Pressão alta: um mal traiçoeiro

 

A hipertensão arterial é uma das condições mais comuns da medicina e, paradoxalmente, uma das mais traiçoeiras. Ela pode permanecer durante anos sem provocar qualquer sintoma. A pessoa pode sentir-se perfeitamente bem, trabalhar, fazer exercícios, viajar e dormir normalmente enquanto sua pressão arterial sobe.

É por isso que a hipertensão é frequentemente chamada de “mal silencioso”. Não porque seja uma doença misteriosa, mas porque seu principal dano pode ocorrer sem que o organismo produza sinais suficientemente claros para chamar a atenção do paciente.

Dor de cabeça, tontura, sensação de pressão na nuca, palpitações ou cansaço podem ocorrer em pessoas hipertensas, mas nenhum desses sintomas é suficientemente específico para diagnosticar a doença. E o inverso também é verdadeiro: uma pessoa pode apresentar níveis importantes de pressão arterial e não sentir absolutamente nada.

Em muitos casos, portanto, o diagnóstico acontece simplesmente porque alguém aferiu a pressão.

Esse fato aparentemente banal tem enorme importância preventiva. Uma consulta médica, uma avaliação ocupacional, uma ida ao pronto atendimento ou mesmo uma aferição realizada corretamente em uma farmácia podem revelar uma alteração que, até aquele momento, passava despercebida.

Mas uma medida isolada não deve, em geral, transformar imediatamente uma pessoa em “hipertensa”. A pressão arterial varia com o horário, atividade física, estresse, sono, cafeína, dor, temperatura e diversos outros fatores. Por isso, a confirmação adequada é uma das etapas mais importantes.

 

Quando a pressão do consultório não conta toda a história

Existe um fenômeno conhecido como hipertensão do avental branco: a pressão sobe no ambiente médico, mas permanece normal fora dele. Existe também a situação oposta, chamada hipertensão mascarada, na qual a pressão parece normal no consultório, mas permanece elevada na vida cotidiana.

É justamente nesse ponto que entra a MAPA — Monitorização Ambulatorial da Pressão Arterial.

A MAPA registra a pressão automaticamente durante aproximadamente 24 horas, incluindo períodos de atividade e sono. Ela permite observar não apenas valores isolados, mas o comportamento da pressão ao longo do dia e da noite.

Segundo uma revisão publicada por Lee (2024), confiar exclusivamente na pressão medida no consultório pode levar tanto ao diagnóstico incorreto quanto ao tratamento inadequado. As diretrizes europeias de 2024 reforçaram de maneira importante a utilização das medidas fora do consultório, especialmente MAPA e monitorização residencial, para confirmação diagnóstica e acompanhamento.

Por isso, embora seja comum ouvir que a MAPA é o “padrão-ouro” para avaliação ambulatorial da pressão arterial, é mais preciso dizer que ela é um dos métodos de referência mais importantes para caracterizar o comportamento da pressão fora do consultório. Ela não substitui o julgamento clínico, mas acrescenta uma quantidade enorme de informação.

Uma MAPA pode revelar, por exemplo, que:

  • a pressão é normal durante o dia, mas elevada durante a noite;
  • a pressão é elevada durante o trabalho e normal em casa;
  • existe hipertensão mascarada;
  • o tratamento está funcionando adequadamente durante 24 horas;
  • a pressão está excessivamente baixa em determinados períodos;
  • o padrão noturno está inadequado.

Essa última informação é particularmente interessante. Em condições fisiológicas, a pressão tende a diminuir durante o sono. Quando isso não acontece adequadamente, o achado pode estar associado a maior risco cardiovascular.

 

Por que a hipertensão é perigosa se eu não sinto nada?

Porque a pressão elevada exerce, durante anos, uma espécie de agressão mecânica contínua sobre as artérias e órgãos.

Coração, cérebro, rins, retina e vasos sanguíneos estão entre as estruturas mais diretamente afetadas.

A hipertensão contribui para o desenvolvimento de:

  • acidente vascular cerebral (AVC);
  • infarto do miocárdio;
  • insuficiência cardíaca;
  • doença renal crônica;
  • fibrilação atrial;
  • doença arterial periférica;
  • alterações da retina;
  • comprometimento progressivo dos vasos sanguíneos.

O problema é que muitos desses processos são silenciosos durante muito tempo. Quando aparecem sintomas importantes, às vezes o dano já está estabelecido.

É por isso que tratar a hipertensão não significa simplesmente tentar baixar um número no aparelho. Significa reduzir a probabilidade de eventos cardiovasculares e proteger órgãos ao longo dos anos.

 

 “Tenho medo de tomar remédio para pressão”

Essa é uma dúvida muito comum e merece ser tratada com respeito.

Todo medicamento pode produzir efeitos adversos. Portanto, não seria correto dizer que anti-hipertensivos são absolutamente isentos de riscos. Alguns podem provocar tontura, edema, alterações de eletrólitos, tosse, alterações da frequência cardíaca ou outros efeitos, dependendo da classe e das características do paciente.

Mas existe um erro de percepção que pode ser perigoso: comparar os possíveis efeitos adversos de um medicamento com os benefícios de simplesmente não tratar uma hipertensão confirmada.

São duas coisas muito diferentes.

Segundo uma revisão sistemática e metanálise publicada em 2025, que reuniu 12 estudos de coorte e mais de 2,1 milhões de pessoas com hipertensão, a baixa adesão ao tratamento anti-hipertensivo esteve associada a maior mortalidade geral e, em uma análise de mais de 1,6 milhão de indivíduos, a maior mortalidade cardiovascular (HR 1,61; IC95% 1,43–1,78). Os autores reconhecem as limitações inerentes aos estudos observacionais, mas o tamanho da população analisada torna o resultado particularmente relevante (Zhang et al., 2025).

Em outras palavras: para quem realmente tem indicação de tratamento, o risco de permanecer com a pressão inadequadamente controlada costuma ser muito maior do que o risco esperado dos efeitos adversos de um medicamento corretamente escolhido e acompanhado.

Isso não significa que todos devam tomar remédios. Significa que quem tem indicação médica para tratamento não deveria abandonar a medicação por medo genérico de “remédios para pressão”.

O correto é discutir com o médico qual medicamento, qual dose, quais efeitos devem ser observados e quais exames precisam ser acompanhados.

Pressão alta e excesso de gordura: uma relação muito mais profunda

Obesidade e hipertensão frequentemente caminham juntas. Mas não é apenas uma questão de “peso”.

A gordura visceral, localizada principalmente na região abdominal e ao redor dos órgãos, apresenta atividade metabólica própria. Ela está relacionada a inflamação de baixo grau, resistência à insulina, alterações hormonais, ativação do sistema nervoso simpático e modificações nos mecanismos renais envolvidos na retenção de sódio e água.

Assim, a obesidade pode favorecer a elevação da pressão por diferentes caminhos simultâneos.

Uma revisão publicada em 2024 destacou justamente a importância do tecido adiposo visceral na fisiopatologia da hipertensão, mostrando que seu excesso não deve ser entendido apenas como um depósito passivo de energia, mas como um tecido metabolicamente ativo capaz de participar de processos inflamatórios e neuro-hormonais relacionados à elevação da pressão arterial (Su et al., 2024).

Por isso, reduzir a gordura visceral pode ser uma das estratégias mais importantes para quem apresenta hipertensão associada ao excesso de peso.

A diretriz norte-americana de 2025 considera a perda de peso uma estratégia central no controle da pressão arterial em pessoas com sobrepeso ou obesidade e estima, em termos populacionais, aproximadamente 1 mmHg de redução da pressão sistólica para cada quilograma de peso perdido, embora a resposta individual varie bastante (ACC/AHA et al., 2025).

 

E o intestino? A microbiota também pode participar

Nos últimos anos, surgiu uma área de investigação particularmente interessante: a relação entre microbiota intestinal e hipertensão.

A microbiota participa do metabolismo de fibras alimentares, produzindo substâncias como os ácidos graxos de cadeia curta — entre eles acetato, propionato e butirato. Essas moléculas podem interagir com receptores presentes em diferentes tecidos e influenciar mecanismos relacionados à imunidade, inflamação, metabolismo, função vascular e regulação da pressão arterial.

Uma revisão sistemática publicada em 2024 encontrou associação consistente entre alterações da microbiota e hipertensão, embora os mecanismos ainda estejam longe de estar completamente esclarecidos (Tsiavos; Antza; Trakatelli, 2024).

É importante, porém, evitar exageros.

Ainda não podemos dizer que “hipertensão é causada pela microbiota” ou que um determinado probiótico seja tratamento comprovado para hipertensão. A ciência nessa área é promissora, mas ainda está em desenvolvimento.

O que já faz muito sentido é uma conclusão mais simples: uma alimentação rica em vegetais, frutas, leguminosas, fibras e alimentos minimamente processados favorece uma microbiota mais diversificada e, simultaneamente, está associada a melhor saúde metabólica e cardiovascular.

