Vegetarianismo e Veganismo: Benefícios, Limitações e Cuidados – Parte 2

 

 

Na primeira parte deste artigo vimos que vegetarianismo e veganismo representam muito mais do que uma simples escolha alimentar. Também discutimos que nem toda dieta baseada em vegetais é necessariamente saudável. Nesta segunda parte, analisaremos o que os principais estudos científicos realmente demonstram sobre os possíveis benefícios dessas dietas, bem como suas limitações e os nutrientes que merecem atenção especial.

 

O que a ciência demonstra com maior consistência?

Ao longo das últimas três décadas, centenas de estudos avaliaram os efeitos das dietas vegetarianas sobre diferentes doenças crônicas. Como ocorre em praticamente todas as pesquisas envolvendo nutrição, a interpretação dos resultados exige cautela. A maioria das evidências provém de grandes estudos observacionais, que permitem identificar associações, mas não demonstrar causalidade absoluta.

Ainda assim, quando diferentes estudos realizados em populações distintas apontam na mesma direção, aumenta nossa confiança de que exista um efeito biológico real.

Entre os benefícios mais consistentemente observados destacam-se menor índice de obesidade, menor prevalência de diabetes tipo 2, níveis mais baixos de colesterol LDL, menor pressão arterial e redução do risco de algumas doenças cardiovasculares.

 

Obesidade: uma das evidências mais consistentes

Talvez um dos achados mais reproduzidos na literatura seja o menor índice de massa corporal (IMC) entre vegetarianos.

Um interessante estudo envolvendo mais de 96 mil participantes do Adventist Health Study-2 demonstrou que, em média, vegetarianos apresentavam IMC significativamente menor que indivíduos onívoros. Os veganos exibiram os menores valores, seguidos pelos ovolactovegetarianos, enquanto os consumidores habituais de carne apresentaram os maiores índices (Tonstad et al., 2009).

Diversos fatores provavelmente contribuem para esse resultado. Dietas baseadas em vegetais costumam apresentar maior teor de fibras, menor densidade energética, maior volume alimentar e maior poder de saciedade, favorecendo espontaneamente menor ingestão calórica.

Entretanto, convém lembrar que o emagrecimento não depende exclusivamente da exclusão da carne. Uma alimentação vegetariana ou vegana rica em doces, refrigerantes, frituras e ultraprocessados está longe de ser saudável e dificilmente produzirá esse benefício.

 

Diabetes tipo 2

Outra área em que os resultados têm sido bastante consistentes é a prevenção do diabetes tipo 2.

No próprio Adventist Health Study-2, um interessante estudo envolvendo dezenas de milhares de participantes observou que vegetarianos apresentavam risco significativamente menor de desenvolver diabetes tipo 2 quando comparados aos não vegetarianos, mesmo após ajustes para idade, sexo, atividade física e índice de massa corporal (Tonstad et al., 2009).

Mais recentemente, revisões sistemáticas e metanálises confirmaram que padrões alimentares predominantemente vegetais estão associados à melhora da sensibilidade à insulina, redução da hemoglobina glicada em indivíduos com diabetes e melhor controle metabólico, sobretudo quando baseados em alimentos integrais e minimamente processados.

Boa parte desse efeito parece decorrer da combinação entre perda de peso, maior ingestão de fibras, menor consumo de gorduras saturadas e melhora da qualidade global da alimentação.

 

Doenças cardiovasculares

As doenças cardiovasculares continuam sendo a principal causa de morte no mundo. Naturalmente, muitos pesquisadores procuraram avaliar se dietas vegetarianas influenciam esse risco.

Uma importante metanálise publicada por Dinu e colaboradores (2017), reunindo estudos envolvendo centenas de milhares de participantes, observou associação entre dietas vegetarianas e menores concentrações de colesterol total, colesterol LDL e pressão arterial, além de menor incidência de doença isquêmica do coração.

Outro interessante estudo publicado no Journal of the American Heart Association demonstrou que padrões alimentares vegetais compostos predominantemente por alimentos integrais estavam associados a menor risco de doença cardiovascular, enquanto dietas ricas em alimentos vegetais ultraprocessados apresentavam associação oposta (Satija et al., 2019).

Esses achados reforçam uma mensagem fundamental: não basta consumir alimentos de origem vegetal; é necessário priorizar alimentos pouco processados.

 

E quanto ao câncer?

Esse talvez seja um dos temas que mais desperta interesse do público.

Os estudos disponíveis sugerem que dietas ricas em frutas, verduras, legumes, cereais integrais e leguminosas podem contribuir para reduzir o risco de alguns tipos de câncer, especialmente colorretal. Entretanto, atribuir esse benefício exclusivamente ao vegetarianismo seria uma simplificação inadequada.

A menor ingestão de carnes processadas, reconhecidas pela International Agency for Research on Cancer como carcinogênicas para humanos quando consumidas regularmente, provavelmente representa um dos fatores envolvidos.

Além disso, alimentos vegetais fornecem fibras, antioxidantes, carotenoides, flavonoides e milhares de compostos bioativos que podem exercer efeitos favoráveis sobre inflamação, microbiota intestinal e metabolismo celular.

