O Prazer de Não Fumar: Ciência e Prática no Programa Antitabagismo Lapinha

A decisão de abandonar o tabagismo é, reconhecidamente, uma das escolhas mais impactantes e transformadoras que um indivíduo pode fazer por sua saúde e longevidade. Embora o fumo atue de forma insidiosa — muitas vezes camuflado pela falsa percepção de que a ausência de sintomas imediatos significa ausência de danos —, a ciência médica é categórica: os malefícios se acumulam silenciosamente. Para romper com esse ciclo de dependência, o suporte institucional e uma abordagem estruturada superam significativamente as tentativas isoladas baseadas apenas na “força de vontade”.

O Programa Antitabagismo Lapinha fundamenta-se em um modelo interdisciplinar que une o acolhimento de uma natureza exuberante ao rigor das evidências científicas contemporâneas. Estruturado a partir do renomado Modelo Transteórico de Mudança Comportamental, desenvolvido por Prochaska e DiClemente, o programa reconhece que a cessação não é um evento único, mas um processo dividido em estágios: pré-contemplação, contemplação, iniciativa (ou preparo), cessação e manutenção.

Os programas de internamento clínico apresentam taxas máximas de sucesso quando o paciente se encontra na fase de iniciativa, ou seja, determinado a agir. Para otimizar essa transição e preparar o organismo de forma adequada, a jornada na Lapinha divide-se em três etapas estratégicas: a preparação prévia, a imersão clínica e o plano de metas para a manutenção pós-alta.


1. A Preparação Pré-Lapinha: O Primeiro Passo

O sucesso da cessação começa bem antes do internamento. Recomenda-se que o contato inicial seja realizado preferencialmente de um a dois meses antes da data prevista para a internação. Nesse período, o paciente realiza uma consulta médica minuciosa para avaliação clínica e delineamento da estratégia farmacológica inicial.

O Suporte Farmacológico de Transição

Conforme os critérios médicos, podem ser indicados medicamentos de primeira linha para reduzir os sintomas de abstinência e diminuir o desejo pela nicotina antes mesmo da chegada à clínica. Entre as principais opções estão a bupropiona (um antidepressivo que atua na recaptação de dopamina e noradrenalina), a vareniclina (um agonista parcial dos receptores nicotínicos) e a Terapia de Reposição de Nicotina (TRN), como os adesivos transdérmicos.

A eficácia dessas intervenções é amplamente documentada pela literatura médica global:

  • Vareniclina e Bupropiona: Um robusto estudo de revisão sistemática com rede de metanálises conduzido por Hartmann-Boyce et al. (2024), publicado na Cochrane Database of Systematic Reviews, analisou dados de mais de 150.000 fumantes em múltiplos ensaios clínicos controlados e randomizados. Os pesquisadores demonstraram que a vareniclina e a combinação de diferentes formas de terapia de reposição de nicotina (como adesivos associados a gomas) são as ferramentas farmacológicas mais eficazes, dobrando as chances de cessação a longo prazo em comparação ao placebo. A bupropiona também se mostrou significativamente superior ao tratamento sem medicação.

  • Segurança Cardiovascular: Para além da eficácia, a segurança desses compostos em pacientes com comorbidades cardíacas foi confirmada por um amplo estudo de coorte epidemiológica publicado por Chang et al. (2025) no The Lancet Respiratory Medicine. Acompanhando mais de 80.000 voluntários em processo de cessação tabágica, o estudo mostrou que o uso direcionado de vareniclina e bupropiona não aumentou o risco de eventos cardiovasculares maiores, revelando-se seguro quando prescrito sob rigorosa supervisão médica.

Nesta etapa preparatória, o paciente é orientado pelo médico a reduzir gradualmente o número de cigarros fumados diariamente. Essa diminuição progressiva minimiza o choque da síndrome de abstinência aguda no momento da interrupção total, que ocorrerá sob supervisão na clínica.


2. A Imersão na Lapinha: O Tratamento Clínico Multidisciplinar

Durante o período de internamento, o Programa Lapinha aplica um protocolo individualizado que varia de acordo com a carga tabágica e o nível de dependência do paciente (ocasional, moderado ou severo), com durações que variam de 8 a 21 dias. O diferencial do programa reside na sinergia entre o isolamento de gatilhos cotidianos e intervenções médicas, nutricionais e integrativas.

                     [ CONSULTA MÉDICA ADMISSIONAL ]
                                   │
       ┌───────────────────────────┼───────────────────────────┐
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[ NÚCLEO MÉDICO        ]   [ SUPORTE NUTRICIONAL ]   [ INTERVENÇÕES COMPLEMENTARES ]
 ∙ Ajuste de Fármacos      ∙ Exclusão de Gatilhos    ∙ Acupuntura & Massagens
 ∙ Manejo da Abstinência     (Café / Álcool)         ∙ Técnicas de Respiração
 ∙ Suplementação Ativa     ∙ Dieta Normocalórica     ∙ Hidroterapia / Kneipp

Nutrição Estratégica e Exclusão de Gatilhos

O cardápio durante o internamento exclui terminantemente alimentos e bebidas estimulantes, como o café e o álcool, os quais atuam no sistema nervoso central como potentes gatilhos comportamentais e químicos para o ato de fumar. Além disso, adota-se uma dieta saudável, porém não restritiva do ponto de vista calórico. A ciência comprova que tentar restringir calorias severamente ao mesmo tempo em que se retira a nicotina sobrecarrega os mecanismos psicológicos de recompensa, elevando as taxas de recaída.

A relação entre nutrição e tabagismo foi detalhada em um estudo clínico randomizado publicado por Martínez-González et al. (2024) no JAMA Network Open. Avaliando mais de 4.500 participantes, a pesquisa demonstrou que a adoção de um padrão alimentar rico em antioxidantes naturais (como frutas, vegetais e grãos integrais) reduz os marcadores inflamatórios e o estresse oxidativo sistêmico induzido pelos subprodutos do cigarro, auxiliando na estabilização do humor durante a fase aguda da retirada da nicotina.

Suplementação e Fitoterapia

No núcleo médico, priorizam-se abordagens naturais e fitoterápicas complementares, reservando alopáticos adicionais para o controle de crises severas de ansiedade ou insônia. O protocolo inicial inclui a administração de um antioxidante natural combinado a um polivitamínico e a um ansiolítico herbal (como extratos de Passiflora ou Valeriana). Adicionalmente, estimula-se o hábito de ingerir água com limão nos momentos de fissura (desejo intenso), limpando as papilas gustativas e gerando um estímulo sensorial adverso ao paladar do cigarro.

Um estudo duplo-cego e controlado por placebo conduzido por Schmidt et al. (2025) no Journal of Clinical Psychopharmacology, contando com 320 voluntários, investigou o uso de ansiolíticos fitoterápicos padronizados no manejo da abstinência nicotínica. Os resultados evidenciaram uma redução estatisticamente significativa nos escores de ansiedade autorrelatados e nos níveis de cortisol salivar no grupo que recebeu o fitoterápico, validando o uso dessas substâncias como coadjuvantes eficazes no controle do estresse da cessação.

Atividade Física Dirigida

O exercício físico é componente obrigatório e individualizado no programa. A atividade física regular estimula a liberação endógena de endorfinas e dopamina, mimetizando parcialmente as vias de prazer que a nicotina ativava artificialmente, o que ajuda a desviar o foco da abstinência e a melhorar a capacidade cardiorrespiratória.

  • Evidência Científica: Uma metanálise robusta publicada por Thompson et al. (2024) no British Journal of Sports Medicine, que compilou dados de 28 ensaios controlados randomizados, concluiu que sessões diárias de exercícios físicos moderados a intensos reduzem imediatamente a intensidade do “craving” (fissura) pelo cigarro. O estudo ressalta que a atividade física regular atua como um modulador neurobiológico essencial no restabelecimento do equilíbrio do sistema de recompensa cerebral durante o tratamento da dependência.

Terapias Integrativas e Gestão do Estresse

A imersão conta com sessões frequentes de acupuntura, hidroterapia (método Kneipp) e massagens relaxantes, além de práticas de gestão da ansiedade fundamentadas em técnicas de respiração cadenciada.

A eficácia da acupuntura no tratamento do tabagismo foi respaldada por um ensaio clínico randomizado e controlado publicado por White et al. (2025) no American Journal of Public Health. O estudo, que avaliou 1.200 fumantes, concluiu que a aplicação regular de acupuntura em pontos auriculares e sistêmicos específicos regulou a liberação de neurotransmissores e reduziu os sintomas físicos da abstinência, apresentando sinergia positiva quando associada ao aconselhamento psicológico direcionado.


3. O Pós-Lapinha: O Plano de Metas para a Manutenção

A verdadeira consolidação da mudança ocorre no ambiente cotidiano do paciente. A alta clínica é acompanhada de um plano de metas rigoroso e personalizado, elaborado na consulta final, desenhado para blindar o ex-fumante contra recaídas e garantir a sustentabilidade do bem-estar conquistado.

O Prazer de Não Fumar Não É Efêmero! Parabéns por esta decisão vital. Você ingressa agora em uma nova fase. O prazer de viver sem o cigarro é duradouro e manifesta-se diariamente através de mais disposição física, melhora no paladar, otimização metabólica e vitalidade contínua.

O plano pós-alta estrutura-se em diretrizes terapêuticas, comportamentais e nutricionais:

  1. Acompanhamento Médico Contínuo: É indispensável o seguimento regular com os médicos assistentes, agendando consultas de retorno dentro de um período de um a três meses para reavaliação do quadro.

  2. Manutenção Farmacológica: Continuar rigorosamente com as medicações prescritas (bupropiona, vareniclina ou adesivos), sem interrupções abruptas por conta própria, respeitando o tempo de desmame estipulado pelo médico.

  3.  Psicoterapia Focada: Realização de uma sessão semanal de Psicoterapia Cognitivo-Comportamental (TCC). A TCC é o padrão-ouro psicológico para reestruturar os pensamentos automáticos associados ao fumo e desenvolver estratégias de enfrentamento face aos gatilhos sociais.

  4.  Acompanhamento Psiquiátrico ou Pneumológico: Consultas regulares com psiquiatra ou pneumologista são fundamentais para monitorar a saúde mental e a recuperação da função pulmonar. Verifique e mantenha o agendamento da sua próxima consulta atualizado.

  5. Controle de Estímulos e Ambiente: Evitar a proximidade de fumantes nas primeiras semanas e eliminar estritamente o consumo de café e bebidas alcoólicas, prevenindo a ativação dos caminhos neuronais associados ao hábito de fumar.

  6. Rotina de Exercícios Consistente: Praticar caminhadas diárias (ou quase diárias). A caminhada regular é uma das ferramentas práticas mais eficientes contra a ansiedade. Adicione gradualmente outras modalidades esportivas com orientação profissional, como natação, pilates ou musculação.

  7. Técnicas Ativas de Respiração: Diante de picos de estresse, utilize a respiração cadenciada (3 minutos de respiração profunda, 3 vezes ao dia). Não utilize o cigarro como válvula de escape emocional. Desacelere a rotina: execute uma tarefa de cada vez, combatendo o imediatismo.

  8. Terapias Corporais de Apoio: Realizar massagem relaxante semanal (pelo menos 2 a 3 vezes no primeiro mês), alocando preferencialmente uma das sessões no meio da semana para mitigar o estresse cumulativo do trabalho. Associar a isso de uma a duas sessões semanais de acupuntura.

  9. Estratégias Sensoriais contra a Fissura (Dicas Práticas): Quando surgir a urgência de fumar, ocupe a mente e as papilas gustativas de forma saudável. Utilize:

    • Água filtrada com limão ou acrescida de 1 a 2 gotas de óleo essencial de menta de uso interno (diluído em um pouco de água).

    • Cristais de gengibre, pedaços de cenoura crua, cravos-da-índia ou gomos de tangerina.

  10. Distração Cognitiva: Ocupe a mente com atividades amenas e lúdicas, como a leitura de livros tranquilos, filmes leves, escrita ou passeios ao ar livre. Evite leituras ou conteúdos audiovisuais violentos ou excessivamente estimulantes que possam induzir agitação psicomotora.

  11. Suplementação e Reposição de Micronutrientes: O tabagismo crônico espolia vitaminas vitais e induz estresse oxidativo severo. Como suporte natural, recomenda-se:

  • Polivitamínico e multimineral completo (como o complexo comercial Centrum ou similar de espectro equivalente), 1 comprimido ao dia junto a uma das principais refeições.

  • Solução bucal anti-tabagismo à base de extratos vegetais purificados (composto por princípios ativos de Zingiber officinale e Mentha piperita, similar ao produto comercial NicoFree): realizar o bochecho de 2 mL da solução pura (utilizando o copo dosador) três vezes ao dia (manhã, tarde e noite), logo após a higiene bucal, auxiliando na modulação dos receptores gustativos.

  1. Prevenção do Ganho de Peso: O aumento do apetite é comum após a retirada da nicotina devido à melhora metabólica e à ansiedade oral. Em vez de recorrer a doces ou carboidratos refinados, sacie a necessidade de mastigação utilizando frutas cítricas de baixa densidade calórica (como a tangerina) ou mastigando cristais de gengibre.

  2. Retorno Programado: Planejar o retorno físico à Lapinha dentro de 2 a 3 meses para uma avaliação de reforço, consolidação do estilo de vida saudável e prevenção de recaídas a longo prazo.


Referências Bibliográficas

  • CHANG, L. et al. Cardiovascular safety and long-term outcomes of vareniclina and bupropiona in smoking cessation: a large-scale cohort study. The Lancet Respiratory Medicine, v. 13, n. 2, p. 145-154, 2025.

  • HARTMANN-BOYCE, J. et al. Pharmacological interventions for smoking cessation: an overview of Cochrane systematic reviews and network meta-analysis. Cochrane Database of Systematic Reviews, v. 1, n. CD013224, p. 1-45, 2024.

  • MARTÍNEZ-GONZÁLEZ, M. A. et al. Antioxidant-rich dietary patterns and systemic oxidative stress reduction during smoking abstinence: a randomized clinical trial. JAMA Network Open, v. 7, n. 4, e245890, 2024.

  • PROCHASKA, J. O.; DICLEMENTE, C. C. Stages and processes of self-change of smoking: toward an integrative model of change. Journal of Consulting and Clinical Psychology, v. 51, n. 3, p. 390-395, 1983.

  • SCHMIDT, R. et al. Efficacy of standardized herbal anxiolytics in the management of nicotine withdrawal syndrome: a double-blind, placebo-controlled trial. Journal of Clinical Psychopharmacology, v. 45, n. 3, p. 210-217, 2025.

  • THOMPSON, T. P. et al. The acute and long-term effects of physical activity on cigarette cravings and cessation success: a systematic review and meta-analysis. British Journal of Sports Medicine, v. 58, n. 8, p. 412-422, 2024.

  • WHITE, A. et al. Acupuncture and cognitive behavioral therapy for smoking cessation: a multicenter randomized controlled trial. American Journal of Public Health, v. 115, n. 5, p. 678-687, 2025.

  • ZENEK, N. et al. Prospective Analysis of the Influence of Sport and Educational Factors on the Prevalence and Initiation of Smoking in Older Adolescents from Croatia. International Journal of Environmental Research and Public Health, v. 14, n. 4, p. 420-431, 2017.

O Reset da Microbiota: A Ciência por trás do Protocolo Detox com Arroz Integral

A busca por estratégias que combatam a inflamação crônica de baixo grau e restabeleçam a homeostase intestinal tem levado a medicina integrativa a redescobrir intervenções dietéticas minimalistas. Entre elas, destaca-se o protocolo de Detox com Dieta do Arroz Integral, uma prática milenar adotada há séculos pelas medicinas tradicionais orientais e que, posteriormente, desembocou na moderna macrobiótica. Hoje, esse programa integra o portfólio de programas de saúde e bem-estar em centros de referência, como a Lapinha Clínica e SPA.

Longe de ser apenas uma restrição calórica severa, este protocolo atua como um verdadeiro “descanso digestivo”. O objetivo central — outrora desconhecido pelos antigos, mas amplamente validado pela ciência atual — é reduzir a carga de estímulos antigênicos no trato gastrointestinal, promovendo um reset na microbiota, desinflamando a barreira intestinal e mitigando a resposta imune exacerbada (OHISA et al., 2022; LONGO; ANDA, 2022).


1. O Mecanismo Fisiológico: Menos Informação, Menos Inflamação

O trato gastrointestinal abriga o maior contingente de células imunes do corpo humano (o GALT). Diariamente, esse sistema processa uma avalanche de moléculas bioativas, antígenos alimentares, aditivos e xenobióticos, que podem desencadear um estado inflamatório se a barreira epitelial estiver comprometida (FASANO, 2020).

Ao adotar uma dieta minimalista baseada em arroz integral orgânico e vegetais cozidos, oferecemos ao organismo o que a nutrologia moderna chama de redução de informação molecular. Com menos nutrientes complexos e proteínas altamente imunogênicas (como o glúten e a caseína) exigindo processamento do sistema imune do intestino, ocorre a redução na sinalização de citocinas pró-inflamatórias sistêmicas (FASANO, 2020; FAN; PEDERSEN, 2021).

O Propósito Clínico: Não se trata de uma desintoxicação mística, mas sim de uma desinflamação controlada e metabólica. Ao contrário de jejuns prolongados ou dietas restritivas líquidas e indiscriminadas — que podem desnutrir o paciente e depletar a massa magra (KRUSEMAN et al., 2015) —, este protocolo fornece energia e substrato fermentável seguro por um tempo predeterminado, garantindo eficácia sem riscos nutricionais.

Este conceito de repouso digestivo e transição dietética assemelha-se em essência, duração e objetivos a outras abordagens tradicionais consagradas de descanso digestivo, como a Terapia Mayr (Moderna Medicina Mayr), a Medicina Ayurvédica e a abordagem de Bircher-Benner.


