Diabetes Tipo 2 – É possível a remissão? A revolução do estilo de vida – Parte 2

 

Durante décadas, o tratamento do diabetes tipo 2 consistia basicamente em controlar a glicemia e tentar retardar suas complicações. Hoje, a pergunta mudou: será que, em alguns pacientes, é possível interromper a progressão da doença e até alcançar sua remissão? A resposta da ciência é cautelosamente otimista.

 

Uma mudança que parecia impossível

Até poucos anos atrás, a frase “uma vez diabético, sempre diabético” era praticamente um dogma na Endocrinologia.

Acreditava-se que o diabetes tipo 2 fosse inevitavelmente progressivo: a glicemia aumentaria gradualmente, novos medicamentos seriam adicionados ao tratamento e, em algum momento, muitos pacientes precisariam de insulina.

Essa história natural continua sendo verdadeira para muitos indivíduos, especialmente quando a doença permanece sem controle adequado.

Entretanto, estudos publicados na última década mostraram que, em uma parcela significativa dos pacientes, principalmente nos primeiros anos após o diagnóstico, essa trajetória pode ser modificada (Riddle et al., 2021).

Hoje, as principais sociedades científicas reconhecem oficialmente o conceito de remissão do diabetes tipo 2.

O que significa remissão?

 

Remissão não significa cura. Segundo o consenso internacional da American Diabetes Association (ADA), da European Association for the Study of Diabetes (EASD), da Endocrine Society e de outras sociedades médicas, considera-se remissão quando a hemoglobina glicada permanece abaixo de 6,5% durante pelo menos três meses sem medicamentos para diabetes (Riddle et al., 2021).

Isso significa que o metabolismo voltou temporariamente à normalidade. Entretanto, a predisposição permanece.

Se houver novo ganho de peso, sedentarismo ou retorno de hábitos inadequados, a doença poderá reaparecer.

 

Resumo Prático

✔ Remissão não é sinônimo de cura.

✔ O diabetes pode voltar.

✔ Mesmo em remissão, o acompanhamento médico continua sendo indispensável.

 

O que acontece dentro do organismo?

Uma das teorias mais influentes para explicar a remissão foi proposta pelo endocrinologista britânico Roy Taylor.

Segundo a chamada Hipótese do Ciclo Duplo, o excesso de gordura corporal, especialmente a gordura visceral, leva inicialmente ao acúmulo de gordura no fígado.

Esse fígado torna-se resistente à insulina e passa a produzir glicose em excesso. Com o tempo, parte dessa gordura também se deposita no pâncreas, prejudicando progressivamente as células beta responsáveis pela produção de insulina.

Quando ocorre perda importante de peso, parte dessa gordura ectópica pode ser reduzida, permitindo recuperação parcial da função pancreática, sobretudo nos estágios iniciais da doença (Taylor, 2008; Taylor; Al-Mrabeh; Zhyzhneuskaya, 2021). Essa descoberta modificou profundamente nossa compreensão sobre o diabetes tipo 2.

 

O estudo que surpreendeu o mundo

Em 2018, pesquisadores britânicos publicaram um estudo que chamou enorme atenção da comunidade científica. O estudo DiRECT acompanhou pacientes com diabetes tipo 2 submetidos a um programa intensivo de perda de peso. Os resultados foram impressionantes.

Após um ano, aproximadamente 46% dos participantes haviam alcançado remissão do diabetes. Entre aqueles que perderam mais de 15 kg, essa taxa ultrapassou 80% (Lean et al., 2018). Esses resultados mostraram que, em pacientes cuidadosamente selecionados e com doença relativamente recente, a remissão deixou de ser apenas uma hipótese.

Naturalmente, isso não significa que todos os pacientes conseguirão os mesmos resultados. Quanto mais longa a duração do diabetes, menor tende a ser a reserva funcional das células beta do pâncreas.

 

Resumo Prático

Quanto mais cedo agir, maiores costumam ser as chances de remissão. Tempo é pâncreas.

 

O papel do emagrecimento

Nem sempre é necessário atingir o chamado “peso ideal”. Estudos mostram que perdas de 5% a 10% do peso corporal já promovem benefícios metabólicos importantes.

Quando a perda ultrapassa 10% a 15%, muitos pacientes apresentam melhora expressiva da resistência à insulina, redução da gordura hepática, melhora da esteatose e controle glicêmico significativamente melhor (ADA, 2025).

O objetivo, portanto, não deve ser apenas emagrecer. O objetivo é melhorar o metabolismo.

 

Circunferência abdominal: um número que merece atenção

Hoje sabemos que a fita métrica pode fornecer informações tão importantes quanto a balança.

