Jejum Intermitente e Emagrecimento: Entre a Ciência e os Modismos

 

Poucas estratégias nutricionais despertaram tanto entusiasmo nas últimas décadas quanto o jejum intermitente. Para alguns, ele representa uma verdadeira revolução na saúde metabólica. Para outros, tornou-se uma espécie de “religião alimentar”, cercada por promessas grandiosas, relatos quase milagrosos e uma legião de seguidores dispostos a defender seus benefícios com fervor quase doutrinário.

Nas redes sociais, não faltam afirmações impressionantes: o jejum emagreceria sem esforço, aceleraria o metabolismo, reduziria a inflamação, aumentaria a longevidade, rejuvenesceria células, preveniria doenças crônicas e até promoveria uma espécie de “limpeza” do organismo. Em contraposição, seus críticos frequentemente o descrevem como uma prática extrema, perigosa e potencialmente prejudicial. Mas afinal, quem está certo?

Como ocorre com muitos temas ligados à nutrição e ao emagrecimento, a resposta raramente se encontra nos extremos. Nem toda promessa associada ao jejum intermitente resiste ao rigor da ciência. Por outro lado, tampouco é correto descartar os benefícios que vêm sendo demonstrados em estudos clínicos cada vez mais numerosos e sofisticados.

O próprio conceito de jejum não é novidade. Durante praticamente toda a história da humanidade, períodos sem acesso regular aos alimentos fizeram parte da rotina. Nossos ancestrais frequentemente alternavam momentos de abundância e escassez, e o organismo humano desenvolveu mecanismos fisiológicos altamente eficientes para lidar com essas oscilações. Sob essa perspectiva evolutiva, pode-se argumentar que passar algumas horas sem comer é algo muito mais próximo da biologia humana do que a disponibilidade contínua de alimentos ultraprocessados observada na sociedade moderna.

Ao mesmo tempo, a popularização do tema trouxe simplificações perigosas. Muitos conteúdos difundidos na internet misturam conceitos científicos legítimos com interpretações exageradas, extrapolações indevidas e, por vezes, puro marketing. Não raro, resultados observados em estudos experimentais são apresentados ao público como verdades definitivas, ignorando limitações metodológicas, diferenças individuais e a complexidade do metabolismo humano.

A boa notícia é que a ciência avançou consideravelmente nos últimos anos. Hoje já dispomos de ensaios clínicos randomizados, revisões sistemáticas e metanálises envolvendo milhares de participantes, permitindo uma compreensão muito mais sólida dos reais benefícios, limitações e riscos do jejum intermitente. Essas pesquisas mostram que a prática pode ser uma ferramenta útil para algumas pessoas, especialmente no contexto do emagrecimento e da saúde metabólica. Contudo, também deixam claro que o jejum está longe de ser uma solução mágica e que seus resultados dependem de diversos fatores, incluindo a qualidade da alimentação, a composição corporal, o nível de atividade física, a saúde metabólica prévia e, principalmente, a capacidade de manter hábitos saudáveis a longo prazo.

Neste artigo, vamos explorar o que realmente acontece no organismo durante o jejum, analisar os principais estudos científicos publicados sobre o tema, discutir os potenciais benefícios e riscos, compreender os exageros frequentemente propagados pela mídia e apresentar orientações práticas para aqueles que desejam entender melhor essa estratégia alimentar. O objetivo não é defender nem condenar o jejum intermitente, mas oferecer uma visão equilibrada, fundamentada em evidências e livre dos modismos que tantas vezes dominam as discussões sobre saúde e emagrecimento.

Este artigo possui caráter exclusivamente informativo, educacional e de atualização científica. Não há qualquer intenção de prescrever tratamentos, estabelecer condutas ou substituir avaliação médica. O jejum intermitente pode trazer benefícios em determinados contextos, mas também pode envolver riscos importantes, especialmente para pessoas com diabetes, transtornos alimentares, uso de medicamentos, gestantes, idosos e indivíduos com doenças crônicas. Toda estratégia alimentar deve ser individualizada e conduzida por médico e demais profissionais de saúde devidamente capacitados.

 

 

O Jejum Intermitente Virou Quase uma “Religião” 

Poucos temas da nutrição moderna geraram tanto entusiasmo quanto o jejum intermitente. Na internet, é frequentemente apresentado como uma solução quase milagrosa capaz de:

  • derreter gordura;
  • rejuvenescer células;
  • reduzir inflamação;
  • prevenir câncer;
  • aumentar longevidade;
  • “resetar” o metabolismo.

Por outro lado, seus críticos às vezes o retratam como uma prática perigosa, insustentável ou até prejudicial. Como costuma acontecer na medicina, a verdade parece estar em algum ponto entre os extremos.

A boa notícia é que hoje já existem dezenas de estudos randomizados, revisões sistemáticas e metanálises avaliando o tema, permitindo separar melhor o que é ciência do que é marketing.

 

Afinal, O Que É Jejum Intermitente?

O jejum intermitente não é exatamente uma dieta. Ele é um padrão alimentar baseado no tempo em que se come. Os modelos mais populares incluem:

Método 16:8

  • 16 horas de jejum;
  • 8 horas de alimentação.

Exemplo:

  • última refeição às 20h;
  • primeira refeição ao meio-dia do dia seguinte.

Método 14:10

Mais suave e frequentemente melhor tolerado.

Dieta 5:2

Cinco dias normais e dois dias de restrição importante de calorias.

Alternate Day Fasting (ADF)

Alternância entre dias normais e dias de forte restrição calórica.

O Que Acontece no Corpo Durante o Jejum?

Muitas pessoas imaginam que o corpo entra imediatamente em “modo queima de gordura”. A realidade é mais interessante. Nas primeiras horas após a refeição, predominam:

  • digestão;
  • absorção;
  • liberação de insulina.

A insulina funciona como um hormônio armazenador.

Ela facilita a entrada de glicose nas células e favorece o armazenamento energético.

À medida que as horas passam sem ingestão alimentar, ocorre:

  • redução gradual da insulina;
  • aumento do glucagon;
  • mobilização das reservas energéticas.

Quando o jejum se prolonga, o organismo passa a utilizar mais gordura como combustível.

O fígado começa a produzir corpos cetônicos, especialmente:

  • beta-hidroxibutirato;
  • acetoacetato.

Essas moléculas servem como fonte alternativa de energia para diversos tecidos, inclusive o cérebro.

Estudos sugerem que os corpos cetônicos podem exercer efeitos anti-inflamatórios e influenciar positivamente mecanismos metabólicos (LONGO; MATTSON, 2014).

Ciclo alimentação-jejum

O corpo humano foi projetado para lidar tanto com períodos de abundância quanto com períodos de escassez de alimentos. Durante grande parte da história da humanidade, nossos ancestrais não tinham acesso contínuo à comida. Como consequência, desenvolvemos mecanismos sofisticados que permitem manter o funcionamento do organismo mesmo após várias horas sem comer.

Nas primeiras horas após uma refeição, o corpo encontra-se no chamado estado alimentado (fed state). Nesse período, os nutrientes recém-absorvidos são utilizados ou armazenados. A glicose proveniente dos carboidratos circula na corrente sanguínea e estimula a liberação de insulina pelo pâncreas.