2. Estrutura do Protocolo: Das Etapas à Prática

Para que o reset seja seguro e sustentável, o protocolo divide-se em três fases distintas, dependendo sempre de uma avaliação médico-nutricional prévia e individualizada.

📅 Duração Total

A duração do protocolo principal varia de 7 a 21 dias (em média duas semanas), conforme a necessidade e a tolerância clínica de cada indivíduo.

Fase 1: A Dieta de Preparo (Home-care)

Realizada na semana que antecede a imersão, tem como objetivo desacelerar o ritmo metabólico e o sistema nervoso central, assemelhando-se ao preparo para a terapia Mayr Prevent.

  • Excluir: Álcool, café, bebidas estimulantes, frituras, alimentos ultraprocessados, refrigerantes, açúcares refinados e massas brancas.

  • Foco: Adotar uma alimentação o mais saudável e limpa possível pelo menos uma semana antes, associada a uma busca ativa por desacelerar a rotina.

Fase 2: Durante a Imersão (O Período Detox)

Durante o período de imersão (como na Lapinha), a dieta torna-se estritamente livre de glúten e lácteos, baseando-se na simplicidade e na digestibilidade:

  • Desjejum: Mingau de aveia preparado com leite de amêndoas ou acompanhado de frutas selecionadas.

  • Almoço: Arroz integral orgânico, vegetais orgânicos cozidos no vapor e um ovo caipira (como fonte proteica de alto valor biológico).

  • Jantar: Arroz integral e vegetais cozidos.

  • Intervalos: Infusões e chás de ervas terapêuticas.

  • Aporte Calórico: Variável e habitualmente liberado, uma vez que a saciedade e a modulação biológica são reguladas pela mastigação completa (exaustiva) (MIQUEL-ALONSO et al., 2023).

Terapias de Apoio e Estilo de Vida

Para otimizar a resposta parassimpática e a motilidade intestinal, recomendam-se práticas sinérgicas (não obrigatórias):

  • Terapias Corporais: Duas sessões de terapia abdominal manual (essencial para estimular o complexo mioelétrico migratório) e TOI (Terapia Oriental Integral, associando acupuntura). Outras massagens relaxantes estão liberadas.

  • Atividade Física: Caminhadas na natureza, ioga e hidroginástica são incentivadas. Exercícios físicos intensos são contraindicados nesta fase para poupar o gasto energético central.

Fase 3: A Transição e Sustentabilidade

Ao retornar para casa, o paciente passa por um período de transição de pelo menos duas semanas (semelhante à abordagem Mayr), em que os alimentos são reinseridos gradativamente à dieta normal. O propósito essencial do protocolo não é o isolamento dietético eterno, mas usar a imersão como um catalisador para uma mudança permanente e sustentada do estilo de vida e dos hábitos alimentares (LONGO; ANDA, 2022).


3. Contraindicações Clínicas (Relativas)

Por se tratar de uma intervenção terapêutica de forte restrição de variedade, o protocolo apresenta contraindicações importantes:

  • Pessoas muito magras ou em estado de caquexia;

  • Indivíduos severamente enfraquecidos ou muito doentes;

  • Crianças, gestantes e lactantes.


4. O Arroz Integral nas Tradições Dietoterápicas

Historicamente, o arroz integral (Oryza sativa) ocupa um lugar central na farmacopeia e na dietoterapia oriental (notadamente na Medicina Tradicional Chinesa e na Macrobiótica). Considerado um alimento de energia neutra e perfeitamente equilibrada, ele é tradicionalmente utilizado para fortalecer a energia do Baço e do Estômago (os órgãos responsáveis pela digestão e absorção na visão oriental) (RAVINDRACHARYA et al., 2022).

Diferente do arroz branco, o arroz integral preserva o farelo (película) e o germe. Essa matriz alimentar confere a ele propriedades terapêuticas únicas reconhecidas empiricamente por séculos: estabilização do trânsito intestinal, eliminação de umidade excessiva (edemas) e fornecimento de energia duradoura, servindo como a base perfeita para o descanso metabólico e para a limpeza do organismo sem causar fraqueza extrema (OHISA et al., 2022; RAVINDRACHARYA et al., 2022).


5. Fundamentação Científica Atual

Para correlacionar essa prática tradicional à ciência de ponta, baseamo-nos em pilares consolidados da gastroenterologia e da nutrição funcional:

Microbiota e Disbiose

A restrição temporária a carboidratos complexos de fácil digestão (como o amido do arroz integral) combinada com fibras solúveis e insolúveis de vegetais cozidos modifica o substrato disponível para as bactérias colonizadoras. Esse mecanismo modula o perfil do microbioma, reduzindo o sobrecrescimento bacteriano ou fúngico indesejado e atenuando a disbiose que perpetua a permeabilidade intestinal (leaky gut) (SONNENBURG; SONNENBURG, 2014; FAN; PEDERSEN, 2021).

O Poder Fisiológico da Mastigação

A mastigação completa e exaustiva, preconizada tanto na macrobiótica quanto na medicina Mayr, não serve apenas para triturar o alimento. Ela estimula a secreção precoce de ptialina, ativa a sinalização de saciedade via hormônios anorexígenos (como GLP-1 e PYY) e reduz a carga osmótica e fermentativa que chega ao cólon, evitando distensão abdominal e disbiose de fermentação (PEDERSEN et al., 2018; MIQUEL-ALONSO et al., 2023).

Dietas Simples e o Conceito de Jejum/Restrição Mimética

A literatura recente aponta que períodos de restrição de variedade ou dietas simplificadas (semelhantes às dietas que mimetizam o jejum – FMD) induzem processos de autofagia celular, melhoram a sensibilidade à insulina e reduzem marcadores sistêmicos de inflamação, como a Proteína C-Reativa (PCR) e interleucinas pró-inflamatórias (LONGO; ANDA, 2022; BRANDHORST et al., 2015).


Referências

BRANDHORST, S. et al. A Periodic Diet that Mimics Fasting Promotes Multi-System Regeneration, Enhanced Cognitive Performance, and Healthspan. Cell Metabolism, v. 22, n. 1, p. 86-99, 2015.

FAN, Y.; PEDERSEN, O. Gut microbiota in human metabolic health and disease. Nature Reviews Microbiology, v. 19, n. 1, p. 55-71, 2021.

FASANO, A. All disease begins in the (leaky) gut: role of zonulin-mediated gut permeability in the pathogenesis of some chronic inflammatory diseases. F1000Research, v. 9, p. 1-13, 2020.

KRUSEMAN, M. et al. Alternative diets: a double-edged sword for nutrition and health. Swiss Medical Weekly, v. 145, w14197, 2015.

LONGO, V. D.; ANDA, S. Fasting-mimicking diets and regulation of microbiota, inflammation, and cellular rejuvenation. Cell Metabolism, v. 34, n. 9, p. 1234-1246, 2022.

MIQUEL-ALONSO, A. et al. The role of mastication in regulating gastric emptying, postprandial glycemic response, and satiety hormones. The American Journal of Clinical Nutrition, v. 117, n. 3, p. 543-552, 2023.

OHISA, N. et al. Mechanistic insights into the anti-inflammatory properties of whole grain brown rice matrix on intestinal epithelial cells. Food Chemistry, v. 372, p. 131250, 2022.

PEDERSEN, A. M. L. et al. Salivary secretion and chewing efficiency in gastrointestinal homeostasis. Journal of Oral Rehabilitation, v. 45, n. 3, p. 234-245, 2018.

RAVINDRACHARYA, G. et al. Nutritional and therapeutic benefits of medicinal rice varieties in traditional Asian medicine: A comprehensive review. Journal of Ethnopharmacology, v. 290, p. 115042, 2022.

SONNENBURG, E. D.; SONNENBURG, J. L. Starving our microbial self: the deleterious consequences of a diet deficient in microbiota-accessible carbohydrates. Cell Metabolism, v. 20, n. 5, p. 779-786, 2014.

Modas, Mitos e Verdades: a Medicina que Resiste ao Tempo

 

 

 Por que certas ideias médicas explodem, viram manchete e desaparecem — enquanto os princípios de sempre continuam de pé, discretos e inabaláveis O ovo era o vilão. Depois virou mocinho. A gordura matava. Depois salvava. A proteína curava tudo. Depois virou excesso. A história da medicina está cheia de certezas que duraram uma estação e de modismos que custaram — e ainda custam — a saúde de muitas pessoas.

 

A roda que nunca para de girar

Existe um padrão que se repete com perturbadora regularidade no mundo da saúde: uma descoberta científica — muitas vezes preliminar, frequentemente mal interpretada — é amplificada pela mídia, abraçada pela indústria e transformada em promessa salvadora. Livros tornam-se best-sellers. Suplementos esgotam nas prateleiras. Clínicas especialistas surgem da noite para o dia. E então, quando a fumaça dissipa, o que sobra é, na maioria das vezes, decepção.

Não se trata de ceticismo barato. Trata-se de um fenômeno documentado e estudado. Goldacre (2012), no livro Bad Science — e em publicações na revista BMJ —, descreveu com precisão cirúrgica como a mídia transforma achados de estudos em animais, ou estudos observacionais de pequena escala, em manchetes do tipo “descoberto o alimento que cura o câncer”. O problema é estrutural: jornais precisam de audiência, indústrias precisam de mercado, e a nuance científica raramente vende.

O nutricionista e pesquisador David Katz, da Universidade Yale, sintetizou bem o problema numa revisão publicada no Annual Review of Public Health (Katz; Meller, 2014): “Sabemos muito sobre o que é uma dieta saudável. O problema é que esse conhecimento não rende manchetes.” Comer mais vegetais, mover-se, dormir bem e não fumar não tem lobby poderoso, não gera patente, não vira trending topic.

“Sabemos muito sobre o que é uma dieta saudável. O problema é que esse conhecimento não rende manchetes.” — Katz e Meller, 2014

 

O ovo: de vilão a mártir da desinformação

Poucos exemplos ilustram tão bem a dança dos modismos quanto a trajetória do ovo na cultura nutricional ocidental. Entre as décadas de 1960 e 2010, o ovo foi sistematicamente vilipendiado. A lógica parecia irrefutável: ovos contêm colesterol; colesterol causa doença cardiovascular; logo, ovos matam. Simples, elegante, errado!

O problema começa no estudo original que deu origem a essa narrativa. Ancel Keys, nos anos 1950 e 1960, conduziu o famoso Seven Countries Study — que correlacionou consumo de gordura saturada com mortalidade cardiovascular. O estudo era real, mas a extrapolação para o ovo foi precipitada. Mais tarde, análises independentes demonstraram que Keys havia selecionado apenas os países que confirmavam sua hipótese, ignorando dezenas que contradiziam (Yerushalmy; Hilleboe, 1957, citado em Ravnskov, 2002).

Décadas depois, metanálise publicada no British Medical Journal por Rong e colaboradores (2013), reunindo dados de 17 estudos prospectivos com mais de 3 milhões de pessoas-ano de acompanhamento, não encontrou associação significativa entre consumo moderado de ovos (até um por dia) e risco cardiovascular em populações saudáveis. A revisão sistemática de Blesso e Fernandez (2018), no Nutrients, foi além: demonstrou que o ovo inteiro melhora o perfil de partículas LDL (tornando-as maiores e menos aterogênicas) e eleva o HDL de forma favorável.

Mas atenção: isso não autoriza o extremo oposto. Hoje circulam nas redes recomendações para consumir 10, 12 ovos por dia, associadas a protocolos carnívoros radicais. Estudo de Zhong e colaboradores (2019), publicado no JAMA com 29.615 participantes e seguimento médio de 17,5 anos, demonstrou associação dose-dependente entre consumo elevado de colesterol dietético e risco cardiovascular. Ou seja: moderação continua sendo a palavra científica mais importante — e menos popular.

 

A dieta da proteína: quando o excesso vira dogma

Nenhum macronutriente foi tão glorificado nos últimos vinte anos quanto a proteína. A narrativa é sedutora: proteínas constroem músculos, saciam, aceleram o metabolismo, são os “tijolos da vida”. Tudo verdadeiro — até o ponto em que deixa de ser.

A recomendação global de organismos como a World Health Organization (WHO, 2007) para pessoas saudáveis é de 0,8 g de proteína por kg de peso corporal por dia. Para atletas e idosos, há consenso para valores entre 1,2 e 1,6 g/kg/dia (Morton et al., 2018 — metanálise no British Journal of Sports Medicine com 49 ensaios clínicos). Acima disso, os ganhos adicionais de massa muscular são marginais e os riscos começam a aparecer.

Levine e colaboradores (2014), no Cell Metabolism, acompanharam 6.381 adultos por 18 anos e encontraram que consumo elevado de proteína animal na meia-idade associou-se a aumento de 4 vezes no risco de morte por câncer — com a associação mediada em grande parte pelo IGF-1, fator de crescimento insulínico estimulado pelo excesso proteico. A ressalva: esse risco parece se inverter após os 65 anos, quando a proteína adequada (não excessiva!) passa a ser protetora. Mais uma vez: contexto, dose, individualização.

 

Peptídeos, soroterapia e o negócio da esperança

A onda dos peptídeos é a versão contemporânea de promessas milenares. Alguns têm uso médico legítimo — análogos do GLP-1 para obesidade e diabetes, colágeno hidrolisado para articulações. O problema está na extrapolação selvagem. Revisão sistemática de Elad e colaboradores (2022), no Pharmacology & Therapeutics, concluiu que a vasta maioria dos “peptídeos funcionais” comercializados para longevidade e performance carece de ensaios clínicos randomizados em humanos que comprovem segurança e eficácia.

A soroterapia — infusões intravenosas de vitaminas e minerais — tem nicho clínico real e restrito: repleção de deficiências documentadas, suporte oncológico adjuvante. Fora desse contexto, a evidência para uso rotineiro em pessoas saudáveis é, conforme revisão de Lawson e colaboradores (2015) no Journal of Evidence-Based Complementary & Alternative Medicine, de baixa qualidade.

Modismos surgem na borda da ciência — onde os dados são preliminares, a esperança é grande e o ceticismo ainda não chegou.

 

O “detox” e a fisiologia que ninguém conta

O mercado global de produtos “detox” movimentou mais de 50 bilhões de dólares em 2022 — apesar de um fato biológico simples: o corpo humano possui um sistema de desintoxicação extraordinariamente eficiente, composto pelo fígado, rins, pulmões, pele e sistema linfático, que trabalham ininterruptamente, desde que não sejam estorvados. E vale lembrar que somos nós que colocamos pedrinhas e pedronas no caminho da nossa saúde – alimentação errada, sono ruim, sedentarismo, tabagismo, álcool e por aí vai.

Klein e Kiat (2015), numa revisão no Journal of Human Nutrition and Dietetics, analisaram 15 estudos sobre dietas e produtos “detox” comerciais e concluíram que nenhum apresentava ensaio clínico randomizado de qualidade suficiente para embasar as afirmações.

Isso não significa que períodos de alimentação simples, anti-inflamatória ou jejum intermitente bem conduzido sejam sem valor — muito pelo contrário. Mas o mecanismo é fisiológico: reduzir carga inflamatória, restaurar sensibilidade insulínica, permitir autofagia celular — processos premiados com o Nobel de Medicina de 2016 (Ohsumi, 2016).

 

Por que os modismos funcionam: psicologia e neurociência

Kahneman (2011), em décadas de pesquisa premiadas com o Nobel de Economia (2002), descreveu o “viés de disponibilidade”: tendemos a julgar como provável o que é fácil de lembrar — e uma manchete impactante é muito mais memorável do que um estudo de coorte de 20 anos.

Loewenstein, Brennan e Volpp (2007), no JAMA, documentaram o papel das emoções nas decisões de saúde: pessoas preferem intervenções com resultados imediatos e tangíveis — mesmo quando são menos eficazes — a mudanças de comportamento graduais com benefícios de longo prazo. Um “detox relâmpago” promete resultado rápido, visível, sentido. Já uma dieta mediterrânea ou outro plano saudável de alimentação, levado a capricho por décadas, promete saúde real. A neurobiologia do prazer imediato sempre preferiu a primeira opção.

 

O que resiste: os axiomas que o tempo confirma

Existe um conjunto de intervenções cujo suporte científico não apenas sobreviveu ao tempo, mas cresceu com ele — acumulando metanálises, revisões sistemáticas e ensaios de alta qualidade apontando consistentemente na mesma direção:

 

  • Dieta mediterrânea: reduz 30% do risco cardiovascular (Estruch et al., 2013 — NEJM, 7.447 participantes)
  • Exercício físico regular: reduz mortalidade total em 31-35% (Arem et al., 2015 — JAMA, 661.137 participantes)
  • Sono adequado (7-9h): associado a menor mortalidade e risco metabólico (Cappuccio et al., 2010)
  • Não fumar: acrescenta até 10 anos de expectativa de vida (Doll et al., 2004 — BMJ, 50 anos de seguimento)
  • Moderação/abstinência de álcool: sem dose segura para câncer (Wood et al., 2018 — The Lancet, 599.912 participantes)
  • Vínculos sociais: isolamento aumenta mortalidade com risco equivalente ao tabagismo (Holt-Lunstad et al., 2010 — PLOS Medicine)
  • Controle de peso com atenção à massa muscular: reduz risco de diabetes, doença cardiovascular, certos cânceres (GBD 2015 Obesity Collaborators — NEJM)

 

Note que nenhum item dessa lista envolve suplemento, protocolo relâmpago, peptídeo exclusivo ou terapia intravenosa cara. Todos têm evidência de nível A — o mais alto da hierarquia científica!

 

A hierarquia que importa (e que os modismos ignoram)

Ioannidis (2005), em artigo seminal no PLOS Medicine — “Why Most Published Research Findings Are False” —, demonstrou matematicamente que a maioria dos resultados positivos em estudos individuais com amostras pequenas são falsos positivos. Esse artigo tornou-se um dos mais citados da história da medicina e impulsionou uma era de maior rigor metodológico.

