Autocontrole Alimentar: o verdadeiro desafio, mais que perder peso, é ver a comida com outros olhos

 

Por que alguns conseguem emagrecer e manter o peso enquanto outros vivem no efeito sanfona?

 

A maior batalha não acontece na balança

Vivemos em uma época curiosa. Nunca houve tanta informação sobre alimentação saudável. Nunca tivemos tantos aplicativos, livros, vídeos, dietas e medicamentos para emagrecer.

Mesmo assim, a obesidade continua aumentando em praticamente todo o mundo (World Obesity Federation, 2024). Isso mostra uma realidade intrigante:

O problema raramente é falta de informação.

A maioria das pessoas sabe que frutas costumam ser melhores que refrigerantes. Sabe que excesso de açúcar faz mal. Sabe que alimentos ultraprocessados devem ser evitados.

O verdadeiro desafio está em outro lugar.

O desafio é manter boas escolhas quando a rotina aperta, quando o estresse aumenta ou quando a comida deixa de ser apenas alimento e passa a representar conforto, prazer ou recompensa.

 

A comida alimenta muito mais do que o corpo

Comemos por fome. Mas também comemos por ansiedade:

Por comemoração.

Por tristeza.

Por hábito.

Por educação.

Por nostalgia.

Por companhia.

Por tédio.

A alimentação possui um enorme significado simbólico.

Desde a infância, aprendemos que comida pode representar carinho (“a sobremesa da avó”), recompensa (“você merece”), celebração (“vamos sair para comer”), acolhimento (“coma para se sentir melhor”) ou até compensação após um dia difícil.

Por isso, emagrecer não depende apenas de conhecer calorias. Depende de compreender qual papel a comida exerce na própria vida.

 

Os três tipos de fome

Uma forma prática de entender esse processo é diferenciar três mecanismos que frequentemente se misturam.

 

  1. Fome homeostática

É a fome verdadeira. O organismo necessita de energia e envia sinais para que você procure alimento. Ela diminui naturalmente após uma refeição equilibrada. É um mecanismo fisiológico essencial para a sobrevivência.

 

  1. Fome emocional

Aqui o organismo não precisa necessariamente de energia.

Quem precisa é a mente:

Ansiedade.

Solidão.

Frustração.

Raiva.

Estresse.

Cansaço.

A comida passa a funcionar como reguladora das emoções. Ela oferece alívio temporário. O problema é que o desconforto emocional permanece, enquanto as calorias ficam.

 

  1. Fome hedônica

Talvez seja a mais poderosa na sociedade moderna. Ela nasce do prazer.

Você acabou de almoçar. Está satisfeito. Mas alguém oferece um pedaço de bolo.

Ou aparece um anúncio irresistível. Ou passa diante de uma vitrine. O cérebro ativa seus circuitos de recompensa. Você come porque deseja. Não porque necessita.

Estudos em neurociência mostram que alimentos ultraprocessados, ricos em açúcar, gordura e sal, ativam intensamente sistemas cerebrais relacionados à recompensa, tornando o autocontrole mais difícil, principalmente em ambientes onde esses alimentos estão disponíveis o tempo todo (Berthoud, 2011; Lowe; Butryn, 2007).

 

Recomendação Prática

Antes de comer, faça uma pergunta simples:

Estou com fome do corpo ou fome da mente?

Essa pequena pausa muda muitas decisões.

 

Os novos medicamentos ajudam. Mas não fazem milagres.

Medicamentos como semaglutida, tirzepatida e outros análogos incretínicos representam um dos maiores avanços da medicina no tratamento da obesidade.

Eles reduzem o apetite, aumentam a saciedade e ajudam muitas pessoas a perder peso de forma consistente (Rubino et al., 2023).

Entretanto, existe um equívoco crescente. Algumas pessoas acreditam que o medicamento fará todo o trabalho. Não fará. Ele reduz o volume da batalha. Mas não luta sozinho.

Se antigos hábitos permanecerem intactos, se o ambiente continuar favorecendo escolhas inadequadas e se a pessoa não desenvolver novas estratégias para lidar com emoções, rotina e situações sociais, parte dos benefícios tende a desaparecer, especialmente após a interrupção do tratamento.

O medicamento pode diminuir a fome. Mas ele não reorganiza automaticamente a relação da pessoa com a comida.

 

Faça um pacto consigo mesmo

Dietas normalmente possuem data para terminar. Mudanças de identidade não.

Em vez de fazer promessas exageradas, experimente construir um compromisso diferente. Não um contrato com a balança. Mas consigo mesmo. Algo como:

“Independentemente do tempo necessário, decido cuidar melhor da minha saúde. Haverá dias bons e dias difíceis. Mas não abandonarei esse compromisso.”

Essa mudança parece sutil. Mas transforma o foco. Você deixa de perseguir apenas um número. Passa a construir uma nova forma de viver.

 

Tenha sempre dois planos

Grande parte das pessoas consegue alimentar-se bem quando tudo está sob controle. O problema começa quando a rotina muda:

Viagens.

Casamentos.

Aniversários.

Férias.

Restaurantes.

Reuniões.

Congestionamentos.

Plantões.

É justamente aí que muitos abandonam completamente seus objetivos. Uma estratégia simples consiste em criar dois planos.

 

Plano A

Sua rotina habitual. Como você pretende comer na maior parte dos dias.

Esse plano representa cerca de 80 a 90% da sua vida.

 

Plano B

Os dias inevitavelmente diferentes.

Nele, o objetivo não é perfeição.

É minimizar danos.

Você pode decidir antecipadamente:

  • evitar repetir sobremesas;
  • escolher apenas um alimento mais calórico;
  • comer devagar;
  • priorizar proteínas e vegetais;
  • compensar o excesso voltando imediatamente à rotina no dia seguinte.

Quem não possui um Plano B costuma transformar um jantar especial em um fim de semana inteiro de exageros.

 

Resumo Prático

Não é o aniversário que faz engordar.

É quando o aniversário vira sexta-feira.

Que vira sábado.

Que vira domingo.

Que vira “segunda-feira eu começo”.

 

Autocontrole não significa rigidez

Existe outro mito importante. Autocontrole não é viver em sofrimento permanente. Também não significa nunca comer uma sobremesa. Pessoas que conseguem manter o peso por muitos anos geralmente apresentam outra característica. Elas são consistentes. Não perfeitas. Erram. Exageram ocasionalmente. Mas voltam rapidamente ao plano original. Sem culpa. Sem desistir.

 

Conclusão

O maior desafio do emagrecimento não está na falta de conhecimento nem na ausência de medicamentos eficazes. Está na construção de uma nova relação com a comida e consigo mesmo. Alimentar-se é um ato biológico, mas também emocional, social e cultural. Por isso, estratégias duradouras precisam ir além das calorias e considerar os diferentes tipos de fome, os gatilhos do ambiente e a maneira como cada pessoa lida com suas emoções.

Os análogos incretínicos representam um avanço extraordinário e podem ser decisivos para muitas pessoas. Contudo, seu maior potencial aparece quando são acompanhados por mudanças consistentes no estilo de vida. Emagrecer é importante. Mais importante ainda é desenvolver habilidades que permitam manter os resultados ao longo dos anos.

No fim das contas, o sucesso não depende de uma dieta perfeita nem de força de vontade infinita. Depende de pequenas escolhas repetidas todos os dias. E talvez o compromisso mais poderoso não seja aquele firmado com a balança, mas o pacto silencioso de cuidar da própria saúde, mesmo quando a rotina sair do roteiro.

 

Disclaimer

Este artigo tem finalidade educativa e não substitui acompanhamento médico ou nutricional. O tratamento da obesidade deve ser individualizado e pode incluir mudanças no estilo de vida, apoio psicológico, medicamentos e, em alguns casos, cirurgia bariátrica.

 

Resumo Final

✔ Antes de comer, pergunte-se: é fome física, emocional ou apenas vontade de sentir prazer?

✔ Medicamentos ajudam, mas não substituem hábitos. Os análogos de GLP-1 e GIP reduzem a fome e aumentam a saciedade, mas não mudam, sozinhos, a relação com a comida.

✔ Faça um pacto consigo mesmo. Não busque perfeição; busque constância.

✔ Tenha sempre um Plano A e um Plano B. O sucesso depende menos dos dias ideais e mais de como você reage quando eles deixam de ser ideais.

✔ Lembre-se: autocontrole não é restrição permanente. É a capacidade de fazer escolhas conscientes, repetidas ao longo do tempo.

 

Referências

BERTHOUD, H. R. Metabolic and hedonic drives in the neural control of appetite: who is the boss? Current Opinion in Neurobiology, v. 21, n. 6, p. 888–896, 2011.

LOWE, M. R.; BUTRYN, M. L. Hedonic hunger: a new dimension of appetite? Physiology & Behavior, v. 91, n. 4, p. 432–439, 2007.

RUBINO, D. et al. Effect of continued weekly subcutaneous semaglutide vs placebo on weight loss maintenance in adults with overweight or obesity: the STEP 4 randomized clinical trial. JAMA, v. 325, n. 14, p. 1414–1425, 2021.

WORLD OBESITY FEDERATION. World Obesity Atlas 2024. London: World Obesity Federation, 2024.

O Poder de um Remédio Sem Comprimidos – Exercício Físico Regular

 

Poucas intervenções na medicina moderna possuem um nível de evidência tão robusto quanto a prática regular de exercícios físicos. Diferentemente de muitos tratamentos que atuam sobre uma única doença, o exercício exerce efeitos simultâneos sobre praticamente todos os sistemas do organismo: cardiovascular, metabólico, musculoesquelético, neurológico, imunológico e psicológico.

A atividade física regular reduz o risco de doenças cardiovasculares, diabetes tipo 2, hipertensão arterial, obesidade, osteoporose, alguns tipos de câncer, depressão, ansiedade e mortalidade geral (WHO, 2024; Warburton & Bredin, 2017). Estudos epidemiológicos demonstram que indivíduos fisicamente ativos apresentam risco de morte prematura 20% a 30% menor em comparação aos sedentários.

Talvez por isso o exercício físico seja frequentemente descrito como o “medicamento” mais subutilizado da medicina.

 

O Que as Diretrizes Recomendam?

A Organização Mundial da Saúde (OMS), o American College of Sports Medicine (ACSM) e a American Heart Association (AHA) recomendam para adultos:

  • 150 a 300 minutos semanais de atividade aeróbica moderada; ou
  • 75 a 150 minutos semanais de atividade vigorosa;
  • exercícios de fortalecimento muscular pelo menos 2 vezes por semana;
  • redução do tempo sedentário.

Uma observação importante é que os benefícios começam muito antes dessas metas. Sair do sedentarismo já produz ganhos significativos de saúde.

 

Os Principais Tipos de Exercício e Seus Benefícios

  1. Exercícios Aeróbicos

São atividades que utilizam predominantemente o metabolismo oxidativo e envolvem grandes grupos musculares por períodos prolongados.

Exemplos

  • Caminhada
  • Corrida
  • Bicicleta
  • Natação
  • Remo
  • Dança
  • Elíptico

Benefícios Cientificamente Comprovados

  • Redução da pressão arterial
  • Melhora da sensibilidade à insulina
  • Controle glicêmico
  • Redução do colesterol LDL
  • Aumento do HDL
  • Melhora da função endotelial
  • Redução do risco cardiovascular
  • Controle do peso corporal
  • Melhora da saúde mental
  • Aumento da longevidade

Segundo Lee et al. (2012), a simples prática de 15 minutos diários de atividade física foi associada a aumento de aproximadamente três anos na expectativa de vida.

Exercícios e melhora do perfil lipídico e do colesterol “mau” (LDL-c)

Diversas evidências demonstram que a prática regular de exercícios físicos melhora o perfil lipídico.

O efeito mais consistente do exercício é sobre capacidade cardiorrespiratória, triglicerídeos, HDL e risco cardiovascular global.

A redução do LDL existe, mas costuma ser modesta, variando conforme intensidade do treinamento, perda de peso associada, dieta e perfil metabólico inicial.

Para o leitor não médico, é importante lembrar que muitas vezes apenas as medidas do estilo de vida, embora sempre necessárias, não serão suficientes. Será preciso a intervenção farmacológica, o que pode significar estatinas.

Vamos a estudos robustos que associam o perfil lipídico aos exercícios físicos: Em uma das maiores meta-análises publicadas até o momento, envolvendo 148 estudos randomizados e mais de 8.600 participantes, o treinamento físico foi associado a reduções significativas do colesterol total, LDL-colesterol e triglicerídeos, além de aumento do HDL-colesterol. Os benefícios foram observados com diferentes modalidades de exercício, incluindo treinamento aeróbico, resistido e combinado, reforçando o papel da atividade física como componente fundamental da prevenção cardiovascular (Van de Velde et al., 2024).