 

Alimentação: não é apenas “tirar o sal”

O sódio é importante, mas reduzir a hipertensão a “comer menos sal” é simplificar demais o problema.

A alimentação influencia a pressão arterial por diversos mecanismos: sódio, potássio, magnésio, peso corporal, resistência à insulina, qualidade dos carboidratos, ingestão de fibras, álcool, padrão alimentar e qualidade geral da dieta.

Entre os padrões alimentares estudados, a DASH — Dietary Approaches to Stop Hypertension — permanece como uma das estratégias com melhor evidência.

Segundo um interessante e robusto conjunto de evidências, a dieta DASH é capaz de reduzir a pressão arterial de maneira clinicamente relevante, especialmente quando associada à redução do sódio e à perda de peso. A diretriz AHA/ACC de 2025 considera a DASH o padrão alimentar com a evidência mais consistente para redução da pressão arterial (Appel et al., 1997; ACC/AHA et al., 2025).

A DASH privilegia:

  • frutas e verduras;
  • legumes e leguminosas;
  • cereais integrais;
  • oleaginosas;
  • alimentos ricos em potássio, magnésio e cálcio;
  • proteínas de boa qualidade;
  • menor quantidade de gorduras saturadas;
  • menor quantidade de alimentos ultraprocessados;
  • redução do excesso de sódio.

A diretriz de 2025 estima que a adoção da DASH possa produzir reduções da pressão sistólica na ordem de aproximadamente 5–8 mmHg, embora a resposta dependa das características individuais e do padrão alimentar anterior. A redução de sódio pode acrescentar benefício adicional.

Isso não significa que todo hipertenso precise seguir uma “dieta DASH” literalmente. O

mais importante é compreender seus princípios.

 

Exercício, sono, álcool e estresse também entram na equação

A pressão arterial não é determinada apenas pelo que colocamos no prato.

Atividade física regular, sono adequado, redução do consumo excessivo de álcool, controle do peso e manejo do estresse fazem parte do tratamento moderno da hipertensão.

Também merece atenção a apneia obstrutiva do sono, especialmente em pessoas com obesidade, ronco intenso, sonolência diurna ou hipertensão difícil de controlar.

Assim, uma pessoa hipertensa não deveria receber apenas a recomendação “tome este comprimido”. O tratamento ideal procura compreender por que aquela pessoa desenvolveu hipertensão e quais fatores estão mantendo sua pressão elevada.

 

Quais são os principais medicamentos?

Existem várias classes de anti-hipertensivos. A escolha depende da idade, função renal, presença de diabetes, doença cardiovascular, insuficiência cardíaca, alterações de eletrólitos, gravidez, outras medicações e características individuais.

Entre as principais classes estão:

 

  1. Inibidores da ECA

Exemplos: enalapril, lisinopril, ramipril, perindopril.

Podem ser especialmente úteis em determinadas situações cardiovasculares e renais.

Como exemplos de doses usuais em adultos, o enalapril pode ser utilizado aproximadamente na faixa de 5–40 mg/dia, e o lisinopril em 10–40 mg/dia, conforme indicação e tolerância.

Um efeito adverso conhecido dos inibidores da ECA é a tosse seca. Também podem elevar o potássio e alterar a função renal em determinadas situações.

 

  1. Bloqueadores dos receptores da angiotensina II — BRA

Exemplos: losartana, valsartana, candesartana, olmesartana, telmisartana.

São amplamente utilizados e apresentam mecanismo relacionado ao bloqueio do sistema renina-angiotensina.

Exemplos de faixas de dose: losartana 25–100 mg/dia; valsartana 80–320 mg/dia. As doses variam conforme a indicação clínica e as características do paciente. Em geral, não provocam a tosse típica dos inibidores da ECA.

 

  1. Bloqueadores dos canais de cálcio

Um dos exemplos mais conhecidos é a amlodipina, frequentemente utilizada na faixa de 2,5–10 mg/dia.

É eficaz e bastante utilizada, mas pode causar edema nos tornozelos em algumas pessoas.

 

  1. Diuréticos tiazídicos e semelhantes

Exemplos: hidroclorotiazida, clortalidona e indapamida.

A hidroclorotiazida pode ser utilizada, dependendo da situação, em doses como 12,5–25 mg/dia, enquanto a clortalidona frequentemente é empregada em doses de 12,5–25 mg/dia.

Podem alterar sódio, potássio, ácido úrico e glicemia, razão pela qual o acompanhamento laboratorial pode ser necessário.

 

  1. Betabloqueadores

Exemplos: metoprolol, bisoprolol, carvedilol e atenolol.

Não são necessariamente a primeira escolha para uma hipertensão simples. Podem, entretanto, ser muito importantes quando existe uma indicação específica, como determinadas arritmias, angina, pós-infarto ou insuficiência cardíaca.

 

  1. Antagonistas da aldosterona

A espironolactona, por exemplo, pode ser particularmente importante na hipertensão resistente. Doses como 25–50 mg/dia são frequentemente utilizadas nesse contexto, mas exigem atenção especial ao potássio e à função renal.

As diretrizes europeias de 2024 consideram como classes de primeira linha os inibidores da ECA ou BRAs, bloqueadores de canais de cálcio di-hidropiridínicos e diuréticos tiazídicos ou semelhantes. Betabloqueadores ficam reservados principalmente para situações em que existe indicação específica.

Outra mudança importante das diretrizes contemporâneas é a preferência, para muitos pacientes, por combinações de dois medicamentos em baixas doses, frequentemente em um único comprimido, em vez de simplesmente aumentar muito a dose de um único medicamento. Essa estratégia pode melhorar o controle e reduzir efeitos adversos relacionados a doses elevadas de uma única classe.

 

O medicamento não substitui o estilo de vida — e o estilo de vida nem sempre substitui o medicamento

Essa é talvez a mensagem mais importante. Não devemos colocar medicamento e estilo de vida em oposição. Uma pessoa pode precisar de medicamento e precisar emagrecer, melhorar sua alimentação, dormir melhor, fazer exercícios e reduzir o consumo de álcool.

Da mesma maneira, uma pessoa com pressão discretamente elevada pode, dependendo do risco cardiovascular global e da avaliação médica, conseguir uma melhora significativa apenas com mudanças de estilo de vida. O tratamento deve ser individualizado.

As diretrizes europeias de 2024 recomendam farmacoterapia para pessoas com hipertensão confirmada e, em determinadas situações de maior risco cardiovascular, também para indivíduos com níveis de pressão abaixo do limiar tradicional de hipertensão, após avaliação adequada. Portanto, não existe uma única receita.

Existe uma pergunta mais importante: Qual é o risco cardiovascular daquela pessoa e qual estratégia oferece a melhor relação entre benefício e risco?

 

Baixar a pressão a qualquer preço?

O objetivo não deve ser “baixar a pressão a qualquer preço”. Pressão excessivamente baixa também pode provocar tontura, quedas, desmaios e prejuízo à qualidade de vida, especialmente em pessoas idosas ou frágeis.

Por outro lado, deixar uma hipertensão persistente sem tratamento porque “não sinto nada” é uma estratégia perigosa.

As diretrizes de 2024 da Sociedade Europeia de Cardiologia passaram a recomendar, para muitos adultos em tratamento e quando tolerado, uma pressão sistólica na faixa de 120–129 mmHg, individualizando a meta quando isso não é bem tolerado.

Mais importante do que decorar um número é compreender que o tratamento deve ser acompanhado. Aferir, confirmar, tratar, reavaliar e ajustar.

 

O verdadeiro perigo é não saber

Talvez a característica mais perigosa da hipertensão seja justamente sua capacidade de permanecer invisível.

Uma pessoa pode passar anos sem saber que sua pressão está elevada. Pode descobrir aos 50, 60 ou 70 anos que já apresenta alterações cardiovasculares que poderiam ter sido prevenidas.

Por isso, medir a pressão arterial deveria ser encarado com a mesma naturalidade que medir glicemia, colesterol ou peso.

E quando existe dúvida sobre o diagnóstico, a avaliação fora do consultório — especialmente por MAPA ou monitorização residencial adequadamente realizada — pode transformar uma fotografia em um filme.

 

A hipertensão não precisa ser sentida para ser tratada.

Ela precisa ser identificada. E, uma vez identificada, não deve ser banalizada.

Medicamentos quando indicados, alimentação de qualidade, redução do excesso de peso, atividade física, sono adequado, controle do estresse e acompanhamento médico não são estratégias concorrentes. São diferentes partes de uma mesma medicina preventiva. O objetivo final não é simplesmente fazer o aparelho mostrar um número menor.

É reduzir a probabilidade de infarto, AVC, insuficiência cardíaca, doença renal e perda de qualidade de vida — antes que esses problemas aconteçam.

