SUPLEMENTOS PARA A SAÚDE ÓSSEA – QUANDO USAR E QUANDO NÃO USAR

 

 

Quando pensamos em ossos fortes, a primeira imagem que costuma vir à mente é um comprimido de cálcio ou vitamina D. Durante muitos anos, criou-se a ideia de que esses suplementos deveriam ser utilizados por praticamente todos os adultos como forma de prevenir osteoporose e fraturas. Entretanto, a medicina baseada em evidências mostrou que a realidade é mais complexa.

 

Recentemente, um dos estudos mais robustos da história da medicina preventiva, publicado pelo prestigiado periódico britânico The BMJ, reuniu os resultados de 69 ensaios clínicos envolvendo mais de 153 mil participantes para responder a uma pergunta simples: tomar suplementos de cálcio ou vitamina D previne quedas e fraturas em pessoas saudáveis? A resposta foi surpreendente. Para adultos que vivem na comunidade e não apresentam deficiência conhecida, o benefício foi muito pequeno, próximo de zero (MASSÉ et al., 2026).

À primeira vista, essa conclusão pode levar a outro erro igualmente perigoso: acreditar que suplementos “não servem para nada”. Nada poderia estar mais distante da verdade. A palavra-chave é critério. Em medicina, tanto o excesso quanto a falta de tratamento podem trazer prejuízos. O segredo está em identificar quem realmente se beneficia da suplementação.

 

Quando a suplementação é realmente necessária?

Existem situações em que a reposição de cálcio e vitamina D é parte importante do tratamento. Pessoas com deficiência comprovada de vitamina D, pacientes com osteoporose, idosos institucionalizados ou com pouca exposição ao sol, indivíduos submetidos à cirurgia bariátrica ou portadores de doenças que dificultam a absorção intestinal podem necessitar de suplementação prescrita pelo médico (DEMAY et al., 2024).

Nesses casos, o objetivo não é simplesmente aumentar um número no exame de sangue, mas reduzir complicações, preservar a saúde óssea e diminuir o risco de fraturas.

Por outro lado, para adultos saudáveis, sem fatores de risco e com alimentação equilibrada, a suplementação rotineira “por garantia” raramente oferece benefícios demonstráveis (MASSÉ et al., 2026).

 

Vitamina D: qual é o nível ideal?

Muitas pessoas se preocupam excessivamente com o valor da vitamina D nos exames laboratoriais. Atualmente, a maioria das diretrizes considera que concentrações séricas de 25-hidroxivitamina D [25(OH)D] acima de 20 ng/mL são suficientes para manter a saúde óssea da população geral saudável (DEMAY et al., 2024; GÓMEZ et al., 2024).

Entretanto, a interpretação desses valores deve ser individualizada. A diretriz mais recente da Endocrine Society recomenda que a decisão de dosar ou suplementar vitamina D seja baseada no contexto clínico, e não na busca de um valor laboratorial único para toda a população (DEMAY et al., 2024).

Ainda assim, algumas sociedades e consensos especializados continuam considerando concentrações em torno de 30 ng/mL como um alvo desejável para determinados grupos de maior risco — como pacientes com osteoporose, doenças osteometabólicas ou síndromes de má absorção — embora esse ponto permaneça objeto de debate científico (GÓMEZ et al., 2024).

Em atletas de alto rendimento ou pessoas submetidas a treinamento intenso, revisões sistemáticas recentes sugerem que a correção da deficiência de vitamina D pode estar associada à melhora da força muscular, da potência anaeróbica e do desempenho físico. Entretanto, as evidências sobre prevenção de lesões e fraturas por estresse ainda são inconsistentes, não justificando a suplementação indiscriminada em indivíduos com níveis adequados da vitamina (WYATT et al., 2024; SHULER et al., 2012).

 

O melhor remédio para os ossos talvez não esteja na farmácia

Embora cálcio e vitamina D sejam importantes, eles representam apenas parte da equação.

Os ossos são tecidos vivos que se renovam continuamente. Eles respondem ao estímulo mecânico produzido pelos músculos durante atividades como caminhada, corrida, dança e, principalmente, exercícios de fortalecimento muscular.

Esse processo é conhecido há mais de um século pela chamada Lei de Wolff: quanto maior o estímulo adequado recebido pelo osso, maior tende a ser sua adaptação estrutural. Estudos modernos mostram que essa remodelação depende de mecanismos biológicos complexos ativados pela carga mecânica, tornando o exercício físico um dos principais fatores para a manutenção da massa óssea ao longo da vida (ROBLING; CASTILLO; TURNER, 2006).

Além do exercício, uma alimentação adequada em proteínas de boa qualidade, cálcio proveniente dos alimentos, exposição solar segura quando possível, sono adequado, manutenção do peso corporal e abandono do tabagismo também desempenham papel fundamental na prevenção da osteoporose.

 

O caminho do meio

Na área da saúde, respostas simples raramente são as melhores.

A ciência atual não apoia a suplementação indiscriminada de cálcio e vitamina D para todas as pessoas. Da mesma forma, também não recomenda abandonar completamente esses suplementos quando existe uma indicação clínica bem estabelecida.

A melhor estratégia continua sendo a individualização. Em vez de tomar suplementos por conta própria ou descartá-los com base em manchetes, vale a pena conversar com seu médico, avaliar seus fatores de risco e decidir, juntos, qual é a melhor conduta.

Em outras palavras, ossos fortes não dependem apenas de um comprimido. Eles são construídos diariamente por uma combinação de alimentação equilibrada, atividade física regular, estilo de vida saudável e, quando necessário, suplementação orientada por profissionais de saúde.

 

Referências

DEMAY, M. B.; PITTAS, A. G.; BIKLE, D. D. et al. Vitamin D for the Prevention of Disease: An Endocrine Society Clinical Practice Guideline. The Journal of Clinical Endocrinology & Metabolism, v. 109, n. 8, p. 1907–1947, 2024.

GÓMEZ, O.; CAMPUSANO, C.; CERDAS-P., S. et al. Clinical Practice Guidelines of the Latin American Federation of Endocrinology for the Use of Vitamin D in the Maintenance of Bone Health: Recommendations for the Latin American Context. Archives of Osteoporosis, v. 19, art. 46, 2024.

MASSÉ, O. et al. Calcium, vitamin D, or combined supplementation to prevent fractures and falls: systematic review and meta-analysis. BMJ, v. 393, e088050, 2026.

ROBLING, A. G.; CASTILLO, A. B.; TURNER, C. H. Biomechanical and molecular regulation of bone remodeling. Annual Review of Biomedical Engineering, v. 8, p. 455–498, 2006.

ROSEN, C. J. et al. The 2011 report on dietary reference intakes for calcium and vitamin D from the Institute of Medicine: what clinicians need to know. The Journal of Clinical Endocrinology & Metabolism, v. 96, n. 1, p. 53–58, 2012.

SHULER, F. D. et al. Sports health benefits of vitamin D. Sports Health, v. 4, n. 6, p. 496–501, 2012.

WYATT, P. B. et al. Effects of Vitamin D Supplementation in Elite Athletes: A Systematic Review. Orthopaedic Journal of Sports Medicine, v. 12, n. 1, 2024. doi:10.1177/23259671231220371.

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