Uma revisão sistemática e meta-análise de ensaios clínicos randomizados publicada em 2023 mostrou que programas de exercício físico em adultos com sobrepeso e obesidade foram capazes de melhorar o perfil lipídico, apresentando efeito semelhante ou complementar às intervenções dietéticas para redução do LDL-colesterol, especialmente quando exercício e dieta foram combinados (Bellicha et al., 2023).

 

  1. Musculação (Treinamento Resistido)

Durante décadas acreditou-se que musculação servia apenas para estética ou desempenho esportivo. Hoje sabemos que ela é fundamental para a saúde.

O treinamento resistido combate um dos principais marcadores do envelhecimento: a perda progressiva de massa muscular (sarcopenia).

Benefícios

  • Aumento da força muscular
  • Preservação da massa magra
  • Melhora da densidade óssea
  • Redução do risco de quedas
  • Melhor controle glicêmico
  • Aumento do metabolismo basal
  • Maior autonomia funcional
  • Melhora da composição corporal

Meta-análises recentes mostram que a musculação promove aumentos consistentes de força, massa muscular e funcionalidade em adultos e idosos (Schoenfeld et al., 2023; Grgic et al., 2023).

Além disso, evidências recentes sugerem que aproximadamente 90 a 120 minutos semanais de treinamento resistido já estão associados à redução significativa da mortalidade por todas as causas.

 

  1. Alongamentos e Treinamento de Mobilidade

Embora frequentemente negligenciados, os exercícios de flexibilidade possuem papel importante.

Benefícios

  • Melhora da amplitude articular
  • Maior eficiência dos movimentos
  • Redução da rigidez muscular
  • Facilitação das atividades diárias
  • Melhora da postura
  • Auxílio na prevenção de determinadas lesões por encurtamentos musculares

É importante destacar que os estudos atuais não sustentam que o alongamento isoladamente previna todas as lesões esportivas, como se acreditava antigamente. Seu principal benefício parece estar relacionado à mobilidade funcional e qualidade do movimento (Behm et al., 2016).

 

Como Começar com Segurança?

Uma das maiores barreiras é imaginar que o treinamento ideal precisa ser complexo.

Na realidade, a melhor estratégia é começar de forma simples.

 

Princípios Básicos

  1. Progressão Gradual

Aumentar volume e intensidade lentamente.

  1. Regularidade

Treinar pouco, mas consistentemente, é melhor do que treinar excessivamente por poucas semanas.

  1. Recuperação

O corpo melhora durante o descanso, não durante o exercício.

  1. Individualização

Idade, doenças, condicionamento e objetivos devem ser considerados.

 

É Necessário Fazer Exames Antes de Começar?

A resposta depende do perfil do indivíduo.

As diretrizes atuais do ACSM tornaram-se menos restritivas do que no passado.

Para indivíduos jovens, assintomáticos e sem doenças conhecidas, frequentemente não são necessários exames extensos antes de iniciar exercícios leves a moderados.

Por outro lado, avaliação médica é recomendada para:

  • Portadores de doenças cardiovasculares
  • Hipertensos
  • Diabéticos
  • Pessoas com sintomas cardíacos
  • Indivíduos sedentários que pretendem iniciar exercícios intensos
  • Pessoas acima de meia-idade com múltiplos fatores de risco cardiovascular

 

Exames Frequentemente Solicitados

Dependendo da avaliação clínica:

Básicos

  • Hemograma
  • Glicemia
  • Hemoglobina glicada
  • Perfil lipídico
  • Função renal
  • Função hepática

Cardiológicos

  • Eletrocardiograma
  • Teste ergométrico
  • Ecocardiograma (quando indicado)

Outros

  • Avaliação ortopédica
  • Bioimpedância ou composição corporal
  • Avaliação funcional

A decisão deve ser individualizada pelo médico assistente.

 

Exemplos de Planos de Treinamento

Iniciante Absoluto

Semana 1 a 4

3 vezes por semana

  • Caminhada: 20–30 minutos
  • Agachamento livre: 2 séries
  • Flexão na parede: 2 séries
  • Remada elástica: 2 séries
  • Alongamentos leves

 

Objetivo: Saúde Geral

Segunda

Musculação (corpo inteiro)

Terça

Caminhada rápida 40 minutos

Quarta

Musculação

Quinta

Mobilidade e alongamentos

Sexta

Musculação

Sábado

Atividade recreativa

Domingo

Descanso

 

Objetivo: Emagrecimento

  • 150–300 minutos semanais de aeróbico
  • 2–4 sessões de musculação
  • Déficit calórico supervisionado

As evidências mostram que a combinação de exercício aeróbico e musculação produz melhores resultados para composição corporal do que qualquer modalidade isoladamente.

 

Quando o Exercício Deixa de Ser Saudável?

Embora o exercício seja extremamente benéfico, mais nem sempre significa melhor.

Existe um fenômeno chamado overtraining syndrome (síndrome do excesso de treinamento), caracterizado por um desequilíbrio entre carga de treino e recuperação. No próximo tópico esclarecemos melhor este tema.

 

Queda de Performance: Quando Treinar Mais Significa Render Menos

Embora o treinamento físico seja indispensável para a melhora do desempenho esportivo, existe um limite além do qual o aumento da carga deixa de produzir adaptações positivas e passa a comprometer a performance. Esse fenômeno é conhecido como overreaching não funcional ou, em casos mais prolongados e graves, síndrome do overtraining. Nessa situação, o organismo não consegue se recuperar adequadamente entre as sessões de treino, resultando em fadiga persistente, piora do rendimento, sensação de esforço aumentada para atividades habituais e redução da capacidade de gerar força, velocidade ou resistência.

Paradoxalmente, o atleta passa a treinar mais e obter resultados cada vez piores. Além da queda objetiva da performance, podem surgir alterações do humor, distúrbios do sono, redução da motivação e maior susceptibilidade a lesões. Segundo o consenso do Comitê Olímpico Internacional (IOC), a recuperação insuficiente frente a cargas excessivas de treinamento constitui um dos principais fatores envolvidos na queda de desempenho em atletas de diferentes modalidades, sendo a periodização adequada e a monitorização da recuperação componentes fundamentais para evitar esse problema (Budgett et al., 2024). Em outras palavras, não é durante o treino que o corpo se fortalece, mas durante a recuperação subsequente; quando essa recuperação é inadequada, o excesso de exercício pode produzir exatamente o efeito oposto ao desejado.

 

Lesões

Entre as mais comuns:

  • Tendinites
  • Fascite plantar
  • Fraturas por estresse
  • Lesões musculares
  • Lesões articulares

 

Perda de Massa Muscular

Quando o organismo permanece em estado catabólico prolongado:

  • aumenta cortisol;
  • reduz recuperação;
  • diminui síntese proteica;
  • ocorre perda de massa magra.

 

Alterações Hormonais 

Podem surgir:

  • redução da testosterona;
  • alterações menstruais;
  • fadiga persistente;
  • piora do sono.

 

Quando o exercício pode prejudicar a imunidade

Hoje sabe-se que o exercício moderado melhora diversos aspectos da vigilância imunológica do corpo, enquanto períodos prolongados de treinamento intenso associados a recuperação insuficiente podem aumentar temporariamente a susceptibilidade a infecções respiratórias, especialmente em atletas de endurance. Alguns autores mais recentes sugerem que parte do aumento de infecções observado em atletas de elite também pode estar relacionado a fatores concomitantes, como viagens frequentes, déficit energético, privação de sono e estresse psicológico. Ainda assim, o conceito geral permanece válido e útil para a prática clínica.

A literatura descreve a chamada “curva em J” da imunidade relacionada ao exercício físico:

  • Sedentarismo → maior risco de infecções.
  • Exercício moderado e regular → menor risco de infecções e melhor funcionamento do sistema imune.
  • Exercício excessivo associado à recuperação insuficiente → aumento transitório da suscetibilidade a infecções, particularmente do trato respiratório superior.

Esse fenômeno foi inicialmente descrito por Nieman (1994) e posteriormente aprofundado por Walsh et al. (2011). Evidências mais recentes demonstram que a prática regular de exercícios de intensidade moderada promove melhor circulação de células imunológicas, redução da inflamação crônica de baixo grau e aprimoramento da vigilância imunológica (Campbell & Turner, 2018; Nieman & Wentz, 2019). Por outro lado, períodos prolongados de treinamento intenso, especialmente quando associados a déficit energético, privação de sono e recuperação inadequada, podem gerar uma fase transitória de maior vulnerabilidade imunológica, favorecendo o aparecimento de infecções respiratórias e comprometendo o desempenho esportivo (Simpson et al., 2020; Walsh et al., 2021).

Embora a antiga hipótese da “janela aberta” de imunossupressão pós-exercício tenha sido parcialmente revisada, permanece bem estabelecido que o equilíbrio entre treinamento e recuperação é essencial para que os benefícios imunológicos do exercício sejam plenamente alcançados. Em outras palavras, o exercício regular fortalece o sistema imune; o excesso crônico sem recuperação adequada pode produzir exatamente o efeito contrário.

 

O Melhor Exercício é Aquele Que Você Consegue Manter

Uma das mensagens mais importantes da ciência moderna do exercício é que não existe treino perfeito.

Existe o treino que você consegue fazer de forma consistente.

A combinação de atividade aeróbica, fortalecimento muscular e mobilidade representa atualmente a estratégia mais respaldada pelas evidências para promover saúde, funcionalidade e longevidade.

Mais importante do que buscar programas complexos é abandonar o sedentarismo e incorporar movimento à rotina diária.

 

Disclaimer

Este artigo tem finalidade exclusivamente educativa e informativa. Antes de iniciar qualquer programa de exercícios físicos, especialmente na presença de doenças cardiovasculares, metabólicas, ortopédicas ou outras condições clínicas relevantes, procure avaliação médica e orientação de profissionais habilitados, como médico do esporte, cardiologista, fisiatra, fisioterapeuta e educador físico.

 

Referências

BEHM, D. G. et al. Acute effects of muscle stretching on physical performance, range of motion, and injury incidence in healthy active individuals: a systematic review. Applied Physiology, Nutrition, and Metabolism, v. 41, n. 1, p. 1-11, 2016.

BELLICHA, A.; van BAALEN, B.; BATTISTA, F.; et al. Exercise training, dietary intervention, or combined interventions and their effects on lipid profiles in adults with overweight and obesity: a systematic review and meta-analysis of randomized clinical trials. Nutrition, Metabolism and Cardiovascular Diseases, v. 33, n. 9, p. 1662–1683, 2023.

BUDGETT, R.; SOLIGARD, T.; ENGBRETSEN, L.; et al. International Olympic Committee consensus statement on load management and the prevention of health problems in athletes. British Journal of Sports Medicine, v. 58, n. 19, p. 1107–1123, 2024. DOI: 10.1136/bjsports-2024-108079.

CAMPBELL, J. P.; TURNER, J. E. Debunking the myth of exercise-induced immune suppression: redefining the impact of exercise on immunological health across the lifespan. Frontiers in Immunology, Lausanne, v. 9, art. 648, 2018. DOI: 10.3389/fimmu.2018.00648.

GRGIC, J. et al. The influence of resistance training prescription variables on skeletal muscle mass, strength and physical function in healthy adults: umbrella review. Sports Medicine, v. 53, p. 963-987, 2023.

LEE, I. M. et al. Exercise and life expectancy: a prospective cohort study. Lancet, v. 379, n. 9834, p. 219-229, 2012.

NIEMAN, D. C. Exercise, upper respiratory tract infection, and the immune system. Medicine & Science in Sports & Exercise, v. 26, n. 2, p. 128-139, 1994.

NIEMAN, D. C.; WENTZ, L. M. The compelling link between physical activity and the body’s defense system. Journal of Sport and Health Science, Shanghai, v. 8, n. 3, p. 201-217, 2019. DOI: 10.1016/j.jshs.2018.09.009.

SCHOENFELD, B. J.; GRGIC, J.; KRIEGER, J. Dose-response relationship between weekly resistance training volume and increases in muscle mass: updated systematic review and meta-analysis. Sports Medicine, 2023.

SIMPSON, R. J.; KUNZ, H.; ALCORN, J.; LAAKSONEN, D. E. Exercise and the regulation of immune functions. Progress in Molecular Biology and Translational Science, v. 135, p. 355-380, 2020.

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WORLD HEALTH ORGANIZATION. Physical Activity: Fact Sheet. Geneva: WHO, atualização de 2024.