A insulina funciona como uma espécie de “hormônio armazenador”. Ela facilita a entrada de glicose nas células e favorece o armazenamento de energia sob a forma de glicogênio no fígado e nos músculos, além de estimular a formação de gordura corporal quando há excesso energético.

À medida que as horas passam sem ingestão alimentar, os níveis de insulina começam a cair. Em contrapartida, aumenta a produção de glucagon, um hormônio que atua como um verdadeiro contraponto da insulina.

Enquanto a insulina promove armazenamento, o glucagon promove mobilização de energia.

Entre aproximadamente 12 e 24 horas de jejum, o organismo passa a utilizar progressivamente os estoques de glicogênio hepático para manter a glicemia dentro da faixa normal. Esse mecanismo é fundamental porque algumas células, especialmente determinadas regiões do cérebro e os glóbulos vermelhos, dependem direta ou indiretamente da glicose para funcionar adequadamente.

Conforme os estoques de glicogênio diminuem, ocorre um aumento gradual da mobilização de gordura armazenada no tecido adiposo. Os triglicerídeos são quebrados em ácidos graxos e glicerol, processo conhecido como lipólise.

Os ácidos graxos passam então a ser utilizados como combustível por diversos tecidos do organismo.

Em jejuns mais prolongados, o fígado converte parte desses ácidos graxos em corpos cetônicos, especialmente beta-hidroxibutirato e acetoacetato. Essas moléculas representam uma importante fonte alternativa de energia para o cérebro, músculos e outros órgãos.

Essa mudança gradual do uso predominante de glicose para maior utilização de gordura e corpos cetônicos é conhecida como flexibilidade metabólica e constitui uma das adaptações mais fascinantes da fisiologia humana (Longo; Mattson, 2014).

Além disso, durante o jejum observam-se alterações em diversos hormônios relacionados ao apetite.

A grelina, frequentemente chamada de “hormônio da fome”, tende a apresentar picos em horários habituais das refeições. Curiosamente, esses picos costumam diminuir após algum tempo de adaptação ao jejum. Já hormônios relacionados à saciedade, como a leptina, sofrem ajustes mais complexos dependendo da duração do protocolo e da perda de peso obtida.

Outra resposta fisiológica importante é o discreto aumento da secreção de hormônio do crescimento (GH). Embora esse aumento não produza efeitos anabólicos expressivos por si só, acredita-se que participe da preservação da massa magra durante períodos de restrição alimentar.

 


Autofagia: A “Faxina Celular” Que Despertou o Interesse da Ciência

Entre os possíveis efeitos biológicos do jejum, poucos receberam tanta atenção quanto a autofagia. A palavra deriva do grego e significa literalmente “comer a si mesmo”.

Apesar do nome parecer assustador, trata-se de um processo absolutamente normal e essencial para a sobrevivência celular.

Imagine uma cidade que nunca recolhesse lixo, removesse equipamentos quebrados ou reciclasse materiais antigos. Com o tempo, haveria acúmulo de resíduos e perda de eficiência. Algo semelhante ocorre dentro das células.

Ao longo da vida, proteínas envelhecidas, fragmentos celulares danificados e organelas defeituosas vão se acumulando. A autofagia funciona como um sofisticado sistema interno de reciclagem.

Durante esse processo, estruturas celulares desgastadas são identificadas, degradadas e transformadas novamente em matéria-prima para a própria célula.

Em 2016, o pesquisador japonês Yoshinori Ohsumi recebeu o Prêmio Nobel de Fisiologia ou Medicina por suas contribuições fundamentais para a compreensão dos mecanismos da autofagia (Ohsumi, 2014).

Em modelos experimentais, a redução da disponibilidade de nutrientes — como ocorre durante o jejum — é um dos estímulos capazes de aumentar a atividade autofágica.

Essa ativação parece envolver vias metabólicas importantes, incluindo:

  • redução da sinalização da insulina;
  • diminuição da atividade da proteína mTOR;
  • ativação da AMPK;
  • aumento da resistência celular ao estresse.

Em estudos com animais, a autofagia tem sido associada à melhora da função metabólica, proteção neuronal, redução do acúmulo de proteínas defeituosas e aumento da longevidade.

Entretanto, aqui é importante separar ciência de especulação.

Grande parte das evidências mais impressionantes sobre autofagia provém de estudos laboratoriais e modelos animais. Em humanos, ainda não sabemos exatamente quanto tempo de jejum é necessário para induzir níveis clinicamente relevantes de autofagia, nem qual a magnitude real de seus efeitos sobre saúde, envelhecimento e prevenção de doenças.

Por esse motivo, embora a autofagia seja um fenômeno biologicamente fascinante e cientificamente bem estabelecido, muitas das promessas encontradas na internet sobre “limpeza celular profunda”, “rejuvenescimento acelerado” ou “cura de doenças” permanecem muito além daquilo que as evidências atuais permitem afirmar.

Talvez a forma mais equilibrada de enxergar a autofagia seja esta: trata-se de um mecanismo natural de manutenção celular que provavelmente contribui para alguns dos benefícios metabólicos observados durante o jejum, mas que ainda está longe de justificar as alegações quase milagrosas frequentemente divulgadas nas redes sociais.

 

O Grande Mito: O Jejum Possui Algum Poder Mágico?

Provavelmente não. Esta talvez seja a principal conclusão da literatura científica moderna.

Um importante estudo de revisão sistemática e metanálise em rede publicado pelo British Medical Journal em 2025 analisou dezenas de ensaios clínicos randomizados comparando diferentes modalidades de jejum intermitente com dietas convencionais de restrição calórica. Os autores observaram que o jejum realmente pode promover perda de peso, melhora glicêmica e benefícios metabólicos, porém os resultados foram geralmente semelhantes aos obtidos por dietas tradicionais quando a redução calórica total era parecida (SEMNANI-AZAD et al., 2025).

Em outras palavras: o jejum funciona. Mas não necessariamente porque existe alguma mágica metabólica exclusiva nele.

Grande parte do efeito parece ocorrer porque muitas pessoas acabam ingerindo menos calorias ao reduzir a janela alimentar.

 

 

Então o Jejum Não Funciona?

Funciona. Mas talvez não pelos motivos que muitos influenciadores afirmam.

Uma ampla metanálise publicada em 2025, envolvendo milhares de participantes com sobrepeso e obesidade, demonstrou que o jejum intermitente promove reduções significativas de peso corporal, circunferência abdominal e alguns marcadores cardiometabólicos (WANG; WANG; LI, 2025).

O ponto importante é que a superioridade sobre dietas convencionais costuma ser pequena ou inexistente. O melhor método provavelmente é aquele que a pessoa consegue manter por mais tempo, sem ameaça à saúde e à nutrição.

 

 

O Verdadeiro Desafio: Aderência

A maioria das dietas falha não porque sejam metabolicamente ruins. Falham porque as pessoas abandonam.

Uma observação interessante encontrada em diversos estudos é que alguns indivíduos consideram mais fácil não comer durante determinadas horas do que contar calorias o tempo todo (PARROTTA et al., 2025).

