VO₂ Máximo, Força Muscular e Microbiota: O Que a Ciência Descobriu em 2025 e 2026

 

Se alguém tivesse perguntado há dez anos quais eram os principais determinantes do desempenho físico, a resposta provavelmente seria: coração forte, pulmões saudáveis e músculos bem treinados. Hoje, a resposta é mais completa.

As pesquisas publicadas em 2025 e 2026 mostram que esses sistemas continuam sendo fundamentais, mas passaram a integrar um cenário muito mais complexo. O intestino, a microbiota, o sistema imunológico e até a integridade da barreira intestinal parecem participar desse processo de maneira muito mais importante do que se imaginava (Xu et al., 2025; Marchitto et al., 2026).

Isso não significa que o intestino substitua o treinamento físico. Muito pelo contrário. A principal novidade é compreender que existe uma comunicação constante entre esses órgãos, formando aquilo que os pesquisadores passaram a chamar de eixo intestino-músculo (gut-muscle axis).

 

Uma mudança de paradigma

Durante décadas, acreditava-se que o músculo era apenas o órgão responsável pelos movimentos.

Hoje sabemos que ele funciona também como um órgão endócrino, produzindo substâncias capazes de influenciar o cérebro, o metabolismo, o sistema imunológico e até mesmo a microbiota intestinal. O caminho inverso também ocorre.

As bactérias intestinais produzem centenas de moléculas biologicamente ativas que chegam aos músculos através da circulação, interferindo na inflamação, na produção de energia e na recuperação após o exercício (Xu et al., 2025). Em outras palavras, músculos e intestino “conversam” o tempo todo.

 

O papel das mitocôndrias

Um dos temas mais discutidos nas pesquisas recentes é a influência da microbiota sobre as mitocôndrias.

As mitocôndrias são pequenas estruturas presentes dentro das células responsáveis pela produção da maior parte da energia utilizada pelo organismo. Quanto mais eficientes elas forem, maior tende a ser a resistência ao esforço físico.

As revisões publicadas em 2025 sugerem que alguns metabólitos produzidos pela microbiota, especialmente os ácidos graxos de cadeia curta, podem estimular o funcionamento mitocondrial e reduzir o estresse oxidativo. Isso pode favorecer a adaptação ao treinamento, embora ainda não existam evidências suficientes para afirmar que esses mecanismos aumentem diretamente o VO₂ máximo em seres humanos (Xu et al., 2025).

 

O intestino pode aumentar a força muscular?

Essa talvez seja a descoberta mais interessante dos últimos anos.

As pesquisas mais recentes sugerem que pessoas com maior diversidade da microbiota intestinal costumam apresentar melhor função muscular, especialmente durante o envelhecimento. Diversos mecanismos podem explicar essa associação:

  • menor inflamação sistêmica;
  • melhor absorção de nutrientes;
  • produção de butirato e outros ácidos graxos de cadeia curta;
  • maior sensibilidade à insulina;
  • melhor funcionamento das mitocôndrias;
  • menor perda de massa muscular relacionada à idade.

Entretanto, os próprios autores destacam que a maior parte dessas evidências ainda demonstra associação, e não necessariamente uma relação direta de causa e efeito. Pessoas fisicamente ativas normalmente também apresentam alimentação mais rica em fibras, dormem melhor e têm menor prevalência de obesidade, fatores que influenciam simultaneamente a microbiota e a musculatura (Marchitto et al., 2026).

 

Uma bactéria capaz de aumentar a força?

Em 2026 surgiu um estudo bastante comentado envolvendo a bactéria Roseburia inulinivorans.

Os pesquisadores observaram que indivíduos com maior abundância dessa bactéria apresentavam melhor força muscular. Em modelos experimentais, sua administração também aumentou a força e modificou características das fibras musculares.

Naturalmente, a notícia ganhou enorme repercussão. Mas aqui vale uma importante lição científica.

Esse resultado não significa que tomar um probiótico contendo essa bactéria fará qualquer pessoa ficar mais forte.

Antes que isso possa ser recomendado, serão necessários estudos clínicos maiores, em diferentes populações, demonstrando benefícios consistentes e seguros.