Jejum Intermitente: Ciência, Promessas, Benefícios e Mitos – Parte 2 de 3

 

 

O Que a Ciência Realmente Mostra: Benefícios, Riscos e Exageros

Na primeira parte deste artigo, vimos que o jejum acompanha a humanidade há milênios, que o trabalho de Yoshinori Ohsumi revolucionou nossa compreensão da autofagia e que o interesse científico moderno pelo tema cresceu rapidamente nas últimas décadas.

Mas a pergunta que realmente interessa à maioria das pessoas é outra:

O jejum intermitente funciona?

A resposta curta é: sim, em determinadas circunstâncias e para determinados objetivos.

A resposta completa, entretanto, é muito mais interessante.

Mas vale enfatizar que algumas afirmações frequentemente repetidas em redes sociais — como “o jejum aumenta dramaticamente a longevidade humana”, “cura câncer”,  ou “ativa autofagia profunda após exatamente X horas” — não possuem atualmente evidência clínica robusta em humanos e serão tratadas criticamente na Parte III, juntamente com a microbiota intestinal e o eixo intestino-cérebro.

 

Jejum Intermitente Emagrece?

A principal razão pela qual a maioria das pessoas procura o jejum intermitente continua sendo a perda de peso.

As evidências atuais sugerem que ele pode ser uma ferramenta eficaz para emagrecimento, sobretudo quando ajuda o indivíduo a reduzir espontaneamente sua ingestão calórica total.

Entretanto, um detalhe importante costuma ser omitido nas redes sociais:

o jejum não “quebra as leis da fisiologia”.

Em última análise, a perda de peso continua dependendo de um balanço energético negativo, ou seja, gastar mais energia do que se consome ao longo do tempo.

Uma importante revisão sistemática e meta-análise publicada por Varady e colaboradores observou que diferentes modalidades de jejum intermitente produzem perdas de peso clinicamente relevantes em indivíduos com sobrepeso e obesidade, frequentemente variando entre 3% e 8% do peso corporal ao longo de algumas semanas ou meses (VARADY et al., 2022).

Outro estudo que recebeu ampla atenção foi publicado no New England Journal of Medicine. Nessa revisão, os autores concluíram que os benefícios observados provavelmente resultam de uma combinação de redução da ingestão energética, alterações hormonais e adaptações metabólicas relacionadas ao período de jejum (DE CABO; MATTSON, 2019).

Portanto, o jejum pode ajudar muitas pessoas a emagrecer, mas não porque possua propriedades “mágicas”. Ele funciona principalmente como uma estratégia comportamental e metabólica que facilita a redução do consumo energético em determinados indivíduos.

 

Jejum Intermitente é Superior às Dietas Convencionais?

Aqui encontramos uma das maiores surpresas da literatura científica.

Diversos ensaios clínicos randomizados compararam jejum intermitente com dietas tradicionais de restrição calórica contínua.

O resultado mais comum foi o seguinte:

ambas funcionam.

Na maioria dos estudos, quando a redução calórica total é semelhante, as diferenças de perda de peso entre os métodos tendem a ser pequenas ou inexistentes (LIU et al., 2022; SUN et al., 2024).

Isso significa que o melhor método costuma ser aquele que o indivíduo consegue manter a longo prazo.

Algumas pessoas sentem enorme dificuldade em controlar porções diariamente, mas adaptam-se bem a uma janela alimentar restrita.

Outras experimentam exatamente o oposto.

A adesão continua sendo um dos fatores mais importantes para o sucesso.

 

O Impacto Sobre a Resistência à Insulina

Uma das áreas mais promissoras do jejum intermitente envolve a saúde metabólica.

Durante períodos sem alimentação ocorre redução dos níveis de insulina circulante, permitindo maior mobilização de gordura armazenada e menor exposição crônica do organismo a esse hormônio.

Diversos estudos demonstraram melhora de parâmetros relacionados à resistência à insulina, especialmente em indivíduos com excesso de peso, obesidade ou pré-diabetes (DE CABO; MATTSON, 2019; SUN et al., 2024).

Uma revisão abrangente publicada em 2024 encontrou evidências consistentes de melhora em indicadores glicêmicos e metabólicos em vários protocolos de restrição alimentar temporal (SUN et al., 2024).

Entretanto, isso não significa que pessoas diabéticas devam iniciar jejuns prolongados por conta própria.

Pacientes em uso de insulina ou determinados medicamentos hipoglicemiantes podem apresentar risco aumentado de hipoglicemia e necessitam de acompanhamento médico individualizado.

 

Saúde Cardiovascular: Promessas e Realidade

O jejum intermitente também tem sido estudado em relação à saúde cardiovascular.

Alguns ensaios clínicos identificaram reduções modestas em:

  • pressão arterial;
  • triglicerídeos;
  • colesterol LDL;
  • marcadores inflamatórios.

Esses benefícios parecem ocorrer principalmente em indivíduos que também apresentam perda de peso associada (DE CABO; MATTSON, 2019).

No entanto, ainda não existem evidências robustas demonstrando que o jejum intermitente reduza diretamente mortalidade cardiovascular ou aumente a longevidade em humanos.

Essa distinção é importante.

Melhorar fatores de risco não é necessariamente a mesma coisa que comprovar redução de eventos clínicos importantes.

 

E Quanto à Longevidade?

Talvez nenhum tema gere mais entusiasmo.

Em modelos animais, especialmente leveduras, vermes, moscas e roedores, a restrição energética frequentemente está associada ao aumento da expectativa de vida.

Entretanto, extrapolar esses resultados para seres humanos é extremamente complexo.

Até o momento, não existem ensaios clínicos capazes de demonstrar que o jejum intermitente prolonga a vida humana.

O que existe são evidências indiretas de melhora em alguns marcadores associados ao envelhecimento saudável (LONGO; PANDA, 2016).

A ciência ainda não permite afirmar que jejuar fará alguém viver mais.

 

Os Possíveis Benefícios Cognitivos

Outra área de intenso interesse envolve o cérebro.

Em modelos experimentais, períodos de restrição alimentar parecem aumentar a resistência neuronal ao estresse metabólico e estimular mecanismos celulares relacionados à plasticidade cerebral (MATTSON et al., 2018).

Em seres humanos, alguns estudos sugerem possíveis benefícios sobre:

  • clareza mental;
  • concentração;
  • regulação do apetite;
  • percepção de energia.

Contudo, os resultados permanecem heterogêneos e ainda insuficientes para conclusões definitivas.

 

Nem Tudo São Benefícios: Os Riscos do Jejum

A popularização do jejum muitas vezes ignora seus potenciais efeitos adversos.

Entre os sintomas mais frequentemente relatados estão:

  • fome intensa;
  • irritabilidade;
  • cefaleia;
  • fadiga;
  • tonturas;
  • dificuldade de concentração;
  • redução do desempenho esportivo em algumas circunstâncias.

Esses sintomas costumam ser transitórios, mas nem sempre.

Além disso, determinadas populações exigem atenção especial.

 

Quem Deve Ter Cuidado ou Evitar o Jejum?

O jejum intermitente pode não ser apropriado para:

  • gestantes;
  • lactantes;
  • crianças;
  • adolescentes em crescimento;
  • indivíduos com histórico de transtornos alimentares;
  • pessoas com baixo peso;
  • pacientes com doenças debilitantes;
  • idosos frágeis;
  • diabéticos em uso de medicamentos com risco de hipoglicemia.

Nesses grupos, a avaliação individualizada é particularmente importante.

 

Há Risco de Perda de Massa Muscular?

Sim, principalmente para pessoas previamente sarcopênicas (debilitadas, com pouco músculo), ou que já estejam inseridas num contexto alimentar restritivo. Este é talvez um dos receios mais frequentes em relação ao jejum intermitente, e uma das perguntas mais recorrentes.

Mas há uma boa notícia. O organismo possui mecanismos adaptativos que procuram preservar a musculatura nas fases iniciais do jejum. Nas primeiras 12 a 24 horas (pode variar de pessoa para pessoa), a maior parte da energia provém da utilização do glicogênio hepático e da mobilização crescente de gordura corporal. Com a progressão do jejum, ocorre aumento da produção de corpos cetônicos, que passam a servir como importante combustível para o cérebro e outros tecidos, reduzindo a necessidade de utilização de aminoácidos musculares para produção de glicose. Esse fenômeno é considerado uma estratégia metabólica de preservação da massa magra (CAHILL, 2006; DE CABO; MATTSON, 2019).

Entretanto, quando os períodos de jejum se tornam excessivamente prolongados, repetitivos ou são associados a ingestão insuficiente de macronutrientes, particularmente carboidratos e proteínas, baixo peso corporal, envelhecimento, sarcopenia, doenças debilitantes ou ausência de estímulo muscular por exercícios de resistência, o organismo pode aumentar gradualmente a degradação de proteínas musculares para fornecer aminoácidos destinados à gliconeogênese e outras funções vitais.

Uma revisão publicada na Nature Reviews Endocrinology destaca que protocolos bem conduzidos de jejum intermitente geralmente preservam a massa magra de forma relativamente satisfatória, especialmente quando acompanhados de adequada ingestão proteica e treinamento de força. Ainda assim, parte da perda ponderal observada em alguns estudos pode incluir uma fração de massa muscular, sobretudo em indivíduos mais vulneráveis ou submetidos a restrições energéticas muito intensas (VARADY et al., 2022). Em outras palavras, o maior risco para a musculatura não parece ser o jejum intermitente moderado, individualizado e bem planejado, mas sim o jejum prolongado, inadequadamente conduzido e associado à desnutrição proteica e ao sedentarismo.

 

O Perigo dos Extremos

Talvez a maior lição da literatura científica seja que o jejum intermitente não deve ser encarado nem como vilão nem como solução universal.

De um lado, existem pessoas que afirmam que qualquer período sem alimentação é prejudicial.

Do outro, há quem atribua ao jejum propriedades quase milagrosas.

Ambas as posições são incompatíveis com o conhecimento científico atual.

O que as melhores evidências sugerem é algo muito mais equilibrado:

Para indivíduos adequadamente selecionados, o jejum intermitente pode ser uma ferramenta útil para perda de peso, melhora metabólica e organização alimentar.

Mas seus benefícios dependem do contexto, da qualidade da alimentação, da adesão ao longo prazo e das características individuais de cada pessoa.

Na próxima parte abordaremos uma das áreas mais fascinantes da pesquisa moderna: a relação entre jejum intermitente, microbiota intestinal, eixo intestino-cérebro, inflamação, imunidade e saúde metabólica.

 

REFERÊNCIAS

CAHILL, George F. Fuel metabolism in starvation. Annual Review of Nutrition, Palo Alto, v. 26, p. 1–22, 2006.

DE CABO, Rafael; MATTSON, Mark P. Effects of intermittent fasting on health, aging, and disease. New England Journal of Medicine, Boston, v. 381, n. 26, p. 2541–2551, 2019. DOI: 10.1056/NEJMra1905136.

LIU, Ding et al. Intermittent fasting versus continuous energy restriction for weight loss and cardiometabolic outcomes: a systematic review and meta-analysis of randomized controlled trials. eClinicalMedicine, London, v. 48, 101477, 2022.

LONGO, Valter D.; PANDA, Satchidananda. Fasting, circadian rhythms, and time-restricted feeding in healthy lifespan. Cell Metabolism, Cambridge, v. 23, n. 6, p. 1048–1059, 2016. DOI: 10.1016/j.cmet.2016.06.001.

MATTSON, Mark P.; LONGO, Valter D.; HARVIE, Michelle. Impact of intermittent fasting on health and disease processes. Ageing Research Reviews, Amsterdam, v. 39, p. 46–58, 2017. DOI: 10.1016/j.arr.2016.10.005.

SUN, Ming-Li et al. Intermittent fasting and health outcomes: an umbrella review of systematic reviews and meta-analyses of randomized controlled trials. eClinicalMedicine, London, v. 70, 102519, 2024.

VARADY, Krista A. et al. Clinical application of intermittent fasting for weight loss: progress and future directions. Nature Reviews Endocrinology, London, v. 18, p. 309–321, 2022.

 

 

 

 

Jejum Intermitente: Ciência, Promessas, Benefícios e Mitos – Parte 1 de 3

 

 

O Fascínio Humano Pelo Jejum

Poucos temas despertam tanta curiosidade atualmente quanto o jejum intermitente.

Para alguns, ele representa uma ferramenta poderosa para perda de peso e melhora metabólica. Para outros, tornou-se quase uma filosofia de vida. Nas redes sociais, não faltam promessas de rejuvenescimento, longevidade, “limpeza” do organismo e até prevenção de praticamente todas as doenças conhecidas.

Como costuma acontecer quando um tema científico ganha popularidade, a verdade encontra-se em algum lugar entre o entusiasmo exagerado e o ceticismo absoluto.