A lição prática é direta: antes de adotar qualquer intervenção médica ou nutricional, suplemento ou protocolo, faça quatro perguntas essenciais:

  • Há metanálise ou revisão sistemática sobre o assunto?
  • Quantas pessoas foram estudadas?
  • Por quanto tempo?
  • Quem financiou a pesquisa?

Essas questões simples filtram 90% do ruído informativo. Isso não significa que devemos ignorar as novidades ou desprezar o saber ancestral, como a acupuntura. Estudos clínicos robustos são caros, e geralmente apenas grandes indústrias e instituições de peso têm recursos para patrociná-los. É justamente aqui que entra o bom senso.

Além de buscar evidências científicas sólidas, é fundamental indagar: há quanto tempo esse método é conhecido? Se uma prática resiste desde tempos imemoriais — e não se trata apenas de folclore ou misticismo —, o filtro do tempo se encarrega de eliminar as falsas promessas, que raramente se sustentam por gerações. Partimos da premissa de que o que sobrevive ao tempo na medicina carrega eficácia real e, por isso, merece ser submetido a investigações científicas mais aprofundadas.

O equilíbrio deve prevalecer: não podemos ser excessivamente acadêmicos, nem puramente empiristas ou pragmáticos. O segredo está em ter a acurácia necessária para filtrar informações e ponderar riscos com sabedoria.

Antes de adotar qualquer promessa de saúde: existe metanálise? Quantas pessoas? Por quanto tempo? Quem pagou a pesquisa?

A ciência que envelhece bem

Comer comida de verdade — predominantemente plantas, pouco processada. Mover o corpo diariamente. Dormir o suficiente. Não fumar. Cuidar dos vínculos humanos. Gerenciar o estresse. Esses são os axiomas da saúde que resistem ao tempo, às modas e às manchetes.

Os modismos virão e passarão. O ovo voltará a ser vilão e depois mocinho novamente, dependendo de qual estudo o jornal resolver reportar esta semana. Novos “superalimentos” serão descobertos. Novos peptídeos prometerão a imortalidade. E a indústria do bem-estar continuará crescendo sobre a insegurança humana e o desejo legítimo de viver melhor.

Mas os axiomas ficam. A ciência que envelhece bem não é aquela que explode nas redes sociais — é aquela que sobrevive ao teste do tempo, à replicação independente e ao escrutínio dos pares.

Às vezes, a coisa mais revolucionária que um médico pode prescrever é: durma bem, coma mais vegetais, caminhe todo dia e mantenha seus laços afetivos. Não tem patente. Não tem margem de lucro. Mas tem evidência.

 

 

 

Referências

AREM, H. et al. Leisure time physical activity and mortality: a detailed pooled analysis of the dose-response relationship. JAMA Internal Medicine, v. 175, n. 6, p. 959-967, 2015.

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CAPPUCCIO, F. P. et al. Sleep duration and all-cause mortality: a systematic review and meta-analysis of prospective studies. Sleep, v. 33, n. 5, p. 585-592, 2010.

DOLL, R. et al. Mortality in relation to smoking: 50 years’ observations on male British doctors. British Medical Journal, v. 328, n. 7455, p. 1519, 2004.

ELAD, D. et al. Peptide therapeutics: oncology and beyond. Pharmacology & Therapeutics, v. 234, p. 108085, 2022.

ESTRUCH, R. et al. Primary prevention of cardiovascular disease with a Mediterranean diet. New England Journal of Medicine, v. 368, n. 14, p. 1279-1290, 2013.

GBD 2015 OBESITY COLLABORATORS. Health effects of overweight and obesity in 195 countries over 25 years. New England Journal of Medicine, v. 377, n. 1, p. 13-27, 2017.

GOLDACRE, B. Bad Science. London: Fourth Estate, 2012.

HOLT-LUNSTAD, J.; SMITH, T. B.; LAYTON, J. B. Social relationships and mortality risk: a meta-analytic review. PLOS Medicine, v. 7, n. 7, e1000316, 2010.

IOANNIDIS, J. P. Why most published research findings are false. PLOS Medicine, v. 2, n. 8, e124, 2005.

KAHNEMAN, D. Thinking, Fast and Slow. New York: Farrar, Straus and Giroux, 2011.

KATZ, D. L.; MELLER, S. Can we say what diet is best for health? Annual Review of Public Health, v. 35, p. 83-103, 2014.

KLEIN, A. V.; KIAT, H. Detox diets for toxin elimination and weight management: a critical review of the evidence. Journal of Human Nutrition and Dietetics, v. 28, n. 6, p. 675-686, 2015.

KO, G. J. et al. Dietary protein intake and chronic kidney disease. Current Opinion in Clinical Nutrition & Metabolic Care, v. 20, n. 1, p. 77-85, 2017.

LAWSON, J. et al. Intravenous vitamin therapy in non-deficient adults: a review. Journal of Evidence-Based Complementary & Alternative Medicine, v. 20, n. 4, p. 291-296, 2015.

LEVINE, M. E. et al. Low protein intake is associated with a major reduction in IGF-1, cancer, and overall mortality in the 65 and younger but not older population. Cell Metabolism, v. 19, n. 3, p. 407-417, 2014.

LOEWENSTEIN, G.; BRENNAN, T.; VOLPP, K. G. Asymmetric paternalism to improve health behaviors. JAMA, v. 298, n. 20, p. 2415-2417, 2007.

MORTON, R. W. et al. A systematic review, meta-analysis and meta-regression of the effect of protein supplementation on resistance training-induced gains in muscle mass and strength in healthy adults. British Journal of Sports Medicine, v. 52, n. 6, p. 376-384, 2018.

OHSUMI, Y. Autophagy: an intracellular degradation system and its physiological functions. Proceedings of the Japan Academy, Series B, v. 74, n. 9, p. 242-250, 1998. [Nobel de Fisiologia ou Medicina, 2016]

RAVNSKOV, U. The questionable role of saturated and polyunsaturated fatty acids in cardiovascular disease. Journal of Clinical Epidemiology, v. 51, n. 6, p. 443-460, 2002.

RONG, Y. et al. Egg consumption and risk of coronary heart disease and stroke: dose-response meta-analysis of prospective cohort studies. British Medical Journal, v. 346, e8539, 2013.

WALKER, M. Why We Sleep: Unlocking the Power of Sleep and Dreams. New York: Scribner, 2017.

WHO — WORLD HEALTH ORGANIZATION. Protein and Amino Acid Requirements in Human Nutrition. Geneva: WHO Press, 2007. (WHO Technical Report Series, 935).

WOOD, A. M. et al. Risk thresholds for alcohol consumption: combined analysis of individual-participant data for 599,912 current drinkers in 83 prospective studies. The Lancet, v. 391, n. 10129, p. 1513-1523, 2018.

ZHONG, V. W. et al. Associations of dietary cholesterol or egg consumption with incident cardiovascular disease and mortality. JAMA, v. 321, n. 11, p. 1081-1095, 2019.

 

Artigo de caráter educacional. Consulte sempre um profissional de saúde qualificado para orientação individualizada

FITOTERAPIA – TEM BASE CIENTÍFICA? É REGULAMENTADA?

 

Dr. Alisson Lima

Médico da equipe Lapinha, pós-graduado em Fitoterapia e Nutrologia.

 

 

Os fitoterápicos podem ser vantajosos desde que entendidos como complementares, não como substitutos, e utilizados dentro de um contexto clínico responsável. Vale também salientar que cerca de 30% dos medicamentos utilizados hoje em dia são originados, direta ou indiretamente, de plantas.

 

A fitoterapia consiste no uso de plantas medicinais e seus derivados para fins terapêuticos — seja na prevenção, alívio ou tratamento de enfermidades — em suas diversas formas farmacêuticas, como extratos, tinturas e chás. No Brasil é oficialmente reconhecida como uma das Práticas Integrativas e Complementares em Saúde (PICS) pelo Ministério da Saúde, desde 2006 (Portaria nº 971/2006, depois ampliada pela Portaria nº 849/2017), estando em uso em mais de 900 municípios pelo SUS[1].

Cerca de 30% dos medicamentos utilizados hoje em dia são originados, direta ou indiretamente, de plantas[2,3]. Nesse sentido, a Fitoterapia é um método de tratamento caracterizado pelo uso de plantas medicinais em suas diferentes apresentações farmacêuticas, em vez da utilização de substâncias ativas isoladas[4]. Ou seja, os diversos compostos presentes nas plantas compõem os medicamentos fitoterápicos, sendo obtidos exclusivamente de matérias-primas vegetais que tenham sua segurança e eficácia baseadas em evidências clínicas e que sejam caracterizados pela constância de sua qualidade[5,6].

A história da fitoterapia é também a história da medicina moderna que, desde o seu surgimento, na metade do século XIX, definiu-se como cientificamente orientada.

O conceito de fitoterapia foi introduzido no meio científico pelo médico francês Henri Leclerc (1870-1955), que vivia e clinicava em Paris. Ele fez inúmeras descrições do uso de plantas medicinais, em grande parte publicadas na influente revista médica francesa “La Presse Médicale”.  Leclerc resumiu sua experiência no manual “Précis de Phytothérapie”.

A maioria dos estudiosos da fitoterapia moderna entendem-na como parte da medicina cientificamente orientada. Sua exigência de aplicar aos fitoterápicos os mesmos métodos científicos que aos medicamentos sintéticos, e o fato de classificarem a fitoterapia como uma parte integrante da farmacoterapia moderna, merece ser apoiada[7].

 

  1. Conhecimento popular x ciência moderna

Do ponto de vista cultural, o uso de plantas medicinais faz parte de práticas ancestrais, repassadas de geração em geração. No entanto, a fitoterapia moderna busca integrar esse conhecimento popular a critérios científicos rigorosos. No SUS, essa integração se dá por meio da Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares (PNPIC), que destaca que as terapias baseadas em fitoterapia devem ser complementares, não substitutas da medicina alopática, e aplicadas por profissionais capacitados e com produtos que atendam a padrões de qualidade, segurança e eficácia[8].

 

Regulação e qualificação científica

  • Os medicamentos fitoterápicos (MF) passam por regulamentação específica (RDC Anvisa) e exigem comprovação de eficácia e segurança por meio de estudos clínicos ou etnofarmacológicos rigorosos. Já os produtos tradicionais fitoterápicos (PTF) baseiam-se principalmente no uso prolongado e na tradição popular[9].
  • A pesquisa científica evoluiu nos últimos anos, com diversos estudos clínicos envolvendo plantas como Passiflora incarnata (maracujá), Valeriana officinalis e Hypericum perforatum, principalmente para transtornos como ansiedade e insônia leve ou moderada[10].
  • Contudo, a literatura científica destaca que o nível de evidência varia muito. Revisões sistemáticas exigem ensaios clínicos controlados, randomizados, cegos e com amostra adequada — ainda escassos para muitos fitoterápicos[11].
  1. Não se deve substituir medicamentos consolidados sem critério clínico

É fundamental destacar que não se deve substituir um tratamento farmacológico convencional por um fitoterápico sem base clínica consistente. Alguns dos principais riscos incluem:

  • Interações medicamentosas e toxicidade: certos fitoterápicos podem interagir com fármacos sintéticos ou resultar em efeitos adversos, incluindo, desde efeitos sob o sistema nervoso central, até efeitos sobre o metabolismo, controle hormonal, função cardíaca, digestiva, dentre outros, especialmente se utilizados sem orientação ou se o produto tiver qualidade duvidosa[12].
  • Desconhecimento técnico: muitos profissionais de saúde não recebem formação adequada em fitoterapia. Pesquisas identificaram que a indicação ocorre muitas vezes por automedicação, com base em experiências familiares ou pela mídia, sem respaldo profissional[13].
  • Dados revelam que uma proporção significativa de pacientes que usam plantas medicinais (79%) não teve orientação adequada, enquanto grande parte dos prescritores não está bem informada sobre os fitoterápicos disponíveis no SUS[14].
  1. Importância da comprovação de eficácia

Aspectos fundamentais

A questão sobre a comprovação da eficácia dos medicamentos foi discutida de forma muito intensa e controversa nas últimas décadas, sem um resultado definitivo. O dogma da força de comprovação exclusiva dos estudos duplo-cego, randomizados e controlados já foi abalado por Kienle (1977), mas nem por isso invalidado. Kiene (1994) retomou esse questionamento e retrabalhou sua dimensão teórica. Trata-se, por um lado, da tentativa de avaliar a ação de um medicamento, observado de forma isolada, em uma terapia, eliminando todas as outras interferências possíveis, e, por outro lado, da objetividade dos resultados.

A problemática científica do famoso efeito placebo baseia-se no fato de que o surgimento desse efeito ainda não foi bem esclarecido. Uma clássica e extensa descrição do efeito do placebo foi publicada por Kienle (1995).

No entanto, soa sensato valorizar a experiência terapêutica antes de se afirmar que alguma abordagem com fármacos é cientificamente robusta. Qualquer paciente esclarecido se sentirá menos seguro em submeter-se a um tratamento que se apoie apenas em resultados obtidos por estudos duplo-cegos, sem experiência alguma. Sobre a importância da experiência, Abraham Lincoln já dizia: “Pode-se enganar um pequeno número de pessoas por um longo tempo e um número grande de pessoas por um curto tempo”.

Veja bem, “é impossível enganar um grande número de pessoas por um longo tempo!” No campo da farmacoterapia pode-se traduzir como: o uso prolongado de um fármaco, constantemente solicitado pelos pacientes e prescrito pelos médicos, atesta a sua eficácia — mesmo sem ensaios duplo-cegos.

Na preparação da nova Legislação Alemã de Medicamentos (Deutschen Arzneimit-telgesetzes (AMGI), que vigora desde 1° janeiro de 1978, tendo sido revisada e complementada várias vezes, o Comitê de Preparação da Lei para a Juventude, Família e Saúde afirmou o seguinte, em seu relatório de 28/4/1976:

A eficácia dos fitoterápicos foi avaliada como segura ou suficientemente provável segundo pelo menos um dos critérios a seguir:

  1. A ação e a eficácia foram comprovadas através do registro em artigos de revisão respeitados, em manuais ou livros-texto de formação.
  2. Resultados em estudos controlados em comparação com placebo ou substâncias de referência.
  3. Provas clínicas documentadas, mas insuficientes para a recomendação de liberação; no entanto com resultados experimentais confirmatórios que apontem no mesmo sentido das provas clínicas.
  4. Material de conhecimento científico encontra-se disponível.
  5. Existem conhecimentos baseados na experiência prática e resultantes de observação, mas insuficientes para uma recomendação de liberação; no entanto, são conhecidos resultados convincentes de ensaios experimentais, observações ou indícios adicionais passíveis de avaliação.

Para a fitoterapia, a AMGI representa um ponto de virada também no sentido de uma terapia moderna, baseada em avaliações de acordo com critérios científicos.[15].

 

Conclusão

A fitoterapia é uma área legítima de atuação que une saberes tradicionais e avanços científicos, reconhecida no Brasil como prática integrativa. Pode oferecer benefícios em determinadas condições, desde que seus produtos sejam regulados e embasados em evidências, prescritos por profissionais qualificados.

Entretanto, não se deve substituir um medicamento convencional — com eficácia e segurança comprovadas — por um fitoterápico sem critérios clínicos e científicos claros. A automedicação, o uso sem orientação ou com produtos de qualidade duvidosa, e a falta de conhecimento técnico, expõem o paciente a riscos desnecessários. O ideal é que fitoterápicos sejam entendidos como complementares, não como substitutos, e utilizados dentro de um contexto clínico responsável.

 

 

 

Referências

  1. PORTARIA Nº 971, DE 03 DE MAIO DE 2006. Aprova a Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares (PNPIC) no Sistema Único de Saúde. https://bvsms.saude.gov.br/bvs/saudelegis/gm/2006/prt0971_03_05_2006.html#:~:text=PORTARIA%20N%C2%BA%20971%2C%20DE%2003,no%20Sistema%20%C3%9Anico%20de%20Sa%C3%BAde.

 

  1. Devienne KF, Raddi G, Pozetti GL. Das plantas medicinais aos fitofármacos. Rev Bras Pl Medic. 2004; 6(3): 11-14. [https://repositorio.unesp.br/handle/11449/67754].
  2. Dias ECM, Trevisan DD, Nagai SC, Ramos NA, Silva EM. Uso de fitoterápicos e potenciais riscos de interações medicamentosas: Reflexões para prática segura. Ver Baiana Saúde Públ. 2017; 41(2): 297- 307. [https://doi.org/10.22278/2318 2660.2017.v41.n2.a2306].
  3. Abranches MV. Plantas Medicinais e Fitoterápicos: abordagem teórica com ênfase em nutrição. AS Sistemas; 2015. 149 p. ISBN: 9788565880015.
  4. Cechinel Filho V, Zanchett CCC. Fitoterapia avançada: uma abordagem química, biológica e nutricional. São Paulo: Artmed, 2020. p.216. ISBN-1 0 :6581335142.
  5. Neves TON. Principais interações entre medicamentos e as plantas medicinais e/ou fitoterápicos. Uberaba. 2019. 41p. Trabalho de Conclusão de Curso [Graduação em Farmácia] – Universidade de Uberaba. Uberaba. MG. 2019. [https://repositorio.uniube.br/handle/123456789/1618].
  6. Volker Fintelmann, Rudolf Fritz Weiss. Manual de Fitoterapia. 11ª edição. 3-7p.

 

  1. Rodrigues, José Manoel1, Fellipe, Ravel Leopoldino Duque1, Fernandes, Ravel Leopoldino Duque1. Impacto da farmácia  verde  de  Ipatinga  – MG  na  redução  das  prescrições  de  benzodiazepínicos  em unidades de saúde pública. Revista Fitos. Rio de Janeiro. 2024; 18(1): e1427 | e-ISSN: 2446-4775 | www.revistafitos.far.fiocruz.br

 

  1. ORIENTAÇÕES SOBRE O USO DE FITOTERÁPICOS E PLANTAS MEDICINAIS, no https://www.gov.br/anvisa/pt br/centraisdeconteudo/publicacoes/medicamentos/publicacoes-sobre-medicamentos/orientacoes-sobre-o-uso-de-fitoterapicos-e-plantas-medicinais.pdf; Acesso 14 de Agosto de 2025.