 

Disclaimer

Este texto tem finalidade exclusivamente educativa e não substitui consulta médica, exame físico, MAPA, monitorização residencial ou avaliação individualizada. As doses mencionadas são exemplos de faixas utilizadas na prática clínica em adultos, não constituem prescrição e não devem ser utilizadas para iniciar, suspender ou modificar medicamentos por conta própria. A escolha do fármaco, da dose e da meta pressórica depende das características clínicas, função renal, eletrólitos, comorbidades, interações medicamentosas e risco cardiovascular de cada pessoa.

 

Referências

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ATANASOV, Petar et al. Impact of poor medication adherence on clinical outcomes and health resource utilization in patients with hypertension and/or dyslipidemia: systematic review. Expert Review of Pharmacoeconomics & Outcomes Research, 2023. DOI: 10.1080/14737167.2023.2266135.

LEE, Eun Mi. When and how to use ambulatory blood pressure monitoring and home blood pressure monitoring for managing hypertension. Clinical Hypertension, v. 30, art. 10, 2024. DOI: 10.1186/s40885-024-00265-w.

MCEVOY, John William et al. 2024 ESC Guidelines for the management of elevated blood pressure and hypertension. European Heart Journal, v. 45, n. 38, p. 3912–4018, 2024. DOI: 10.1093/eurheartj/ehae178.

SACKS, Frank M. et al. DASH diet and blood pressure. In: APPEL, Lawrence J. et al. A clinical trial of the effects of dietary patterns on blood pressure. New England Journal of Medicine, Boston, v. 336, n. 16, p. 1117–1124, 1997.

SU, Zhenyang et al. Molecular mechanisms and potential therapeutic targets in the pathogenesis of hypertension in visceral adipose tissue induced by a high-fat diet. Frontiers in Cardiovascular Medicine, v. 11, 2024. DOI: 10.3389/fcvm.2024.1380906.

TSIAVOS, Alexandros; ANTZA, Christina; TRAKATELLI, Christina. The microbial perspective: a systematic literature review on hypertension and gut microbiota. Nutrients, v. 16, n. 21, art. 3698, 2024. DOI: 10.3390/nu16213698.

ZHANG, et al. The link between adherence to antihypertensive medications and mortality rates in patients with hypertension: a systematic review and meta-analysis of cohort studies. BMC Cardiovascular Disorders, 2025. DOI: 10.1186/s12872-025-04538-6.

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Tireoidite de Hashimoto: quando o sistema imunológico ataca a própria tireoide

 

Durante muito tempo, a tireoidite de Hashimoto foi apresentada de maneira relativamente simples: uma doença autoimune que destrói progressivamente a tireoide e pode levar ao hipotireoidismo.

Essa definição está correta, mas é incompleta. Hoje sabemos que a tireoidite de Hashimoto (TH) é uma doença imunomediada complexa, resultado da interação entre predisposição genética, mecanismos de tolerância imunológica, fatores ambientais, estado nutricional e provavelmente alterações metabólicas e da microbiota intestinal.

E existe uma particularidade clínica importante: a pessoa pode ter Hashimoto durante anos sem apresentar hipotireoidismo.

Isso significa que a presença de anticorpos antitireoidianos não é sinônimo de necessidade imediata de reposição hormonal.

Por outro lado, também significa que olhar apenas para o TSH pode ser insuficiente para compreender toda a história da doença.

 

O que é a tireoidite de Hashimoto?

A tireoidite de Hashimoto, também denominada tireoidite autoimune crônica ou tireoidite linfocítica crônica, caracteriza-se por uma resposta imunológica dirigida contra componentes da própria glândula tireoide.

Os principais marcadores são:

  • anticorpos antiperoxidase tireoidiana (anti-TPO);
  • anticorpos antitireoglobulina (anti-Tg);
  • alterações características da tireoide à ultrassonografia, particularmente heterogeneidade e redução da ecogenicidade.

A consequência, em parte dos pacientes, é uma destruição progressiva do tecido tireoidiano e redução da capacidade de produzir os hormônios T4 e T3.

Mas essa evolução não é obrigatoriamente linear.

Um indivíduo pode apresentar anticorpos positivos, ultrassonografia compatível e função tireoidiana completamente normal. Outro pode desenvolver hipotireoidismo subclínico e, posteriormente, hipotireoidismo manifesto.

Segundo uma revisão publicada recentemente sobre a doença, a patogênese resulta de uma complexa interação entre suscetibilidade genética, fatores ambientais e regulação imunológica, e a apresentação clínica pode variar consideravelmente entre os indivíduos.

 

Hashimoto não é sinônimo de hipotireoidismo

Esta talvez seja uma das primeiras distinções que precisam ser feitas. Hashimoto é uma doença autoimune.

Hipotireoidismo é uma consequência funcional que pode ocorrer em decorrência dela. São conceitos relacionados, mas não equivalentes.

Uma pessoa pode ter: Hashimoto + função tireoidiana normal ou Hashimoto + hipotireoidismo subclínico ou Hashimoto + hipotireoidismo manifesto.

Essa distinção é fundamental porque o tratamento não deve ser determinado simplesmente pela presença de anticorpos.

O objetivo clínico é avaliar o conjunto: sintomas + TSH + T4 livre + anticorpos + ultrassonografia, quando indicada + contexto clínico.

 

Anti-TPO elevado: o que ele realmente significa?

O anticorpo antiperoxidase tireoidiana é o marcador mais utilizado para identificar a autoimunidade tireoidiana.

Um anti-TPO elevado aumenta substancialmente a probabilidade de tireoidite autoimune, mas existe uma questão frequentemente esquecida:

o número do anti-TPO não funciona como um “termômetro” proporcional da gravidade clínica.

Um paciente com anti-TPO de 500 não necessariamente tem uma doença duas vezes mais grave que alguém com anti-TPO de 250.

Da mesma forma, reduzir o anti-TPO não significa necessariamente que a doença foi “curada”.

Esse ponto é particularmente importante quando se avaliam suplementos e intervenções nutricionais.

Uma redução estatisticamente significativa de anticorpos pode ser biologicamente interessante, mas precisamos perguntar: Essa redução produz algum benefício clínico relevante para o paciente? Essa é uma pergunta muito mais difícil.

 

Por que a tireoide é tão vulnerável à autoimunidade?

A tireoide possui características particulares em relação ao metabolismo oxidativo.

A síntese dos hormônios tireoidianos envolve reações que utilizam peróxido de hidrogênio. Portanto, a glândula dispõe de sistemas antioxidantes importantes para controlar o estresse oxidativo.

É nesse contexto que entram algumas enzimas dependentes de selênio, incluindo as glutationa peroxidases e as iodotironina desiodases.

O selênio, portanto, participa de processos fundamentais para o metabolismo tireoidiano e para a proteção antioxidante da glândula.

Mas isso não significa que todo paciente com Hashimoto deva automaticamente receber suplementação. E aqui a literatura recente é particularmente interessante.

 

Selênio: promessa, evidência e cautela

Segundo um interessante estudo publicado em 2024 na revista Thyroid, uma revisão sistemática e meta-análise de ensaios clínicos randomizados avaliou 35 estudos envolvendo pacientes com tireoidite de Hashimoto.

Os autores observaram que a suplementação com selênio esteve associada à redução dos níveis de TSH em pacientes que não utilizavam reposição hormonal e à redução dos níveis de anti-TPO. Entretanto, não foram observadas mudanças significativas em T4, T3, volume tireoidiano ou anticorpos antitireoglobulina. A certeza global da evidência foi considerada moderada.

É um resultado interessante. Mas é importante não dar ao estudo uma interpretação maior do que ele permite. Reduzir anticorpos não é a mesma coisa que interromper a doença autoimune.

E reduzir TSH não significa necessariamente que a história natural da doença tenha sido modificada.

Uma meta-análise mais recente, publicada em 2025 e envolvendo 21 estudos e 1.610 participantes, também encontrou redução de anti-TPO e, em determinadas análises, redução de TSH com suplementação de selênio. Os autores, entretanto, ainda tratam esses resultados no contexto da evidência disponível, e não como demonstração de que o selênio seja um tratamento substitutivo para Hashimoto.

Portanto, a pergunta correta não é: “Selênio funciona para Hashimoto?” Mas: “Em quais pacientes, com qual estado nutricional, qual dose, durante quanto tempo e com qual objetivo clínico o selênio pode oferecer benefício?” Essa é uma pergunta muito mais científica.

 

E a vitamina D?

A vitamina D também desperta grande interesse na investigação da tireoidite autoimune.

Existe plausibilidade biológica para sua participação na regulação imunológica, e estudos observacionais frequentemente encontram associação entre níveis reduzidos de vitamina D e doenças autoimunes.

Mas associação não significa causalidade. É possível que níveis baixos de vitamina D sejam, em determinados indivíduos, consequência de menor exposição solar, características metabólicas ou da própria condição clínica, e não necessariamente uma causa da autoimunidade.

Por isso, embora a correção de deficiência de vitamina D seja importante por razões clínicas gerais, não há evidência suficiente para apresentar a vitamina D como tratamento específico capaz de controlar ou curar a tireoidite de Hashimoto.

 

O papel da alimentação

É aqui que frequentemente encontramos mais entusiasmo do que evidência.

