CÂNCER: A MEDICINA DO “E”, NÃO DO “OU” – Estilo de Vida e Tratamentos Modernos Devem Caminhar Juntos

 

 

Introdução

Poucas palavras despertam tanto medo quanto “câncer”.

Ao receber um diagnóstico oncológico, muitas pessoas passam imediatamente a procurar tudo o que possa ajudá-las. Algumas buscam informações sobre alimentação, suplementos, atividade física, espiritualidade ou terapias complementares. Outras depositam toda a esperança nos tratamentos médicos convencionais.

Mas talvez a pergunta mais importante seja:

Precisamos escolher entre estilo de vida e tratamento médico?

A resposta da ciência moderna é clara:

Não.

Quando o assunto é câncer, a melhor estratégia geralmente não é “um ou outro”.

É “um e outro”.

 

Importante – Disclaimer

Este artigo tem finalidade exclusivamente educativa e informativa. Não se destina a diagnosticar doenças, substituir consultas médicas ou estabelecer condutas terapêuticas. Pacientes com suspeita ou diagnóstico de câncer devem buscar avaliação e acompanhamento de médicos e demais profissionais de saúde qualificados. Nenhuma informação aqui apresentada deve ser interpretada como recomendação para iniciar, interromper ou substituir tratamentos médicos.

 

O Estilo de Vida Importa — E Muito

Estima-se que uma parcela significativa dos cânceres esteja relacionada a fatores modificáveis.

Tabagismo, obesidade, sedentarismo, consumo excessivo de álcool e padrões alimentares inadequados contribuem para milhões de casos de câncer em todo o mundo (Islami et al., 2024).

Um dos relatórios mais influentes da área, publicado pela American Cancer Society, destaca que manter peso adequado, praticar atividade física regularmente, evitar tabagismo e limitar o consumo de álcool estão entre as medidas mais importantes para prevenção do câncer (Rock et al., 2022).

Isso significa que todos os cânceres são evitáveis?

Certamente não.

Mutações espontâneas, predisposição genética, envelhecimento e diversos fatores ainda fora de nosso controle também participam do processo.

Mas ignorar o papel do estilo de vida seria desprezar uma das ferramentas preventivas mais poderosas que possuímos.

 

Exercício Físico: Muito Além da Qualidade de Vida

Durante muitos anos acreditou-se que o exercício físico servia apenas para melhorar o condicionamento físico dos pacientes oncológicos.

Hoje sabemos que seus efeitos podem ir muito além.

Um estudo envolvendo mais de 750 mil adultos, publicado no JAMA Internal Medicine, demonstrou que níveis mais elevados de atividade física estavam associados a menor risco de diversos tipos de câncer, incluindo câncer de mama, cólon, rim, fígado e pulmão (Moore et al., 2016).

Mais recentemente, revisões sistemáticas vêm mostrando que a prática regular de atividade física após o diagnóstico também pode estar associada a melhor sobrevida em determinados tumores, especialmente câncer de mama e câncer colorretal (Patel et al., 2023).

Além disso, o exercício contribui para:

  • redução da fadiga relacionada ao câncer;
  • preservação da massa muscular;
  • melhora da capacidade funcional;
  • redução da ansiedade e depressão;
  • melhora da qualidade de vida.

Não é por acaso que diversas diretrizes oncológicas passaram a recomendar atividade física supervisionada como parte integrante do tratamento (Campbell et al., 2019).

 

Alimentação: Nem Milagre, Nem Irrelevância

Poucos temas geram tantas discussões quanto alimentação e câncer.

Infelizmente, também é uma área repleta de promessas exageradas.

Não existe evidência robusta de que uma dieta isolada seja capaz de curar cânceres estabelecidos.

Por outro lado, existe evidência consistente de que padrões alimentares saudáveis contribuem para prevenção, recuperação clínica e redução de complicações.

O relatório do World Cancer Research Fund e do American Institute for Cancer Research concluiu que excesso de gordura corporal está associado ao aumento do risco de pelo menos 13 tipos de câncer (WCRF/AICR, 2018).

Da mesma forma, dietas ricas em vegetais, frutas, grãos integrais e alimentos minimamente processados estão associadas a melhores desfechos gerais de saúde.

Mas é importante compreender uma distinção fundamental:

Alimentação pode ajudar a prevenir cânceres e apoiar tratamentos. Não há evidência científica robusta de que substitua cirurgia, quimioterapia, radioterapia ou imunoterapia quando estas são indicadas.

