistêmica, modificar a produção de metabólitos neuroativos e influenciar sintomas depressivos em parte dos pacientes (Cryan et al., 2019).

Isso não significa que a depressão seja causada apenas pelas bactérias intestinais, nem que probióticos curem depressão. Mas significa que alimentação, microbiota e saúde mental passaram definitivamente a fazer parte da mesma conversa científica.

Nos próximos anos provavelmente veremos avanços importantes nessa área.

 

A genética explica tudo?

Também não.

Sabemos hoje que centenas — provavelmente milhares — de variantes genéticas contribuem discretamente para aumentar ou diminuir o risco de desenvolver depressão (Howard et al., 2019). Nenhum gene determina sozinho quem ficará deprimido.

O que existe é uma interação permanente entre predisposição genética e ambiente. Traumas. Perdas. Privação de sono. Sedentarismo. Alimentação. Uso de álcool. Relacionamentos. Estresse. Tudo isso conversa com a genética ao longo da vida.

A farmacogenômica também começa a ganhar espaço. Testes envolvendo genes como CYP2D6 e CYP2C19 podem, em situações selecionadas, auxiliar na escolha ou no ajuste da dose de alguns antidepressivos, embora ainda não sejam indicados de forma rotineira nem estejam acessíveis para todos os pacientes (CPIC, 2023).

 

Resumo Geral da Parte I

✔ Depressão não é sinônimo de tristeza.

✔ Existem diferentes transtornos depressivos.

✔ A antiga teoria da serotonina explica apenas parte da doença.

✔ Hoje sabemos que inflamação, genética, neuroplasticidade, hormônios do estresse e microbiota também participam do processo.

✔ A boa notícia é que compreender essa complexidade ampliou enormemente as possibilidades de tratamento.

 

Na próxima parte…

Se hoje sabemos que a depressão é muito mais complexa do que imaginávamos, surge uma pergunta inevitável: Como tratar uma doença tão complexa?

Na próxima parte, percorreremos a fascinante história dos antidepressivos — dos antigos inibidores da monoaminoxidase às modernas terapias com esketamina —, discutiremos psicoterapia cognitivo-comportamental, estimulação magnética transcraniana, eletroconvulsoterapia, farmacogenômica aplicada e o que há de mais atual no tratamento dos transtornos depressivos.

 

Referências

AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION. Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders: DSM-5-TR. 5. ed., text rev. Arlington: American Psychiatric Association Publishing, 2022.

CLINICAL PHARMACOGENETICS IMPLEMENTATION CONSORTIUM (CPIC). Clinical Pharmacogenetics Implementation Consortium (CPIC) Guideline for CYP2D6, CYP2C19 and selective serotonin reuptake inhibitors. Clinical Pharmacology & Therapeutics, v. 114, 2023.

CRYAN, J. F. et al. The microbiota-gut-brain axis. Physiological Reviews, Bethesda, v. 99, n. 4, p. 1877–2013, 2019.

DUMAN, R. S.; MONTEGGIA, L. M. A neurotrophic model for stress-related mood disorders. Biological Psychiatry, v. 59, n. 12, p. 1116–1127, 2006.

HOWARD, D. M. et al. Genome-wide meta-analysis of depression identifies 102 independent variants and highlights the importance of the prefrontal brain regions. Nature Neuroscience, v. 22, p. 343–352, 2019.

MALHI, G. S. et al. Royal Australian and New Zealand College of Psychiatrists clinical practice guidelines for mood disorders. Australian & New Zealand Journal of Psychiatry, v. 55, n. 1, p. 7–117, 2021.

MONCRIEFF, J. et al. The serotonin theory of depression: a systematic umbrella review of the evidence. Molecular Psychiatry, v. 28, p. 3243–3256, 2023.

ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE. International Classification of Diseases 11th Revision (ICD-11). Geneva: World Health Organization, 2022.

O Fenômeno da Berberina: O que a Ciência Realmente Diz sobre o “Ozempic Natural”

 

Nos últimos anos, a berberina ganhou enorme destaque nas redes sociais e passou a ser divulgada como o chamado “Ozempic natural”. Extraída de plantas como Berberis aristata e utilizada há séculos na medicina tradicional chinesa, ela despertou o interesse de milhões de pessoas em busca de emagrecimento, controle da glicemia e melhora da saúde metabólica.

Entretanto, essa comparação merece cautela. Embora a berberina compartilhe alguns efeitos metabólicos indiretos com medicamentos como a semaglutida, seus mecanismos de ação são completamente diferentes. Ela não é um agonista do receptor de GLP-1, como o Ozempic, nem produz perdas de peso comparáveis às observadas com esses medicamentos. O apelido tornou-se popular principalmente como estratégia de marketing, e não como uma descrição científica precisa.

A questão realmente importante é outra: o que as melhores evidências científicas mostram sobre a berberina?

 

Como a Berberina Atua no Organismo?

Diferentemente de muitos medicamentos sintéticos, que agem sobre um único alvo molecular, a berberina apresenta uma ação multifatorial, influenciando diversas vias metabólicas simultaneamente.

Seu mecanismo mais bem estabelecido é a ativação da AMPK (proteína quinase ativada por AMP), frequentemente chamada de “interruptor metabólico” das células. Quando ativada, essa enzima favorece a utilização de energia, melhora a resposta dos tecidos à insulina e reduz a produção excessiva de glicose pelo fígado (ZHANG et al., 2008).

Entre seus principais efeitos estão:

  • Melhora da sensibilidade à insulina: aumenta a captação de glicose pelo músculo esquelético por meio dos transportadores GLUT4, utilizando uma via parcialmente independente da insulina (LEE et al., 2006).
  • Redução da produção hepática de glicose: diminui a gliconeogênese, contribuindo para o controle da glicemia de jejum.
  • Melhora do perfil lipídico: aumenta a expressão dos receptores hepáticos de LDL por um mecanismo diferente daquele utilizado pelas estatinas, favorecendo a remoção do colesterol LDL da circulação (KONG et al., 2004).

Nos últimos anos, novos estudos também demonstraram que seus efeitos vão além da AMPK. A berberina parece modular processos inflamatórios, melhorar a função mitocondrial, influenciar proteínas relacionadas ao metabolismo energético, como a SIRT1, e exercer efeitos sobre o eixo intestino-microbiota.

Outro aspecto interessante é sua baixa biodisponibilidade oral: menos de 5% da substância é absorvida diretamente. Isso faz com que grande parte permaneça no intestino, onde interage com a microbiota intestinal. Estudos experimentais e alguns estudos clínicos sugerem que essa modulação da microbiota possa contribuir para seus benefícios metabólicos, embora esse mecanismo ainda precise ser melhor esclarecido em seres humanos (ZHANG et al., 2012).

 

O Que Dizem os Estudos Clínicos?

  1. Diabetes Tipo 2 — Evidência Forte

É na diabetes tipo 2 que a berberina apresenta o conjunto mais consistente de evidências.

Um dos estudos clínicos mais conhecidos demonstrou que pacientes tratados com 500 mg de berberina, três vezes ao dia, apresentaram reduções da hemoglobina glicada (HbA1c) e da glicemia semelhantes às observadas com a metformina naquele estudo (YIN; XING; YE, 2008).

Diversas revisões sistemáticas publicadas posteriormente confirmaram melhora da glicemia de jejum, da HbA1c e da resistência à insulina, especialmente quando a berberina é utilizada como tratamento complementar e não como substituta da terapia convencional.

  1. Dislipidemia e Síndrome Metabólica — Evidência Moderada a Forte

Outra indicação bastante promissora é o tratamento da dislipidemia.

Meta-análises envolvendo diversos ensaios clínicos demonstram reduções significativas do colesterol total, colesterol LDL e triglicerídeos, acompanhadas de discreto aumento do colesterol HDL (JU et al., 2018).

Esses resultados tornam a berberina uma alternativa interessante como terapia complementar, principalmente em indivíduos com dislipidemia leve ou naqueles que apresentam intolerância às estatinas.

  1. Emagrecimento — Evidência Moderada

É justamente nesse ponto que existe maior distância entre o entusiasmo das redes sociais e a realidade científica.

Embora alguns estudos mostrem redução do peso corporal, da circunferência abdominal e da gordura visceral, os resultados são modestos quando comparados aos obtidos com agonistas modernos do GLP-1.

As revisões sistemáticas mais recentes sugerem uma perda média entre 1,5 e 2,5 kg, geralmente após aproximadamente 12 semanas de suplementação, variando conforme a população estudada e as intervenções associadas (ASBAGHI et al., 2020).

Isso indica que a berberina pode contribuir para o emagrecimento principalmente ao melhorar a resistência à insulina, reduzir a inflamação metabólica e favorecer um ambiente hormonal mais saudável. Entretanto, ela está longe de representar uma solução isolada para obesidade.

 

Outras Aplicações Promissoras

Além das indicações já estabelecidas, a berberina vem sendo investigada em outras condições metabólicas.

Entre elas destacam-se:

  • resistência à insulina;
  • pré-diabetes;
  • síndrome dos ovários policísticos (SOP);
  • doença hepática gordurosa associada à disfunção metabólica (esteatose hepática).

Embora os resultados iniciais sejam animadores, ainda são necessários estudos maiores e de longo prazo para definir seu verdadeiro papel nessas situações.

 

Segurança e Possíveis Interações

Por ser um composto de origem vegetal, muitas pessoas acreditam que a berberina seja totalmente isenta de riscos. Essa ideia é equivocada.

Os efeitos adversos mais frequentemente observados são gastrointestinais e incluem:

  • constipação;
  • diarreia;
  • desconforto abdominal;
  • cólicas;
  • flatulência;
  • náuseas.

Em geral, esses sintomas tendem a ser leves e dependem da dose utilizada (YIN; XING; YE, 2008).

Outro aspecto importante diz respeito às interações medicamentosas.

Estudos demonstram que a berberina pode inibir enzimas do sistema citocromo P450 — especialmente CYP3A4, CYP2D6 e CYP2C9 — além de interferir na glicoproteína P. Como consequência, alguns medicamentos podem permanecer por mais tempo na circulação, aumentando o risco de efeitos adversos.

Por esse motivo, pacientes que utilizam anticoagulantes, imunossupressores, antiarrítmicos, hipoglicemiantes ou outros medicamentos de uso contínuo devem utilizar a berberina somente com acompanhamento profissional.

 

Afinal, Vale a Pena Utilizar?

A resposta mais equilibrada é: sim, quando existe uma indicação clínica bem definida.

As evidências atuais sustentam seu uso como terapia complementar em pacientes com resistência à insulina, pré-diabetes, diabetes tipo 2 e dislipidemia leve, sempre integrada a mudanças no estilo de vida e ao tratamento convencional quando necessário.

