A Revolução das “Canetinhas” Emagrecedoras – Entre a esperança e o exagero – PARTE 3

 

Como usar essa revolução com responsabilidade

 

Toda grande descoberta corre o risco de virar um modismo

A história da medicina mostra um fenômeno curioso. Sempre que surge um tratamento realmente inovador, duas reações costumam aparecer. A primeira é a resistência. A segunda é o entusiasmo excessivo.

Foi assim com os antibióticos. Com os antidepressivos. Com as estatinas. E agora estamos assistindo ao mesmo fenômeno com os análogos incretínicos.

Basta abrir as redes sociais para encontrar promessas como:

  • “Emagreça sem esforço.”
  • “A caneta faz todo o trabalho.”
  • “Adeus dieta.”
  • “Perca 20 kg em poucos meses.”

Infelizmente, essas mensagens simplificam um tratamento que é muito mais complexo. Os medicamentos representam uma extraordinária ferramenta terapêutica. Mas continuam sendo apenas uma ferramenta.

 

As canetas não substituem mudanças no estilo de vida

Talvez esta seja a principal mensagem deste artigo. Os medicamentos reduzem a fome. Facilitam o controle alimentar. Diminuem a compulsão. Aumentam a saciedade.

Mas eles não aprendem no lugar do paciente. Não escolhem os alimentos.Não compram frutas. Não fazem musculação. Não melhoram o sono. Não controlam o estresse. Não substituem uma alimentação adequada em proteínas, fibras, vitaminas e minerais.

Quando essas mudanças não acompanham o tratamento, parte dos benefícios tende a desaparecer ao longo do tempo.

As principais diretrizes internacionais são unânimes: a farmacoterapia deve ser integrada a um programa estruturado de mudanças no estilo de vida (Garvey et al., 2022; Wharton et al., 2020).

 

Resumo Prático

Medicamentos potencializam hábitos saudáveis. Eles não conseguem substituí-los.

 

Quem realmente deve utilizar esses medicamentos?

Os análogos incretínicos não foram desenvolvidos para qualquer pessoa que deseje perder alguns quilos antes das férias.

Em geral, são indicados para adultos com:

✔ IMC ≥30 kg/m² (obesidade);

ou

✔ IMC ≥27 kg/m² associado a doenças relacionadas ao excesso de peso, como:

  • diabetes tipo 2;
  • hipertensão arterial;
  • apneia obstrutiva do sono;
  • dislipidemia;
  • doença cardiovascular;
  • doença hepática gordurosa associada à disfunção metabólica (MASLD).

Esses critérios podem variar conforme o país, a agência regulatória e o medicamento específico.

 

Quem não deve utilizar?

Embora sejam medicamentos bastante seguros para a maioria dos pacientes, existem contraindicações importantes.

Entre elas:

  • gravidez;
  • amamentação;
  • história pessoal ou familiar de carcinoma medular da tireoide;
  • síndrome de neoplasia endócrina múltipla tipo 2 (MEN2);
  • hipersensibilidade ao medicamento.

Também exigem cautela em pacientes com determinadas doenças gastrointestinais graves ou pancreatite prévia, situação em que a decisão deve ser individualizada.

 

Os efeitos colaterais mais comuns

A boa notícia é que a maioria dos efeitos adversos não é grave. Os mais frequentes são:

  • náuseas;
  • sensação de estômago cheio;
  • refluxo;
  • vômitos;
  • constipação;
  • diarreia.

Eles costumam aparecer durante o aumento das doses e tendem a diminuir com o tempo. Por isso, a titulação gradual é tão importante.

 

Os riscos que quase ninguém comenta – a maior preocupação dos especialistas

Aqui existe um ponto extremamente importante. Quando o emagrecimento é muito rápido, o organismo perde não apenas gordura. Também pode perder:

  • massa muscular;
  • água corporal;
  • densidade mineral óssea, em menor grau, com risco de osteopenia e osteoporose;
  • reservas de micronutrientes.

Em outras palavras: nem todo quilograma perdido representa gordura. Essa é uma das maiores preocupações atuais dos especialistas.

 

Perder músculos não é um bom negócio

Imagine duas pessoas que emagreceram exatamente 20 kg.

A primeira perdeu:

  • 17 kg de gordura;
  • 3 kg de músculos.

A segunda perdeu:

  • 11 kg de gordura;
  • 9 kg de músculos.