Dietas sem glúten, dietas anti-inflamatórias, dietas de eliminação, dietas cetogênicas, protocolos de jejum e diferentes estratégias nutricionais são frequentemente apresentados como tratamentos para Hashimoto.

Algumas dessas estratégias podem ser úteis para determinados pacientes e determinados objetivos, especialmente quando existe doença celíaca, intolerâncias alimentares, excesso de peso, síndrome metabólica ou outras condições associadas.

Mas não devemos transformar hipóteses fisiopatológicas em recomendações universais.

A ausência de glúten, por exemplo, é absolutamente fundamental para pessoas com doença celíaca. Fora dessa situação, entretanto, a evidência de que retirar o glúten de todas as pessoas com Hashimoto modifique a história natural da doença é insuficiente para justificar uma recomendação universal.

A mesma cautela vale para dietas extremamente restritivas. A alimentação deve ser utilizada como instrumento terapêutico, e não como uma coleção de proibições.

 

Hashimoto e microbiota intestinal

Nos últimos anos, surgiu outro campo fascinante de investigação: a possível relação entre microbiota intestinal, permeabilidade intestinal e autoimunidade tireoidiana.

A hipótese é biologicamente atraente. Alterações na composição da microbiota podem modificar:

  • produção de metabólitos;
  • integridade da barreira intestinal;
  • sinalização imunológica;
  • metabolismo de nutrientes;
  • inflamação sistêmica.

Alguns trabalhos encontraram diferenças na composição da microbiota de pacientes com doenças tireoidianas autoimunes.

Mas ainda estamos diante de uma área em desenvolvimento.

Não sabemos, com segurança, se a alteração da microbiota é causa, consequência ou simplesmente um marcador associado à doença. Esse detalhe é fundamental.

A microbiota é provavelmente importante, mas ainda não temos evidências suficientes para afirmar que “tratar a microbiota” seja capaz de tratar a causa do Hashimoto.

 

O paciente que continua cansado apesar do TSH normal

Este é um dos aspectos mais interessantes da prática clínica. Alguns pacientes tratados com levotiroxina apresentam TSH dentro da faixa de referência e, mesmo assim, continuam relatando:

  • fadiga;
  • dificuldade de concentração;
  • alterações do humor;
  • ganho ou dificuldade de perda de peso;
  • sensação de frio;
  • alterações do sono;
  • redução da qualidade de vida.

Isso não significa automaticamente que o tratamento esteja inadequado ou que o TSH “normal” esteja errado. É necessário ampliar a investigação.

Anemia, deficiência de ferro, deficiência de B12, distúrbios do sono, depressão, ansiedade, menopausa, obesidade, sedentarismo, resistência à insulina e diversas outras condições podem produzir sintomas semelhantes.

Uma revisão recente especificamente dedicada aos sintomas persistentes em pacientes com Hashimoto bioquimicamente eutireoidianos destaca justamente essa complexidade e discute possíveis mecanismos e estratégias de manejo, embora muitas abordagens ainda necessitem de estudos clínicos de melhor qualidade.

 

Portanto:

TSH normal não significa necessariamente que todos os sintomas desaparecerão.

Mas também: Sintomas persistentes não significam necessariamente que o paciente precise de mais hormônio tireoidiano.

 

Levotiroxina continua sendo o tratamento padrão

Quando existe hipotireoidismo manifesto decorrente de Hashimoto, a levotiroxina continua sendo o tratamento de referência.

Seu objetivo é fornecer ao organismo o hormônio tireoidiano que a glândula deixou de produzir adequadamente.

A questão clínica não é simplesmente prescrever levotiroxina, mas utilizá-la corretamente.

A absorção pode ser influenciada por alimentos, café, ferro, cálcio, alguns medicamentos e condições gastrointestinais.

Por isso, antes de concluir que uma dose é insuficiente, é importante perguntar:

O paciente está tomando corretamente? Essa pergunta aparentemente simples pode evitar aumentos desnecessários de dose.

 

T4 ou T4 + T3?

A combinação de levotiroxina (T4) com liotironina (T3) continua sendo tema de discussão.

Existe uma explicação fisiológica para o interesse: o organismo converte T4 em T3 nos tecidos, e algumas pessoas questionam se a reposição exclusivamente com T4 reproduziria perfeitamente a fisiologia individual.

Até o momento, entretanto, os ensaios clínicos não demonstraram benefício consistente da combinação T4/T3 para a maioria dos pacientes com hipotireoidismo.

Portanto, ela não deve ser apresentada como uma evolução automática do tratamento. Em casos selecionados, particularmente diante de sintomas persistentes apesar de tratamento adequado e após exclusão de outras causas, a discussão pode ser individualizada.

 

O que fazer com os anticorpos?

Esta é uma pergunta muito frequente: “Meu anti-TPO está alto. Preciso baixar o anticorpo?” Não necessariamente.

Os anticorpos ajudam no diagnóstico e na caracterização da autoimunidade, mas não devem ser tratados como se fossem um colesterol que precisa obrigatoriamente atingir determinado número.

O que importa clinicamente é o conjunto da doença: função tireoidiana + sintomas + evolução + contexto clínico.

A repetição seriada de anticorpos, portanto, geralmente oferece menos informação do que o acompanhamento adequado da função tireoidiana.

 

O papel do estilo de vida

Aqui existe provavelmente uma oportunidade terapêutica subestimada. Não porque exercício, sono ou alimentação “curem” Hashimoto.

Mas porque a pessoa com Hashimoto não é apenas uma tireoide. Ela é um organismo inteiro.

Excesso de peso, resistência à insulina, sedentarismo, privação de sono, estresse crônico, deficiência de micronutrientes e alimentação inadequada podem coexistir com a doença e influenciar fortemente a percepção de saúde e qualidade de vida.

Uma abordagem verdadeiramente preventiva precisa olhar para esse conjunto. Tratar a tireoide é importante. Cuidar do paciente é maior do que tratar a tireoide.

 

O que realmente podemos dizer hoje?

A ciência sobre Hashimoto avançou muito, mas ainda existem importantes lacunas.

Podemos afirmar com segurança que:

  • Hashimoto é uma doença autoimune;
  • anti-TPO e anti-Tg são importantes marcadores de autoimunidade;
  • nem todo paciente com anticorpos positivos tem hipotireoidismo;
  • levotiroxina é o tratamento padrão do hipotireoidismo manifesto;
  • selênio apresenta sinais de benefício sobre alguns marcadores laboratoriais, especialmente anti-TPO, mas ainda não deve ser considerado tratamento universal da doença;
  • sintomas persistentes merecem investigação ampla, mesmo quando o TSH está normal;
  • alimentação e estilo de vida são importantes para a saúde global, mas não há uma dieta universalmente comprovada como “cura” do Hashimoto;
  • microbiota, imunometabolismo e medicina de precisão representam campos promissores, mas ainda em evolução.

E talvez a principal mensagem seja esta: Hashimoto não deve ser tratado apenas como um número de TSH. É uma doença dinâmica, individual e multifatorial.

O futuro provavelmente estará menos na busca por uma única intervenção capaz de “desligar” a autoimunidade e mais na identificação de diferentes fenótipos da doença — aqueles que apresentam maior risco de progressão, aqueles que permanecem eutireoidianos, aqueles que desenvolvem sintomas persistentes e aqueles nos quais fatores ambientais ou metabólicos podem ter maior importância.

 

Hashimoto e a medicina do futuro

A evolução da medicina está nos levando de uma abordagem baseada em valores isolados para uma análise baseada em trajetórias individuais.

Em vez de olhar apenas: TSH = 4,8, podemos perguntar:

O TSH estava em 1,8 há três anos?
Quando começou a subir?
Qual foi sua velocidade de mudança?
O T4 livre acompanhou essa trajetória?
Os anticorpos estavam presentes antes da alteração funcional?
Houve mudança de peso, medicamentos, sono, estresse ou estado nutricional?

Essa visão longitudinal pode ser particularmente valiosa na tireoidite de Hashimoto. A medicina preventiva não pretende simplesmente descobrir a doença quando ela já está estabelecida.

Pretende compreender a trajetória que conduz até ela. E talvez seja justamente aí que o acompanhamento longitudinal, a integração de dados clínicos e a modelagem matemática possam encontrar um espaço interessante na medicina personalizada.

 

Uma última reflexão

Hashimoto é uma doença em que a fronteira entre imunologia, endocrinologia, metabolismo, nutrição e estilo de vida se torna particularmente evidente. Não devemos cair em dois extremos.

De um lado, reduzir tudo ao TSH. Do outro, atribuir à alimentação, à microbiota ou a suplementos uma capacidade terapêutica que a ciência ainda não demonstrou.

Entre esses dois extremos existe um caminho mais interessante: avaliar o paciente como um todo, tratar aquilo que precisa ser tratado, corrigir deficiências comprovadas, acompanhar a evolução ao longo do tempo e utilizar as melhores evidências disponíveis para individualizar as decisões.