 

O Perigo dos Falsos Dilemas

Uma das armadilhas mais frequentes enfrentadas por pacientes oncológicos é o falso dilema.

Por exemplo:

  • quimioterapia ou alimentação saudável?
  • imunoterapia ou suplementação?
  • cirurgia ou medicina integrativa?

A ciência responde de forma diferente:

  • quimioterapia e alimentação adequada;
  • imunoterapia e suporte nutricional;
  • cirurgia e atividade física;
  • medicina baseada em evidências e cuidados complementares seguros.

O problema surge quando abordagens complementares passam a substituir tratamentos cuja eficácia já foi demonstrada.

 

Quando a Medicina Salva Vidas

Ao longo das últimas décadas, a oncologia viveu uma revolução.

O desenvolvimento de terapias-alvo, imunoterapias e avanços cirúrgicos transformou doenças antes consideradas praticamente fatais em condições potencialmente controláveis ou curáveis.

Um dos exemplos mais emblemáticos é o melanoma metastático.

Antes da era da imunoterapia, a sobrevida de longo prazo era rara.

Com o advento de medicamentos como nivolumabe e ipilimumabe, estudos publicados no New England Journal of Medicine demonstraram sobrevidas de longo prazo sem precedentes para pacientes com doença avançada (Wolchok et al., 2022).

Outro exemplo impressionante é a leucemia mieloide crônica.

A introdução do imatinibe transformou uma doença frequentemente fatal em uma condição crônica para muitos pacientes (Druker et al., 2006).

Nenhuma mudança alimentar, por mais saudável que seja, produziu resultados comparáveis nesses cenários.

 

E os Suplementos?

Suplementos nutricionais podem ser úteis em situações específicas.

Pacientes oncológicos frequentemente apresentam desnutrição, sarcopenia ou deficiências nutricionais que merecem correção.

Entretanto, a literatura científica não apoia o uso indiscriminado de suplementos como substitutos dos tratamentos convencionais.

Em alguns casos, doses elevadas de determinados antioxidantes podem inclusive interferir em mecanismos pelos quais quimioterápicos e radioterapia exercem seus efeitos antitumorais (Rock et al., 2022).

Isso não significa que suplementos sejam proibidos.

Significa apenas que devem ser utilizados com critério e supervisão profissional.

 

A Medicina do “E”

Talvez a maior lição da oncologia moderna seja esta:

Não precisamos escolher entre autocuidado e medicina.

Precisamos somá-los.

O exercício físico melhora a capacidade funcional para enfrentar os tratamentos.

A alimentação adequada favorece recuperação e manutenção da massa magra.

O suporte psicológico melhora adesão terapêutica e qualidade de vida.

O sono adequado auxilia a recuperação física e emocional.

E os tratamentos médicos combatem diretamente a doença.

Cada ferramenta atua em uma dimensão diferente.

Quando combinadas, tornam-se mais fortes.

 

Conclusão

O estilo de vida saudável continua sendo uma das mais importantes estratégias de prevenção do câncer e de promoção da saúde.

Entretanto, uma vez que a doença se instala, hábitos saudáveis não devem ser encarados como substitutos automáticos dos tratamentos comprovados.

A boa oncologia não é a medicina do “ou”.

Não é alimentação ou cirurgia.

Não é exercício ou quimioterapia.

Não é suplementação ou imunoterapia.

É a medicina do “e”.

Aquela que reconhece o valor do autocuidado sem desprezar décadas de avanços científicos que salvaram milhões de vidas.

A melhor abordagem continua sendo integrar hábitos saudáveis, suporte multidisciplinar e tratamentos baseados em evidências, colocando cada ferramenta em seu devido lugar.

 

Referências (ABNT)

CAMPBELL, K. L. et al. Exercise guidelines for cancer survivors: consensus statement from International Multidisciplinary Roundtable. Medicine & Science in Sports & Exercise, Indianapolis, v. 51, n. 11, p. 2375-2390, 2019.

DRUKER, B. J. et al. Five-year follow-up of patients receiving imatinib for chronic myeloid leukemia. New England Journal of Medicine, Boston, v. 355, n. 23, p. 2408-2417, 2006.

