Diabetes Tipo 2 – A revolução dos medicamentos: da metformina às “canetas” que mudaram a história do diabete – Parte 3

 

Durante grande parte do século XX, os medicamentos para diabetes tinham um único objetivo: baixar a glicemia. Hoje, a realidade é muito diferente. Alguns fármacos modernos conseguem, além de controlar o açúcar no sangue, reduzir o risco de infarto, proteger os rins, favorecer a perda de peso e até prolongar a sobrevida de determinados pacientes (ADA, 2025; Davies et al., 2022).

 

Uma história de progresso contínuo

O tratamento medicamentoso do diabetes tipo 2 evoluiu extraordinariamente nas últimas décadas.

Nas décadas de 1950 e 1960, as opções eram limitadas. O foco era simplesmente reduzir a glicemia. Com o passar dos anos, surgiram medicamentos mais eficazes e seguros, até chegarmos aos atuais análogos das incretinas, que inauguraram uma nova era na Endocrinologia.

Hoje, o médico não escolhe apenas um medicamento para “baixar a glicose”. Ele procura selecionar aquele que melhor atende às características do paciente, considerando obesidade, risco cardiovascular, doença renal, idade, risco de hipoglicemia e custo do tratamento.

 

Resumo Prático

Atualmente, a escolha do medicamento leva em consideração:

✔ controle da glicemia;

✔ proteção cardiovascular;

✔ proteção renal;

✔ controle do peso;

✔ risco de hipoglicemia;

✔ preferência e perfil clínico do paciente.

 

Metformina: a velha conhecida que continua atual

Poucos medicamentos resistiram tão bem ao tempo quanto a metformina. Introduzida na prática clínica na década de 1950, ela continua sendo considerada o tratamento inicial de escolha para muitos pacientes com diabetes tipo 2, especialmente quando não existem contraindicações (ADA, 2025).

Seu principal mecanismo consiste em reduzir a produção de glicose pelo fígado e melhorar a sensibilidade à insulina.

 

Principais vantagens

  • excelente perfil de segurança;
  • baixo custo;
  • não costuma causar hipoglicemia;
  • pode favorecer discreta perda de peso ou neutralidade ponderal;
  • extensa experiência clínica.

 

Efeitos adversos

Os mais comuns são gastrointestinais:

  • náuseas;
  • sensação de estômago cheio;
  • diarreia;
  • desconforto abdominal.

Esses sintomas costumam diminuir quando a medicação é introduzida gradualmente ou utilizada na formulação de liberação prolongada (XR).

Outra observação importante é que o uso prolongado pode reduzir a absorção de vitamina B12, motivo pelo qual sua dosagem periódica deve ser considerada, sobretudo em idosos, vegetarianos, pacientes com neuropatia periférica ou anemia (ADA, 2025; de Jager et al., 2010).

 

Sulfonilureias: ainda têm espaço?

Medicamentos como gliclazida, glimepirida e glibenclamida estimulam diretamente o pâncreas a produzir insulina. São eficazes na redução da glicemia e apresentam baixo custo. Entretanto, perderam protagonismo porque podem provocar:

  • hipoglicemia;
  • ganho de peso;
  • perda gradual de eficácia ao longo dos anos.

Apesar disso, continuam sendo úteis em situações específicas, especialmente quando há limitações econômicas ou indisponibilidade de medicamentos mais modernos.

 

 

Pioglitazona: uma opção que merece seleção cuidadosa

A pioglitazona aumenta a sensibilidade dos tecidos à ação da insulina.Pode beneficiar especialmente pacientes com resistência insulínica importante e esteatose hepática associada.Por outro lado, requer cautela devido à possibilidade de:

  • retenção de líquidos;
  • edema;
  • piora da insuficiência cardíaca;
  • ganho de peso;
  • aumento do risco de fraturas em alguns grupos de pacientes.

Por isso, sua indicação deve ser cuidadosamente individualizada.

 

Inibidores da DPP-4: discretos, porém seguros

Medicamentos como:

  • sitagliptina;
  • vildagliptina;
  • saxagliptina;
  • linagliptina.

Atuam prolongando a ação das incretinas produzidas naturalmente pelo organismo. Sua redução da hemoglobina glicada costuma ser moderada. Como vantagens:

  • praticamente não causam hipoglicemia;
  • são bem tolerados;
  • apresentam poucos efeitos adversos.

Em contrapartida, não promovem perda significativa de peso nem demonstraram benefícios cardiovasculares comparáveis aos observados com os agonistas de GLP-1 ou os inibidores de SGLT2.

 

Os inibidores de SGLT2: quando a glicose sai pela urina

Talvez nenhuma classe tenha surpreendido tanto os cardiologistas e nefrologistas quanto os inibidores do cotransportador sódio-glicose tipo 2 (SGLT2). Entre eles destacam-se:

  • empagliflozina;
  • dapagliflozina;
  • canagliflozina;
  • ertugliflozina.

Esses medicamentos atuam nos rins, promovendo a eliminação de glicose pela urina. O mecanismo é elegante: em vez de tentar utilizar toda a glicose filtrada, o organismo passa a eliminar parte dela naturalmente.