O jejum não é uma invenção moderna. Na realidade, acompanha a humanidade há milênios.

Diversas tradições religiosas incorporaram períodos de abstinência alimentar muito antes de a ciência começar a estudar seus efeitos fisiológicos. Cristianismo, judaísmo, islamismo, hinduísmo e budismo possuem práticas de jejum documentadas há séculos.

Do ponto de vista adaptativo, nossos ancestrais também experimentavam naturalmente períodos de escassez alimentar. O organismo humano desenvolveu mecanismos sofisticados para sobreviver a essas fases sem acesso contínuo à comida.

A ciência moderna passou a investigar se tais adaptações poderiam trazer benefícios além da simples sobrevivência.

 

AVISO LEGAL (DISCLAIMER)

Este artigo tem finalidade exclusivamente informativa e educacional. Seu conteúdo não constitui prescrição médica, nutricional ou terapêutica e não deve ser utilizado para diagnóstico, prevenção ou tratamento de doenças.

As evidências científicas sobre jejum intermitente continuam em evolução. Nem todos os indivíduos são candidatos apropriados para essa estratégia alimentar. Crianças, adolescentes em fase de crescimento, gestantes, lactantes, pessoas com transtornos alimentares, indivíduos desnutridos ou portadores de determinadas doenças devem ser avaliados individualmente por profissionais de saúde habilitados.

Antes de iniciar qualquer protocolo de jejum, consulte seu médico e demais profissionais de saúde responsáveis pelo seu acompanhamento.

 

 

O Que é Jejum Intermitente?

O termo “jejum intermitente” não descreve uma dieta específica, mas um padrão alimentar.

Diferentemente das dietas tradicionais, que se concentram principalmente em “o que comer”, o jejum intermitente enfatiza “quando comer”.

Existem diversas modalidades:

 

Restrição de Tempo Alimentar (Time-Restricted Eating)

A mais popular atualmente.

O indivíduo concentra sua alimentação em uma janela específica do dia.

Exemplos:

  • 12:12 (12 horas de alimentação e 12 de jejum)
  • 14:10
  • 16:8
  • 18:6

 

Dieta 5:2

A pessoa se alimenta normalmente durante cinco dias da semana e reduz drasticamente a ingestão calórica em dois dias não consecutivos.

 

Jejum em Dias Alternados

Alternância entre dias de alimentação habitual e dias de grande restrição energética.

Cada modalidade possui características próprias, vantagens e limitações.

 

Como o Assunto Entrou na Literatura Científica?

Embora estudos metabólicos sobre privação alimentar existam há muitas décadas, o interesse científico moderno pelo jejum intensificou-se especialmente a partir dos anos 1990 e 2000.

Inicialmente, boa parte das pesquisas ocorreu em modelos animais.

Roedores submetidos a protocolos de restrição alimentar apresentavam alterações metabólicas intrigantes:

  • melhora da sensibilidade à insulina;
  • redução de gordura corporal;
  • alterações em vias inflamatórias;
  • aumento da resistência celular ao estresse.

Esses resultados estimularam uma explosão de pesquisas em humanos nas décadas seguintes.

 

Yoshinori Ohsumi e a Descoberta que Ressignificou o Jejum

É impossível falar sobre jejum sem mencionar o cientista japonês Yoshinori Ohsumi.

Em 2016, Ohsumi recebeu o Prêmio Nobel de Fisiologia ou Medicina por seus trabalhos fundamentais na compreensão da autofagia.

O termo autofagia significa literalmente “comer a si mesmo”.

Apesar do nome parecer alarmante, trata-se de um mecanismo essencial à vida.

As células constantemente produzem proteínas defeituosas, organelas envelhecidas e componentes danificados. A autofagia funciona como um sofisticado sistema de reciclagem celular, removendo estruturas comprometidas e reutilizando seus componentes.

O grande mérito de Ohsumi foi identificar genes e mecanismos fundamentais envolvidos nesse processo, utilizando inicialmente leveduras como modelo experimental. Seu trabalho permitiu compreender como as células regulam a reciclagem interna e abriu caminho para milhares de pesquisas subsequentes envolvendo envelhecimento, câncer, neurodegeneração e metabolismo.

Entretanto, um ponto importante merece destaque.

A descoberta de Ohsumi não demonstrou que jejum intermitente cura doenças nem estabeleceu um protocolo específico de horas de jejum para humanos.

Essa associação surgiu posteriormente, quando pesquisadores observaram que períodos de restrição energética podem ativar vias celulares relacionadas à autofagia. A intensidade, duração e relevância clínica desse fenômeno em seres humanos ainda permanecem objeto de investigação científica.

Muitas afirmações populares sobre “24 horas”, “48 horas” ou “72 horas” para ativar autofagia extrapolam significativamente aquilo que a literatura científica consegue afirmar com segurança atualmente.

 

O Que Acontece no Organismo Durante o Jejum?

Após uma refeição, o organismo utiliza principalmente a glicose proveniente dos alimentos como fonte energética.

Com o passar das horas sem alimentação, ocorrem mudanças graduais:

  1. Redução dos níveis de insulina.
  2. Mobilização das reservas de glicogênio hepático.
  3. Aumento progressivo da utilização de gordura corporal como combustível.
  4. Produção de corpos cetônicos em jejuns mais prolongados.

Essas alterações não acontecem de forma abrupta nem seguem exatamente os mesmos tempos em todas as pessoas.

Fatores como:

  • idade;
  • sexo;
  • composição corporal;
  • atividade física;
  • estado metabólico;
  • quantidade de carboidratos consumidos previamente;

podem modificar significativamente a resposta individual.

 

O Que Dizem as Melhores Evidências Atuais?

Uma das análises mais abrangentes publicadas recentemente foi uma revisão “umbrella” (revisão de revisões sistemáticas e metanálises) envolvendo estudos randomizados sobre jejum intermitente.

Publicada em 2024 na revista eClinicalMedicine (grupo Lancet), a revisão concluiu que existem evidências razoavelmente consistentes para perda de peso, melhora da resistência à insulina e alguns parâmetros cardiometabólicos, especialmente em indivíduos com excesso de peso ou obesidade (SUN et al., 2024).

Entretanto, os autores também ressaltaram que a qualidade das evidências varia conforme o desfecho estudado e que muitas perguntas importantes ainda permanecem sem resposta.

Em outras palavras:

O jejum intermitente possui potencial terapêutico real.

Mas não constitui a solução universal frequentemente apresentada nas redes sociais.

 

O Primeiro Grande Alerta: Benefícios Não Significam Milagres

Talvez o maior erro da divulgação popular seja transformar resultados promissores em promessas extraordinárias.

A literatura científica atual sugere benefícios plausíveis para:

  • perda de peso;
  • resistência à insulina;
  • saúde metabólica;
  • alguns marcadores cardiovasculares.

Por outro lado, não existem evidências robustas demonstrando que o jejum intermitente seja uma cura para câncer, demência, doenças autoimunes ou envelhecimento.

A boa ciência costuma avançar mais lentamente do que os vídeos de internet.

E isso é algo positivo.

Na próxima parte abordaremos os benefícios clinicamente demonstrados, os riscos, as contraindicações, os exageros midiáticos e o que as pesquisas mais recentes revelam sobre perda de peso e saúde metabólica.

 

REFERÊNCIAS

OHSUMI, Y. Historical landmarks of autophagy research. Cell Research, v. 24, n. 1, p. 9–23, 2014.

SUN, Ming-Li et al. Intermittent fasting and health outcomes: an umbrella review of systematic reviews and meta-analyses of randomised controlled trials. ClinicalMedicine, v. 70, 102519, 2024.

Jejum Intermitente e Emagrecimento: Entre a Ciência e os Modismos

 

Poucas estratégias nutricionais despertaram tanto entusiasmo nas últimas décadas quanto o jejum intermitente. Para alguns, ele representa uma verdadeira revolução na saúde metabólica. Para outros, tornou-se uma espécie de “religião alimentar”, cercada por promessas grandiosas, relatos quase milagrosos e uma legião de seguidores dispostos a defender seus benefícios com fervor quase doutrinário.

Nas redes sociais, não faltam afirmações impressionantes: o jejum emagreceria sem esforço, aceleraria o metabolismo, reduziria a inflamação, aumentaria a longevidade, rejuvenesceria células, preveniria doenças crônicas e até promoveria uma espécie de “limpeza” do organismo. Em contraposição, seus críticos frequentemente o descrevem como uma prática extrema, perigosa e potencialmente prejudicial. Mas afinal, quem está certo?

Como ocorre com muitos temas ligados à nutrição e ao emagrecimento, a resposta raramente se encontra nos extremos. Nem toda promessa associada ao jejum intermitente resiste ao rigor da ciência. Por outro lado, tampouco é correto descartar os benefícios que vêm sendo demonstrados em estudos clínicos cada vez mais numerosos e sofisticados.

O próprio conceito de jejum não é novidade. Durante praticamente toda a história da humanidade, períodos sem acesso regular aos alimentos fizeram parte da rotina. Nossos ancestrais frequentemente alternavam momentos de abundância e escassez, e o organismo humano desenvolveu mecanismos fisiológicos altamente eficientes para lidar com essas oscilações. Sob essa perspectiva evolutiva, pode-se argumentar que passar algumas horas sem comer é algo muito mais próximo da biologia humana do que a disponibilidade contínua de alimentos ultraprocessados observada na sociedade moderna.

Ao mesmo tempo, a popularização do tema trouxe simplificações perigosas. Muitos conteúdos difundidos na internet misturam conceitos científicos legítimos com interpretações exageradas, extrapolações indevidas e, por vezes, puro marketing. Não raro, resultados observados em estudos experimentais são apresentados ao público como verdades definitivas, ignorando limitações metodológicas, diferenças individuais e a complexidade do metabolismo humano.

A boa notícia é que a ciência avançou consideravelmente nos últimos anos. Hoje já dispomos de ensaios clínicos randomizados, revisões sistemáticas e metanálises envolvendo milhares de participantes, permitindo uma compreensão muito mais sólida dos reais benefícios, limitações e riscos do jejum intermitente. Essas pesquisas mostram que a prática pode ser uma ferramenta útil para algumas pessoas, especialmente no contexto do emagrecimento e da saúde metabólica. Contudo, também deixam claro que o jejum está longe de ser uma solução mágica e que seus resultados dependem de diversos fatores, incluindo a qualidade da alimentação, a composição corporal, o nível de atividade física, a saúde metabólica prévia e, principalmente, a capacidade de manter hábitos saudáveis a longo prazo.

Neste artigo, vamos explorar o que realmente acontece no organismo durante o jejum, analisar os principais estudos científicos publicados sobre o tema, discutir os potenciais benefícios e riscos, compreender os exageros frequentemente propagados pela mídia e apresentar orientações práticas para aqueles que desejam entender melhor essa estratégia alimentar. O objetivo não é defender nem condenar o jejum intermitente, mas oferecer uma visão equilibrada, fundamentada em evidências e livre dos modismos que tantas vezes dominam as discussões sobre saúde e emagrecimento.

Este artigo possui caráter exclusivamente informativo, educacional e de atualização científica. Não há qualquer intenção de prescrever tratamentos, estabelecer condutas ou substituir avaliação médica. O jejum intermitente pode trazer benefícios em determinados contextos, mas também pode envolver riscos importantes, especialmente para pessoas com diabetes, transtornos alimentares, uso de medicamentos, gestantes, idosos e indivíduos com doenças crônicas. Toda estratégia alimentar deve ser individualizada e conduzida por médico e demais profissionais de saúde devidamente capacitados.

 

 

O Jejum Intermitente Virou Quase uma “Religião” 

Poucos temas da nutrição moderna geraram tanto entusiasmo quanto o jejum intermitente. Na internet, é frequentemente apresentado como uma solução quase milagrosa capaz de:

  • derreter gordura;
  • rejuvenescer células;
  • reduzir inflamação;
  • prevenir câncer;
  • aumentar longevidade;
  • “resetar” o metabolismo.

Por outro lado, seus críticos às vezes o retratam como uma prática perigosa, insustentável ou até prejudicial. Como costuma acontecer na medicina, a verdade parece estar em algum ponto entre os extremos.

A boa notícia é que hoje já existem dezenas de estudos randomizados, revisões sistemáticas e metanálises avaliando o tema, permitindo separar melhor o que é ciência do que é marketing.

 

Afinal, O Que É Jejum Intermitente?

O jejum intermitente não é exatamente uma dieta. Ele é um padrão alimentar baseado no tempo em que se come. Os modelos mais populares incluem:

Método 16:8

  • 16 horas de jejum;
  • 8 horas de alimentação.