Essa talvez seja a verdadeira medicina de precisão aplicada à tireoidite de Hashimoto.

Disclaimer: Este conteúdo tem finalidade exclusivamente educativa e informativa e não substitui avaliação médica individualizada, diagnóstico ou tratamento. As informações apresentadas refletem o conhecimento científico disponível no momento da publicação, mas novas evidências podem modificar recomendações e interpretações. A decisão sobre exames, medicamentos, suplementos, doses ou intervenções nutricionais deve ser individualizada por profissional habilitado, considerando as características clínicas de cada paciente.

 

Referências selecionadas

Huwiler, V. V. et al. Selenium Supplementation in Patients with Hashimoto Thyroiditis: A Systematic Review and Meta-Analysis of Randomized Clinical Trials. Thyroid, v. 34, n. 3, p. 295–313, 2024.

Kolanu, N. D. et al. From Antibodies to Artificial Intelligence: A Comprehensive Review of Diagnostic Challenges in Hashimoto’s Thyroiditis. Cureus, v. 16, n. 2, e54393, 2024.

Luo, J. et al. Clinical comparative efficacy and therapeutic strategies for the Hashimoto’s thyroiditis: A systematic review and network meta-analysis. Heliyon, v. 10, e35114, 2024.

van Gerwen, M. et al. The Impact of Environmental Factors on the Development of Autoimmune Thyroiditis—Review. 2024.

Kong, X-Q. et al. Clinical efficacy of selenium supplementation in patients with Hashimoto thyroiditis: A systematic review and meta-analysis. Medicine, v. 102, n. 20, e33791, 2023.

Clinical efficacy of selenium supplementation in patients with Hashimoto thyroiditis: A systematic review and meta-analysis. Medicine, 2025. Meta-análise incluindo 21 estudos e 1.610 participantes.

CÂNCER: A MEDICINA DO “E”, NÃO DO “OU” – Estilo de Vida e Tratamentos Modernos Devem Caminhar Juntos

 

 

Introdução

Poucas palavras despertam tanto medo quanto “câncer”.

Ao receber um diagnóstico oncológico, muitas pessoas passam imediatamente a procurar tudo o que possa ajudá-las. Algumas buscam informações sobre alimentação, suplementos, atividade física, espiritualidade ou terapias complementares. Outras depositam toda a esperança nos tratamentos médicos convencionais.

Mas talvez a pergunta mais importante seja:

Precisamos escolher entre estilo de vida e tratamento médico?

A resposta da ciência moderna é clara:

Não.

Quando o assunto é câncer, a melhor estratégia geralmente não é “um ou outro”.

É “um e outro”.

 

Importante – Disclaimer

Este artigo tem finalidade exclusivamente educativa e informativa. Não se destina a diagnosticar doenças, substituir consultas médicas ou estabelecer condutas terapêuticas. Pacientes com suspeita ou diagnóstico de câncer devem buscar avaliação e acompanhamento de médicos e demais profissionais de saúde qualificados. Nenhuma informação aqui apresentada deve ser interpretada como recomendação para iniciar, interromper ou substituir tratamentos médicos.

 

O Estilo de Vida Importa — E Muito

Estima-se que uma parcela significativa dos cânceres esteja relacionada a fatores modificáveis.

Tabagismo, obesidade, sedentarismo, consumo excessivo de álcool e padrões alimentares inadequados contribuem para milhões de casos de câncer em todo o mundo (Islami et al., 2024).

Um dos relatórios mais influentes da área, publicado pela American Cancer Society, destaca que manter peso adequado, praticar atividade física regularmente, evitar tabagismo e limitar o consumo de álcool estão entre as medidas mais importantes para prevenção do câncer (Rock et al., 2022).

Isso significa que todos os cânceres são evitáveis?

Certamente não.

Mutações espontâneas, predisposição genética, envelhecimento e diversos fatores ainda fora de nosso controle também participam do processo.

Mas ignorar o papel do estilo de vida seria desprezar uma das ferramentas preventivas mais poderosas que possuímos.

 

Exercício Físico: Muito Além da Qualidade de Vida

Durante muitos anos acreditou-se que o exercício físico servia apenas para melhorar o condicionamento físico dos pacientes oncológicos.

Hoje sabemos que seus efeitos podem ir muito além.

Um estudo envolvendo mais de 750 mil adultos, publicado no JAMA Internal Medicine, demonstrou que níveis mais elevados de atividade física estavam associados a menor risco de diversos tipos de câncer, incluindo câncer de mama, cólon, rim, fígado e pulmão (Moore et al., 2016).

Mais recentemente, revisões sistemáticas vêm mostrando que a prática regular de atividade física após o diagnóstico também pode estar associada a melhor sobrevida em determinados tumores, especialmente câncer de mama e câncer colorretal (Patel et al., 2023).

Além disso, o exercício contribui para:

  • redução da fadiga relacionada ao câncer;
  • preservação da massa muscular;
  • melhora da capacidade funcional;
  • redução da ansiedade e depressão;
  • melhora da qualidade de vida.

Não é por acaso que diversas diretrizes oncológicas passaram a recomendar atividade física supervisionada como parte integrante do tratamento (Campbell et al., 2019).

 

Alimentação: Nem Milagre, Nem Irrelevância

Poucos temas geram tantas discussões quanto alimentação e câncer.

Infelizmente, também é uma área repleta de promessas exageradas.

Não existe evidência robusta de que uma dieta isolada seja capaz de curar cânceres estabelecidos.

Por outro lado, existe evidência consistente de que padrões alimentares saudáveis contribuem para prevenção, recuperação clínica e redução de complicações.

O relatório do World Cancer Research Fund e do American Institute for Cancer Research concluiu que excesso de gordura corporal está associado ao aumento do risco de pelo menos 13 tipos de câncer (WCRF/AICR, 2018).

Da mesma forma, dietas ricas em vegetais, frutas, grãos integrais e alimentos minimamente processados estão associadas a melhores desfechos gerais de saúde.

Mas é importante compreender uma distinção fundamental:

Alimentação pode ajudar a prevenir cânceres e apoiar tratamentos. Não há evidência científica robusta de que substitua cirurgia, quimioterapia, radioterapia ou imunoterapia quando estas são indicadas.

 

O Perigo dos Falsos Dilemas

Uma das armadilhas mais frequentes enfrentadas por pacientes oncológicos é o falso dilema.

Por exemplo:

  • quimioterapia ou alimentação saudável?
  • imunoterapia ou suplementação?
  • cirurgia ou medicina integrativa?

A ciência responde de forma diferente:

  • quimioterapia e alimentação adequada;
  • imunoterapia e suporte nutricional;
  • cirurgia e atividade física;
  • medicina baseada em evidências e cuidados complementares seguros.

O problema surge quando abordagens complementares passam a substituir tratamentos cuja eficácia já foi demonstrada.

 

Quando a Medicina Salva Vidas

Ao longo das últimas décadas, a oncologia viveu uma revolução.

O desenvolvimento de terapias-alvo, imunoterapias e avanços cirúrgicos transformou doenças antes consideradas praticamente fatais em condições potencialmente controláveis ou curáveis.

Um dos exemplos mais emblemáticos é o melanoma metastático.

Antes da era da imunoterapia, a sobrevida de longo prazo era rara.

Com o advento de medicamentos como nivolumabe e ipilimumabe, estudos publicados no New England Journal of Medicine demonstraram sobrevidas de longo prazo sem precedentes para pacientes com doença avançada (Wolchok et al., 2022).

Outro exemplo impressionante é a leucemia mieloide crônica.

A introdução do imatinibe transformou uma doença frequentemente fatal em uma condição crônica para muitos pacientes (Druker et al., 2006).

Nenhuma mudança alimentar, por mais saudável que seja, produziu resultados comparáveis nesses cenários.

 

E os Suplementos?

Suplementos nutricionais podem ser úteis em situações específicas.

Pacientes oncológicos frequentemente apresentam desnutrição, sarcopenia ou deficiências nutricionais que merecem correção.

Entretanto, a literatura científica não apoia o uso indiscriminado de suplementos como substitutos dos tratamentos convencionais.

Em alguns casos, doses elevadas de determinados antioxidantes podem inclusive interferir em mecanismos pelos quais quimioterápicos e radioterapia exercem seus efeitos antitumorais (Rock et al., 2022).

Isso não significa que suplementos sejam proibidos.

Significa apenas que devem ser utilizados com critério e supervisão profissional.

 

A Medicina do “E”

Talvez a maior lição da oncologia moderna seja esta:

Não precisamos escolher entre autocuidado e medicina.

Precisamos somá-los.

O exercício físico melhora a capacidade funcional para enfrentar os tratamentos.

A alimentação adequada favorece recuperação e manutenção da massa magra.

O suporte psicológico melhora adesão terapêutica e qualidade de vida.

O sono adequado auxilia a recuperação física e emocional.

E os tratamentos médicos combatem diretamente a doença.

Cada ferramenta atua em uma dimensão diferente.

Quando combinadas, tornam-se mais fortes.