O resultado vai muito além da redução da glicemia. Grandes estudos demonstraram redução consistente de:

  • hospitalizações por insuficiência cardíaca;
  • progressão da doença renal crônica;
  • eventos cardiovasculares em grupos selecionados (Zinman et al., 2015; McMurray et al., 2019; Heerspink et al., 2020).

Hoje, muitos pacientes utilizam essas medicações principalmente pela proteção cardíaca e renal, e não apenas pelo diabetes.

 

Resumo Prático

Os inibidores de SGLT2:

✔ reduzem a glicemia;

✔ ajudam discretamente na perda de peso;

✔ diminuem a pressão arterial;

✔ protegem os rins;

✔ reduzem internações por insuficiência cardíaca.

 

Cuidados importantes com os inibidores de SGLT2

Apesar dos benefícios, alguns cuidados são fundamentais. Podem ocorrer:

  • infecções genitais por fungos;
  • aumento da frequência urinária;
  • desidratação em indivíduos suscetíveis.

Existe ainda uma complicação rara, porém importante: a cetoacidose diabética euglicêmica, situação em que o paciente pode desenvolver acidose metabólica grave mesmo sem glicemias muito elevadas (Peters et al., 2015).

Por essa razão, esses medicamentos costumam ser suspensos temporariamente antes de cirurgias de médio e grande porte, durante jejum prolongado ou em doenças agudas graves.

 

A revolução das incretinas

Poucas descobertas modificaram tanto o tratamento do diabetes quanto a compreensão dos hormônios intestinais conhecidos como incretinas.

Após uma refeição, o intestino libera hormônios como o GLP-1, que estimulam a secreção de insulina apenas quando a glicemia está elevada.

Além disso:

  • reduzem o glucagon;
  • retardam o esvaziamento gástrico;
  • aumentam a saciedade;
  • diminuem o apetite.

Foi essa descoberta que levou ao desenvolvimento dos agonistas do receptor de GLP-1.

Entre eles destacam-se:

  • liraglutida;
  • semaglutida;
  • dulaglutida.

Esses medicamentos passaram a promover algo que antes parecia muito difícil: perda significativa de peso associada a excelente controle glicêmico.

 

Tirzepatida: dois hormônios em uma única molécula

A tirzepatida representa mais um avanço importante.

Ela atua simultaneamente sobre os receptores de GIP e GLP-1.

Os estudos SURPASS demonstraram reduções expressivas tanto da hemoglobina glicada quanto do peso corporal, frequentemente superiores às observadas com diversos agonistas isolados de GLP-1 (Del Prato et al., 2021; Frías et al., 2021).

Seu uso ainda requer acompanhamento médico criterioso devido aos efeitos gastrointestinais e às contraindicações conhecidas da classe.

 

E a retatrutida?

A retatrutida ainda não estava disponível para uso clínico rotineiro até meados de 2026, mas seus resultados em estudos de fase 2 mostraram perda de peso sem precedentes para tratamento farmacológico.

Ela atua simultaneamente sobre três receptores:

  • GLP-1;
  • GIP;
  • glucagon.

Os resultados publicados até o momento sugerem reduções de peso superiores a 20% em muitos participantes, aproximando-se dos efeitos obtidos com algumas cirurgias bariátricas (Jastreboff et al., 2023).

Se os estudos de fase 3 confirmarem esses achados e demonstrarem segurança em longo prazo, a retatrutida poderá representar mais uma mudança de paradigma no tratamento da obesidade e do diabetes tipo 2.

Entretanto, como ocorre com toda inovação, é prudente aguardar a consolidação das evidências antes de ampliar suas indicações.

 

Resumo Comparativo das Principais Classes

Classe Hipoglicemia Peso Benefício cardiovascular Benefício renal
Metformina Muito baixa ↓/↔ Possível benefício indireto Neutro
Sulfonilureias Alta Não demonstrado Neutro
Pioglitazona Baixa Situações específicas Neutro
DPP-4 Muito baixa Neutro Neutro
SGLT2 Muito baixa Sim Sim
GLP-1 Muito baixa ↓↓↓ Sim Possível benefício
Tirzepatida Muito baixa ↓↓↓↓ Evidências crescentes Evidências promissoras

 

O futuro é a medicina personalizada

As diretrizes mais recentes enfatizam que não existe mais um único tratamento para todos.

Dois pacientes com a mesma glicemia podem receber tratamentos completamente diferentes.

Hoje, a decisão leva em conta:

  • obesidade;
  • doença cardiovascular;
  • insuficiência cardíaca;
  • doença renal crônica;
  • risco de hipoglicemia;
  • idade;
  • fragilidade;
  • preferências do paciente;
  • acesso ao tratamento.

Essa individualização representa um dos maiores avanços da Endocrinologia moderna.

 

Conclusão

A evolução dos medicamentos para o diabetes tipo 2 reflete uma transformação profunda na própria medicina. Se antes o objetivo era apenas reduzir a glicemia, hoje busca-se proteger o organismo como um todo: coração, rins, cérebro, vasos sanguíneos e qualidade de vida. O tratamento deixou de ser centrado apenas em números e passou a considerar o paciente em sua totalidade.