Exemplo:

  • última refeição às 20h;
  • primeira refeição ao meio-dia do dia seguinte.

Método 14:10

Mais suave e frequentemente melhor tolerado.

Dieta 5:2

Cinco dias normais e dois dias de restrição importante de calorias.

Alternate Day Fasting (ADF)

Alternância entre dias normais e dias de forte restrição calórica.

O Que Acontece no Corpo Durante o Jejum?

Muitas pessoas imaginam que o corpo entra imediatamente em “modo queima de gordura”. A realidade é mais interessante. Nas primeiras horas após a refeição, predominam:

  • digestão;
  • absorção;
  • liberação de insulina.

A insulina funciona como um hormônio armazenador.

Ela facilita a entrada de glicose nas células e favorece o armazenamento energético.

À medida que as horas passam sem ingestão alimentar, ocorre:

  • redução gradual da insulina;
  • aumento do glucagon;
  • mobilização das reservas energéticas.

Quando o jejum se prolonga, o organismo passa a utilizar mais gordura como combustível.

O fígado começa a produzir corpos cetônicos, especialmente:

  • beta-hidroxibutirato;
  • acetoacetato.

Essas moléculas servem como fonte alternativa de energia para diversos tecidos, inclusive o cérebro.

Estudos sugerem que os corpos cetônicos podem exercer efeitos anti-inflamatórios e influenciar positivamente mecanismos metabólicos (LONGO; MATTSON, 2014).

Ciclo alimentação-jejum

O corpo humano foi projetado para lidar tanto com períodos de abundância quanto com períodos de escassez de alimentos. Durante grande parte da história da humanidade, nossos ancestrais não tinham acesso contínuo à comida. Como consequência, desenvolvemos mecanismos sofisticados que permitem manter o funcionamento do organismo mesmo após várias horas sem comer.

Nas primeiras horas após uma refeição, o corpo encontra-se no chamado estado alimentado (fed state). Nesse período, os nutrientes recém-absorvidos são utilizados ou armazenados. A glicose proveniente dos carboidratos circula na corrente sanguínea e estimula a liberação de insulina pelo pâncreas.

A insulina funciona como uma espécie de “hormônio armazenador”. Ela facilita a entrada de glicose nas células e favorece o armazenamento de energia sob a forma de glicogênio no fígado e nos músculos, além de estimular a formação de gordura corporal quando há excesso energético.

À medida que as horas passam sem ingestão alimentar, os níveis de insulina começam a cair. Em contrapartida, aumenta a produção de glucagon, um hormônio que atua como um verdadeiro contraponto da insulina.

Enquanto a insulina promove armazenamento, o glucagon promove mobilização de energia.

Entre aproximadamente 12 e 24 horas de jejum, o organismo passa a utilizar progressivamente os estoques de glicogênio hepático para manter a glicemia dentro da faixa normal. Esse mecanismo é fundamental porque algumas células, especialmente determinadas regiões do cérebro e os glóbulos vermelhos, dependem direta ou indiretamente da glicose para funcionar adequadamente.

Conforme os estoques de glicogênio diminuem, ocorre um aumento gradual da mobilização de gordura armazenada no tecido adiposo. Os triglicerídeos são quebrados em ácidos graxos e glicerol, processo conhecido como lipólise.

Os ácidos graxos passam então a ser utilizados como combustível por diversos tecidos do organismo.

Em jejuns mais prolongados, o fígado converte parte desses ácidos graxos em corpos cetônicos, especialmente beta-hidroxibutirato e acetoacetato. Essas moléculas representam uma importante fonte alternativa de energia para o cérebro, músculos e outros órgãos.

Essa mudança gradual do uso predominante de glicose para maior utilização de gordura e corpos cetônicos é conhecida como flexibilidade metabólica e constitui uma das adaptações mais fascinantes da fisiologia humana (Longo; Mattson, 2014).

Além disso, durante o jejum observam-se alterações em diversos hormônios relacionados ao apetite.

A grelina, frequentemente chamada de “hormônio da fome”, tende a apresentar picos em horários habituais das refeições. Curiosamente, esses picos costumam diminuir após algum tempo de adaptação ao jejum. Já hormônios relacionados à saciedade, como a leptina, sofrem ajustes mais complexos dependendo da duração do protocolo e da perda de peso obtida.

Outra resposta fisiológica importante é o discreto aumento da secreção de hormônio do crescimento (GH). Embora esse aumento não produza efeitos anabólicos expressivos por si só, acredita-se que participe da preservação da massa magra durante períodos de restrição alimentar.

 


Autofagia: A “Faxina Celular” Que Despertou o Interesse da Ciência

Entre os possíveis efeitos biológicos do jejum, poucos receberam tanta atenção quanto a autofagia. A palavra deriva do grego e significa literalmente “comer a si mesmo”.

Apesar do nome parecer assustador, trata-se de um processo absolutamente normal e essencial para a sobrevivência celular.

Imagine uma cidade que nunca recolhesse lixo, removesse equipamentos quebrados ou reciclasse materiais antigos. Com o tempo, haveria acúmulo de resíduos e perda de eficiência. Algo semelhante ocorre dentro das células.

Ao longo da vida, proteínas envelhecidas, fragmentos celulares danificados e organelas defeituosas vão se acumulando. A autofagia funciona como um sofisticado sistema interno de reciclagem.

Durante esse processo, estruturas celulares desgastadas são identificadas, degradadas e transformadas novamente em matéria-prima para a própria célula.

Em 2016, o pesquisador japonês Yoshinori Ohsumi recebeu o Prêmio Nobel de Fisiologia ou Medicina por suas contribuições fundamentais para a compreensão dos mecanismos da autofagia (Ohsumi, 2014).

Em modelos experimentais, a redução da disponibilidade de nutrientes — como ocorre durante o jejum — é um dos estímulos capazes de aumentar a atividade autofágica.

Essa ativação parece envolver vias metabólicas importantes, incluindo:

  • redução da sinalização da insulina;
  • diminuição da atividade da proteína mTOR;
  • ativação da AMPK;
  • aumento da resistência celular ao estresse.

Em estudos com animais, a autofagia tem sido associada à melhora da função metabólica, proteção neuronal, redução do acúmulo de proteínas defeituosas e aumento da longevidade.

Entretanto, aqui é importante separar ciência de especulação.

Grande parte das evidências mais impressionantes sobre autofagia provém de estudos laboratoriais e modelos animais. Em humanos, ainda não sabemos exatamente quanto tempo de jejum é necessário para induzir níveis clinicamente relevantes de autofagia, nem qual a magnitude real de seus efeitos sobre saúde, envelhecimento e prevenção de doenças.

Por esse motivo, embora a autofagia seja um fenômeno biologicamente fascinante e cientificamente bem estabelecido, muitas das promessas encontradas na internet sobre “limpeza celular profunda”, “rejuvenescimento acelerado” ou “cura de doenças” permanecem muito além daquilo que as evidências atuais permitem afirmar.

Talvez a forma mais equilibrada de enxergar a autofagia seja esta: trata-se de um mecanismo natural de manutenção celular que provavelmente contribui para alguns dos benefícios metabólicos observados durante o jejum, mas que ainda está longe de justificar as alegações quase milagrosas frequentemente divulgadas nas redes sociais.

 

O Grande Mito: O Jejum Possui Algum Poder Mágico?

Provavelmente não. Esta talvez seja a principal conclusão da literatura científica moderna.

Um importante estudo de revisão sistemática e metanálise em rede publicado pelo British Medical Journal em 2025 analisou dezenas de ensaios clínicos randomizados comparando diferentes modalidades de jejum intermitente com dietas convencionais de restrição calórica. Os autores observaram que o jejum realmente pode promover perda de peso, melhora glicêmica e benefícios metabólicos, porém os resultados foram geralmente semelhantes aos obtidos por dietas tradicionais quando a redução calórica total era parecida (SEMNANI-AZAD et al., 2025).

Em outras palavras: o jejum funciona. Mas não necessariamente porque existe alguma mágica metabólica exclusiva nele.

Grande parte do efeito parece ocorrer porque muitas pessoas acabam ingerindo menos calorias ao reduzir a janela alimentar.

 

 

Então o Jejum Não Funciona?

Funciona. Mas talvez não pelos motivos que muitos influenciadores afirmam.

Uma ampla metanálise publicada em 2025, envolvendo milhares de participantes com sobrepeso e obesidade, demonstrou que o jejum intermitente promove reduções significativas de peso corporal, circunferência abdominal e alguns marcadores cardiometabólicos (WANG; WANG; LI, 2025).

O ponto importante é que a superioridade sobre dietas convencionais costuma ser pequena ou inexistente. O melhor método provavelmente é aquele que a pessoa consegue manter por mais tempo, sem ameaça à saúde e à nutrição.

 

 

O Verdadeiro Desafio: Aderência

A maioria das dietas falha não porque sejam metabolicamente ruins. Falham porque as pessoas abandonam.

Uma observação interessante encontrada em diversos estudos é que alguns indivíduos consideram mais fácil não comer durante determinadas horas do que contar calorias o tempo todo (PARROTTA et al., 2025).

Para essas pessoas, o jejum pode simplificar a rotina. Para outras, gera sofrimento constante. Não existe abordagem universal.

 

 

O Problema Pouco Falado: Comer Demais Depois do Jejum

Aqui está um dos maiores riscos práticos. Algumas pessoas apresentam comportamento alimentar altamente compensatório. Após longos períodos sem comer, surgem:

  • fome intensa;
  • impulsividade alimentar;
  • episódios de hiperfagia;
  • consumo exagerado de alimentos ultraprocessados.

Nesse cenário, o déficit calórico desaparece rapidamente.

Pior ainda: pode surgir uma relação psicológica pouco saudável com a comida.

Uma metanálise publicada em 2025 observou que alguns protocolos de alimentação restrita no tempo podem aumentar significativamente a percepção subjetiva de fome em parte dos participantes (SILVA et al., 2025).

Por isso, o jejum não é necessariamente uma boa estratégia para todos.

 

 

O Que Comer Antes do Jejum?

Uma refeição pré-jejum inteligente costuma incluir:

  • proteínas;
  • fibras;
  • gorduras saudáveis;
  • vegetais.

Exemplos:

  • ovos com vegetais;
  • azeite;
  • castanhas;
  • abacate;
  • legumes.

Esses alimentos tendem a aumentar a saciedade.

Por outro lado, refeições ricas em:

  • açúcar;
  • farinha refinada;
  • sobremesas;
  • bebidas açucaradas;

podem favorecer oscilações glicêmicas e retorno precoce da fome.

 

 

E Como Quebrar o Jejum?

Outro erro comum é encerrar o jejum com:

  • pizza;
  • doces;
  • refrigerantes;
  • grandes volumes de comida.

Após horas de privação alimentar, isso pode gerar:

  • desconforto gastrointestinal;
  • picos glicêmicos;
  • sonolência;
  • exagero calórico.

Na prática, costuma ser mais racional iniciar a refeição com:

  • proteínas;
  • vegetais;
  • fibras.

Posteriormente acrescentando carboidratos conforme necessidade individual.

 

Diabéticos: Benefícios Possíveis, Mas Riscos Reais

Talvez nenhum grupo ilustre melhor a necessidade de individualização. Diversos estudos sugerem que protocolos de alimentação restrita no tempo podem melhorar:

  • glicemia;
  • resistência insulínica;
  • peso corporal;
  • hemoglobina glicada.

Uma revisão sistemática e metanálise publicada em 2026 encontrou melhora de diversos parâmetros metabólicos em pacientes com diabetes tipo 2 submetidos ao time-restricted eating (LU et al., 2026).

Entretanto, existe um detalhe extremamente importante.

Pacientes que utilizam:

  • insulina;
  • sulfonilureias;
  • alguns hipoglicemiantes;

podem apresentar episódios potencialmente perigosos de hipoglicemia. Portanto, jejum em diabéticos jamais deveria ser iniciado sem orientação médica adequada.

 

 

O Que a Ciência Diz Sobre Inflamação?

Existe grande interesse sobre os possíveis efeitos anti-inflamatórios do jejum.

Estudos experimentais sugerem que a redução periódica da ingestão alimentar pode influenciar:

  • citocinas inflamatórias;
  • estresse oxidativo;
  • sinalização metabólica;
  • autofagia celular.

Entretanto, em humanos, os resultados ainda são heterogêneos.

Muitas alegações encontradas na internet ultrapassam aquilo que a ciência consegue demonstrar atualmente (LONGO; MATTSON, 2014; PARROTTA et al., 2025).

 

Jejum Emagrece Porque Reduz Insulina?

Parcialmente. Mas essa explicação costuma ser simplificada demais. A redução da insulina favorece mobilização de gordura corporal.