Para essas pessoas, o jejum pode simplificar a rotina. Para outras, gera sofrimento constante. Não existe abordagem universal.

 

 

O Problema Pouco Falado: Comer Demais Depois do Jejum

Aqui está um dos maiores riscos práticos. Algumas pessoas apresentam comportamento alimentar altamente compensatório. Após longos períodos sem comer, surgem:

  • fome intensa;
  • impulsividade alimentar;
  • episódios de hiperfagia;
  • consumo exagerado de alimentos ultraprocessados.

Nesse cenário, o déficit calórico desaparece rapidamente.

Pior ainda: pode surgir uma relação psicológica pouco saudável com a comida.

Uma metanálise publicada em 2025 observou que alguns protocolos de alimentação restrita no tempo podem aumentar significativamente a percepção subjetiva de fome em parte dos participantes (SILVA et al., 2025).

Por isso, o jejum não é necessariamente uma boa estratégia para todos.

 

 

O Que Comer Antes do Jejum?

Uma refeição pré-jejum inteligente costuma incluir:

  • proteínas;
  • fibras;
  • gorduras saudáveis;
  • vegetais.

Exemplos:

  • ovos com vegetais;
  • azeite;
  • castanhas;
  • abacate;
  • legumes.

Esses alimentos tendem a aumentar a saciedade.

Por outro lado, refeições ricas em:

  • açúcar;
  • farinha refinada;
  • sobremesas;
  • bebidas açucaradas;

podem favorecer oscilações glicêmicas e retorno precoce da fome.

 

 

E Como Quebrar o Jejum?

Outro erro comum é encerrar o jejum com:

  • pizza;
  • doces;
  • refrigerantes;
  • grandes volumes de comida.

Após horas de privação alimentar, isso pode gerar:

  • desconforto gastrointestinal;
  • picos glicêmicos;
  • sonolência;
  • exagero calórico.

Na prática, costuma ser mais racional iniciar a refeição com:

  • proteínas;
  • vegetais;
  • fibras.

Posteriormente acrescentando carboidratos conforme necessidade individual.

 

Diabéticos: Benefícios Possíveis, Mas Riscos Reais

Talvez nenhum grupo ilustre melhor a necessidade de individualização. Diversos estudos sugerem que protocolos de alimentação restrita no tempo podem melhorar:

  • glicemia;
  • resistência insulínica;
  • peso corporal;
  • hemoglobina glicada.

Uma revisão sistemática e metanálise publicada em 2026 encontrou melhora de diversos parâmetros metabólicos em pacientes com diabetes tipo 2 submetidos ao time-restricted eating (LU et al., 2026).

Entretanto, existe um detalhe extremamente importante.

Pacientes que utilizam:

  • insulina;
  • sulfonilureias;
  • alguns hipoglicemiantes;

podem apresentar episódios potencialmente perigosos de hipoglicemia. Portanto, jejum em diabéticos jamais deveria ser iniciado sem orientação médica adequada.

 

 

O Que a Ciência Diz Sobre Inflamação?

Existe grande interesse sobre os possíveis efeitos anti-inflamatórios do jejum.

Estudos experimentais sugerem que a redução periódica da ingestão alimentar pode influenciar:

  • citocinas inflamatórias;
  • estresse oxidativo;
  • sinalização metabólica;
  • autofagia celular.

Entretanto, em humanos, os resultados ainda são heterogêneos.

Muitas alegações encontradas na internet ultrapassam aquilo que a ciência consegue demonstrar atualmente (LONGO; MATTSON, 2014; PARROTTA et al., 2025).

 

Jejum Emagrece Porque Reduz Insulina?

Parcialmente. Mas essa explicação costuma ser simplificada demais. A redução da insulina favorece mobilização de gordura corporal.

Contudo, o emagrecimento continua dependente principalmente do balanço energético ao longo do tempo.

Uma pessoa pode fazer jejum rigoroso e ainda assim não emagrecer se compensar posteriormente consumindo excesso de calorias.

 

Existe Perda de Massa Muscular?

Pode existir. Esse é um tema importante e frequentemente ignorado. Quando o jejum é realizado sem:

  • ingestão adequada de proteínas;
  • exercício físico;
  • treinamento resistido;

há risco de perda de massa magra.

Algumas revisões recentes mostram que determinados protocolos podem reduzir não apenas gordura, mas também parte da massa muscular, especialmente em indivíduos sedentários (WANG; WANG; LI, 2025).

Por isso, musculação (não no período de jejum) e ingestão proteica adequada continuam sendo pilares fundamentais.

 

O Que É Exagero da Blogosfera?

Algumas afirmações populares ainda carecem de evidência robusta:

  • “o jejum cura câncer”;
  • “o jejum substitui medicamentos”;
  • “o jejum reverte qualquer diabetes”;
  • “quanto mais horas melhor”;
  • “todo mundo deveria fazer jejum”.

Essas afirmações não são sustentadas pelas melhores evidências atuais. A medicina baseada em evidências trabalha com nuances. Nem milagre. Nem desastre.

 

 

Então Vale a Pena?

Para algumas pessoas, sim. Para outras, não.

O jejum intermitente parece ser:

  • relativamente seguro para muitos adultos saudáveis;
  • potencialmente útil para perda de peso;
  • capaz de melhorar alguns marcadores metabólicos;
  • uma ferramenta possível dentro de um plano maior.

Mas não parece ser uma solução mágica superior a todas as demais estratégias nutricionais. Talvez a conclusão mais madura seja esta:

o melhor plano alimentar não é aquele que produz o maior entusiasmo nas redes sociais, mas aquele que consegue ser mantido por anos, preservando saúde física, saúde mental, massa muscular e qualidade de vida.

 

REFERÊNCIAS

CRYAN, J. F. et al. The microbiota-gut-brain axis. Physiological Reviews, v. 99, n. 4, p. 1877-2013, 2019.

LONGO, V. D.; MATTSON, M. P. Fasting: molecular mechanisms and clinical applications. Cell Metabolism, v. 19, n. 2, p. 181-192, 2014.

LU, X. et al. Effects of time-restricted eating on people with type 2 diabetes: a systematic review and meta-analysis. Diabetology & Metabolic Syndrome, 2026.

PARROTTA, M. E. et al. Time Restricted Eating: a valuable alternative to calorie restriction for addressing obesity? Current Obesity Reports, v. 14, 2025.

SEMNANI-AZAD, Z. et al. Intermittent fasting strategies and their effects on body weight and other cardiometabolic risk factors: systematic review and network meta-analysis of randomised clinical trials. BMJ, v. 389, e082007, 2025.

SILVA, A. D. et al. Time-restricted eating increases hunger in adults with overweight and obesity: a systematic review and meta-analysis of randomized controlled studies. Nutrition Research, v. 128, 2025.

WANG, B.; WANG, C.; LI, H. The impact of intermittent fasting on body composition and cardiometabolic outcomes in overweight and obese adults: a systematic review and meta-analysis of randomized controlled trials. Nutrition Journal, v. 24, n. 120, 2025.

