A Faxina Noturna do Cérebro: Conheça o sistema “GLINFÁTICO” e a valor de uma boa noite de sono

 

 

Imagine uma grande metrópole biológica. Durante o dia, milhões de trabalhadores (nossos neurônios) operam em ritmo acelerado, gerando energia, processando informações e, inevitavelmente, produzindo lixo metabólico. Se os serviços de limpeza urbana dessa cidade entrassem em greve perpétua, as ruas rapidamente se tornariam intransitáveis, sufocando a vida local. No cérebro humano, esse cenário de caos urbano equivale ao declínio cognitivo e à demência.

Por décadas, a medicina se perguntou como o cérebro — o órgão metabolicamente mais ativo do corpo — conseguia se livrar de seus próprios resíduos, já que ele é o único sistema do organismo que não possui vasos linfáticos tradicionais. A resposta para esse mistério começou a ser desvendada recentemente e atende pelo nome de sistema glinfático, uma complexa rede de saneamento biológico que só funciona com eficiência máxima quando estamos dormindo (NEDERGAARD, 2013).

 

O Mecanismo Oculto: Como Funciona o Sistema Glinfático?

O sistema glinfático é uma via de limpeza hidrodinâmica dependente das células da glia (daí o prefixo “g”), especificamente dos astrócitos. Essas células possuem canais especializados em suas extremidades, chamados de Aquaporina-4 (AQP4). Esses canais funcionam como comportas que permitem ao líquido cefalorraquidiano (LCR) — o fluido transparente que envolve o sistema nervoso — penetrar de forma pressurizada no tecido cerebral (JESSEN et al., 2015).

Conforme o LCR flui com força através dos espaços que circundam os vasos sanguíneos, ele “lava” o espaço entre os neurônios, misturando-se ao líquido intersticial. Esse fluxo arrasta consigo proteínas mal dobradas, detritos celulares e toxinas acumuladas durante o período em que estivemos acordados (TARASOFF-GRUBB; BRINKMAN; NEEDHAM, 2021).

No entanto, há um detalhe biológico crucial: essa engrenagem de limpeza é quase totalmente desligada enquanto estamos acordados.

 

Por que a Faxina exige o Sono Profundo?

A ciência moderna demonstra que o sistema glinfático opera com um aumento de até 60% em sua eficiência durante o sono, especialmente nas fases de ondas lentas, conhecidas como sono não-REM profundo (XIE et al., 2013).

Esse fenômeno ocorre devido a duas transformações físicas extraordinárias no cérebro adormecido:

  1. Abertura de Espaço: Sob a queda dos níveis de noradrenalina (o hormônio do alerta), as células cerebrais encolhem temporariamente, aumentando o espaço entre elas em cerca de 60%. Isso reduz a resistência física e permite que o líquido de limpeza flua livremente (HAUGLUND; NEDERGAARD, 2026).
  2. Pulsões Hemodinâmicas: Durante o sono profundo, o cérebro exibe ondas lentas de atividade elétrica que alteram ciclicamente o volume de sangue nos vasos. Cada vez que o sangue recua, ele cria uma força de sucção que impulsiona grandes ondas de líquido cefalorraquidiano para dentro do cérebro, otimizando o enxágue (FLINDT et al., 2024).

 

O Preço da Insônia: O Acúmulo de Proteínas Tóxicas

Quando nos privamos do sono ou sofremos de distúrbios crônicos como a apneia obstrutiva, interrompemos essa janela de manutenção. Estudos clínicos em humanos revelam que apenas uma noite de privação total de sono causa um aumento imediato e mensurável nos níveis cerebrais de duas proteínas altamente perigosas: a beta-amiloide e a tau (SHOKRI-KOJORI et al., 2018).

Essas proteínas são velhas conhecidas da medicina. O acúmulo e a aglomeração da beta-amiloide e da tau no tecido cerebral são as principais marcas patológicas da Doença de Alzheimer. Uma falência prolongada do sistema glinfático cria um ambiente permissivo onde essas proteínas tóxicas se solidificam, sufocam os neurônios e destroem as sinapses, desencadeando um ciclo vicioso de neurodegeneração (KAMAGATA et al., 2023).

Metanálises recentes consolidam que quase metade dos indivíduos com marcadores visíveis de disfunção glinfática sofre de algum distúrbio crônico do sono (HEIN et al., 2025). O sono inadequado deixa de ser apenas uma causa de cansaço diurno e passa a ser encarado como um dos fatores de risco modificáveis mais críticos para o desenvolvimento de demências na meia-idade e na velhice (ZHANG et al., 2026).

Proteger o sono não é um ato de indulgência ou preguiça; é uma necessidade biológica inegociável para a preservação da arquitetura cerebral.

A descoberta do sistema glinfático mudou radicalmente o paradigma da neurologia preventiva. O sono de qualidade não serve apenas para “descansar” a mente ou consolidar memórias; ele é o momento exato em que o cérebro se desintoxica. Ao garantirmos noites de sono consistentes e profundas, estamos ativando ativamente a engenharia molecular que limpa o nosso passado diário e protege o nosso futuro cognitivo.

 

Referências

FLINDT, L. R. et al. Hemodynamic driving forces of cerebrospinal fluid flow during non-REM sleep in the human brain. Nature Neuroscience, v. 27, n. 4, p. 712-723, 2024.

HAUGLUND, Natalie L.; NEDERGAARD, Maiken. Is glymphatic clearance the secret to restorative sleep? Brain, v. 149, n. 6, p. 1819–1831, June 2026.

HEIN, Z. M. et al. The Prevalence of Sleep Disorders in Populations with Glymphatic Dysfunction: A Systematic Review and Meta-Analysis. Life, v. 15, n. 4, p. 309-325, 2025.

JESSEN, Jeffrey R. et al. The Glymphatic System: A Beginner’s Guide. Neurochemical Research, v. 40, n. 12, p. 2583-2599, 2015.

KAMAGATA, K. et al. Association of MRI Indices of Glymphatic System With Amyloid Deposition and Cognition in Mild Cognitive Impairment and Alzheimer Disease. Neurology, v. 100, n. 8, p. e812-e824, 2023.

NEDERGAARD, Maiken. Garbage Truck of the Brain. Science, v. 340, n. 6140, p. 1529-1530, 2013.

SHOKRI-KOJORI, Ehsan et al. $\beta$-Amyloid accumulation in the human brain after one night of sleep deprivation. Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS), v. 115, n. 17, p. 4483-4488, 2018.

TARASOFF-CONWAY, J. M.; BRINKMAN, S.; NEEDHAM, E. J. The glymphatic system in central nervous system health and disease: past, present, and future. The Lancet Neurology, v. 20, n. 11, p. 945-958, 2021.

XIE, Lulu et al. Sleep drives metabolite clearance from the adult brain. Science, v. 342, n. 6156, p. 373-377, 2013.

ZHANG, X. et al. Glymphatic dysfunction across sleep disorders: a meta-analysis of DTI-ALPS studies. Frontiers in Neurology, v. 17, n. 2, p. 1789-1804, 2026.

REPETIÇÃO COTIDIANA DE PEQUENAS ESCOLHAS – CHAVE DA LONGEVIDADE

 

 

Muitas vezes imaginamos que uma vida longa e saudável depende de grandes rupturas. Fomos condicionados a acreditar que a saúde é um troféu conquistado apenas por meio de medidas intensas e radicais: dietas extremamente restritivas, rotinas exaustivas de exercícios, jejuns heroicos ou um afastamento quase completo da vida cotidiana em busca de um equilíbrio utópico. Criou-se o mito de que, se não houver sofrimento ou esforço hercúleo, não há resultado.

No entanto, a ciência médica moderna, a neurociência e os estudos populacionais sobre longevidade vêm mostrando um caminho radicalmente diferente — e muito mais humano. A verdadeira saúde duradoura raramente nasce de espasmos de esforço extremo e passageiro. Ela é construída, silenciosamente, na repetição cotidiana de pequenas escolhas.

A longevidade — aquela que não apenas acrescenta anos à vida, mas também vida aos anos — depende muito mais da consistência do que da intensidade.

 

A Neurobiologia da Consistência: Por que o Cérebro Prefere o Pequeno

O cérebro humano funciona por repetição. Nossos circuitos neurais são moldados e fortalecidos pelos hábitos cotidianos (a chamada neuroplasticidade), e não por atos esporádicos de motivação intensa. Quando tentamos mudar nossa vida de forma radical e abrupta, o sistema nervoso interpreta essa mudança como uma ameaça, ativando mecanismos de estresse que sabotam nossa força de vontade a longo prazo (CLEAR, 2019).

Biologicamente, o corpo humano busca a homeostase — um estado de equilíbrio interno estável. O metabolismo responde muito mais favoravelmente à previsibilidade do que aos extremos. Pequenas decisões, repetidas por meses e anos, geram um “efeito cascata” silencioso, capaz de modular:

  • A inflamação crônica de baixo grau;
  • A sensibilidade celular à insulina;
  • A microbiota intestinal;
  • A saúde cardiovascular e a regulação da pressão arterial.

Em outras palavras: a saúde não é o resultado de um único gesto heroico. Ela nasce da delicada arquitetura dos microhábitos — comportamentos quase invisíveis que, acumulados ao longo do tempo, blindam o corpo e a mente contra o envelhecimento precoce.

 

Os Pilares Práticos da Longevidade Sustentável

Para entender como a simplicidade vence o radicalismo, a ciência costuma dividir esses microhábitos em pilares fundamentais de eficácia comprovada:

  1. O Ritmo da Luz e do Sono

Expor-se à luz natural logo nos primeiros 30 minutos após acordar regula o nosso relógio biológico central (o núcleo supraquiasmático), otimizando a produção de cortisol e, mais tarde, de melatonina (HUBLERMAN, 2021). Dormir um pouco melhor, mantendo horários regulares, permite que o cérebro ative o sistema glinfático — uma espécie de “serviço de limpeza” cerebral que remove toxinas e resíduos metabólicos associados a doenças neurodegenerativas (NEDERGAARD, 2013).

  1. O Movimento Natural e Contínuo

A ciência da longevidade demonstra que não é preciso correr maratonas para estender a vida. Estudos focados nas “Zonas Azuis” (regiões do planeta com o maior índice de centenários saudáveis) mostram que essas pessoas não frequentam academias exaustivas; elas simplesmente se movem naturalmente a cada 20 ou 30 minutos, caminhando, cuidando do jardim ou subindo escadas (BUETTNER, 2016). Uma caminhada diária leve já é suficiente para reduzir drasticamente o risco cardiovascular.

  1. A Calma à Mesa

Comer com atenção plena e mastigar devagar altera a sinalização dos hormônios da saciedade (como a leptina e a grelina), melhorando a digestão e prevenindo picos glicêmicos exagerados. Além disso, a redução sutil e constante de excessos alimentares repetidos aciona vias moleculares de reparo celular, como as sirtuínas, que estão diretamente ligadas ao retardamento do envelhecimento (LONGO; PANDA, 2016).

  1. A Desaceleração do Sistema Nervoso

Aprender a fazer pausas e respirar de forma consciente ao longo do dia ativa o sistema nervoso parassimpático através do nervo vago. Esse ato simples reduz os níveis circulantes de estresse e diminui a secreção de citocinas pró-inflamatórias, que são a base de quase todas as doenças crônicas modernas.

O extraordinário da longevidade está justamente nisso: tirar o peso do “tudo ou nada” e abraçar o poder biológico das pequenas escolhas feitas todos os dias.

A longevidade não é um evento com data marcada; é uma prática diária. Ao modularmos nossa rotina através de microhábitos consolidados, paramos de lutar contra o nosso corpo e passamos a esculpir a nossa biologia de dentro para fora, garantindo um envelhecimento ativo, lúcido e profundamente vibrante.

 

Referências

BUETTNER, Dan. The Blue Zones: 9 lessons for living longer from the people who’ve lived the longest. National Geographic Books, 2016.