Por outro lado, até o momento não existem evidências suficientes para afirmar que simplesmente retirar a carne da alimentação reduza, por si só, o risco global de câncer. A qualidade geral da dieta continua sendo determinante.

 

Longevidade: promessa ou realidade?

Poucos assuntos despertam tanta curiosidade quanto a possibilidade de viver mais.

As populações vegetarianas estudadas em Loma Linda apresentam, de fato, expectativa de vida superior à média norte-americana. Entretanto, interpretar corretamente esses dados exige prudência.

Além da alimentação, esses indivíduos fumam menos, ingerem pouco álcool, praticam atividade física regularmente, possuem forte integração social, valorizam o descanso semanal e mantêm acompanhamento médico preventivo com maior frequência.

Portanto, embora diversos estudos observacionais sugiram associação entre padrões alimentares vegetarianos e menor mortalidade, é cientificamente mais correto afirmar que a alimentação constitui apenas um dos componentes de um estilo de vida globalmente saudável.

Essa conclusão está plenamente alinhada com os princípios da Medicina do Estilo de Vida, que enfatiza a atuação conjunta da alimentação, atividade física, sono adequado, controle do estresse, vínculos sociais e prevenção do tabagismo.

 

Nutrientes que merecem atenção

Apesar de seus inúmeros aspectos positivos, dietas vegetarianas e, principalmente, veganas podem apresentar limitações nutricionais quando não são cuidadosamente planejadas. A principal delas diz respeito à vitamina B12.

Produzida por microrganismos, e não pelos animais propriamente ditos, essa vitamina encontra-se naturalmente disponível em quantidades relevantes quase exclusivamente em alimentos de origem animal.

Sua deficiência pode provocar anemia megaloblástica, alterações neurológicas, neuropatia periférica, prejuízo cognitivo e aumento das concentrações de homocisteína.

Por essa razão, praticamente todas as sociedades científicas que publicam recomendações sobre alimentação vegetariana são unânimes em afirmar que veganos devem utilizar alimentos fortificados ou suplementação regular de vitamina B12.

Essa é uma das recomendações mais sólidas de toda a literatura científica sobre veganismo.

 

Outros nutrientes potencialmente limitantes

Além da vitamina B12, alguns nutrientes merecem monitorização individualizada.

Entre eles destacam-se:

  • ferro;
  • zinco;
  • cálcio;
  • iodo;
  • vitamina D;
  • ácidos graxos ômega-3 de cadeia longa (EPA e DHA);
  • proteína, especialmente em idosos, atletas ou indivíduos com maior demanda metabólica.

É importante destacar que isso não significa que dietas vegetarianas sejam inadequadas. Significa apenas que, assim como ocorre em qualquer padrão alimentar, elas precisam ser corretamente planejadas.

Na prática clínica, exames laboratoriais periódicos e orientação nutricional individualizada costumam ser suficientes para prevenir a maioria dessas deficiências.

 

O equilíbrio continua sendo a melhor escolha

À medida que a ciência evolui, torna-se cada vez mais evidente que o debate não deve opor vegetarianos e onívoros. A verdadeira questão é a qualidade da alimentação.

Uma dieta vegetariana rica em vegetais frescos, leguminosas, frutas, cereais integrais e oleaginosas provavelmente será muito mais saudável do que uma dieta onívora baseada em ultraprocessados.

Da mesma forma, uma alimentação onívora composta predominantemente por alimentos naturais, com consumo moderado de carnes, abundância de vegetais e reduzida quantidade de alimentos industrializados poderá oferecer excelente perfil nutricional.

Em outras palavras, o que a ciência vem mostrando de forma crescente é que a qualidade global da dieta importa muito mais do que a simples presença ou ausência de carne no prato.

Na terceira e última parte deste artigo discutiremos um aspecto igualmente importante: os impactos ambientais da produção de alimentos, as motivações éticas para o vegetarianismo, os desafios da sustentabilidade, o consumo consciente e os principais mitos e verdades que ainda cercam esse tema.

 

Referências

DINU, M. et al. Vegetarian, vegan diets and multiple health outcomes: a systematic review with meta-analysis of observational studies. Critical Reviews in Food Science and Nutrition, v. 57, n. 17, p. 3640–3649, 2017.

ORLICH, M. J. et al. Vegetarian dietary patterns and mortality in Adventist Health Study 2. JAMA Internal Medicine, v. 173, n. 13, p. 1230–1238, 2013.

SATIJA, A. et al. Plant-based dietary patterns and incidence of cardiovascular disease: prospective cohort study. Journal of the American Heart Association, v. 8, e012865, 2019.

TONSTAD, S. et al. Type of vegetarian diet, body weight, and prevalence of type 2 diabetes. Diabetes Care, v. 32, n. 5, p. 791–796, 2009.

MELINA, V.; CRAIG, W.; LEVIN, S. Position of the Academy of Nutrition and Dietetics: Vegetarian Diets. Journal of the Academy of Nutrition and Dietetics, v. 116, n. 12, p. 1970–1980, 2016.