Ao mesmo tempo, é importante lembrar que nenhum medicamento substitui hábitos saudáveis. Mesmo as terapias mais modernas alcançam seus melhores resultados quando associadas a alimentação equilibrada, atividade física regular, sono adequado e acompanhamento multiprofissional. A verdadeira revolução do diabetes não está apenas nas novas moléculas, mas na integração entre ciência, tecnologia e estilo de vida.

 

Na próxima parte…

Quando chega o momento de iniciar insulina? Isso significa que o diabetes “piorou”? Quais são os tipos de insulina, como elas são aplicadas e por que tantas pessoas ainda têm medo desse tratamento?

Na Parte IV, abordaremos a insulinização, a história natural do diabetes, o monitoramento contínuo da glicose, as bombas de infusão e as principais inovações no tratamento dos casos mais complexos.

 

Referências

AMERICAN DIABETES ASSOCIATION. Standards of Care in Diabetes—2025. Diabetes Care, Alexandria, v. 48, Suppl. 1, 2025.

DAVIES, M. J. et al. Management of hyperglycaemia in type 2 diabetes, 2022. A consensus report by the American Diabetes Association (ADA) and the European Association for the Study of Diabetes (EASD). Diabetes Care, Alexandria, v. 45, n. 11, p. 2753–2786, 2022.

DE JAGER, J. et al. Long term treatment with metformin in patients with type 2 diabetes and risk of vitamin B-12 deficiency: randomised placebo controlled trial. BMJ, London, v. 340, c2181, 2010.

DEL PRATO, S. et al. Tirzepatide versus insulin glargine in type 2 diabetes and increased cardiovascular risk (SURPASS-4). The Lancet, London, v. 398, n. 10313, p. 1811–1824, 2021.

FRÍAS, J. P. et al. Tirzepatide versus semaglutide once weekly in patients with type 2 diabetes (SURPASS-2). The New England Journal of Medicine, Boston, v. 385, n. 6, p. 503–515, 2021.

HEERSPINK, H. J. L. et al. Dapagliflozin in patients with chronic kidney disease. The New England Journal of Medicine, Boston, v. 383, n. 15, p. 1436–1446, 2020.

JASTREBOFF, A. M. et al. Triple-hormone-receptor agonist retatrutide for obesity — a phase 2 trial. The New England Journal of Medicine, Boston, v. 389, n. 6, p. 514–526, 2023.

MCMURRAY, J. J. V. et al. Dapagliflozin in patients with heart failure and reduced ejection fraction. The New England Journal of Medicine, Boston, v. 381, n. 21, p. 1995–2008, 2019.

PETERS, A. L. et al. Euglycemic diabetic ketoacidosis: a potential complication of treatment with sodium-glucose cotransporter 2 inhibition. Diabetes Care, Alexandria, v. 38, n. 9, p. 1687–1693, 2015.

ZINMAN, B. et al. Empagliflozin, cardiovascular outcomes, and mortality in type 2 diabetes. The New England Journal of Medicine, Boston, v. 373, n. 22, p. 2117–2128, 2015.

 

 

 

 

 

 

A Revolução das “Canetinhas” Emagrecedoras – Entre a esperança e o exagero – PARTE 3

 

Como usar essa revolução com responsabilidade

 

Toda grande descoberta corre o risco de virar um modismo

A história da medicina mostra um fenômeno curioso. Sempre que surge um tratamento realmente inovador, duas reações costumam aparecer. A primeira é a resistência. A segunda é o entusiasmo excessivo.

Foi assim com os antibióticos. Com os antidepressivos. Com as estatinas. E agora estamos assistindo ao mesmo fenômeno com os análogos incretínicos.

Basta abrir as redes sociais para encontrar promessas como:

  • “Emagreça sem esforço.”
  • “A caneta faz todo o trabalho.”
  • “Adeus dieta.”
  • “Perca 20 kg em poucos meses.”

Infelizmente, essas mensagens simplificam um tratamento que é muito mais complexo. Os medicamentos representam uma extraordinária ferramenta terapêutica. Mas continuam sendo apenas uma ferramenta.

 

As canetas não substituem mudanças no estilo de vida

Talvez esta seja a principal mensagem deste artigo. Os medicamentos reduzem a fome. Facilitam o controle alimentar. Diminuem a compulsão. Aumentam a saciedade.

Mas eles não aprendem no lugar do paciente. Não escolhem os alimentos.Não compram frutas. Não fazem musculação. Não melhoram o sono. Não controlam o estresse. Não substituem uma alimentação adequada em proteínas, fibras, vitaminas e minerais.

Quando essas mudanças não acompanham o tratamento, parte dos benefícios tende a desaparecer ao longo do tempo.

As principais diretrizes internacionais são unânimes: a farmacoterapia deve ser integrada a um programa estruturado de mudanças no estilo de vida (Garvey et al., 2022; Wharton et al., 2020).

 

Resumo Prático

Medicamentos potencializam hábitos saudáveis. Eles não conseguem substituí-los.

 

Quem realmente deve utilizar esses medicamentos?

Os análogos incretínicos não foram desenvolvidos para qualquer pessoa que deseje perder alguns quilos antes das férias.