CLEAR, James. Hábitos Atômicos: um método fácil e comprovado de mudar de hábitos e obter resultados extraordinários. Rio de Janeiro: Alta Life, 2019.

HUBERMAN, Andrew D. Huberman Lab Podcast. Stanford University School of Medicine, 2021. Disponível em: https://hubermanlab.com. Acesso em: 25 jun. 2026. (Nota: Referência à consagrada série de episódios sobre neurobiologia do sono, luz matinal e rotinas circadianas).

LONGO, Valter D.; PANDA, Satchidananda. Fasting, circadian rhythms, and time-restricted feeding in healthy lifespan. Cell Metabolism, v. 23, n. 6, p. 1048-1059, 2016.

XIE, Lulu; KANG, Hongyi; XU, Qiwu; CHEN, Michael J.; LIAO, Yonghong; THIYAGARAJAN, Meenakshisundaram; O’DONNELL, John; CHRISTENSEN, Daniel J.; NICHOLSON, Charles; ILIFF, Jeffrey J.; TAKANO, Takahiro; DEANE, Rashid; NEDERGAARD, Maiken. Sleep drives metabolite clearance from the adult brain. Science, v. 342, n. 6156, p. 373-377, 2013. (Nota: O estudo liderado pelo laboratório de Nedergaard que descobriu o sistema glinfático e a limpeza cerebral durante o sono)

CÂNCER: A MEDICINA DO “E”, NÃO DO “OU” – Estilo de Vida e Tratamentos Modernos Devem Caminhar Juntos

 

 

Introdução

Poucas palavras despertam tanto medo quanto “câncer”.

Ao receber um diagnóstico oncológico, muitas pessoas passam imediatamente a procurar tudo o que possa ajudá-las. Algumas buscam informações sobre alimentação, suplementos, atividade física, espiritualidade ou terapias complementares. Outras depositam toda a esperança nos tratamentos médicos convencionais.

Mas talvez a pergunta mais importante seja:

Precisamos escolher entre estilo de vida e tratamento médico?

A resposta da ciência moderna é clara:

Não.

Quando o assunto é câncer, a melhor estratégia geralmente não é “um ou outro”.

É “um e outro”.

 

Importante – Disclaimer

Este artigo tem finalidade exclusivamente educativa e informativa. Não se destina a diagnosticar doenças, substituir consultas médicas ou estabelecer condutas terapêuticas. Pacientes com suspeita ou diagnóstico de câncer devem buscar avaliação e acompanhamento de médicos e demais profissionais de saúde qualificados. Nenhuma informação aqui apresentada deve ser interpretada como recomendação para iniciar, interromper ou substituir tratamentos médicos.

 

O Estilo de Vida Importa — E Muito

Estima-se que uma parcela significativa dos cânceres esteja relacionada a fatores modificáveis.

Tabagismo, obesidade, sedentarismo, consumo excessivo de álcool e padrões alimentares inadequados contribuem para milhões de casos de câncer em todo o mundo (Islami et al., 2024).

Um dos relatórios mais influentes da área, publicado pela American Cancer Society, destaca que manter peso adequado, praticar atividade física regularmente, evitar tabagismo e limitar o consumo de álcool estão entre as medidas mais importantes para prevenção do câncer (Rock et al., 2022).

Isso significa que todos os cânceres são evitáveis?

Certamente não.

Mutações espontâneas, predisposição genética, envelhecimento e diversos fatores ainda fora de nosso controle também participam do processo.

Mas ignorar o papel do estilo de vida seria desprezar uma das ferramentas preventivas mais poderosas que possuímos.

 

Exercício Físico: Muito Além da Qualidade de Vida

Durante muitos anos acreditou-se que o exercício físico servia apenas para melhorar o condicionamento físico dos pacientes oncológicos.

Hoje sabemos que seus efeitos podem ir muito além.

Um estudo envolvendo mais de 750 mil adultos, publicado no JAMA Internal Medicine, demonstrou que níveis mais elevados de atividade física estavam associados a menor risco de diversos tipos de câncer, incluindo câncer de mama, cólon, rim, fígado e pulmão (Moore et al., 2016).

Mais recentemente, revisões sistemáticas vêm mostrando que a prática regular de atividade física após o diagnóstico também pode estar associada a melhor sobrevida em determinados tumores, especialmente câncer de mama e câncer colorretal (Patel et al., 2023).

Além disso, o exercício contribui para:

  • redução da fadiga relacionada ao câncer;
  • preservação da massa muscular;
  • melhora da capacidade funcional;
  • redução da ansiedade e depressão;
  • melhora da qualidade de vida.

Não é por acaso que diversas diretrizes oncológicas passaram a recomendar atividade física supervisionada como parte integrante do tratamento (Campbell et al., 2019).

 

Alimentação: Nem Milagre, Nem Irrelevância

Poucos temas geram tantas discussões quanto alimentação e câncer.

Infelizmente, também é uma área repleta de promessas exageradas.

Não existe evidência robusta de que uma dieta isolada seja capaz de curar cânceres estabelecidos.

Por outro lado, existe evidência consistente de que padrões alimentares saudáveis contribuem para prevenção, recuperação clínica e redução de complicações.

O relatório do World Cancer Research Fund e do American Institute for Cancer Research concluiu que excesso de gordura corporal está associado ao aumento do risco de pelo menos 13 tipos de câncer (WCRF/AICR, 2018).

Da mesma forma, dietas ricas em vegetais, frutas, grãos integrais e alimentos minimamente processados estão associadas a melhores desfechos gerais de saúde.

Mas é importante compreender uma distinção fundamental:

Alimentação pode ajudar a prevenir cânceres e apoiar tratamentos. Não há evidência científica robusta de que substitua cirurgia, quimioterapia, radioterapia ou imunoterapia quando estas são indicadas.

 

O Perigo dos Falsos Dilemas

Uma das armadilhas mais frequentes enfrentadas por pacientes oncológicos é o falso dilema.

Por exemplo:

  • quimioterapia ou alimentação saudável?
  • imunoterapia ou suplementação?
  • cirurgia ou medicina integrativa?

A ciência responde de forma diferente:

  • quimioterapia e alimentação adequada;
  • imunoterapia e suporte nutricional;
  • cirurgia e atividade física;
  • medicina baseada em evidências e cuidados complementares seguros.

O problema surge quando abordagens complementares passam a substituir tratamentos cuja eficácia já foi demonstrada.

 

Quando a Medicina Salva Vidas

Ao longo das últimas décadas, a oncologia viveu uma revolução.

O desenvolvimento de terapias-alvo, imunoterapias e avanços cirúrgicos transformou doenças antes consideradas praticamente fatais em condições potencialmente controláveis ou curáveis.

Um dos exemplos mais emblemáticos é o melanoma metastático.

Antes da era da imunoterapia, a sobrevida de longo prazo era rara.

Com o advento de medicamentos como nivolumabe e ipilimumabe, estudos publicados no New England Journal of Medicine demonstraram sobrevidas de longo prazo sem precedentes para pacientes com doença avançada (Wolchok et al., 2022).

Outro exemplo impressionante é a leucemia mieloide crônica.

A introdução do imatinibe transformou uma doença frequentemente fatal em uma condição crônica para muitos pacientes (Druker et al., 2006).

Nenhuma mudança alimentar, por mais saudável que seja, produziu resultados comparáveis nesses cenários.

 

E os Suplementos?

Suplementos nutricionais podem ser úteis em situações específicas.

Pacientes oncológicos frequentemente apresentam desnutrição, sarcopenia ou deficiências nutricionais que merecem correção.

Entretanto, a literatura científica não apoia o uso indiscriminado de suplementos como substitutos dos tratamentos convencionais.

Em alguns casos, doses elevadas de determinados antioxidantes podem inclusive interferir em mecanismos pelos quais quimioterápicos e radioterapia exercem seus efeitos antitumorais (Rock et al., 2022).

Isso não significa que suplementos sejam proibidos.

Significa apenas que devem ser utilizados com critério e supervisão profissional.

 

A Medicina do “E”

Talvez a maior lição da oncologia moderna seja esta:

Não precisamos escolher entre autocuidado e medicina.

Precisamos somá-los.

O exercício físico melhora a capacidade funcional para enfrentar os tratamentos.

A alimentação adequada favorece recuperação e manutenção da massa magra.

O suporte psicológico melhora adesão terapêutica e qualidade de vida.

O sono adequado auxilia a recuperação física e emocional.

E os tratamentos médicos combatem diretamente a doença.

Cada ferramenta atua em uma dimensão diferente.

Quando combinadas, tornam-se mais fortes.

 

Conclusão

O estilo de vida saudável continua sendo uma das mais importantes estratégias de prevenção do câncer e de promoção da saúde.

Entretanto, uma vez que a doença se instala, hábitos saudáveis não devem ser encarados como substitutos automáticos dos tratamentos comprovados.

A boa oncologia não é a medicina do “ou”.

Não é alimentação ou cirurgia.

Não é exercício ou quimioterapia.

Não é suplementação ou imunoterapia.

É a medicina do “e”.

Aquela que reconhece o valor do autocuidado sem desprezar décadas de avanços científicos que salvaram milhões de vidas.

A melhor abordagem continua sendo integrar hábitos saudáveis, suporte multidisciplinar e tratamentos baseados em evidências, colocando cada ferramenta em seu devido lugar.

 

Referências (ABNT)

CAMPBELL, K. L. et al. Exercise guidelines for cancer survivors: consensus statement from International Multidisciplinary Roundtable. Medicine & Science in Sports & Exercise, Indianapolis, v. 51, n. 11, p. 2375-2390, 2019.

DRUKER, B. J. et al. Five-year follow-up of patients receiving imatinib for chronic myeloid leukemia. New England Journal of Medicine, Boston, v. 355, n. 23, p. 2408-2417, 2006.

ISLAMI, F. et al. Proportion and number of cancer cases and deaths attributable to potentially modifiable risk factors in the United States. CA: A Cancer Journal for Clinicians, Hoboken, v. 74, n. 1, p. 6-31, 2024.

MOORE, S. C. et al. Association of leisure-time physical activity with risk of 26 types of cancer in 1.44 million adults. JAMA Internal Medicine, Chicago, v. 176, n. 6, p. 816-825, 2016.

PATEL, A. V. et al. Physical activity, sedentary behavior, and cancer survivorship: a systematic review. CA: A Cancer Journal for Clinicians, Hoboken, v. 73, n. 5, p. 441-459, 2023.

ROCK, C. L. et al. American Cancer Society guideline for diet and physical activity for cancer prevention. CA: A Cancer Journal for Clinicians, Hoboken, v. 72, n. 3, p. 245-271, 2022.

WCRF/AICR. Diet, Nutrition, Physical Activity and Cancer: A Global Perspective. Continuous Update Project Expert Report 2018. World Cancer Research Fund/American Institute for Cancer Research, 2018.

WOLCHOK, J. D. et al. Overall survival with combined nivolumab and ipilimumab in advanced melanoma. New England Journal of Medicine, Boston, v. 386, n. 16, p. 1513-1525, 2022.

MEDIDAS DO ESTILO DE VIDA: SEMPRE NECESSÁRIAS, NEM SEMPRE SUFICIENTES – Parte 2 de 2

 

 

Parte 2– Quando o Estilo de Vida Precisa de Ajuda

 

Na primeira parte deste artigo, vimos que alimentação adequada, atividade física regular, sono reparador, equilíbrio emocional e abstinência de vícios constituem a base da saúde humana. Essa afirmação não é apenas uma opinião: trata-se de uma das conclusões mais consistentes da medicina moderna.

Mas existe uma pergunta que inevitavelmente surge na prática clínica:

Se o estilo de vida é tão importante, por que tantas pessoas ainda precisam de medicamentos, cirurgias ou outros tratamentos?

A resposta está na própria complexidade da biologia humana.

O organismo não é uma máquina simples. Genética, idade, fatores ambientais, exposições acumuladas ao longo da vida, doenças pré-existentes e até eventos ocorridos durante a gestação influenciam a maneira como cada pessoa responde aos hábitos saudáveis.