Entretanto, seu potencial costuma ser exagerado nas redes sociais. A berberina não substitui alimentação adequada, atividade física, controle do sono nem medicamentos prescritos quando estes são realmente indicados.

Em outras palavras, ela não é uma “pílula mágica” para emagrecer. É uma ferramenta terapêutica interessante, respaldada por evidências científicas, mas que deve ser utilizada dentro de uma estratégia abrangente de cuidado metabólico.

Aviso Importante (Disclaimer): Este artigo tem finalidade exclusivamente informativa e não substitui avaliação médica individualizada. Embora seja um fitoterápico, a berberina possui atividade farmacológica significativa e pode interagir com diversos medicamentos, além de influenciar o metabolismo da glicose e do fígado. Seu uso deve ser orientado por profissional habilitado, especialmente em pessoas com doenças crônicas, e deve ser evitado por gestantes, lactantes e pacientes que utilizam vários medicamentos de uso contínuo.

 

Referências

ASBAGHI, Omid et al. The effects of berberine supplementation on cardiovascular risk factors in adults: A systematic review and dose-response meta-analysis of randomized controlled trials. Critical Reviews in Food Science and Nutrition, v. 60, n. 18, p. 3105–3125, 2020.

JU, Jianping et al. Efficacy and safety of berberine for dyslipidaemia: A systematic review and meta-analysis of randomized clinical trials. Phytomedicine, v. 50, p. 25–34, 2018.

KONG, Weijia et al. Berberine is a novel cholesterol-lowering drug working through a unique mechanism distinct from statins. Nature Medicine, v. 10, n. 12, p. 1344–1351, 2004.

LEE, Min-Seok et al. Berberine stimulates glucose transport through a mechanism distinct from insulin. Diabetes, v. 55, n. 8, p. 2256–2264, 2006.

YIN, Jun; XING, Huili; YE, Jianping. Efficacy of berberine in patients with type 2 diabetes mellitus. Metabolism, v. 57, n. 5, p. 712–717, 2008.

ZHANG, Yan et al. Treatment of type 2 diabetes and dyslipidemia with the natural plant alkaloid berberine. The Journal of Clinical Endocrinology & Metabolism, v. 93, n. 7, p. 2559–2565, 2008.

ZHANG, Xu et al. Structural changes of gut microbiota during berberine-mediated prevention of obesity and insulin resistance in high-fat diet-fed rats. PLoS ONE, v. 7, n. 8, e42529, 2012.

Jejum Intermitente: Ciência, Promessas, Benefícios e Mitos – Parte 1 de 3

 

 

O Fascínio Humano Pelo Jejum

Poucos temas despertam tanta curiosidade atualmente quanto o jejum intermitente.

Para alguns, ele representa uma ferramenta poderosa para perda de peso e melhora metabólica. Para outros, tornou-se quase uma filosofia de vida. Nas redes sociais, não faltam promessas de rejuvenescimento, longevidade, “limpeza” do organismo e até prevenção de praticamente todas as doenças conhecidas.

Como costuma acontecer quando um tema científico ganha popularidade, a verdade encontra-se em algum lugar entre o entusiasmo exagerado e o ceticismo absoluto.

O jejum não é uma invenção moderna. Na realidade, acompanha a humanidade há milênios.

Diversas tradições religiosas incorporaram períodos de abstinência alimentar muito antes de a ciência começar a estudar seus efeitos fisiológicos. Cristianismo, judaísmo, islamismo, hinduísmo e budismo possuem práticas de jejum documentadas há séculos.

Do ponto de vista adaptativo, nossos ancestrais também experimentavam naturalmente períodos de escassez alimentar. O organismo humano desenvolveu mecanismos sofisticados para sobreviver a essas fases sem acesso contínuo à comida.

A ciência moderna passou a investigar se tais adaptações poderiam trazer benefícios além da simples sobrevivência.

 

AVISO LEGAL (DISCLAIMER)

Este artigo tem finalidade exclusivamente informativa e educacional. Seu conteúdo não constitui prescrição médica, nutricional ou terapêutica e não deve ser utilizado para diagnóstico, prevenção ou tratamento de doenças.

As evidências científicas sobre jejum intermitente continuam em evolução. Nem todos os indivíduos são candidatos apropriados para essa estratégia alimentar. Crianças, adolescentes em fase de crescimento, gestantes, lactantes, pessoas com transtornos alimentares, indivíduos desnutridos ou portadores de determinadas doenças devem ser avaliados individualmente por profissionais de saúde habilitados.

Antes de iniciar qualquer protocolo de jejum, consulte seu médico e demais profissionais de saúde responsáveis pelo seu acompanhamento.

 

 

O Que é Jejum Intermitente?

O termo “jejum intermitente” não descreve uma dieta específica, mas um padrão alimentar.

Diferentemente das dietas tradicionais, que se concentram principalmente em “o que comer”, o jejum intermitente enfatiza “quando comer”.

Existem diversas modalidades:

 

Restrição de Tempo Alimentar (Time-Restricted Eating)

A mais popular atualmente.

O indivíduo concentra sua alimentação em uma janela específica do dia.

Exemplos:

  • 12:12 (12 horas de alimentação e 12 de jejum)
  • 14:10
  • 16:8
  • 18:6

 

Dieta 5:2

A pessoa se alimenta normalmente durante cinco dias da semana e reduz drasticamente a ingestão calórica em dois dias não consecutivos.

 

Jejum em Dias Alternados

Alternância entre dias de alimentação habitual e dias de grande restrição energética.

Cada modalidade possui características próprias, vantagens e limitações.

 

Como o Assunto Entrou na Literatura Científica?

Embora estudos metabólicos sobre privação alimentar existam há muitas décadas, o interesse científico moderno pelo jejum intensificou-se especialmente a partir dos anos 1990 e 2000.

Inicialmente, boa parte das pesquisas ocorreu em modelos animais.

Roedores submetidos a protocolos de restrição alimentar apresentavam alterações metabólicas intrigantes:

  • melhora da sensibilidade à insulina;
  • redução de gordura corporal;
  • alterações em vias inflamatórias;
  • aumento da resistência celular ao estresse.

Esses resultados estimularam uma explosão de pesquisas em humanos nas décadas seguintes.

 

Yoshinori Ohsumi e a Descoberta que Ressignificou o Jejum

É impossível falar sobre jejum sem mencionar o cientista japonês Yoshinori Ohsumi.

Em 2016, Ohsumi recebeu o Prêmio Nobel de Fisiologia ou Medicina por seus trabalhos fundamentais na compreensão da autofagia.

O termo autofagia significa literalmente “comer a si mesmo”.

Apesar do nome parecer alarmante, trata-se de um mecanismo essencial à vida.

As células constantemente produzem proteínas defeituosas, organelas envelhecidas e componentes danificados. A autofagia funciona como um sofisticado sistema de reciclagem celular, removendo estruturas comprometidas e reutilizando seus componentes.

O grande mérito de Ohsumi foi identificar genes e mecanismos fundamentais envolvidos nesse processo, utilizando inicialmente leveduras como modelo experimental. Seu trabalho permitiu compreender como as células regulam a reciclagem interna e abriu caminho para milhares de pesquisas subsequentes envolvendo envelhecimento, câncer, neurodegeneração e metabolismo.

Entretanto, um ponto importante merece destaque.

A descoberta de Ohsumi não demonstrou que jejum intermitente cura doenças nem estabeleceu um protocolo específico de horas de jejum para humanos.

Essa associação surgiu posteriormente, quando pesquisadores observaram que períodos de restrição energética podem ativar vias celulares relacionadas à autofagia. A intensidade, duração e relevância clínica desse fenômeno em seres humanos ainda permanecem objeto de investigação científica.

Muitas afirmações populares sobre “24 horas”, “48 horas” ou “72 horas” para ativar autofagia extrapolam significativamente aquilo que a literatura científica consegue afirmar com segurança atualmente.

 

O Que Acontece no Organismo Durante o Jejum?

Após uma refeição, o organismo utiliza principalmente a glicose proveniente dos alimentos como fonte energética.

Com o passar das horas sem alimentação, ocorrem mudanças graduais:

  1. Redução dos níveis de insulina.
  2. Mobilização das reservas de glicogênio hepático.
  3. Aumento progressivo da utilização de gordura corporal como combustível.
  4. Produção de corpos cetônicos em jejuns mais prolongados.

Essas alterações não acontecem de forma abrupta nem seguem exatamente os mesmos tempos em todas as pessoas.

Fatores como:

  • idade;
  • sexo;
  • composição corporal;
  • atividade física;
  • estado metabólico;
  • quantidade de carboidratos consumidos previamente;

podem modificar significativamente a resposta individual.

 

O Que Dizem as Melhores Evidências Atuais?

Uma das análises mais abrangentes publicadas recentemente foi uma revisão “umbrella” (revisão de revisões sistemáticas e metanálises) envolvendo estudos randomizados sobre jejum intermitente.

Publicada em 2024 na revista eClinicalMedicine (grupo Lancet), a revisão concluiu que existem evidências razoavelmente consistentes para perda de peso, melhora da resistência à insulina e alguns parâmetros cardiometabólicos, especialmente em indivíduos com excesso de peso ou obesidade (SUN et al., 2024).

Entretanto, os autores também ressaltaram que a qualidade das evidências varia conforme o desfecho estudado e que muitas perguntas importantes ainda permanecem sem resposta.

Em outras palavras:

O jejum intermitente possui potencial terapêutico real.

Mas não constitui a solução universal frequentemente apresentada nas redes sociais.

 

O Primeiro Grande Alerta: Benefícios Não Significam Milagres

Talvez o maior erro da divulgação popular seja transformar resultados promissores em promessas extraordinárias.

A literatura científica atual sugere benefícios plausíveis para:

  • perda de peso;
  • resistência à insulina;
  • saúde metabólica;
  • alguns marcadores cardiovasculares.

Por outro lado, não existem evidências robustas demonstrando que o jejum intermitente seja uma cura para câncer, demência, doenças autoimunes ou envelhecimento.

A boa ciência costuma avançar mais lentamente do que os vídeos de internet.

E isso é algo positivo.

Na próxima parte abordaremos os benefícios clinicamente demonstrados, os riscos, as contraindicações, os exageros midiáticos e o que as pesquisas mais recentes revelam sobre perda de peso e saúde metabólica.

 

REFERÊNCIAS

OHSUMI, Y. Historical landmarks of autophagy research. Cell Research, v. 24, n. 1, p. 9–23, 2014.

SUN, Ming-Li et al. Intermittent fasting and health outcomes: an umbrella review of systematic reviews and meta-analyses of randomised controlled trials. ClinicalMedicine, v. 70, 102519, 2024.