A gordura localizada na região abdominal — especialmente a gordura visceral — produz citocinas inflamatórias e hormônios que favorecem resistência à insulina, hipertensão arterial, dislipidemia e aumento do risco cardiovascular (Eckel; Grundy; Zimmet, 2005).

Por isso, reduzir a circunferência abdominal representa uma meta terapêutica importante.

Em muitos casos, ela melhora antes mesmo de ocorrer grande redução do peso corporal.

 

A musculatura é uma aliada no controle do diabetes

Durante muito tempo o tratamento enfatizou apenas a perda de gordura. Hoje sabemos que preservar ou aumentar a massa muscular é igualmente importante.

O músculo é o principal destino da glicose após as refeições. Quanto maior a massa muscular ativa e melhor seu condicionamento, maior tende a ser a sensibilidade à insulina.

Por essa razão, diretrizes atuais recomendam combinar exercícios aeróbicos com treinamento de força (musculação ou exercícios resistidos), sempre respeitando as limitações individuais (Colberg et al., 2022).

 

Resumo Prático

Os dois melhores exercícios para quem tem diabetes são aqueles que conseguem ser mantidos por toda a vida.

Idealmente, combine:

✔ atividade aeróbica;

✔ fortalecimento muscular;

✔ redução do tempo sentado.

 

O que comer?

Talvez não exista outra pergunta tão frequente no consultório. A resposta pode decepcionar quem procura uma dieta milagrosa.

Até o momento, não existe uma única alimentação considerada ideal para todos os pacientes com diabetes.

O que existe são padrões alimentares consistentemente associados a melhores resultados.

Entre eles destacam-se:

  • dieta mediterrânea;
  • alimentação baseada em vegetais;
  • redução de alimentos ultraprocessados;
  • maior consumo de legumes, verduras, frutas, oleaginosas e grãos integrais;
  • ingestão adequada de proteínas;
  • preferência por gorduras insaturadas, como azeite de oliva e peixes.

Mais importante do que seguir uma dieta da moda é construir um padrão alimentar que possa ser mantido durante toda a vida.

 

E a microbiota intestinal?

Nas últimas décadas, a microbiota intestinal tornou-se um dos temas mais estudados da medicina. Hoje sabemos que as bactérias intestinais participam da digestão, produzem metabólitos importantes e influenciam o sistema imunológico e o metabolismo energético.

Diversos estudos mostram que indivíduos com obesidade e diabetes apresentam alterações na composição da microbiota intestinal. Entretanto, ainda não está claro se essas alterações representam causa, consequência ou ambos os fenômenos (Fan; Pedersen, 2021).

Apesar do enorme interesse científico, ainda não existem probióticos ou “tratamentos da microbiota” capazes de promover remissão do diabetes de forma consistente.

A melhor maneira conhecida de favorecer uma microbiota saudável continua sendo uma alimentação rica em fibras, frutas, verduras, legumes e alimentos minimamente processados.

 

Os fitoterápicos ajudam?

Essa é outra pergunta muito comum. Alguns fitoterápicos apresentam resultados promissores em estudos clínicos, mas nenhum substitui mudanças no estilo de vida ou medicamentos quando estes são necessários. Entre os mais estudados destacam-se:

  • Berberina: talvez o fitoterápico com melhor evidência para melhora da glicemia e da resistência à insulina. Alguns estudos mostram resultados comparáveis aos da metformina em pacientes selecionados, embora a qualidade metodológica ainda seja variável (Yin et al., 2008; Wang et al., 2021).
  • Psyllium: fibra solúvel que auxilia no controle glicêmico pós-prandial e melhora o perfil lipídico.
  • Canela (Cinnamomum spp.): meta-análises sugerem benefícios modestos sobre glicemia e hemoglobina glicada, mas os resultados são heterogêneos.
  • Feno-grego (Trigonella foenum-graecum): pode retardar a absorção de carboidratos e contribuir discretamente para o controle glicêmico.
  • Gymnema sylvestre: planta tradicional da medicina ayurvédica com resultados promissores, porém ainda insuficientes para recomendação rotineira.

Em todos esses casos, os fitoterápicos devem ser considerados adjuvantes, e não substitutos do tratamento convencional.

 

Resumo Prático

Fitoterápicos podem ajudar alguns pacientes.

Mas eles não substituem:

✔ alimentação saudável;

✔ atividade física;

✔ perda de peso;

✔ medicamentos quando indicados.

 

O que é Intensive Lifestyle Intervention (ILI)?

Uma das expressões mais importantes da medicina moderna é Intervenção Intensiva no Estilo de Vida (Intensive Lifestyle Intervention – ILI).