Por isso, embora o estilo de vida seja quase sempre necessário, ele nem sempre é suficiente.

 

Importante – Disclaimer

Este artigo tem finalidade exclusivamente educativa e informativa. Não se destina a diagnosticar doenças, substituir consultas médicas ou estabelecer condutas terapêuticas. Decisões relacionadas a medicamentos, suplementos, exames, cirurgias ou quaisquer tratamentos devem ser tomadas em conjunto com médicos e outros profissionais de saúde devidamente habilitados, considerando as características individuais de cada pessoa.

 

Obesidade: Um dos Melhores Exemplos

Poucas condições ilustram tão bem essa realidade quanto a obesidade.

Durante muitos anos acreditou-se que excesso de peso era apenas consequência de escolhas inadequadas. Hoje sabemos que essa visão é simplista. A obesidade é reconhecida como uma doença crônica complexa, multifatorial, influenciada por fatores genéticos, neuroendócrinos, metabólicos, psicológicos, sociais e ambientais (Rubino et al., 2020).

Isso não significa que alimentação e exercício deixaram de ser importantes.

Muito pelo contrário.

Eles continuam sendo o alicerce de qualquer tratamento bem-sucedido.

No entanto, nem sempre conseguem produzir, sozinhos, a magnitude de perda de peso necessária para reverter riscos metabólicos importantes.

Um dos estudos mais impactantes dos últimos anos foi o STEP-1, publicado no New England Journal of Medicine. Nesse ensaio clínico randomizado envolvendo quase 2.000 adultos com obesidade ou sobrepeso, a semaglutida associada às medidas de estilo de vida promoveu perda média de aproximadamente 15% do peso corporal, resultado significativamente superior ao obtido apenas com intervenções comportamentais (Wilding et al., 2021).

Outro estudo marcante, o SURMOUNT-1, também publicado no New England Journal of Medicine, demonstrou que a tirzepatida proporcionou perdas superiores a 20% do peso corporal em parte dos participantes, resultados antes observados principalmente com cirurgia bariátrica (Jastreboff et al., 2022).

Esses estudos não diminuem a importância da alimentação e da atividade física.

Demonstram, na verdade, que em determinados pacientes a combinação entre mudanças comportamentais e recursos farmacológicos pode produzir resultados que dificilmente seriam alcançados por qualquer uma das estratégias isoladamente.

 

Quando Nem os Medicamentos São Suficientes

Existe ainda um grupo de pacientes para os quais mesmo o tratamento medicamentoso pode não ser suficiente.

Nesses casos, a cirurgia bariátrica ou metabólica pode representar a alternativa mais eficaz.

Um dos estudos mais importantes já realizados nessa área foi o Swedish Obese Subjects (SOS). Após décadas de acompanhamento, os pesquisadores observaram reduções significativas da mortalidade global, dos eventos cardiovasculares e da incidência de diabetes em indivíduos submetidos à cirurgia bariátrica quando comparados a controles tratados de forma convencional (Sjöström et al., 2012).

Mais recentemente, um acompanhamento de dez anos publicado no The Lancet demonstrou que pacientes obesos com diabetes tipo 2 submetidos à cirurgia metabólica apresentaram taxas superiores de remissão da doença e melhor controle metabólico quando comparados ao tratamento clínico convencional (Mingrone et al., 2021).

Mais uma vez, vale destacar:

A cirurgia não substitui o estilo de vida.

Ela funciona melhor quando apoiada por hábitos saudáveis duradouros.

 

Colesterol Alto: Quando a Esteira Não Basta

O exercício físico melhora o perfil lipídico.

A dieta adequada também.

Uma grande meta-análise publicada em 2024 no Sports Medicine, reunindo 148 ensaios clínicos randomizados e mais de 8.600 participantes, demonstrou reduções significativas do colesterol total, LDL-colesterol e triglicerídeos em indivíduos submetidos a programas estruturados de treinamento físico (Van de Velde et al., 2024).

Isso é uma excelente notícia.

Mas existe uma armadilha frequente: acreditar que todos os casos de colesterol elevado podem ser resolvidos apenas com dieta e exercício.

Pacientes com hipercolesterolemia familiar, por exemplo, frequentemente apresentam níveis muito elevados de LDL-colesterol apesar de hábitos exemplares.

Nesses casos, depender exclusivamente da alimentação e da atividade física pode significar anos de exposição vascular desnecessária.

Uma das maiores colaborações científicas da cardiologia, a Cholesterol Treatment Trialists’ Collaboration, reuniu dados de aproximadamente 170 mil participantes de 26 ensaios clínicos randomizados e demonstrou que a redução intensiva do LDL-colesterol por meio de estatinas diminui significativamente o risco de infarto, acidente vascular cerebral e mortalidade cardiovascular (CTT Collaboration, 2010).

A mensagem é simples:

A esteira ajuda. A alimentação ajuda. Mas, para alguns indivíduos, elas precisam da companhia da estatina.

 

Diabetes Tipo 2: A Soma Vence a Disputa

O diabetes tipo 2 oferece outro excelente exemplo.

Mudanças alimentares, perda de peso e atividade física podem melhorar dramaticamente o controle glicêmico.

O clássico Diabetes Prevention Program, publicado no New England Journal of Medicine, acompanhou mais de 3.200 indivíduos com alto risco para diabetes e demonstrou que intervenções intensivas no estilo de vida reduziram em 58% a incidência da doença, desempenho superior ao obtido com metformina isoladamente (Knowler et al., 2002).

Os benefícios mostraram-se duradouros. No seguimento de longo prazo do estudo, publicado posteriormente, os participantes continuaram apresentando redução significativa do risco de desenvolver diabetes mesmo após muitos anos (Diabetes Prevention Program Research Group, 2015).

Entretanto, uma vez instalada a doença, especialmente em estágios mais avançados, muitos pacientes necessitam de tratamento medicamentoso.

As diretrizes mais recentes da American Diabetes Association destacam que medicamentos como agonistas do receptor de GLP-1 e inibidores de SGLT2 podem reduzir não apenas a glicemia, mas também eventos cardiovasculares, insuficiência cardíaca e progressão da doença renal crônica (ADA, 2025).

Mais uma vez, não se trata de escolher entre hábitos saudáveis ou medicamentos.

Trata-se de utilizar as duas ferramentas.

 

A Fobia de Medicamentos

Existe um fenômeno relativamente comum na prática clínica: pessoas que aceitam qualquer suplemento, fitoterápico ou estratégia alternativa, mas rejeitam imediatamente medicamentos prescritos.

Muitas vezes essa resistência nasce de experiências negativas anteriores, relatos de terceiros ou receio de efeitos adversos.

É importante reconhecer que nenhum tratamento é completamente isento de riscos.

Isso vale para medicamentos.

Mas também vale para suplementos, fitoterápicos, cirurgias e até para a ausência de tratamento.

Quando uma pessoa com alto risco cardiovascular evita estatinas apesar de indicação clara, ela não está escolhendo entre risco e segurança.

Está escolhendo entre diferentes tipos de risco.

O mesmo raciocínio vale para hipertensão grave, diabetes descontrolado ou câncer.

O objetivo da medicina baseada em evidências não é eliminar todos os riscos — algo impossível —, mas reduzir os riscos globais da forma mais racional possível.

 

Fitoterápicos e Suplementos: Aliados, Não Substitutos

Suplementos nutricionais e fitoterápicos podem desempenhar papéis úteis em situações específicas.

A creatina, por exemplo, possui uma das bases científicas mais robustas da nutrição esportiva. O posicionamento oficial da International Society of Sports Nutrition concluiu que ela apresenta perfil de segurança favorável e eficácia comprovada para aumento de desempenho em exercícios de alta intensidade e preservação de massa muscular em diversas populações (Kreider et al., 2017).

Entretanto, o problema surge quando suplementos ou fitoterápicos passam a substituir tratamentos cuja eficácia foi demonstrada em estudos muito mais robustos.

Em geral, a hierarquia das evidências deve ser respeitada.

Uma meta-análise bem conduzida, um grande ensaio clínico randomizado ou décadas de observação consistente costumam fornecer informações mais confiáveis do que relatos isolados ou experiências pessoais.

 

A Medicina do “E” e Não do “Ou”

Talvez a principal mensagem deste artigo seja esta:

A discussão raramente deveria ser:

  • estilo de vida ou medicamento;
  • alimentação ou cirurgia;
  • exercício ou tratamento médico.

Na maioria das situações reais, a pergunta correta é:

Como integrar essas abordagens da melhor maneira possível?

A medicina moderna produz seus melhores resultados quando combina medidas autoinduzidas — aquelas que dependem das escolhas diárias do indivíduo — com intervenções externas fundamentadas em evidências científicas.

O exercício potencializa os benefícios dos medicamentos.

A alimentação adequada melhora os resultados da cirurgia.

O sono adequado favorece o controle metabólico.

O tratamento médico aumenta a capacidade do organismo de responder aos hábitos saudáveis.

Não são estratégias concorrentes.

São estratégias complementares.

 

Conclusão

O estilo de vida continua sendo a base da saúde.

Nenhum medicamento substitui integralmente uma alimentação adequada.

Nenhuma cirurgia substitui a prática regular de atividade física.

Nenhum suplemento substitui um sono de qualidade.

Mas também é verdade que hábitos saudáveis nem sempre anulam a necessidade de medicamentos, procedimentos ou outras intervenções médicas.

A sabedoria talvez esteja justamente em evitar os extremos.

Nem a crença de que existe uma pílula capaz de resolver tudo.

Nem a ilusão de que todas as doenças podem ser vencidas apenas pela força de vontade.

A melhor medicina continua sendo aquela que une responsabilidade pessoal, conhecimento científico e uso criterioso das ferramentas terapêuticas disponíveis.

 

Referências

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MINGRONE, G. et al. Bariatric-metabolic surgery versus conventional medical treatment in obese patients with type 2 diabetes: 10-year follow-up of an open-label, single-centre, randomised controlled trial. The Lancet, London, v. 397, n. 10271, p. 293-304, 2021.

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MEDIDAS DO ESTILO DE VIDA: SEMPRE NECESSÁRIAS, NEM SEMPRE SUFICIENTES – Parte 1 de 2

 

 

A ciência moderna mostra que alimentação adequada, atividade física regular, sono de qualidade, manejo do estresse e abstinência de vícios constituem pilares indispensáveis da saúde. Em muitos casos, essas medidas conseguem prevenir doenças, retardar sua progressão e até promover remissão clínica. Entretanto, também aprendemos que há situações nas quais elas não bastam (GBD 2019 Risk Factors Collaborators, 2020; WHO, 2020).

 

O Tripé do Autocuidado

Embora existam inúmeras estratégias para promover saúde, três pilares aparecem repetidamente nas grandes diretrizes médicas e nos estudos de maior qualidade: alimentação adequada, movimento corporal e equilíbrio mental associado à recuperação fisiológica, especialmente sono adequado (WHO, 2020; Fakih et al., 2024).

Esses pilares não funcionam isoladamente. Operam em incrível sincronismo. Uma alimentação inadequada prejudica o sono. O sono insuficiente favorece ganho de peso e resistência à insulina. O sedentarismo aumenta o risco de doenças cardiovasculares e metabólicas. O estresse crônico pode comprometer tanto a saúde mental quanto a física (Cappuccio et al., 2010; Fakih et al., 2024).

 

Quando o Movimento se Torna Medicina

Entre todas as intervenções relacionadas ao estilo de vida, poucas possuem um volume de evidências tão impressionante quanto a atividade física.

Um interessante estudo envolvendo mais de 116 mil adultos, acompanhado por cerca de 30 anos e publicado no Circulation, mostrou que indivíduos que realizavam entre duas e quatro vezes a quantidade mínima recomendada de atividade física apresentavam reduções substanciais da mortalidade por todas as causas e por doenças cardiovasculares, sem evidência de prejuízo decorrente de níveis elevados de exercício aeróbico (Lee et al., 2022).