ISLAMI, F. et al. Proportion and number of cancer cases and deaths attributable to potentially modifiable risk factors in the United States. CA: A Cancer Journal for Clinicians, Hoboken, v. 74, n. 1, p. 6-31, 2024.

MOORE, S. C. et al. Association of leisure-time physical activity with risk of 26 types of cancer in 1.44 million adults. JAMA Internal Medicine, Chicago, v. 176, n. 6, p. 816-825, 2016.

PATEL, A. V. et al. Physical activity, sedentary behavior, and cancer survivorship: a systematic review. CA: A Cancer Journal for Clinicians, Hoboken, v. 73, n. 5, p. 441-459, 2023.

ROCK, C. L. et al. American Cancer Society guideline for diet and physical activity for cancer prevention. CA: A Cancer Journal for Clinicians, Hoboken, v. 72, n. 3, p. 245-271, 2022.

WCRF/AICR. Diet, Nutrition, Physical Activity and Cancer: A Global Perspective. Continuous Update Project Expert Report 2018. World Cancer Research Fund/American Institute for Cancer Research, 2018.

WOLCHOK, J. D. et al. Overall survival with combined nivolumab and ipilimumab in advanced melanoma. New England Journal of Medicine, Boston, v. 386, n. 16, p. 1513-1525, 2022.

MEDIDAS DO ESTILO DE VIDA: SEMPRE NECESSÁRIAS, NEM SEMPRE SUFICIENTES – Parte 1 de 2

 

 

A ciência moderna mostra que alimentação adequada, atividade física regular, sono de qualidade, manejo do estresse e abstinência de vícios constituem pilares indispensáveis da saúde. Em muitos casos, essas medidas conseguem prevenir doenças, retardar sua progressão e até promover remissão clínica. Entretanto, também aprendemos que há situações nas quais elas não bastam (GBD 2019 Risk Factors Collaborators, 2020; WHO, 2020).

 

O Tripé do Autocuidado

Embora existam inúmeras estratégias para promover saúde, três pilares aparecem repetidamente nas grandes diretrizes médicas e nos estudos de maior qualidade: alimentação adequada, movimento corporal e equilíbrio mental associado à recuperação fisiológica, especialmente sono adequado (WHO, 2020; Fakih et al., 2024).

Esses pilares não funcionam isoladamente. Operam em incrível sincronismo. Uma alimentação inadequada prejudica o sono. O sono insuficiente favorece ganho de peso e resistência à insulina. O sedentarismo aumenta o risco de doenças cardiovasculares e metabólicas. O estresse crônico pode comprometer tanto a saúde mental quanto a física (Cappuccio et al., 2010; Fakih et al., 2024).

 

Quando o Movimento se Torna Medicina

Entre todas as intervenções relacionadas ao estilo de vida, poucas possuem um volume de evidências tão impressionante quanto a atividade física.

Um interessante estudo envolvendo mais de 116 mil adultos, acompanhado por cerca de 30 anos e publicado no Circulation, mostrou que indivíduos que realizavam entre duas e quatro vezes a quantidade mínima recomendada de atividade física apresentavam reduções substanciais da mortalidade por todas as causas e por doenças cardiovasculares, sem evidência de prejuízo decorrente de níveis elevados de exercício aeróbico (Lee et al., 2022).

Mais recentemente, uma grande revisão sistemática e meta-análise publicada no Sports Medicine avaliou 148 ensaios clínicos randomizados, envolvendo mais de 8.600 participantes, e demonstrou que o treinamento físico melhora significativamente o perfil lipídico, reduzindo colesterol total, LDL-colesterol e triglicerídeos, além de elevar os níveis de HDL-colesterol (Van de Velde et al., 2024).

Isso significa que exercícios podem substituir estatinas? Nem sempre.

Um indivíduo com LDL discretamente elevado em decorrência de hábitos inadequados pode obter excelente resposta apenas com mudanças comportamentais. Entretanto, pacientes com hipercolesterolemia familiar, doença coronariana estabelecida ou risco cardiovascular elevado frequentemente necessitam de tratamento farmacológico adicional para atingir metas seguras de LDL-colesterol (Mach et al., 2020).

Não se trata de uma derrota do estilo de vida. Trata-se do reconhecimento de que genética, fisiologia e doença nem sempre respondem integralmente às intervenções comportamentais.

 

Quando a Dieta Não Resolve Tudo

O mesmo raciocínio vale para a alimentação.