 

E o VO₂ máximo?

Curiosamente, apesar de todo o entusiasmo nas redes sociais, as pesquisas de 2025 e 2026 ainda não demonstraram que modificar a microbiota aumente diretamente o VO₂ máximo em humanos.

O que parece ocorrer é algo mais sutil.

Uma microbiota saudável pode favorecer:

  • menor inflamação após o exercício;
  • recuperação mais rápida;
  • melhor utilização dos nutrientes;
  • melhor funcionamento das mitocôndrias;
  • adaptação mais eficiente ao treinamento.

Esses fatores podem contribuir indiretamente para melhora do condicionamento físico ao longo do tempo, mas continuam dependentes do exercício regular. Não existe, até o momento, qualquer probiótico capaz de substituir o treinamento aeróbico.

 

A barreira intestinal também entrou na história

Outro tema que apareceu com frequência nas revisões recentes é a integridade da barreira intestinal.

Treinos muito intensos, especialmente realizados sob calor extremo, podem aumentar temporariamente a permeabilidade intestinal.

Quando isso acontece, pequenas quantidades de endotoxinas bacterianas podem atravessar a parede intestinal, aumentando a resposta inflamatória.

Em indivíduos bem treinados, alimentados adequadamente e com microbiota saudável, essa recuperação costuma ser rápida.

Por outro lado, alimentação pobre em fibras, excesso de alimentos ultraprocessados, privação de sono e estresse crônico podem dificultar esse processo e favorecer um ambiente inflamatório persistente (Xu et al., 2025).

 

A verdadeira novidade não é um suplemento

Talvez a maior descoberta das pesquisas recentes seja justamente aquilo que elas não encontraram.

Até o momento, não existe nenhuma bactéria, probiótico, suplemento ou alimento isolado capaz de reproduzir os benefícios produzidos pelo treinamento físico.

Ao contrário, praticamente todas as revisões chegam à mesma conclusão: a microbiota potencializa os efeitos de um estilo de vida saudável, mas não substitui seus pilares.

Esses pilares continuam sendo:

  • atividade física regular;
  • exercícios aeróbicos para melhorar o VO₂ máximo;
  • treinamento de força para preservar músculos e ossos;
  • alimentação rica em vegetais e fibras;
  • sono adequado;
  • controle do estresse.

 

Ciência ou entusiasmo?

Poucas áreas cresceram tanto nas redes sociais quanto a relação entre microbiota e desempenho físico.

Infelizmente, muitas manchetes extrapolaram aquilo que os estudos realmente demonstram.

Hoje já existe forte evidência de que o eixo intestino-músculo é um fenômeno biológico real.

Também existem evidências crescentes de que a microbiota influencia a saúde muscular e participa da adaptação ao exercício.

Por outro lado, ainda não podemos afirmar que alterar a microbiota aumentará o VO₂ máximo, fará alguém ganhar força de maneira significativa ou prolongará sua vida de forma independente.

Em ciência, essa diferença é fundamental.

O entusiasmo costuma perguntar: “O que isso poderá fazer no futuro?”

A boa ciência pergunta: “O que já foi demonstrado em seres humanos?”

Até 2026, a resposta é clara: a microbiota representa uma das áreas mais promissoras da medicina do exercício, mas continua sendo um complemento ao treinamento físico — jamais um substituto.

 

Referências

MARCHITTO, S. A. et al. The Gut–Muscle Axis in Sarcopenia: Mechanisms, Clinical Evidence, and Therapeutic Perspectives. Biomedicines, v. 14, n. 5, 2026.

XU, Y. et al. The gut-muscle axis: a comprehensive review of the interplay between physical activity and gut microbiota in the prevention and treatment of muscle wasting disorders. Frontiers in Microbiology, v. 16, 2025.

POWĘSKA, N. et al. Gut-muscle axis. Quality in Sport, 2026. Revisão narrativa com priorização sistemática de evidências sobre microbiota, exercício físico e desempenho.

MARTÍNEZ-TÉLLEZ, B. et al. Roseburia inulinivorans increases muscle strength. Gut, 2026 (publicação recente sobre associação entre microbiota e força muscular).

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