CONSTIPAÇÃO INTESTINAL: MUITO ALÉM DE “IR AO BANHEIRO POUCAS VEZES” – PARTE 1

 

A constipação intestinal é uma das queixas gastrointestinais mais frequentes na prática clínica, afetando aproximadamente 10% a 20% da população adulta mundial, com maior prevalência entre mulheres, idosos e indivíduos fisicamente inativos (Black & Ford, 2018).

Embora frequentemente seja entendida apenas como a diminuição do número de evacuações, a constipação representa uma condição muito mais complexa. Ela pode envolver esforço excessivo para evacuar, fezes endurecidas, sensação de evacuação incompleta, necessidade de manobras auxiliares e importante impacto na qualidade de vida.

Nas últimas décadas, o conhecimento científico sobre a constipação avançou significativamente. Evidências crescentes sugerem que fatores relacionados ao estilo de vida, alimentação, microbiota intestinal, hidratação, atividade física, qualidade do sono e organização do ritmo circadiano influenciam a função intestinal e podem contribuir para o desenvolvimento ou perpetuação da constipação em parte dos indivíduos.

Além do desconforto cotidiano, a constipação pode associar-se a complicações locais, aumento da utilização dos serviços de saúde e piora da qualidade de vida, especialmente quando se torna crônica.


Aviso Importante

As informações apresentadas neste artigo possuem finalidade exclusivamente educativa e informativa. Elas não substituem consulta médica, diagnóstico individualizado ou acompanhamento profissional.

A constipação intestinal pode resultar de múltiplas condições clínicas, incluindo doenças gastrointestinais, endocrinológicas, neurológicas, metabólicas e efeitos adversos de medicamentos. Por esse motivo, sintomas persistentes ou recorrentes devem ser avaliados por um profissional de saúde.

O uso inadequado de laxantes, fitoterápicos ou suplementos pode provocar efeitos adversos, mascarar doenças subjacentes e retardar diagnósticos importantes.

Procure avaliação médica especialmente se a constipação estiver associada a:

  • sangue nas fezes;
  • anemia;
  • perda de peso involuntária;
  • dor abdominal progressiva;
  • vômitos persistentes;
  • início recente dos sintomas após os 50 anos;
  • histórico familiar de câncer colorretal;
  • histórico familiar de doença inflamatória intestinal;
  • mudança persistente do hábito intestinal.

O que é constipação intestinal?

Não existe uma definição única baseada exclusivamente na frequência evacuatória.

Embora evacuar menos de três vezes por semana seja um dos critérios tradicionalmente utilizados, muitas pessoas evacuam diariamente e ainda assim apresentam sintomas compatíveis com constipação.

Segundo os Critérios de Roma IV (Drossman et al., 2016), o diagnóstico de constipação funcional pode ser estabelecido quando o indivíduo apresenta pelo menos dois dos seguintes sintomas em mais de 25% das evacuações:

  • esforço evacuatório;
  • fezes endurecidas ou fragmentadas;
  • sensação de evacuação incompleta;
  • sensação de bloqueio ou obstrução anorretal;
  • necessidade de manobras digitais;
  • menos de três evacuações espontâneas por semana.

Essa definição reflete melhor a experiência real dos pacientes do que a simples contagem de evacuações.


A importância da consistência das fezes

A consistência das fezes frequentemente fornece informações mais úteis do que a frequência evacuatória isolada.

A Escala de Bristol, proposta por Lewis e Heaton (1997), classifica as fezes em sete categorias.

Padrões mais associados à constipação

Tipo 1

Pequenos fragmentos endurecidos, semelhantes a bolinhas.

Tipo 2

Fezes em formato de salsicha, porém endurecidas e grumosas.

Esses padrões geralmente refletem trânsito intestinal mais lento e maior reabsorção de água no cólon.

Por outro lado, os tipos 3 e 4 costumam representar o padrão considerado mais fisiológico.


Como o estilo de vida influencia o intestino?

1. Hidratação

A água participa diretamente da formação e hidratação do bolo fecal.

Quando a ingestão hídrica é insuficiente, o organismo tende a aumentar a reabsorção de líquidos no intestino grosso, favorecendo o endurecimento das fezes.

É importante destacar que aumentar a ingestão de água nem sempre resolve a constipação crônica em indivíduos já adequadamente hidratados. Entretanto, a desidratação pode agravar significativamente o problema.

Estudos observacionais mostram associação entre baixa ingestão de líquidos e maior prevalência de constipação (Markland et al., 2013).


2. Dieta pobre em fibras

As fibras alimentares exercem múltiplos efeitos benéficos sobre o funcionamento intestinal.

Elas:

  • aumentam o volume fecal;
  • favorecem a retenção de água nas fezes;
  • estimulam mecanicamente a motilidade intestinal;
  • servem como substrato para a microbiota intestinal.

A alimentação ocidental moderna, frequentemente rica em alimentos ultraprocessados e pobre em vegetais, frutas e leguminosas, está associada a menor ingestão de fibras e maior prevalência de constipação (Makki et al., 2018).

Fontes importantes incluem:

  • frutas;
  • verduras;
  • legumes;
  • feijões;
  • lentilhas;
  • sementes;
  • cereais integrais.

 

3. Sedentarismo

A atividade física parece exercer efeito favorável sobre a motilidade gastrointestinal.

Estudos clínicos e observacionais sugerem que indivíduos fisicamente ativos apresentam menor prevalência de constipação e melhor trânsito intestinal quando comparados aos sedentários (De Schryver et al., 2005).

Embora o exercício não seja uma solução universal, ele constitui uma das intervenções não farmacológicas mais recomendadas pelas diretrizes atuais.


4. Ignorar o reflexo evacuatório

O desejo de evacuar resulta de reflexos fisiológicos complexos.

Adiar repetidamente a evacuação por motivos profissionais, sociais ou comportamentais pode contribuir para redução progressiva da sensibilidade retal e piora dos sintomas ao longo do tempo.

Por essa razão, recomenda-se respeitar o reflexo evacuatório sempre que possível.


5. Sono e ritmo circadiano

O trato gastrointestinal possui mecanismos regulatórios que acompanham o ciclo sono-vigília.

A motilidade intestinal tende a aumentar após o despertar e após as refeições, especialmente devido ao reflexo gastrocólico.

Estudos experimentais sugerem que alterações do ritmo circadiano podem influenciar a microbiota intestinal, a motilidade gastrointestinal e a função metabólica (Voigt et al., 2016).

Embora a relação causal ainda esteja sendo investigada, indivíduos submetidos a privação crônica de sono ou trabalho em turnos apresentam maior frequência de queixas gastrointestinais, incluindo constipação.


Constipação e microbiota intestinal

Uma das áreas mais ativas da gastroenterologia contemporânea é o estudo da microbiota intestinal.

Diversos estudos demonstraram diferenças na composição microbiana entre indivíduos com constipação crônica e indivíduos sem sintomas (Ohkusa et al., 2019).

Entre os mecanismos potencialmente envolvidos destacam-se:

  • alterações na fermentação das fibras;
  • redução da produção de ácidos graxos de cadeia curta;
  • modulação da motilidade intestinal;
  • alterações na comunicação entre intestino e sistema nervoso central.

O butirato, um ácido graxo produzido pela fermentação bacteriana das fibras, parece exercer papel relevante na fisiologia colônica.

Apesar dos avanços recentes, ainda não existe uma assinatura microbiológica única capaz de explicar todos os casos de constipação, o que reforça o caráter multifatorial da doença.

CONTINUA NA PARTE 2

Medicinas Tradicionais: O Que Funciona, o Que Não Funciona e o Que Pode Fazer Mal

 

 

Há milhares de anos, a humanidade recorre a chás, ervas medicinais, agulhas, banhos, massagens e rituais para aliviar dores e tratar enfermidades. Muito antes do surgimento dos antibióticos, dos exames laboratoriais e das cirurgias modernas, a observação cuidadosa da natureza constituía praticamente a única ferramenta terapêutica disponível.

A chamada medicina tradicional engloba sistemas complexos e culturalmente ricos, como a Medicina Tradicional Chinesa, a Ayurveda indiana, as medicinas indígenas, as práticas populares europeias e inúmeras formas de fitoterapia desenvolvidas ao longo da história humana.

Algumas dessas práticas deram origem a medicamentos revolucionários. Outras mostraram benefícios parciais. Algumas revelaram-se ineficazes. E algumas, infelizmente, demonstraram potencial para causar danos importantes.

A grande questão enfrentada pela medicina moderna não é se uma prática é antiga ou recente. A pergunta central é outra:

Ela funciona?

E, igualmente importante:

Ela é segura?

A medicina baseada em evidências procura responder essas perguntas por meio de estudos clínicos rigorosos, revisões sistemáticas e metanálises. Contudo, existe um obstáculo econômico frequentemente ignorado.

Muitos remédios tradicionais derivam de plantas, minerais ou conhecimentos ancestrais que não podem ser patenteados. Como os custos para realizar ensaios clínicos de alta qualidade frequentemente ultrapassam milhões de dólares, há pouco incentivo econômico para que empresas privadas financiem pesquisas extensas sobre produtos que não gerarão exclusividade comercial.

Consequentemente, muitas práticas tradicionais permanecem em uma zona cinzenta: não porque tenham sido refutadas, mas porque jamais foram adequadamente estudadas.

Ainda assim, a ciência vem avançando rapidamente. Para compreender melhor esse cenário, podemos organizar as práticas tradicionais em cinco grandes categorias, que apresentaremos a seguir.

 

 

Disclaimer

Este artigo possui caráter exclusivamente informativo e educacional. Não pretende diagnosticar doenças, prescrever tratamentos ou substituir a avaliação individualizada realizada por médicos e outros profissionais de saúde devidamente habilitados. Toda decisão terapêutica deve ser tomada de forma personalizada, considerando as características clínicas de cada paciente.

 

  1. Práticas Consagradas e com Eficácia Cientificamente Demonstrada

Nesta categoria encontram-se terapias que nasceram em tradições antigas, mas que acumularam evidências científicas suficientemente robustas para justificar sua utilização complementar em determinadas situações clínicas.

Isso não significa que substituam tratamentos convencionais. Significa que possuem benefícios demonstráveis quando utilizadas de forma apropriada.

 

Acupuntura

A acupuntura talvez seja o exemplo mais conhecido.

Uma das maiores análises já realizadas sobre o tema reuniu dados individuais de aproximadamente 20 mil pacientes provenientes de dezenas de ensaios clínicos randomizados. Os resultados mostraram que a acupuntura foi superior tanto à ausência de tratamento quanto à acupuntura simulada no manejo de diversas formas de dor crônica, incluindo osteoartrite, lombalgia e cefaleias (Vickers et al., 2018).