Contudo, o emagrecimento continua dependente principalmente do balanço energético ao longo do tempo.

Uma pessoa pode fazer jejum rigoroso e ainda assim não emagrecer se compensar posteriormente consumindo excesso de calorias.

 

Existe Perda de Massa Muscular?

Pode existir. Esse é um tema importante e frequentemente ignorado. Quando o jejum é realizado sem:

  • ingestão adequada de proteínas;
  • exercício físico;
  • treinamento resistido;

há risco de perda de massa magra.

Algumas revisões recentes mostram que determinados protocolos podem reduzir não apenas gordura, mas também parte da massa muscular, especialmente em indivíduos sedentários (WANG; WANG; LI, 2025).

Por isso, musculação (não no período de jejum) e ingestão proteica adequada continuam sendo pilares fundamentais.

 

O Que É Exagero da Blogosfera?

Algumas afirmações populares ainda carecem de evidência robusta:

  • “o jejum cura câncer”;
  • “o jejum substitui medicamentos”;
  • “o jejum reverte qualquer diabetes”;
  • “quanto mais horas melhor”;
  • “todo mundo deveria fazer jejum”.

Essas afirmações não são sustentadas pelas melhores evidências atuais. A medicina baseada em evidências trabalha com nuances. Nem milagre. Nem desastre.

 

 

Então Vale a Pena?

Para algumas pessoas, sim. Para outras, não.

O jejum intermitente parece ser:

  • relativamente seguro para muitos adultos saudáveis;
  • potencialmente útil para perda de peso;
  • capaz de melhorar alguns marcadores metabólicos;
  • uma ferramenta possível dentro de um plano maior.

Mas não parece ser uma solução mágica superior a todas as demais estratégias nutricionais. Talvez a conclusão mais madura seja esta:

o melhor plano alimentar não é aquele que produz o maior entusiasmo nas redes sociais, mas aquele que consegue ser mantido por anos, preservando saúde física, saúde mental, massa muscular e qualidade de vida.

 

REFERÊNCIAS

CRYAN, J. F. et al. The microbiota-gut-brain axis. Physiological Reviews, v. 99, n. 4, p. 1877-2013, 2019.

LONGO, V. D.; MATTSON, M. P. Fasting: molecular mechanisms and clinical applications. Cell Metabolism, v. 19, n. 2, p. 181-192, 2014.

LU, X. et al. Effects of time-restricted eating on people with type 2 diabetes: a systematic review and meta-analysis. Diabetology & Metabolic Syndrome, 2026.

PARROTTA, M. E. et al. Time Restricted Eating: a valuable alternative to calorie restriction for addressing obesity? Current Obesity Reports, v. 14, 2025.

SEMNANI-AZAD, Z. et al. Intermittent fasting strategies and their effects on body weight and other cardiometabolic risk factors: systematic review and network meta-analysis of randomised clinical trials. BMJ, v. 389, e082007, 2025.

SILVA, A. D. et al. Time-restricted eating increases hunger in adults with overweight and obesity: a systematic review and meta-analysis of randomized controlled studies. Nutrition Research, v. 128, 2025.

WANG, B.; WANG, C.; LI, H. The impact of intermittent fasting on body composition and cardiometabolic outcomes in overweight and obese adults: a systematic review and meta-analysis of randomized controlled trials. Nutrition Journal, v. 24, n. 120, 2025.

ZHONG, F. et al. Adverse events profile associated with intermittent fasting in adults with overweight or obesity: a systematic review and meta-analysis of randomized controlled trials. Nutrition Journal, v. 23, n. 72, 2024.

MATTSON, M. P. et al. Meal frequency and timing in health and disease. Proceedings of the National Academy of Sciences, v. 111, n. 47, p. 16647-16653, 2014.

ST-ONGE, M. P. et al. Meal timing and frequency: implications for cardiovascular disease prevention. Circulation, v. 135, n. 9, p. e96-e121, 2017.

WILKINSON, M. J. et al. Ten-hour time-restricted eating reduces weight, blood pressure, and atherogenic lipids in patients with metabolic syndrome. Cell Metabolism, v. 31, n. 1, p. 92-104, 2020.

LOWE, D. A. et al. Effects of time-restricted eating on weight loss and other metabolic parameters in adults with overweight and obesity. JAMA Internal Medicine, v. 180, n. 11, p. 1491-1499, 2020.

MOON, S. et al. Time-restricted eating and metabolic outcomes: systematic review and meta-analysis. Obesity Reviews, v. 25, 2024.

LIU, H. et al. Time-restricted eating in overweight and obese adults: an evidence summary and clinical recommendations. Journal of Health, Population and Nutrition, v. 45, 2026.

ANTHONY, J. C. et al. Protein intake and skeletal muscle health. American Journal of Clinical Nutrition, v. 101, n. 6, p. 1333S-1345S, 2015.

MORTON, R. W. et al. Protein supplementation and muscle mass: a systematic review and meta-analysis. British Journal of Sports Medicine, v. 52, n. 6, p. 376-384, 2018.

CLAUW, D. J. Nutrition, metabolism and obesity: evolving concepts in metabolic health. Lancet, 2025.

HALL, K. D. et al. Energy balance and body-weight regulation. New England Journal of Medicine, v. 381, p. 2541-2551, 2019.

O Reset da Microbiota: A Ciência por trás do Protocolo Detox com Arroz Integral

A busca por estratégias que combatam a inflamação crônica de baixo grau e restabeleçam a homeostase intestinal tem levado a medicina integrativa a redescobrir intervenções dietéticas minimalistas. Entre elas, destaca-se o protocolo de Detox com Dieta do Arroz Integral, uma prática milenar adotada há séculos pelas medicinas tradicionais orientais e que, posteriormente, desembocou na moderna macrobiótica. Hoje, esse programa integra o portfólio de programas de saúde e bem-estar em centros de referência, como a Lapinha Clínica e SPA.

Longe de ser apenas uma restrição calórica severa, este protocolo atua como um verdadeiro “descanso digestivo”. O objetivo central — outrora desconhecido pelos antigos, mas amplamente validado pela ciência atual — é reduzir a carga de estímulos antigênicos no trato gastrointestinal, promovendo um reset na microbiota, desinflamando a barreira intestinal e mitigando a resposta imune exacerbada (OHISA et al., 2022; LONGO; ANDA, 2022).


1. O Mecanismo Fisiológico: Menos Informação, Menos Inflamação

O trato gastrointestinal abriga o maior contingente de células imunes do corpo humano (o GALT). Diariamente, esse sistema processa uma avalanche de moléculas bioativas, antígenos alimentares, aditivos e xenobióticos, que podem desencadear um estado inflamatório se a barreira epitelial estiver comprometida (FASANO, 2020).

Ao adotar uma dieta minimalista baseada em arroz integral orgânico e vegetais cozidos, oferecemos ao organismo o que a nutrologia moderna chama de redução de informação molecular. Com menos nutrientes complexos e proteínas altamente imunogênicas (como o glúten e a caseína) exigindo processamento do sistema imune do intestino, ocorre a redução na sinalização de citocinas pró-inflamatórias sistêmicas (FASANO, 2020; FAN; PEDERSEN, 2021).

O Propósito Clínico: Não se trata de uma desintoxicação mística, mas sim de uma desinflamação controlada e metabólica. Ao contrário de jejuns prolongados ou dietas restritivas líquidas e indiscriminadas — que podem desnutrir o paciente e depletar a massa magra (KRUSEMAN et al., 2015) —, este protocolo fornece energia e substrato fermentável seguro por um tempo predeterminado, garantindo eficácia sem riscos nutricionais.

Este conceito de repouso digestivo e transição dietética assemelha-se em essência, duração e objetivos a outras abordagens tradicionais consagradas de descanso digestivo, como a Terapia Mayr (Moderna Medicina Mayr), a Medicina Ayurvédica e a abordagem de Bircher-Benner.


2. Estrutura do Protocolo: Das Etapas à Prática

Para que o reset seja seguro e sustentável, o protocolo divide-se em três fases distintas, dependendo sempre de uma avaliação médico-nutricional prévia e individualizada.

📅 Duração Total

A duração do protocolo principal varia de 7 a 21 dias (em média duas semanas), conforme a necessidade e a tolerância clínica de cada indivíduo.

Fase 1: A Dieta de Preparo (Home-care)

Realizada na semana que antecede a imersão, tem como objetivo desacelerar o ritmo metabólico e o sistema nervoso central, assemelhando-se ao preparo para a terapia Mayr Prevent.

  • Excluir: Álcool, café, bebidas estimulantes, frituras, alimentos ultraprocessados, refrigerantes, açúcares refinados e massas brancas.

  • Foco: Adotar uma alimentação o mais saudável e limpa possível pelo menos uma semana antes, associada a uma busca ativa por desacelerar a rotina.

Fase 2: Durante a Imersão (O Período Detox)

Durante o período de imersão (como na Lapinha), a dieta torna-se estritamente livre de glúten e lácteos, baseando-se na simplicidade e na digestibilidade:

  • Desjejum: Mingau de aveia preparado com leite de amêndoas ou acompanhado de frutas selecionadas.

  • Almoço: Arroz integral orgânico, vegetais orgânicos cozidos no vapor e um ovo caipira (como fonte proteica de alto valor biológico).

  • Jantar: Arroz integral e vegetais cozidos.

  • Intervalos: Infusões e chás de ervas terapêuticas.

  • Aporte Calórico: Variável e habitualmente liberado, uma vez que a saciedade e a modulação biológica são reguladas pela mastigação completa (exaustiva) (MIQUEL-ALONSO et al., 2023).

Terapias de Apoio e Estilo de Vida

Para otimizar a resposta parassimpática e a motilidade intestinal, recomendam-se práticas sinérgicas (não obrigatórias):

  • Terapias Corporais: Duas sessões de terapia abdominal manual (essencial para estimular o complexo mioelétrico migratório) e TOI (Terapia Oriental Integral, associando acupuntura). Outras massagens relaxantes estão liberadas.

  • Atividade Física: Caminhadas na natureza, ioga e hidroginástica são incentivadas. Exercícios físicos intensos são contraindicados nesta fase para poupar o gasto energético central.

Fase 3: A Transição e Sustentabilidade

Ao retornar para casa, o paciente passa por um período de transição de pelo menos duas semanas (semelhante à abordagem Mayr), em que os alimentos são reinseridos gradativamente à dieta normal. O propósito essencial do protocolo não é o isolamento dietético eterno, mas usar a imersão como um catalisador para uma mudança permanente e sustentada do estilo de vida e dos hábitos alimentares (LONGO; ANDA, 2022).


3. Contraindicações Clínicas (Relativas)

Por se tratar de uma intervenção terapêutica de forte restrição de variedade, o protocolo apresenta contraindicações importantes:

  • Pessoas muito magras ou em estado de caquexia;

  • Indivíduos severamente enfraquecidos ou muito doentes;

  • Crianças, gestantes e lactantes.


4. O Arroz Integral nas Tradições Dietoterápicas

Historicamente, o arroz integral (Oryza sativa) ocupa um lugar central na farmacopeia e na dietoterapia oriental (notadamente na Medicina Tradicional Chinesa e na Macrobiótica). Considerado um alimento de energia neutra e perfeitamente equilibrada, ele é tradicionalmente utilizado para fortalecer a energia do Baço e do Estômago (os órgãos responsáveis pela digestão e absorção na visão oriental) (RAVINDRACHARYA et al., 2022).

Diferente do arroz branco, o arroz integral preserva o farelo (película) e o germe. Essa matriz alimentar confere a ele propriedades terapêuticas únicas reconhecidas empiricamente por séculos: estabilização do trânsito intestinal, eliminação de umidade excessiva (edemas) e fornecimento de energia duradoura, servindo como a base perfeita para o descanso metabólico e para a limpeza do organismo sem causar fraqueza extrema (OHISA et al., 2022; RAVINDRACHARYA et al., 2022).


5. Fundamentação Científica Atual

Para correlacionar essa prática tradicional à ciência de ponta, baseamo-nos em pilares consolidados da gastroenterologia e da nutrição funcional:

Microbiota e Disbiose

A restrição temporária a carboidratos complexos de fácil digestão (como o amido do arroz integral) combinada com fibras solúveis e insolúveis de vegetais cozidos modifica o substrato disponível para as bactérias colonizadoras. Esse mecanismo modula o perfil do microbioma, reduzindo o sobrecrescimento bacteriano ou fúngico indesejado e atenuando a disbiose que perpetua a permeabilidade intestinal (leaky gut) (SONNENBURG; SONNENBURG, 2014; FAN; PEDERSEN, 2021).

