Medicinas Tradicionais: O Que Funciona, o Que Não Funciona e o Que Pode Fazer Mal

 

 

Há milhares de anos, a humanidade recorre a chás, ervas medicinais, agulhas, banhos, massagens e rituais para aliviar dores e tratar enfermidades. Muito antes do surgimento dos antibióticos, dos exames laboratoriais e das cirurgias modernas, a observação cuidadosa da natureza constituía praticamente a única ferramenta terapêutica disponível.

A chamada medicina tradicional engloba sistemas complexos e culturalmente ricos, como a Medicina Tradicional Chinesa, a Ayurveda indiana, as medicinas indígenas, as práticas populares europeias e inúmeras formas de fitoterapia desenvolvidas ao longo da história humana.

Algumas dessas práticas deram origem a medicamentos revolucionários. Outras mostraram benefícios parciais. Algumas revelaram-se ineficazes. E algumas, infelizmente, demonstraram potencial para causar danos importantes.

A grande questão enfrentada pela medicina moderna não é se uma prática é antiga ou recente. A pergunta central é outra:

Ela funciona?

E, igualmente importante:

Ela é segura?

A medicina baseada em evidências procura responder essas perguntas por meio de estudos clínicos rigorosos, revisões sistemáticas e metanálises. Contudo, existe um obstáculo econômico frequentemente ignorado.

Muitos remédios tradicionais derivam de plantas, minerais ou conhecimentos ancestrais que não podem ser patenteados. Como os custos para realizar ensaios clínicos de alta qualidade frequentemente ultrapassam milhões de dólares, há pouco incentivo econômico para que empresas privadas financiem pesquisas extensas sobre produtos que não gerarão exclusividade comercial.

Consequentemente, muitas práticas tradicionais permanecem em uma zona cinzenta: não porque tenham sido refutadas, mas porque jamais foram adequadamente estudadas.

Ainda assim, a ciência vem avançando rapidamente. Para compreender melhor esse cenário, podemos organizar as práticas tradicionais em cinco grandes categorias, que apresentaremos a seguir.

 

 

Disclaimer

Este artigo possui caráter exclusivamente informativo e educacional. Não pretende diagnosticar doenças, prescrever tratamentos ou substituir a avaliação individualizada realizada por médicos e outros profissionais de saúde devidamente habilitados. Toda decisão terapêutica deve ser tomada de forma personalizada, considerando as características clínicas de cada paciente.

 

  1. Práticas Consagradas e com Eficácia Cientificamente Demonstrada

Nesta categoria encontram-se terapias que nasceram em tradições antigas, mas que acumularam evidências científicas suficientemente robustas para justificar sua utilização complementar em determinadas situações clínicas.

Isso não significa que substituam tratamentos convencionais. Significa que possuem benefícios demonstráveis quando utilizadas de forma apropriada.

 

Acupuntura

A acupuntura talvez seja o exemplo mais conhecido.

Uma das maiores análises já realizadas sobre o tema reuniu dados individuais de aproximadamente 20 mil pacientes provenientes de dezenas de ensaios clínicos randomizados. Os resultados mostraram que a acupuntura foi superior tanto à ausência de tratamento quanto à acupuntura simulada no manejo de diversas formas de dor crônica, incluindo osteoartrite, lombalgia e cefaleias (Vickers et al., 2018).

Mais recentemente, um importante estudo multicêntrico randomizado envolvendo pacientes com cefaleia tensional crônica demonstrou redução significativa da frequência das crises em comparação aos grupos-controle (Zheng et al., 2022).

 

Artemísia e o Tratamento da Malária

Um dos maiores sucessos da integração entre tradição e ciência surgiu da Medicina Tradicional Chinesa.

A planta Artemisia annua era utilizada havia séculos para tratar febres. A partir dela foi isolada a artemisinina, substância que revolucionou o tratamento da malária e salvou milhões de vidas em todo o mundo (White, 2008).

O trabalho da pesquisadora chinesa Tu Youyou rendeu o Prêmio Nobel de Medicina em 2015.

 

Crataegus e Insuficiência Cardíaca

Outro exemplo interessante é o Crataegus, conhecido popularmente como espinheiro-alvar.