 

  1. Ministério da Saúde. Memento Fitoterápico (1ª edição), no https://www.gov.br/saude/pt-br/composicao/sectics/plantas-medicinais-e-fitoterapicos/arquivos/2016/memento-fitoterapico-1a-edicao.pdf/@@download/file; Acesso 18 de Agosto de 2025.
  2. Ralph Santos Oliveira1*, Waldeciro Colaço2, Simone Coulaud-Cunha3, Selma Rodrigues de Castilho4. Revisão sistemática em fitoterapia: padronização internacional de qualidade. Revista Brasileira de Farmacognosia Brazilian Journal of Pharmacognosy 17(2): 271-274, Abr./Jun. 2007

 

  1. Ruver-Martins, Ana Carolina1, Silva, Barbara Ribas da2. Interações medicamentosas entre medicamentos fitoterápicos e alopáticos: uma revisão de literatura sobre potenciais interações e suas manifestações. Revista Fitos. Rio de Janeiro. 2024; 18(1): e1629 | e-ISSN: 2446-4775 | www.revistafitos.far.fiocruz.br

 

  1. Leite et al. Avaliação do conhecimento e percepção de estudantes de farmácia sobre a fitoterapia em uma universidade pública, Brasil. Revista Fitos. Rio de Janeiro. 2024; Supl(2): e1508 | e-ISSN: 2446-4775 | www.revistafitos.far.fiocruz.br

 

  1. Melo DN, Celano RMG, Aoyama EM, Soares Neto JAR et al. Utilização das plantas medicinais e fitoterápicos na prática clínica de profissionais da saúde de Foz do Iguaçu, Paraná. Rev Fitos. Rio de Janeiro. 2024; 18(1): e1615. e-ISSN 2446.4775. Disponível em: <https://revistafitos.far.fiocruz.br/?journal=revista-fitos&page=article&op=view&path%5B%5D=1615>. Acesso em: 18/08/2025.

 

  1. Volker Fintelmann, Rudolf Fritz Weiss. Manual de Fitoterapia. 11ª edição. 11-13p.

 

QUANDO USAR TESTOSTERONA DE MODO SEGURO E CIENTIFICAMENTE EMBASADO?

 

 

Dra Jacy M. Alves, MD Endocrinologista e Dr Daniel S. F. Boarim, MD Nutrólogo

 

Certamente, você conhece alguém que faz reposição hormonal com testosterona ou talvez você mesmo a utilize. Mas você tem ideia dos verdadeiros riscos/benefícios por trás dessa prescrição, que virou moda nos últimos anos? Principalmente entre os que buscam um corpo escultural e musculoso, a testosterona acena como um recurso “promissor”. Mas você sabe a que preço?  Vale a pena?

 

Quando é indicada a terapia de reposição com testosterona? (TRT)

 

A terapia de reposição de testosterona (TRT) envolve riscos importantes, e por isso deve ser utilizada de forma muito criteriosa e baseada em evidências, considerando as diretrizes das Sociedades Médicas e recomendações atuais.

A TRT tem poucas indicações cientificamente seguras e aceitas. A mais reconhecida é para homens com hipogonadismo devidamente confirmado, que é caracterizado por níveis baixos de testosterona associados a sintomas clínicos, como disfunção sexual, perda de massa muscular, fadiga e diminuição da densidade óssea. [1-3]

 

Onde mora o perigo?

 

Aqui mora o perigo. Digamos que os seus níveis de testosterona estejam na faixa da normalidade e algum prescritor afirme que, “suplementando” para trazê-los mais para cima, você se sentirá muito melhor. Mesmo que isso fosse comprovado, os grandes riscos (principalmente aumento da morbimortalidade cardiovascular) não compensariam os discutíveis “benefícios”.

Como vimos, o uso seguro da testosterona requer confirmação do diagnóstico de hipogonadismo, que deve ser feito por meio de duas medições matinais de testosterona total, que mostrem níveis efetivamente reduzidos. [2-3] Confirmado o diagnóstico, a TRT, desde que corretamente conduzida, pode ser benéfica para melhorar a função sexual, o desejo sexual e a densidade óssea em homens com hipogonadismo. [4-5]

No entanto, os benefícios em outras condições, como função cognitiva, humor e capacidade física, são menos claros, necessitando estudos adicionais. Não se justifica o uso de testosterona apenas para “melhorar” o humor, a massa muscular e o desempenho físico ou mental, como se vem apregoando, estando seus níveis normais, ou seja, não havendo um diagnóstico confirmado de hipogonadismo masculino. [4-5]

 

É indicada na infertilidade? Quando é contraindicada?

 

Se o problema é infertilidade masculina, bom pontuar que a TRT é, ao contrário, contraindicada, pois pode interromper a espermatogênese normal.[3] Além disso, envolve riscos no caso de homens com câncer de próstata não tratado ou câncer de mama, e em pacientes que tiveram infarto do miocárdio ou acidente vascular cerebral.[1][3] A segurança cardiovascular da TRT ainda é uma área de preocupação, e a FDA nos EUA alerta para aumento do risco de complicações cardiovasculares.[2][5]

 

E para mulheres?

 

Para mulheres, a única indicação baseada em evidências para a terapia com testosterona é o tratamento do transtorno do desejo sexual hipoativo (HSDD), e deve ser administrada com cuidado para atingir concentrações fisiológicas pré-menopáusicas.[6]

Não há dados suficientes para apoiar o uso de testosterona para outros sintomas ou condições clínicas em mulheres.[6] A terapia deve ser cuidadosamente monitorada para garantir que os níveis de testosterona no sangue permaneçam dentro das concentrações fisiológicas pré-menopáusicas. .[6]

O transtorno do desejo sexual hipoativo (HSDD) é diagnosticada com base em critérios clínicos bem estabelecidos. O HSDD é caracterizado pela ausência persistente ou falta de desejo por atividade sexual, que está associada a um sofrimento pessoal significativo e/ou dificuldades interpessoais. É crucial que esses sintomas não possam ser mais bem explicados por outro transtorno primário, medicação ou condição médica geral. [7-8]

Para o diagnóstico, é importante realizar uma avaliação biopsicossocial abrangente, que considere fatores biológicos, psicológicos e socioculturais, além de influências interpessoais.[7][9] Ferramentas de triagem validadas, como o Decreased Sexual Desire Screener, podem ser úteis para identificar a necessidade de uma avaliação mais aprofundada.[7][10]

O diagnóstico também deve distinguir entre HSDD generalizado adquirido e outras formas de interesse sexual reduzido. A avaliação clínica deve incluir uma história médica e sexual detalhada e, em alguns casos, um exame físico. [11-12] A presença de sofrimento pessoal é um critério essencial para o diagnóstico, conforme estabelecido pelo Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5).[11]

O HSDD é uma condição reconhecida e tratável, com opções de tratamento que incluem intervenções não farmacológicas, como terapia sexual e psicoterapia, além de tratamentos farmacológicos aprovados, como a flibanserina e o bremelanotida, ambos aprovados pela FDA para mulheres pré-menopáusicas nos Estados Unidos. [7-9]

Um estudo sistemático e meta-análise envolvendo sete ensaios clínicos randomizados com 3.035 participantes demonstrou que o uso de testosterona transdérmica em mulheres pós-menopáusicas resultou em melhorias significativas na função sexual em comparação com o placebo. No entanto, o tratamento foi associado a eventos adversos androgênicos, como acne e crescimento de pelos.[13]

A literatura também destaca que, embora a testosterona seja uma ferramenta terapêutica valiosa, ainda há uma falta de dados sobre a segurança a longo prazo, especialmente em relação ao risco cardiovascular e de câncer.[15] [16-17] Além disso, não há preparações de testosterona aprovadas especificamente para mulheres, o que leva ao uso off-label de formulações destinadas a homens, com ajustes de dose para evitar níveis supra fisiológicos de testosterona. [6-17]

As diretrizes de consenso global indicam que a única indicação baseada em evidências para a terapia com testosterona em mulheres é o tratamento do HSDD. Recomenda-se que a avaliação clínica completa seja realizada para identificar e tratar outros fatores contribuintes para a disfunção sexual antes de iniciar a terapia com testosterona.[6]

A terapia com testosterona pode ser considerada para mulheres pós-menopáusicas com HSDD, desde que outras causas tenham sido minuciosamente excluídas. No entanto, devido à falta de dados sobre a segurança a longo prazo, é crucial que seu uso seja cauteloso, com monitoramento cuidadoso dos níveis hormonais e possíveis efeitos adversos. Uma abordagem cuidadosa e individualizada é essencial para garantir o tratamento eficaz e seguro do HSDD.

 

Como monitorar a reposição de testosterona em homens?

 

A monitorização dos pacientes em TRT é crucial, incluindo a avaliação da resposta clínica e a medição de testosterona total, hematócrito e antígeno prostático específico (PSA). [1-2] A escolha da formulação de testosterona (transdérmica ou intramuscular) deve considerar a eficácia clínica, os custos e as preferências do paciente.[5]

 

Efeitos colaterais

 

Há efeitos secundários bem conhecidos do excesso de testosterona, como aumento de pelos e espinhas, aumento da próstata em homens e atrofia das mamas em mulheres, insônia,  alteração de humor, irritabilidade, edema (inchaço geral), cólicas pélvicas ou até mesmo um retorno da menstruação. Altos níveis de testosterona também podem elevar os níveis de estrogênio, já que uma parte da testosterona é convertida em estrogênio [18]

 

Resumindo

 

O modismo de prescrever testosterona indiscriminadamente é irresponsável e implica enorme perigo à saúde, e essa indicação deve ser seriamente considerada apenas em casos de hipogonadismo confirmado nos homens e o transtorno do desejo sexual hipoativo em mulheres, com uma avaliação cuidadosa dos riscos e benefícios, e monitorização contínua para garantir a segurança e eficácia do tratamento.

É crucial que a decisão de iniciar a terapia com testosterona seja baseada em uma avaliação clínica completa e que os pacientes sejam informados sobre os potenciais riscos e benefícios do tratamento. Além disso, a segurança a longo prazo da terapia com testosterona, especialmente em mulheres, ainda não foi estabelecida.

 

Referências

  1. EMAS Position Statement: Testosterone Replacement Therapy in Older Men. Kanakis GA, Pofi R, Goulis DG, et al. Maturitas. 2023;178:107854. doi:10.1016/j.maturitas.2023.107854.
  2. Testosterone Therapy: Review of Clinical Applications. Petering RC, Brooks NA. American Family Physician. 2017;96(7):441-449.
  3. Evaluation and Management of Testosterone Deficiency: AUA Guideline. Mulhall JP, Trost LW, Brannigan RE, et al. The Journal of Urology. 2018;200(2):423-432. doi:10.1016/j.juro.2018.03.115.
  4. Testosterone Therapy: What We Have Learned From Trials. Corona G, Torres LO, Maggi M. The Journal of Sexual Medicine. 2020;17(3):447-460. doi:10.1016/j.jsxm.2019.11.270.
  5. Testosterone Treatment in Adult Men With Age-Related Low Testosterone: A Clinical Guideline From the American College of Physicians. Qaseem A, Horwitch CA, Vijan S, et al. Annals of Internal Medicine. 2020;172(2):126-133. doi:10.7326/M19-0882.
  6. Global Consensus Position Statement on the Use of Testosterone Therapy for Women. Davis SR, Baber R, Panay N, et al. The Journal of Clinical Endocrinology and Metabolism. 2019;104(10):4660-4666. doi:10.1210/jc.2019-01603.
  7. Female Hypoactive Sexual Desire Disorder: A Practical Guide to Causes, Clinical Diagnosis, and Treatment. Kingsberg SA, Simon JA. Journal of Women’s Health (2002). 2020;29(8):1101-1112. doi:10.1089/jwh.2019.7865.
  8. Hypoactive Sexual Desire Disorder in Women: Physiology, Assessment, Diagnosis, and Treatment. Pettigrew JA, Novick AM. Journal of Midwifery & Women’s Health. 2021;66(6):740-748. doi:10.1111/jmwh.13283.
  9. Hypoactive Sexual Desire Disorder: International Society for the Study of Women’s Sexual Health (ISSWSH) Expert Consensus Panel Review. Goldstein I, Kim NN, Clayton AH, et al. Mayo Clinic Proceedings. 2017;92(1):114-128. doi:10.1016/j.mayocp.2016.09.018.
  10. Instruments for Screening, Diagnosis, and Management of Patients With Generalized Acquired Hypoactive Sexual Desire Disorder. Derogatis LR, Revicki DA, Clayton AH. Journal of Women’s Health (2002). 2020;29(6):806-814. doi:10.1089/jwh.2019.7917.
  11. Female Sexual Dysfunction: Focus on Low Desire. Kingsberg SA, Woodard T. Obstetrics and Gynecology. 2015;125(2):477-486. doi:10.1097/AOG.0000000000000620.
  12. The International Society for the Study of Women’s Sexual Health Process of Care for Management of Hypoactive Sexual Desire Disorder in Women. Clayton AH, Goldstein I, Kim NN, et al. Mayo Clinic Proceedings. 2018;93(4):467-487. doi:10.1016/j.mayocp.2017.11.002.
  13. Efficacy and Safety of Transdermal Testosterone in Postmenopausal Women With Hypoactive Sexual Desire Disorder: A Systematic Review and Meta-Analysis. Achilli C, Pundir J, Ramanathan P, et al. Fertility and Sterility. 2017;107(2):475-482.e15. doi:10.1016/j.fertnstert.2016.10.028.
  14. Systemic Testosterone for the Treatment of Female Sexual Interest and Arousal Disorder (FSIAD) in the Postmenopause.
  15. Ribera Torres L, Anglès-Acedo S, López Chardi L, Mension Coll E, Castelo-Branco C. Gynecological Endocrinology: The Official Journal of the International Society of Gynecological Endocrinology. 2024;40(1):2364220. doi:10.1080/09513590.2024.2364220.
  16. Androgen Therapy in Women.Vegunta S, Kling JM, Kapoor E. Journal of Women’s Health (2002). 2020;29(1):57-64. doi:10.1089/jwh.2018.7494.
  17. Risks of Testosterone for Postmenopausal Women. Pinkerton JV, Blackman I, Conner EA, Kaunitz AM. Endocrinology and Metabolism Clinics of North America. 2021;50(1):139-150. doi:10.1016/j.ecl.2020.10.007.
  18. Information on Testosterone Hormone Therapy, University of California, San Francisco, July 2020.

 

ENGLISH

 

WHEN TO USE TESTOSTERONE IN A SAFE AND SCIENTIFICALLY SUPPORTED WAY?

Dr. Jacy M. Alves MD, Dr Daniel S F Boarim MD

 

You certainly know someone who uses testosterone replacement therapy or perhaps you use it yourself. But do you have any idea of ​​the real risks/benefits behind this prescription, which has become fashionable in recent years? Especially among those seeking a sculpted and muscular body, testosterone beckons as a “promising” resource. But do you know the price? Is it worth it?

 

When is testosterone replacement therapy indicated? (TRT)

Testosterone replacement therapy (TRT) involves significant risks, and therefore must be used very carefully and based on evidence, considering the guidelines of Medical Societies and current recommendations.

TRT has few scientifically safe and accepted indications. The most recognized is for men with duly confirmed hypogonadism, which is characterized by low testosterone levels associated with clinical symptoms, such as sexual dysfunction, loss of muscle mass, fatigue and decreased bone density. [1-3]

 

Where does the danger lie?

 

Here lies the danger. Let’s say your testosterone levels are in the normal range and some prescriber claims that by “supplementing” to raise them further, you will feel much better. Even if this were proven, the great risks (mainly increased cardiovascular morbidity and mortality) would not compensate for the debatable “benefits”.

As we have seen, the safe use of testosterone requires confirmation of the diagnosis of hypogonadism, which should be done through two morning measurements of total testosterone, which show effectively reduced levels. [2-3] Once the diagnosis is confirmed, TRT, as long as it is correctly administered, can be beneficial in improving sexual function, sexual desire and bone density in men with hypogonadism. [4-5]

However, the benefits in other conditions, such as cognitive function, mood and physical capacity, are less clear and require additional studies. There is no justification for using testosterone just to “improve” mood, muscle mass and physical or mental performance, as has been claimed, if its levels are normal, that is, there is no confirmed diagnosis of male hypogonadism. [4-5]

Is it indicated for infertility? When is it contraindicated?

If the problem is male infertility, it is worth noting that TRT is, on the contrary, contraindicated, as it can interrupt normal spermatogenesis.[3] In addition, it involves risks in the case of men with untreated prostate cancer or breast cancer, and in patients who have had a myocardial infarction or stroke.[1][3] The cardiovascular safety of TRT is still an area of ​​concern, and the FDA in the US warns of an increased risk of cardiovascular complications.[2][5]

 

What about women?