Uma alimentação saudável permanece como uma das intervenções mais poderosas da medicina preventiva. Um importante estudo publicado no New England Journal of Medicine, envolvendo participantes de alto risco cardiovascular, demonstrou que a dieta mediterrânea reduziu significativamente eventos cardiovasculares maiores quando comparada a dietas controle (Estruch et al., 2018).

Porém, mesmo uma dieta excelente possui limitações biológicas. Indivíduos com hipercolesterolemia familiar podem manter níveis elevados de LDL-colesterol apesar de hábitos exemplares. Da mesma forma, pessoas com diabetes tipo 2 mais avançado frequentemente necessitam de medicamentos para alcançar adequado controle glicêmico (American Diabetes Association, 2025).

Na prática clínica, os melhores resultados costumam surgir justamente da combinação entre mudanças sustentáveis de estilo de vida e terapias médicas quando indicadas.

Leia a continuação em Parte 2.

 

Referências

AMERICAN DIABETES ASSOCIATION. Standards of Care in Diabetes—2025. Diabetes Care, Alexandria, v. 48, Suppl. 1, 2025.

CAPPUCCIO, F. P. et al. Quantity and quality of sleep and incidence of type 2 diabetes: a systematic review and meta-analysis. Diabetes Care, Alexandria, v. 33, n. 2, p. 414-420, 2010.

ESTRUCH, R. et al. Primary prevention of cardiovascular disease with a Mediterranean diet supplemented with extra-virgin olive oil or nuts. New England Journal of Medicine, Boston, v. 378, n. 25, p. e34, 2018.

FAKIH, M. G. et al. Lifestyle medicine: the bridge between prevention and treatment of chronic diseases. BMJ, Londres, v. 384, 2024.

GBD 2019 RISK FACTORS COLLABORATORS. Global burden of 87 risk factors in 204 countries and territories, 1990–2019: a systematic analysis. The Lancet, Londres, v. 396, n. 10258, p. 1223-1249, 2020.

LEE, I. M. et al. Long-term leisure-time physical activity intensity and all-cause and cause-specific mortality: prospective cohort study. Circulation, Dallas, v. 146, n. 7, p. 523-534, 2022.

MACH, F. et al. 2019 ESC/EAS Guidelines for the management of dyslipidaemias. European Heart Journal, Oxford, v. 41, n. 1, p. 111-188, 2020.

VAN DE VELDE, T. et al. The effect of exercise training on blood lipids: a systematic review and meta-analysis. Sports Medicine, Auckland, v. 54, p. 1047-1068, 2024.

WORLD HEALTH ORGANIZATION. WHO Guidelines on Physical Activity and Sedentary Behaviour. Geneva: WHO, 2020.

A Medicina do Bom Senso

 

A história da medicina é marcada por uma tensão constante entre dois polos: de um lado, o rigor científico, acadêmico, metodológico; de outro, a observação prática, a experiência clínica, a tradição popular e ancestral. Frequentemente, essas duas dimensões foram tratadas como adversárias. No entanto, talvez a verdadeira maturidade da medicina esteja justamente na capacidade de equilibrá-las.

 

Hoje, valorizamos — com razão — os estudos científicos robustos: ensaios clínicos randomizados, duplo-cegos, multicêntricos, metanálises e revisões sistemáticas publicadas em periódicos respeitados como New England Journal of Medicine, The Lancet, JAMA e Nature. Essa estrutura metodológica salvou incontáveis vidas ao permitir separar tratamentos eficazes de ilusões terapêuticas. Como bem recorda o oncologista Siddhartha Mukherjee (2016), a medicina caminha constantemente na linha tênue entre a certeza estatística e a incerteza do paciente individual, exigindo que o método valide a intuição.

 

Entretanto, muitos conhecimentos atualmente considerados pilares da medicina começaram apenas como observações empíricas. Antes de haver evidências definitivas, houve médicos, curandeiros, populações tradicionais e observadores atentos percebendo padrões na realidade. Em muitos casos, a ciência veio depois para explicar aquilo que já vinha sendo observado na prática.

 

Por outro lado, também é verdade que inúmeras crenças populares, místicas ou modismos jamais resistiram ao teste da ciência. Algumas são apenas inócuas; outras, perigosas. Em nome de falsas promessas, muitos abandonam tratamentos eficazes, perdem tempo precioso e colocam a própria saúde em risco.