 

Conclusão

O estilo de vida saudável continua sendo uma das mais importantes estratégias de prevenção do câncer e de promoção da saúde.

Entretanto, uma vez que a doença se instala, hábitos saudáveis não devem ser encarados como substitutos automáticos dos tratamentos comprovados.

A boa oncologia não é a medicina do “ou”.

Não é alimentação ou cirurgia.

Não é exercício ou quimioterapia.

Não é suplementação ou imunoterapia.

É a medicina do “e”.

Aquela que reconhece o valor do autocuidado sem desprezar décadas de avanços científicos que salvaram milhões de vidas.

A melhor abordagem continua sendo integrar hábitos saudáveis, suporte multidisciplinar e tratamentos baseados em evidências, colocando cada ferramenta em seu devido lugar.

 

Referências (ABNT)

CAMPBELL, K. L. et al. Exercise guidelines for cancer survivors: consensus statement from International Multidisciplinary Roundtable. Medicine & Science in Sports & Exercise, Indianapolis, v. 51, n. 11, p. 2375-2390, 2019.

DRUKER, B. J. et al. Five-year follow-up of patients receiving imatinib for chronic myeloid leukemia. New England Journal of Medicine, Boston, v. 355, n. 23, p. 2408-2417, 2006.

ISLAMI, F. et al. Proportion and number of cancer cases and deaths attributable to potentially modifiable risk factors in the United States. CA: A Cancer Journal for Clinicians, Hoboken, v. 74, n. 1, p. 6-31, 2024.

MOORE, S. C. et al. Association of leisure-time physical activity with risk of 26 types of cancer in 1.44 million adults. JAMA Internal Medicine, Chicago, v. 176, n. 6, p. 816-825, 2016.

PATEL, A. V. et al. Physical activity, sedentary behavior, and cancer survivorship: a systematic review. CA: A Cancer Journal for Clinicians, Hoboken, v. 73, n. 5, p. 441-459, 2023.

ROCK, C. L. et al. American Cancer Society guideline for diet and physical activity for cancer prevention. CA: A Cancer Journal for Clinicians, Hoboken, v. 72, n. 3, p. 245-271, 2022.

WCRF/AICR. Diet, Nutrition, Physical Activity and Cancer: A Global Perspective. Continuous Update Project Expert Report 2018. World Cancer Research Fund/American Institute for Cancer Research, 2018.

WOLCHOK, J. D. et al. Overall survival with combined nivolumab and ipilimumab in advanced melanoma. New England Journal of Medicine, Boston, v. 386, n. 16, p. 1513-1525, 2022.

MEDIDAS DO ESTILO DE VIDA: SEMPRE NECESSÁRIAS, NEM SEMPRE SUFICIENTES – Parte 1 de 2

 

 

A ciência moderna mostra que alimentação adequada, atividade física regular, sono de qualidade, manejo do estresse e abstinência de vícios constituem pilares indispensáveis da saúde. Em muitos casos, essas medidas conseguem prevenir doenças, retardar sua progressão e até promover remissão clínica. Entretanto, também aprendemos que há situações nas quais elas não bastam (GBD 2019 Risk Factors Collaborators, 2020; WHO, 2020).

 

O Tripé do Autocuidado

Embora existam inúmeras estratégias para promover saúde, três pilares aparecem repetidamente nas grandes diretrizes médicas e nos estudos de maior qualidade: alimentação adequada, movimento corporal e equilíbrio mental associado à recuperação fisiológica, especialmente sono adequado (WHO, 2020; Fakih et al., 2024).

Esses pilares não funcionam isoladamente. Operam em incrível sincronismo. Uma alimentação inadequada prejudica o sono. O sono insuficiente favorece ganho de peso e resistência à insulina. O sedentarismo aumenta o risco de doenças cardiovasculares e metabólicas. O estresse crônico pode comprometer tanto a saúde mental quanto a física (Cappuccio et al., 2010; Fakih et al., 2024).

 

Quando o Movimento se Torna Medicina

Entre todas as intervenções relacionadas ao estilo de vida, poucas possuem um volume de evidências tão impressionante quanto a atividade física.

Um interessante estudo envolvendo mais de 116 mil adultos, acompanhado por cerca de 30 anos e publicado no Circulation, mostrou que indivíduos que realizavam entre duas e quatro vezes a quantidade mínima recomendada de atividade física apresentavam reduções substanciais da mortalidade por todas as causas e por doenças cardiovasculares, sem evidência de prejuízo decorrente de níveis elevados de exercício aeróbico (Lee et al., 2022).

Mais recentemente, uma grande revisão sistemática e meta-análise publicada no Sports Medicine avaliou 148 ensaios clínicos randomizados, envolvendo mais de 8.600 participantes, e demonstrou que o treinamento físico melhora significativamente o perfil lipídico, reduzindo colesterol total, LDL-colesterol e triglicerídeos, além de elevar os níveis de HDL-colesterol (Van de Velde et al., 2024).

Isso significa que exercícios podem substituir estatinas? Nem sempre.

Um indivíduo com LDL discretamente elevado em decorrência de hábitos inadequados pode obter excelente resposta apenas com mudanças comportamentais. Entretanto, pacientes com hipercolesterolemia familiar, doença coronariana estabelecida ou risco cardiovascular elevado frequentemente necessitam de tratamento farmacológico adicional para atingir metas seguras de LDL-colesterol (Mach et al., 2020).

Não se trata de uma derrota do estilo de vida. Trata-se do reconhecimento de que genética, fisiologia e doença nem sempre respondem integralmente às intervenções comportamentais.

 

Quando a Dieta Não Resolve Tudo

O mesmo raciocínio vale para a alimentação.

Uma alimentação saudável permanece como uma das intervenções mais poderosas da medicina preventiva. Um importante estudo publicado no New England Journal of Medicine, envolvendo participantes de alto risco cardiovascular, demonstrou que a dieta mediterrânea reduziu significativamente eventos cardiovasculares maiores quando comparada a dietas controle (Estruch et al., 2018).

Porém, mesmo uma dieta excelente possui limitações biológicas. Indivíduos com hipercolesterolemia familiar podem manter níveis elevados de LDL-colesterol apesar de hábitos exemplares. Da mesma forma, pessoas com diabetes tipo 2 mais avançado frequentemente necessitam de medicamentos para alcançar adequado controle glicêmico (American Diabetes Association, 2025).

Na prática clínica, os melhores resultados costumam surgir justamente da combinação entre mudanças sustentáveis de estilo de vida e terapias médicas quando indicadas.

Leia a continuação em Parte 2.

 

Referências

AMERICAN DIABETES ASSOCIATION. Standards of Care in Diabetes—2025. Diabetes Care, Alexandria, v. 48, Suppl. 1, 2025.

CAPPUCCIO, F. P. et al. Quantity and quality of sleep and incidence of type 2 diabetes: a systematic review and meta-analysis. Diabetes Care, Alexandria, v. 33, n. 2, p. 414-420, 2010.

ESTRUCH, R. et al. Primary prevention of cardiovascular disease with a Mediterranean diet supplemented with extra-virgin olive oil or nuts. New England Journal of Medicine, Boston, v. 378, n. 25, p. e34, 2018.

FAKIH, M. G. et al. Lifestyle medicine: the bridge between prevention and treatment of chronic diseases. BMJ, Londres, v. 384, 2024.

GBD 2019 RISK FACTORS COLLABORATORS. Global burden of 87 risk factors in 204 countries and territories, 1990–2019: a systematic analysis. The Lancet, Londres, v. 396, n. 10258, p. 1223-1249, 2020.

LEE, I. M. et al. Long-term leisure-time physical activity intensity and all-cause and cause-specific mortality: prospective cohort study. Circulation, Dallas, v. 146, n. 7, p. 523-534, 2022.

MACH, F. et al. 2019 ESC/EAS Guidelines for the management of dyslipidaemias. European Heart Journal, Oxford, v. 41, n. 1, p. 111-188, 2020.

VAN DE VELDE, T. et al. The effect of exercise training on blood lipids: a systematic review and meta-analysis. Sports Medicine, Auckland, v. 54, p. 1047-1068, 2024.

WORLD HEALTH ORGANIZATION. WHO Guidelines on Physical Activity and Sedentary Behaviour. Geneva: WHO, 2020.

A Medicina do Bom Senso

 

A história da medicina é marcada por uma tensão constante entre dois polos: de um lado, o rigor científico, acadêmico, metodológico; de outro, a observação prática, a experiência clínica, a tradição popular e ancestral. Frequentemente, essas duas dimensões foram tratadas como adversárias. No entanto, talvez a verdadeira maturidade da medicina esteja justamente na capacidade de equilibrá-las.

 

Hoje, valorizamos — com razão — os estudos científicos robustos: ensaios clínicos randomizados, duplo-cegos, multicêntricos, metanálises e revisões sistemáticas publicadas em periódicos respeitados como New England Journal of Medicine, The Lancet, JAMA e Nature. Essa estrutura metodológica salvou incontáveis vidas ao permitir separar tratamentos eficazes de ilusões terapêuticas. Como bem recorda o oncologista Siddhartha Mukherjee (2016), a medicina caminha constantemente na linha tênue entre a certeza estatística e a incerteza do paciente individual, exigindo que o método valide a intuição.