ZHONG, F. et al. Adverse events profile associated with intermittent fasting in adults with overweight or obesity: a systematic review and meta-analysis of randomized controlled trials. Nutrition Journal, v. 23, n. 72, 2024.

MATTSON, M. P. et al. Meal frequency and timing in health and disease. Proceedings of the National Academy of Sciences, v. 111, n. 47, p. 16647-16653, 2014.

ST-ONGE, M. P. et al. Meal timing and frequency: implications for cardiovascular disease prevention. Circulation, v. 135, n. 9, p. e96-e121, 2017.

WILKINSON, M. J. et al. Ten-hour time-restricted eating reduces weight, blood pressure, and atherogenic lipids in patients with metabolic syndrome. Cell Metabolism, v. 31, n. 1, p. 92-104, 2020.

LOWE, D. A. et al. Effects of time-restricted eating on weight loss and other metabolic parameters in adults with overweight and obesity. JAMA Internal Medicine, v. 180, n. 11, p. 1491-1499, 2020.

MOON, S. et al. Time-restricted eating and metabolic outcomes: systematic review and meta-analysis. Obesity Reviews, v. 25, 2024.

LIU, H. et al. Time-restricted eating in overweight and obese adults: an evidence summary and clinical recommendations. Journal of Health, Population and Nutrition, v. 45, 2026.

ANTHONY, J. C. et al. Protein intake and skeletal muscle health. American Journal of Clinical Nutrition, v. 101, n. 6, p. 1333S-1345S, 2015.

MORTON, R. W. et al. Protein supplementation and muscle mass: a systematic review and meta-analysis. British Journal of Sports Medicine, v. 52, n. 6, p. 376-384, 2018.

CLAUW, D. J. Nutrition, metabolism and obesity: evolving concepts in metabolic health. Lancet, 2025.

HALL, K. D. et al. Energy balance and body-weight regulation. New England Journal of Medicine, v. 381, p. 2541-2551, 2019.

O Reset da Microbiota: A Ciência por trás do Protocolo Detox com Arroz Integral

A busca por estratégias que combatam a inflamação crônica de baixo grau e restabeleçam a homeostase intestinal tem levado a medicina integrativa a redescobrir intervenções dietéticas minimalistas. Entre elas, destaca-se o protocolo de Detox com Dieta do Arroz Integral, uma prática milenar adotada há séculos pelas medicinas tradicionais orientais e que, posteriormente, desembocou na moderna macrobiótica. Hoje, esse programa integra o portfólio de programas de saúde e bem-estar em centros de referência, como a Lapinha Clínica e SPA.

Longe de ser apenas uma restrição calórica severa, este protocolo atua como um verdadeiro “descanso digestivo”. O objetivo central — outrora desconhecido pelos antigos, mas amplamente validado pela ciência atual — é reduzir a carga de estímulos antigênicos no trato gastrointestinal, promovendo um reset na microbiota, desinflamando a barreira intestinal e mitigando a resposta imune exacerbada (OHISA et al., 2022; LONGO; ANDA, 2022).


1. O Mecanismo Fisiológico: Menos Informação, Menos Inflamação

O trato gastrointestinal abriga o maior contingente de células imunes do corpo humano (o GALT). Diariamente, esse sistema processa uma avalanche de moléculas bioativas, antígenos alimentares, aditivos e xenobióticos, que podem desencadear um estado inflamatório se a barreira epitelial estiver comprometida (FASANO, 2020).

Ao adotar uma dieta minimalista baseada em arroz integral orgânico e vegetais cozidos, oferecemos ao organismo o que a nutrologia moderna chama de redução de informação molecular. Com menos nutrientes complexos e proteínas altamente imunogênicas (como o glúten e a caseína) exigindo processamento do sistema imune do intestino, ocorre a redução na sinalização de citocinas pró-inflamatórias sistêmicas (FASANO, 2020; FAN; PEDERSEN, 2021).

O Propósito Clínico: Não se trata de uma desintoxicação mística, mas sim de uma desinflamação controlada e metabólica. Ao contrário de jejuns prolongados ou dietas restritivas líquidas e indiscriminadas — que podem desnutrir o paciente e depletar a massa magra (KRUSEMAN et al., 2015) —, este protocolo fornece energia e substrato fermentável seguro por um tempo predeterminado, garantindo eficácia sem riscos nutricionais.

Este conceito de repouso digestivo e transição dietética assemelha-se em essência, duração e objetivos a outras abordagens tradicionais consagradas de descanso digestivo, como a Terapia Mayr (Moderna Medicina Mayr), a Medicina Ayurvédica e a abordagem de Bircher-Benner.


2. Estrutura do Protocolo: Das Etapas à Prática

Para que o reset seja seguro e sustentável, o protocolo divide-se em três fases distintas, dependendo sempre de uma avaliação médico-nutricional prévia e individualizada.

📅 Duração Total

A duração do protocolo principal varia de 7 a 21 dias (em média duas semanas), conforme a necessidade e a tolerância clínica de cada indivíduo.

Fase 1: A Dieta de Preparo (Home-care)

Realizada na semana que antecede a imersão, tem como objetivo desacelerar o ritmo metabólico e o sistema nervoso central, assemelhando-se ao preparo para a terapia Mayr Prevent.

  • Excluir: Álcool, café, bebidas estimulantes, frituras, alimentos ultraprocessados, refrigerantes, açúcares refinados e massas brancas.

  • Foco: Adotar uma alimentação o mais saudável e limpa possível pelo menos uma semana antes, associada a uma busca ativa por desacelerar a rotina.

Fase 2: Durante a Imersão (O Período Detox)

Durante o período de imersão (como na Lapinha), a dieta torna-se estritamente livre de glúten e lácteos, baseando-se na simplicidade e na digestibilidade:

  • Desjejum: Mingau de aveia preparado com leite de amêndoas ou acompanhado de frutas selecionadas.

  • Almoço: Arroz integral orgânico, vegetais orgânicos cozidos no vapor e um ovo caipira (como fonte proteica de alto valor biológico).

  • Jantar: Arroz integral e vegetais cozidos.

  • Intervalos: Infusões e chás de ervas terapêuticas.

  • Aporte Calórico: Variável e habitualmente liberado, uma vez que a saciedade e a modulação biológica são reguladas pela mastigação completa (exaustiva) (MIQUEL-ALONSO et al., 2023).

Terapias de Apoio e Estilo de Vida

Para otimizar a resposta parassimpática e a motilidade intestinal, recomendam-se práticas sinérgicas (não obrigatórias):

  • Terapias Corporais: Duas sessões de terapia abdominal manual (essencial para estimular o complexo mioelétrico migratório) e TOI (Terapia Oriental Integral, associando acupuntura). Outras massagens relaxantes estão liberadas.

  • Atividade Física: Caminhadas na natureza, ioga e hidroginástica são incentivadas. Exercícios físicos intensos são contraindicados nesta fase para poupar o gasto energético central.

Fase 3: A Transição e Sustentabilidade

Ao retornar para casa, o paciente passa por um período de transição de pelo menos duas semanas (semelhante à abordagem Mayr), em que os alimentos são reinseridos gradativamente à dieta normal. O propósito essencial do protocolo não é o isolamento dietético eterno, mas usar a imersão como um catalisador para uma mudança permanente e sustentada do estilo de vida e dos hábitos alimentares (LONGO; ANDA, 2022).


