Poucas plantas brasileiras carregam uma história tão curiosa quanto a taiuiá, também chamada de tayuya, taiuá, abobrinha-do-mato ou cabeça-de-negro. Trata-se da Cayaponia tayuya (Vell.) Cogn., uma trepadeira da família Cucurbitaceae, nativa do Brasil e encontrada também em outras regiões da América do Sul. Sua principal parte medicinal é a grande raiz tuberosa, utilizada tradicionalmente há séculos na medicina popular.
Registros etnobotânicos brasileiros descrevem seu emprego para diferentes finalidades, especialmente em problemas reumáticos, inflamatórios, dermatológicos e digestivos. A planta chegou a ser incluída na Farmacopeia Brasileira no início do século XX, evidenciando que seu uso medicinal não ficou restrito às tradições populares (AQUILA et al., 2009).
Uma planta tradicional, mas pouco estudada
Apesar de sua longa história de utilização, a taiuiá está longe de ser uma planta extensivamente estudada. As publicações científicas indexadas são relativamente poucas e concentram-se principalmente em fitoquímica e modelos experimentais de inflamação.
Já na década de 1980 foram identificadas na planta substâncias pertencentes ao grupo das cucurbitacinas, além de flavonoides. As cucurbitacinas são triterpenos característicos de várias plantas da família Cucurbitaceae e apresentam atividades biológicas importantes, mas também exigem cautela devido ao seu potencial citotóxico (BAUER et al., 1984; FARIA; SCHENKEL, 1987).
Estudos posteriores encontraram atividade anti-inflamatória de extratos da raiz e de compostos isolados, particularmente a 23,24-dihidrocucurbitacina B e a cucurbitacina R. Em modelos animais, esses compostos reduziram diferentes manifestações experimentais de inflamação e artrite (RECIO et al., 2004; ESCANDELL et al., 2006). Também foram identificados flavonoides capazes de interferir experimentalmente em vias relacionadas à COX-2 e à iNOS (AQUILA et al., 2009).
É importante, entretanto, não transformar esses resultados em uma promessa terapêutica. Esses estudos são predominantemente pré-clínicos; não demonstram que a taiuiá trate artrite, inflamação ou outras doenças em seres humanos.
E o fígado e a digestão?
Na tradição fitoterápica, a raiz amarga da taiuiá também é associada a efeitos digestivos, depurativos e sobre a eliminação da bile. É nesse contexto que aparecem as descrições de ação colagoga e colerética.
Os termos são semelhantes, mas não significam exatamente a mesma coisa. Uma substância colerética estimula a produção e/ou secreção de bile pelo fígado. Uma substância colagoga, por sua vez, favorece a liberação da bile armazenada na vesícula biliar para o intestino.
Esse mecanismo, em teoria, pode contribuir para a digestão das gorduras e para o fluxo adequado da bile.
Mas aqui é necessário fazer uma distinção importante: a atribuição de efeito colagogo ou colerético à taiuiá pertence principalmente ao conhecimento tradicional e às descrições fitoterápicas; não há clínicos modernos que comprovem esse efeito em seres humanos, nem estudos experimentais indexados suficientemente robustos que permitam afirmar que esse seja um efeito farmacológico estabelecido da espécie.
Portanto, seria mais correto dizer que a taiuiá é tradicionalmente empregada como planta de ação digestiva e biliar, e não que seu efeito colerético esteja cientificamente comprovado.
Quais poderiam ser seus benefícios?
Considerando o conjunto de evidências disponíveis, podemos separar tradição de ciência.
Tradicionalmente, a raiz é utilizada como digestiva, depurativa, anti-reumática e anti-inflamatória, além de ter sido empregada em diferentes problemas de pele e outras condições descritas pela medicina popular brasileira.
Na pesquisa experimental, o aspecto mais interessante está na atividade anti-inflamatória. Estudos com extratos e compostos isolados da raiz demonstraram efeitos em modelos animais de edema e artrite, além de alterações em mediadores inflamatórios (RÍOS et al., 1990; RECIO et al., 2004; ESCANDELL et al., 2006; AQUILA et al., 2009).
Isso torna a taiuiá uma planta farmacologicamente interessante, mas ainda não permite classificá-la como tratamento comprovado para doenças inflamatórias.
Como o chá é tradicionalmente preparado?
Por se tratar de uma raiz, o preparo tradicional tende a ser diferente daquele utilizado para folhas e flores.
A forma descrita na literatura etnofarmacológica é a preparação da raiz em água, tradicionalmente por infusão ou decocção. Há também registros do emprego da raiz pulverizada. Uma descrição da literatura cita aproximadamente 1 a 2 g da raiz seca pulverizada, podendo ser administrada com água ou outro veículo, duas a três vezes ao dia (AQUILA et al., 2009).