Mais recentemente, uma grande revisão sistemática e meta-análise publicada no Sports Medicine avaliou 148 ensaios clínicos randomizados, envolvendo mais de 8.600 participantes, e demonstrou que o treinamento físico melhora significativamente o perfil lipídico, reduzindo colesterol total, LDL-colesterol e triglicerídeos, além de elevar os níveis de HDL-colesterol (Van de Velde et al., 2024).

Isso significa que exercícios podem substituir estatinas? Nem sempre.

Um indivíduo com LDL discretamente elevado em decorrência de hábitos inadequados pode obter excelente resposta apenas com mudanças comportamentais. Entretanto, pacientes com hipercolesterolemia familiar, doença coronariana estabelecida ou risco cardiovascular elevado frequentemente necessitam de tratamento farmacológico adicional para atingir metas seguras de LDL-colesterol (Mach et al., 2020).

Não se trata de uma derrota do estilo de vida. Trata-se do reconhecimento de que genética, fisiologia e doença nem sempre respondem integralmente às intervenções comportamentais.

 

Quando a Dieta Não Resolve Tudo

O mesmo raciocínio vale para a alimentação.

Uma alimentação saudável permanece como uma das intervenções mais poderosas da medicina preventiva. Um importante estudo publicado no New England Journal of Medicine, envolvendo participantes de alto risco cardiovascular, demonstrou que a dieta mediterrânea reduziu significativamente eventos cardiovasculares maiores quando comparada a dietas controle (Estruch et al., 2018).

Porém, mesmo uma dieta excelente possui limitações biológicas. Indivíduos com hipercolesterolemia familiar podem manter níveis elevados de LDL-colesterol apesar de hábitos exemplares. Da mesma forma, pessoas com diabetes tipo 2 mais avançado frequentemente necessitam de medicamentos para alcançar adequado controle glicêmico (American Diabetes Association, 2025).

Na prática clínica, os melhores resultados costumam surgir justamente da combinação entre mudanças sustentáveis de estilo de vida e terapias médicas quando indicadas.

Leia a continuação em Parte 2.

 

Referências

AMERICAN DIABETES ASSOCIATION. Standards of Care in Diabetes—2025. Diabetes Care, Alexandria, v. 48, Suppl. 1, 2025.

CAPPUCCIO, F. P. et al. Quantity and quality of sleep and incidence of type 2 diabetes: a systematic review and meta-analysis. Diabetes Care, Alexandria, v. 33, n. 2, p. 414-420, 2010.

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GBD 2019 RISK FACTORS COLLABORATORS. Global burden of 87 risk factors in 204 countries and territories, 1990–2019: a systematic analysis. The Lancet, Londres, v. 396, n. 10258, p. 1223-1249, 2020.

LEE, I. M. et al. Long-term leisure-time physical activity intensity and all-cause and cause-specific mortality: prospective cohort study. Circulation, Dallas, v. 146, n. 7, p. 523-534, 2022.

MACH, F. et al. 2019 ESC/EAS Guidelines for the management of dyslipidaemias. European Heart Journal, Oxford, v. 41, n. 1, p. 111-188, 2020.

VAN DE VELDE, T. et al. The effect of exercise training on blood lipids: a systematic review and meta-analysis. Sports Medicine, Auckland, v. 54, p. 1047-1068, 2024.

WORLD HEALTH ORGANIZATION. WHO Guidelines on Physical Activity and Sedentary Behaviour. Geneva: WHO, 2020.

O Poder de um Remédio Sem Comprimidos – Exercício Físico Regular

 

Poucas intervenções na medicina moderna possuem um nível de evidência tão robusto quanto a prática regular de exercícios físicos. Diferentemente de muitos tratamentos que atuam sobre uma única doença, o exercício exerce efeitos simultâneos sobre praticamente todos os sistemas do organismo: cardiovascular, metabólico, musculoesquelético, neurológico, imunológico e psicológico.

A atividade física regular reduz o risco de doenças cardiovasculares, diabetes tipo 2, hipertensão arterial, obesidade, osteoporose, alguns tipos de câncer, depressão, ansiedade e mortalidade geral (WHO, 2024; Warburton & Bredin, 2017). Estudos epidemiológicos demonstram que indivíduos fisicamente ativos apresentam risco de morte prematura 20% a 30% menor em comparação aos sedentários.

Talvez por isso o exercício físico seja frequentemente descrito como o “medicamento” mais subutilizado da medicina.

 

O Que as Diretrizes Recomendam?

A Organização Mundial da Saúde (OMS), o American College of Sports Medicine (ACSM) e a American Heart Association (AHA) recomendam para adultos:

  • 150 a 300 minutos semanais de atividade aeróbica moderada; ou
  • 75 a 150 minutos semanais de atividade vigorosa;
  • exercícios de fortalecimento muscular pelo menos 2 vezes por semana;
  • redução do tempo sedentário.

Uma observação importante é que os benefícios começam muito antes dessas metas. Sair do sedentarismo já produz ganhos significativos de saúde.

 

Os Principais Tipos de Exercício e Seus Benefícios

  1. Exercícios Aeróbicos

São atividades que utilizam predominantemente o metabolismo oxidativo e envolvem grandes grupos musculares por períodos prolongados.

Exemplos

  • Caminhada
  • Corrida
  • Bicicleta
  • Natação
  • Remo
  • Dança
  • Elíptico

Benefícios Cientificamente Comprovados

  • Redução da pressão arterial
  • Melhora da sensibilidade à insulina
  • Controle glicêmico
  • Redução do colesterol LDL
  • Aumento do HDL
  • Melhora da função endotelial
  • Redução do risco cardiovascular
  • Controle do peso corporal
  • Melhora da saúde mental
  • Aumento da longevidade

Segundo Lee et al. (2012), a simples prática de 15 minutos diários de atividade física foi associada a aumento de aproximadamente três anos na expectativa de vida.

Exercícios e melhora do perfil lipídico e do colesterol “mau” (LDL-c)

Diversas evidências demonstram que a prática regular de exercícios físicos melhora o perfil lipídico.

O efeito mais consistente do exercício é sobre capacidade cardiorrespiratória, triglicerídeos, HDL e risco cardiovascular global.

A redução do LDL existe, mas costuma ser modesta, variando conforme intensidade do treinamento, perda de peso associada, dieta e perfil metabólico inicial.

Para o leitor não médico, é importante lembrar que muitas vezes apenas as medidas do estilo de vida, embora sempre necessárias, não serão suficientes. Será preciso a intervenção farmacológica, o que pode significar estatinas.

Vamos a estudos robustos que associam o perfil lipídico aos exercícios físicos: Em uma das maiores meta-análises publicadas até o momento, envolvendo 148 estudos randomizados e mais de 8.600 participantes, o treinamento físico foi associado a reduções significativas do colesterol total, LDL-colesterol e triglicerídeos, além de aumento do HDL-colesterol. Os benefícios foram observados com diferentes modalidades de exercício, incluindo treinamento aeróbico, resistido e combinado, reforçando o papel da atividade física como componente fundamental da prevenção cardiovascular (Van de Velde et al., 2024).

Uma revisão sistemática e meta-análise de ensaios clínicos randomizados publicada em 2023 mostrou que programas de exercício físico em adultos com sobrepeso e obesidade foram capazes de melhorar o perfil lipídico, apresentando efeito semelhante ou complementar às intervenções dietéticas para redução do LDL-colesterol, especialmente quando exercício e dieta foram combinados (Bellicha et al., 2023).

 

  1. Musculação (Treinamento Resistido)

Durante décadas acreditou-se que musculação servia apenas para estética ou desempenho esportivo. Hoje sabemos que ela é fundamental para a saúde.

O treinamento resistido combate um dos principais marcadores do envelhecimento: a perda progressiva de massa muscular (sarcopenia).

Benefícios

  • Aumento da força muscular
  • Preservação da massa magra
  • Melhora da densidade óssea
  • Redução do risco de quedas
  • Melhor controle glicêmico
  • Aumento do metabolismo basal
  • Maior autonomia funcional
  • Melhora da composição corporal

Meta-análises recentes mostram que a musculação promove aumentos consistentes de força, massa muscular e funcionalidade em adultos e idosos (Schoenfeld et al., 2023; Grgic et al., 2023).

Além disso, evidências recentes sugerem que aproximadamente 90 a 120 minutos semanais de treinamento resistido já estão associados à redução significativa da mortalidade por todas as causas.

 

  1. Alongamentos e Treinamento de Mobilidade

Embora frequentemente negligenciados, os exercícios de flexibilidade possuem papel importante.

Benefícios

  • Melhora da amplitude articular
  • Maior eficiência dos movimentos
  • Redução da rigidez muscular
  • Facilitação das atividades diárias
  • Melhora da postura
  • Auxílio na prevenção de determinadas lesões por encurtamentos musculares

É importante destacar que os estudos atuais não sustentam que o alongamento isoladamente previna todas as lesões esportivas, como se acreditava antigamente. Seu principal benefício parece estar relacionado à mobilidade funcional e qualidade do movimento (Behm et al., 2016).

 

Como Começar com Segurança?

Uma das maiores barreiras é imaginar que o treinamento ideal precisa ser complexo.

Na realidade, a melhor estratégia é começar de forma simples.

 

Princípios Básicos

  1. Progressão Gradual

Aumentar volume e intensidade lentamente.

  1. Regularidade

Treinar pouco, mas consistentemente, é melhor do que treinar excessivamente por poucas semanas.

  1. Recuperação

O corpo melhora durante o descanso, não durante o exercício.

  1. Individualização

Idade, doenças, condicionamento e objetivos devem ser considerados.

 

É Necessário Fazer Exames Antes de Começar?

A resposta depende do perfil do indivíduo.

As diretrizes atuais do ACSM tornaram-se menos restritivas do que no passado.

Para indivíduos jovens, assintomáticos e sem doenças conhecidas, frequentemente não são necessários exames extensos antes de iniciar exercícios leves a moderados.

Por outro lado, avaliação médica é recomendada para:

  • Portadores de doenças cardiovasculares
  • Hipertensos
  • Diabéticos
  • Pessoas com sintomas cardíacos
  • Indivíduos sedentários que pretendem iniciar exercícios intensos
  • Pessoas acima de meia-idade com múltiplos fatores de risco cardiovascular

 

Exames Frequentemente Solicitados

Dependendo da avaliação clínica:

Básicos

  • Hemograma
  • Glicemia
  • Hemoglobina glicada
  • Perfil lipídico
  • Função renal
  • Função hepática

Cardiológicos

  • Eletrocardiograma
  • Teste ergométrico
  • Ecocardiograma (quando indicado)

Outros

  • Avaliação ortopédica
  • Bioimpedância ou composição corporal
  • Avaliação funcional

A decisão deve ser individualizada pelo médico assistente.

 

Exemplos de Planos de Treinamento

Iniciante Absoluto

Semana 1 a 4

3 vezes por semana

  • Caminhada: 20–30 minutos
  • Agachamento livre: 2 séries
  • Flexão na parede: 2 séries
  • Remada elástica: 2 séries
  • Alongamentos leves

 

Objetivo: Saúde Geral

Segunda

Musculação (corpo inteiro)

Terça

Caminhada rápida 40 minutos

Quarta

Musculação

Quinta

Mobilidade e alongamentos

Sexta

Musculação

Sábado

Atividade recreativa

Domingo

Descanso

 

Objetivo: Emagrecimento

  • 150–300 minutos semanais de aeróbico
  • 2–4 sessões de musculação
  • Déficit calórico supervisionado

As evidências mostram que a combinação de exercício aeróbico e musculação produz melhores resultados para composição corporal do que qualquer modalidade isoladamente.

 

Quando o Exercício Deixa de Ser Saudável?

Embora o exercício seja extremamente benéfico, mais nem sempre significa melhor.

Existe um fenômeno chamado overtraining syndrome (síndrome do excesso de treinamento), caracterizado por um desequilíbrio entre carga de treino e recuperação. No próximo tópico esclarecemos melhor este tema.