O estudo multicêntrico SPICE avaliou milhares de pacientes com insuficiência cardíaca leve a moderada e observou melhora de sintomas como fadiga e tolerância ao esforço físico quando utilizado como terapia complementar (Holubarsch et al., 2008).

 

Tai Chi e Exercícios Tradicionais Chineses

O Tai Chi, originalmente desenvolvido como arte marcial, tem demonstrado benefícios em equilíbrio, prevenção de quedas, osteoartrite e fibromialgia.

Uma revisão sistemática publicada no BMJ Open encontrou melhora significativa da função física e da qualidade de vida em idosos praticantes regulares (Huston; McFarlane, 2016).

 

Yoga

A Yoga também deixou de ser apenas uma prática espiritual para tornar-se objeto de investigação científica.

Uma revisão da Cochrane concluiu que a prática regular pode produzir melhora modesta, porém clinicamente relevante, na dor lombar crônica e na funcionalidade (Wieland et al., 2017).

 

Mindfulness e Meditação

Ensaios clínicos publicados no JAMA demonstraram benefícios no manejo da dor crônica, ansiedade, estresse e qualidade de vida, especialmente quando incorporados a programas estruturados de saúde (Cherkin et al., 2016).

 

Balneoterapia e Águas Termais

O uso terapêutico das águas minerais acompanha a humanidade desde a Antiguidade.

Uma revisão sistemática recente mostrou benefícios consistentes na redução da dor e melhora funcional em pacientes com doenças reumatológicas, particularmente artrite reumatoide e osteoartrite (Navarro-Ledesma et al., 2022).

 

2. Práticas com Benefícios Relatados e Evidências Científicas ainda Limitadas

Esta categoria costuma gerar desconforto porque envolve terapias que conquistaram enorme popularidade, mas que, após serem submetidas ao escrutínio científico rigoroso, não demonstraram efeitos específicos além daqueles produzidos pelo efeito placebo.

É importante compreender que “não funcionar além do placebo” não significa que o paciente esteja inventando sua melhora. O efeito placebo é um fenômeno neurobiológico genuíno, capaz de modular circuitos cerebrais relacionados à dor, ansiedade e bem-estar. O problema surge quando se atribui à substância ou técnica um efeito biológico que ela não possui.

O exemplo clássico são os Florais de Bach

Os Florais de Bach constituem outro exemplo frequentemente citado nas discussões sobre terapias complementares. Desenvolvidos na década de 1930 pelo médico britânico Edward Bach, esses preparados são amplamente utilizados em diversos países com o objetivo de promover equilíbrio emocional e bem-estar.

Do ponto de vista científico, os estudos realizados até o momento apresentam resultados limitados e, em geral, não demonstraram benefícios consistentes além daqueles observados nos grupos placebo. Uma revisão sistemática publicada na revista BMC Complementary and Alternative Medicine, que avaliou ensaios clínicos controlados envolvendo florais para ansiedade, estresse e outras condições psicológicas, concluiu que as evidências disponíveis eram insuficientes para demonstrar eficácia específica de forma robusta (Thaler et al., 2009).

Avaliações posteriores da literatura científica chegaram a conclusões semelhantes, destacando a necessidade de estudos metodologicamente mais rigorosos para esclarecer definitivamente o papel terapêutico dessas intervenções (Ernst, 2010).

Por outro lado, muitos usuários relatam benefícios subjetivos relacionados à sensação de acolhimento, autocuidado, tranquilidade e bem-estar emocional durante o uso dos florais. Esses relatos não devem ser desconsiderados, especialmente porque aspectos psicológicos, expectativas positivas e a relação terapêutica podem exercer influência significativa sobre a percepção dos sintomas e da qualidade de vida.

Dessa forma, os Florais de Bach permanecem como uma prática amplamente difundida e bem aceita por parte da população, embora as evidências científicas atualmente disponíveis ainda não permitam confirmar de maneira consistente os mecanismos ou efeitos terapêuticos específicos que lhes são atribuídos.

Talvez poucas práticas médicas complementares tenham sido tão estudadas e debatidas ao longo das últimas décadas como a homeopatia. Diversos ensaios clínicos, revisões sistemáticas e metanálises procuraram avaliar sua eficácia em diferentes condições clínicas, com resultados frequentemente heterogêneos e motivo de intenso debate na comunidade científica.