Mais recentemente, um importante estudo multicêntrico randomizado envolvendo pacientes com cefaleia tensional crônica demonstrou redução significativa da frequência das crises em comparação aos grupos-controle (Zheng et al., 2022).

 

Artemísia e o Tratamento da Malária

Um dos maiores sucessos da integração entre tradição e ciência surgiu da Medicina Tradicional Chinesa.

A planta Artemisia annua era utilizada havia séculos para tratar febres. A partir dela foi isolada a artemisinina, substância que revolucionou o tratamento da malária e salvou milhões de vidas em todo o mundo (White, 2008).

O trabalho da pesquisadora chinesa Tu Youyou rendeu o Prêmio Nobel de Medicina em 2015.

 

Crataegus e Insuficiência Cardíaca

Outro exemplo interessante é o Crataegus, conhecido popularmente como espinheiro-alvar.

O estudo multicêntrico SPICE avaliou milhares de pacientes com insuficiência cardíaca leve a moderada e observou melhora de sintomas como fadiga e tolerância ao esforço físico quando utilizado como terapia complementar (Holubarsch et al., 2008).

 

Tai Chi e Exercícios Tradicionais Chineses

O Tai Chi, originalmente desenvolvido como arte marcial, tem demonstrado benefícios em equilíbrio, prevenção de quedas, osteoartrite e fibromialgia.

Uma revisão sistemática publicada no BMJ Open encontrou melhora significativa da função física e da qualidade de vida em idosos praticantes regulares (Huston; McFarlane, 2016).

 

Yoga

A Yoga também deixou de ser apenas uma prática espiritual para tornar-se objeto de investigação científica.

Uma revisão da Cochrane concluiu que a prática regular pode produzir melhora modesta, porém clinicamente relevante, na dor lombar crônica e na funcionalidade (Wieland et al., 2017).

 

Mindfulness e Meditação

Ensaios clínicos publicados no JAMA demonstraram benefícios no manejo da dor crônica, ansiedade, estresse e qualidade de vida, especialmente quando incorporados a programas estruturados de saúde (Cherkin et al., 2016).

 

Balneoterapia e Águas Termais

O uso terapêutico das águas minerais acompanha a humanidade desde a Antiguidade.

Uma revisão sistemática recente mostrou benefícios consistentes na redução da dor e melhora funcional em pacientes com doenças reumatológicas, particularmente artrite reumatoide e osteoartrite (Navarro-Ledesma et al., 2022).

 

2. Práticas com Benefícios Relatados e Evidências Científicas ainda Limitadas

Esta categoria costuma gerar desconforto porque envolve terapias que conquistaram enorme popularidade, mas que, após serem submetidas ao escrutínio científico rigoroso, não demonstraram efeitos específicos além daqueles produzidos pelo efeito placebo.

É importante compreender que “não funcionar além do placebo” não significa que o paciente esteja inventando sua melhora. O efeito placebo é um fenômeno neurobiológico genuíno, capaz de modular circuitos cerebrais relacionados à dor, ansiedade e bem-estar. O problema surge quando se atribui à substância ou técnica um efeito biológico que ela não possui.

O exemplo clássico são os Florais de Bach

Os Florais de Bach constituem outro exemplo frequentemente citado nas discussões sobre terapias complementares. Desenvolvidos na década de 1930 pelo médico britânico Edward Bach, esses preparados são amplamente utilizados em diversos países com o objetivo de promover equilíbrio emocional e bem-estar.

Do ponto de vista científico, os estudos realizados até o momento apresentam resultados limitados e, em geral, não demonstraram benefícios consistentes além daqueles observados nos grupos placebo. Uma revisão sistemática publicada na revista BMC Complementary and Alternative Medicine, que avaliou ensaios clínicos controlados envolvendo florais para ansiedade, estresse e outras condições psicológicas, concluiu que as evidências disponíveis eram insuficientes para demonstrar eficácia específica de forma robusta (Thaler et al., 2009).

Avaliações posteriores da literatura científica chegaram a conclusões semelhantes, destacando a necessidade de estudos metodologicamente mais rigorosos para esclarecer definitivamente o papel terapêutico dessas intervenções (Ernst, 2010).

Por outro lado, muitos usuários relatam benefícios subjetivos relacionados à sensação de acolhimento, autocuidado, tranquilidade e bem-estar emocional durante o uso dos florais. Esses relatos não devem ser desconsiderados, especialmente porque aspectos psicológicos, expectativas positivas e a relação terapêutica podem exercer influência significativa sobre a percepção dos sintomas e da qualidade de vida.

Dessa forma, os Florais de Bach permanecem como uma prática amplamente difundida e bem aceita por parte da população, embora as evidências científicas atualmente disponíveis ainda não permitam confirmar de maneira consistente os mecanismos ou efeitos terapêuticos específicos que lhes são atribuídos.

Talvez poucas práticas médicas complementares tenham sido tão estudadas e debatidas ao longo das últimas décadas como a homeopatia. Diversos ensaios clínicos, revisões sistemáticas e metanálises procuraram avaliar sua eficácia em diferentes condições clínicas, com resultados frequentemente heterogêneos e motivo de intenso debate na comunidade científica.

Uma das análises mais influentes sobre o tema, publicada na revista The Lancet, comparou estudos de homeopatia com estudos de medicina convencional e concluiu que, ao se considerar os ensaios de maior qualidade metodológica, os efeitos observados tendiam a ser compatíveis com respostas placebo (Shang et al., 2005).

Por outro lado, defensores da homeopatia argumentam que sua natureza altamente individualizada dificulta a avaliação por meio dos modelos tradicionais de pesquisa clínica, concebidos principalmente para testar intervenções padronizadas. Essa discussão permanece aberta em alguns círculos acadêmicos e continua sendo objeto de investigação e debate.

Independentemente da interpretação dos mecanismos envolvidos, muitos pacientes relatam melhora subjetiva do bem-estar, da qualidade de vida e da percepção de seus sintomas durante o acompanhamento homeopático. Parte desses benefícios pode estar relacionada a fatores como a escuta cuidadosa, a consulta prolongada, a relação terapêutica e outros componentes não específicos do cuidado em saúde, elementos reconhecidamente importantes em qualquer abordagem médica.

Dessa forma, a homeopatia ocupa uma posição singular no cenário da medicina contemporânea: embora permaneça controversa sob a ótica da medicina baseada em evidências, continua sendo praticada em diversos países, possuindo tradição histórica, reconhecimento institucional em alguns sistemas de saúde e uma base significativa de usuários e profissionais que defendem sua utilização complementar.

 

3. Práticas Seguras, Tradicionais, Mas Ainda Pouco Estudadas

Nem tudo que carece de evidência é necessariamente ineficaz.

Muitas intervenções tradicionais permanecem em uma espécie de “limbo científico”. São amplamente utilizadas há gerações, apresentam baixo risco e possuem plausibilidade biológica razoável, mas ainda carecem de ensaios clínicos robustos.

Entre elas podemos citar:

  • chá de camomila para relaxamento;
  • chá de erva-cidreira;
  • leite morno antes de dormir;
  • escalda-pés morno;
  • compressas mornas para cólicas;
  • gargarejos com água morna e sal para desconforto de garganta.

Uma revisão sobre a camomila sugere propriedades ansiolíticas leves e possível benefício sobre a qualidade do sono, embora a qualidade global das evidências ainda seja considerada moderada (Srivastava et al., 2010).

Nesses casos, mesmo quando parte do benefício decorre do chamado efeito placebo, isso não significa ausência de efeito clínico.

O placebo não é imaginação. Trata-se de uma resposta neurobiológica real envolvendo neurotransmissores, circuitos cerebrais e mecanismos de modulação da dor.

Uma importante revisão publicada no New England Journal of Medicine destacou como expectativa, contexto terapêutico e acolhimento podem produzir respostas fisiológicas mensuráveis em diversos sintomas (Colloca; Barsky, 2020).

 

 

 

  1. Práticas Potencialmente Perigosas: Quando o Natural Pode Fazer Mal

Existe um equívoco muito difundido segundo o qual tudo que é natural seria automaticamente seguro.

A história da medicina mostra exatamente o contrário.

Diversos venenos mortais são naturais. Da mesma forma, várias plantas medicinais possuem substâncias extremamente potentes, algumas úteis, outras perigosas.

Um dos exemplos históricos mais emblemáticos é a sangria.

Durante séculos, médicos acreditaram que inúmeras doenças resultavam de um desequilíbrio dos chamados “humores corporais”. A solução proposta era retirar sangue do paciente.

Hoje sabemos que essa prática, quando aplicada indiscriminadamente, frequentemente agravava doenças, provocava anemia, choque circulatório e aumentava a mortalidade. Apenas em situações muito específicas, como hemocromatose e policitemia vera, a flebotomia terapêutica permanece indicada (Porter, 1997).

Outro exemplo importante envolve a Ephedra sinica (Ma Huang), planta utilizada tradicionalmente na medicina chinesa.

No início dos anos 2000, suplementos contendo efedra tornaram-se populares para emagrecimento e aumento de energia. Estudos epidemiológicos e relatórios de farmacovigilância demonstraram associação com hipertensão arterial, arritmias, infarto agudo do miocárdio, acidente vascular cerebral e morte súbita (Bents et al., 2004).

Como consequência, sua comercialização foi proibida em diversos países.

Também merecem destaque as plantas que contêm ácido aristolóquico.

Pesquisas publicadas na Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS) demonstraram associação entre essas substâncias e o desenvolvimento de insuficiência renal grave, fibrose renal progressiva e câncer urotelial (Grollman et al., 2007).

Nos últimos anos surgiram ainda novas pseudoterapias potencialmente perigosas.

Entre elas destaca-se o chamado MMS (Miracle Mineral Solution), vendido fraudulentamente como cura para câncer, autismo, infecções e inúmeras outras doenças. Na realidade, trata-se de uma solução geradora de dióxido de cloro, substância semelhante a alvejantes industriais. Agências regulatórias como a FDA emitiram repetidos alertas devido aos riscos de intoxicação grave, insuficiência hepática e lesões gastrointestinais.

Outro exemplo é o uso indiscriminado de prata coloidal, frequentemente promovida como antibiótico natural universal. Além da ausência de eficácia comprovada para a maioria das indicações alegadas, pode provocar argiria, condição irreversível caracterizada pela coloração azulada permanente da pele.

Esses exemplos ilustram um princípio fundamental da medicina:

“Natural” não é sinônimo de “seguro”.