 

Queda de Performance: Quando Treinar Mais Significa Render Menos

Embora o treinamento físico seja indispensável para a melhora do desempenho esportivo, existe um limite além do qual o aumento da carga deixa de produzir adaptações positivas e passa a comprometer a performance. Esse fenômeno é conhecido como overreaching não funcional ou, em casos mais prolongados e graves, síndrome do overtraining. Nessa situação, o organismo não consegue se recuperar adequadamente entre as sessões de treino, resultando em fadiga persistente, piora do rendimento, sensação de esforço aumentada para atividades habituais e redução da capacidade de gerar força, velocidade ou resistência.

Paradoxalmente, o atleta passa a treinar mais e obter resultados cada vez piores. Além da queda objetiva da performance, podem surgir alterações do humor, distúrbios do sono, redução da motivação e maior susceptibilidade a lesões. Segundo o consenso do Comitê Olímpico Internacional (IOC), a recuperação insuficiente frente a cargas excessivas de treinamento constitui um dos principais fatores envolvidos na queda de desempenho em atletas de diferentes modalidades, sendo a periodização adequada e a monitorização da recuperação componentes fundamentais para evitar esse problema (Budgett et al., 2024). Em outras palavras, não é durante o treino que o corpo se fortalece, mas durante a recuperação subsequente; quando essa recuperação é inadequada, o excesso de exercício pode produzir exatamente o efeito oposto ao desejado.

 

Lesões

Entre as mais comuns:

  • Tendinites
  • Fascite plantar
  • Fraturas por estresse
  • Lesões musculares
  • Lesões articulares

 

Perda de Massa Muscular

Quando o organismo permanece em estado catabólico prolongado:

  • aumenta cortisol;
  • reduz recuperação;
  • diminui síntese proteica;
  • ocorre perda de massa magra.

 

Alterações Hormonais 

Podem surgir:

  • redução da testosterona;
  • alterações menstruais;
  • fadiga persistente;
  • piora do sono.

 

Quando o exercício pode prejudicar a imunidade

Hoje sabe-se que o exercício moderado melhora diversos aspectos da vigilância imunológica do corpo, enquanto períodos prolongados de treinamento intenso associados a recuperação insuficiente podem aumentar temporariamente a susceptibilidade a infecções respiratórias, especialmente em atletas de endurance. Alguns autores mais recentes sugerem que parte do aumento de infecções observado em atletas de elite também pode estar relacionado a fatores concomitantes, como viagens frequentes, déficit energético, privação de sono e estresse psicológico. Ainda assim, o conceito geral permanece válido e útil para a prática clínica.

A literatura descreve a chamada “curva em J” da imunidade relacionada ao exercício físico:

  • Sedentarismo → maior risco de infecções.
  • Exercício moderado e regular → menor risco de infecções e melhor funcionamento do sistema imune.
  • Exercício excessivo associado à recuperação insuficiente → aumento transitório da suscetibilidade a infecções, particularmente do trato respiratório superior.

Esse fenômeno foi inicialmente descrito por Nieman (1994) e posteriormente aprofundado por Walsh et al. (2011). Evidências mais recentes demonstram que a prática regular de exercícios de intensidade moderada promove melhor circulação de células imunológicas, redução da inflamação crônica de baixo grau e aprimoramento da vigilância imunológica (Campbell & Turner, 2018; Nieman & Wentz, 2019). Por outro lado, períodos prolongados de treinamento intenso, especialmente quando associados a déficit energético, privação de sono e recuperação inadequada, podem gerar uma fase transitória de maior vulnerabilidade imunológica, favorecendo o aparecimento de infecções respiratórias e comprometendo o desempenho esportivo (Simpson et al., 2020; Walsh et al., 2021).

Embora a antiga hipótese da “janela aberta” de imunossupressão pós-exercício tenha sido parcialmente revisada, permanece bem estabelecido que o equilíbrio entre treinamento e recuperação é essencial para que os benefícios imunológicos do exercício sejam plenamente alcançados. Em outras palavras, o exercício regular fortalece o sistema imune; o excesso crônico sem recuperação adequada pode produzir exatamente o efeito contrário.

 

O Melhor Exercício é Aquele Que Você Consegue Manter

Uma das mensagens mais importantes da ciência moderna do exercício é que não existe treino perfeito.

Existe o treino que você consegue fazer de forma consistente.

A combinação de atividade aeróbica, fortalecimento muscular e mobilidade representa atualmente a estratégia mais respaldada pelas evidências para promover saúde, funcionalidade e longevidade.

Mais importante do que buscar programas complexos é abandonar o sedentarismo e incorporar movimento à rotina diária.

 

Disclaimer

Este artigo tem finalidade exclusivamente educativa e informativa. Antes de iniciar qualquer programa de exercícios físicos, especialmente na presença de doenças cardiovasculares, metabólicas, ortopédicas ou outras condições clínicas relevantes, procure avaliação médica e orientação de profissionais habilitados, como médico do esporte, cardiologista, fisiatra, fisioterapeuta e educador físico.

 

Referências

BEHM, D. G. et al. Acute effects of muscle stretching on physical performance, range of motion, and injury incidence in healthy active individuals: a systematic review. Applied Physiology, Nutrition, and Metabolism, v. 41, n. 1, p. 1-11, 2016.

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BUDGETT, R.; SOLIGARD, T.; ENGBRETSEN, L.; et al. International Olympic Committee consensus statement on load management and the prevention of health problems in athletes. British Journal of Sports Medicine, v. 58, n. 19, p. 1107–1123, 2024. DOI: 10.1136/bjsports-2024-108079.

CAMPBELL, J. P.; TURNER, J. E. Debunking the myth of exercise-induced immune suppression: redefining the impact of exercise on immunological health across the lifespan. Frontiers in Immunology, Lausanne, v. 9, art. 648, 2018. DOI: 10.3389/fimmu.2018.00648.

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WORLD HEALTH ORGANIZATION. Physical Activity: Fact Sheet. Geneva: WHO, atualização de 2024.

Jejum Intermitente: Ciência, Promessas, Benefícios e Mitos – Parte 3 de 3

 

Parte 3 — Microbiota Intestinal, Eixo Intestino-Cérebro, Autofagia, Exageros Midiáticos e Conclusão

Nas duas primeiras partes vimos que o jejum intermitente está longe de ser uma simples moda passageira. Existe uma base fisiológica plausível para muitos de seus efeitos, bem como um número crescente de estudos sugerindo benefícios metabólicos em determinados contextos.

Entretanto, talvez a área mais fascinante das pesquisas atuais seja a interação entre o jejum, a microbiota intestinal e o chamado eixo intestino-cérebro.

Ao mesmo tempo, é justamente nessa fronteira do conhecimento que surgem algumas das maiores extrapolações da mídia e das redes sociais.

Separar o que já sabemos daquilo que ainda está sendo investigado é essencial.

 

O Intestino: Muito Mais que um Órgão Digestivo

Durante décadas, o intestino foi visto principalmente como um órgão responsável pela digestão e absorção de nutrientes.

Hoje sabemos que ele desempenha funções muito mais amplas.

O trato gastrointestinal abriga trilhões de microrganismos — bactérias, fungos, vírus e arqueias — que formam a chamada microbiota intestinal.

Esses microrganismos participam de inúmeros processos biológicos:

  • digestão de fibras;
  • produção de vitaminas;
  • metabolismo de ácidos biliares;
  • regulação imunológica;
  • manutenção da barreira intestinal;
  • comunicação com o cérebro.

Por isso, muitos pesquisadores passaram a considerar a microbiota um verdadeiro “órgão metabólico” adicional (FAN; PEDERSEN, 2021).

 

O Eixo Intestino-Cérebro

Uma das descobertas mais importantes da medicina moderna é que intestino e cérebro mantêm comunicação constante.

Essa comunicação ocorre por diversas vias simultaneamente:

Via Neural – Principalmente através do nervo vago.

Via Imunológica – Por meio de citocinas e mediadores inflamatórios.

Via Endócrina – Através de hormônios produzidos no intestino e em outros tecidos.

Via Metabólica – Por metabólitos produzidos pelas bactérias intestinais.

Esse sistema integrado recebeu o nome de eixo intestino-cérebro (gut-brain axis) (CRYAN et al., 2019).

Embora muitas perguntas ainda permaneçam sem resposta, tornou-se claro que a saúde intestinal influencia muito mais do que a digestão.

 

Como o Jejum Pode Influenciar a Microbiota?

Os microrganismos intestinais não respondem apenas ao que comemos.

Eles também respondem a quando comemos.

Durante os períodos de alimentação e jejum ocorrem alterações importantes na disponibilidade de nutrientes dentro do intestino.

Essas mudanças podem favorecer determinadas populações bacterianas e reduzir outras.

Uma revisão publicada na revista Gut mostrou que ritmos alimentares e ciclos circadianos influenciam significativamente a composição e a atividade metabólica da microbiota intestinal (ZARRINPAR et al., 2014).

Estudos mais recentes sugerem que protocolos de alimentação com restrição de tempo podem promover:

  • aumento da diversidade microbiana;
  • melhora da integridade da barreira intestinal;
  • alterações favoráveis na produção de metabólitos bacterianos;
  • redução de marcadores inflamatórios em alguns indivíduos (LI et al., 2023).

Entretanto, é importante enfatizar:

A literatura ainda não permite afirmar que o jejum produza uma microbiota universalmente “melhor”.

Os resultados variam conforme:

  • dieta de base;
  • idade;
  • estado metabólico;
  • duração do protocolo;
  • composição individual da microbiota.

 

Os Ácidos Graxos de Cadeia Curta

Entre os metabólitos produzidos pelas bactérias intestinais, poucos receberam tanta atenção quanto os chamados ácidos graxos de cadeia curta.

Os principais são:

  • butirato;
  • acetato;
  • propionato.

Eles surgem principalmente da fermentação de fibras alimentares.

Essas moléculas participam de processos extremamente importantes:

  • nutrição das células intestinais;
  • manutenção da barreira intestinal;
  • regulação imunológica;
  • modulação inflamatória;
  • sinalização metabólica.

O butirato, em particular, vem sendo estudado por seus potenciais efeitos anti-inflamatórios e metabólicos (MORRISON; PRESTON, 2016).

Curiosamente, muitos dos benefícios atribuídos ao jejum talvez dependam não apenas da ausência temporária de alimentos, mas também da qualidade da alimentação durante os períodos em que a pessoa se alimenta.

Uma janela alimentar de oito horas baseada em ultraprocessados provavelmente produzirá resultados muito diferentes de uma janela alimentar semelhante baseada em vegetais, frutas, leguminosas, castanhas e proteínas de qualidade.

 

Jejum, Inflamação e Imunidade

Outro tema que desperta enorme interesse é o possível impacto do jejum sobre a inflamação crônica de baixo grau.

Atualmente sabe-se que diversas doenças modernas apresentam algum componente inflamatório:

  • obesidade;
  • diabetes tipo 2;
  • doença hepática gordurosa;
  • aterosclerose;
  • algumas doenças neurodegenerativas.

Uma revisão publicada no New England Journal of Medicine destacou que a restrição energética intermitente pode modular vias relacionadas ao estresse oxidativo, inflamação e adaptação celular (DE CABO; MATTSON, 2019).

Entretanto, a magnitude desses efeitos em humanos ainda está sendo investigada.

Mais uma vez, a ciência sugere prudência.

Há sinais promissores, mas ainda não respostas definitivas.

 

Autofagia: Onde a Ciência Termina e os Mitos Começam

Poucos conceitos sofreram tantas distorções na internet quanto a autofagia.

Após o Prêmio Nobel concedido a Yoshinori Ohsumi em 2016, o termo passou a aparecer em milhares de vídeos, cursos e materiais de divulgação.

Infelizmente, muitas dessas interpretações ultrapassaram aquilo que os estudos realmente demonstraram.