Em geral, são indicados para adultos com:

✔ IMC ≥30 kg/m² (obesidade);

ou

✔ IMC ≥27 kg/m² associado a doenças relacionadas ao excesso de peso, como:

  • diabetes tipo 2;
  • hipertensão arterial;
  • apneia obstrutiva do sono;
  • dislipidemia;
  • doença cardiovascular;
  • doença hepática gordurosa associada à disfunção metabólica (MASLD).

Esses critérios podem variar conforme o país, a agência regulatória e o medicamento específico.

 

Quem não deve utilizar?

Embora sejam medicamentos bastante seguros para a maioria dos pacientes, existem contraindicações importantes.

Entre elas:

  • gravidez;
  • amamentação;
  • história pessoal ou familiar de carcinoma medular da tireoide;
  • síndrome de neoplasia endócrina múltipla tipo 2 (MEN2);
  • hipersensibilidade ao medicamento.

Também exigem cautela em pacientes com determinadas doenças gastrointestinais graves ou pancreatite prévia, situação em que a decisão deve ser individualizada.

 

Os efeitos colaterais mais comuns

A boa notícia é que a maioria dos efeitos adversos não é grave. Os mais frequentes são:

  • náuseas;
  • sensação de estômago cheio;
  • refluxo;
  • vômitos;
  • constipação;
  • diarreia.

Eles costumam aparecer durante o aumento das doses e tendem a diminuir com o tempo. Por isso, a titulação gradual é tão importante.

 

Os riscos que quase ninguém comenta – a maior preocupação dos especialistas

Aqui existe um ponto extremamente importante. Quando o emagrecimento é muito rápido, o organismo perde não apenas gordura. Também pode perder:

  • massa muscular;
  • água corporal;
  • densidade mineral óssea, em menor grau, com risco de osteopenia e osteoporose;
  • reservas de micronutrientes.

Em outras palavras: nem todo quilograma perdido representa gordura. Essa é uma das maiores preocupações atuais dos especialistas.

 

Perder músculos não é um bom negócio

Imagine duas pessoas que emagreceram exatamente 20 kg.

A primeira perdeu:

  • 17 kg de gordura;
  • 3 kg de músculos.

A segunda perdeu:

  • 11 kg de gordura;
  • 9 kg de músculos.

Na balança, o resultado é igual. Na saúde, completamente diferente.

A preservação da massa muscular reduz risco de quedas, melhora o metabolismo, aumenta a autonomia funcional e favorece a manutenção do peso em longo prazo. Por isso, as diretrizes atuais recomendam fortemente:

  • ingestão adequada de proteínas (não aquém nem além das recomendações);
  • treinamento de força (musculação ou exercícios resistidos);
  • atividade física regular durante todo o tratamento.

 

Resumo Prático

O objetivo não é apenas emagrecer. É emagrecer perdendo principalmente gordura e preservando tanto a massa muscular como a saúde.

 

Quando emagrecer demais também pode fazer mal

Alguns pacientes praticamente deixam de sentir fome. À primeira vista isso parece excelente. Mas pode tornar-se um problema.

Quando a ingestão alimentar torna-se muito pequena, começam a aparecer sinais como:

  • queda de cabelo;
  • fraqueza;
  • fadiga;
  • unhas frágeis;
  • deficiência de ferro;
  • deficiência de vitamina B12;
  • deficiência de folato;
  • deficiência de proteínas;
  • perda excessiva de massa muscular.

Nessas situações, muitas vezes é necessário reduzir a dose do medicamento, revisar o plano alimentar ou intensificar o acompanhamento nutricional.

O objetivo nunca deve ser simplesmente “comer o mínimo possível”. O objetivo é nutrir o organismo adequadamente enquanto ocorre a perda de gordura.

 

Existe risco de câncer de tireoide?

Provavelmente esta seja a dúvida mais frequente dos pacientes. Nos estudos com roedores, alguns agonistas do GLP-1 aumentaram a incidência de carcinoma medular da tireoide.

Entretanto, até o momento, esse achado não foi confirmado em seres humanos nos grandes ensaios clínicos nem nos estudos observacionais disponíveis.

Mesmo assim, por precaução, esses medicamentos permanecem contraindicados para pessoas com história pessoal ou familiar de carcinoma medular da tireoide e para portadores de MEN2.

A ciência continua acompanhando cuidadosamente essa questão, mas atualmente não há evidência convincente de aumento desse tipo de câncer na população geral tratada com esses medicamentos (Pottegård et al., 2025; EMA, FDA).

 

E pancreatite? E pedra na vesícula?

Outra preocupação frequente envolve a pancreatite. Os grandes estudos não demonstraram aumento consistente do risco de pancreatite aguda, embora episódios possam ocorrer raramente e exijam suspensão imediata da medicação e investigação clínica.

Já a colelitíase (pedras na vesícula) merece atenção especial. Ela parece ocorrer com maior frequência durante perdas rápidas de peso — fenômeno que também é observado após dietas muito restritivas e cirurgia bariátrica. Assim, parte do risco está relacionada ao próprio emagrecimento acelerado e não necessariamente ao medicamento em si. Nos próximos tópicos aprofundamos este assunto.