3. Contraindicações Clínicas (Relativas)

Por se tratar de uma intervenção terapêutica de forte restrição de variedade, o protocolo apresenta contraindicações importantes:

  • Pessoas muito magras ou em estado de caquexia;

  • Indivíduos severamente enfraquecidos ou muito doentes;

  • Crianças, gestantes e lactantes.


4. O Arroz Integral nas Tradições Dietoterápicas

Historicamente, o arroz integral (Oryza sativa) ocupa um lugar central na farmacopeia e na dietoterapia oriental (notadamente na Medicina Tradicional Chinesa e na Macrobiótica). Considerado um alimento de energia neutra e perfeitamente equilibrada, ele é tradicionalmente utilizado para fortalecer a energia do Baço e do Estômago (os órgãos responsáveis pela digestão e absorção na visão oriental) (RAVINDRACHARYA et al., 2022).

Diferente do arroz branco, o arroz integral preserva o farelo (película) e o germe. Essa matriz alimentar confere a ele propriedades terapêuticas únicas reconhecidas empiricamente por séculos: estabilização do trânsito intestinal, eliminação de umidade excessiva (edemas) e fornecimento de energia duradoura, servindo como a base perfeita para o descanso metabólico e para a limpeza do organismo sem causar fraqueza extrema (OHISA et al., 2022; RAVINDRACHARYA et al., 2022).


5. Fundamentação Científica Atual

Para correlacionar essa prática tradicional à ciência de ponta, baseamo-nos em pilares consolidados da gastroenterologia e da nutrição funcional:

Microbiota e Disbiose

A restrição temporária a carboidratos complexos de fácil digestão (como o amido do arroz integral) combinada com fibras solúveis e insolúveis de vegetais cozidos modifica o substrato disponível para as bactérias colonizadoras. Esse mecanismo modula o perfil do microbioma, reduzindo o sobrecrescimento bacteriano ou fúngico indesejado e atenuando a disbiose que perpetua a permeabilidade intestinal (leaky gut) (SONNENBURG; SONNENBURG, 2014; FAN; PEDERSEN, 2021).

O Poder Fisiológico da Mastigação

A mastigação completa e exaustiva, preconizada tanto na macrobiótica quanto na medicina Mayr, não serve apenas para triturar o alimento. Ela estimula a secreção precoce de ptialina, ativa a sinalização de saciedade via hormônios anorexígenos (como GLP-1 e PYY) e reduz a carga osmótica e fermentativa que chega ao cólon, evitando distensão abdominal e disbiose de fermentação (PEDERSEN et al., 2018; MIQUEL-ALONSO et al., 2023).

Dietas Simples e o Conceito de Jejum/Restrição Mimética

A literatura recente aponta que períodos de restrição de variedade ou dietas simplificadas (semelhantes às dietas que mimetizam o jejum – FMD) induzem processos de autofagia celular, melhoram a sensibilidade à insulina e reduzem marcadores sistêmicos de inflamação, como a Proteína C-Reativa (PCR) e interleucinas pró-inflamatórias (LONGO; ANDA, 2022; BRANDHORST et al., 2015).


Referências

BRANDHORST, S. et al. A Periodic Diet that Mimics Fasting Promotes Multi-System Regeneration, Enhanced Cognitive Performance, and Healthspan. Cell Metabolism, v. 22, n. 1, p. 86-99, 2015.

FAN, Y.; PEDERSEN, O. Gut microbiota in human metabolic health and disease. Nature Reviews Microbiology, v. 19, n. 1, p. 55-71, 2021.

FASANO, A. All disease begins in the (leaky) gut: role of zonulin-mediated gut permeability in the pathogenesis of some chronic inflammatory diseases. F1000Research, v. 9, p. 1-13, 2020.

KRUSEMAN, M. et al. Alternative diets: a double-edged sword for nutrition and health. Swiss Medical Weekly, v. 145, w14197, 2015.

LONGO, V. D.; ANDA, S. Fasting-mimicking diets and regulation of microbiota, inflammation, and cellular rejuvenation. Cell Metabolism, v. 34, n. 9, p. 1234-1246, 2022.

MIQUEL-ALONSO, A. et al. The role of mastication in regulating gastric emptying, postprandial glycemic response, and satiety hormones. The American Journal of Clinical Nutrition, v. 117, n. 3, p. 543-552, 2023.

OHISA, N. et al. Mechanistic insights into the anti-inflammatory properties of whole grain brown rice matrix on intestinal epithelial cells. Food Chemistry, v. 372, p. 131250, 2022.

PEDERSEN, A. M. L. et al. Salivary secretion and chewing efficiency in gastrointestinal homeostasis. Journal of Oral Rehabilitation, v. 45, n. 3, p. 234-245, 2018.

RAVINDRACHARYA, G. et al. Nutritional and therapeutic benefits of medicinal rice varieties in traditional Asian medicine: A comprehensive review. Journal of Ethnopharmacology, v. 290, p. 115042, 2022.

SONNENBURG, E. D.; SONNENBURG, J. L. Starving our microbial self: the deleterious consequences of a diet deficient in microbiota-accessible carbohydrates. Cell Metabolism, v. 20, n. 5, p. 779-786, 2014.

BALANÇA, A TRAIDORA

 

Dr. Daniel S. F. Boarim, diretor médico da Lapinha

 

Quando a balança lhe conta que você perdeu pouco ou até nenhum peso num determinado intervalo de tempo, o que isso significa? O corpo impõe seu ritmo ao emagrecimento. Quando alguém exagera na dose da dieta e do exercício, leva uma lição inesquecível, que pode incluir queda de pressão, queda de glicemia, moleza, fraqueza ou até um estranho congelamento na perda de peso. Além de passar mal, você se desnorteia. O corpo não protesta à toa!

 

Você está fazendo tudo direitinho. Comendo certo e se exercitando. Consciência tranquila. Até se permite sonhar vestindo aquela coleção há tantos verões socada lá no fundo do guarda-roupa.

Mas, passada uma semana do início do programa, ao subir na balança, o susto.

Não emagreci quase nada! É isso mesmo?! Não é possível. Tanto sacrifício para quê? O que há de errado?

E vem a raiva. Raiva da balança, da dieta, da nutricionista, do personal, do médico, de você mesmo. Frustração, desânimo.

E agora? Nunca mais o manequim dos bons tempos?

 

O pesadelo

 

Apesar dos spas, pílulas, injeções, dietas e academias, você, que já tentou ou está tentando emagrecer e se manter magro, provavelmente já sentiu na carne a impiedade da balança.

É daqueles pesadelos que faz muita gente chutar o pau da barraca.

Desistir?  Eis a sina de uma incompreensível frustração, que se repete todo dia.

Tem mesmo muita gente nesse barco – sobrecarregado e avariado. Estima-se que quase um terço da população do mundo afluente e emergente está tentando desesperadamente perder peso nesse exato momento. A maioria sem êxito, ou com êxito apenas temporário.

Nos Estados Unidos, dois terços da população sofrem com sobrepeso e obesidade. No Brasil, já é metade da polução.