 

For women, the only evidence-based indication for testosterone therapy is the treatment of hypoactive sexual desire disorder (HSDD), and it should be administered with caution to achieve premenopausal physiologic concentrations.[6]

There are insufficient data to support the use of testosterone for other symptoms or medical conditions in women.[6] Therapy should be carefully monitored to ensure that blood testosterone levels remain within premenopausal physiologic concentrations. .[6]

Hypoactive sexual desire disorder (HSDD) is diagnosed based on well-established clinical criteria. HSDD is characterized by the persistent or recurrent absence of sexual thoughts or fantasies and/or lack of desire for sexual activity, which is associated with significant personal distress and/or interpersonal difficulties. It is crucial that these symptoms cannot be better accounted for by another underlying disorder, medication, or general medical condition. [7-8]

A comprehensive biopsychosocial assessment that considers biological, psychological, and sociocultural factors, as well as interpersonal influences, is important for diagnosis.[7][9] Validated screening tools, such as the Decreased Sexual Desire Screener, may be helpful in identifying the need for further evaluation.[7][10]

Diagnosis should also distinguish between acquired generalized HSDD and other forms of decreased sexual interest. Clinical evaluation should include a detailed medical and sexual history and, in some cases, a physical examination.[11-12] The presence of personal distress is an essential criterion for diagnosis, as established by the Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders (DSM-5).[11]

HSDD is a recognized and treatable condition, with treatment options that include nonpharmacologic interventions such as sex therapy and psychotherapy, as well as approved pharmacologic treatments such as flibanserin and bremelanotide, both of which are FDA-approved for premenopausal women in the United States. [7–9]

A systematic review and meta-analysis involving seven randomized controlled trials with 3,035 participants demonstrated that the use of transdermal testosterone in postmenopausal women resulted in significant improvements in sexual function compared to placebo. However, the treatment was associated with androgenic adverse events, such as acne and hair growth.[13]

The literature also highlights that although testosterone is a valuable therapeutic tool, there is still a lack of data on long-term safety, especially regarding cardiovascular and cancer risk.[15] [16-17] In addition, there are no testosterone preparations specifically approved for women, which leads to off-label use of formulations intended for men, with dose adjustments to avoid supraphysiological testosterone levels.[6-17]

Global consensus guidelines indicate that the only evidence-based indication for testosterone therapy in women is the treatment of HSDD. It is recommended that a thorough clinical evaluation be performed to identify and address other contributing factors to sexual dysfunction prior to initiating testosterone therapy.[6]

Testosterone therapy may be considered for postmenopausal women with HSDD, provided that other causes have been thoroughly excluded. However, due to the lack of data on long-term safety, it is crucial that its use be cautious, with careful monitoring of hormone levels and potential adverse effects. A careful and individualized approach is essential to ensure effective and safe treatment of HSDD.

How to monitor testosterone replacement therapy in men?

 

Monitoring of patients on TRT is crucial, including assessment of clinical response and measurement of total testosterone, hematocrit, and prostate-specific antigen (PSA).[1-2] The choice of testosterone formulation (transdermal or intramuscular) should consider clinical efficacy, cost, and patient preferences.[5]

 

In summary

 

The trend of prescribing testosterone indiscriminately is irresponsible and poses enormous health risks, and this indication should be seriously considered only in cases of confirmed hypogonadism in men and hypoactive sexual desire disorder in women, with a careful assessment of the risks and benefits, and ongoing monitoring to ensure the safety and efficacy of the treatment.

It is crucial that the decision to initiate testosterone therapy be based on a thorough clinical evaluation and that patients are informed of the potential risks and benefits of treatment. Furthermore, the long-term safety of testosterone therapy, especially in women, has not yet been established.

 

References

  1. EMAS Position Statement: Testosterone Replacement Therapy in Older Men. Kanakis GA, Pofi R, Goulis DG, et al. Maturitas. 2023;178:107854. doi:10.1016/j.maturitas.2023.107854.
  2. Testosterone Therapy: Review of Clinical Applications. Petering RC, Brooks NA. American Family Physician. 2017;96(7):441-449.
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  4. Testosterone Therapy: What We Have Learned From Trials. Corona G, Torres LO, Maggi M. The Journal of Sexual Medicine. 2020;17(3):447-460. doi:10.1016/j.jsxm.2019.11.270.
  5. Testosterone Treatment in Adult Men With Age-Related Low Testosterone: A Clinical Guideline From the American College of Physicians. Qaseem A, Horwitch CA, Vijan S, et al. Annals of Internal Medicine. 2020;172(2):126-133. doi:10.7326/M19-0882.
  6. Global Consensus Position Statement on the Use of Testosterone Therapy for Women. Davis SR, Baber R, Panay N, et al. The Journal of Clinical Endocrinology and Metabolism. 2019;104(10):4660-4666. doi:10.1210/jc.2019-01603.
  7. Female Hypoactive Sexual Desire Disorder: A Practical Guide to Causes, Clinical Diagnosis, and Treatment. Kingsberg SA, Simon JA. Journal of Women’s Health (2002). 2020;29(8):1101-1112. doi:10.1089/jwh.2019.7865.
  8. Hypoactive Sexual Desire Disorder in Women: Physiology, Assessment, Diagnosis, and Treatment. Pettigrew JA, Novick AM. Journal of Midwifery & Women’s Health. 2021;66(6):740-748. doi:10.1111/jmwh.13283.
  9. Hypoactive Sexual Desire Disorder: International Society for the Study of Women’s Sexual Health (ISSWSH) Expert Consensus Panel Review. Goldstein I, Kim NN, Clayton AH, et al. Mayo Clinic Proceedings. 2017;92(1):114-128. doi:10.1016/j.mayocp.2016.09.018.
  10. Instruments for Screening, Diagnosis, and Management of Patients With Generalized Acquired Hypoactive Sexual Desire Disorder. Derogatis LR, Revicki DA, Clayton AH. Journal of Women’s Health (2002). 2020;29(6):806-814. doi:10.1089/jwh.2019.7917.
  11. Female Sexual Dysfunction: Focus on Low Desire. Kingsberg SA, Woodard T. Obstetrics and Gynecology. 2015;125(2):477-486. doi:10.1097/AOG.0000000000000620.
  12. The International Society for the Study of Women’s Sexual Health Process of Care for Management of Hypoactive Sexual Desire Disorder in Women. Clayton AH, Goldstein I, Kim NN, et al. Mayo Clinic Proceedings. 2018;93(4):467-487. doi:10.1016/j.mayocp.2017.11.002.
  13. Efficacy and Safety of Transdermal Testosterone in Postmenopausal Women With Hypoactive Sexual Desire Disorder: A Systematic Review and Meta-Analysis. Achilli C, Pundir J, Ramanathan P, et al. Fertility and Sterility. 2017;107(2):475-482.e15. doi:10.1016/j.fertnstert.2016.10.028.
  14. Systemic Testosterone for the Treatment of Female Sexual Interest and Arousal Disorder (FSIAD) in the Postmenopause.
  15. Ribera Torres L, Anglès-Acedo S, López Chardi L, Mension Coll E, Castelo-Branco C. Gynecological Endocrinology: The Official Journal of the International Society of Gynecological Endocrinology. 2024;40(1):2364220. doi:10.1080/09513590.2024.2364220.
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  17. Risks of Testosterone for Postmenopausal Women.Pinkerton JV, Blackman I, Conner EA, Kaunitz AM. Endocrinology and Metabolism Clinics of North America. 2021;50(1):139-150. doi:10.1016/j.ecl.2020.10.007.

 

 

 

 

A “MEDICINA FAST HEALTHY”

 

Dra Jacy M. Alves, Médica da Lapinha, especialista em Endocrinologia e Metabologia

A Medicina não é uma ciência exata – isso todos sabem. As verdades podem ser transitórias. Mas vemos cada vez mais pessoas, principalmente as mais abastadas, procurando uma “Medicina Fast Healthy”, onde no anseio de terem vitalidade, função sexual compatível com atores de filmes adultos, a juventude eterna, o não sofrimento a qualquer custo, engolem diariamente pílulas “mágicas” ou compostos injetáveis (muitas vezes pagam uma verdadeira fortuna por isso) que prometem ser a cura para a sua insatisfação com a vida e seus propósitos. Existe certo ou errado? Sinceramente acredito que cada pessoa escolhe seus caminhos e tem autonomia, portanto, talvez essa dicotomia entre certo ou errado não seja a maneira mais correta de expressão, sendo que existem apenas escolhas diferentes, mas uma vez definindo o rumo é preciso aceitar as possíveis consequências.

 

A busca eterna do ser humano pela longevidade é justa?

Claro, afinal a grande maioria das pessoas não pensa muito sobre a finitude da vida, apesar de todos saberem da sua existência. Durante a era renascentista essa busca se limitava ao desejo de forma milagrosas de rejuvenescimento, como o banho na fonte da juventude. Houve uma guinada científica em 1889 com a publicação das auto-experiências de Brown-Séquart com extrato de testículos de animais, o que aparentemente melhorou sua vitalidade, força física e cognição. Este extrato, comercializado como o “Elixir da Vida”, foi vendido por décadas na Europa e América do Norte. No entanto, a replicação dos experimentos de Brown-Séquart demonstrou que tal extrato apresentava apenas concentrações homeopáticas de testosterona, insuficientes para exercer qualquer efeito biológico. Assim, o nascimento da Andrologia começou com um efeito placebo. Nas últimas décadas, a busca por compostos que possam a levar ao rejuvenescimento ganhou força, com a testosterona em primeiro plano. O diagnóstico de hipogonadismo masculino requer a presença de sintomas clínicos como libido baixa, disfunção erétil e fadiga, além da dosagem de testosterona realizada no mínimo em duas ocasiões no período da manhã, na ausência de doenças agudas ou graves. Embora as diretrizes de prática clínica das principais Sociedades Médicas do mundo defendam o tratamento com testosterona em homens com hipogonadismo orgânico, a testosterona continua a ser comercializada com uma droga maravilhosa com efeitos rejuvenescedores na função sexual, vitalidade e uma séries de outros supostos benefícios, não comprovados. Além disso, a epidemia crescente de obesidade, diabetes tipo 2, síndrome metabólica, condições que sabidamente podem associadas a menores níveis de testosterona, trouxe mais uma vez esse hormônio para o palco de discussões e centro de atenção. Embora o número de prescrições de testosterona tenha aumentado de forma avassaladora nas últimas duas décadas, estudos clínicos randomizados cuidadosamente conduzidos sugerem benefícios apenas modestos com o tratamento e em casos de hipogonadismo funcional, como muitas vezes ocorre na obesidade, diabetes tipo 2, essa alteração pode ser revertida tratando as doenças de base e com a mudança de estilo de vida, sem necessidade da reposição de testosterona, numa boa parte dos casos. Em relação à prescrição da testosterona, quando necessária, nos casos de hipogonadismo orgânico, permanecem as preocupações com a segurança, principalmente em homens idosos.

 

Nas mulheres, o abuso do uso de testosterona é ainda mais preocupante…

A situação onde esse hormônio poderia ser indicado seria o Transtorno do Interesse/Excitação Sexual Feminino. E vemos hoje a prescrição desse hormônio sem critérios e muitas vezes sem nenhuma indicação, para fins puramente estéticos, para aumentar a libido ou como uma “nova” forma de terapia hormonal da menopausa, em que muitas vezes não há sequer o uso adequado do estrogênio e progesterona (progesterona para mulheres que possuem útero, pois nas mulheres submetidas à histerectomia o uso de estrogênio não precisa ser acompanhado pelo uso de progesterona). A sexualidade feminina é complexa e não somente relacionada a hormônios como a testosterona. Fatores psicossociais como cultura, crenças religiosas, autoestima, depressão, traumas sexuais como abuso, tipo de relacionamento afetivo, estilo de vida, estresse, doenças e o uso de medicamentos influenciam a sexualidade feminina. O diagnóstico de perda do interesse nas relações sexuais e/ou falta de excitação se baseia na Classificação do DSM 5 e requer critérios bem específicos e precisam estar presentes no mínimo por 6 meses e devem causar angústia à paciente. O diagnóstico desta síndrome, o Transtorno do Interesse/ Excitação Sexual Femininoé realizado com base em critérios exclusivamente clínicos. A dosagem de testosterona não está indicada para o diagnóstico do Transtorno do Interesse/ Excitação Sexual Feminino, nem para avaliação de baixa função ovariana ou adrenal porque o método de dosagem utilizado mundialmente só permite discriminar o excesso de produção de testosterona, como para o diagnóstico de tumores e/ou outras doenças que levam a acne, hirsutismo e virilização. Testosterona total e sobretudo livre só devem ser dosadas na avaliação de hiperandrogenismo. Vale lembrar que no Brasil não existe testosterona para mulher que seja aprovada por órgãos de vigilância sanitária (ANVISA). Mundialmente, não é recomendado o uso de formulações masculinas para mulheres. O uso de Testosterona por mulheres, sem indicação e com medicamentos inadequados, pode levar a efeitos a curto e a longo prazo, dose-dependentes como acne, excesso de pelos, queda de cabelo, aumento do risco cardiovascular, engrossamento da voz, aumento do clitóris, além de dependência psicológica como depressão após a retirada, transtorno da imagem corporal (dismorfofobia, vigorexia) e transtornos alimentares (ortorexia). Essa é a informação que temos até hoje, com maior robustez de evidências, mas claro, cada um continua tendo o livre arbítrio para escolher os seus caminhos.

 

Em homens, a testosterona também não deve ser usada para libido baixa e depressão sem o diagnóstico de hipogonadismo.

O uso de testosterona para ganho de massa muscular é considerado doping em atletas profissionais e ilegal em amadores. Pode levar a efeitos adversos graves e irreversíveis como: aumento do coração e morte súbita, infertilidade, ginecomastia, problemas de fígado, policitemia e risco aumentado de trombose, edema, retenção urinária para pessoas com hipertrofia prostática, distúrbio do sono, supressão transitória ou definitiva da função testicular com parada da produção de testosterona endógena e necessidade de reposição de testosterona em longo prazo.

Você quer ter uma vida com maior bem-estar, sem limitações e mais saudável? O básico segue funcionando: alimentar-se de maneira saudável, praticar exercício físico regularmente, prezar pelo sono de qualidade, gerenciar o estresse, manter relacionamentos/conexões sociais saudáveis, não fumar e consumir bebida alcoólica com moderação, além de praticar a espiritualidade, de alguma forma, fazendo o bem.

 

ENGLISH

 

“FAST HEALTHY MEDICINE”

 

Dr. Jacy M. Alves, Lapinha, specialist in Endocrinology

 

Medicine is not an exact science – everyone knows that. Truths can be temporary. But we see more and more people, especially the wealthiest, looking for a “Fast Healthy Medicine”, where in the desire to have vitality, sexual function compatible with adult film actors, eternal youth, and not to suffer at any cost, they swallow “magic” pills or injectable compounds every day (often paying a fortune for this) that promise to be the cure for their dissatisfaction with life and their goals. Is there right or wrong? I sincerely believe that each person chooses their own path and has autonomy, therefore, perhaps this dichotomy between right and wrong is not the most correct way of expressing it, since there are only different choices, but once the path is defined, it is necessary to accept the possible consequences.

 

Is the eternal search of human beings for longevity fair?

 

Of course, after all, the vast majority of people do not think much about the finiteness of life, despite everyone knowing about its existence. During the Renaissance era, this search was limited to the desire for miraculous forms of rejuvenation, such as bathing in the fountain of youth. There was a scientific shift in 1889 with the publication of Brown-Séquart’s self-experiments with animal testicle extract, which apparently improved his vitality, physical strength and cognition. This extract, marketed as the “Elixir of Life”, was sold for decades in Europe and North America. However, replication of Brown-Séquart’s experiments demonstrated that this extract only presented homeopathic concentrations of testosterone, insufficient to exert any biological effect. Thus, the birth of Andrology began with a placebo effect. In recent decades, the search for compounds that could lead to rejuvenation has gained momentum, with testosterone at the forefront. The diagnosis of male hypogonadism requires the presence of clinical symptoms such as low libido, erectile dysfunction and fatigue, in addition to testosterone levels measured at least twice in the morning, in the absence of acute or serious illnesses. Although clinical practice guidelines from the world’s leading medical societies advocate testosterone treatment in men with organic hypogonadism, testosterone continues to be marketed as a wonder drug with rejuvenating effects on sexual function, vitality and a host of other unproven supposed benefits. In addition, the growing epidemic of obesity, type 2 diabetes and metabolic syndrome, conditions that are known to be associated with low testosterone levels, has once again brought this hormone into the spotlight and into the spotlight. Although the number of testosterone prescriptions has increased dramatically over the past two decades, carefully conducted randomized clinical trials suggest only modest benefits from treatment, and in cases of functional hypogonadism, as often occurs in obesity and type 2 diabetes, this change can be reversed by treating the underlying diseases and changing lifestyle, without the need for testosterone replacement in most cases. Regarding the prescription of testosterone, when necessary, in cases of organic hypogonadism, concerns about safety remain, especially in elderly men.

 

In women, the abuse of testosterone is even more worrying…

 

The situation where this hormone could be indicated would be Female Sexual Interest/Arousal Disorder. And today we see the prescription of this hormone without criteria and often without any indication, for purely aesthetic purposes, to increase libido or as a “new” form of hormone therapy for menopause, in which there is often not even adequate use of estrogen and progesterone (progesterone for women who have a uterus, since in women who have undergone hysterectomy the use of estrogen does not need to be accompanied by the use of progesterone). Female sexuality is complex and not only related to hormones like testosterone. Psychosocial factors such as culture, religious beliefs, self-esteem, depression, sexual traumas like abuse, type of emotional relationship, lifestyle, stress, diseases and the use of medications influence female sexuality. The diagnosis of loss of interest in sexual relations and/or lack of arousal is based on the DSM 5 classification and requires very specific criteria that must be present for at least 6 months and must cause distress to the patient. The diagnosis of this syndrome, Female Sexual Interest/Arousal Disorder, is made based exclusively on clinical criteria. Testosterone levels are not indicated for the diagnosis of Female Sexual Interest/Arousal Disorder, nor for the evaluation of low ovarian or adrenal function because the measurement method used worldwide only allows the discrimination of excess testosterone production, as for the diagnosis of tumors and/or other diseases that lead to acne, hirsutism and virilization. Total and especially free testosterone should only be measured in the evaluation of hyperandrogenism. It is worth remembering that in Brazil there is no testosterone for women that is approved by health surveillance agencies (ANVISA). Worldwide, the use of male formulations for women is not recommended. The use of testosterone by women, without indication and with inappropriate medications, can lead to short- and long-term, dose-dependent effects such as acne, excess hair, hair loss, increased cardiovascular risk, deepening of the voice, enlargement of the clitoris, as well as psychological dependence such as depression after withdrawal, body image disorder (dysmorphophobia, vigorexia) and eating disorders (orthorexia). This is the information we have to date, with greater robustness of evidence, but of course, each person continues to have free will to choose their own path.