 

  1. Curandeirismo, Misticismo e Feitiçaria: O Limite Entre Cultura e Medicina

Chegamos à categoria mais delicada.

Ao longo da história, praticamente todas as sociedades desenvolveram práticas espirituais, religiosas ou mágicas destinadas à cura.

Benzimentos, amuletos, simpatias, objetos energizados, rituais de expulsão de doenças, feitiços e outras manifestações semelhantes fazem parte do assim chamado “patrimônio cultural da humanidade”. Sob a ótica da antropologia e da história das religiões, possuem enorme valor simbólico.

O problema surge quando tais práticas passam a ser apresentadas como substitutas de tratamentos médicos.

A medicina moderna exige mecanismos plausíveis, observáveis e reproduzíveis. Até o momento, não existem evidências científicas demonstrando que feitiçarias, simpatias ou rituais místicos sejam capazes de tratar diretamente infecções, cânceres, doenças autoimunes ou outras enfermidades orgânicas.

Mais grave ainda: diversas pesquisas mostram que o abandono ou adiamento de tratamentos eficazes em favor de terapias sem fundamento científico pode ter consequências devastadoras.

Um estudo publicado no JAMA Oncology avaliou pacientes com câncer potencialmente curável que optaram por terapias alternativas em substituição aos tratamentos convencionais. Os autores observaram aumento significativo do risco de morte nesses pacientes (Johnson et al., 2018).

Isso não significa negar a importância da espiritualidade. Pelo contrário. Diversos estudos sugerem que fé, religiosidade e suporte espiritual podem contribuir para o enfrentamento psicológico da doença, redução do sofrimento emocional e melhora da qualidade de vida.

 

Conclusão: O Que a Ciência nos Ensina Sobre as Tradições

A história da medicina é, em grande medida, a história da observação humana.

Muitas descobertas revolucionárias surgiram a partir da experiência acumulada por gerações. A aspirina teve origem em uma planta. A artemisinina nasceu da medicina tradicional chinesa. Diversos medicamentos modernos descendem diretamente de conhecimentos ancestrais.

Ao mesmo tempo, a história também nos mostra que tradição, por si só, não garante eficácia.

Algumas práticas tradicionais foram confirmadas pela ciência. Outras permanecem promissoras, mas ainda carecem de estudos.

Algumas mostraram-se ineficazes. E algumas revelaram-se francamente perigosas.

O verdadeiro compromisso da medicina moderna não é com o novo nem com o antigo. É com a verdade.

Uma boa ideia continua sendo uma boa ideia, mesmo que tenha cinco mil anos. Da mesma forma, uma prática ineficaz não se torna verdadeira apenas porque atravessou gerações. Embora frequentemente a própria ineficácia condene a prática à extinção.

Por isso, o melhor caminho talvez seja evitar tanto o dogmatismo científico quanto a aceitação acrítica das tradições.

A sabedoria está em permitir que a ciência investigue, confirme, refine ou descarte aquilo que a experiência humana acumulou ao longo dos séculos.

Enquanto isso, permanecem soberanos os pilares mais sólidos da saúde, respaldados por algumas das evidências mais robustas da medicina moderna: alimentação equilibrada, atividade física regular, sono adequado, manutenção do peso saudável, abstinência do tabagismo, evitar o álcool e adequado manejo do estresse.

Como demonstrado por grandes estudos prospectivos, incluindo análises derivadas do Nurses’ Health Study e do Health Professionals Follow-up Study, a adoção consistente desses hábitos pode acrescentar mais de uma década de vida livre de doenças crônicas (Li et al., 2018).

Nenhuma erva, ritual ou tecnologia substitui aquilo que continua sendo a mais poderosa intervenção terapêutica conhecida: um estilo de vida saudável aliado à medicina baseada em evidências.

 

 

Referências Bibliográficas

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PORTER, R. The Greatest Benefit to Mankind: A Medical History of Humanity. London: HarperCollins, 1997.

SHANG, A. et al. Are the clinical effects of homoeopathy placebo effects? Comparative study of placebo-controlled trials of homoeopathy and allopathy. The Lancet, v. 366, n. 9487, p. 726-732, 2005.

SRIVASTAVA, J. K.; SHANKAR, E.; GUPTA, S. Chamomile: a herbal medicine of the past with bright future. Molecular Medicine Reports, v. 3, n. 6, p. 895-901, 2010.

THALER, K. et al. Bach Flower Remedies for psychological problems and pain: a systematic review. BMC Complementary and Alternative Medicine, v. 9, n. 16, 2009.

VICKERS, A. J. et al. Acupuncture for chronic pain: update of an individual patient data meta-analysis. The Journal of Pain, v. 19, n. 5, p. 455-474, 2018.

WHITE, N. J. Qinghaosu (artemisinin): the price of success. New England Journal of Medicine, v. 359, n. 10, p. 990-994, 2008.

WIELAND, L. S. et al. Yoga treatment for chronic non-specific low back pain. Cochrane Database of Systematic Reviews, n. 1, CD010671, 2017.

ZHENG, H. et al. Acupuncture for patients with chronic tension-type headache: a randomized clinical trial. Neurology, v. 99, n. 18, p. e2100-e2111, 2022.

Fibromialgia: Muito Além da Dor – Uma Visão Integrativa Baseada em Evidências

 

 

Imagine bater levemente o braço em uma porta. Para a maioria das pessoas, isso gera apenas um desconforto passageiro. Para alguém com fibromialgia, o mesmo estímulo pode ser interpretado pelo cérebro como uma dor intensa e persistente.

Essa é uma das características centrais da fibromialgia: não necessariamente existe mais lesão nos tecidos, mas sim uma amplificação anormal dos sinais dolorosos pelo sistema nervoso central. Em outras palavras, o “volume da dor” encontra-se aumentado.

Atualmente, a fibromialgia é reconhecida como uma síndrome de sensibilização central, caracterizada por dor musculoesquelética difusa, fadiga, alterações cognitivas (“fibro fog”), sono não reparador, ansiedade, depressão e diversas manifestações associadas.

Embora ainda não exista cura definitiva, há evidências robustas de que uma combinação de medicamentos, exercícios físicos regulares, manejo do estresse, cuidados com o intestino, sono adequado e fortalecimento muscular pode proporcionar melhora significativa da qualidade de vida.

Importante: Este texto possui finalidade exclusivamente educativa. Nenhuma informação aqui apresentada substitui avaliação médica. Diagnósticos e tratamentos devem sempre ser individualizados e conduzidos por profissionais habilitados.

 

 

Por Que a Dor da Fibromialgia é Tão Intensa?

Viver com fibromialgia significa conviver diariamente com dores difusas, fadiga persistente, sono não reparador e, frequentemente, dificuldades cognitivas conhecidas como fibro fog. Durante décadas, a doença foi cercada de preconceitos e incompreensão. Hoje, entretanto, há amplo consenso científico de que se trata de uma síndrome real de sensibilização central, envolvendo alterações complexas no processamento da dor pelo sistema nervoso central (CLAUW, 2014; KOSEK et al., 2024; FITZCHARLES et al., 2021).

Ao contrário do que muitos imaginam, a intensidade da dor não guarda necessariamente relação direta com o grau de lesão tecidual. Em muitos pacientes, pequenos estímulos podem ser interpretados pelo cérebro como sinais dolorosos extremamente intensos, fenômeno denominado hiperalgesia. Da mesma forma, estímulos normalmente inofensivos podem provocar dor, condição conhecida como alodinia (WOOLF, 2011).

 

 

Quando uma Dor Pequena se Torna Insuportável

Uma analogia útil é imaginar que o “controle de volume” da dor está excessivamente elevado.

Em indivíduos sem fibromialgia, o cérebro atua como um filtro, selecionando quais estímulos merecem atenção. Já na fibromialgia, esse filtro encontra-se alterado. Estudos de neuroimagem funcional demonstram hiperatividade em diversas regiões cerebrais relacionadas ao processamento da dor, incluindo ínsula, córtex cingulado anterior e tálamo (CLAUW, 2014; KOSEK et al., 2024).

Além disso, há redução dos mecanismos inibitórios descendentes mediados por serotonina e noradrenalina, neurotransmissores fundamentais para o controle fisiológico da dor (HÄUSER et al., 2015).

Em termos práticos, isso significa que uma dor que seria classificada como intensidade 2 em uma escala de 0 a 10 pode ser percebida como intensidade 8 ou 9 por um paciente com fibromialgia.

 

 

A Fera da Dor: Por Que Muitos Pacientes Necessitam de Tratamento Contínuo?

Uma das mensagens mais importantes para o paciente é compreender que a fibromialgia geralmente apresenta comportamento crônico.

Embora alguns indivíduos consigam reduzir medicamentos após mudanças significativas no estilo de vida, outros necessitam de tratamento farmacológico prolongado para manter os sistemas de modulação da dor funcionando adequadamente (MACFARLANE et al., 2017).

Uma metáfora frequentemente utilizada é a da “fera da dor”. Quando adequadamente controlada, ela permanece adormecida. Em determinadas situações — como estresse intenso, privação de sono, sedentarismo ou interrupção precoce da medicação — ela pode voltar a despertar.

Portanto, em muitos casos, o objetivo não é necessariamente eliminar completamente a doença, mas mantê-la sob controle, preservando qualidade de vida e funcionalidade.

 

 

O Papel dos Antidepressivos e Neuromoduladores

Os medicamentos utilizados na fibromialgia não atuam principalmente sobre músculos ou articulações. Seu alvo principal são os circuitos neurais responsáveis pela amplificação da dor.

Duloxetina

A duloxetina é um inibidor da recaptação de serotonina e noradrenalina (SNRI).

Dose habitual:

  • 30 mg/dia inicialmente;
  • geralmente 60 mg/dia como dose terapêutica;
  • eventualmente até 120 mg/dia.

Estudos demonstram melhora da dor, fadiga e funcionalidade (ARNOLD et al., 2012).

Milnaciprano

Também pertencente à classe dos SNRIs.

Dose habitual:

  • 50 mg duas vezes ao dia.

Possui eficácia semelhante à duloxetina em diversos estudos (MACFARLANE et al., 2017).

Amitriptilina

Continua sendo uma das medicações mais estudadas.

Dose habitual:

  • 10 a 25 mg ao deitar;
  • ocasionalmente até 50 mg.

Apresenta benefícios especialmente sobre sono, dor e fadiga (HÄUSER et al., 2015).

Pregabalina

Dose habitual:

  • 75 a 150 mg duas vezes ao dia.

Apresenta evidências consistentes para melhora da dor e da qualidade do sono (DERRY et al., 2016).

Gabapentina

Pode ser utilizada em casos selecionados.

Dose habitual:

  • 300 a 2400 mg/dia.