 

A questão central, portanto, não é escolher entre ciência e observação. O desafio está em distinguir, com equilíbrio e bom senso, aquilo que merece investigação séria, e separação criteriosa daquilo que pertence ao campo do folclore, do marketing ou do charlatanismo.

 


Quando a Observação Antecedeu a Ciência

Ignaz Semmelweis e a higiene das mãos

Um dos exemplos mais emblemáticos da história da medicina é o de Ignaz Semmelweis, médico húngaro do século XIX. Trabalhando em maternidades de Viena, ele percebeu que mulheres atendidas por médicos e estudantes morriam muito mais de febre puerperal do que aquelas atendidas por parteiras.

 

Sem compreender ainda a existência dos microrganismos — a teoria microbiana das doenças só seria consolidada depois por Louis Pasteur e Robert Koch — Semmelweis observou empiricamente que a lavagem cuidadosa das mãos reduzia drasticamente a mortalidade materna (SEMMELWEIS, 1861). Em 1847, ele instituiu o uso de solução clorada para higienização das mãos. A mortalidade despencou de cerca de 10–18% para menos de 2%.

 

Mesmo diante dos resultados, Semmelweis foi ridicularizado por parte da comunidade acadêmica da época. Muitos médicos se recusavam a aceitar que eles próprios pudessem estar transmitindo doenças. Hoje, a higiene das mãos é um dos maiores pilares da medicina moderna e da segurança hospitalar. A lição histórica é profunda: às vezes a observação correta precede a explicação científica.

 

James Lind e o escorbuto no mar

Um paralelo histórico crucial ocorreu um século antes, em 1747, com o médico naval escocês James Lind. Diante de tripulações inteiras dizimadas pelo escorbuto, Lind realizou aquele que é considerado um dos primeiros ensaios clínicos controlados da história (LIND, 1753). Ao testar empiricamente diferentes suplementos dietéticos em marinheiros enfermos, ele observou que aqueles que consumiam laranjas e limões recuperavam-se milagrosamente. A ciência demoraria quase duzentos anos para isolar a vitamina C e explicar o mecanismo biológico da síntese do colágeno, provando que a ação pragmática salvou frotas inteiras muito antes de a teoria bioquímica estar escrita.

Alexander Fleming e o acaso da Penicilina

Mesmo no século XX, o pragmatismo da observação moldou a virada da saúde global. Em 1928, Alexander Fleming não desenhou um estudo complexo para descobrir o primeiro antibiótico; ele simplesmente teve a atenção clínica aguçada para notar que um mofo contaminante (Penicillium notatum) havia criado um halo de inibição ao redor de uma cultura de estafilococos (FLEMING, 1929). Se tivesse descartado a placa bacteriana como um mero erro experimental de laboratório, a era dos antibióticos teria sido retardada por décadas.

O beribéri e o beneficiamento dos grãos

Outro exemplo fascinante vem da nutrição. No final do século XIX e início do século XX, populações asiáticas começaram a apresentar surtos importantes de beribéri, doença neurológica e cardiovascular grave. O médico holandês Christiaan Eijkman observou que galinhas alimentadas com arroz polido adoeciam, enquanto aquelas alimentadas com arroz integral permaneciam saudáveis (EIJKMAN, 1897).

 

Décadas depois, descobriu-se que o polimento removia a tiamina (vitamina B1), levando à deficiência nutricional. Hoje, parece óbvio que alimentos ultraprocessados e excessivamente refinados podem causar prejuízos metabólicos. Porém, durante muito tempo isso não era valorizado pela medicina acadêmica. Esse episódio antecipa discussões extremamente atuais sobre industrialização alimentar, empobrecimento nutricional e doenças crônicas modernas.

 

Quina, povos amazônicos e a malária

Os povos indígenas amazônicos utilizavam há séculos preparações à base da casca da quina (Cinchona spp.) para tratar febres intermitentes. Posteriormente, isolou-se dessa planta o quinino, um dos mais importantes antimaláricos da história. Hoje sabemos que o quinino atua diretamente contra o Plasmodium, parasita causador da malária.

 

Esse é um exemplo clássico de como conhecimentos tradicionais podem conter observações terapêuticas reais e valiosas. A ciência não “inventou” o efeito da quina; ela o validou, refinou e explicou biologicamente.