Na balança, o resultado é igual. Na saúde, completamente diferente.

A preservação da massa muscular reduz risco de quedas, melhora o metabolismo, aumenta a autonomia funcional e favorece a manutenção do peso em longo prazo. Por isso, as diretrizes atuais recomendam fortemente:

  • ingestão adequada de proteínas (não aquém nem além das recomendações);
  • treinamento de força (musculação ou exercícios resistidos);
  • atividade física regular durante todo o tratamento.

 

Resumo Prático

O objetivo não é apenas emagrecer. É emagrecer perdendo principalmente gordura e preservando tanto a massa muscular como a saúde.

 

Quando emagrecer demais também pode fazer mal

Alguns pacientes praticamente deixam de sentir fome. À primeira vista isso parece excelente. Mas pode tornar-se um problema.

Quando a ingestão alimentar torna-se muito pequena, começam a aparecer sinais como:

  • queda de cabelo;
  • fraqueza;
  • fadiga;
  • unhas frágeis;
  • deficiência de ferro;
  • deficiência de vitamina B12;
  • deficiência de folato;
  • deficiência de proteínas;
  • perda excessiva de massa muscular.

Nessas situações, muitas vezes é necessário reduzir a dose do medicamento, revisar o plano alimentar ou intensificar o acompanhamento nutricional.

O objetivo nunca deve ser simplesmente “comer o mínimo possível”. O objetivo é nutrir o organismo adequadamente enquanto ocorre a perda de gordura.

 

Existe risco de câncer de tireoide?

Provavelmente esta seja a dúvida mais frequente dos pacientes. Nos estudos com roedores, alguns agonistas do GLP-1 aumentaram a incidência de carcinoma medular da tireoide.

Entretanto, até o momento, esse achado não foi confirmado em seres humanos nos grandes ensaios clínicos nem nos estudos observacionais disponíveis.

Mesmo assim, por precaução, esses medicamentos permanecem contraindicados para pessoas com história pessoal ou familiar de carcinoma medular da tireoide e para portadores de MEN2.

A ciência continua acompanhando cuidadosamente essa questão, mas atualmente não há evidência convincente de aumento desse tipo de câncer na população geral tratada com esses medicamentos (Pottegård et al., 2025; EMA, FDA).

 

E pancreatite? E pedra na vesícula?

Outra preocupação frequente envolve a pancreatite. Os grandes estudos não demonstraram aumento consistente do risco de pancreatite aguda, embora episódios possam ocorrer raramente e exijam suspensão imediata da medicação e investigação clínica.

Já a colelitíase (pedras na vesícula) merece atenção especial. Ela parece ocorrer com maior frequência durante perdas rápidas de peso — fenômeno que também é observado após dietas muito restritivas e cirurgia bariátrica. Assim, parte do risco está relacionada ao próprio emagrecimento acelerado e não necessariamente ao medicamento em si. Nos próximos tópicos aprofundamos este assunto.

 

Canetinhas emagrecedoras e cálculos na vesícula: quando vale a pena redobrar a atenção?

Um aspecto pouco conhecido pelos pacientes — e que merece atenção especial dos médicos — é a relação entre os análogos incretínicos (as “canetinhas”) e as doenças da vesícula biliar.

Hoje sabemos que medicamentos como liraglutida, semaglutida e tirzepatida aumentam discretamente o risco de eventos biliares, como colelitíase, colecistite e coledocolitíase (Sodhi et al., 2022; He et al., 2022).

Isso ocorre por dois mecanismos principais. O primeiro é o retardo do esvaziamento da vesícula biliar, provavelmente relacionado à redução da liberação de colecistocinina (CCK), favorecendo a estase biliar.

O segundo é a perda rápida de peso, que aumenta a saturação de colesterol na bile e facilita a formação de lama biliar e cálculos, fenômeno já conhecido também após dietas muito restritivas e cirurgia bariátrica.

Embora diferentes estudos tenham encontrado magnitudes distintas de risco para doenças da vesícula biliar durante o uso dos agonistas do GLP-1, essa aparente discrepância é esperada e não representa uma contradição.

Na meta-análise de He et al. (2022), por exemplo, observou-se um aumento relativo de aproximadamente 37% no risco de doenças biliares, enquanto outras análises e revisões apontam aumentos que podem se aproximar de 50% em determinados subgrupos, especialmente quando são utilizadas doses mais elevadas, por períodos prolongados e no tratamento da obesidade (Sodhi et al., 2022).