Uma das análises mais influentes sobre o tema, publicada na revista The Lancet, comparou estudos de homeopatia com estudos de medicina convencional e concluiu que, ao se considerar os ensaios de maior qualidade metodológica, os efeitos observados tendiam a ser compatíveis com respostas placebo (Shang et al., 2005).

Por outro lado, defensores da homeopatia argumentam que sua natureza altamente individualizada dificulta a avaliação por meio dos modelos tradicionais de pesquisa clínica, concebidos principalmente para testar intervenções padronizadas. Essa discussão permanece aberta em alguns círculos acadêmicos e continua sendo objeto de investigação e debate.

Independentemente da interpretação dos mecanismos envolvidos, muitos pacientes relatam melhora subjetiva do bem-estar, da qualidade de vida e da percepção de seus sintomas durante o acompanhamento homeopático. Parte desses benefícios pode estar relacionada a fatores como a escuta cuidadosa, a consulta prolongada, a relação terapêutica e outros componentes não específicos do cuidado em saúde, elementos reconhecidamente importantes em qualquer abordagem médica.

Dessa forma, a homeopatia ocupa uma posição singular no cenário da medicina contemporânea: embora permaneça controversa sob a ótica da medicina baseada em evidências, continua sendo praticada em diversos países, possuindo tradição histórica, reconhecimento institucional em alguns sistemas de saúde e uma base significativa de usuários e profissionais que defendem sua utilização complementar.

 

3. Práticas Seguras, Tradicionais, Mas Ainda Pouco Estudadas

Nem tudo que carece de evidência é necessariamente ineficaz.

Muitas intervenções tradicionais permanecem em uma espécie de “limbo científico”. São amplamente utilizadas há gerações, apresentam baixo risco e possuem plausibilidade biológica razoável, mas ainda carecem de ensaios clínicos robustos.

Entre elas podemos citar:

  • chá de camomila para relaxamento;
  • chá de erva-cidreira;
  • leite morno antes de dormir;
  • escalda-pés morno;
  • compressas mornas para cólicas;
  • gargarejos com água morna e sal para desconforto de garganta.

Uma revisão sobre a camomila sugere propriedades ansiolíticas leves e possível benefício sobre a qualidade do sono, embora a qualidade global das evidências ainda seja considerada moderada (Srivastava et al., 2010).

Nesses casos, mesmo quando parte do benefício decorre do chamado efeito placebo, isso não significa ausência de efeito clínico.

O placebo não é imaginação. Trata-se de uma resposta neurobiológica real envolvendo neurotransmissores, circuitos cerebrais e mecanismos de modulação da dor.

Uma importante revisão publicada no New England Journal of Medicine destacou como expectativa, contexto terapêutico e acolhimento podem produzir respostas fisiológicas mensuráveis em diversos sintomas (Colloca; Barsky, 2020).

 

 

 

  1. Práticas Potencialmente Perigosas: Quando o Natural Pode Fazer Mal

Existe um equívoco muito difundido segundo o qual tudo que é natural seria automaticamente seguro.

A história da medicina mostra exatamente o contrário.

Diversos venenos mortais são naturais. Da mesma forma, várias plantas medicinais possuem substâncias extremamente potentes, algumas úteis, outras perigosas.

Um dos exemplos históricos mais emblemáticos é a sangria.

Durante séculos, médicos acreditaram que inúmeras doenças resultavam de um desequilíbrio dos chamados “humores corporais”. A solução proposta era retirar sangue do paciente.

Hoje sabemos que essa prática, quando aplicada indiscriminadamente, frequentemente agravava doenças, provocava anemia, choque circulatório e aumentava a mortalidade. Apenas em situações muito específicas, como hemocromatose e policitemia vera, a flebotomia terapêutica permanece indicada (Porter, 1997).

Outro exemplo importante envolve a Ephedra sinica (Ma Huang), planta utilizada tradicionalmente na medicina chinesa.

No início dos anos 2000, suplementos contendo efedra tornaram-se populares para emagrecimento e aumento de energia. Estudos epidemiológicos e relatórios de farmacovigilância demonstraram associação com hipertensão arterial, arritmias, infarto agudo do miocárdio, acidente vascular cerebral e morte súbita (Bents et al., 2004).

Como consequência, sua comercialização foi proibida em diversos países.