 

Acupuntura: do ceticismo à aceitação parcial

A acupuntura talvez seja um dos exemplos mais conhecidos de prática inicialmente rejeitada pelo Ocidente e posteriormente parcialmente incorporada à medicina baseada em evidências. Embora muitos conceitos tradicionais chineses — como “fluxo de energia vital” — não tenham comprovação científica objetiva, diversos estudos modernos demonstraram benefício da acupuntura para algumas condições específicas, sobretudo dor crônica, lombalgia, osteoartrite e náuseas.

 

Revisões sistemáticas publicadas em periódicos de alto impacto sugerem que, embora parte do efeito possa envolver placebo e fatores contextuais, existem benefícios clínicos reais em determinadas situações (ZHOU et al., 2021). Isso ilustra um ponto importante: uma prática pode conter elementos simbólicos ou tradicionais não comprovados, mas ainda assim possuir componentes fisiológicos úteis.

 


O Estilo de Vida e a Microbiota: Os Maiores Exemplos Modernos

Talvez nenhum tema represente melhor o conflito entre academicismo e pragmatismo do que o estilo de vida. Durante grande parte do século XX, alimentação, sono, manejo do estresse, atividade física e vínculos sociais foram subestimados pela medicina convencional. A ênfase estava predominantemente em medicamentos, procedimentos e intervenções hospitalares.

 

Hoje, porém, há enorme quantidade de evidências demonstrando que o estilo de vida influencia profundamente doenças cardiovasculares, diabetes tipo 2, obesidade, hipertensão, depressão, demência e até certos tipos de câncer (ORNISH, 2019).

 

Açúcar e ultraprocessados: décadas de atraso científico

Durante décadas, gorduras saturadas foram tratadas como principal vilã cardiovascular, enquanto o impacto do açúcar e dos ultraprocessados recebeu menos atenção. Documentos históricos revelados no JAMA Internal Medicine mostraram que setores da indústria açucareira financiaram pesquisas e influenciaram narrativas científicas minimizando os efeitos do açúcar (KEARNS; SCHMIDT; GLANTZ, 2016).

 

Hoje, grandes estudos associam o consumo excessivo de ultraprocessados ao aumento de mortalidade, obesidade, doenças cardiovasculares e distúrbios metabólicos (ALLEN et al., 2018; NATURE REVIEWS CARDIOLOGY, 2024). O estudo experimental de Hall et al. (2019), publicado no Cell Metabolism, demonstrou que dietas ultraprocessadas aumentam espontaneamente a ingestão calórica e o ganho de peso. Mais recentemente, revisões amplas reforçaram o nexo causal entre o consumo desses produtos e o declínio geral da saúde (BMJ MEDICINE, 2024; LANE et al., 2024). Ou seja: observações clínicas e populacionais de defensores da comida de verdade já existiam há décadas antes de haver consenso acadêmico robusto (POLLAN, 2008).

 

O ressurgimento da saúde intestinal e da microbiota

O campo da gastroenterologia e da saúde sistêmica oferece um exemplo contemporâneo avassalador: a microbiota intestinal. Por gerações, a medicina ocidental encarou o cólon primariamente como um órgão de excreção e os micróbios residentes como comensais irrelevantes ou patógenos em potencial. Enquanto isso, tradições médicas orientais e médicos naturalistas europeus do início do século XX insistiam que “a morte e a saúde começam no intestino”.

A virada pragmática veio com o ressurgimento e a validação do Transplante de Microbiota Fecal (TMF). Inicialmente vista com repulsa e ceticismo pela academia, a transferência de matéria fecal de um doador saudável para o trato gastrointestinal de um paciente enfermo provou-se o tratamento mais eficaz e resolutivo contra a infecção recorrente por Clostridioides difficile, superando amplamente os antibióticos de última geração (BAUNWALL et al., 2024). A prática empírica forçou a ciência a investigar os mecanismos de simbiose bacteriana, abrindo as portas para uma nova era que conecta o microbioma à imunidade, à cicatrização e ao eixo intestino-cérebro (CRYAN et al., 2025).

Exercício físico: um “remédio” negligenciado

Hoje sabemos que exercício físico reduz mortalidade, melhora resistência insulínica, diminui inflamação e reduz risco cardiovascular. Mas durante muito tempo a atividade física era vista quase como detalhe secundário pela prática médica padrão.