Essas diferenças decorrem de metodologias distintas, populações estudadas, definições dos desfechos e características dos pacientes avaliados.

Apesar dessas variações, todas as evidências convergem para a mesma conclusão prática: os agonistas das incretinas podem aumentar o risco de eventos biliares em indivíduos suscetíveis, razão pela qual uma avaliação individualizada é recomendada antes do início do tratamento, sobretudo em pacientes com colelitíase prévia, lama biliar ou história de cólicas biliares.

Nessas situações, a decisão terapêutica deve ponderar cuidadosamente os benefícios metabólicos esperados em relação ao risco potencial de complicações biliares.

 

 

Quando operar a vesícula (colecistectomia)?

Felizmente, o risco absoluto permanece relativamente baixo. Entretanto, a situação merece atenção especial em pacientes que já apresentam colelitíase, principalmente quando existem múltiplos microcálculos ou lama biliar, pois essas pequenas concreções têm maior probabilidade de migrar pelo ducto biliar, obstruir a ampola de Vater e desencadear uma pancreatite aguda de origem biliar.

Nesses casos, o problema deixa de ser um possível efeito direto do medicamento sobre o pâncreas e passa a ser uma complicação mecânica decorrente da doença biliar preexistente.

Por esse motivo, muitos especialistas defendem uma avaliação criteriosa da vesícula antes do início do tratamento, especialmente em pacientes com história de cólica biliar.

Quando a colelitíase é sintomática, a colecistectomia videolaparoscópica (cirurgia de retirada da vesícula) já possui indicação bem estabelecida pelas diretrizes internacionais, independentemente do uso de agonistas do GLP-1.

Nos pacientes assintomáticos, a decisão deve ser individualizada. Embora a presença de cálculos não seja considerada contraindicação absoluta ao tratamento, pacientes com múltiplos microcálculos, lama biliar ou episódios prévios de dor biliar podem justificar uma discussão mais cuidadosa entre clínico, endocrinologista e cirurgião sobre a conveniência de tratar primeiro a doença da vesícula antes de iniciar uma terapia destinada a promover perda rápida de peso.

Em situações nas quais a cirurgia não seja indicada ou o paciente opte por não realizá-la, alguns estudos sugerem que o ácido ursodesoxicólico (UDCA) pode reduzir a formação de cálculos durante períodos de emagrecimento acelerado.

Entretanto, seu uso preventivo ainda não faz parte da rotina das principais diretrizes para pacientes tratados com agonistas das incretinas e deve ser avaliado caso a caso.

 

Resumo Prático

✔ Os agonistas do GLP-1 e do GIP podem aumentar discretamente o risco de doenças da vesícula biliar, sobretudo durante perdas rápidas de peso.

✔ Pacientes com cálculos biliares prévios devem ser avaliados individualmente antes do início do tratamento.

✔ Colelitíase sintomática continua tendo indicação cirúrgica conforme as diretrizes, independentemente do uso desses medicamentos.

✔ Em pacientes com múltiplos microcálculos ou lama biliar, e/ou quando o paciente tem histórico de cólica biliar, a decisão sobre tratar primeiro a vesícula pode ser especialmente relevante para reduzir o risco de pancreatite biliar.

 

 

O que acontece quando o tratamento é interrompido?

Talvez esta seja a informação mais importante de todo o artigo. Muitas pessoas imaginam que esses medicamentos funcionem como um antibiótico: usa-se durante alguns meses, cura-se o problema, e pronto.

A obesidade não funciona assim. Ela é uma doença crônica.

Os estudos STEP mostraram que, após a interrupção da semaglutida, muitos participantes recuperaram parte importante do peso perdido ao longo do ano seguinte (Wilding et al., 2022).

Isso não significa que o medicamento “vicia”. Significa apenas que, quando o tratamento deixa de atuar sobre os mecanismos biológicos da fome, o organismo tende novamente a defender seu peso anterior.

Essa observação reforça um conceito cada vez mais aceito: para muitos pacientes, o tratamento da obesidade poderá ser de longa duração, assim como ocorre com hipertensão arterial ou diabetes.

 

Vou precisar mesmo usar as canetinhas para sempre?

As “canetinhas” para emagrecer podem funcionar como uma excelente rampa de lançamento para novos hábitos!