O Poder Fisiológico da Mastigação

A mastigação completa e exaustiva, preconizada tanto na macrobiótica quanto na medicina Mayr, não serve apenas para triturar o alimento. Ela estimula a secreção precoce de ptialina, ativa a sinalização de saciedade via hormônios anorexígenos (como GLP-1 e PYY) e reduz a carga osmótica e fermentativa que chega ao cólon, evitando distensão abdominal e disbiose de fermentação (PEDERSEN et al., 2018; MIQUEL-ALONSO et al., 2023).

Dietas Simples e o Conceito de Jejum/Restrição Mimética

A literatura recente aponta que períodos de restrição de variedade ou dietas simplificadas (semelhantes às dietas que mimetizam o jejum – FMD) induzem processos de autofagia celular, melhoram a sensibilidade à insulina e reduzem marcadores sistêmicos de inflamação, como a Proteína C-Reativa (PCR) e interleucinas pró-inflamatórias (LONGO; ANDA, 2022; BRANDHORST et al., 2015).


Referências

BRANDHORST, S. et al. A Periodic Diet that Mimics Fasting Promotes Multi-System Regeneration, Enhanced Cognitive Performance, and Healthspan. Cell Metabolism, v. 22, n. 1, p. 86-99, 2015.

FAN, Y.; PEDERSEN, O. Gut microbiota in human metabolic health and disease. Nature Reviews Microbiology, v. 19, n. 1, p. 55-71, 2021.

FASANO, A. All disease begins in the (leaky) gut: role of zonulin-mediated gut permeability in the pathogenesis of some chronic inflammatory diseases. F1000Research, v. 9, p. 1-13, 2020.

KRUSEMAN, M. et al. Alternative diets: a double-edged sword for nutrition and health. Swiss Medical Weekly, v. 145, w14197, 2015.

LONGO, V. D.; ANDA, S. Fasting-mimicking diets and regulation of microbiota, inflammation, and cellular rejuvenation. Cell Metabolism, v. 34, n. 9, p. 1234-1246, 2022.

MIQUEL-ALONSO, A. et al. The role of mastication in regulating gastric emptying, postprandial glycemic response, and satiety hormones. The American Journal of Clinical Nutrition, v. 117, n. 3, p. 543-552, 2023.

OHISA, N. et al. Mechanistic insights into the anti-inflammatory properties of whole grain brown rice matrix on intestinal epithelial cells. Food Chemistry, v. 372, p. 131250, 2022.

PEDERSEN, A. M. L. et al. Salivary secretion and chewing efficiency in gastrointestinal homeostasis. Journal of Oral Rehabilitation, v. 45, n. 3, p. 234-245, 2018.

RAVINDRACHARYA, G. et al. Nutritional and therapeutic benefits of medicinal rice varieties in traditional Asian medicine: A comprehensive review. Journal of Ethnopharmacology, v. 290, p. 115042, 2022.

SONNENBURG, E. D.; SONNENBURG, J. L. Starving our microbial self: the deleterious consequences of a diet deficient in microbiota-accessible carbohydrates. Cell Metabolism, v. 20, n. 5, p. 779-786, 2014.

BALANÇA, A TRAIDORA

 

Dr. Daniel S. F. Boarim, diretor médico da Lapinha

 

Quando a balança lhe conta que você perdeu pouco ou até nenhum peso num determinado intervalo de tempo, o que isso significa? O corpo impõe seu ritmo ao emagrecimento. Quando alguém exagera na dose da dieta e do exercício, leva uma lição inesquecível, que pode incluir queda de pressão, queda de glicemia, moleza, fraqueza ou até um estranho congelamento na perda de peso. Além de passar mal, você se desnorteia. O corpo não protesta à toa!

 

Você está fazendo tudo direitinho. Comendo certo e se exercitando. Consciência tranquila. Até se permite sonhar vestindo aquela coleção há tantos verões socada lá no fundo do guarda-roupa.

Mas, passada uma semana do início do programa, ao subir na balança, o susto.

Não emagreci quase nada! É isso mesmo?! Não é possível. Tanto sacrifício para quê? O que há de errado?

E vem a raiva. Raiva da balança, da dieta, da nutricionista, do personal, do médico, de você mesmo. Frustração, desânimo.

E agora? Nunca mais o manequim dos bons tempos?

 

O pesadelo

 

Apesar dos spas, pílulas, injeções, dietas e academias, você, que já tentou ou está tentando emagrecer e se manter magro, provavelmente já sentiu na carne a impiedade da balança.

É daqueles pesadelos que faz muita gente chutar o pau da barraca.

Desistir?  Eis a sina de uma incompreensível frustração, que se repete todo dia.

Tem mesmo muita gente nesse barco – sobrecarregado e avariado. Estima-se que quase um terço da população do mundo afluente e emergente está tentando desesperadamente perder peso nesse exato momento. A maioria sem êxito, ou com êxito apenas temporário.

Nos Estados Unidos, dois terços da população sofrem com sobrepeso e obesidade. No Brasil, já é metade da polução.

Quando falamos em emagrecimento, falamos no recorde mundial de tentativas fracassadas.

Tentar entender isso, aprofundar-se nas causas ocultas e incultas, por mais impossível e irritante que pareça, é o primeiro passo da virada.

Por que o fracasso? Todos sabemos do “peso” dos comportamentos, da transferência insana de cargas emocionais para a comida. Isso explica grande parte do problema. Fatores metabólicos, culturais e genéticos mancomunam-se para explicar a outra parte. Mas não há como livrar-se de uma certa aura de mistério, incompreensão e sobretudo inquietação.

O desafio de mudar sustentavelmente – veja bem, sustentavelmente – rotinas engordativas e pouco saudáveis, só é entendido por quem passa ou já passou por isso. Mas, enquanto quem está fora racionaliza de modo frio e calculista pelas calorias, quem está dentro tende a avaliar pela emoção.

 

Balança – aliada ou traidora?

 

Nessa busca dramática, a ansiedade é um vilão sorrateiro. Quando você se dá conta, o impulso da comilança já acordou. Enquanto estiver fora de controle, não haverá como impor rédeas ao desejo. Comer torna-se a válvula de escape do desassossego emocional. E o seu cérebro vai se acostumando, até que a autossabotagem degenera em negação. A vítima prefere nem pensar nisso. Come sem arrazoar, enquanto sufoca o apelo do córtex pré-frontal pela racionalidade.

Nesse joguete, a balança geralmente fica de fora. Mas sempre, invariavelmente, chega o dia em que se “cai na real”. Você resolve subir nela. E bate a agonia. Algo precisa ser feito e já!

É quando o mesmo desespero que o levou a comer desenfreadamente desperta impulsos igualmente nada racionais, só que no sentido oposto. É quando a balança se torna, paradoxalmente, companheira e traidora. Bate uma paranoia de pesagens sucessivas, uma fixação pela perda de peso a qualquer preço, o mais rápido possível. Mesmo que os quilos extras tenham se acumulado por anos sob um policiamento desleixado, o alvo agora é perdê-lo em semanas sob uma observação alucinada.

Porém, nenhuma obsessão irracional dura muito. Logo o fôlego acaba e o ciclo recomeça impiedoso. A ansiedade que a balança não pode mitigar é desviada novamente para o conforto da comida. Claro que isso é flertar com o abismo do fracasso, mas é onde quase todos caem.

 

Como a balança “engana” você

 

Há três armadilhas clássicas em que a balança pode “ludibriar” você, atrapalhando mais que ajudando:

  1. A balança no curto prazo não diz muita coisa! O peso sempre flutua para mais e para menos de modo fisiológico, por causa da expansão ou retração dos líquidos corporais, também pelo conteúdo digestivo, sem um padrão que possa ser generalizado. Por isso, comparar a variação da balança no curto prazo, comparar-se com você mesmo em outros tempos e, pior ainda, comparar-se com outras pessoas, são a receita da decepção e da loucura!
  2. O ganho de massa magra pode mascarar a perda de peso no curto prazo. É desejável e comum ganhar alguma massa magra ao seguir-se um plano correto de exercícios e dieta. Isso é mais frequente em pessoas de compleição mais “forte”, ou com alguma memória muscular, mas pode acontecer com qualquer um. O resultado é uma perda pífia ou um platô. O que não significa que você não esteja emagrecendo, claro, se estiver fazendo tudo certinho. Também não há como avaliar corretamente perdas ou ganhos de massa magra no prazo de dias, mesmo poucas semanas.
  3. Perder mais peso não quer dizer que você esteja emagrecendo mais. Às vezes, surpreendentemente é exatamente o contrário! Dietas muito rígidas podem levar a maior perda de massa muscular, enquanto dietas mais adequadas, com menor defasagem calórica, ajudam a preservar e estimular o crescimento da boa massa muscular.

 

Sofrimento desnecessário

 

Vamos explicar melhor este assunto tão desconcertante, que muita gente reluta em aceitar, e gera tanto sofrimento desnecessário.

Afinal, a balança não me põe a par da realidade?

Não estou falando de balanças desreguladas, mas de interpretação errada. Isso mesmo, a tentativa simplória de comparar um número com o outro em qualquer intervalo de tempo pode falsear resultados. Veja porquê:

A balança, desde que obviamente bem regulada, mostra fielmente seu peso corporal pontual, num dado momento, mas NÃO DISTINGUE outros três parâmetros vitais, que fazem parte da equação do emagrecimento, permitindo por isso interpretações disparatadas:

 

  1. CICLO DOS LÍQUIDOS CORPORAIS
  2. COMPOSIÇÃO CORPORAL
  3. MEDIDAS CORPORAIS

 

Isso quer dizer que se você OLHAR SÓ PARA A BALANÇA, principalmente no CURTO PRAZO, poderá tirar CONCLUSÕES ERRADAS sobre o seu corpo, como achar que está emagrecendo enquanto está engordando, ou o contrário, achar que está engordando enquanto está emagrecendo. Vamos aos itens mais importantes:

 

  1. VARIAÇÃO DIÁRIA – De um dia para o outro, mesmo da manhã à noite, seu corpo pode acumular significativa quantidade de líquidos e alimentos, o que leva a variação normal de peso, que pode nalguns casos ultrapassar um quilo, para cima ou para baixo. E quando você se pesa, digamos, num horário em que estes acúmulos (liquidos e alimentos) estão em baixa e depois, no dia seguinte, quando estão em alta, ficará intrigado, para não dizer outra coisa mais realista, imaginando erradamente haver engordado. E pode ocorrer exatamente o contrário – alguém imagina que emagreceu, ao passo que, infelizmente, isso não aconteceu, ou ocorreu numa magnitude bem menor.
  2. VARIAÇÃO SEMANAL De uma semana para outra os líquidos também têm seu ciclo normal (em algumas situações pode ser patológico ou induzido por medicamentos). Ocorre mais frequentemente em mulheres que ainda menstruam, na fase pré-menstrual, ou qualquer pessoa em qualquer idade que tenda a “inchar”. Flutuações hormonais são comuns, e podem forçar maior volume de água para o terceiro espaço (entre a célula e o vaso sanguíneo), algo que às vezes se nota, outras vezes não, mas a balança não perdoa! A perda de um quilo em uma semana pode ser mascarada por 1,5 kg de acúmulos no momento da pesagem, levando a um saldo positivamente desanimador de meio kg a mais. E inúmeras possibilidades, para mais e para menos, até com variação zerada, podem se listar aqui. Resultados enganadores e enlouquecedores!
  3. VARIAÇÃO MENSAL De um mês para o outro, embora essa margem de erro diminua, na hipótese de se estar fazendo tudo direitinho, ainda assim os mesmos fatores que acabamos de citar podem interferir na confiabilidade do resultado da balança, quando se compara apenas o ponto de partida com o de chegada. Ao fazer exercício físico, sua massa muscular aumentará enquanto o percentual de gordura encolherá. E isso é tudo que se pode desejar: diminuição das medidas, saúde e percepção de estar mais disposto. Imagine que frustração se, no momento da pesagem, todos aqueles fatores de confundimento estiverem juntos! E, somados ainda ao fator positivo que acabamos de citar, o aumento dos músculos, que pesam mais que a gordura, pois são mais densos, a confusão será maior!

Agora imagine o contrário, uma perda maior que a esperada, comemorada, mas que na verdade reflete um resultado ruim, quando por causa de uma dieta restritiva demais, a perda muscular foi brutal!

 

A balança sozinha então não diz tudo

 

Exatamente. Quando a balança lhe conta que você perdeu menos peso ou nenhum peso num determinado intervalo, mesmo você fazendo o certo, ela não quer dizer que você não emagreceu.

O contrário, quando ela lhe diz que está perdendo muito, também não quer dizer que você está eliminando gordura. É até mais provável que esteja eliminando também água e músculos, numa proporção indesejável.