Também merecem destaque as plantas que contêm ácido aristolóquico.

Pesquisas publicadas na Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS) demonstraram associação entre essas substâncias e o desenvolvimento de insuficiência renal grave, fibrose renal progressiva e câncer urotelial (Grollman et al., 2007).

Nos últimos anos surgiram ainda novas pseudoterapias potencialmente perigosas.

Entre elas destaca-se o chamado MMS (Miracle Mineral Solution), vendido fraudulentamente como cura para câncer, autismo, infecções e inúmeras outras doenças. Na realidade, trata-se de uma solução geradora de dióxido de cloro, substância semelhante a alvejantes industriais. Agências regulatórias como a FDA emitiram repetidos alertas devido aos riscos de intoxicação grave, insuficiência hepática e lesões gastrointestinais.

Outro exemplo é o uso indiscriminado de prata coloidal, frequentemente promovida como antibiótico natural universal. Além da ausência de eficácia comprovada para a maioria das indicações alegadas, pode provocar argiria, condição irreversível caracterizada pela coloração azulada permanente da pele.

Esses exemplos ilustram um princípio fundamental da medicina:

“Natural” não é sinônimo de “seguro”.

 

  1. Curandeirismo, Misticismo e Feitiçaria: O Limite Entre Cultura e Medicina

Chegamos à categoria mais delicada.

Ao longo da história, praticamente todas as sociedades desenvolveram práticas espirituais, religiosas ou mágicas destinadas à cura.

Benzimentos, amuletos, simpatias, objetos energizados, rituais de expulsão de doenças, feitiços e outras manifestações semelhantes fazem parte do assim chamado “patrimônio cultural da humanidade”. Sob a ótica da antropologia e da história das religiões, possuem enorme valor simbólico.

O problema surge quando tais práticas passam a ser apresentadas como substitutas de tratamentos médicos.

A medicina moderna exige mecanismos plausíveis, observáveis e reproduzíveis. Até o momento, não existem evidências científicas demonstrando que feitiçarias, simpatias ou rituais místicos sejam capazes de tratar diretamente infecções, cânceres, doenças autoimunes ou outras enfermidades orgânicas.

Mais grave ainda: diversas pesquisas mostram que o abandono ou adiamento de tratamentos eficazes em favor de terapias sem fundamento científico pode ter consequências devastadoras.

Um estudo publicado no JAMA Oncology avaliou pacientes com câncer potencialmente curável que optaram por terapias alternativas em substituição aos tratamentos convencionais. Os autores observaram aumento significativo do risco de morte nesses pacientes (Johnson et al., 2018).

Isso não significa negar a importância da espiritualidade. Pelo contrário. Diversos estudos sugerem que fé, religiosidade e suporte espiritual podem contribuir para o enfrentamento psicológico da doença, redução do sofrimento emocional e melhora da qualidade de vida.

 

Conclusão: O Que a Ciência nos Ensina Sobre as Tradições

A história da medicina é, em grande medida, a história da observação humana.

Muitas descobertas revolucionárias surgiram a partir da experiência acumulada por gerações. A aspirina teve origem em uma planta. A artemisinina nasceu da medicina tradicional chinesa. Diversos medicamentos modernos descendem diretamente de conhecimentos ancestrais.

Ao mesmo tempo, a história também nos mostra que tradição, por si só, não garante eficácia.

Algumas práticas tradicionais foram confirmadas pela ciência. Outras permanecem promissoras, mas ainda carecem de estudos.

Algumas mostraram-se ineficazes. E algumas revelaram-se francamente perigosas.

O verdadeiro compromisso da medicina moderna não é com o novo nem com o antigo. É com a verdade.

Uma boa ideia continua sendo uma boa ideia, mesmo que tenha cinco mil anos. Da mesma forma, uma prática ineficaz não se torna verdadeira apenas porque atravessou gerações. Embora frequentemente a própria ineficácia condene a prática à extinção.

Por isso, o melhor caminho talvez seja evitar tanto o dogmatismo científico quanto a aceitação acrítica das tradições.

A sabedoria está em permitir que a ciência investigue, confirme, refine ou descarte aquilo que a experiência humana acumulou ao longo dos séculos.