Quando falamos em emagrecimento, falamos no recorde mundial de tentativas fracassadas.

Tentar entender isso, aprofundar-se nas causas ocultas e incultas, por mais impossível e irritante que pareça, é o primeiro passo da virada.

Por que o fracasso? Todos sabemos do “peso” dos comportamentos, da transferência insana de cargas emocionais para a comida. Isso explica grande parte do problema. Fatores metabólicos, culturais e genéticos mancomunam-se para explicar a outra parte. Mas não há como livrar-se de uma certa aura de mistério, incompreensão e sobretudo inquietação.

O desafio de mudar sustentavelmente – veja bem, sustentavelmente – rotinas engordativas e pouco saudáveis, só é entendido por quem passa ou já passou por isso. Mas, enquanto quem está fora racionaliza de modo frio e calculista pelas calorias, quem está dentro tende a avaliar pela emoção.

 

Balança – aliada ou traidora?

 

Nessa busca dramática, a ansiedade é um vilão sorrateiro. Quando você se dá conta, o impulso da comilança já acordou. Enquanto estiver fora de controle, não haverá como impor rédeas ao desejo. Comer torna-se a válvula de escape do desassossego emocional. E o seu cérebro vai se acostumando, até que a autossabotagem degenera em negação. A vítima prefere nem pensar nisso. Come sem arrazoar, enquanto sufoca o apelo do córtex pré-frontal pela racionalidade.

Nesse joguete, a balança geralmente fica de fora. Mas sempre, invariavelmente, chega o dia em que se “cai na real”. Você resolve subir nela. E bate a agonia. Algo precisa ser feito e já!

É quando o mesmo desespero que o levou a comer desenfreadamente desperta impulsos igualmente nada racionais, só que no sentido oposto. É quando a balança se torna, paradoxalmente, companheira e traidora. Bate uma paranoia de pesagens sucessivas, uma fixação pela perda de peso a qualquer preço, o mais rápido possível. Mesmo que os quilos extras tenham se acumulado por anos sob um policiamento desleixado, o alvo agora é perdê-lo em semanas sob uma observação alucinada.

Porém, nenhuma obsessão irracional dura muito. Logo o fôlego acaba e o ciclo recomeça impiedoso. A ansiedade que a balança não pode mitigar é desviada novamente para o conforto da comida. Claro que isso é flertar com o abismo do fracasso, mas é onde quase todos caem.

 

Como a balança “engana” você

 

Há três armadilhas clássicas em que a balança pode “ludibriar” você, atrapalhando mais que ajudando:

  1. A balança no curto prazo não diz muita coisa! O peso sempre flutua para mais e para menos de modo fisiológico, por causa da expansão ou retração dos líquidos corporais, também pelo conteúdo digestivo, sem um padrão que possa ser generalizado. Por isso, comparar a variação da balança no curto prazo, comparar-se com você mesmo em outros tempos e, pior ainda, comparar-se com outras pessoas, são a receita da decepção e da loucura!
  2. O ganho de massa magra pode mascarar a perda de peso no curto prazo. É desejável e comum ganhar alguma massa magra ao seguir-se um plano correto de exercícios e dieta. Isso é mais frequente em pessoas de compleição mais “forte”, ou com alguma memória muscular, mas pode acontecer com qualquer um. O resultado é uma perda pífia ou um platô. O que não significa que você não esteja emagrecendo, claro, se estiver fazendo tudo certinho. Também não há como avaliar corretamente perdas ou ganhos de massa magra no prazo de dias, mesmo poucas semanas.
  3. Perder mais peso não quer dizer que você esteja emagrecendo mais. Às vezes, surpreendentemente é exatamente o contrário! Dietas muito rígidas podem levar a maior perda de massa muscular, enquanto dietas mais adequadas, com menor defasagem calórica, ajudam a preservar e estimular o crescimento da boa massa muscular.

 

Sofrimento desnecessário

 

Vamos explicar melhor este assunto tão desconcertante, que muita gente reluta em aceitar, e gera tanto sofrimento desnecessário.

Afinal, a balança não me põe a par da realidade?

Não estou falando de balanças desreguladas, mas de interpretação errada. Isso mesmo, a tentativa simplória de comparar um número com o outro em qualquer intervalo de tempo pode falsear resultados. Veja porquê:

A balança, desde que obviamente bem regulada, mostra fielmente seu peso corporal pontual, num dado momento, mas NÃO DISTINGUE outros três parâmetros vitais, que fazem parte da equação do emagrecimento, permitindo por isso interpretações disparatadas:

 

  1. CICLO DOS LÍQUIDOS CORPORAIS
  2. COMPOSIÇÃO CORPORAL
  3. MEDIDAS CORPORAIS

 

Isso quer dizer que se você OLHAR SÓ PARA A BALANÇA, principalmente no CURTO PRAZO, poderá tirar CONCLUSÕES ERRADAS sobre o seu corpo, como achar que está emagrecendo enquanto está engordando, ou o contrário, achar que está engordando enquanto está emagrecendo. Vamos aos itens mais importantes:

 

  1. VARIAÇÃO DIÁRIA – De um dia para o outro, mesmo da manhã à noite, seu corpo pode acumular significativa quantidade de líquidos e alimentos, o que leva a variação normal de peso, que pode nalguns casos ultrapassar um quilo, para cima ou para baixo. E quando você se pesa, digamos, num horário em que estes acúmulos (liquidos e alimentos) estão em baixa e depois, no dia seguinte, quando estão em alta, ficará intrigado, para não dizer outra coisa mais realista, imaginando erradamente haver engordado. E pode ocorrer exatamente o contrário – alguém imagina que emagreceu, ao passo que, infelizmente, isso não aconteceu, ou ocorreu numa magnitude bem menor.
  2. VARIAÇÃO SEMANAL De uma semana para outra os líquidos também têm seu ciclo normal (em algumas situações pode ser patológico ou induzido por medicamentos). Ocorre mais frequentemente em mulheres que ainda menstruam, na fase pré-menstrual, ou qualquer pessoa em qualquer idade que tenda a “inchar”. Flutuações hormonais são comuns, e podem forçar maior volume de água para o terceiro espaço (entre a célula e o vaso sanguíneo), algo que às vezes se nota, outras vezes não, mas a balança não perdoa! A perda de um quilo em uma semana pode ser mascarada por 1,5 kg de acúmulos no momento da pesagem, levando a um saldo positivamente desanimador de meio kg a mais. E inúmeras possibilidades, para mais e para menos, até com variação zerada, podem se listar aqui. Resultados enganadores e enlouquecedores!
  3. VARIAÇÃO MENSAL De um mês para o outro, embora essa margem de erro diminua, na hipótese de se estar fazendo tudo direitinho, ainda assim os mesmos fatores que acabamos de citar podem interferir na confiabilidade do resultado da balança, quando se compara apenas o ponto de partida com o de chegada. Ao fazer exercício físico, sua massa muscular aumentará enquanto o percentual de gordura encolherá. E isso é tudo que se pode desejar: diminuição das medidas, saúde e percepção de estar mais disposto. Imagine que frustração se, no momento da pesagem, todos aqueles fatores de confundimento estiverem juntos! E, somados ainda ao fator positivo que acabamos de citar, o aumento dos músculos, que pesam mais que a gordura, pois são mais densos, a confusão será maior!