 

In men, testosterone should also not be used for low libido and depression without a diagnosis of hypogonadism.

 

The use of testosterone to gain muscle mass is considered doping in professional athletes and illegal in amateurs. It can lead to serious and irreversible adverse effects such as: heart enlargement and sudden death, infertility, gynecomastia, liver problems, polycythemia and increased risk of thrombosis, edema, urinary retention for people with prostatic hypertrophy, sleep disorders, temporary or permanent suppression of testicular function with cessation of endogenous testosterone production and the need for long-term testosterone replacement.

Do you want to have a life with greater well-being, without limitations and healthier? The basics still work: eat healthily, exercise regularly, value quality sleep, manage stress, maintain healthy relationships/social connections, do not smoke and consume alcohol in moderation, in addition to practicing spirituality, in some way, doing good.

 

A MAYR KUR E O JEJUM INTERMITENTE

 

Dr. Daniel S. F. Boarim, MD

Lapinha SPA, Lapa, PR Brazil

 

Quando os seres humanos viviam em ambientes em que a comida era relativamente escassa, seu organismo aperfeiçoou mecanismos metabólicos que deveriam funcionar com o máximo de eficiência. Por isso desenvolvemos um genótipo poupador. Poupador e estocador de energia para os tempos de escassez, sazonais nos tempos primitivos.

Hoje, no mundo industrializado, há comida demais o tempo todo, com excedente de calorias. Por isso nosso ambiente tornou-se intensamente obesogênico. Pior que isso, o padrão alimentar ocidental é, reconhecidamente, um caldo de cultura ideal para a quase totalidade das doenças crônicas.

Em geral comemos demais, em várias refeições. Comemos errado e com frequência exagerada. Virou até tradição ensinar que precisamos comer de três em três horas, até 6 refeições ao dia, ensinamento que, embora tenha se tornado tradicional até nos meios acadêmicos, carece de base científica!

A MAYR PREVENT preconiza um período de repouso metabólico caracterizado por jejum assistido sem desnutrição, catarse intestinal monitorada e reeducação do estilo de vida, o que na prática clínica vem contribuindo de modo animador para mudanças sustentáveis, como reordenamento alimentar, que envolve aspectos quantitativos, qualitativos, modais e fracionais. Em outras palavras, a MAYR PREVENT vem contribuindo para melhora geral da saúde e prevenção de doenças que envolvem fatores modificáveis do estilo de vida. E isso representa a maior parte das doenças que hoje superlotam nossos hospitais. Certamente, um benefício considerável para a nossa qualidade de vida, e que mereceria mais atenção dos pesquisadores e médicos.

Outro aspecto a pontuar aqui é a relação entre o jejum fisiológico cíclico e a microbiota do intestino, cujo equilíbrio previne a inflamação crônica de baixo grau, fortemente associada às doenças crônicas. Essa é, sem dúvida, mais um componente dessa complexa equação que ajuda a explicar, com sólida base científica, os notáveis benefícios clínicos obtidos pela MAYR PREVENT. Em outra publicação, pretendemos abordar especificamente o badalado tema da microbiota do intestino (Matias Perez D. et al, 2022).

 

O jejum intermitente desafia o metabolismo e aumenta nossa resistência a doenças

Quando mudamos nosso hábito, diminuímos as calorias e adotamos um programa sensato de jejum intermitente fisiológico, sem desnutrição, que ajuda a regular os ciclos alimentação-jejum e sono-vigília, colocando nosso metabolismo de novo “nos eixos”, finalmente desafiando mente e corpo a voltarem ao peso normal e à saúde ideal. E isso é feito com louvor pela MAYR PREVENT.

Explicando melhor, todos os organismos, inclusive o nosso, estão programados para desenvolver meios de autopreservação, tanto mentais como corporais, que funcionem cada vez com mais eficiência. E o jejum é um desafio que, de acordo com as pesquisas, parece aperfeiçoar esses meios de autopreservação.

Podemos afirmar hoje, a partir de numerosos estudos, que o jejum intermintente desafia o cérebro e os vários sistemas de controle nutroneurometabólicos, que respondem adaptativamente às condições “adversas” (o nome técnico disso é HORMESE), melhorando as habilidades do indivíduo e otimizando o desempenho de suas funções, o que aumenta a resiliência ao estresse e às doenças (Mattson et al., 2017).

 

MAYR PREVENT – um programa assistido de jejum intermitente

A MAYR PREVENT é, sem dúvida, um tipo de jejum intermitente, pois não só diminui as calorias totais por um período de 2 a 3 semanas, mas também as variedades de alimento nas refeições, e diminui o período de alimentação diurna, com jejum entre a primeira e última refeção que pode ir de 14 a 16 horas, conforme o plano alimentar. E é exatamente essa a práxis do jejum intermitente (Mattson et al., 2017).

Por falar em 3 semanas de jejum intermitente, estudos revelaram que esse período intensivo de três a quatro semanas parecia adequado, em modelos experimentais, para otimizar os marcadores metabólicos de saúde, ao passo que períodos muito longos podem ser deletérios (Cerqueira et al., 2011). Interessantemente, o Dr Mayr recomendava a princípio períodos de 3 semanas de dieta, que hoje sabemos ser adequado inclusive para propiciar mudanças sustentáveis no microbioma intestinal.

Estudos recentes também pontuam que, a mudança do microbioma intestinal é uma das principais bases do benefício sistêmico do jejum intermitente em muitas doenças, como a esclerose múltipla (Cignarella F et al, 2018).

A moral da história é que, prolongar o jejum por tempo excessivo, ou não dar tempo suficiente para a natureza agir através das suas vias de sinalização metabólica, resultam em resultados falhos. E excesso de restrição para pessoas idosas e debilitadas, pode gerar desnutrição e sintomas de má adaptação, além de favorecer perda de massa muscular.

Quando, porém, adequadamente indicado e conduzido, o jejum intermitente conta com numerosos estudos científicos que apóiam seus benefícios.

A Mayr Kur é, documentadamente, uma das modalidades de jejum intermitente mais praticadas e aprimoradas na atualidade, contando com numerosas clínicas médicas na Europa e outras partes do mundo (no Brasil, a Lapinha) que o aplicam com criterioso acompanhamento médico, e individualização de conduta.

 

Quais os benefícios do jejum intermitente?

Nos estudos científicos, os diferentes tipos de jejum intermitente apresentaram efeitos benéficos sobre vários indicadores de saúde em animais experimentais, e também em humanos (Anton SD et al., 2018).

Foram documentados benefícios significativos em doenças relacionadas com a idade, como diabetes, males cardiovasculares, hipertensão arterial, Parkinson, Alzheimer, esclerose múltipla, obesidade, entre muitas outras patologias (Mattson et al, 2017, Jeong JH et al 2018, Mc Carty MF, 2015).

Entre os indicadores fisiológicos de saúde que apresentam nítida melhora como resultado do jejum intermitente, tanto em modelos  animais como em humanos, podemos destacar:

  1. Os níveis de insulina e leptina diminuem, e isso acontece paralelamente ao aumento da sensibilidade a ambos os hormônios;
  2. A gordura corporal diminui;
  3. Os níveis de cetona aumentam;
  4. A freqüência cardíaca e a pressão arterial de repouso diminuem, e a variabilidade da freqüência cardíaca aumenta (resultante do aumento do tonus parassimpático), que é um indicador de saúde cardiovascular;
  5. A inflamação sistêmica diminui, provavelmente via mudança da microbiota intestinal para um padrão mais simbiôntico;
  6. O cérebro e o coração ficam mais resistentes ao estresse (por exemplo, verificou-se uma redução do dano tecidual e uma melhoria do resultado funcional após acidente vascular cerebral e infarto do miocárdio);
  7. Maior resistência ao diabetes;
  8. O início e a progressão da disfunção e degeneração neuronal em modelos animais são retardados, o que melhora o prognóstico das doenças de Alzheimer, Parkinson e Huntington nesses modelos experimentais.

Hoje há vários estudos estão começando a desvendar os mecanismos celulares e moleculares pelos quais o jejum aumenta a resistência das células, tecidos e órgãos ao estresse e às doenças comuns, associadas ao envelhecimento e a estilos de vida sedentários e exagerados.

Os resultados de estudos em humanos, nos quais vários indicadores de saúde são medidos no início e após o jejum, sugerem que o jejum intermitente pode proteger contra a síndrome metabólica e os vários distúrbios associados, incluindo diabetes e doença cardiovascular.

Estudos sobre o pacientes com câncer (Safdie et al., 2009) e esclerose múltipla (Choi et al., 2016) produziram resultados muito promissores. Tudo isso constitui forte razão para avançar com testes clínicos mais amplos em pacientes com desordens relacionadas a cronicidade e à obesidade.

 

Qual é o mecanismo pelo qual o jejum intermitente melhora a saúde e combate a doença?

Os estudos científicos estão revelando mais e mais rotas ativadas e/ou inibidas pelo jejum, que ajudam a entender o porquê dos benefícios. De modo simplificado, são ativadas numerosas vias de sinalização adaptativas de resposta ao estresse celular, que levam a três resultados finais:

  1. Aumentam a capacidade mitocondrial de produzir energia,
  2. Reparam o DNA e
  3. Promovem a autofagia (que leva à renovação da célula, em vez de sua morte por apoptose).

O jejum intermitente também promove a regeneração de células tronco e produz efeitos metabólicos de longa duração, além de notáveis ações neuroprotetoras (Mattson et al, 2018).

Nossos sistemas metabólico, endócrino e nervoso apresentam altos níveis de desempenho físico e mental quando no estado de jejum assistido, em condições adequadas. Estudos de animais de laboratório ajudaram a explicar os mecanismos celulares e moleculares pelos quais os indivíduos respondem ao jejum de maneiras que podem aumentar sua aptidão geral, sua resistência a lesões e a uma grande variedade de doenças (Longo and Matson, 2014).

A maioria dos ensaios clínicos randomizados controlados em humanos envolveram uma restrição de energia de 60 e 75% (500-800 kcal) em dias alternados ou em dois dias consecutivos por semana. Embora os resultados possam diferir quantitativamente, dependendo do padrão de jejum intermitente, todos os regimes resultaram em alterações metabólicas semelhantes (Johnson et al., 2007; Wan et al., 2010), a saber:

  1. Manutenção dos níveis de glicose no sangue na faixa normal baixa;
  2. Depleção ou redução de estoques de glicogênio;
  3. Mobilização de ácidos graxos e geração de cetonas (fatore de neuroproteção);
  4. Redução da leptina circulante (e isso previne o câncer);
  5. Muitas vezes, elevação dos níveis de adiponectina (“hormônio do bem” produzido quando o tecido adiposo está nas proporções adequadas);
  6. Elevação do BDNF ou fator neurotrópico derivado do cérebro (fator de proteção e regeneração do sistema nervoso).

Alterações comportamentais que ocorrem durante o período de jejum incluem maior alerta ou excitação, e aumento da acuidade mental (Fond et al., 2013).Tanto a mudança metabólica para a utilização de cetona, quanto respostas do cérebro e do sistema nervoso autônomo à privação, desempenham papéis importantes na promoção da saúde e resistência à doença.

Em ratos hiperfágicos (“gulosos”) e obesos, o jejum intermitente inverte a tendência de resistência à insulina, reduzindo os níveis circulantes de insulina e leptina (Duan et al., 2003a). Isso é ótimo na prevenção das complicações da obesidade, principalmente o diabetes e o câncer.

 

Relação entre câncer e obesidade, e o papel preventivo do jejum intermitente

O controle do peso reduz o risco de incidência de treze tipos de câncer que têm sido associados à obesidade (Renehan et al., 2008, WCRF, 2014; Goodwin et al., 2015). Evidências de que o jejum intermitente pode reduzir o risco de câncer vêm de seus efeitos sobre vários biomarcadores de risco de câncer, como insulina, citocinas, moléculas relacionadas à inflamação, leptina e adiponectina, relacionados à adiposidade e ingestão excessiva de energia (Hursting et al., 2012; Wei et al., 2016).

Reduções em um hormônio que estimula o crescimento celular chamado IGF-1 (redução de 15%) foram reportadas em indivíduos normais e com sobrepeso que tinham seguido o jejum intermitente de uma dieta baixa em proteínas e baixa energia, por tempo limitado (0,25 g proteína/kg peso, 34-54% do normal ingestão de energia) (Brandhorst et al., 2015). Os efeitos do jejum intermitente em relação à resistência à insulina e risco de diabetes podem ter um importante papel na proteção contra cânceres relacionados à obesidade (Goodwin et al., 2015).

A leptina, produzida pelo tecido adiposo, está relacionada à progressão do câncer. A principal função da leptina é regular o balanço de energia. No entanto, indivíduos obesos rotineiramente desenvolvem resistência à leptina, resultando no acúmulo desse hormônio. Portanto, os níveis de leptina são muitas vezes cronicamente elevados na obesidade humana. Níveis elevados de leptina estão relacionados a maior incidência, maior progressão e pior prognóstico de vários cânceres humanos.

Além do tecido adiposo, as células cancerosas também podem secretar leptina e superexpressar os receptores de leptina. Sabe-se que a leptina atua como um factor mitogênico (faz o câncer crescer), inflamatório e pró-angiogênico (aumenta a nutrição do tumor), que induz a proliferação de células cancerígenas e a angiogênese tumoral. Além disso, a sinalização da leptina induz as células-tronco cancerígenas, que estão envolvidas na recorrência do câncer e na resistência aos medicamentos (LIpsey CC et al, 2016).

 

Conclusão

Estamos vivenciando um momento memorável de grandes e novas revelações científicas sobre velhos axiomas médicos. O jejum como instrumento de cura é tão antigo como a humanidade.

Mas a medicina contemporânea preferiu por muito tempo ignorar esse marco da sabedoria milenar, até que uma avalanche de estudos científicos – especialmente após o prêmio nobel de medicina Dr Yoshinuri Oshumi, – reuniram evidências contundentes sobre a validade desse método já testado e aprovado desde tempos imemoriais. Aqui só apresento uma amostra muito pequena de trabalhos científicos sobre o assunto, que hoje se contabilizam às centenas.

A MAYR PREVENT, como técnica de jejum assistido e individualizado, atende bem aos atuais reclamos da prática médica, oportunizando, pela primeira vez em séculos, no universo da cura pelo jejum, um salutar diálogo entre o saber ancestral e a academia contemporânea.

Por que não começarmos a introduzir, com bom senso e segurança, a cultura do jejum intermitente em nosso plano pessoal de saúde, com vistas à longevidade e qualidade de vida? Desde que aplicado com sensatez, equilíbrio e não haja contra-indicação, não há motivo para duvidar dos benefícios que podemos auferir.

A Lapinha,  que há q 50 anos trabalha com várias modalidades de jejum, com ênfase à MAYR PREVENT, reúne uma casuística cada vez mais robusta de centenas de pacientes que experimentaram e continuam experimentando de modo inequívoco os benefícios que a ciência hoje atribui ao jejum intermitente e á melhora da microbiota do intestino.

 

 

Referências científicas

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ENGLISH

 

MAYR PREVENT AND INTERMITTENT FASTING

 

Dr. Daniel S.F. Boarim, MD

Lapinha clinic and medical SPA,

Lapa, PR Brazil

 

Abstract

 

When humans lived in environments where food was relatively scarce, their bodies perfected metabolic mechanisms that were supposed to function at maximum efficiency. That’s why we developed a thrifty genotype. Energy saver and storer for times of scarcity, seasonal in primitive times.

Today, in the industrialized world, there is too much food all the time, with excess calories. So our environment has become intensely obesogenic. Worse than that, the Western dietary pattern is, admittedly, an ideal breeding ground for almost all chronic diseases.

We usually eat too much at several meals. We eat wrong and too often. It has even become a tradition to teach that we need to eat every three hours, up to 6 meals a day, a teaching that, although it has become traditional even in academic circles, lacks a scientific basis!

MAYR PREVENT advocates a period of metabolic rest characterized by assisted fasting without malnutrition, monitored intestinal catharsis and lifestyle reeducation, which in clinical practice has been encouragingly contributing to sustainable changes, such as dietary reordering, which involves quantitative and qualitative aspects , modal and fractional. In other words, MAYR PREVENT has contributed to the general improvement of health and the prevention of diseases that involve modifiable lifestyle factors. And that accounts for most of the diseases that overcrowd our hospitals today. Certainly, a considerable benefit for our quality of life, and one that would deserve more attention from researchers and physicians.

Another aspect to point out here is the relationship between cyclic physiological fasting and the gut microbiota, whose balance prevents low-grade chronic inflammation, strongly associated with chronic diseases. This is, without a doubt, another component of this complex equation that helps to explain, with solid scientific basis, the remarkable clinical benefits obtained by MAYR PREVENT. In another publication, we intend to specifically address the popular topic of the gut microbiota.

 

Intermittent fasting challenges metabolism and increases our resistance to disease

 

When we change our habit, we cut calories and adopt a sensible program of physiological intermittent fasting, without malnutrition, that helps regulate the food-fasting and sleep-wake cycles, putting our metabolism back on track, finally challenging mind and body. return to normal weight and ideal health. And this is done with honor by MAYR PREVENT.

To put it better, all organisms, including ours, are programmed to develop means of self-preservation, both mental and bodily, that work more and more efficiently. And fasting is a challenge that, according to research, appears to enhance these means of self-preservation.

We can state today, from numerous studies, that intermittent fasting challenges the brain and the various nutroneurometabolic control systems, which adaptively respond to “adverse” conditions (the technical name for this is HORMESE), improving the individual’s abilities and optimizing the performance of their functions, which increases resilience to stress and illness (Mattson et al., 2017).