Enquanto isso, permanecem soberanos os pilares mais sólidos da saúde, respaldados por algumas das evidências mais robustas da medicina moderna: alimentação equilibrada, atividade física regular, sono adequado, manutenção do peso saudável, abstinência do tabagismo, evitar o álcool e adequado manejo do estresse.

Como demonstrado por grandes estudos prospectivos, incluindo análises derivadas do Nurses’ Health Study e do Health Professionals Follow-up Study, a adoção consistente desses hábitos pode acrescentar mais de uma década de vida livre de doenças crônicas (Li et al., 2018).

Nenhuma erva, ritual ou tecnologia substitui aquilo que continua sendo a mais poderosa intervenção terapêutica conhecida: um estilo de vida saudável aliado à medicina baseada em evidências.

 

 

Referências Bibliográficas

BENTS, C. S. et al. Association of adverse cardiovascular and central nervous system events with dietary supplements containing ephedra alkaloids. JAMA, v. 291, n. 2, p. 231-237, 2004.

CHERKIN, D. C. et al. Effect of mindfulness-based stress reduction vs cognitive behavioral therapy or usual care on back pain and functional limitations in adults with chronic low back pain. JAMA, v. 315, n. 12, p. 1240-1249, 2016.

COLLOCA, L.; BARSKY, A. J. Placebo and nocebo effects. New England Journal of Medicine, v. 382, n. 6, p. 554-561, 2020.

ERNST, E. Bach flower remedies: a systematic review of randomised clinical trials. Focus on Alternative and Complementary Therapies, v. 15, n. 4, p. 289-293, 2010.

GROLLMAN, A. P. et al. Aristolochic acid and the etiology of endemic (Balkan) nephropathy. Proceedings of the National Academy of Sciences, v. 104, n. 29, p. 12109-12114, 2007.

HOLUBARSCH, C. J. et al. The efficacy and safety of Crataegus extract WS 1442 in patients with heart failure: the SPICE trial. European Journal of Heart Failure, v. 10, n. 12, p. 1255-1263, 2008.

HUSTON, P.; McFARLANE, B. Health benefits of Tai Chi: what is the evidence? BMJ Open Sport & Exercise Medicine, v. 2, e000117, 2016.

JOHNSON, S. B. et al. Complementary medicine, refusal of conventional cancer therapy, and survival among patients with curable cancers. JAMA Oncology, v. 4, n. 10, p. 1375-1381, 2018.

LI, Y. et al. Impact of healthy lifestyle factors on life expectancies in the US population. Circulation, v. 138, n. 4, p. 345-355, 2018.

NAVARRO-LEDESMA, S. et al. Effectiveness of balneotherapy and spa therapy in patients with rheumatoid arthritis: a systematic review and meta-analysis. International Journal of Environmental Research and Public Health, v. 19, n. 11, 6580, 2022.

PORTER, R. The Greatest Benefit to Mankind: A Medical History of Humanity. London: HarperCollins, 1997.

SHANG, A. et al. Are the clinical effects of homoeopathy placebo effects? Comparative study of placebo-controlled trials of homoeopathy and allopathy. The Lancet, v. 366, n. 9487, p. 726-732, 2005.

SRIVASTAVA, J. K.; SHANKAR, E.; GUPTA, S. Chamomile: a herbal medicine of the past with bright future. Molecular Medicine Reports, v. 3, n. 6, p. 895-901, 2010.

THALER, K. et al. Bach Flower Remedies for psychological problems and pain: a systematic review. BMC Complementary and Alternative Medicine, v. 9, n. 16, 2009.

VICKERS, A. J. et al. Acupuncture for chronic pain: update of an individual patient data meta-analysis. The Journal of Pain, v. 19, n. 5, p. 455-474, 2018.

WHITE, N. J. Qinghaosu (artemisinin): the price of success. New England Journal of Medicine, v. 359, n. 10, p. 990-994, 2008.

WIELAND, L. S. et al. Yoga treatment for chronic non-specific low back pain. Cochrane Database of Systematic Reviews, n. 1, CD010671, 2017.

ZHENG, H. et al. Acupuncture for patients with chronic tension-type headache: a randomized clinical trial. Neurology, v. 99, n. 18, p. e2100-e2111, 2022.

FITOTERAPIA – TEM BASE CIENTÍFICA? É REGULAMENTADA?