 

Canetinhas emagrecedoras e cálculos na vesícula: quando vale a pena redobrar a atenção?

Um aspecto pouco conhecido pelos pacientes — e que merece atenção especial dos médicos — é a relação entre os análogos incretínicos (as “canetinhas”) e as doenças da vesícula biliar.

Hoje sabemos que medicamentos como liraglutida, semaglutida e tirzepatida aumentam discretamente o risco de eventos biliares, como colelitíase, colecistite e coledocolitíase (Sodhi et al., 2022; He et al., 2022).

Isso ocorre por dois mecanismos principais. O primeiro é o retardo do esvaziamento da vesícula biliar, provavelmente relacionado à redução da liberação de colecistocinina (CCK), favorecendo a estase biliar.

O segundo é a perda rápida de peso, que aumenta a saturação de colesterol na bile e facilita a formação de lama biliar e cálculos, fenômeno já conhecido também após dietas muito restritivas e cirurgia bariátrica.

Embora diferentes estudos tenham encontrado magnitudes distintas de risco para doenças da vesícula biliar durante o uso dos agonistas do GLP-1, essa aparente discrepância é esperada e não representa uma contradição.

Na meta-análise de He et al. (2022), por exemplo, observou-se um aumento relativo de aproximadamente 37% no risco de doenças biliares, enquanto outras análises e revisões apontam aumentos que podem se aproximar de 50% em determinados subgrupos, especialmente quando são utilizadas doses mais elevadas, por períodos prolongados e no tratamento da obesidade (Sodhi et al., 2022).

Essas diferenças decorrem de metodologias distintas, populações estudadas, definições dos desfechos e características dos pacientes avaliados.

Apesar dessas variações, todas as evidências convergem para a mesma conclusão prática: os agonistas das incretinas podem aumentar o risco de eventos biliares em indivíduos suscetíveis, razão pela qual uma avaliação individualizada é recomendada antes do início do tratamento, sobretudo em pacientes com colelitíase prévia, lama biliar ou história de cólicas biliares.

Nessas situações, a decisão terapêutica deve ponderar cuidadosamente os benefícios metabólicos esperados em relação ao risco potencial de complicações biliares.

 

 

Quando operar a vesícula (colecistectomia)?

Felizmente, o risco absoluto permanece relativamente baixo. Entretanto, a situação merece atenção especial em pacientes que já apresentam colelitíase, principalmente quando existem múltiplos microcálculos ou lama biliar, pois essas pequenas concreções têm maior probabilidade de migrar pelo ducto biliar, obstruir a ampola de Vater e desencadear uma pancreatite aguda de origem biliar.

Nesses casos, o problema deixa de ser um possível efeito direto do medicamento sobre o pâncreas e passa a ser uma complicação mecânica decorrente da doença biliar preexistente.

Por esse motivo, muitos especialistas defendem uma avaliação criteriosa da vesícula antes do início do tratamento, especialmente em pacientes com história de cólica biliar.

Quando a colelitíase é sintomática, a colecistectomia videolaparoscópica (cirurgia de retirada da vesícula) já possui indicação bem estabelecida pelas diretrizes internacionais, independentemente do uso de agonistas do GLP-1.

Nos pacientes assintomáticos, a decisão deve ser individualizada. Embora a presença de cálculos não seja considerada contraindicação absoluta ao tratamento, pacientes com múltiplos microcálculos, lama biliar ou episódios prévios de dor biliar podem justificar uma discussão mais cuidadosa entre clínico, endocrinologista e cirurgião sobre a conveniência de tratar primeiro a doença da vesícula antes de iniciar uma terapia destinada a promover perda rápida de peso.

Em situações nas quais a cirurgia não seja indicada ou o paciente opte por não realizá-la, alguns estudos sugerem que o ácido ursodesoxicólico (UDCA) pode reduzir a formação de cálculos durante períodos de emagrecimento acelerado.

Entretanto, seu uso preventivo ainda não faz parte da rotina das principais diretrizes para pacientes tratados com agonistas das incretinas e deve ser avaliado caso a caso.

 

Resumo Prático

✔ Os agonistas do GLP-1 e do GIP podem aumentar discretamente o risco de doenças da vesícula biliar, sobretudo durante perdas rápidas de peso.

✔ Pacientes com cálculos biliares prévios devem ser avaliados individualmente antes do início do tratamento.

✔ Colelitíase sintomática continua tendo indicação cirúrgica conforme as diretrizes, independentemente do uso desses medicamentos.

✔ Em pacientes com múltiplos microcálculos ou lama biliar, e/ou quando o paciente tem histórico de cólica biliar, a decisão sobre tratar primeiro a vesícula pode ser especialmente relevante para reduzir o risco de pancreatite biliar.

 

 

O que acontece quando o tratamento é interrompido?

Talvez esta seja a informação mais importante de todo o artigo. Muitas pessoas imaginam que esses medicamentos funcionem como um antibiótico: usa-se durante alguns meses, cura-se o problema, e pronto.

A obesidade não funciona assim. Ela é uma doença crônica.

Os estudos STEP mostraram que, após a interrupção da semaglutida, muitos participantes recuperaram parte importante do peso perdido ao longo do ano seguinte (Wilding et al., 2022).

