Introdução
Poucas palavras despertam tanto medo quanto “câncer”.
Ao receber um diagnóstico oncológico, muitas pessoas passam imediatamente a procurar tudo o que possa ajudá-las. Algumas buscam informações sobre alimentação, suplementos, atividade física, espiritualidade ou terapias complementares. Outras depositam toda a esperança nos tratamentos médicos convencionais.
Mas talvez a pergunta mais importante seja:
Precisamos escolher entre estilo de vida e tratamento médico?
A resposta da ciência moderna é clara:
Não.
Quando o assunto é câncer, a melhor estratégia geralmente não é “um ou outro”.
É “um e outro”.
Importante – Disclaimer
Este artigo tem finalidade exclusivamente educativa e informativa. Não se destina a diagnosticar doenças, substituir consultas médicas ou estabelecer condutas terapêuticas. Pacientes com suspeita ou diagnóstico de câncer devem buscar avaliação e acompanhamento de médicos e demais profissionais de saúde qualificados. Nenhuma informação aqui apresentada deve ser interpretada como recomendação para iniciar, interromper ou substituir tratamentos médicos.
O Estilo de Vida Importa — E Muito
Estima-se que uma parcela significativa dos cânceres esteja relacionada a fatores modificáveis.
Tabagismo, obesidade, sedentarismo, consumo excessivo de álcool e padrões alimentares inadequados contribuem para milhões de casos de câncer em todo o mundo (Islami et al., 2024).
Um dos relatórios mais influentes da área, publicado pela American Cancer Society, destaca que manter peso adequado, praticar atividade física regularmente, evitar tabagismo e limitar o consumo de álcool estão entre as medidas mais importantes para prevenção do câncer (Rock et al., 2022).
Isso significa que todos os cânceres são evitáveis?
Certamente não.
Mutações espontâneas, predisposição genética, envelhecimento e diversos fatores ainda fora de nosso controle também participam do processo.
Mas ignorar o papel do estilo de vida seria desprezar uma das ferramentas preventivas mais poderosas que possuímos.
Exercício Físico: Muito Além da Qualidade de Vida
Durante muitos anos acreditou-se que o exercício físico servia apenas para melhorar o condicionamento físico dos pacientes oncológicos.
Hoje sabemos que seus efeitos podem ir muito além.
Um estudo envolvendo mais de 750 mil adultos, publicado no JAMA Internal Medicine, demonstrou que níveis mais elevados de atividade física estavam associados a menor risco de diversos tipos de câncer, incluindo câncer de mama, cólon, rim, fígado e pulmão (Moore et al., 2016).
Mais recentemente, revisões sistemáticas vêm mostrando que a prática regular de atividade física após o diagnóstico também pode estar associada a melhor sobrevida em determinados tumores, especialmente câncer de mama e câncer colorretal (Patel et al., 2023).
Além disso, o exercício contribui para:
- redução da fadiga relacionada ao câncer;
- preservação da massa muscular;
- melhora da capacidade funcional;
- redução da ansiedade e depressão;
- melhora da qualidade de vida.
Não é por acaso que diversas diretrizes oncológicas passaram a recomendar atividade física supervisionada como parte integrante do tratamento (Campbell et al., 2019).
Alimentação: Nem Milagre, Nem Irrelevância
Poucos temas geram tantas discussões quanto alimentação e câncer.
Infelizmente, também é uma área repleta de promessas exageradas.
Não existe evidência robusta de que uma dieta isolada seja capaz de curar cânceres estabelecidos.
Por outro lado, existe evidência consistente de que padrões alimentares saudáveis contribuem para prevenção, recuperação clínica e redução de complicações.
O relatório do World Cancer Research Fund e do American Institute for Cancer Research concluiu que excesso de gordura corporal está associado ao aumento do risco de pelo menos 13 tipos de câncer (WCRF/AICR, 2018).
Da mesma forma, dietas ricas em vegetais, frutas, grãos integrais e alimentos minimamente processados estão associadas a melhores desfechos gerais de saúde.
Mas é importante compreender uma distinção fundamental:
Alimentação pode ajudar a prevenir cânceres e apoiar tratamentos. Não há evidência científica robusta de que substitua cirurgia, quimioterapia, radioterapia ou imunoterapia quando estas são indicadas.
O Perigo dos Falsos Dilemas
Uma das armadilhas mais frequentes enfrentadas por pacientes oncológicos é o falso dilema.
Por exemplo:
- quimioterapia ou alimentação saudável?
- imunoterapia ou suplementação?
- cirurgia ou medicina integrativa?
A ciência responde de forma diferente:
- quimioterapia e alimentação adequada;
- imunoterapia e suporte nutricional;
- cirurgia e atividade física;
- medicina baseada em evidências e cuidados complementares seguros.
O problema surge quando abordagens complementares passam a substituir tratamentos cuja eficácia já foi demonstrada.