Observação Importante

As doses variam conforme idade, peso, comorbidades, tolerabilidade e outras medicações em uso.

Somente um médico pode determinar qual medicamento, em qual dose e por quanto tempo deverá ser utilizado.

 

 

Microbiota Intestinal e Fibromialgia: Uma Nova Fronteira Científica

Nos últimos anos, a relação entre intestino e cérebro tornou-se um dos temas mais fascinantes da medicina.

Pacientes com fibromialgia frequentemente apresentam síndrome do intestino irritável, distensão abdominal, alterações do trânsito intestinal e disbiose (MINERBI et al., 2019).

Diversos estudos identificaram alterações em bactérias como:

  • Faecalibacterium prausnitzii;
  • Roseburia spp.;
  • Eubacterium spp.;
  • Bifidobacterium spp.;
  • Lactobacillus spp.;
  • Akkermansia muciniphila.

Muitas dessas bactérias produzem butirato, um ácido graxo de cadeia curta com propriedades anti-inflamatórias importantes (MINERBI et al., 2019; CRYAN et al., 2019).

Alterações na microbiota podem favorecer:

  • aumento da permeabilidade intestinal;
  • ativação imunológica;
  • neuroinflamação;
  • piora da sensibilização central.

Embora ainda não exista consenso sobre um tratamento microbiológico específico para fibromialgia, esta área representa uma das linhas mais promissoras de investigação.

 

 

Dietas Minimalistas, Desinflamação Intestinal e Protocolos Temporários

Apesar da escassez de evidências definitivas, alguns pacientes relatam melhora dos sintomas após intervenções alimentares individualizadas.

Entre as estratégias mais estudadas encontram-se:

  • dieta mediterrânea;
  • dieta low-FODMAP;
  • redução de ultraprocessados;
  • protocolos temporários de exclusão alimentar;
  • aumento da ingestão de fibras e vegetais.

Em alguns casos, profissionais experientes utilizam dietas minimalistas temporárias com o objetivo de reduzir potenciais gatilhos alimentares e permitir melhor avaliação clínica.

Importante ressaltar que tais estratégias não devem ser interpretadas como “cura” ou realizadas de forma indiscriminada. Dietas excessivamente restritivas podem gerar deficiências nutricionais e perda de massa muscular.

 

 

O Estresse Como Amplificador da Dor

Poucas doenças ilustram tão claramente a conexão entre mente e corpo quanto a fibromialgia.

O estresse crônico aumenta a ativação do eixo hipotálamo-hipófise-adrenal e do sistema nervoso simpático, favorecendo alterações neuroendócrinas capazes de amplificar a dor (MEEUS et al., 2013).

Além disso, ansiedade e depressão compartilham diversos mecanismos neurobiológicos com a fibromialgia (HÄUSER et al., 2015).

Por isso, estratégias como:

  • meditação;
  • mindfulness;
  • psicoterapia;
  • oração;
  • espiritualidade;
  • contato com a natureza;

podem atuar como importantes ferramentas complementares no manejo global da doença.

 

 

Perda de Massa Muscular: Um Problema Subestimado

Um aspecto frequentemente negligenciado é a perda progressiva de massa muscular decorrente do sedentarismo induzido pela dor.

A literatura demonstra que pacientes com fibromialgia apresentam menor força muscular, menor capacidade aeróbica e menor resistência física quando comparados à população geral (BUSCH et al., 2013; VALENZUELA et al., 2023).

A perda muscular pode agravar a doença por vários mecanismos:

  • redução da estabilidade articular;
  • menor produção de mioquinas anti-inflamatórias;
  • pior metabolismo energético;
  • aumento da fadiga;
  • menor liberação de endorfinas induzidas pelo exercício.

Por essa razão, o fortalecimento muscular progressivo tornou-se um dos pilares do tratamento moderno.

 

 

Exercício Físico: O Medicamento Que Precisa Ser Tomado Regularmente

Nenhuma intervenção não farmacológica possui evidências tão consistentes quanto o exercício físico regular (MACFARLANE et al., 2017).

No tratamento da fibromialgia, a intervenção física requer regularidade, individualização das cargas e supervisão especializada. Recomenda-se um início precoce de intensidade leve com progressão gradual, estratégia fundamental para mitigar o risco de lesões. Fazer atividade física esporadicamente produz benefícios limitados, e não costuma interromper o ciclo da dor.

Os melhores resultados costumam ocorrer quando o exercício se torna um hábito permanente.

As modalidades mais estudadas incluem:

  • caminhada;
  • musculação supervisionada;
  • hidroginástica;
  • Pilates;
  • yoga;
  • treinamento funcional adaptado.

O princípio fundamental continua sendo:

começar devagar e progredir lentamente.

 

 

Conclusão

A fibromialgia é uma condição complexa, multifatorial e profundamente individual. Seu tratamento eficaz exige a integração de estratégias farmacológicas, exercício físico regular e orientado, fortalecimento muscular, manejo do estresse, sono adequado, atenção à saúde intestinal e suporte emocional.

Embora ainda não exista uma cura definitiva, a ciência demonstra de forma consistente que a combinação dessas medidas pode reduzir significativamente a dor, melhorar a funcionalidade e devolver qualidade de vida a milhões de pessoas.

 

REFERÊNCIAS

ARNOLD, L. M. et al. Comparative efficacy of duloxetine, milnacipran, and pregabalin in fibromyalgia. Journal of Pain, v. 13, n. 6, p. 505-521, 2012.

BUSCH, A. J. et al. Exercise for treating fibromyalgia syndrome. Cochrane Database of Systematic Reviews, n. 12, CD003786, 2013.

CLAUW, D. J. Fibromyalgia: a clinical review. JAMA, v. 311, n. 15, p. 1547-1555, 2014.

CRYAN, J. F. et al. The microbiota-gut-brain axis. Physiological Reviews, v. 99, n. 4, p. 1877-2013, 2019.

DERRY, S. et al. Pregabalin for pain in fibromyalgia. Cochrane Database of Systematic Reviews, n. 9, CD011790, 2016.

FITZCHARLES, M. A. et al. Fibromyalgia. Nature Reviews Disease Primers, v. 7, n. 1, p. 1-21, 2021.

HÄUSER, W. et al. Review of pharmacological therapies in fibromyalgia syndrome. Arthritis Research & Therapy, v. 17, p. 201, 2015.

KOSEK, E. et al. Chronic widespread pain and fibromyalgia: mechanisms and management. Pain, 2024.

MACFARLANE, G. J. et al. EULAR revised recommendations for the management of fibromyalgia. Annals of the Rheumatic Diseases, v. 76, p. 318-328, 2017.

MEEUS, M. et al. Central sensitization in chronic pain conditions. Expert Review of Neurotherapeutics, v. 13, n. 6, p. 705-718, 2013.

MINERBI, A. et al. Altered microbiome composition in individuals with fibromyalgia. Pain, v. 160, n. 11, p. 2589-2602, 2019.

VALENZUELA, P. L. et al. Exercise interventions for fibromyalgia: umbrella review. British Journal of Sports Medicine, v. 57, p. 1220-1228, 2023.

WOOLF, C. J. Central sensitization: implications for the diagnosis and treatment of pain. Pain, v. 152, Suppl. 3, p. S2-S15, 2011.

Além das Gotas: O que a Ciência Baseada em Evidências Diz Sobre os Florais?

 

 

Da tranquilidade prometida para os dias estressantes ao alívio de noites em claro, as terapias com florais — como os famosos Florais de Bach — ocupam um espaço cativo nas prateleiras de farmácias, no feed das redes sociais e no imaginário popular. Comercializados como harmonizadores emocionais extraídos da natureza, eles frequentemente surgem em discussões sobre bem-estar como soluções suaves e sem efeitos colaterais.

No entanto, quando afastamos o ruído das mídias digitais e das recomendações anedóticas (“funcionou com o meu conhecido”) e aplicamos o rigor da ciência médica baseada em evidências, o cenário ganha contornos bem diferentes. Afinal, os florais realmente funcionam por si mesmos ou estamos diante de um dos maiores e mais fascinantes exemplos do efeito placebo na história da medicina?

 

O Princípio dos Florais: O que Diz a Tradição e o que Diz a Química

Criados na década de 1930 pelo médico britânico Edward Bach, os florais baseiam-se na premissa de que as doenças físicas derivam de desequilíbrios emocionais. O método de preparação envolve deixar flores imersas em água sob o sol (ou fervidas) e, posteriormente, diluir e conservar esse líquido em uma solução alcoólica (geralmente brandy).

Diferente da fitoterapia tradicional, que extrai princípios ativos concentrados de plantas para gerar respostas farmacológicas diretas, os florais operam em um conceito de “energia sutil” ou “memória da água”. Sob a ótica da química moderna, o produto final é tão diluído que não restam moléculas da planta original. Para a medicina baseada em evidências, se não há princípio ativo material, o mecanismo de ação biológico clássico deixa de existir.

 

O Confronto com a Ciência: Ensaios Clínicos e Metanálises

Nas últimas décadas, a comunidade científica internacional submeteu os florais ao padrão-ouro da investigação médica: os ensaios clínicos controlados, randomizados e duplo-cegos (onde nem o paciente nem o pesquisador sabem quem está tomando o floral ou o líquido inerte).

Os resultados têm sido metodicamente consistentes. Um robusto estudo de revisão sistemática e metanálise com centenas de voluntários, conduzido pelo pesquisador Edzard Ernst e publicado na prestigiosa revista European Journal of Clinical Pharmacology, mostrou de forma categórica que os florais de Bach não superam o placebo no tratamento de condições psicológicas como ansiedade e deficit de atenção (Ernst, 2010). O estudo concluiu que os efeitos benéficos relatados por pacientes estão integralmente associados a fatores psicológicos e contextuais.

Avaliações mais recentes mantêm essa linha. Ensaios clínicos randomizados que tentaram isolar o efeito do floral para a ansiedade pré-operatória ou para o manejo do estresse acadêmico demonstraram que o grupo que recebeu apenas água com teor alcoólico idêntico (placebo) obteve exatamente a mesma taxa de melhora psicológica que o grupo do floral (Thaler et al., 2009; Pintov et al., 2005).

 

O Poder do Efeito Placebo e a Experiência Humana

Dizer que uma terapia funciona via “efeito placebo” não significa dizer que o alívio do paciente é imaginário. O efeito placebo é um fenômeno neurobiológico real e complexo. Um interessante estudo com voluntários mapeados por ressonância magnética funcional, publicado na Nature Reviews Neuroscience, revelou que a expectativa de melhora ativa áreas cerebrais específicas, modulando a liberação de neurotransmissores como endorfinas e dopamina, o que reduz fisicamente a percepção de dor, estresse e ansiedade (Amanzio e Benedetti, 1999).