Isso não significa que o medicamento “vicia”. Significa apenas que, quando o tratamento deixa de atuar sobre os mecanismos biológicos da fome, o organismo tende novamente a defender seu peso anterior.

Essa observação reforça um conceito cada vez mais aceito: para muitos pacientes, o tratamento da obesidade poderá ser de longa duração, assim como ocorre com hipertensão arterial ou diabetes.

 

Vou precisar mesmo usar as canetinhas para sempre?

As “canetinhas” para emagrecer podem funcionar como uma excelente rampa de lançamento para novos hábitos!

Especialistas sugerem usar a medicação por períodos de 6 a 18 meses em conjunto com um programa de Intervenção Intensiva no Estilo de Vida (ILI).

A ideia é aproveitar aquela fase em que o apetite está menor e a motivação está alta para transformar a rotina de verdade. Quando o novo estilo de vida já virou um hábito natural, começa-se a reduzir a dose do remédio aos poucos, mantendo um acompanhamento de perto para ver como o corpo reage.

Na Lapinha, fazemos exatamente isso: combinamos o programa de estilo de vida com uma retirada gradual e segura do medicamento ao longo de 6 a 18 meses. Cada organismo responde de um jeito, e embora essa abordagem integrada ainda esteja sendo acompanhada a longo prazo, os primeiros passos acenam com a promessa de um emagrecimento definitivo focado nas Mudanças de Estilo de Vida (MEVs).

 

O médico continua sendo insubstituível

As “canetinhas” representam um enorme avanço.Mas não eliminam a necessidade do acompanhamento médico.É o médico quem avalia:

  • se existe indicação;
  • qual medicamento é mais adequado;
  • qual dose utilizar;
  • como minimizar efeitos adversos;
  • quando interromper;
  • como preservar massa muscular;
  • quais exames acompanhar.

Além disso, um bom tratamento frequentemente envolve nutricionista, educador físico e, em muitos casos, psicólogo. Obesidade é uma doença multifatorial. E seu tratamento precisa ser multidisciplinar.

 

Resumo da Parte III

✔ Os análogos incretínicos são ferramentas extraordinárias, mas não substituem mudanças permanentes no estilo de vida.

✔ O maior objetivo não é apenas perder peso, e sim perder gordura preservando músculos, ossos e qualidade de vida.

✔ O acompanhamento médico é indispensável para indicar corretamente o tratamento, monitorar efeitos adversos e prevenir deficiências nutricionais.

✔ Em muitos pacientes, a obesidade exigirá tratamento prolongado, assim como outras doenças crônicas.

 

Na Parte IV, encerraremos esta jornada discutindo o futuro da farmacoterapia da obesidade: retatrutida, amicretina, cagrisema e outros agonistas múltiplos; como essas terapias podem reduzir a necessidade de cirurgia bariátrica em parte dos pacientes; o impacto econômico e social dessa revolução; e, sobretudo, por que o verdadeiro sucesso continuará dependendo da combinação entre ciência, estilo de vida e acompanhamento médico responsável.

 

Referências – Parte 3

EUROPEAN ASSOCIATION FOR THE STUDY OF THE LIVER (EASL). EASL Clinical Practice Guidelines on the prevention, diagnosis and treatment of gallstones. Journal of Hepatology, Amsterdam, v. 65, n. 1, p. 146–181, 2016.

GARVEY, W. T. et al. American Association of Clinical Endocrinology Clinical Practice Guideline for Comprehensive Medical Care of Patients with Obesity. Endocrine Practice, v. 28, n. 5, p. 528–562, 2022.

HE, L. et al. Association of glucagon-like peptide-1 receptor agonist use with risk of gallbladder and biliary diseases: systematic review and meta-analysis of randomized clinical trials. JAMA Internal Medicine, Chicago, v. 182, n. 5, p. 513–519, 2022.

POTTEGÅRD, A. et al. Risk of thyroid cancer among users of GLP-1 receptor agonists: a multinational cohort study. Thyroid, 2025.

SHAUKAT, A. et al. ACG Clinical Guideline: Diagnosis and Management of Biliary Diseases. American Journal of Gastroenterology. (Consultar a versão mais recente disponível da diretriz, pois há atualizações periódicas.)

SUGERMAN, H. J. et al. A multicenter, placebo-controlled, randomized, double-blind prospective trial of prophylactic ursodiol for the prevention of gallstone formation following gastric-bypass-induced rapid weight loss. American Journal of Surgery, New York, v. 169, n. 1, p. 91–96, 1995

WHARTON, S. et al. Obesity in adults: a clinical practice guideline. CMAJ, Ottawa, v. 192, n. 31, p. E875–E891, 2020.

WILDING, J. P. H. et al. Weight regain and cardiometabolic effects after withdrawal of semaglutide: the STEP 1 trial extension. Diabetes, Obesity and Metabolism, Hoboken, v. 24, n. 8, p. 1553–1564, 2022.

A Revolução das “Canetinhas” Emagrecedoras – Quando o intestino começou a ensinar o cérebro a comer menos – PARTE 2

 

 Durante décadas, acreditou-se que a fome era controlada principalmente pelo estômago. Hoje sabemos que essa visão era apenas parte da história.