O que sabemos com segurança:

  • a autofagia existe;
  • é um mecanismo essencial de reciclagem celular;
  • participa da manutenção da saúde celular;
  • pode ser influenciada por estados de restrição energética.

O que ainda não sabemos com precisão:

  • quantas horas de jejum são necessárias para ativá-la em diferentes tecidos humanos;
  • qual a intensidade dessa ativação;
  • qual sua relevância clínica prática para indivíduos saudáveis;
  • qual protocolo produz os melhores resultados.

Portanto, afirmações categóricas como:

“A autofagia começa exatamente após 16 horas.”

ou

“Após 72 horas o organismo entra em limpeza profunda.”

não encontram respaldo sólido na literatura científica atual.

A biologia humana é muito mais complexa do que esses números simplificados sugerem.

 

Os Perigos da Transformação do Jejum em Ideologia

Talvez o maior risco atual não seja o jejum em si. É a sua transformação em uma ideologia.

Quando uma ferramenta potencialmente útil passa a ser apresentada como solução universal para todos os problemas de saúde, a ciência começa a ser substituída pelo marketing.

Existem pessoas que emagrecem com jejum.Outras não.

Existem indivíduos que relatam melhora da disposição. Outros experimentam piora.

Alguns adaptam-se facilmente. Outros tornam-se excessivamente preocupados com horários e alimentação.

A medicina baseada em evidências raramente trabalha com soluções universais.

 

O Que as Melhores Evidências Permitem Concluir?

Após mais de duas décadas de intensa pesquisa, algumas conclusões parecem razoavelmente sólidas:

Há evidências favoráveis para:

  • perda de peso em indivíduos selecionados;
  • melhora de alguns parâmetros metabólicos;
  • melhora da resistência à insulina;
  • redução de alguns fatores de risco cardiovascular;
  • organização alimentar em determinados perfis de pacientes.

Ainda permanecem incertos:

  • efeitos sobre longevidade humana;
  • prevenção de câncer;
  • prevenção de doenças neurodegenerativas;
  • impacto clínico da autofagia em humanos;
  • efeitos de muito longo prazo.

Não existem evidências robustas de que:

  • cure doenças;
  • substitua tratamentos médicos estabelecidos;
  • funcione para todas as pessoas;
  • seja superior a todas as outras estratégias alimentares.

 

Conclusão Geral

O jejum intermitente representa uma das áreas mais interessantes da nutrição e da medicina metabólica contemporânea.

A literatura científica atual sugere que ele pode ser uma ferramenta útil para determinadas pessoas, especialmente no contexto de perda de peso, melhora da resistência à insulina e saúde metabólica.

Entretanto, seus benefícios não devem ser confundidos com promessas milagrosas.

Talvez a maior lição extraída das pesquisas seja que o sucesso do jejum depende menos do número de horas sem comer e mais do contexto global em que ele está inserido.

Qualidade da alimentação, atividade física, sono adequado, controle do estresse, saúde mental e adesão a longo prazo continuam sendo fatores centrais para a saúde.

O jejum pode ser uma ferramenta. Não uma filosofia, não uma religião.

Pode ser um recurso terapêutico. Não uma cura universal.

E, como ocorre com praticamente todas as intervenções médicas sérias, seus melhores resultados parecem surgir quando ele é utilizado com conhecimento, individualização e bom senso.

 

REFERÊNCIAS

CRYAN, John F. et al. The microbiota-gut-brain axis. Physiological Reviews, Bethesda, v. 99, n. 4, p. 1877–2013, 2019.

DE CABO, Rafael; MATTSON, Mark P. Effects of intermittent fasting on health, aging, and disease. New England Journal of Medicine, Boston, v. 381, n. 26, p. 2541–2551, 2019.

FAN, Yong; PEDERSEN, Oluf. Gut microbiota in human metabolic health and disease. Nature Reviews Microbiology, London, v. 19, p. 55–71, 2021.

LI, Guoliang et al. Time-restricted feeding and gut microbiota: mechanisms and metabolic implications. Nutrients, Basel, v. 15, n. 9, 2023.

MORRISON, Douglas J.; PRESTON, Tom. Formation of short chain fatty acids by the gut microbiota and their impact on human metabolism. Gut Microbes, Austin, v. 7, n. 3, p. 189–200, 2016.

OHSUMI, Yoshinori. Historical landmarks of autophagy research. Cell Research, Beijing, v. 24, n. 1, p. 9–23, 2014.

ZARRINPAR, Amir; CHAIX, Amandine; YOON, Mi-Ok; PANDA, Satchidananda. Diet and feeding pattern affect the diurnal dynamics of the gut microbiome. Cell Metabolism, Cambridge, v. 20, n. 6, p. 1006–1017, 2014.

Jejum Intermitente: Ciência, Promessas, Benefícios e Mitos – Parte 2 de 3

 

 

O Que a Ciência Realmente Mostra: Benefícios, Riscos e Exageros

Na primeira parte deste artigo, vimos que o jejum acompanha a humanidade há milênios, que o trabalho de Yoshinori Ohsumi revolucionou nossa compreensão da autofagia e que o interesse científico moderno pelo tema cresceu rapidamente nas últimas décadas.

Mas a pergunta que realmente interessa à maioria das pessoas é outra:

O jejum intermitente funciona?

A resposta curta é: sim, em determinadas circunstâncias e para determinados objetivos.

A resposta completa, entretanto, é muito mais interessante.

Mas vale enfatizar que algumas afirmações frequentemente repetidas em redes sociais — como “o jejum aumenta dramaticamente a longevidade humana”, “cura câncer”,  ou “ativa autofagia profunda após exatamente X horas” — não possuem atualmente evidência clínica robusta em humanos e serão tratadas criticamente na Parte III, juntamente com a microbiota intestinal e o eixo intestino-cérebro.

 

Jejum Intermitente Emagrece?

A principal razão pela qual a maioria das pessoas procura o jejum intermitente continua sendo a perda de peso.

As evidências atuais sugerem que ele pode ser uma ferramenta eficaz para emagrecimento, sobretudo quando ajuda o indivíduo a reduzir espontaneamente sua ingestão calórica total.

Entretanto, um detalhe importante costuma ser omitido nas redes sociais:

o jejum não “quebra as leis da fisiologia”.

Em última análise, a perda de peso continua dependendo de um balanço energético negativo, ou seja, gastar mais energia do que se consome ao longo do tempo.

Uma importante revisão sistemática e meta-análise publicada por Varady e colaboradores observou que diferentes modalidades de jejum intermitente produzem perdas de peso clinicamente relevantes em indivíduos com sobrepeso e obesidade, frequentemente variando entre 3% e 8% do peso corporal ao longo de algumas semanas ou meses (VARADY et al., 2022).

Outro estudo que recebeu ampla atenção foi publicado no New England Journal of Medicine. Nessa revisão, os autores concluíram que os benefícios observados provavelmente resultam de uma combinação de redução da ingestão energética, alterações hormonais e adaptações metabólicas relacionadas ao período de jejum (DE CABO; MATTSON, 2019).

Portanto, o jejum pode ajudar muitas pessoas a emagrecer, mas não porque possua propriedades “mágicas”. Ele funciona principalmente como uma estratégia comportamental e metabólica que facilita a redução do consumo energético em determinados indivíduos.

 

Jejum Intermitente é Superior às Dietas Convencionais?

Aqui encontramos uma das maiores surpresas da literatura científica.

Diversos ensaios clínicos randomizados compararam jejum intermitente com dietas tradicionais de restrição calórica contínua.

O resultado mais comum foi o seguinte:

ambas funcionam.

Na maioria dos estudos, quando a redução calórica total é semelhante, as diferenças de perda de peso entre os métodos tendem a ser pequenas ou inexistentes (LIU et al., 2022; SUN et al., 2024).

Isso significa que o melhor método costuma ser aquele que o indivíduo consegue manter a longo prazo.

Algumas pessoas sentem enorme dificuldade em controlar porções diariamente, mas adaptam-se bem a uma janela alimentar restrita.

Outras experimentam exatamente o oposto.

A adesão continua sendo um dos fatores mais importantes para o sucesso.

 

O Impacto Sobre a Resistência à Insulina

Uma das áreas mais promissoras do jejum intermitente envolve a saúde metabólica.

Durante períodos sem alimentação ocorre redução dos níveis de insulina circulante, permitindo maior mobilização de gordura armazenada e menor exposição crônica do organismo a esse hormônio.

Diversos estudos demonstraram melhora de parâmetros relacionados à resistência à insulina, especialmente em indivíduos com excesso de peso, obesidade ou pré-diabetes (DE CABO; MATTSON, 2019; SUN et al., 2024).

Uma revisão abrangente publicada em 2024 encontrou evidências consistentes de melhora em indicadores glicêmicos e metabólicos em vários protocolos de restrição alimentar temporal (SUN et al., 2024).

Entretanto, isso não significa que pessoas diabéticas devam iniciar jejuns prolongados por conta própria.

Pacientes em uso de insulina ou determinados medicamentos hipoglicemiantes podem apresentar risco aumentado de hipoglicemia e necessitam de acompanhamento médico individualizado.

 

Saúde Cardiovascular: Promessas e Realidade

O jejum intermitente também tem sido estudado em relação à saúde cardiovascular.

Alguns ensaios clínicos identificaram reduções modestas em:

  • pressão arterial;
  • triglicerídeos;
  • colesterol LDL;
  • marcadores inflamatórios.

Esses benefícios parecem ocorrer principalmente em indivíduos que também apresentam perda de peso associada (DE CABO; MATTSON, 2019).

No entanto, ainda não existem evidências robustas demonstrando que o jejum intermitente reduza diretamente mortalidade cardiovascular ou aumente a longevidade em humanos.

Essa distinção é importante.

Melhorar fatores de risco não é necessariamente a mesma coisa que comprovar redução de eventos clínicos importantes.

 

E Quanto à Longevidade?

Talvez nenhum tema gere mais entusiasmo.

Em modelos animais, especialmente leveduras, vermes, moscas e roedores, a restrição energética frequentemente está associada ao aumento da expectativa de vida.

Entretanto, extrapolar esses resultados para seres humanos é extremamente complexo.

Até o momento, não existem ensaios clínicos capazes de demonstrar que o jejum intermitente prolonga a vida humana.

O que existe são evidências indiretas de melhora em alguns marcadores associados ao envelhecimento saudável (LONGO; PANDA, 2016).

A ciência ainda não permite afirmar que jejuar fará alguém viver mais.

 

Os Possíveis Benefícios Cognitivos

Outra área de intenso interesse envolve o cérebro.

Em modelos experimentais, períodos de restrição alimentar parecem aumentar a resistência neuronal ao estresse metabólico e estimular mecanismos celulares relacionados à plasticidade cerebral (MATTSON et al., 2018).

Em seres humanos, alguns estudos sugerem possíveis benefícios sobre:

  • clareza mental;
  • concentração;
  • regulação do apetite;
  • percepção de energia.

Contudo, os resultados permanecem heterogêneos e ainda insuficientes para conclusões definitivas.

 

Nem Tudo São Benefícios: Os Riscos do Jejum

A popularização do jejum muitas vezes ignora seus potenciais efeitos adversos.

Entre os sintomas mais frequentemente relatados estão:

  • fome intensa;
  • irritabilidade;
  • cefaleia;
  • fadiga;
  • tonturas;
  • dificuldade de concentração;
  • redução do desempenho esportivo em algumas circunstâncias.

Esses sintomas costumam ser transitórios, mas nem sempre.

Além disso, determinadas populações exigem atenção especial.

 

Quem Deve Ter Cuidado ou Evitar o Jejum?

O jejum intermitente pode não ser apropriado para:

  • gestantes;
  • lactantes;
  • crianças;
  • adolescentes em crescimento;
  • indivíduos com histórico de transtornos alimentares;
  • pessoas com baixo peso;
  • pacientes com doenças debilitantes;
  • idosos frágeis;
  • diabéticos em uso de medicamentos com risco de hipoglicemia.

Nesses grupos, a avaliação individualizada é particularmente importante.