Para uso doméstico, entretanto, é importante evitar transformar essa informação tradicional em uma prescrição universal. Não existe uma dose terapêutica clínica bem estabelecida e padronizada para a taiuiá.
Quando se utiliza a raiz em forma de chá, uma preparação tradicional é feita com a raiz seca, previamente fragmentada, em água quente, mantendo-a em contato com a água por alguns minutos. Por se tratar de material vegetal mais duro, a decocção suave é uma alternativa tradicionalmente empregada.
Cuidado com o excesso
O fato de ser uma planta natural não significa que seja necessariamente inofensiva.
A taiuiá contém cucurbitacinas, compostos biologicamente ativos que, em determinadas concentrações, podem apresentar efeitos citotóxicos. Estudos experimentais demonstraram atividade biológica significativa de seus constituintes, e fontes fitoterápicas brasileiras alertam que doses elevadas podem provocar irritação gastrointestinal e alterações neurológicas.
Assim, o uso exagerado pode provocar náuseas, desconforto abdominal, vômitos ou diarreia, entre outros sintomas. A segurança de uso prolongado também não está adequadamente estabelecida.
É mais seguro portanto usar quantidades pequenas por não mais que poucas semanas. O benefício terapêutico também não se perde.
Também é prudente evitar seu uso durante gestação e lactação, justamente pela insuficiência de dados de segurança.
Uma planta interessante — e ainda misteriosa
A taiuiá representa um bom exemplo de como a medicina tradicional pode apontar caminhos para a pesquisa científica. Uma planta utilizada durante gerações contém moléculas biologicamente ativas que, em laboratório, demonstraram propriedades anti-inflamatórias interessantes.
Ao mesmo tempo, a história da taiuiá mostra por que é necessário separar tradição, plausibilidade biológica e evidência clínica.
Seu possível efeito digestivo é particularmente interessante, ainda que permaneça mais baseado no uso tradicional do que em ensaios clínicos.
Já suas propriedades anti-inflamatórias possuem algum respaldo experimental, embora ainda faltem estudos clínicos que permitam estabelecer eficácia e segurança em seres humanos.
Talvez seja justamente essa combinação de história, química e ciência ainda incompleta que torne a pequena raiz amarga da taiuiá tão interessante.
Disclaimer
Este texto tem finalidade educativa e informativa e não substitui avaliação médica individualizada. O uso tradicional de uma planta medicinal não significa que sua eficácia ou segurança estejam comprovadas para todas as situações clínicas. A taiuiá possui compostos biologicamente ativos e não deve ser utilizada indiscriminadamente, em doses elevadas ou por períodos prolongados. Pessoas com doenças hepáticas e biliares significativas, gestantes, lactantes, crianças e indivíduos em uso de medicamentos devem consultar profissional habilitado antes de utilizá-la.
Referências
AQUILA, S. et al. Anti-inflammatory activity of flavonoids from Cayaponia tayuya roots. Journal of Ethnopharmacology, v. 121, n. 2, p. 333-337, 2009. DOI: 10.1016/j.jep.2008.11.002.
BAUER, R. et al. Cucurbitacins and flavone C-glycosides from Cayaponia tayuya. Phytochemistry, 1984.
ESCANDELL, J. M. et al. Dihydrocucurbitacin B, isolated from Cayaponia tayuya, reduces damage in adjuvant-induced arthritis. European Journal of Pharmacology, v. 532, n. 1-2, p. 145-154, 2006. DOI: 10.1016/j.ejphar.2005.12.028.
FARIA, M. R.; SCHENKEL, E. P. Caracterização de cucurbitacinas em espécies vegetais conhecidas popularmente como taiuiá. Ciência e Cultura, v. 39, p. 970-973, 1987.
HIMENO, E. et al. Structures of cayaponosides A, B, C and D, glucosides of new nor-cucurbitacins in the roots of Cayaponia tayuya. Chemical and Pharmaceutical Bulletin, v. 40, n. 10, p. 2885-2887, 1992. DOI: 10.1248/cpb.40.2885.
RECIO, M. C. et al. Anti-inflammatory activity of two cucurbitacins isolated from Cayaponia tayuya roots. Planta Medica, v. 70, n. 5, p. 414-420, 2004. DOI: 10.1055/s-2004-818968.
RÍOS, J. L. et al. A study on the anti-inflammatory activity of Cayaponia tayuya root. Fitoterapia, v. 61, n. 3, p. 275-278, 1990.
RUPPELT, B. M. et al. Pharmacological screening of plants recommended by folk medicine as anti-snake venom—I. Analgesic and anti-inflammatory activities. Memórias do Instituto Oswaldo Cruz, v. 86, supl. 2, p. 203-205, 1991.