 

Estudos contemporâneos mostram que o sedentarismo rivaliza com o tabagismo como fator de risco populacional (WORLD HEALTH ORGANIZATION, 2020). A publicação do Lancet Physical Activity Series consolidou o entendimento do exercício como uma das intervenções médicas mais poderosas e custo-efetivas existentes.

 

Sono e saúde mental

O mesmo ocorreu com o sono. A privação crônica de sono, antes banalizada ou até romantizada em ambientes acadêmicos e corporativos, hoje é diretamente associada a obesidade, diabetes, depressão, demência, acidentes cardiovasculares e redução da imunidade (JAMA, 2023).

 

O estresse psicossocial seguiu a mesma trajetória. O que antes era rotulado de forma vaga como “nervosismo” ou “fator psicológico” ganhou contornos neuroendócrinos rígidos. O trabalho do neurobiologista Robert Sapolsky (2004) demonstrou de forma brilhante como o estresse crônico destrói fisicamente o hipocampo, eleva cronicamente o cortisol e desregula o sistema imune. A medicina moderna vem redescobrindo algo que tradições antigas já intuíam: corpo e mente não funcionam isoladamente.

 


O Outro Lado: Quando o “Natural” se Torna Armadilha

Se por um lado o academicismo excessivo pode ignorar observações importantes, o extremo oposto também é perigoso. Nem toda tradição é verdadeira. Nem todo relato é evidência. Nem todo “natural” é seguro.

 

Existe enorme diferença entre uma observação promissora que merece investigação e uma crença transformada irresponsavelmente em “tratamento”. É justamente nesse espaço cinzento que florescem o charlatanismo, os modismos e as falsas promessas.

 

O Problema do Charlatanismo e das “Curas Milagrosas”

O câncer como exemplo extremo

Talvez nenhum campo ilustre melhor os perigos do abandono da medicina baseada em evidências do que o câncer. Existem inúmeros relatos de pacientes que abandonam tratamentos comprovadamente eficazes — cirurgia, quimioterapia, imunoterapia ou radioterapia — em busca de “curas naturais”, protocolos alternativos ou substâncias milagrosas divulgadas sem qualquer escrúpulo na internet.

 

Um estudo contundente publicado no Journal of the National Cancer Institute mostrou que pacientes que optaram exclusivamente por terapias alternativas apresentaram uma mortalidade significativamente maior e uma sobrevida drasticamente reduzida (JOHNSON et al., 2018). É importante compreender uma nuance fundamental: o estilo de vida saudável, alimentação adequada, exercício, suporte emocional e espiritualidade podem ser aliados extremamente importantes no enfrentamento da doença (SERVAN-SCHREIBER, 2009). Mas isso significa somar, e nunca substituir tratamentos cientificamente eficazes por promessas sem comprovação. Confundir apoio complementar com substituição terapêutica pode custar vidas.

 

Queda de cabelo, hormônios e modismos

O mesmo fenômeno ocorre em situações menos graves, porém muito frequentes no cotidiano clínico. Na busca por estética, longevidade ou performance instantânea, proliferam protocolos sem qualquer base em evidências científicas sólidas: megadoses de suplementos, hormônios sem indicação clínica real, “soros milagrosos”, antioxidantes intravenosos, terapias “detox” comerciais, biohacking sem critério, modismos capilares e baterias de exames excessivos e desnecessários.

 

Frequentemente, vende-se sofisticação mercantilizada enquanto o básico é negligenciado: sono adequado, alimentação minimamente saudável, manejo do estresse, atividade física regular, abandono do tabagismo, vínculos afetivos e saúde mental. Muitas vezes, o indivíduo gasta fortunas em suplementos exóticos enquanto dorme mal, vive em sedentarismo e mantém uma dieta baseada em ultraprocessados.

 


Interesses Econômicos: Um Debate Necessário

Outro ponto delicado — mas de debate obrigatório — envolve os interesses financeiros na produção do conhecimento científico. Grandes ensaios clínicos custam milhões ou bilhões de dólares. Naturalmente, há maior incentivo econômico para financiar pesquisas de produtos patenteáveis, passíveis de gerar alta lucratividade global.