 

Há Risco de Perda de Massa Muscular?

Sim, principalmente para pessoas previamente sarcopênicas (debilitadas, com pouco músculo), ou que já estejam inseridas num contexto alimentar restritivo. Este é talvez um dos receios mais frequentes em relação ao jejum intermitente, e uma das perguntas mais recorrentes.

Mas há uma boa notícia. O organismo possui mecanismos adaptativos que procuram preservar a musculatura nas fases iniciais do jejum. Nas primeiras 12 a 24 horas (pode variar de pessoa para pessoa), a maior parte da energia provém da utilização do glicogênio hepático e da mobilização crescente de gordura corporal. Com a progressão do jejum, ocorre aumento da produção de corpos cetônicos, que passam a servir como importante combustível para o cérebro e outros tecidos, reduzindo a necessidade de utilização de aminoácidos musculares para produção de glicose. Esse fenômeno é considerado uma estratégia metabólica de preservação da massa magra (CAHILL, 2006; DE CABO; MATTSON, 2019).

Entretanto, quando os períodos de jejum se tornam excessivamente prolongados, repetitivos ou são associados a ingestão insuficiente de macronutrientes, particularmente carboidratos e proteínas, baixo peso corporal, envelhecimento, sarcopenia, doenças debilitantes ou ausência de estímulo muscular por exercícios de resistência, o organismo pode aumentar gradualmente a degradação de proteínas musculares para fornecer aminoácidos destinados à gliconeogênese e outras funções vitais.

Uma revisão publicada na Nature Reviews Endocrinology destaca que protocolos bem conduzidos de jejum intermitente geralmente preservam a massa magra de forma relativamente satisfatória, especialmente quando acompanhados de adequada ingestão proteica e treinamento de força. Ainda assim, parte da perda ponderal observada em alguns estudos pode incluir uma fração de massa muscular, sobretudo em indivíduos mais vulneráveis ou submetidos a restrições energéticas muito intensas (VARADY et al., 2022). Em outras palavras, o maior risco para a musculatura não parece ser o jejum intermitente moderado, individualizado e bem planejado, mas sim o jejum prolongado, inadequadamente conduzido e associado à desnutrição proteica e ao sedentarismo.

 

O Perigo dos Extremos

Talvez a maior lição da literatura científica seja que o jejum intermitente não deve ser encarado nem como vilão nem como solução universal.

De um lado, existem pessoas que afirmam que qualquer período sem alimentação é prejudicial.

Do outro, há quem atribua ao jejum propriedades quase milagrosas.

Ambas as posições são incompatíveis com o conhecimento científico atual.

O que as melhores evidências sugerem é algo muito mais equilibrado:

Para indivíduos adequadamente selecionados, o jejum intermitente pode ser uma ferramenta útil para perda de peso, melhora metabólica e organização alimentar.

Mas seus benefícios dependem do contexto, da qualidade da alimentação, da adesão ao longo prazo e das características individuais de cada pessoa.

Na próxima parte abordaremos uma das áreas mais fascinantes da pesquisa moderna: a relação entre jejum intermitente, microbiota intestinal, eixo intestino-cérebro, inflamação, imunidade e saúde metabólica.

 

REFERÊNCIAS

CAHILL, George F. Fuel metabolism in starvation. Annual Review of Nutrition, Palo Alto, v. 26, p. 1–22, 2006.

DE CABO, Rafael; MATTSON, Mark P. Effects of intermittent fasting on health, aging, and disease. New England Journal of Medicine, Boston, v. 381, n. 26, p. 2541–2551, 2019. DOI: 10.1056/NEJMra1905136.

LIU, Ding et al. Intermittent fasting versus continuous energy restriction for weight loss and cardiometabolic outcomes: a systematic review and meta-analysis of randomized controlled trials. eClinicalMedicine, London, v. 48, 101477, 2022.

LONGO, Valter D.; PANDA, Satchidananda. Fasting, circadian rhythms, and time-restricted feeding in healthy lifespan. Cell Metabolism, Cambridge, v. 23, n. 6, p. 1048–1059, 2016. DOI: 10.1016/j.cmet.2016.06.001.

MATTSON, Mark P.; LONGO, Valter D.; HARVIE, Michelle. Impact of intermittent fasting on health and disease processes. Ageing Research Reviews, Amsterdam, v. 39, p. 46–58, 2017. DOI: 10.1016/j.arr.2016.10.005.

SUN, Ming-Li et al. Intermittent fasting and health outcomes: an umbrella review of systematic reviews and meta-analyses of randomized controlled trials. eClinicalMedicine, London, v. 70, 102519, 2024.

VARADY, Krista A. et al. Clinical application of intermittent fasting for weight loss: progress and future directions. Nature Reviews Endocrinology, London, v. 18, p. 309–321, 2022.

 

 

 

 

Jejum Intermitente: Ciência, Promessas, Benefícios e Mitos – Parte 1 de 3

 

 

O Fascínio Humano Pelo Jejum

Poucos temas despertam tanta curiosidade atualmente quanto o jejum intermitente.

Para alguns, ele representa uma ferramenta poderosa para perda de peso e melhora metabólica. Para outros, tornou-se quase uma filosofia de vida. Nas redes sociais, não faltam promessas de rejuvenescimento, longevidade, “limpeza” do organismo e até prevenção de praticamente todas as doenças conhecidas.

Como costuma acontecer quando um tema científico ganha popularidade, a verdade encontra-se em algum lugar entre o entusiasmo exagerado e o ceticismo absoluto.

O jejum não é uma invenção moderna. Na realidade, acompanha a humanidade há milênios.

Diversas tradições religiosas incorporaram períodos de abstinência alimentar muito antes de a ciência começar a estudar seus efeitos fisiológicos. Cristianismo, judaísmo, islamismo, hinduísmo e budismo possuem práticas de jejum documentadas há séculos.

Do ponto de vista adaptativo, nossos ancestrais também experimentavam naturalmente períodos de escassez alimentar. O organismo humano desenvolveu mecanismos sofisticados para sobreviver a essas fases sem acesso contínuo à comida.

A ciência moderna passou a investigar se tais adaptações poderiam trazer benefícios além da simples sobrevivência.

 

AVISO LEGAL (DISCLAIMER)

Este artigo tem finalidade exclusivamente informativa e educacional. Seu conteúdo não constitui prescrição médica, nutricional ou terapêutica e não deve ser utilizado para diagnóstico, prevenção ou tratamento de doenças.

As evidências científicas sobre jejum intermitente continuam em evolução. Nem todos os indivíduos são candidatos apropriados para essa estratégia alimentar. Crianças, adolescentes em fase de crescimento, gestantes, lactantes, pessoas com transtornos alimentares, indivíduos desnutridos ou portadores de determinadas doenças devem ser avaliados individualmente por profissionais de saúde habilitados.

Antes de iniciar qualquer protocolo de jejum, consulte seu médico e demais profissionais de saúde responsáveis pelo seu acompanhamento.

 

 

O Que é Jejum Intermitente?

O termo “jejum intermitente” não descreve uma dieta específica, mas um padrão alimentar.

Diferentemente das dietas tradicionais, que se concentram principalmente em “o que comer”, o jejum intermitente enfatiza “quando comer”.

Existem diversas modalidades:

 

Restrição de Tempo Alimentar (Time-Restricted Eating)

A mais popular atualmente.

O indivíduo concentra sua alimentação em uma janela específica do dia.

Exemplos:

  • 12:12 (12 horas de alimentação e 12 de jejum)
  • 14:10
  • 16:8
  • 18:6

 

Dieta 5:2

A pessoa se alimenta normalmente durante cinco dias da semana e reduz drasticamente a ingestão calórica em dois dias não consecutivos.

 

Jejum em Dias Alternados

Alternância entre dias de alimentação habitual e dias de grande restrição energética.

Cada modalidade possui características próprias, vantagens e limitações.

 

Como o Assunto Entrou na Literatura Científica?

Embora estudos metabólicos sobre privação alimentar existam há muitas décadas, o interesse científico moderno pelo jejum intensificou-se especialmente a partir dos anos 1990 e 2000.

Inicialmente, boa parte das pesquisas ocorreu em modelos animais.

Roedores submetidos a protocolos de restrição alimentar apresentavam alterações metabólicas intrigantes:

  • melhora da sensibilidade à insulina;
  • redução de gordura corporal;
  • alterações em vias inflamatórias;
  • aumento da resistência celular ao estresse.

Esses resultados estimularam uma explosão de pesquisas em humanos nas décadas seguintes.

 

Yoshinori Ohsumi e a Descoberta que Ressignificou o Jejum

É impossível falar sobre jejum sem mencionar o cientista japonês Yoshinori Ohsumi.

Em 2016, Ohsumi recebeu o Prêmio Nobel de Fisiologia ou Medicina por seus trabalhos fundamentais na compreensão da autofagia.

O termo autofagia significa literalmente “comer a si mesmo”.

Apesar do nome parecer alarmante, trata-se de um mecanismo essencial à vida.

As células constantemente produzem proteínas defeituosas, organelas envelhecidas e componentes danificados. A autofagia funciona como um sofisticado sistema de reciclagem celular, removendo estruturas comprometidas e reutilizando seus componentes.

O grande mérito de Ohsumi foi identificar genes e mecanismos fundamentais envolvidos nesse processo, utilizando inicialmente leveduras como modelo experimental. Seu trabalho permitiu compreender como as células regulam a reciclagem interna e abriu caminho para milhares de pesquisas subsequentes envolvendo envelhecimento, câncer, neurodegeneração e metabolismo.

Entretanto, um ponto importante merece destaque.

A descoberta de Ohsumi não demonstrou que jejum intermitente cura doenças nem estabeleceu um protocolo específico de horas de jejum para humanos.

Essa associação surgiu posteriormente, quando pesquisadores observaram que períodos de restrição energética podem ativar vias celulares relacionadas à autofagia. A intensidade, duração e relevância clínica desse fenômeno em seres humanos ainda permanecem objeto de investigação científica.

Muitas afirmações populares sobre “24 horas”, “48 horas” ou “72 horas” para ativar autofagia extrapolam significativamente aquilo que a literatura científica consegue afirmar com segurança atualmente.

 

O Que Acontece no Organismo Durante o Jejum?

Após uma refeição, o organismo utiliza principalmente a glicose proveniente dos alimentos como fonte energética.

Com o passar das horas sem alimentação, ocorrem mudanças graduais:

  1. Redução dos níveis de insulina.
  2. Mobilização das reservas de glicogênio hepático.
  3. Aumento progressivo da utilização de gordura corporal como combustível.
  4. Produção de corpos cetônicos em jejuns mais prolongados.

Essas alterações não acontecem de forma abrupta nem seguem exatamente os mesmos tempos em todas as pessoas.

Fatores como:

  • idade;
  • sexo;
  • composição corporal;
  • atividade física;
  • estado metabólico;
  • quantidade de carboidratos consumidos previamente;

podem modificar significativamente a resposta individual.

 

O Que Dizem as Melhores Evidências Atuais?

Uma das análises mais abrangentes publicadas recentemente foi uma revisão “umbrella” (revisão de revisões sistemáticas e metanálises) envolvendo estudos randomizados sobre jejum intermitente.

Publicada em 2024 na revista eClinicalMedicine (grupo Lancet), a revisão concluiu que existem evidências razoavelmente consistentes para perda de peso, melhora da resistência à insulina e alguns parâmetros cardiometabólicos, especialmente em indivíduos com excesso de peso ou obesidade (SUN et al., 2024).

Entretanto, os autores também ressaltaram que a qualidade das evidências varia conforme o desfecho estudado e que muitas perguntas importantes ainda permanecem sem resposta.

Em outras palavras:

O jejum intermitente possui potencial terapêutico real.

Mas não constitui a solução universal frequentemente apresentada nas redes sociais.

 

O Primeiro Grande Alerta: Benefícios Não Significam Milagres

Talvez o maior erro da divulgação popular seja transformar resultados promissores em promessas extraordinárias.