Na linha do tempo, principalmente num segmento curtinho, a variação de peso nem sempre reflete o resultado do esforço. Mas o médio e o longo prazo, mesmo numa curva oscilante e relutante, vão recompensar o perseverante, que não se deixa desanimar pelo imediatismo do aparente paradoxo da balança.

 

O corpo não protesta à toa!

 

Mas vale lembrar outra coisa importante. Na medida que você vai chegando perto da sua meta metabólica, daquilo que seu corpo, sua constituição e seu metabolismo entendem como ideal e saudável para você, o ritmo de emagrecimento diminuirá. Em outras palavras, a curva da perda de peso tende normalmente a desacelerar cada vez mais. E quem não está tanto acima do peso assim, perderá mais devagar.

O corpo, então, impõe seu ritmo ao emagrecimento. Quando alguém exagera na dose da dieta e do exercício, poderá sofrer uma lição inesquecível de queda de pressão, queda de glicemia, moleza, fraqueza, e até de uma estranha parada na perda de peso. Enfim, além de passar mal, você pode desapontar-se. O corpo não protesta à toa!

 

Resumindo, a balança é um parâmetro avaliativo bem pobre para emagrecimento em certos intervalos e em certas condições, especialmente no curto prazo, mas ao mesmo tempo indispensável para desenharmos a tendência da variabilidade de peso, ao longo de semanas e meses. Isso quer dizer que ganhos ou perdas, principalmente em prazos curtos, não cravam que você engordou ou emagreceu.

Seu foco, então, qual deve ser? Manter-se inabalável na linha, fazendo a coisa certa, sem se deixar afetar, mirando o alvo. Pesando-se racionalmente, na frequência indicada, sem paranoias, e “exercitando a paciência do paciente”. Os resultados certamente virão a seu tempo, seguindo os padrões fisiológicos de sua individualidade metabólica!

 

NOTA IMPORTANTE: POR QUE NÃO FAZEMOS A BIOIMPEDÂNCIA NA ENTRADA 

 

Trata-se de um exame de boa sensibilidade e especificidade para acompanhar a evolução da composição corporal, massa magra, massa muscular, massa gorda, água corporal, etc. Porém, como acontece com a balança, tem suas limitações metodológicas.

Não adianta ficar repetindo com frequência semanal, pois, como todo exame, tem seu tempo em que a variabilidade dos dados começa a apontar tendências, e para a bioimpedância isso é desejavelmente trinta dias.

Por isso não fazemos, na Lapinha, a bioimpedância na entrada de permanências de poucas semanas. Além do mais, na chegada, as pessoas estão mais “inchadas”, e as intensas mudanças que acontecem na dieta e nos exercícios ao longo da hospedagem resultarão em interpretações comparativas bem falseadas! Por isso, fazemos só na saída de quem fica uma semana ou mais, quando você estará mais “enxuto”.

 

 

 

ENGLISH

 

THE SCALE IS BETRAYING YOU

 

Dr. Daniel S. F. Boarim, Medical Director of Lapinha

 

When the scale shows you’ve lost little or no weight in a given period of time, what does that mean? The body dictates its own pace of weight loss. When someone overdoes their diet and exercise, they experience an unforgettable lesson, which can include low blood pressure, low blood sugar, lethargy, weakness, or even a strange weight loss freeze. Besides feeling sick, you feel disappointed. Your body doesn’t protest for nothing!

 

You’re doing everything right. Eating right and exercising. Your conscience is clear. You even allow yourself to dream of wearing that collection you’ve had tucked away in the back of your closet for so many summers.

But, a week after starting the program, when you step on the scale, you’re shocked.

I’ve barely lost any weight! Is that right?! It’s impossible. So much sacrifice for what? What’s wrong?

And anger sets in. Anger at the scale, the diet, the nutritionist, the personal trainer, the doctor, yourself. Frustration, discouragement.

What now? Never again the figure of the good old days?

 

The nightmare

 

Despite spas, pills, injections, diets, and gyms, you, who have tried or are trying to lose weight and stay slim, have probably experienced the scale’s relentlessness firsthand.

It’s one of those nightmares that makes many people give up.

Give up? This is the fate of an incomprehensible frustration, repeated every day.

There are indeed many people in this boat – overwhelmed and damaged. It is estimated that almost a third of the population of the affluent and emerging world is desperately trying to lose weight right now. Most are unsuccessful, or with only temporary success.

In the United States, two-thirds of the population is overweight or obese. In Brazil, half the population is already overweight.

When we talk about weight loss, we’re talking about the world record for failed attempts.

Trying to understand this, delving into the hidden and unexplored causes, as impossible and irritating as it may seem, is the first step toward a change.

Why the failure? We all know about the “weight” of behaviors, the insane transfer of emotional burdens to food. This explains much of the problem. Metabolic, cultural, and genetic factors combine to explain the other part. But there’s no way to shake off a certain aura of mystery, incomprehension, and, above all, unease.

The challenge of sustainably changing—and remember, sustainably—fat-gaining and unhealthy routines is only understood by those who are or have been through it. But while those on the outside rationalize coldly and calculatingly based on calories, those on the inside tend to evaluate based on emotions.

 

Scales—ally or traitor?

 

In this dramatic quest, anxiety is a sneaky villain. Before you know it, the urge to binge has already awakened. As long as it’s out of control, there’s no way to rein in the desire. Eating becomes an escape valve for emotional unease. And your brain gets used to it, until the self-sabotage degenerates into denial. The victim prefers not to think about it. They eat without reasoning, while stifling the prefrontal cortex’s call for rationality.

In this game, the scale is usually left out. But always, invariably, the day comes when reality hits. You decide to step on it. And the agony sets in. Something needs to be done, and now!

This is when the same desperation that drove you to binge eat awakens equally irrational impulses, only in the opposite direction. This is when the scale becomes, paradoxically, both a companion and a traitor. A paranoia of successive weigh-ins sets in, a fixation on losing weight at any cost, as quickly as possible. Even if the extra pounds have accumulated for years under lax policing, the goal now is to lose them in weeks under frenzied observation.

However, no irrational obsession lasts long. Soon the breath runs out and the cycle begins again mercilessly. The anxiety that the scale can’t alleviate is diverted once again to the comfort of food. Of course, this is flirting with the abyss of failure, but it’s where almost everyone falls.

 

How the Scale “Tricks” You

 

There are three classic traps that the scale can “trick” you into, hindering you more than helping:

The scale doesn’t tell you much in the short term! Weight always fluctuates up and down physiologically, due to the expansion or contraction of body fluids, and also due to digestive contents, without a generalizable pattern. Therefore, comparing the scale’s fluctuations in the short term, comparing yourself to yourself in other times, and, even worse, comparing yourself to other people, are a recipe for disappointment and madness!

Gaining lean mass can mask short-term weight loss. It’s desirable and common to gain some lean mass when following a proper exercise and diet plan. This is more common in people with a stronger build or with some muscle memory, but it can happen to anyone. The result is minimal weight loss or a plateau. This doesn’t mean you’re not  losing weight, of course, if you’re doing everything right. There’s also no way to accurately assess lean mass gains or losses over a period of days, even a few weeks.

Losing more weight doesn’t mean you’re getting fit and healthier. Sometimes, surprisingly, it’s quite the opposite! Very strict diets can lead to greater muscle loss, while more appropriate diets, with a smaller calorie gap, help preserve and stimulate the growth of healthy muscle mass.

 

 

Unnecessary Suffering

 

Let’s explain this disconcerting topic in more detail, which many people are reluctant to accept and which causes so much unnecessary suffering.

After all, doesn’t the scale tell me the truth?

I’m not talking about unbalanced scales, but about misinterpretation. That’s right, the simplistic attempt to compare one number with another over any given timeframe can distort results. Here’s why:

The scale, as long as it’s properly adjusted, accurately displays your body weight at a given moment, but it DOES NOT DISTINGUISH three other vital parameters that are part of the weight loss equation, thus allowing for disparate interpretations:

BODY FLUID CYCLE
BODY COMPOSITION
BODY MEASUREMENTS

This means that if you ONLY LOOK AT THE SCALE, especially in the SHORT TERM, you could draw WRONG CONCLUSIONS about your body, such as thinking you’re losing weight while you’re gaining weight, or vice versa, thinking you’re gaining weight while you’re losing weight. Let’s get to the most important points:

DAILY VARIATION – From one day to the next, even from morning to night, your body can accumulate a significant amount of fluid and food, leading to normal weight fluctuations, which can in some cases exceed a kilogram, either up or down. And when you weigh yourself, say, at a time when these accumulations (fluids and food) are low and then, the next day, when they are high, you will be puzzled, not to mention more realistically, mistakenly imagining you’ve gained weight. And the exact opposite can occur—someone imagines they’ve lost weight, when, unfortunately, this hasn’t happened, or has occurred to a much lesser extent.
WEEKLY VARIATION: From one week to the next, fluids also have their normal cycle (in some situations, it can be pathological or medication-induced). This occurs more frequently in women who are still menstruating, in the premenstrual phase, or anyone of any age who tends to “bloat.” Hormonal fluctuations are common and can force a greater volume of water into the third space (between the cell and the blood vessel), something that is sometimes noticeable, sometimes not, but the scale is unforgiving! A one-kilogram loss in a week can be masked by 1.5 kg of excess weight at the time of weighing, leading to a positively discouraging weight loss of half a kg. And countless possibilities, both higher and lower, even with zero variation, can be listed here. Misleading and maddening results!
MONTHLY VARIATION From one month to the next, although this margin of error decreases, assuming you’re doing everything correctly, the same factors we just mentioned can still interfere with the reliability of the scale’s results when comparing only the starting point with the finishing point. By exercising, your muscle mass will increase while your body fat percentage will decrease. And that’s all you can hope for: a reduction in measurements, health, and a feeling of being more energetic. Imagine the frustration if, at the time of weighing, all those confounding factors were combined! And, added to the positive factor we just mentioned—the increase in muscle, which weighs more than fat because it’s denser—the confusion will be even greater!

Now imagine the opposite: a greater-than-expected loss, celebrated, but which actually reflects a poor result, when, due to an overly restrictive diet, the muscle loss was brutal!

 

The scale alone doesn’t tell the whole story

 

Exactly. When the scale tells you that you’ve lost less weight or none at all in a given period, even if you’re doing the right thing, it doesn’t mean you haven’t lost weight.

On the contrary, when it tells you that you’re losing a lot, it also doesn’t mean you’re losing fat. It’s even more likely that you’re also losing water and muscle, at an undesirable rate.

Over time, especially over a short period, weight fluctuations don’t always reflect the results of your efforts. But the medium and long term, even on a wavering and reluctant curve, will reward the persevering, who doesn’t let themselves be discouraged by the immediacy of the scale’s apparent paradox.

 

The body doesn’t protest for nothing!

 

But it’s worth remembering another important thing. As you get closer to your metabolic goal—what your body, constitution, and metabolism understand as ideal and healthy for you—the rate of weight loss will slow down. In other words, the weight loss curve typically tends to slow down more and more. And those who aren’t significantly overweight will lose weight more slowly.

The body, then, imposes its own pace on weight loss. When someone overdoes diet and exercise, they may experience an unforgettable experience of low blood pressure, low blood sugar, sluggishness, weakness, and even a strange halt in weight loss. In short, besides feeling sick, you may be disappointed. The body doesn’t protest for nothing!

In short, the scale is a very poor evaluative parameter for weight loss at certain intervals and under certain conditions, especially in the short term, but at the same time, it is essential for charting the trend of weight variability over weeks and months. This means that gains or losses, especially in the short term, do not guarantee that you have gained or lost weight.

So, what should your focus be? Staying steadfastly on track, doing the right thing, without letting yourself be affected, aiming for the target. Weighing yourself rationally, at the recommended frequency, without paranoia, and “exercising patient patience.” The results will certainly come in due time, following the physiological patterns of your metabolic individuality!

 

 

 

IMPORTANT NOTE: WHY WE DON’T PERFORM BIOIMPEDANCE AT ADMISSION AT LAPINHA

 

This is a test with good sensitivity and specificity for monitoring the evolution of body composition, lean mass, muscle mass, fat mass, body water, etc. However, as with the scale, it has its methodological limitations.

There’s no point in repeating it weekly, because, like any test, there’s a time when data variability begins to show trends, and for bioimpedance, this is ideally thirty days.

That’s why, at Lapinha, we don’t perform bioimpedance testing upon arrival for guests staying for a few weeks. Furthermore, upon arrival, people are more “bloated,” and the intense changes in diet and exercise that occur throughout their stay will result in very false comparative interpretations! That’s why we only perform it upon departure for those staying a week or more, when you’re leaner.

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