Especialistas sugerem usar a medicação por períodos de 6 a 18 meses em conjunto com um programa de Intervenção Intensiva no Estilo de Vida (ILI).

A ideia é aproveitar aquela fase em que o apetite está menor e a motivação está alta para transformar a rotina de verdade. Quando o novo estilo de vida já virou um hábito natural, começa-se a reduzir a dose do remédio aos poucos, mantendo um acompanhamento de perto para ver como o corpo reage.

Na Lapinha, fazemos exatamente isso: combinamos o programa de estilo de vida com uma retirada gradual e segura do medicamento ao longo de 6 a 18 meses. Cada organismo responde de um jeito, e embora essa abordagem integrada ainda esteja sendo acompanhada a longo prazo, os primeiros passos acenam com a promessa de um emagrecimento definitivo focado nas Mudanças de Estilo de Vida (MEVs).

 

O médico continua sendo insubstituível

As “canetinhas” representam um enorme avanço.Mas não eliminam a necessidade do acompanhamento médico.É o médico quem avalia:

  • se existe indicação;
  • qual medicamento é mais adequado;
  • qual dose utilizar;
  • como minimizar efeitos adversos;
  • quando interromper;
  • como preservar massa muscular;
  • quais exames acompanhar.

Além disso, um bom tratamento frequentemente envolve nutricionista, educador físico e, em muitos casos, psicólogo. Obesidade é uma doença multifatorial. E seu tratamento precisa ser multidisciplinar.

 

Resumo da Parte III

✔ Os análogos incretínicos são ferramentas extraordinárias, mas não substituem mudanças permanentes no estilo de vida.

✔ O maior objetivo não é apenas perder peso, e sim perder gordura preservando músculos, ossos e qualidade de vida.

✔ O acompanhamento médico é indispensável para indicar corretamente o tratamento, monitorar efeitos adversos e prevenir deficiências nutricionais.

✔ Em muitos pacientes, a obesidade exigirá tratamento prolongado, assim como outras doenças crônicas.

 

Na Parte IV, encerraremos esta jornada discutindo o futuro da farmacoterapia da obesidade: retatrutida, amicretina, cagrisema e outros agonistas múltiplos; como essas terapias podem reduzir a necessidade de cirurgia bariátrica em parte dos pacientes; o impacto econômico e social dessa revolução; e, sobretudo, por que o verdadeiro sucesso continuará dependendo da combinação entre ciência, estilo de vida e acompanhamento médico responsável.

 

Referências – Parte 3

EUROPEAN ASSOCIATION FOR THE STUDY OF THE LIVER (EASL). EASL Clinical Practice Guidelines on the prevention, diagnosis and treatment of gallstones. Journal of Hepatology, Amsterdam, v. 65, n. 1, p. 146–181, 2016.

GARVEY, W. T. et al. American Association of Clinical Endocrinology Clinical Practice Guideline for Comprehensive Medical Care of Patients with Obesity. Endocrine Practice, v. 28, n. 5, p. 528–562, 2022.

HE, L. et al. Association of glucagon-like peptide-1 receptor agonist use with risk of gallbladder and biliary diseases: systematic review and meta-analysis of randomized clinical trials. JAMA Internal Medicine, Chicago, v. 182, n. 5, p. 513–519, 2022.

POTTEGÅRD, A. et al. Risk of thyroid cancer among users of GLP-1 receptor agonists: a multinational cohort study. Thyroid, 2025.

SHAUKAT, A. et al. ACG Clinical Guideline: Diagnosis and Management of Biliary Diseases. American Journal of Gastroenterology. (Consultar a versão mais recente disponível da diretriz, pois há atualizações periódicas.)

SUGERMAN, H. J. et al. A multicenter, placebo-controlled, randomized, double-blind prospective trial of prophylactic ursodiol for the prevention of gallstone formation following gastric-bypass-induced rapid weight loss. American Journal of Surgery, New York, v. 169, n. 1, p. 91–96, 1995

WHARTON, S. et al. Obesity in adults: a clinical practice guideline. CMAJ, Ottawa, v. 192, n. 31, p. E875–E891, 2020.

WILDING, J. P. H. et al. Weight regain and cardiometabolic effects after withdrawal of semaglutide: the STEP 1 trial extension. Diabetes, Obesity and Metabolism, Hoboken, v. 24, n. 8, p. 1553–1564, 2022.

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