Na realidade, o intestino funciona como um sofisticado órgão endócrino, capaz de produzir diversos hormônios que informam ao cérebro quando devemos comer, quando já estamos satisfeitos e como nosso organismo deve utilizar os nutrientes.

Entre esses hormônios, dois ganharam enorme importância:

  • GLP-1 (Peptídeo semelhante ao glucagon tipo 1);
  • GIP (Polipeptídeo insulinotrópico dependente da glicose).

Essas substâncias são chamadas incretinas.

Em pessoas saudáveis, elas são liberadas naturalmente logo após as refeições.

Sua função é preparar o organismo para receber os alimentos.

 

O que fazem as incretinas?

Embora atuem em vários órgãos, seus principais efeitos podem ser resumidos em cinco ações:

✔ Estimulam a liberação de insulina. Mas apenas quando a glicemia está elevada, reduzindo o risco de hipoglicemia.

✔ Reduzem a produção de glucagon. O glucagon é um hormônio que aumenta a glicemia. Ao diminuir sua liberação, ajudam no controle do diabetes.

✔ Retardam o esvaziamento do estômago. Os alimentos permanecem mais tempo no estômago. A saciedade dura mais. A fome demora mais para voltar.

✔ Atuam diretamente no cérebro. Esse talvez seja o efeito mais importante. As incretinas alcançam centros cerebrais envolvidos no controle do apetite, reduzindo a sensação de fome e diminuindo o interesse por alimentos altamente calóricos (Müller et al., 2019).

Muitos pacientes descrevem algo curioso: “Pela primeira vez, consigo passar perto de uma padaria sem sentir vontade de entrar.” Ou: “A comida deixou de ocupar meus pensamentos o tempo todo.”

Esse fenômeno tem sido chamado popularmente de “silêncio alimentar” (food noise reduction), expressão que não corresponde a um diagnóstico médico, mas descreve uma experiência relatada por muitos pacientes em uso desses medicamentos.

✔ Favorecem perda de peso. Como consequência da menor fome e maior saciedade, ocorre redução espontânea da ingestão calórica.

É importante destacar: esses medicamentos não queimam gordura diretamente. Eles facilitam que a pessoa coma menos. A perda de peso decorre principalmente desse balanço energético negativo.

 

 

Resumo Prático

As incretinas não “derretem gordura”. Elas ajudam o cérebro e o organismo a recuperar mecanismos naturais de saciedade que, em muitas pessoas com obesidade, encontram-se alterados. Não substituem as medidas do estilo de vida.

Atenção: As incretinas não tomam o lugar da alimentação saudável nem da atividade física estruturada. Mas dão um tempo, uma oportunidade, para o paciente incorporar bons hábitos com mais facilidade. É uma janela de oportunidade. Não uma substituição do estilo de vida saudável por recursos farmacológicos.

 

Liraglutida (nomes comerciais mais conhecidos Saxenda e Victoza): a pioneira das canetas para obesidade

Em 2014 surgiu um marco histórico. A liraglutida 3,0 mg tornou-se o primeiro agonista do GLP-1 aprovado especificamente para tratamento da obesidade.

Aplicada por via subcutânea uma vez ao dia, demonstrou perdas médias de aproximadamente 8% do peso corporal, associadas à melhora da glicemia, da pressão arterial e de diversos fatores de risco cardiovascular (Pi-Sunyer et al., 2015).

Foi um enorme avanço. Pela primeira vez muitos pacientes conseguiam permanecer mais tempo saciados. Mesmo assim, ainda havia espaço para resultados melhores.

 

Como é utilizada?

A dose é aumentada gradualmente para reduzir náuseas:

  • 0,6 mg/dia
  • 1,2 mg/dia
  • 1,8 mg/dia
  • 2,4 mg/dia
  • 3,0 mg/dia (dose-alvo)

 

Principais efeitos colaterais

  • náuseas;
  • sensação de empachamento;
  • vômitos;
  • constipação;
  • diarreia.

Na maioria das vezes são leves e transitórios.

 

Semaglutida (nomes comerciais mais conhecidos Ozempic e Wegovy): quando a obesidade entrou em uma nova era

Em 2021, a publicação do estudo STEP 1, no New England Journal of Medicine, mudou completamente o cenário.

A semaglutida 2,4 mg, aplicada apenas uma vez por semana, produziu uma perda média de aproximadamente 15% do peso corporal, resultado nunca antes observado com um medicamento aprovado para obesidade (Wilding et al., 2021).

Esse número chamou atenção porque começava a se aproximar dos resultados obtidos com algumas técnicas cirúrgicas.

Outro aspecto importante foi a melhora de diversos parâmetros metabólicos:

  • diabetes;
  • hipertensão;
  • esteatose hepática;
  • qualidade de vida;
  • risco cardiovascular.

Mais recentemente, o estudo SELECT demonstrou que a semaglutida reduziu eventos cardiovasculares maiores em pessoas com obesidade e doença cardiovascular estabelecida, mesmo na ausência de diabetes (Lincoff et al., 2023).

Esse resultado marcou uma mudança de paradigma: o medicamento deixou de ser visto apenas como um agente para perda de peso e passou a demonstrar benefícios cardiovasculares independentes.