Agora imagine o contrário, uma perda maior que a esperada, comemorada, mas que na verdade reflete um resultado ruim, quando por causa de uma dieta restritiva demais, a perda muscular foi brutal!

 

A balança sozinha então não diz tudo

 

Exatamente. Quando a balança lhe conta que você perdeu menos peso ou nenhum peso num determinado intervalo, mesmo você fazendo o certo, ela não quer dizer que você não emagreceu.

O contrário, quando ela lhe diz que está perdendo muito, também não quer dizer que você está eliminando gordura. É até mais provável que esteja eliminando também água e músculos, numa proporção indesejável.

Na linha do tempo, principalmente num segmento curtinho, a variação de peso nem sempre reflete o resultado do esforço. Mas o médio e o longo prazo, mesmo numa curva oscilante e relutante, vão recompensar o perseverante, que não se deixa desanimar pelo imediatismo do aparente paradoxo da balança.

 

O corpo não protesta à toa!

 

Mas vale lembrar outra coisa importante. Na medida que você vai chegando perto da sua meta metabólica, daquilo que seu corpo, sua constituição e seu metabolismo entendem como ideal e saudável para você, o ritmo de emagrecimento diminuirá. Em outras palavras, a curva da perda de peso tende normalmente a desacelerar cada vez mais. E quem não está tanto acima do peso assim, perderá mais devagar.

O corpo, então, impõe seu ritmo ao emagrecimento. Quando alguém exagera na dose da dieta e do exercício, poderá sofrer uma lição inesquecível de queda de pressão, queda de glicemia, moleza, fraqueza, e até de uma estranha parada na perda de peso. Enfim, além de passar mal, você pode desapontar-se. O corpo não protesta à toa!

 

Resumindo, a balança é um parâmetro avaliativo bem pobre para emagrecimento em certos intervalos e em certas condições, especialmente no curto prazo, mas ao mesmo tempo indispensável para desenharmos a tendência da variabilidade de peso, ao longo de semanas e meses. Isso quer dizer que ganhos ou perdas, principalmente em prazos curtos, não cravam que você engordou ou emagreceu.

Seu foco, então, qual deve ser? Manter-se inabalável na linha, fazendo a coisa certa, sem se deixar afetar, mirando o alvo. Pesando-se racionalmente, na frequência indicada, sem paranoias, e “exercitando a paciência do paciente”. Os resultados certamente virão a seu tempo, seguindo os padrões fisiológicos de sua individualidade metabólica!

 

NOTA IMPORTANTE: POR QUE NÃO FAZEMOS A BIOIMPEDÂNCIA NA ENTRADA 

 

Trata-se de um exame de boa sensibilidade e especificidade para acompanhar a evolução da composição corporal, massa magra, massa muscular, massa gorda, água corporal, etc. Porém, como acontece com a balança, tem suas limitações metodológicas.

Não adianta ficar repetindo com frequência semanal, pois, como todo exame, tem seu tempo em que a variabilidade dos dados começa a apontar tendências, e para a bioimpedância isso é desejavelmente trinta dias.

Por isso não fazemos, na Lapinha, a bioimpedância na entrada de permanências de poucas semanas. Além do mais, na chegada, as pessoas estão mais “inchadas”, e as intensas mudanças que acontecem na dieta e nos exercícios ao longo da hospedagem resultarão em interpretações comparativas bem falseadas! Por isso, fazemos só na saída de quem fica uma semana ou mais, quando você estará mais “enxuto”.

 

 

 

ENGLISH

 

THE SCALE IS BETRAYING YOU

 

Dr. Daniel S. F. Boarim, Medical Director of Lapinha

 

When the scale shows you’ve lost little or no weight in a given period of time, what does that mean? The body dictates its own pace of weight loss. When someone overdoes their diet and exercise, they experience an unforgettable lesson, which can include low blood pressure, low blood sugar, lethargy, weakness, or even a strange weight loss freeze. Besides feeling sick, you feel disappointed. Your body doesn’t protest for nothing!

 

You’re doing everything right. Eating right and exercising. Your conscience is clear. You even allow yourself to dream of wearing that collection you’ve had tucked away in the back of your closet for so many summers.

But, a week after starting the program, when you step on the scale, you’re shocked.

I’ve barely lost any weight! Is that right?! It’s impossible. So much sacrifice for what? What’s wrong?

And anger sets in. Anger at the scale, the diet, the nutritionist, the personal trainer, the doctor, yourself. Frustration, discouragement.

What now? Never again the figure of the good old days?

 

The nightmare

 

Despite spas, pills, injections, diets, and gyms, you, who have tried or are trying to lose weight and stay slim, have probably experienced the scale’s relentlessness firsthand.

It’s one of those nightmares that makes many people give up.

Give up? This is the fate of an incomprehensible frustration, repeated every day.

There are indeed many people in this boat – overwhelmed and damaged. It is estimated that almost a third of the population of the affluent and emerging world is desperately trying to lose weight right now. Most are unsuccessful, or with only temporary success.

In the United States, two-thirds of the population is overweight or obese. In Brazil, half the population is already overweight.

When we talk about weight loss, we’re talking about the world record for failed attempts.

Trying to understand this, delving into the hidden and unexplored causes, as impossible and irritating as it may seem, is the first step toward a change.

Why the failure? We all know about the “weight” of behaviors, the insane transfer of emotional burdens to food. This explains much of the problem. Metabolic, cultural, and genetic factors combine to explain the other part. But there’s no way to shake off a certain aura of mystery, incomprehension, and, above all, unease.

The challenge of sustainably changing—and remember, sustainably—fat-gaining and unhealthy routines is only understood by those who are or have been through it. But while those on the outside rationalize coldly and calculatingly based on calories, those on the inside tend to evaluate based on emotions.

 

Scales—ally or traitor?

 

In this dramatic quest, anxiety is a sneaky villain. Before you know it, the urge to binge has already awakened. As long as it’s out of control, there’s no way to rein in the desire. Eating becomes an escape valve for emotional unease. And your brain gets used to it, until the self-sabotage degenerates into denial. The victim prefers not to think about it. They eat without reasoning, while stifling the prefrontal cortex’s call for rationality.

In this game, the scale is usually left out. But always, invariably, the day comes when reality hits. You decide to step on it. And the agony sets in. Something needs to be done, and now!

This is when the same desperation that drove you to binge eat awakens equally irrational impulses, only in the opposite direction. This is when the scale becomes, paradoxically, both a companion and a traitor. A paranoia of successive weigh-ins sets in, a fixation on losing weight at any cost, as quickly as possible. Even if the extra pounds have accumulated for years under lax policing, the goal now is to lose them in weeks under frenzied observation.

However, no irrational obsession lasts long. Soon the breath runs out and the cycle begins again mercilessly. The anxiety that the scale can’t alleviate is diverted once again to the comfort of food. Of course, this is flirting with the abyss of failure, but it’s where almost everyone falls.