 

Entretanto, muitos conhecimentos atualmente considerados pilares da medicina começaram apenas como observações empíricas. Antes de haver evidências definitivas, houve médicos, curandeiros, populações tradicionais e observadores atentos percebendo padrões na realidade. Em muitos casos, a ciência veio depois para explicar aquilo que já vinha sendo observado na prática.

 

Por outro lado, também é verdade que inúmeras crenças populares, místicas ou modismos jamais resistiram ao teste da ciência. Algumas são apenas inócuas; outras, perigosas. Em nome de falsas promessas, muitos abandonam tratamentos eficazes, perdem tempo precioso e colocam a própria saúde em risco.

 

A questão central, portanto, não é escolher entre ciência e observação. O desafio está em distinguir, com equilíbrio e bom senso, aquilo que merece investigação séria, e separação criteriosa daquilo que pertence ao campo do folclore, do marketing ou do charlatanismo.

 


Quando a Observação Antecedeu a Ciência

Ignaz Semmelweis e a higiene das mãos

Um dos exemplos mais emblemáticos da história da medicina é o de Ignaz Semmelweis, médico húngaro do século XIX. Trabalhando em maternidades de Viena, ele percebeu que mulheres atendidas por médicos e estudantes morriam muito mais de febre puerperal do que aquelas atendidas por parteiras.

 

Sem compreender ainda a existência dos microrganismos — a teoria microbiana das doenças só seria consolidada depois por Louis Pasteur e Robert Koch — Semmelweis observou empiricamente que a lavagem cuidadosa das mãos reduzia drasticamente a mortalidade materna (SEMMELWEIS, 1861). Em 1847, ele instituiu o uso de solução clorada para higienização das mãos. A mortalidade despencou de cerca de 10–18% para menos de 2%.

 

Mesmo diante dos resultados, Semmelweis foi ridicularizado por parte da comunidade acadêmica da época. Muitos médicos se recusavam a aceitar que eles próprios pudessem estar transmitindo doenças. Hoje, a higiene das mãos é um dos maiores pilares da medicina moderna e da segurança hospitalar. A lição histórica é profunda: às vezes a observação correta precede a explicação científica.

 

James Lind e o escorbuto no mar

Um paralelo histórico crucial ocorreu um século antes, em 1747, com o médico naval escocês James Lind. Diante de tripulações inteiras dizimadas pelo escorbuto, Lind realizou aquele que é considerado um dos primeiros ensaios clínicos controlados da história (LIND, 1753). Ao testar empiricamente diferentes suplementos dietéticos em marinheiros enfermos, ele observou que aqueles que consumiam laranjas e limões recuperavam-se milagrosamente. A ciência demoraria quase duzentos anos para isolar a vitamina C e explicar o mecanismo biológico da síntese do colágeno, provando que a ação pragmática salvou frotas inteiras muito antes de a teoria bioquímica estar escrita.

Alexander Fleming e o acaso da Penicilina

Mesmo no século XX, o pragmatismo da observação moldou a virada da saúde global. Em 1928, Alexander Fleming não desenhou um estudo complexo para descobrir o primeiro antibiótico; ele simplesmente teve a atenção clínica aguçada para notar que um mofo contaminante (Penicillium notatum) havia criado um halo de inibição ao redor de uma cultura de estafilococos (FLEMING, 1929). Se tivesse descartado a placa bacteriana como um mero erro experimental de laboratório, a era dos antibióticos teria sido retardada por décadas.

O beribéri e o beneficiamento dos grãos

Outro exemplo fascinante vem da nutrição. No final do século XIX e início do século XX, populações asiáticas começaram a apresentar surtos importantes de beribéri, doença neurológica e cardiovascular grave. O médico holandês Christiaan Eijkman observou que galinhas alimentadas com arroz polido adoeciam, enquanto aquelas alimentadas com arroz integral permaneciam saudáveis (EIJKMAN, 1897).

 

Décadas depois, descobriu-se que o polimento removia a tiamina (vitamina B1), levando à deficiência nutricional. Hoje, parece óbvio que alimentos ultraprocessados e excessivamente refinados podem causar prejuízos metabólicos. Porém, durante muito tempo isso não era valorizado pela medicina acadêmica. Esse episódio antecipa discussões extremamente atuais sobre industrialização alimentar, empobrecimento nutricional e doenças crônicas modernas.

 

Quina, povos amazônicos e a malária

Os povos indígenas amazônicos utilizavam há séculos preparações à base da casca da quina (Cinchona spp.) para tratar febres intermitentes. Posteriormente, isolou-se dessa planta o quinino, um dos mais importantes antimaláricos da história. Hoje sabemos que o quinino atua diretamente contra o Plasmodium, parasita causador da malária.

 

Esse é um exemplo clássico de como conhecimentos tradicionais podem conter observações terapêuticas reais e valiosas. A ciência não “inventou” o efeito da quina; ela o validou, refinou e explicou biologicamente.

 

Acupuntura: do ceticismo à aceitação parcial

A acupuntura talvez seja um dos exemplos mais conhecidos de prática inicialmente rejeitada pelo Ocidente e posteriormente parcialmente incorporada à medicina baseada em evidências. Embora muitos conceitos tradicionais chineses — como “fluxo de energia vital” — não tenham comprovação científica objetiva, diversos estudos modernos demonstraram benefício da acupuntura para algumas condições específicas, sobretudo dor crônica, lombalgia, osteoartrite e náuseas.

 

Revisões sistemáticas publicadas em periódicos de alto impacto sugerem que, embora parte do efeito possa envolver placebo e fatores contextuais, existem benefícios clínicos reais em determinadas situações (ZHOU et al., 2021). Isso ilustra um ponto importante: uma prática pode conter elementos simbólicos ou tradicionais não comprovados, mas ainda assim possuir componentes fisiológicos úteis.

 


O Estilo de Vida e a Microbiota: Os Maiores Exemplos Modernos

Talvez nenhum tema represente melhor o conflito entre academicismo e pragmatismo do que o estilo de vida. Durante grande parte do século XX, alimentação, sono, manejo do estresse, atividade física e vínculos sociais foram subestimados pela medicina convencional. A ênfase estava predominantemente em medicamentos, procedimentos e intervenções hospitalares.

 

Hoje, porém, há enorme quantidade de evidências demonstrando que o estilo de vida influencia profundamente doenças cardiovasculares, diabetes tipo 2, obesidade, hipertensão, depressão, demência e até certos tipos de câncer (ORNISH, 2019).

 

Açúcar e ultraprocessados: décadas de atraso científico

Durante décadas, gorduras saturadas foram tratadas como principal vilã cardiovascular, enquanto o impacto do açúcar e dos ultraprocessados recebeu menos atenção. Documentos históricos revelados no JAMA Internal Medicine mostraram que setores da indústria açucareira financiaram pesquisas e influenciaram narrativas científicas minimizando os efeitos do açúcar (KEARNS; SCHMIDT; GLANTZ, 2016).

 

Hoje, grandes estudos associam o consumo excessivo de ultraprocessados ao aumento de mortalidade, obesidade, doenças cardiovasculares e distúrbios metabólicos (ALLEN et al., 2018; NATURE REVIEWS CARDIOLOGY, 2024). O estudo experimental de Hall et al. (2019), publicado no Cell Metabolism, demonstrou que dietas ultraprocessadas aumentam espontaneamente a ingestão calórica e o ganho de peso. Mais recentemente, revisões amplas reforçaram o nexo causal entre o consumo desses produtos e o declínio geral da saúde (BMJ MEDICINE, 2024; LANE et al., 2024). Ou seja: observações clínicas e populacionais de defensores da comida de verdade já existiam há décadas antes de haver consenso acadêmico robusto (POLLAN, 2008).

 

O ressurgimento da saúde intestinal e da microbiota

O campo da gastroenterologia e da saúde sistêmica oferece um exemplo contemporâneo avassalador: a microbiota intestinal. Por gerações, a medicina ocidental encarou o cólon primariamente como um órgão de excreção e os micróbios residentes como comensais irrelevantes ou patógenos em potencial. Enquanto isso, tradições médicas orientais e médicos naturalistas europeus do início do século XX insistiam que “a morte e a saúde começam no intestino”.

A virada pragmática veio com o ressurgimento e a validação do Transplante de Microbiota Fecal (TMF). Inicialmente vista com repulsa e ceticismo pela academia, a transferência de matéria fecal de um doador saudável para o trato gastrointestinal de um paciente enfermo provou-se o tratamento mais eficaz e resolutivo contra a infecção recorrente por Clostridioides difficile, superando amplamente os antibióticos de última geração (BAUNWALL et al., 2024). A prática empírica forçou a ciência a investigar os mecanismos de simbiose bacteriana, abrindo as portas para uma nova era que conecta o microbioma à imunidade, à cicatrização e ao eixo intestino-cérebro (CRYAN et al., 2025).