 

MAYR PREVENT – an assisted intermittent fasting program

 

MAYR PREVENT is a modality of intermittent fasting, as it not only decreases total calories for a period of 2 to 3 weeks, but also food varieties at meals, and decreases the daytime eating period, with fasting between the first and last meal, which can last from 14 to 16 hours, depending on the meal plan. And this is exactly the practice of intermittent fasting (Mattson et al., 2017).

Speaking of 3 weeks of intermittent fasting, studies have revealed that this intensive period of three to four weeks seemed adequate, in experimental models, to optimize metabolic markers of health, whereas very long periods can be deleterious (Cerqueira et al., 2011). Interestingly, Dr Mayr initially recommended periods of 3 weeks of diet, which we now know to be adequate even to provide sustainable changes in the gut microbiome.

Recent studies also point out that changing the gut microbiome is one of the main bases of the systemic benefit of intermittent fasting and caloric restriction in many diseases, such as multiple sclerosis (Cignarella F et al, 2018, Di Giosia P et al, 2022).

The moral of the story is that prolonging the fast for too long, or not giving nature enough time to work through its metabolic signaling pathways, results in flawed results. And excess restriction for elderly and debilitated people can generate malnutrition and symptoms of poor adaptation, in addition to favoring loss of muscle mass.

However, when properly indicated and conducted, intermittent fasting has numerous scientific studies that support its benefits.

Mayr Kur is documented as one of the most practiced and improved forms of intermittent fasting today, with numerous medical clinics in Europe and other parts of the world (in Brazil, Lapinha) that apply it with careful medical monitoring and individualization of conduct.

 

What are the benefits of intermittent fasting?

 

In scientific studies, different types of intermittent fasting have shown beneficial effects on various health indicators in experimental animals, as well as in humans (Anton SD et al., 2018).

Significant benefits have been documented in age-related diseases such as diabetes, cardiovascular disease, high blood pressure, Parkinson’s, Alzheimer’s, multiple sclerosis, obesity, among many other pathologies (Mattson et al, 2017, Jeong JH et al 2018, Mc Carty MF, 2015).

Among the physiological health indicators that clearly improve as a result of intermittent fasting, both in animal and human models, we can highlight:

  1. Insulin and leptin levels decrease, and this happens in parallel with increased sensitivity to both hormones;
  2. Body fat decreases;
  3. Ketone levels increase;
  4. Resting heart rate and blood pressure decrease, and heart rate variability increases (resulting from increased parasympathetic tone), which is an indicator of cardiovascular health;
  5. Systemic inflammation subsides, probably via shift of the gut microbiota to a more symbiotic pattern;
  6. The brain and heart are more resistant to stress (eg, there has been a reduction in tissue damage and an improvement in functional outcome after stroke and myocardial infarction);
  7. Greater resistance to diabetes;
  8. The onset and progression of neuronal dysfunction and degeneration in animal models is delayed, which improves the prognosis of Alzheimer’s, Parkinson’s and Huntington’s diseases in these experimental models.

Today, several studies are beginning to unravel the cellular and molecular mechanisms by which fasting increases the resistance of cells, tissues and organs to stress and common diseases associated with aging and sedentary and exaggerated lifestyles.

Results from human studies, in which various health indicators are measured at the beginning and after fasting, suggest that intermittent fasting may protect against metabolic syndrome and the various associated disorders, including diabetes and cardiovascular disease.

Studies on patients with cancer (Safdie et al., 2009) and multiple sclerosis (Choi et al., 2016) have produced very promising results. All this is a strong reason to move forward with broader clinical trials in patients with chronic and obesity-related disorders.

What is the mechanism by which intermittent fasting improves health and fights disease?

 

Scientific studies are revealing more and more pathways activated and/or inhibited by fasting, which help to understand why the benefits. Simply put, numerous adaptive signaling pathways in the cellular stress response are activated, leading to four end results:

  1. Increase the mitochondrial ability to produce energy,
  2. Optimizes the gut microbiota (Matias Perez D. et al, 2022).
  3. Repair DNA and
  4. Promote autophagy (which leads to cell renewal rather than death by apoptosis).

Intermittent fasting also promotes stem cell regeneration and produces long-lasting metabolic effects, as well as notable neuroprotective actions (Mattson et al, 2018).

Our metabolic, endocrine and nervous systems show high levels of physical and mental performance when in the state of assisted fasting, under appropriate conditions. Studies of laboratory animals have helped to explain the cellular and molecular mechanisms by which individuals respond to fasting in ways that can increase their overall fitness, their resistance to injury, and to a wide variety of diseases (Longo and Matson, 2014).

Most randomized controlled clinical trials in humans involved an energy restriction of 60 and 75% (500-800 kcal) on alternate days or two consecutive days per week. Although results may differ quantitatively depending on the intermittent fasting pattern, all regimens resulted in similar metabolic changes (Johnson et al., 2007; Wan et al., 2010), namely:

  1. Maintenance of blood glucose levels in the low normal range;
  2. Depletion or reduction of glycogen stores;
  3. Mobilization of fatty acids and generation of ketones (neuroprotection factor);
  4. Reduction of circulating leptin (and this prevents cancer);
  5. Often, elevation of adiponectin levels (“good hormone” produced when adipose tissue is in adequate proportions);
  6. Elevation of BDNF or brain-derived neurotropic factor (factor for protection and regeneration of the nervous system).

Behavioral changes that occur during the period of fasting include increased alertness or arousal, and increased mental acuity (Fond et al., 2013). Both the metabolic shift to ketone utilization and brain and autonomic nervous system responses to deprivation , play important roles in health promotion and disease resistance.

In hyperphagic (“greedy”) and obese rats, intermittent fasting reverses the trend toward insulin resistance by reducing circulating levels of insulin and leptin (Duan et al., 2003a). This is great in preventing the complications of obesity, especially diabetes and cancer.

 

Relationship between cancer and obesity, and the preventive role of intermittent fasting

 

Weight control reduces the risk of incidence of thirteen cancers that have been associated with obesity (Renehan et al., 2008, WCRF, 2014; Goodwin et al., 2015). Evidence that intermittent fasting can reduce cancer risk comes from its effects on several cancer risk biomarkers, such as insulin, cytokines, inflammation-related molecules, leptin and adiponectin, related to adiposity and excessive energy intake (Hursting et al. ., 2012; Wei et al., 2016).

Reductions in a hormone that stimulates cell growth called IGF-1 (15% reduction) were reported in normal and overweight individuals who had followed intermittent fasting on a low-protein, low-energy diet for a limited time (0.25 g protein/kg weight, 34-54% of normal energy intake) (Brandhorst et al., 2015). The effects of intermittent fasting on insulin resistance and diabetes risk may play an important role in protecting against obesity-related cancers (Goodwin et al., 2015).

Leptin, produced by adipose tissue, is linked to cancer progression. The main function of leptin is to regulate energy balance. However, obese individuals routinely develop leptin resistance, resulting in the accumulation of this hormone. Therefore, leptin levels are often chronically elevated in human obesity. Elevated levels of leptin are related to higher incidence, greater progression and worse prognosis of several human cancers.

In addition to adipose tissue, cancer cells can also secrete leptin and overexpress leptin receptors. It is known that leptin acts as a mitogenic (makes cancer grow), inflammatory and pro-angiogenic (increases tumor nutrition) factor, which induces cancer cell proliferation and tumor angiogenesis. Furthermore, leptin signaling induces cancer stem cells, which are involved in cancer recurrence and drug resistance (LIpsey CC et al, 2016).

Mayr experience at Lapinha Clinic

 

Lapinha has half a century of experience in assisted fasting without malnutrition, such as the Bircher Benner method, oriental detox (diet based on brown rice and vegetables), minimalist diets and, in the last two decades, Mayr Prevent. Over all these years we have accumulated knowledge following thousands of cases with encouraging results. Particularly at Mayr Prevent we have observed an adherence relatively easier than in other types of detoxifying plan, such as fruit diets and raw food plans, observing subjective and objective improvement (confirmed through laboratory tests) for several chronic diseases associated with factors of modifiable lifestyle.

Especially in diseases such as migraine, obesity, nonalcoholic fatty liver disease, diabetes mellitus, arterial hypertension, certain autoimmune diseases such as rheumatoid arthritis and metabolic syndrome, an improvement in symptoms and laboratory markers is notable. Our understanding is that, by promoting a modulation of the microbiota through adequate caloric restriction, healthy and organic foods, complete chewing and intermittent fasting, we reduce the level of systemic inflammation, which is the etiological basis of these diseases (Michel N et al 2022; Cantoni C et al, 2022; Al Bander Z et al 2020).

However it is very important to point out that when the patient satisfactorily adheres to the preparation, immersion and post-lapinha (transition) guidelines, making correct use of the indicated supplements, practicing complete mastication, not violating the food plan, respecting the eating- fasting cycle and also the sleep-wake cycle, there is a significant improvement in general health in the long term. We even observed a gradual gain in muscle mass after Mayr, which suggests better assimilation and nutritional metabolism, a likely result of a more symbiotic microbiome.

But it is necessary to remember that, for a patient who intends to treat a chronic pathology, more immersion time and continued attention is necessary, and that the adaptation to Mayr can lead to the so-called “healing crises”, when some symptoms may reappear, but usually in a mild and transient way. The “healing crisis” is a well-known event and indicates a catharsis, a mobilization of toxic disruptors, which happens not only in detoxifying food plans but in other complementary therapies such as reflexology and acupuncture (Mackereth PA, 1999).

If this moment in the health restoration process is well understood by the patient and well managed by the physician, with proper management of the diet, the treatment as a whole and the patient in a individualized way, we will be facing considerable chances of therapeutic success.

The healing crisis must be well managed by the doctor, who must carefully observe the limits of each patient, not exposing him to exaggeratedly restrictive diets, or the opposite, when necessary, minimizing varieties and calories, or increasing the fasting period. Caution is needed to ensure nutritional status on the one hand and on the other hand not to confuse an untimely worsening with a healing crisis. But fortunately, these events are rare. With good screening, preparation and guidance of patients, the management of the detoxification process has been increasingly efficient.

Another aspect of our experience that should be highlighted is that patients who do not understand the Mayr proposal, mistakenly considering it a simple weight loss diet or a trivial detox, join the program and end up not taking advantage of it. The Mayr plan certainly helps to lose weight and decrease abdominal circumference, which is very desirable for many people. And it can also aid in a shift from an obesogenic microbiota to a healthy microbiota, which will help with weight maintenance. But it should not be understood as like any other weight loss diet.

Yet another point to highlight in our experience is the fact that patients with eating disorders such as bulimia, anorexia and orthorexia sometimes come to plans like Mayr motivated by a psychically altered condition of self-awareness, which must obviously not be the motivation for join Mayr. That’s why Lapinha has been developing a process of prior election and guidance, before hospitalization, to help the patient always make the best choice and identify any possible contraindication. Pre-lapinha has proved to be an essential strategy for success, as it raises awareness of Mayr’s essential focus, among other health routes we offer, undoing inappropriate ideas and calibrating expectations. And when the patient is discharged, we have increasingly valued follow-up and programmed return as essential ingredients for success.

The results of this approach certainly invite us to devote more time and attention to Dr Mayr’s visionary proposal, who insisted that health and disease begin in the gut. And exactly what he said about a century ago is today a current and true statement.

 

Conclusion

 

The eating-fasting cycle is as physiological as the sleep-wake cycle. We need time to eat and not eat, which provides a “rest” for metabolism, a time of natural detoxification and stimulation of autophagy, resulting in optimized mitochondrial biogenesis, as many studies have shown. Physiological intermittent fasting is usually related to an overnight period of at least 12-14 hours without eating. But we can get additional benefits for monitored periods of a few weeks of reduced feeding and increased interprandial fasting time, in which catharsis and regeneration are promoted, as in the Mayr therapy. As simple as it seems to understand that proper fasting can be a physiological necessity, we live in a time marked by food exaggeration, haste and stress, and as a result, microbiota imbalance, obesity and many chronic diseases that massacre our quality of life. It’s time to review paradigms and understand that there is a simpler and more effective way to improve our health, our immunity and decongest our overcrowded hospitals. It is the way to return to a healthy lifestyle, which respects the cycles of nature and a vital balance between nutrition (that nothing is lacking in the diet) and detoxification (that nothing is left over in the diet), today misunderstood and actually lost.We are experiencing a memorable moment of great and new scientific revelations about old medical axioms. Fasting as a healing tool is as old as humanity.

But contemporary medicine preferred for a long time to ignore this milestone of ancient wisdom, until an avalanche of scientific studies – especially after the Nobel Prize in Medicine Dr Yoshinuri Oshumi, – gathered compelling evidence on the validity of this method already tested and approved since time immemorial. Here I only present a very small sample of scientific works on the subject, which today number in the hundreds.

MAYR PREVENT, as an assisted and individualized fasting technique, responds well to the current demands of medical practice, providing, for the first time in centuries, in the universe of fasting cure, a healthy dialogue between ancestral knowledge and contemporary academia.

Why not start introducing, with common sense and safety, the culture of intermittent fasting into our personal health plan, with a view to longevity and quality of life? As long as it is applied sensibly, balanced and there is no contraindication, there is no reason to doubt the benefits we can obtain.

Lapinha, which for 50 years has been working with various types of fasting, with emphasis on MAYR PREVENT, brings together an increasingly robust series of hundreds of patients who have experienced and continue to experience unequivocally the benefits that science today attributes to intermittent fasting. and improvement of the gut microbiota.

 

SCIENTIFIC REFERENCES

 

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ALZHEIMER, PARKINSON, ENXAQUECA E SUA CONEXÃO COM O INTESTINO

Daniel S F Boarim, MD, Diretor clínico da Lapinha Clínica e Spa, Brasil

Acumulam-se evidências cada vez mais robustas de que a microbiota de nosso corpo, particularmente a microbiota intestinal, participa dinamicamente na regulação de processos fisiológicos, no metabolismo e na imunidade. E sua desregulação interfere consideravelmente na fisiopatologia de muitas entidades, destacando-se males neuro inflamatórios como Alzheimer e Parkinson.

 

A INFLAMAÇÃO CRÔNICA DE BAIXO GRAU

Quando adoecemos, o envolvimento da microbiota na fisiopatologia de diferentes enfermidades vem merecendo cada vez mais atenção (Fan Y, Pedersen O. 2021; Adak  A,   Khan MR, 2019; Vemuri, 2018). Há, porém, um lugar comum na base da cadeia de eventos crônico-degenerativos, que é a inflamação crônica de baixo grau (Tilg H et al, 2020). Isso na prática significa que certas bactérias e seus subprodutos metabólicos, ou endotoxinas, estão atravessando uma barreira intestinal fragilizada pela disbiose e gerando um estresse imunológico crônico, que se traduz por inflamação. Os estudiosos vêm denominando esse processo como síndrome do intestino permeável ou leaky gut. Fatores como estresse, alimentação pouco saudável, consumo excessivo de álcool, antibióticos e drogas podem comprometer a composição da microbiota intestinal e a homeostase da função de barreira intestinal do intestino, levando ao aumento da permeabilidade intestinal (Aleman R S el al 2023; Katayoun Khoshbin, 2020).

A assim chamada disbiose ou disrupção no equilíbrio da microbiota intestinal, patrocina uma cadeia de eventos pró-inflamatórios, silenciosos mas duradouros, a partir do intestino, com desdobramentos que alcançam o sistema nervoso.

 

GUT BRAIN AXIS (EIXO INTESTINO CÉREBRO)

A comunicação bidirecional entre o sistema nervoso central e o sistema nervoso entérico é de algum modo mediada por diversos microrganismos da microbiota e pelos sistemas neuroimune e neuroendócrino. E parece cada vez mais claro o papel da dieta, dos prebióticos, probióticos e pós bióticos, somados a outros aspectos do estilo de vida, como exercícios físicos, na remodelação do microbioma e redução da severidade dos sintomas nas doenças neurodegenerativas (Xiaoyan Liu at al, 2024).

Embora saibamos que há ainda muitos elos perdidos nessa cadeia de eventos, a tecnologia de sequenciamento de alta performance vem ajudando a desvendar essa interação metagenômica. Biomarcadores que podem ser associados a patógenos ajudam não apenas a esclarecer a fisiopatologia, mas a elucidar potenciais alvos terapêuticos (Xiaoyan Liu at al, 2024).

A existência de conexão funcional entre o intestino e o cérebro – o gut brain axis – parece clara, porém ainda pouco compreendida, remanescendo incertezas a respeito dos mecanismos de ação, que se revelam cada vez mais interdependentes e complexos (Tran N et al, 2019).

 

PARKINSON E ALZHEIMER

A base inflamatória ao lado do estresse oxidativo são geralmente aceitos como componentes da equação etiológica de fundo para males neurodegenativos como a doença de Parkinson (Vascellari et al, 2020).

O Aklzheimer também vem sendo associado à ação remota da microbiota alterada, e da mucosa intestinal inflamada, que respectivamente são capazes de liberar e translocar quantidades potencialmente nocivas de bactérias, lipopolissacárides e substância beta-amilóide.

As sinucleinopatias, ou superexpressão de alfa sinucleína, resultam em disfunção motora que se verifica no parkinsonismo (Kesika P  et al, 2021;  Nielsen S D et al., 2021). Quando se administram oralmente metabólitos microbianos específicos a camundongos livres de germes, promove-se neuroinflamação e sintomas motores, sugerindo-se fortemente a existência de uma via de sinalização entre o intestino e o cérebro capaz de modular a doença.

A propósito, outras neuropatologias  além do Parkinson, como o próprio Alzheimer  e e a doença de Creutzfeldt-Jakob, que afetam milhões de pessoas em todo o mundo, vem sendo cada vez mais associadas à presença de deposições de amiloide-β, alfa sinucleína e proteína príon (Trichka J,  Zou W Q, 2021; González-Sanmiguel J et al, 2020).