Em vez de oferecer apenas recomendações genéricas, os programas de ILI combinam:

  • reeducação alimentar;
  • exercício físico supervisionado;
  • melhora do sono;
  • redução do estresse;
  • acompanhamento multiprofissional;
  • educação em saúde;
  • suporte psicológico;
  • seguimento prolongado.

Essa estratégia foi responsável pelos excelentes resultados observados em estudos como o Diabetes Prevention Program (DPP) e o Look AHEAD, além de inspirar programas clínicos desenvolvidos em diversos centros especializados (Knowler et al., 2002; Look AHEAD Research Group, 2013).

Na prática clínica, o maior desafio não costuma ser perder peso por algumas semanas, mas construir hábitos que permaneçam por muitos anos.

 

Conclusão

A maior revolução recente no tratamento do diabetes tipo 2 talvez não tenha sido um novo medicamento, mas uma nova forma de compreender a doença. Hoje sabemos que o excesso de gordura visceral, a perda de massa muscular, a alimentação inadequada, o sedentarismo e outros fatores do estilo de vida participam diretamente de sua fisiopatologia. Isso significa que intervenções intensivas e sustentáveis sobre esses fatores podem modificar a história natural da doença, especialmente quando iniciadas precocemente.

Ao mesmo tempo, é importante manter expectativas realistas. Nem todos os pacientes alcançarão remissão, e isso não deve ser encarado como fracasso. Cada organismo possui características próprias, influenciadas pela genética, pelo tempo de evolução do diabetes, pela reserva funcional do pâncreas e pelas doenças associadas. O verdadeiro sucesso não está apenas em normalizar a glicemia, mas em reduzir complicações, preservar a qualidade de vida e devolver ao paciente o protagonismo sobre sua própria saúde.

 

Na próxima parte…

Até aqui vimos que mudanças no estilo de vida podem transformar profundamente a evolução do diabetes. Mas a medicina também viveu outra revolução: a chegada de medicamentos capazes não apenas de reduzir a glicemia, mas também de proteger o coração, os rins e promover perda significativa de peso.

Na próxima parte, conheceremos a história dos medicamentos para diabetes — da insulina e da metformina aos inibidores de SGLT2, aos análogos de GLP-1, aos agonistas duplos GIP/GLP-1, como a tirzepatida, e às novas moléculas, como a retatrutida, que prometem redefinir mais uma vez o tratamento da doença.

 

Referências

AMERICAN DIABETES ASSOCIATION. Standards of Care in Diabetes—2025. Diabetes Care, Alexandria, v. 48, Suppl. 1, 2025.

COLBERG, S. R. et al. Exercise/Physical Activity in Individuals with Type 2 Diabetes: A Consensus Statement from the American College of Sports Medicine. Medicine & Science in Sports & Exercise, v. 54, n. 2, p. 353–368, 2022.

ECKEL, R. H.; GRUNDY, S. M.; ZIMMET, P. Z. The metabolic syndrome. The Lancet, London, v. 365, n. 9468, p. 1415–1428, 2005.

FAN, Y.; PEDERSEN, O. Gut microbiota in human metabolic health and disease. Nature Reviews Microbiology, London, v. 19, n. 1, p. 55–71, 2021.

KNOWLER, W. C. et al. Reduction in the incidence of type 2 diabetes with lifestyle intervention or metformin. The New England Journal of Medicine, Boston, v. 346, n. 6, p. 393–403, 2002.

LEAN, M. E. J. et al. Primary care-led weight management for remission of type 2 diabetes (DiRECT): an open-label, cluster-randomised trial. The Lancet, London, v. 391, n. 10120, p. 541–551, 2018.

LOOK AHEAD RESEARCH GROUP. Cardiovascular effects of intensive lifestyle intervention in type 2 diabetes. The New England Journal of Medicine, Boston, v. 369, n. 2, p. 145–154, 2013.

RIDDLE, M. C. et al. Consensus report: definition and interpretation of remission in type 2 diabetes. Diabetes Care, Alexandria, v. 44, n. 10, p. 2438–2444, 2021.

TAYLOR, R. Pathogenesis of type 2 diabetes: tracing the reverse route from cure to cause. Diabetologia, Berlin, v. 51, n. 10, p. 1781–1789, 2008.

TAYLOR, R.; AL-MRABEH, A.; ZHYZHNEUSKAYA, S. Remission of type 2 diabetes: always more questions, but enough answers for action. Diabetologia, Berlin, v. 64, n. 8, p. 1600–1609, 2021.

WANG, K. et al. Berberine in the treatment of type 2 diabetes mellitus: a systematic review and meta-analysis. Frontiers in Pharmacology, Lausanne, v. 12, 2021.

YIN, J. et al. Efficacy of berberine in patients with type 2 diabetes mellitus. Metabolism, New York, v. 57, n. 5, p. 712–717, 2008.

 

 

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