Exercício físico: um “remédio” negligenciado

Hoje sabemos que exercício físico reduz mortalidade, melhora resistência insulínica, diminui inflamação e reduz risco cardiovascular. Mas durante muito tempo a atividade física era vista quase como detalhe secundário pela prática médica padrão.

 

Estudos contemporâneos mostram que o sedentarismo rivaliza com o tabagismo como fator de risco populacional (WORLD HEALTH ORGANIZATION, 2020). A publicação do Lancet Physical Activity Series consolidou o entendimento do exercício como uma das intervenções médicas mais poderosas e custo-efetivas existentes.

 

Sono e saúde mental

O mesmo ocorreu com o sono. A privação crônica de sono, antes banalizada ou até romantizada em ambientes acadêmicos e corporativos, hoje é diretamente associada a obesidade, diabetes, depressão, demência, acidentes cardiovasculares e redução da imunidade (JAMA, 2023).

 

O estresse psicossocial seguiu a mesma trajetória. O que antes era rotulado de forma vaga como “nervosismo” ou “fator psicológico” ganhou contornos neuroendócrinos rígidos. O trabalho do neurobiologista Robert Sapolsky (2004) demonstrou de forma brilhante como o estresse crônico destrói fisicamente o hipocampo, eleva cronicamente o cortisol e desregula o sistema imune. A medicina moderna vem redescobrindo algo que tradições antigas já intuíam: corpo e mente não funcionam isoladamente.

 


O Outro Lado: Quando o “Natural” se Torna Armadilha

Se por um lado o academicismo excessivo pode ignorar observações importantes, o extremo oposto também é perigoso. Nem toda tradição é verdadeira. Nem todo relato é evidência. Nem todo “natural” é seguro.

 

Existe enorme diferença entre uma observação promissora que merece investigação e uma crença transformada irresponsavelmente em “tratamento”. É justamente nesse espaço cinzento que florescem o charlatanismo, os modismos e as falsas promessas.

 

O Problema do Charlatanismo e das “Curas Milagrosas”

O câncer como exemplo extremo

Talvez nenhum campo ilustre melhor os perigos do abandono da medicina baseada em evidências do que o câncer. Existem inúmeros relatos de pacientes que abandonam tratamentos comprovadamente eficazes — cirurgia, quimioterapia, imunoterapia ou radioterapia — em busca de “curas naturais”, protocolos alternativos ou substâncias milagrosas divulgadas sem qualquer escrúpulo na internet.

 

Um estudo contundente publicado no Journal of the National Cancer Institute mostrou que pacientes que optaram exclusivamente por terapias alternativas apresentaram uma mortalidade significativamente maior e uma sobrevida drasticamente reduzida (JOHNSON et al., 2018). É importante compreender uma nuance fundamental: o estilo de vida saudável, alimentação adequada, exercício, suporte emocional e espiritualidade podem ser aliados extremamente importantes no enfrentamento da doença (SERVAN-SCHREIBER, 2009). Mas isso significa somar, e nunca substituir tratamentos cientificamente eficazes por promessas sem comprovação. Confundir apoio complementar com substituição terapêutica pode custar vidas.

 

Queda de cabelo, hormônios e modismos

O mesmo fenômeno ocorre em situações menos graves, porém muito frequentes no cotidiano clínico. Na busca por estética, longevidade ou performance instantânea, proliferam protocolos sem qualquer base em evidências científicas sólidas: megadoses de suplementos, hormônios sem indicação clínica real, “soros milagrosos”, antioxidantes intravenosos, terapias “detox” comerciais, biohacking sem critério, modismos capilares e baterias de exames excessivos e desnecessários.

 

Frequentemente, vende-se sofisticação mercantilizada enquanto o básico é negligenciado: sono adequado, alimentação minimamente saudável, manejo do estresse, atividade física regular, abandono do tabagismo, vínculos afetivos e saúde mental. Muitas vezes, o indivíduo gasta fortunas em suplementos exóticos enquanto dorme mal, vive em sedentarismo e mantém uma dieta baseada em ultraprocessados.

 


Interesses Econômicos: Um Debate Necessário

Outro ponto delicado — mas de debate obrigatório — envolve os interesses financeiros na produção do conhecimento científico. Grandes ensaios clínicos custam milhões ou bilhões de dólares. Naturalmente, há maior incentivo econômico para financiar pesquisas de produtos patenteáveis, passíveis de gerar alta lucratividade global.

 

A tirzepatida e as novas classes de agonistas de receptores de incretinas são ótimos exemplos contemporâneos. Trata-se de medicações extremamente promissoras para o tratamento da obesidade e do diabetes, com resultados robustos e transformadores publicados no New England Journal of Medicine (2022). Isso não desmerece o medicamento nem o mérito das pesquisas. Ao contrário: os dados são impressionantes e redefiniram as diretrizes metabólicas globais.

 

Mas também é uma verdade de mercado que haverá infinitamente mais recursos para estudar um fármaco sintético patenteável do que uma mudança comportamental ou um fitoterápico simples, barato e sem retorno financeiro expressivo. Esse viés econômico influencia diretamente as prioridades de pesquisa no mundo inteiro. Consequentemente, algumas terapias tradicionais ou de estilo de vida úteis podem permanecer pouco estudadas por escassez de fomento, enquanto certos produtos de alto custo recebem imensa visibilidade comercial. Reconhecer isso não significa rejeitar a ciência; significa compreender que ela é executada dentro de sistemas econômicos complexos e reais.

 


O Risco Atual: Transformar Tudo em “Performance”

Vivemos uma época em que saúde frequentemente é confundida com otimização extrema e monitoramento neurótico. Exames genéticos sem indicação clara, painéis intermináveis de biomarcadores comerciais, protocolos intravenosos contínuos e “hacks” de longevidade são vendidos agressivamente como símbolos de status e modernidade.

 

Entretanto, muitas dessas estratégias possuem evidências frágeis, conflitantes ou insuficientes. Um exemplo clássico e recorrente são os testes de intolerância alimentar baseados em anticorpos IgG. Diversas sociedades médicas internacionais de alergia e imunologia afirmam categoricamente que a presença de IgG para alimentos reflete apenas memória de exposição e tolerância imunológica, não comprovando intolerância clínica, além de gerar restrições alimentares severas e desnecessárias (WORLD ALLERGY ORGANIZATION, 2020).

 

Da mesma forma, o uso indiscriminado de vitaminas intravenosas e antioxidantes em “cocktails de imunidade” carece de respaldo robusto para a população saudável, podendo, em última análise, sobrecarregar os sistemas de depuração do organismo. A busca incessante por intervenções sofisticadas e caras frequentemente obscurece aquilo que realmente produz o maior impacto na longevidade real: a simplicidade do básico feito com constância.

 


O Papel do Médico Prudente

A boa medicina talvez esteja justamente na prudência. Nem o dogmatismo acadêmico cego, nem o misticismo ingênuo. O profissional sério precisa respeitar a ciência robusta, reconhecer as limitações do conhecimento atual, manter a abertura intelectual para ouvir o paciente, observar atentamente a realidade clínica e evitar a arrogância do saber absoluto, mas também rechaçar firmemente promessas irresponsáveis.

 

A observação prática pode e deve gerar hipóteses valiosas. Mas hipóteses precisam ser testadas de forma honesta. Ao mesmo tempo, o clínico experiente sabe que a ausência de evidência estatística em um dado momento não significa automaticamente evidência de ausência de efeito clínico. Esse equilíbrio é difícil — e exatamente por isso tão precioso.

 


Conclusão

A história da medicina ensina, acima de tudo, humildade. Diversas verdades atuais nasceram da simples e atenta observação humana. Práticas inicialmente ridicularizadas por seus pares foram posteriormente validadas e incorporadas pela ciência. Por outro lado, incontáveis crenças populares e modismos jamais resistiram a uma investigação metodológica séria.

 

A medicina amadurece quando consegue unir o rigor científico, a experiência clínica, a observação cuidadosa, a sabedoria prática e o bom senso. Nem todo conhecimento ancestral é charlatanismo; nem toda inovação tecnológica vistosa representa um avanço real. O verdadeiro desafio é discernir.

 

A ciência continua sendo nossa ferramenta mais segura contra ilusões terapêuticas e vieses cognitivos. Mas ela também deve permanecer aberta à investigação honesta daquilo que a nossa atual capacidade técnica ainda não compreende plenamente.

 

A MAIOR LIÇÃO permanece surpreendentemente simples: o essencial continua sendo essencial. Dormir bem. Comer melhor. Mover o corpo. Cultivar vínculos profundos. Reduzir os excessos. Evitar fanatismos e desconfiar de promessas milagrosas de gratificação instantânea. Em uma época fascinada por extremos e respostas rápidas, o equilíbrio continua sendo a forma mais sofisticada de sabedoria.

 


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