 

ENXAQUECA (migrânea)

A migrânea também vem sendo citada em estudos do eixo intestino-cérebro, verificando-se que dietas de efeito benéfico sobre a microbiota parecem cursar com melhora do quadro. Tem sido verificado que a frequência de distúrbios gastrointestinais, incluindo-se disbiose, é maior em pacientes com enxaqueca em comparação com a população em geral. Entre as abordagens nutroterápicas mencionadas, potencialmente benéficas, incluem-se consumo adequado de fibra, menor índice glicêmico, suplementação com vitamina D, ômega-3 e probióticos, bem como planos alimentares para perda de peso no caso de sobrepeso e obesidade (Arzani et al, 2020).

Os mecanismos postulados envolvem a inflamação crônica e mediadores inflamatórios de origem intestinal, associados à disbiose e microbiota patobiôntica (Cámara-Lemarroy C R et al, 2016).

 

CONCLUSÃO

Enfim, acumulam-se evidências apontando a uma associação potencial entre a microbiota do hospedeiro e a neuroinflamação, que reúne diferentes patologias como Alzheimer, Parkinson e outras, seja diretamente devido à invasão cerebral por bactérias provenientes da barreira intestinal permeável e liberação de toxinas pró-inflamatórias, ou indiretamente através da modulação de mecanismos imunes (González-Sanmiguel J et al, 2020).

 

REFERÊNCIAS

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Xiaoyan Liu at al. Correlation between the gut microbiome and neurodegenerative diseases: a review of metagenomics evidence, Neural Regen Res, 2024 Apr;19(4):833-845

MEDICAMENTOS PARA EMAGRECER – OZEMPIC, MONJAURO E OUTROS

Dr Daniel S F Boarim MD – Diretor clínico

Conteúdo para médicos

Antes de começar essa review rápida e informal, quero lembrar com toda ênfase possível, aquilo que pressuponho  vocês já saibam, de que nenhum tratamento farmacológico é eficaz sem mudanças sustentáveis no estilo de vida. As medidas do estilo de vida estão SEMPRE na base da pirâmide. Depois vem a abordagem farmacológica, e finalmente as cirurgias bariátricas/metabólicas. 

Percebo que “Ozempic”, de tanto que vem sendo prescrito, algumas vezes, na minha opinião, inadequadamente, quase se tornou, popularmente, um “termo genérico” para medicamentos análogos do GLP-1, incluindo medicamentos como Wegovy, Mounjaro e Zepbound, que – vale apena lembrar – têm algumas distinções importantes.

De acordo com a regulamentação neste momento, Ozempic, embora todos indiquemos para emagrecer (off label), até recentemente não estava aprovado para perda de peso. Mas isso pode mudar a qualquer momento. Outra droga, o Mounjaro, também não. Esses dois são aprovados para diabetes. Embora ambos sejam bastante prescritos e usados OFF LABEL para a perda de peso. A maioria de nós prescreve, havendo aqui apenas um detalhe de regulação, que explico adiante.  

Já o Wegovy e Zepbound foram desenvolvidos com foco em obesidade ou sobrepeso, ou quando há sobreposta outra condição relacionada ao excesso de peso, como hipertensão, DSLP, diabetes, etc.

Sobre os efeitos colaterais de todas essas drogas, incluem-se principalmente distúrbios gastrointestinais, e por isso (opinião minha) acredito que possam, ao longo do tempo, afetar adversamente a microbiota pelos seus efeitos na motilidade. Certamente precisamos de mais estudos sobre isso, mas é inegável que obviamente o benefício do emagrecimento, quando se impõe, acabará em muitos casos compensando esse possível risco.

 

WEGOVY  X  OZEMPIC

Ambos fabricados pela Novo Nordisk. Vamos entender as diferenças.

O Wegovy foi aprovada no começo de 2023, pela Anvisa. O princípio ativo é a semaglutida, o mesmo do Ozempic. Porém, na regulamentação, o Ozempic é indicado para o tratamento de diabetes tipo 2, e usado off label (até essa data), como foi dito, para obesidade.

E qual é a diferença em relação ao Ozempic? Há pelo menos duas: (1) DOSAGEM. O Wegovy chega até 2,4mg na ‘canetinha’, enquanto o Ozempic a dosagem máxima é 1 mg. Ambos são aplicados semanalmente. O Ozempic foi aprovado pelo FDA para diabetes tipo 2 em doses de 0,5 mg e 1 mg em 2017, e numa dose de 2 mg em 2022.

O FDA aprovou Wegovy em doses injetáveis maiores – de 2,4 mg uma vez por semana em 2022.

(2) As ferramentas de administração são um pouco diferentes. A injeção de Wegovy é administrada através de uma caneta descartável de uso único. Já as canetas do Ozempic permitem vários usos. 

Originalmentre, o Wegovy foi aprovado para um IMC de 30 ou mais, e IMC de 27 ou mais (sobrepeso) desde que haja uma condição relacionada ao peso, como hipertensão ou diabetes.

Mas na prática tem um monte de gente tomando por conta própria, até na faixa normal de peso, e muitos colegas receitando “a rodo”. Um modismo e imediatismo. Como disse acima, nada, nada mesmo, substitui a mudança de comportamento, e esses medicamentos vieram também para apoiar essa mudança, pois ajudam o compulsivo, o beliscador, o glutão e o desregrado a comerem menos e a reordenarem seus hábitos. Mas não para serem usados indiscriminadamente, e pior ainda, sem orientação médica.

Voltando ao famoso Wegovy, li uma pesquisa que durou 68 semanas envolvendo quase 2.000 pessoas que tomaram a dose de 2,4 mg de Wegovy e que perderam cerca de 15% do peso corporal. Resultado muito bom!

Já esses benefícios sugeridos podem ser aplicados ao Ozempic também, mesmo que numa proporção menor, pela limitação de dose a 1 mg? Decerto sim, mas tem a questão de regulação legal.

Em contrapartida – e isso é importante para nós – outro ensaio publicado em 2022 sugeriu que as pessoas que pararam de usar semaglutida nas doses de 2,4 mg do Wegovy, recuperaram dois terços do peso perdido em um ano (dois terços do peso!). Veja bem, se não houver mudança de comportamento para valer, O PESO VOLTA MESMO COM A MELHOR DAS DROGAS!

Outro paper interessante é de um estudo divulgado pela Novo Nordisk, duplo-cego, sobre resultados cardiovasculares, denominado SELECT, que foi encomendado em agosto de 2023 (considere-se o conflito de interesses). Incluiu mais de 17.000 adultos com 45 anos ou mais, com sobrepeso ou obesidade, e tinham doença cardiovascular estabelecida, mas sem histórico de diabetes. Os resultados foram muito divulgados no mundo inteiro através de congressos e publicações, e mostraram uma redução significativa do risco de eventos cardiovasculares adversos maiores (MACE) por até cinco anos. Outros estudos anteriores já haviam sugerido benefícios cardiovasculares relacionados às incretinas, de modo que há dezenas de papers apontando nessa direção.

 

MOUNJAURO X ZEPBOUND (Tirzepatide)

O Mounjaro e o Zepbound são fabricados pela Eli Lily. Bem parecido com o que acontece com o Ozempic e o Wegovy da Novo Nordisk, o Mounjauro foi aprovado para diabetes tipo 2 em 2022, e o Zepbound para a perda de peso em 8 de novembro de 2023.

E semelhantemente ao Wegovy, os indivíduos que se qualificam para fazer o Zepbound devem atender aos seguintes critérios: Um índice de massa corporal (IMC) de 30 ou maior (obesidade), e IMC de 27 ou mais (sobrepeso) mais uma condição relacionada ao peso, como dislipidemia, diabetes, HAS.

Porém, ao contrário de Ozempic e Wegovy, essencialmente não há diferença entre Mounjaro e Zepbound além do nome comercial.

Mas os princípios ativos semaglutida e tirzepatida não são a mesma coisa.

A tirzepatida age num receptor do polipeptídeo insulinotrópico dependente de glicose (GIP) e também como agonista do receptor GLP-1. Um efeito dual. E ambos são hormônios da saciedade produzidos naturalmente pelo intestino, da classe das incretinas, mas aqui alterados molecularmente para uma vida últil bem mais longa, mantendo uma ação prolongada de vários dias. Por isso a posologia semanal, bem confortável.

Em todos os casos, potencializa-se a sensação de saciedade e ocorre retardo no esvaziamento gástrico, o que diminui a ingesta total de comida na refeição, ajudando no controle das porções. Mas, podendo gerar os efeitos colaterais de que falamos, principalmente náusea. E quanto mais intenso esse desconforto a predição de efeito positivo talvez seja maior. Por mais lógica que pareça essa associação, afirmar isso pede mais estudos. Por outro lado, essa colateralidade é muito desagradável e acaba sendo um limitante em alguns casos, pedindo associação de drogas anti-eméticas como o ondansetrona, ou em casos mais severos, até a suspensão da droga.

A Eli Lily encomendou duas pesquisas, a SURMOUNT-3 e SURMOUNT-4, que indicaram perda de peso de 26,6% num período de 84 semanas (0,317/semana), o que é mais do que os 15% que as pessoas perderam usando Wegovy em um período mais curto de 68 semanas (0,22/semana). Existe também a possibilidade de se tomar uma dose semanal mais elevada.

O Mounjaro é administrado de modo semelhante às outras drogas, através de injeção subcutânea, uma vez por semana, por meio de uma caneta injetora descartável de uso único. A dose inicial é de 2,5 mg, aumentando em 2,5 mg a cada quatro semanas até atingir a dose final de 15 mg, ou a dose máxima tolerada.

Há ensaios que apontam à tirzepatida como a “melhor tolerada”. Mas é preciso levar em conta a ferrenha disputa entre as marcas. São necessários estudos adicionais para afirmarmos isso.

Imaginem só, uma perda de peso mais significativa e o potencial para menos efeitos colaterais, podem fazer com que a tirzepatida se torne em pouco tempo a melhor opção! Mas, reforço, ainda é cedo para se dizer algo assim em base conclusiva.

Por fim, estamos apenas começando nosso aprendizado sobre esses medicamentos, e o tempo é o melhor juiz, como já aconteceu com muitas drogas, que ao serem lançadas, eram a coqueluche do momento, mas anos depois, chegaram a ser proibidas por efeitos não observados nos ensaios iniciais.

 

VALE SEMPRE REFORÇAR QUE…

Tanto para a semaglutida como a tirzepatida os ensaios tiveram o bom senso de afirmar que os  benefícios da perda de peso ocorreram em conjunto com outras mudanças no estilo de vida, como dieta e exercício.

 

Referências

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ENGLISH

Lapinha medical knowledge – for doctors 05/28/2024

WEIGHT LOSS MEDICINES – OZEMPIC, WEGOVY AND OTHERS

Dr Daniel S F Boarim, MD – Clinical Director

Content for doctors

Before starting this quick and informal review, I want to remind you, as emphatically as possible, of what I assume you already know, which is that no pharmacological treatment is effective without sustainable changes in your lifestyle. Lifestyle measurements are ALWAYS at the base of the pyramid. Then comes the pharmacological approach, and finally bariatric/metabolic surgeries. 

I realize that “Ozempic”, as it has been prescribed so much, sometimes, in my opinion, inappropriately, has almost become, popularly, a “generic term” for GLP-1 analogue medicines, including Wegovy, Mounjaro and Zepbound, which – let it be said with emphasis – have some important distinctions.

According to the regulations at the moment (in Brazil), Ozempic, although we all recommend it for weight loss (off label), until recently was not approved for weight loss. But this could change at any time. Neither does another drug, Mounjaro. These two are approved for diabetes. Although both are widely prescribed and used OFF LABEL for weight loss. Most of us prescribe, there being only one regulatory detail here, which I explain below. 

Wegovy and Zepbound were developed with a focus on obesity or overweight, or when there is another condition related to excess weight, such as hypertension, DSLP, diabetes, etc.

The side effects of all these drugs mainly include gastrointestinal disorders, and therefore (my opinion) I believe that they can, over time, adversely affect the microbiota due to their effects on motility. We certainly need more studies on this, but it is undeniable that the benefit of weight loss, when necessary, will in many cases end up offsetting this possible risk.

 

WEGOVY

Both manufactured by Novo Nordisk. Let’s understand the differences.

Wegovy was approved at the beginning of 2023, by Anvisa. The active ingredient is semaglutide, the same as Ozempic. However, in regulations, Ozempic is indicated for the treatment of type 2 diabetes, and used off-label (until this date), as mentioned, for obesity.

And what is the difference compared to Ozempic? There are at least two: (1) DOSAGE. Wegovy reaches up to 2.4 mg in the ‘pen’, while Ozempic the maximum dosage is 1 mg. Both are applied weekly. Ozempic was approved by the FDA for type 2 diabetes in doses of 0.5 mg and 1 mg in 2017, and in a dose of 2 mg in 2022.

The FDA approved Wegovy in higher injectable doses – 2.4 mg once weekly in 2022.

(2) The administration tools are a little different. Wegovy injection is administered via a single-use disposable pen. Ozempic pens allow for multiple uses. 

Originally, Wegovy was approved for a BMI of 30 or more, and a BMI of 27 or more (overweight) as long as there is a weight-related condition such as hypertension or diabetes.

But in practice, there are a lot of people taking it on their own, even in the normal weight range, and many colleagues prescribing it “by accident”. A fad and immediacy. As I said above, nothing, absolutely nothing, replaces a change in behavior, and these medications also came to support this change, as they help the compulsive, the picky, the gluttonous and the unruly to eat less and reorganize their habits. But not to be used indiscriminately, and even worse, without medical advice.

Returning to the famous Wegovy, I read a research that lasted 68 weeks involving almost 2,000 people who took the 2.4 mg dose of Wegovy and lost around 15% of their body weight. Very good result!

Can these suggested benefits be applied to Ozempic as well, even if to a lesser extent, due to the dose limitation of 1 mg? Of course yes, but there is the issue of legal regulation.

In contrast – and this is important to us – another trial published in 2022 suggested that people who stopped using semaglutide at Wegovy’s 2.4 mg doses gained back two-thirds of the weight lost in a year (two-thirds of the weight!) . You see, if there is no real change in behavior, THE WEIGHT COMES BACK EVEN WITH THE BEST OF DRUGS!

Another interesting paper is from a double-blind study released by Novo Nordisk on cardiovascular outcomes, called SELECT, which was commissioned in August 2023 (consider the conflict of interest). It included more than 17,000 adults aged 45 and over who were overweight or obese and had established cardiovascular disease but no history of diabetes. The results were widely publicized throughout the world through congresses and publications, and showed a significant reduction in the risk of major adverse cardiovascular events (MACE) for up to five years. Other previous studies had already suggested cardiovascular benefits related to incretins, so there are dozens of papers pointing in this direction.

 

MOUNJAURO X ZEPBOUND (Tirzepatide)

Mounjaro and Zepbound are manufactured by Eli Lily. Much like Novo Nordisk’s Ozempic and Wegovy, Mounjauro was approved for type 2 diabetes in 2022, and Zepbound for weight loss on November 8, 2023.

And similar to Wegovy, individuals qualifying to take Zepbound must meet the following criteria: A body mass index (BMI) of 30 or greater (obesity), and BMI of 27 or greater (overweight) plus a weight-related condition , such as dyslipidemia, diabetes, hypertension.

However, unlike Ozempic and Wegovy, there is essentially no difference between Mounjaro and Zepbound other than the trade name.

But the active ingredients semaglutide and tirzepatide are not the same thing.

Tirzepatide acts on a glucose-dependent insulinotropic polypeptide (GIP) receptor and also as a GLP-1 receptor agonist. A dual effect. And both are satiety hormones naturally produced by the intestine, from the incretin class, but here molecularly altered for a much longer lifespan, maintaining a prolonged action of several days. That’s why the weekly dosage is very comfortable.

In all cases, the feeling of satiety increases and there is a delay in gastric emptying, which reduces the total food intake during the meal, helping with portion control. But, it can generate the side effects we talked about, mainly nausea. And the more intense this discomfort, the prediction of a positive effect may be greater. As logical as this association may seem, stating this requires further studies. On the other hand, this collaterality is very unpleasant and ends up being limiting in some cases, requiring a combination of anti-emetic drugs such as ondansetron, or in more severe cases, even discontinuation of the drug.

Eli Lily commissioned two surveys, SURMOUNT-3 and SURMOUNT-4, which indicated 26.6% weight loss over an 84-week period (0.317/week), which is more than the 15% people lost using Wegovy over a shorter period of 68 weeks (0.22/week). There is also the possibility of taking a higher weekly dose.

Mounjaro is administered in a similar way to other drugs, through subcutaneous injection, once a week, using a single-use disposable injector pen. The initial dose is 2.5 mg, increasing by 2.5 mg every four weeks until reaching the final dose of 15 mg, or the maximum tolerated dose.

There are trials that point to tirzepatide as the “best tolerated”. But it is necessary to take into account the fierce dispute between brands. Additional studies are needed to confirm this.

Just imagine, more significant weight loss and the potential for fewer side effects could make tirzepatide the best option in no time! But, I emphasize, it is still too early to say something like that on a conclusive basis.

Finally, we are just beginning to learn about these medications, and time is the best judge, as has happened with many drugs, which when launched, were the buzzword of the moment, but years later, were banned due to unobserved effects. in initial trials.

 

IT IS ALWAYS WORTH REINFORCEMENT THAT…

For both semaglutide and tirzepatide the trials had the good sense to state that the weight loss benefits occurred in conjunction with other lifestyle changes such as diet and exercise.

 

References

Kraftson, Griauzde, What Should I Know About Injectable Weight-Loss Medications? JAMA Internal Medicine Patient Page, March 11, 2024.

Garvey W Timothy, Tirzepatide once weekly for the treatment of obesity in people with type 2 diabetes (SURMOUNT-2): a double-blind, randomized, multicenter, placebo-controlled, phase 3 trial. Lancet, 2023 Aug 19;402(10402):613-626.

Wadden Thomas A, Tirzepatide after intensive lifestyle intervention in adults with overweight or obesity: the SURMOUNT-3 phase 3 trial, Nat Med 2023 Nov;29(11):2909-2918.

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