 

How the Scale “Tricks” You

 

There are three classic traps that the scale can “trick” you into, hindering you more than helping:

The scale doesn’t tell you much in the short term! Weight always fluctuates up and down physiologically, due to the expansion or contraction of body fluids, and also due to digestive contents, without a generalizable pattern. Therefore, comparing the scale’s fluctuations in the short term, comparing yourself to yourself in other times, and, even worse, comparing yourself to other people, are a recipe for disappointment and madness!

Gaining lean mass can mask short-term weight loss. It’s desirable and common to gain some lean mass when following a proper exercise and diet plan. This is more common in people with a stronger build or with some muscle memory, but it can happen to anyone. The result is minimal weight loss or a plateau. This doesn’t mean you’re not  losing weight, of course, if you’re doing everything right. There’s also no way to accurately assess lean mass gains or losses over a period of days, even a few weeks.

Losing more weight doesn’t mean you’re getting fit and healthier. Sometimes, surprisingly, it’s quite the opposite! Very strict diets can lead to greater muscle loss, while more appropriate diets, with a smaller calorie gap, help preserve and stimulate the growth of healthy muscle mass.

 

 

Unnecessary Suffering

 

Let’s explain this disconcerting topic in more detail, which many people are reluctant to accept and which causes so much unnecessary suffering.

After all, doesn’t the scale tell me the truth?

I’m not talking about unbalanced scales, but about misinterpretation. That’s right, the simplistic attempt to compare one number with another over any given timeframe can distort results. Here’s why:

The scale, as long as it’s properly adjusted, accurately displays your body weight at a given moment, but it DOES NOT DISTINGUISH three other vital parameters that are part of the weight loss equation, thus allowing for disparate interpretations:

BODY FLUID CYCLE
BODY COMPOSITION
BODY MEASUREMENTS

This means that if you ONLY LOOK AT THE SCALE, especially in the SHORT TERM, you could draw WRONG CONCLUSIONS about your body, such as thinking you’re losing weight while you’re gaining weight, or vice versa, thinking you’re gaining weight while you’re losing weight. Let’s get to the most important points:

DAILY VARIATION – From one day to the next, even from morning to night, your body can accumulate a significant amount of fluid and food, leading to normal weight fluctuations, which can in some cases exceed a kilogram, either up or down. And when you weigh yourself, say, at a time when these accumulations (fluids and food) are low and then, the next day, when they are high, you will be puzzled, not to mention more realistically, mistakenly imagining you’ve gained weight. And the exact opposite can occur—someone imagines they’ve lost weight, when, unfortunately, this hasn’t happened, or has occurred to a much lesser extent.
WEEKLY VARIATION: From one week to the next, fluids also have their normal cycle (in some situations, it can be pathological or medication-induced). This occurs more frequently in women who are still menstruating, in the premenstrual phase, or anyone of any age who tends to “bloat.” Hormonal fluctuations are common and can force a greater volume of water into the third space (between the cell and the blood vessel), something that is sometimes noticeable, sometimes not, but the scale is unforgiving! A one-kilogram loss in a week can be masked by 1.5 kg of excess weight at the time of weighing, leading to a positively discouraging weight loss of half a kg. And countless possibilities, both higher and lower, even with zero variation, can be listed here. Misleading and maddening results!
MONTHLY VARIATION From one month to the next, although this margin of error decreases, assuming you’re doing everything correctly, the same factors we just mentioned can still interfere with the reliability of the scale’s results when comparing only the starting point with the finishing point. By exercising, your muscle mass will increase while your body fat percentage will decrease. And that’s all you can hope for: a reduction in measurements, health, and a feeling of being more energetic. Imagine the frustration if, at the time of weighing, all those confounding factors were combined! And, added to the positive factor we just mentioned—the increase in muscle, which weighs more than fat because it’s denser—the confusion will be even greater!

Now imagine the opposite: a greater-than-expected loss, celebrated, but which actually reflects a poor result, when, due to an overly restrictive diet, the muscle loss was brutal!

 

The scale alone doesn’t tell the whole story

 

Exactly. When the scale tells you that you’ve lost less weight or none at all in a given period, even if you’re doing the right thing, it doesn’t mean you haven’t lost weight.

On the contrary, when it tells you that you’re losing a lot, it also doesn’t mean you’re losing fat. It’s even more likely that you’re also losing water and muscle, at an undesirable rate.

Over time, especially over a short period, weight fluctuations don’t always reflect the results of your efforts. But the medium and long term, even on a wavering and reluctant curve, will reward the persevering, who doesn’t let themselves be discouraged by the immediacy of the scale’s apparent paradox.

 

The body doesn’t protest for nothing!

 

But it’s worth remembering another important thing. As you get closer to your metabolic goal—what your body, constitution, and metabolism understand as ideal and healthy for you—the rate of weight loss will slow down. In other words, the weight loss curve typically tends to slow down more and more. And those who aren’t significantly overweight will lose weight more slowly.

The body, then, imposes its own pace on weight loss. When someone overdoes diet and exercise, they may experience an unforgettable experience of low blood pressure, low blood sugar, sluggishness, weakness, and even a strange halt in weight loss. In short, besides feeling sick, you may be disappointed. The body doesn’t protest for nothing!

In short, the scale is a very poor evaluative parameter for weight loss at certain intervals and under certain conditions, especially in the short term, but at the same time, it is essential for charting the trend of weight variability over weeks and months. This means that gains or losses, especially in the short term, do not guarantee that you have gained or lost weight.

So, what should your focus be? Staying steadfastly on track, doing the right thing, without letting yourself be affected, aiming for the target. Weighing yourself rationally, at the recommended frequency, without paranoia, and “exercising patient patience.” The results will certainly come in due time, following the physiological patterns of your metabolic individuality!

 

 

 

IMPORTANT NOTE: WHY WE DON’T PERFORM BIOIMPEDANCE AT ADMISSION AT LAPINHA

 

This is a test with good sensitivity and specificity for monitoring the evolution of body composition, lean mass, muscle mass, fat mass, body water, etc. However, as with the scale, it has its methodological limitations.

There’s no point in repeating it weekly, because, like any test, there’s a time when data variability begins to show trends, and for bioimpedance, this is ideally thirty days.

That’s why, at Lapinha, we don’t perform bioimpedance testing upon arrival for guests staying for a few weeks. Furthermore, upon arrival, people are more “bloated,” and the intense changes in diet and exercise that occur throughout their stay will result in very false comparative interpretations! That’s why we only perform it upon departure for those staying a week or more, when you’re leaner.

Receba nosso conteúdo

Tenha acesso em primeira mão às nossas novidades e programações especiais

A Lapinha se compromete em proteger e respeitar sua privacidade. Usaremos suas informações pessoais apenas para administrar sua conta e fornecer os produtos e serviços que você nos solicitou. Ocasionalmente, gostaríamos de entrar em contato sobre nossas ofertas, bem como sobre outros conteúdos que possam ser de seu interesse. Você pode optar por desinscrever-se de nosso mailing a qualquer momento.

Lar Lapeano de Saúde LTDA - CNPJ 75.189.597/0001-63. Todos os direitos reservados.