 

Dr. Alisson Lima

Médico da equipe Lapinha, pós-graduado em Fitoterapia e Nutrologia.

 

 

Os fitoterápicos podem ser vantajosos desde que entendidos como complementares, não como substitutos, e utilizados dentro de um contexto clínico responsável. Vale também salientar que cerca de 30% dos medicamentos utilizados hoje em dia são originados, direta ou indiretamente, de plantas.

 

A fitoterapia consiste no uso de plantas medicinais e seus derivados para fins terapêuticos — seja na prevenção, alívio ou tratamento de enfermidades — em suas diversas formas farmacêuticas, como extratos, tinturas e chás. No Brasil é oficialmente reconhecida como uma das Práticas Integrativas e Complementares em Saúde (PICS) pelo Ministério da Saúde, desde 2006 (Portaria nº 971/2006, depois ampliada pela Portaria nº 849/2017), estando em uso em mais de 900 municípios pelo SUS[1].

Cerca de 30% dos medicamentos utilizados hoje em dia são originados, direta ou indiretamente, de plantas[2,3]. Nesse sentido, a Fitoterapia é um método de tratamento caracterizado pelo uso de plantas medicinais em suas diferentes apresentações farmacêuticas, em vez da utilização de substâncias ativas isoladas[4]. Ou seja, os diversos compostos presentes nas plantas compõem os medicamentos fitoterápicos, sendo obtidos exclusivamente de matérias-primas vegetais que tenham sua segurança e eficácia baseadas em evidências clínicas e que sejam caracterizados pela constância de sua qualidade[5,6].

A história da fitoterapia é também a história da medicina moderna que, desde o seu surgimento, na metade do século XIX, definiu-se como cientificamente orientada.

O conceito de fitoterapia foi introduzido no meio científico pelo médico francês Henri Leclerc (1870-1955), que vivia e clinicava em Paris. Ele fez inúmeras descrições do uso de plantas medicinais, em grande parte publicadas na influente revista médica francesa “La Presse Médicale”.  Leclerc resumiu sua experiência no manual “Précis de Phytothérapie”.

A maioria dos estudiosos da fitoterapia moderna entendem-na como parte da medicina cientificamente orientada. Sua exigência de aplicar aos fitoterápicos os mesmos métodos científicos que aos medicamentos sintéticos, e o fato de classificarem a fitoterapia como uma parte integrante da farmacoterapia moderna, merece ser apoiada[7].

 

  1. Conhecimento popular x ciência moderna

Do ponto de vista cultural, o uso de plantas medicinais faz parte de práticas ancestrais, repassadas de geração em geração. No entanto, a fitoterapia moderna busca integrar esse conhecimento popular a critérios científicos rigorosos. No SUS, essa integração se dá por meio da Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares (PNPIC), que destaca que as terapias baseadas em fitoterapia devem ser complementares, não substitutas da medicina alopática, e aplicadas por profissionais capacitados e com produtos que atendam a padrões de qualidade, segurança e eficácia[8].

 

Regulação e qualificação científica

  • Os medicamentos fitoterápicos (MF) passam por regulamentação específica (RDC Anvisa) e exigem comprovação de eficácia e segurança por meio de estudos clínicos ou etnofarmacológicos rigorosos. Já os produtos tradicionais fitoterápicos (PTF) baseiam-se principalmente no uso prolongado e na tradição popular[9].
  • A pesquisa científica evoluiu nos últimos anos, com diversos estudos clínicos envolvendo plantas como Passiflora incarnata (maracujá), Valeriana officinalis e Hypericum perforatum, principalmente para transtornos como ansiedade e insônia leve ou moderada[10].
  • Contudo, a literatura científica destaca que o nível de evidência varia muito. Revisões sistemáticas exigem ensaios clínicos controlados, randomizados, cegos e com amostra adequada — ainda escassos para muitos fitoterápicos[11].
  1. Não se deve substituir medicamentos consolidados sem critério clínico

É fundamental destacar que não se deve substituir um tratamento farmacológico convencional por um fitoterápico sem base clínica consistente. Alguns dos principais riscos incluem:

  • Interações medicamentosas e toxicidade: certos fitoterápicos podem interagir com fármacos sintéticos ou resultar em efeitos adversos, incluindo, desde efeitos sob o sistema nervoso central, até efeitos sobre o metabolismo, controle hormonal, função cardíaca, digestiva, dentre outros, especialmente se utilizados sem orientação ou se o produto tiver qualidade duvidosa[12].
  • Desconhecimento técnico: muitos profissionais de saúde não recebem formação adequada em fitoterapia. Pesquisas identificaram que a indicação ocorre muitas vezes por automedicação, com base em experiências familiares ou pela mídia, sem respaldo profissional[13].
  • Dados revelam que uma proporção significativa de pacientes que usam plantas medicinais (79%) não teve orientação adequada, enquanto grande parte dos prescritores não está bem informada sobre os fitoterápicos disponíveis no SUS[14].
  1. Importância da comprovação de eficácia

Aspectos fundamentais

A questão sobre a comprovação da eficácia dos medicamentos foi discutida de forma muito intensa e controversa nas últimas décadas, sem um resultado definitivo. O dogma da força de comprovação exclusiva dos estudos duplo-cego, randomizados e controlados já foi abalado por Kienle (1977), mas nem por isso invalidado. Kiene (1994) retomou esse questionamento e retrabalhou sua dimensão teórica. Trata-se, por um lado, da tentativa de avaliar a ação de um medicamento, observado de forma isolada, em uma terapia, eliminando todas as outras interferências possíveis, e, por outro lado, da objetividade dos resultados.

A problemática científica do famoso efeito placebo baseia-se no fato de que o surgimento desse efeito ainda não foi bem esclarecido. Uma clássica e extensa descrição do efeito do placebo foi publicada por Kienle (1995).

No entanto, soa sensato valorizar a experiência terapêutica antes de se afirmar que alguma abordagem com fármacos é cientificamente robusta. Qualquer paciente esclarecido se sentirá menos seguro em submeter-se a um tratamento que se apoie apenas em resultados obtidos por estudos duplo-cegos, sem experiência alguma. Sobre a importância da experiência, Abraham Lincoln já dizia: “Pode-se enganar um pequeno número de pessoas por um longo tempo e um número grande de pessoas por um curto tempo”.

Veja bem, “é impossível enganar um grande número de pessoas por um longo tempo!” No campo da farmacoterapia pode-se traduzir como: o uso prolongado de um fármaco, constantemente solicitado pelos pacientes e prescrito pelos médicos, atesta a sua eficácia — mesmo sem ensaios duplo-cegos.

Na preparação da nova Legislação Alemã de Medicamentos (Deutschen Arzneimit-telgesetzes (AMGI), que vigora desde 1° janeiro de 1978, tendo sido revisada e complementada várias vezes, o Comitê de Preparação da Lei para a Juventude, Família e Saúde afirmou o seguinte, em seu relatório de 28/4/1976:

A eficácia dos fitoterápicos foi avaliada como segura ou suficientemente provável segundo pelo menos um dos critérios a seguir:

  1. A ação e a eficácia foram comprovadas através do registro em artigos de revisão respeitados, em manuais ou livros-texto de formação.
  2. Resultados em estudos controlados em comparação com placebo ou substâncias de referência.
  3. Provas clínicas documentadas, mas insuficientes para a recomendação de liberação; no entanto com resultados experimentais confirmatórios que apontem no mesmo sentido das provas clínicas.
  4. Material de conhecimento científico encontra-se disponível.
  5. Existem conhecimentos baseados na experiência prática e resultantes de observação, mas insuficientes para uma recomendação de liberação; no entanto, são conhecidos resultados convincentes de ensaios experimentais, observações ou indícios adicionais passíveis de avaliação.

Para a fitoterapia, a AMGI representa um ponto de virada também no sentido de uma terapia moderna, baseada em avaliações de acordo com critérios científicos.[15].

 

Conclusão

A fitoterapia é uma área legítima de atuação que une saberes tradicionais e avanços científicos, reconhecida no Brasil como prática integrativa. Pode oferecer benefícios em determinadas condições, desde que seus produtos sejam regulados e embasados em evidências, prescritos por profissionais qualificados.