 

A tirzepatida e as novas classes de agonistas de receptores de incretinas são ótimos exemplos contemporâneos. Trata-se de medicações extremamente promissoras para o tratamento da obesidade e do diabetes, com resultados robustos e transformadores publicados no New England Journal of Medicine (2022). Isso não desmerece o medicamento nem o mérito das pesquisas. Ao contrário: os dados são impressionantes e redefiniram as diretrizes metabólicas globais.

 

Mas também é uma verdade de mercado que haverá infinitamente mais recursos para estudar um fármaco sintético patenteável do que uma mudança comportamental ou um fitoterápico simples, barato e sem retorno financeiro expressivo. Esse viés econômico influencia diretamente as prioridades de pesquisa no mundo inteiro. Consequentemente, algumas terapias tradicionais ou de estilo de vida úteis podem permanecer pouco estudadas por escassez de fomento, enquanto certos produtos de alto custo recebem imensa visibilidade comercial. Reconhecer isso não significa rejeitar a ciência; significa compreender que ela é executada dentro de sistemas econômicos complexos e reais.

 


O Risco Atual: Transformar Tudo em “Performance”

Vivemos uma época em que saúde frequentemente é confundida com otimização extrema e monitoramento neurótico. Exames genéticos sem indicação clara, painéis intermináveis de biomarcadores comerciais, protocolos intravenosos contínuos e “hacks” de longevidade são vendidos agressivamente como símbolos de status e modernidade.

 

Entretanto, muitas dessas estratégias possuem evidências frágeis, conflitantes ou insuficientes. Um exemplo clássico e recorrente são os testes de intolerância alimentar baseados em anticorpos IgG. Diversas sociedades médicas internacionais de alergia e imunologia afirmam categoricamente que a presença de IgG para alimentos reflete apenas memória de exposição e tolerância imunológica, não comprovando intolerância clínica, além de gerar restrições alimentares severas e desnecessárias (WORLD ALLERGY ORGANIZATION, 2020).

 

Da mesma forma, o uso indiscriminado de vitaminas intravenosas e antioxidantes em “cocktails de imunidade” carece de respaldo robusto para a população saudável, podendo, em última análise, sobrecarregar os sistemas de depuração do organismo. A busca incessante por intervenções sofisticadas e caras frequentemente obscurece aquilo que realmente produz o maior impacto na longevidade real: a simplicidade do básico feito com constância.

 


O Papel do Médico Prudente

A boa medicina talvez esteja justamente na prudência. Nem o dogmatismo acadêmico cego, nem o misticismo ingênuo. O profissional sério precisa respeitar a ciência robusta, reconhecer as limitações do conhecimento atual, manter a abertura intelectual para ouvir o paciente, observar atentamente a realidade clínica e evitar a arrogância do saber absoluto, mas também rechaçar firmemente promessas irresponsáveis.

 

A observação prática pode e deve gerar hipóteses valiosas. Mas hipóteses precisam ser testadas de forma honesta. Ao mesmo tempo, o clínico experiente sabe que a ausência de evidência estatística em um dado momento não significa automaticamente evidência de ausência de efeito clínico. Esse equilíbrio é difícil — e exatamente por isso tão precioso.

 


Conclusão

A história da medicina ensina, acima de tudo, humildade. Diversas verdades atuais nasceram da simples e atenta observação humana. Práticas inicialmente ridicularizadas por seus pares foram posteriormente validadas e incorporadas pela ciência. Por outro lado, incontáveis crenças populares e modismos jamais resistiram a uma investigação metodológica séria.

 

A medicina amadurece quando consegue unir o rigor científico, a experiência clínica, a observação cuidadosa, a sabedoria prática e o bom senso. Nem todo conhecimento ancestral é charlatanismo; nem toda inovação tecnológica vistosa representa um avanço real. O verdadeiro desafio é discernir.

 

A ciência continua sendo nossa ferramenta mais segura contra ilusões terapêuticas e vieses cognitivos. Mas ela também deve permanecer aberta à investigação honesta daquilo que a nossa atual capacidade técnica ainda não compreende plenamente.

 

A MAIOR LIÇÃO permanece surpreendentemente simples: o essencial continua sendo essencial. Dormir bem. Comer melhor. Mover o corpo. Cultivar vínculos profundos. Reduzir os excessos. Evitar fanatismos e desconfiar de promessas milagrosas de gratificação instantânea. Em uma época fascinada por extremos e respostas rápidas, o equilíbrio continua sendo a forma mais sofisticada de sabedoria.

 


Referências

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