No caso dos florais, esse efeito é maximizado por vários fatores:

  • O Ritual do Cuidado: O ato de parar, pingar as gotas sob a língua várias vezes ao dia e focar na intenção de melhorar cria uma âncora comportamental de relaxamento.
  • A Consulta Terapêutica: O acolhimento e a escuta ativa por parte do terapeuta floral oferecem um suporte emocional que, por si só, reduz o cortisol (hormônio do estresse).
  • A Regressão à Média: Muitas pessoas buscam os florais no ápice de uma crise de ansiedade ou tristeza. Naturalmente, com o passar dos dias, o organismo tende a retornar ao seu estado de equilíbrio basal, e o floral recebe o crédito por essa melhora natural.

 

O Contraste entre a Mídia e a Realidade Científica

Enquanto revistas de bem-estar e influenciadores digitais promovem os florais como “remédios naturais essenciais”, os principais órgãos de saúde e painéis de medicina baseada em evidências adotam uma postura isenta, porém firme.

A posição consensual de publicações de alto impacto, como o The Lancet e o JAMA, no que tange a terapias altamente diluídas ou sem base molecular, é de que a sua indicação não deve substituir tratamentos médicos validados (Shang et al., 2005). O maior perigo dos florais não reside na sua composição (que é inócua), mas sim no risco de atraso terapêutico: quando um indivíduo com depressão maior ou transtorno de ansiedade grave substitui o tratamento psiquiátrico e psicoterápico convencional pelo uso exclusivo de florais, permitindo a progressão do quadro clínico.

Contudo, cientistas reconhecem que, se o paciente está ciente do caráter integrativo e deseja utilizar o floral de forma complementar — sem abandonar a medicina convencional —, o potencial de dano direto é nulo, e o conforto psicológico gerado pelo placebo pode atuar como um coadjuvante no bem-estar geral.

 

Conclusão

A análise crítica dos florais revela uma clara bifurcação entre a narrativa midiática e a realidade científica. Para a ciência médica baseada em evidências, os florais não possuem propriedades farmacológicas específicas e suas alegações terapêuticas não encontram respaldo em ensaios clínicos robustos, sendo suas respostas clínicas integralmente atribuídas ao efeito placebo e ao contexto do atendimento.

O reconhecimento disso não anula a busca humana por alívio e acolhimento. No entanto, em um cenário de saúde ideal, a empatia e o cuidado devem caminhar lado a lado com a verdade científica. O uso de terapias integrativas é legítimo como escolha pessoal de conforto, desde que nunca substitua o diagnóstico preciso, a terapêutica médica fundamentada e o acompanhamento por profissionais de saúde devidamente qualificados.

 

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A Medicina do Bom Senso

 

A história da medicina é marcada por uma tensão constante entre dois polos: de um lado, o rigor científico, acadêmico, metodológico; de outro, a observação prática, a experiência clínica, a tradição popular e ancestral. Frequentemente, essas duas dimensões foram tratadas como adversárias. No entanto, talvez a verdadeira maturidade da medicina esteja justamente na capacidade de equilibrá-las.

 

Hoje, valorizamos — com razão — os estudos científicos robustos: ensaios clínicos randomizados, duplo-cegos, multicêntricos, metanálises e revisões sistemáticas publicadas em periódicos respeitados como New England Journal of Medicine, The Lancet, JAMA e Nature. Essa estrutura metodológica salvou incontáveis vidas ao permitir separar tratamentos eficazes de ilusões terapêuticas. Como bem recorda o oncologista Siddhartha Mukherjee (2016), a medicina caminha constantemente na linha tênue entre a certeza estatística e a incerteza do paciente individual, exigindo que o método valide a intuição.

 

Entretanto, muitos conhecimentos atualmente considerados pilares da medicina começaram apenas como observações empíricas. Antes de haver evidências definitivas, houve médicos, curandeiros, populações tradicionais e observadores atentos percebendo padrões na realidade. Em muitos casos, a ciência veio depois para explicar aquilo que já vinha sendo observado na prática.

 

Por outro lado, também é verdade que inúmeras crenças populares, místicas ou modismos jamais resistiram ao teste da ciência. Algumas são apenas inócuas; outras, perigosas. Em nome de falsas promessas, muitos abandonam tratamentos eficazes, perdem tempo precioso e colocam a própria saúde em risco.

 

A questão central, portanto, não é escolher entre ciência e observação. O desafio está em distinguir, com equilíbrio e bom senso, aquilo que merece investigação séria, e separação criteriosa daquilo que pertence ao campo do folclore, do marketing ou do charlatanismo.

 


Quando a Observação Antecedeu a Ciência

Ignaz Semmelweis e a higiene das mãos

Um dos exemplos mais emblemáticos da história da medicina é o de Ignaz Semmelweis, médico húngaro do século XIX. Trabalhando em maternidades de Viena, ele percebeu que mulheres atendidas por médicos e estudantes morriam muito mais de febre puerperal do que aquelas atendidas por parteiras.

 

Sem compreender ainda a existência dos microrganismos — a teoria microbiana das doenças só seria consolidada depois por Louis Pasteur e Robert Koch — Semmelweis observou empiricamente que a lavagem cuidadosa das mãos reduzia drasticamente a mortalidade materna (SEMMELWEIS, 1861). Em 1847, ele instituiu o uso de solução clorada para higienização das mãos. A mortalidade despencou de cerca de 10–18% para menos de 2%.

 

Mesmo diante dos resultados, Semmelweis foi ridicularizado por parte da comunidade acadêmica da época. Muitos médicos se recusavam a aceitar que eles próprios pudessem estar transmitindo doenças. Hoje, a higiene das mãos é um dos maiores pilares da medicina moderna e da segurança hospitalar. A lição histórica é profunda: às vezes a observação correta precede a explicação científica.

 

James Lind e o escorbuto no mar

Um paralelo histórico crucial ocorreu um século antes, em 1747, com o médico naval escocês James Lind. Diante de tripulações inteiras dizimadas pelo escorbuto, Lind realizou aquele que é considerado um dos primeiros ensaios clínicos controlados da história (LIND, 1753). Ao testar empiricamente diferentes suplementos dietéticos em marinheiros enfermos, ele observou que aqueles que consumiam laranjas e limões recuperavam-se milagrosamente. A ciência demoraria quase duzentos anos para isolar a vitamina C e explicar o mecanismo biológico da síntese do colágeno, provando que a ação pragmática salvou frotas inteiras muito antes de a teoria bioquímica estar escrita.

Alexander Fleming e o acaso da Penicilina

Mesmo no século XX, o pragmatismo da observação moldou a virada da saúde global. Em 1928, Alexander Fleming não desenhou um estudo complexo para descobrir o primeiro antibiótico; ele simplesmente teve a atenção clínica aguçada para notar que um mofo contaminante (Penicillium notatum) havia criado um halo de inibição ao redor de uma cultura de estafilococos (FLEMING, 1929). Se tivesse descartado a placa bacteriana como um mero erro experimental de laboratório, a era dos antibióticos teria sido retardada por décadas.

O beribéri e o beneficiamento dos grãos

Outro exemplo fascinante vem da nutrição. No final do século XIX e início do século XX, populações asiáticas começaram a apresentar surtos importantes de beribéri, doença neurológica e cardiovascular grave. O médico holandês Christiaan Eijkman observou que galinhas alimentadas com arroz polido adoeciam, enquanto aquelas alimentadas com arroz integral permaneciam saudáveis (EIJKMAN, 1897).

 

Décadas depois, descobriu-se que o polimento removia a tiamina (vitamina B1), levando à deficiência nutricional. Hoje, parece óbvio que alimentos ultraprocessados e excessivamente refinados podem causar prejuízos metabólicos. Porém, durante muito tempo isso não era valorizado pela medicina acadêmica. Esse episódio antecipa discussões extremamente atuais sobre industrialização alimentar, empobrecimento nutricional e doenças crônicas modernas.

 

Quina, povos amazônicos e a malária

Os povos indígenas amazônicos utilizavam há séculos preparações à base da casca da quina (Cinchona spp.) para tratar febres intermitentes. Posteriormente, isolou-se dessa planta o quinino, um dos mais importantes antimaláricos da história. Hoje sabemos que o quinino atua diretamente contra o Plasmodium, parasita causador da malária.

 

Esse é um exemplo clássico de como conhecimentos tradicionais podem conter observações terapêuticas reais e valiosas. A ciência não “inventou” o efeito da quina; ela o validou, refinou e explicou biologicamente.

 

Acupuntura: do ceticismo à aceitação parcial

A acupuntura talvez seja um dos exemplos mais conhecidos de prática inicialmente rejeitada pelo Ocidente e posteriormente parcialmente incorporada à medicina baseada em evidências. Embora muitos conceitos tradicionais chineses — como “fluxo de energia vital” — não tenham comprovação científica objetiva, diversos estudos modernos demonstraram benefício da acupuntura para algumas condições específicas, sobretudo dor crônica, lombalgia, osteoartrite e náuseas.

 

Revisões sistemáticas publicadas em periódicos de alto impacto sugerem que, embora parte do efeito possa envolver placebo e fatores contextuais, existem benefícios clínicos reais em determinadas situações (ZHOU et al., 2021). Isso ilustra um ponto importante: uma prática pode conter elementos simbólicos ou tradicionais não comprovados, mas ainda assim possuir componentes fisiológicos úteis.

 


O Estilo de Vida e a Microbiota: Os Maiores Exemplos Modernos

Talvez nenhum tema represente melhor o conflito entre academicismo e pragmatismo do que o estilo de vida. Durante grande parte do século XX, alimentação, sono, manejo do estresse, atividade física e vínculos sociais foram subestimados pela medicina convencional. A ênfase estava predominantemente em medicamentos, procedimentos e intervenções hospitalares.

 

Hoje, porém, há enorme quantidade de evidências demonstrando que o estilo de vida influencia profundamente doenças cardiovasculares, diabetes tipo 2, obesidade, hipertensão, depressão, demência e até certos tipos de câncer (ORNISH, 2019).

 

Açúcar e ultraprocessados: décadas de atraso científico

Durante décadas, gorduras saturadas foram tratadas como principal vilã cardiovascular, enquanto o impacto do açúcar e dos ultraprocessados recebeu menos atenção. Documentos históricos revelados no JAMA Internal Medicine mostraram que setores da indústria açucareira financiaram pesquisas e influenciaram narrativas científicas minimizando os efeitos do açúcar (KEARNS; SCHMIDT; GLANTZ, 2016).