Quando a Medicina Salva Vidas
Ao longo das últimas décadas, a oncologia viveu uma revolução.
O desenvolvimento de terapias-alvo, imunoterapias e avanços cirúrgicos transformou doenças antes consideradas praticamente fatais em condições potencialmente controláveis ou curáveis.
Um dos exemplos mais emblemáticos é o melanoma metastático.
Antes da era da imunoterapia, a sobrevida de longo prazo era rara.
Com o advento de medicamentos como nivolumabe e ipilimumabe, estudos publicados no New England Journal of Medicine demonstraram sobrevidas de longo prazo sem precedentes para pacientes com doença avançada (Wolchok et al., 2022).
Outro exemplo impressionante é a leucemia mieloide crônica.
A introdução do imatinibe transformou uma doença frequentemente fatal em uma condição crônica para muitos pacientes (Druker et al., 2006).
Nenhuma mudança alimentar, por mais saudável que seja, produziu resultados comparáveis nesses cenários.
E os Suplementos?
Suplementos nutricionais podem ser úteis em situações específicas.
Pacientes oncológicos frequentemente apresentam desnutrição, sarcopenia ou deficiências nutricionais que merecem correção.
Entretanto, a literatura científica não apoia o uso indiscriminado de suplementos como substitutos dos tratamentos convencionais.
Em alguns casos, doses elevadas de determinados antioxidantes podem inclusive interferir em mecanismos pelos quais quimioterápicos e radioterapia exercem seus efeitos antitumorais (Rock et al., 2022).
Isso não significa que suplementos sejam proibidos.
Significa apenas que devem ser utilizados com critério e supervisão profissional.
A Medicina do “E”
Talvez a maior lição da oncologia moderna seja esta:
Não precisamos escolher entre autocuidado e medicina.
Precisamos somá-los.
O exercício físico melhora a capacidade funcional para enfrentar os tratamentos.
A alimentação adequada favorece recuperação e manutenção da massa magra.
O suporte psicológico melhora adesão terapêutica e qualidade de vida.
O sono adequado auxilia a recuperação física e emocional.
E os tratamentos médicos combatem diretamente a doença.
Cada ferramenta atua em uma dimensão diferente.
Quando combinadas, tornam-se mais fortes.
Conclusão
O estilo de vida saudável continua sendo uma das mais importantes estratégias de prevenção do câncer e de promoção da saúde.
Entretanto, uma vez que a doença se instala, hábitos saudáveis não devem ser encarados como substitutos automáticos dos tratamentos comprovados.
A boa oncologia não é a medicina do “ou”.
Não é alimentação ou cirurgia.
Não é exercício ou quimioterapia.
Não é suplementação ou imunoterapia.
É a medicina do “e”.
Aquela que reconhece o valor do autocuidado sem desprezar décadas de avanços científicos que salvaram milhões de vidas.
A melhor abordagem continua sendo integrar hábitos saudáveis, suporte multidisciplinar e tratamentos baseados em evidências, colocando cada ferramenta em seu devido lugar.
Referências (ABNT)
CAMPBELL, K. L. et al. Exercise guidelines for cancer survivors: consensus statement from International Multidisciplinary Roundtable. Medicine & Science in Sports & Exercise, Indianapolis, v. 51, n. 11, p. 2375-2390, 2019.
DRUKER, B. J. et al. Five-year follow-up of patients receiving imatinib for chronic myeloid leukemia. New England Journal of Medicine, Boston, v. 355, n. 23, p. 2408-2417, 2006.
ISLAMI, F. et al. Proportion and number of cancer cases and deaths attributable to potentially modifiable risk factors in the United States. CA: A Cancer Journal for Clinicians, Hoboken, v. 74, n. 1, p. 6-31, 2024.
MOORE, S. C. et al. Association of leisure-time physical activity with risk of 26 types of cancer in 1.44 million adults. JAMA Internal Medicine, Chicago, v. 176, n. 6, p. 816-825, 2016.
PATEL, A. V. et al. Physical activity, sedentary behavior, and cancer survivorship: a systematic review. CA: A Cancer Journal for Clinicians, Hoboken, v. 73, n. 5, p. 441-459, 2023.
ROCK, C. L. et al. American Cancer Society guideline for diet and physical activity for cancer prevention. CA: A Cancer Journal for Clinicians, Hoboken, v. 72, n. 3, p. 245-271, 2022.
WCRF/AICR. Diet, Nutrition, Physical Activity and Cancer: A Global Perspective. Continuous Update Project Expert Report 2018. World Cancer Research Fund/American Institute for Cancer Research, 2018.
WOLCHOK, J. D. et al. Overall survival with combined nivolumab and ipilimumab in advanced melanoma. New England Journal of Medicine, Boston, v. 386, n. 16, p. 1513-1525, 2022.