 

Como é utilizada?

A titulação habitual é semanal:

  • 0,25 mg
  • 0,5 mg
  • 1,0 mg
  • 1,7 mg
  • 2,4 mg

Cada etapa costuma durar quatro semanas, podendo ser ajustada conforme a tolerabilidade.

Tirzepatida (nomes comerciais Mounjaro e Zepbound): a primeira dupla incretina

Quando parecia difícil superar a semaglutida, surgiu uma nova estratégia. Em vez de estimular apenas o GLP-1, pesquisadores passaram a ativar simultaneamente:

  • GLP-1
  • GIP

Nascia a tirzepatida. O estudo SURMOUNT-1 mostrou perdas médias superiores a 20% do peso corporal, com alguns participantes ultrapassando 25% (Jastreboff et al., 2022).

Pela primeira vez, muitos endocrinologistas passaram a discutir algo impensável poucos anos antes:

seria possível alcançar resultados próximos aos da cirurgia bariátrica utilizando apenas tratamento medicamentoso em uma parcela dos pacientes?

Ainda não existe resposta definitiva.

Mas os resultados são extraordinários.

 

Como é utilizada?

Aplicação semanal.

Escalonamento habitual:

  • 2,5 mg
  • 5 mg
  • 7,5 mg
  • 10 mg
  • 12,5 mg
  • 15 mg

O aumento gradual reduz significativamente os efeitos gastrointestinais.

 

Resumo Prático

Medicamento Hormônio Frequência Perda média de peso*
Liraglutida GLP-1 Diária ~8%
Semaglutida GLP-1 Semanal ~15%
Tirzepatida GLP-1 + GIP Semanal ~21%

* Valores médios observados em grandes ensaios clínicos, associados a mudanças no estilo de vida. A resposta individual pode variar.

 

Retatrutida: a próxima fronteira

Se a tirzepatida surpreendeu por estimular dois hormônios, a retatrutida deu mais um passo. Ela atua simultaneamente sobre três receptores:

  • GLP-1;
  • GIP;
  • glucagon.

À primeira vista, estimular o receptor do glucagon parece contraditório, pois esse hormônio aumenta a glicemia.

Entretanto, ele também aumenta o gasto energético e favorece a utilização de gordura corporal. O desafio dos pesquisadores foi equilibrar esses efeitos, potencializando os benefícios metabólicos sem provocar descontrole glicêmico.

Os resultados dos estudos iniciais impressionaram. No ensaio de fase 2 publicado no New England Journal of Medicine, participantes tratados com as doses mais altas atingiram perdas médias de peso próximas de 24% em 48 semanas, com tendência de continuação da perda ao final do acompanhamento (Jastreboff et al., 2023).

Atualmente, (julho de 2026) a retatrutida está sendo avaliada em grandes estudos de fase 3 para confirmar sua eficácia e segurança. Caso esses resultados sejam confirmados e as agências regulatórias aprovem seu uso, poderemos assistir a uma nova mudança de paradigma.

Em alguns pacientes, medicamentos poderão atingir reduções de peso próximas às obtidas com determinadas técnicas de cirurgia bariátrica. Isso não significa que a cirurgia deixará de existir.

Mas talvez ela passe a ser indicada para um grupo menor de pessoas, especialmente aquelas com obesidade mais grave ou que não respondam adequadamente ao tratamento clínico.

 

Mas toda revolução exige prudência…

Os resultados são realmente impressionantes. Entretanto, existe um risco.

Quando uma tecnologia produz grande entusiasmo, frequentemente surgem exageros. E foi exatamente isso que começou a acontecer com as “canetinhas”.

Elas passaram a ser utilizadas por pessoas sem indicação médica, por razões puramente estéticas, em doses inadequadas, sem acompanhamento nutricional e, muitas vezes, sem qualquer preocupação com perda de massa muscular ou qualidade da alimentação.

É justamente sobre esses riscos — e sobre como utilizar esses medicamentos de forma responsável — que falaremos na Parte III.

 

Referências – Parte 2

JASTREBOFF, A. M. et al. Tirzepatide once weekly for the treatment of obesity. New England Journal of Medicine, Boston, v. 387, p. 205–216, 2022.

JASTREBOFF, A. M. et al. Triple-hormone receptor agonist retatrutide for obesity: a phase 2 trial. New England Journal of Medicine, Boston, v. 389, n. 6, p. 514–526, 2023.

LINCOFF, A. M. et al. Semaglutide and cardiovascular outcomes in obesity without diabetes. New England Journal of Medicine, Boston, v. 389, p. 2221–2232, 2023.

MÜLLER, T. D. et al. Anti-obesity drug discovery: advances and challenges. Nature Reviews Drug Discovery, London, v. 21, p. 201–223, 2022.

PI-SUNYER, X. et al. A randomized, controlled trial of 3.0 mg of liraglutide in weight management. New England Journal of Medicine, Boston, v. 373, p. 11–22, 2015.

WILDING, J. P. H. et al. Once-weekly semaglutide in adults with overweight or obesity. New England Journal of Medicine, Boston, v. 384, p. 989–1002, 2021.

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