 

Hoje, grandes estudos associam o consumo excessivo de ultraprocessados ao aumento de mortalidade, obesidade, doenças cardiovasculares e distúrbios metabólicos (ALLEN et al., 2018; NATURE REVIEWS CARDIOLOGY, 2024). O estudo experimental de Hall et al. (2019), publicado no Cell Metabolism, demonstrou que dietas ultraprocessadas aumentam espontaneamente a ingestão calórica e o ganho de peso. Mais recentemente, revisões amplas reforçaram o nexo causal entre o consumo desses produtos e o declínio geral da saúde (BMJ MEDICINE, 2024; LANE et al., 2024). Ou seja: observações clínicas e populacionais de defensores da comida de verdade já existiam há décadas antes de haver consenso acadêmico robusto (POLLAN, 2008).

 

O ressurgimento da saúde intestinal e da microbiota

O campo da gastroenterologia e da saúde sistêmica oferece um exemplo contemporâneo avassalador: a microbiota intestinal. Por gerações, a medicina ocidental encarou o cólon primariamente como um órgão de excreção e os micróbios residentes como comensais irrelevantes ou patógenos em potencial. Enquanto isso, tradições médicas orientais e médicos naturalistas europeus do início do século XX insistiam que “a morte e a saúde começam no intestino”.

A virada pragmática veio com o ressurgimento e a validação do Transplante de Microbiota Fecal (TMF). Inicialmente vista com repulsa e ceticismo pela academia, a transferência de matéria fecal de um doador saudável para o trato gastrointestinal de um paciente enfermo provou-se o tratamento mais eficaz e resolutivo contra a infecção recorrente por Clostridioides difficile, superando amplamente os antibióticos de última geração (BAUNWALL et al., 2024). A prática empírica forçou a ciência a investigar os mecanismos de simbiose bacteriana, abrindo as portas para uma nova era que conecta o microbioma à imunidade, à cicatrização e ao eixo intestino-cérebro (CRYAN et al., 2025).

Exercício físico: um “remédio” negligenciado

Hoje sabemos que exercício físico reduz mortalidade, melhora resistência insulínica, diminui inflamação e reduz risco cardiovascular. Mas durante muito tempo a atividade física era vista quase como detalhe secundário pela prática médica padrão.

 

Estudos contemporâneos mostram que o sedentarismo rivaliza com o tabagismo como fator de risco populacional (WORLD HEALTH ORGANIZATION, 2020). A publicação do Lancet Physical Activity Series consolidou o entendimento do exercício como uma das intervenções médicas mais poderosas e custo-efetivas existentes.

 

Sono e saúde mental

O mesmo ocorreu com o sono. A privação crônica de sono, antes banalizada ou até romantizada em ambientes acadêmicos e corporativos, hoje é diretamente associada a obesidade, diabetes, depressão, demência, acidentes cardiovasculares e redução da imunidade (JAMA, 2023).

 

O estresse psicossocial seguiu a mesma trajetória. O que antes era rotulado de forma vaga como “nervosismo” ou “fator psicológico” ganhou contornos neuroendócrinos rígidos. O trabalho do neurobiologista Robert Sapolsky (2004) demonstrou de forma brilhante como o estresse crônico destrói fisicamente o hipocampo, eleva cronicamente o cortisol e desregula o sistema imune. A medicina moderna vem redescobrindo algo que tradições antigas já intuíam: corpo e mente não funcionam isoladamente.

 


O Outro Lado: Quando o “Natural” se Torna Armadilha

Se por um lado o academicismo excessivo pode ignorar observações importantes, o extremo oposto também é perigoso. Nem toda tradição é verdadeira. Nem todo relato é evidência. Nem todo “natural” é seguro.

 

Existe enorme diferença entre uma observação promissora que merece investigação e uma crença transformada irresponsavelmente em “tratamento”. É justamente nesse espaço cinzento que florescem o charlatanismo, os modismos e as falsas promessas.

 

O Problema do Charlatanismo e das “Curas Milagrosas”

O câncer como exemplo extremo

Talvez nenhum campo ilustre melhor os perigos do abandono da medicina baseada em evidências do que o câncer. Existem inúmeros relatos de pacientes que abandonam tratamentos comprovadamente eficazes — cirurgia, quimioterapia, imunoterapia ou radioterapia — em busca de “curas naturais”, protocolos alternativos ou substâncias milagrosas divulgadas sem qualquer escrúpulo na internet.

 

Um estudo contundente publicado no Journal of the National Cancer Institute mostrou que pacientes que optaram exclusivamente por terapias alternativas apresentaram uma mortalidade significativamente maior e uma sobrevida drasticamente reduzida (JOHNSON et al., 2018). É importante compreender uma nuance fundamental: o estilo de vida saudável, alimentação adequada, exercício, suporte emocional e espiritualidade podem ser aliados extremamente importantes no enfrentamento da doença (SERVAN-SCHREIBER, 2009). Mas isso significa somar, e nunca substituir tratamentos cientificamente eficazes por promessas sem comprovação. Confundir apoio complementar com substituição terapêutica pode custar vidas.

 

Queda de cabelo, hormônios e modismos

O mesmo fenômeno ocorre em situações menos graves, porém muito frequentes no cotidiano clínico. Na busca por estética, longevidade ou performance instantânea, proliferam protocolos sem qualquer base em evidências científicas sólidas: megadoses de suplementos, hormônios sem indicação clínica real, “soros milagrosos”, antioxidantes intravenosos, terapias “detox” comerciais, biohacking sem critério, modismos capilares e baterias de exames excessivos e desnecessários.

 

Frequentemente, vende-se sofisticação mercantilizada enquanto o básico é negligenciado: sono adequado, alimentação minimamente saudável, manejo do estresse, atividade física regular, abandono do tabagismo, vínculos afetivos e saúde mental. Muitas vezes, o indivíduo gasta fortunas em suplementos exóticos enquanto dorme mal, vive em sedentarismo e mantém uma dieta baseada em ultraprocessados.

 


Interesses Econômicos: Um Debate Necessário

Outro ponto delicado — mas de debate obrigatório — envolve os interesses financeiros na produção do conhecimento científico. Grandes ensaios clínicos custam milhões ou bilhões de dólares. Naturalmente, há maior incentivo econômico para financiar pesquisas de produtos patenteáveis, passíveis de gerar alta lucratividade global.

 

A tirzepatida e as novas classes de agonistas de receptores de incretinas são ótimos exemplos contemporâneos. Trata-se de medicações extremamente promissoras para o tratamento da obesidade e do diabetes, com resultados robustos e transformadores publicados no New England Journal of Medicine (2022). Isso não desmerece o medicamento nem o mérito das pesquisas. Ao contrário: os dados são impressionantes e redefiniram as diretrizes metabólicas globais.

 

Mas também é uma verdade de mercado que haverá infinitamente mais recursos para estudar um fármaco sintético patenteável do que uma mudança comportamental ou um fitoterápico simples, barato e sem retorno financeiro expressivo. Esse viés econômico influencia diretamente as prioridades de pesquisa no mundo inteiro. Consequentemente, algumas terapias tradicionais ou de estilo de vida úteis podem permanecer pouco estudadas por escassez de fomento, enquanto certos produtos de alto custo recebem imensa visibilidade comercial. Reconhecer isso não significa rejeitar a ciência; significa compreender que ela é executada dentro de sistemas econômicos complexos e reais.

 


O Risco Atual: Transformar Tudo em “Performance”

Vivemos uma época em que saúde frequentemente é confundida com otimização extrema e monitoramento neurótico. Exames genéticos sem indicação clara, painéis intermináveis de biomarcadores comerciais, protocolos intravenosos contínuos e “hacks” de longevidade são vendidos agressivamente como símbolos de status e modernidade.

 

Entretanto, muitas dessas estratégias possuem evidências frágeis, conflitantes ou insuficientes. Um exemplo clássico e recorrente são os testes de intolerância alimentar baseados em anticorpos IgG. Diversas sociedades médicas internacionais de alergia e imunologia afirmam categoricamente que a presença de IgG para alimentos reflete apenas memória de exposição e tolerância imunológica, não comprovando intolerância clínica, além de gerar restrições alimentares severas e desnecessárias (WORLD ALLERGY ORGANIZATION, 2020).

 

Da mesma forma, o uso indiscriminado de vitaminas intravenosas e antioxidantes em “cocktails de imunidade” carece de respaldo robusto para a população saudável, podendo, em última análise, sobrecarregar os sistemas de depuração do organismo. A busca incessante por intervenções sofisticadas e caras frequentemente obscurece aquilo que realmente produz o maior impacto na longevidade real: a simplicidade do básico feito com constância.

 


O Papel do Médico Prudente

A boa medicina talvez esteja justamente na prudência. Nem o dogmatismo acadêmico cego, nem o misticismo ingênuo. O profissional sério precisa respeitar a ciência robusta, reconhecer as limitações do conhecimento atual, manter a abertura intelectual para ouvir o paciente, observar atentamente a realidade clínica e evitar a arrogância do saber absoluto, mas também rechaçar firmemente promessas irresponsáveis.

 

A observação prática pode e deve gerar hipóteses valiosas. Mas hipóteses precisam ser testadas de forma honesta. Ao mesmo tempo, o clínico experiente sabe que a ausência de evidência estatística em um dado momento não significa automaticamente evidência de ausência de efeito clínico. Esse equilíbrio é difícil — e exatamente por isso tão precioso.

 


Conclusão

A história da medicina ensina, acima de tudo, humildade. Diversas verdades atuais nasceram da simples e atenta observação humana. Práticas inicialmente ridicularizadas por seus pares foram posteriormente validadas e incorporadas pela ciência. Por outro lado, incontáveis crenças populares e modismos jamais resistiram a uma investigação metodológica séria.

 

A medicina amadurece quando consegue unir o rigor científico, a experiência clínica, a observação cuidadosa, a sabedoria prática e o bom senso. Nem todo conhecimento ancestral é charlatanismo; nem toda inovação tecnológica vistosa representa um avanço real. O verdadeiro desafio é discernir.

 

A ciência continua sendo nossa ferramenta mais segura contra ilusões terapêuticas e vieses cognitivos. Mas ela também deve permanecer aberta à investigação honesta daquilo que a nossa atual capacidade técnica ainda não compreende plenamente.

 

A MAIOR LIÇÃO permanece surpreendentemente simples: o essencial continua sendo essencial. Dormir bem. Comer melhor. Mover o corpo. Cultivar vínculos profundos. Reduzir os excessos. Evitar fanatismos e desconfiar de promessas milagrosas de gratificação instantânea. Em uma época fascinada por extremos e respostas rápidas, o equilíbrio continua sendo a forma mais sofisticada de sabedoria.

 


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