Entretanto, não se deve substituir um medicamento convencional — com eficácia e segurança comprovadas — por um fitoterápico sem critérios clínicos e científicos claros. A automedicação, o uso sem orientação ou com produtos de qualidade duvidosa, e a falta de conhecimento técnico, expõem o paciente a riscos desnecessários. O ideal é que fitoterápicos sejam entendidos como complementares, não como substitutos, e utilizados dentro de um contexto clínico responsável.

 

 

 

Referências

  1. PORTARIA Nº 971, DE 03 DE MAIO DE 2006. Aprova a Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares (PNPIC) no Sistema Único de Saúde. https://bvsms.saude.gov.br/bvs/saudelegis/gm/2006/prt0971_03_05_2006.html#:~:text=PORTARIA%20N%C2%BA%20971%2C%20DE%2003,no%20Sistema%20%C3%9Anico%20de%20Sa%C3%BAde.

 

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  2. Dias ECM, Trevisan DD, Nagai SC, Ramos NA, Silva EM. Uso de fitoterápicos e potenciais riscos de interações medicamentosas: Reflexões para prática segura. Ver Baiana Saúde Públ. 2017; 41(2): 297- 307. [https://doi.org/10.22278/2318 2660.2017.v41.n2.a2306].
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  4. Cechinel Filho V, Zanchett CCC. Fitoterapia avançada: uma abordagem química, biológica e nutricional. São Paulo: Artmed, 2020. p.216. ISBN-1 0 :6581335142.
  5. Neves TON. Principais interações entre medicamentos e as plantas medicinais e/ou fitoterápicos. Uberaba. 2019. 41p. Trabalho de Conclusão de Curso [Graduação em Farmácia] – Universidade de Uberaba. Uberaba. MG. 2019. [https://repositorio.uniube.br/handle/123456789/1618].
  6. Volker Fintelmann, Rudolf Fritz Weiss. Manual de Fitoterapia. 11ª edição. 3-7p.

 

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  1. ORIENTAÇÕES SOBRE O USO DE FITOTERÁPICOS E PLANTAS MEDICINAIS, no https://www.gov.br/anvisa/pt br/centraisdeconteudo/publicacoes/medicamentos/publicacoes-sobre-medicamentos/orientacoes-sobre-o-uso-de-fitoterapicos-e-plantas-medicinais.pdf; Acesso 14 de Agosto de 2025.

 

  1. Ministério da Saúde. Memento Fitoterápico (1ª edição), no https://www.gov.br/saude/pt-br/composicao/sectics/plantas-medicinais-e-fitoterapicos/arquivos/2016/memento-fitoterapico-1a-edicao.pdf/@@download/file; Acesso 18 de Agosto de 2025.
  2. Ralph Santos Oliveira1*, Waldeciro Colaço2, Simone Coulaud-Cunha3, Selma Rodrigues de Castilho4. Revisão sistemática em fitoterapia: padronização internacional de qualidade. Revista Brasileira de Farmacognosia Brazilian Journal of Pharmacognosy 17(2): 271-274, Abr./Jun. 2007

 

  1. Ruver-Martins, Ana Carolina1, Silva, Barbara Ribas da2. Interações medicamentosas entre medicamentos fitoterápicos e alopáticos: uma revisão de literatura sobre potenciais interações e suas manifestações. Revista Fitos. Rio de Janeiro. 2024; 18(1): e1629 | e-ISSN: 2446-4775 | www.revistafitos.far.fiocruz.br

 

  1. Leite et al. Avaliação do conhecimento e percepção de estudantes de farmácia sobre a fitoterapia em uma universidade pública, Brasil. Revista Fitos. Rio de Janeiro. 2024; Supl(2): e1508 | e-ISSN: 2446-4775 | www.revistafitos.far.fiocruz.br

 

  1. Melo DN, Celano RMG, Aoyama EM, Soares Neto JAR et al. Utilização das plantas medicinais e fitoterápicos na prática clínica de profissionais da saúde de Foz do Iguaçu, Paraná. Rev Fitos. Rio de Janeiro. 2024; 18(1): e1615. e-ISSN 2446.4775. Disponível em: <https://revistafitos.far.fiocruz.br/?journal=revista-fitos&page=article&op=view&path%5B%5D=1615>. Acesso em: 18/08/2025.

 

  1. Volker Fintelmann, Rudolf Fritz Weiss. Manual de Fitoterapia. 11ª edição. 11-13p.

 

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