A literatura científica atual sugere benefícios plausíveis para:

  • perda de peso;
  • resistência à insulina;
  • saúde metabólica;
  • alguns marcadores cardiovasculares.

Por outro lado, não existem evidências robustas demonstrando que o jejum intermitente seja uma cura para câncer, demência, doenças autoimunes ou envelhecimento.

A boa ciência costuma avançar mais lentamente do que os vídeos de internet.

E isso é algo positivo.

Na próxima parte abordaremos os benefícios clinicamente demonstrados, os riscos, as contraindicações, os exageros midiáticos e o que as pesquisas mais recentes revelam sobre perda de peso e saúde metabólica.

 

REFERÊNCIAS

OHSUMI, Y. Historical landmarks of autophagy research. Cell Research, v. 24, n. 1, p. 9–23, 2014.

SUN, Ming-Li et al. Intermittent fasting and health outcomes: an umbrella review of systematic reviews and meta-analyses of randomised controlled trials. ClinicalMedicine, v. 70, 102519, 2024.

TDAH em Crianças e Adultos: Muito Além da Falta de Atenção – Parte 3 de 3

 

Parte 3 — O Eixo Intestino-Cérebro, a Microbiota e as Novas Fronteiras da Ciência

Nos últimos anos, uma das áreas mais fascinantes da pesquisa biomédica tem sido a investigação da comunicação entre intestino e cérebro. Durante muito tempo, acreditava-se que o cérebro funcionava de maneira relativamente isolada. Hoje sabemos que existe uma intensa comunicação bidirecional entre sistema nervoso central, sistema imunológico, sistema endócrino e microbiota intestinal.

Esse sistema de comunicação recebeu o nome de eixo intestino-cérebro (gut-brain axis) (CRYAN et al., 2019).

Embora a pesquisa ainda esteja em evolução, evidências crescentes sugerem que alterações da microbiota intestinal podem influenciar o desenvolvimento cerebral, o comportamento, a cognição e até mesmo algumas condições neuropsiquiátricas, incluindo o TDAH (SHIRVANI-RAD et al., 2022).

 

O Que é a Microbiota Intestinal?

O intestino humano abriga trilhões de microrganismos, incluindo bactérias, fungos, vírus e arqueias.

Longe de serem apenas passageiros, esses organismos participam de funções fundamentais:

  • digestão de nutrientes;
  • produção de vitaminas;
  • regulação imunológica;
  • manutenção da barreira intestinal;
  • produção de metabólitos biologicamente ativos;
  • comunicação com o sistema nervoso.

Estima-se que o número total de genes presentes na microbiota seja centenas de vezes superior ao número de genes humanos, formando aquilo que alguns pesquisadores chamam de “órgão metabólico adicional” (CRYAN et al., 2019).

 

Como o Intestino Conversa com o Cérebro?

A comunicação ocorre por múltiplas vias simultâneas.

  1. Via Neural: o Nervo Vago

O nervo vago conecta diretamente intestino e cérebro.

Informações geradas no trato gastrointestinal podem influenciar áreas cerebrais relacionadas ao humor, atenção, estresse e comportamento.

Alguns experimentos em animais demonstram que alterações da microbiota podem modificar o comportamento através dessa via neural (CRYAN et al., 2019).

 

  1. Via Imunológica

Aproximadamente 70% do sistema imunológico encontra-se associado ao trato gastrointestinal.

Quando a microbiota está equilibrada, ocorre adequada regulação da resposta inflamatória.

Quando há disbiose — desequilíbrio da microbiota — pode ocorrer aumento da produção de citocinas pró-inflamatórias.

Essas moléculas inflamatórias conseguem influenciar o sistema nervoso central e potencialmente modificar processos relacionados à atenção, ao humor e ao comportamento (CRYAN et al., 2019).

Embora o TDAH não seja considerado uma doença inflamatória clássica, alguns estudos identificaram níveis discretamente aumentados de marcadores inflamatórios em determinados grupos de pacientes (FARAONE et al., 2021).

 

  1. Produção de Neurotransmissores e Neuromoduladores

Talvez o aspecto mais surpreendente seja a capacidade da microbiota de participar da produção ou modulação de substâncias neuroativas.

Diversas bactérias intestinais estão envolvidas na síntese ou metabolismo de compostos como:

  • serotonina;
  • dopamina;
  • ácido gama-aminobutírico (GABA);
  • noradrenalina;
  • acetilcolina.

Embora a maior parte desses neurotransmissores não atravesse diretamente a barreira hematoencefálica, eles podem influenciar vias metabólicas, imunológicas e neurais que afetam o funcionamento cerebral (SARKAR et al., 2016).

 

  1. Ácidos Graxos de Cadeia Curta

Quando bactérias benéficas fermentam fibras alimentares, produzem substâncias chamadas ácidos graxos de cadeia curta:

  • butirato;
  • acetato;
  • propionato.

Essas moléculas exercem múltiplas funções:

  • nutrem células intestinais;
  • fortalecem a barreira intestinal;
  • modulam inflamação;
  • influenciam a expressão gênica;
  • participam da comunicação intestino-cérebro.

O butirato, em particular, vem recebendo grande atenção por seus potenciais efeitos neuroprotetores (CRYAN et al., 2019).

 

Existe uma Microbiota Típica do TDAH?

A resposta curta é: ainda não sabemos.

Diversos estudos encontraram diferenças entre a microbiota de indivíduos com TDAH e controles saudáveis (AARTS et al., 2017; WANG et al., 2020).

Entretanto, os resultados nem sempre são consistentes.

Algumas pesquisas identificaram alterações em grupos bacterianos relacionados ao metabolismo da dopamina e de outros neurotransmissores.

Outros estudos encontraram diferenças relacionadas à produção de metabólitos inflamatórios ou neuroativos.

Uma revisão sistemática recente concluiu que existe evidência crescente de associação entre microbiota intestinal e TDAH, mas ainda não há um perfil microbiológico universalmente aceito para diagnóstico ou tratamento da condição (SHIRVANI-RAD et al., 2022; KIM et al., 2024).

Portanto, a ciência ainda está na fase de compreensão dos mecanismos, não de aplicação clínica rotineira.

 

Psicobióticos: Uma Nova Classe de Intervenções?

O termo psicobiótico foi proposto para descrever microrganismos vivos que, quando administrados em quantidades adequadas, podem produzir benefícios sobre a saúde mental e o funcionamento cerebral (DINAN; STANTON; CRYAN, 2013).

Os psicobióticos normalmente pertencem aos gêneros:

  • Lactobacillus;
  • Bifidobacterium.

Em modelos experimentais, algumas cepas demonstraram capacidade de:

  • modular neurotransmissores;
  • reduzir inflamação;
  • influenciar respostas ao estresse;
  • melhorar aspectos comportamentais.

 

Existem Psicobióticos Comprovadamente Eficazes para TDAH?

Até o momento, não.

Essa é uma área extremamente promissora, mas ainda em desenvolvimento.

Alguns estudos pequenos sugerem potenciais benefícios de determinadas cepas probióticas sobre aspectos comportamentais e emocionais.

Entretanto, os resultados ainda são heterogêneos e insuficientes para recomendar qualquer probiótico como tratamento estabelecido para TDAH (SKOTNICKA et al., 2021; KIM et al., 2024).

Em outras palavras:

A hipótese é biologicamente plausível.

Os resultados iniciais são interessantes.

Mas a evidência atual ainda não justifica substituir terapias convencionais por probióticos.

 

O Que Podemos Fazer na Prática?

Embora a ciência ainda esteja longe de prescrever um “tratamento microbiológico” para o TDAH, algumas medidas apresentam benefícios gerais para saúde intestinal e cerebral:

  • alimentação rica em fibras;
  • frutas e vegetais variados;
  • consumo adequado de proteínas;
  • redução de ultraprocessados;
  • atividade física regular;
  • sono adequado;
  • manejo do estresse.

Curiosamente, essas mesmas medidas também aparecem entre as estratégias mais importantes para melhorar a saúde global dos indivíduos com TDAH.

 

Conclusão Geral: Integrando as Três Partes

Ao longo deste artigo, vimos que o TDAH está longe de ser simplesmente uma dificuldade de prestar atenção.

Trata-se de uma condição complexa do neurodesenvolvimento, influenciada por fatores genéticos, neurobiológicos, ambientais e comportamentais.

Na infância, os sintomas frequentemente aparecem sob a forma de inquietação, impulsividade e dificuldades escolares.

Na vida adulta, tendem a manifestar-se através de procrastinação, desorganização, dificuldades de planejamento, impulsividade e problemas de gerenciamento do tempo.

As evidências científicas atuais demonstram que:

  • o TDAH possui forte componente hereditário;
  • envolve alterações em circuitos relacionados à dopamina e à noradrenalina;
  • pode persistir ao longo de toda a vida;
  • frequentemente responde bem ao tratamento.

Também vimos que o estilo de vida exerce papel muito maior do que se imaginava no passado.

Sono adequado, atividade física regular, alimentação equilibrada e redução do sedentarismo não substituem necessariamente o tratamento médico, mas podem potencializar significativamente seus resultados.

Os medicamentos estimulantes — especialmente metilfenidato e lisdexanfetamina — permanecem como as intervenções isoladas mais eficazes para os sintomas centrais do transtorno (CORTESE et al., 2018).

Por fim, exploramos uma das áreas mais promissoras da neurociência moderna: o eixo intestino-cérebro.

Embora ainda existam muitas perguntas sem resposta, as pesquisas atuais reforçam uma visão cada vez mais integrada do ser humano.

O cérebro não funciona isoladamente.

Ele está em constante diálogo com o intestino, o sistema imunológico, os hábitos de vida e o ambiente.

Talvez uma das maiores lições da ciência contemporânea seja justamente esta: compreender o TDAH exige olhar não apenas para os neurotransmissores, mas para o indivíduo como um todo.

 

Observação científica final

A mensagem central que emerge das melhores evidências disponíveis é que o tratamento do TDAH não deve ser reduzido a uma dicotomia entre “medicação” ou “estilo de vida”. A literatura atual favorece uma abordagem integrada: diagnóstico correto, educação do paciente e da família, intervenções comportamentais, promoção de hábitos saudáveis e, quando indicado, farmacoterapia baseada em evidências. A pesquisa sobre microbiota e psicobióticos é promissora, mas ainda não alcançou o nível de evidência necessário para recomendações clínicas fortes. Contudo, ela reforça um conceito cada vez mais sólido na medicina moderna: saúde cerebral, saúde intestinal e estilo de vida estão profundamente interligados.

 

REFERÊNCIAS

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CRYAN, John F. et al. The microbiota-gut-brain axis. Physiological Reviews, Bethesda, v. 99, n. 4, p. 1877–2013, 2019. DOI: 10.1152/physrev.00018.2018.

DINAN, Timothy G.; STANTON, Catherine; CRYAN, John F. Psychobiotics: a novel class of psychotropic. Biological Psychiatry, New York, v. 74, n. 10, p. 720–726, 2013. DOI: 10.1016/j.biopsych.2013.05.001.

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SARKAR, Aditi et al. Psychobiotics and the manipulation of bacteria-gut-brain signals. Trends in Neurosciences, Cambridge, v. 39, n. 11, p. 763–781, 2016. DOI: 10.1016/j.tins.2016.09.002.

SHIRVANI-RAD, Samira et al. The role of gut microbiota-brain axis in attention-deficit/hyperactivity disorder: a systematic review. Journal of Attention Disorders, Thousand Oaks, v. 26, n. 6, p. 796–815, 2022.

SKOTNICKA, Magdalena et al. Gut microbiota, executive functions and attention deficit/hyperactivity disorder: a review of current evidence. Nutrients, Basel, v. 13, n. 10, 2021.

WANG, Li-Jung et al. Gut microbiota and dietary patterns in children with attention-deficit/hyperactivity disorder. European Child & Adolescent Psychiatry, Heidelberg, v. 29, p. 287–297, 2020.

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