CRAIG, W. J. et al. The safe and effective use of plant-based diets with guidelines for health professionals. Nutrients, v. 13, n. 11, 2021.

Whey Protein: o suplemento mais estudado da nutrição esportiva realmente funciona?

 

O que a ciência sabe — e o que a internet exagera

 

Disclaimer

Este artigo tem finalidade exclusivamente educativa e não substitui a orientação de médicos ou nutricionistas. Embora o whey protein seja considerado um suplemento seguro para a maioria das pessoas saudáveis, sua utilização deve fazer parte de uma alimentação equilibrada e considerar as necessidades individuais, doenças pré-existentes e objetivos de cada pessoa.

 

O que é o Whey Protein?

Poucos suplementos alimentares despertam tantas opiniões quanto o whey protein. Para alguns, ele é praticamente indispensável para ganhar massa muscular. Para outros, seria um produto artificial que sobrecarrega os rins, prejudica o fígado ou deveria ser utilizado apenas por atletas.

A ciência mostra que nenhuma dessas visões extremas corresponde à realidade.

O whey protein é simplesmente uma proteína de alta qualidade obtida a partir do soro do leite, um líquido que durante muitos anos foi considerado apenas um subproduto da fabricação de queijos.

Quando o leite é transformado em queijo, ocorre a separação entre a caseína (que forma a parte sólida) e o soro (a parte líquida). Esse soro contém proteínas de excelente qualidade biológica, que são concentradas, purificadas e secas, originando o whey protein.

Em outras palavras, trata-se de um alimento derivado do leite e não de um medicamento nem de um hormônio.

 

Por que ele desperta tanto interesse?

As proteínas são os principais “blocos de construção” do organismo.

Elas participam da formação dos músculos, ossos, pele, cabelos, hormônios, enzimas e anticorpos. Todos os dias nosso organismo degrada e produz novas proteínas para manter esses tecidos funcionando adequadamente.

Para realizar esse processo, necessita de aminoácidos provenientes da alimentação.

O whey protein tornou-se popular porque apresenta diversas características favoráveis:

  • elevado teor de proteínas;
  • todos os aminoácidos essenciais;
  • alta digestibilidade;
  • rápida absorção;
  • grande quantidade de leucina, um dos principais estimuladores da síntese de proteínas musculares (Jäger et al., 2017).

Essas características fazem dele uma das proteínas alimentares mais estudadas do mundo.

 

Resumo Prático

O whey protein é:

✔ uma proteína derivada do leite;

✔ um alimento, não um hormônio;

✔ rico em aminoácidos essenciais;

✔ especialmente rico em leucina;

✔ facilmente digerido e absorvido.

 

Quais são os tipos de Whey Protein?

Nem todo whey protein é igual.

Existem três apresentações principais.

  1. Whey Protein Concentrado (WPC)

É a forma menos processada.

Contém normalmente entre 35% e 80% de proteína, preservando pequenas quantidades de lactose, gordura e outros componentes naturais do leite.

Para a maioria das pessoas saudáveis, oferece excelente relação custo-benefício.

 

  1. Whey Protein Isolado (WPI)

Passa por processos adicionais de filtração.

Apresenta geralmente mais de 90% de proteína, com quantidades muito pequenas de lactose e gordura.

Pode ser uma boa opção para pessoas com intolerância leve à lactose ou para quem necessita aumentar a ingestão proteica reduzindo calorias provenientes de gorduras e carboidratos.

 

  1. Whey Protein Hidrolisado (WPH)

Nesse tipo, parte das proteínas é previamente quebrada em pequenos peptídeos por hidrólise enzimática.

Isso acelera sua absorção intestinal.

Apesar desse benefício teórico, os estudos mostram que, para a maioria das pessoas, ele não promove ganhos significativamente maiores de força ou massa muscular quando comparado ao whey isolado ou concentrado, principalmente quando a ingestão diária total de proteínas é adequada (Jäger et al., 2017; Morton et al., 2018).

Seu custo, entretanto, costuma ser bastante superior.

 

Resumo Prático

Tipo Características Melhor indicação
Concentrado Mais econômico, contém lactose Maioria das pessoas
Isolado Mais proteína, pouca lactose Intolerância leve à lactose
Hidrolisado Proteína parcialmente digerida Situações específicas; poucas vantagens para a maioria

 

Para que ele realmente serve?

Ao contrário do que muitos imaginam, o whey protein não faz os músculos crescerem sozinho.

O crescimento muscular depende principalmente de três fatores:

  • treinamento de força;
  • ingestão adequada de proteínas;
  • recuperação (sono e descanso).

O whey apenas facilita o fornecimento de proteínas de alta qualidade quando a alimentação não consegue atingir as necessidades diárias.

É por isso que ele pode beneficiar diferentes grupos de pessoas, incluindo:

  • praticantes de musculação;
  • atletas;
  • idosos com risco de perda muscular;
  • pessoas em processo de emagrecimento;
  • indivíduos com dificuldade para consumir proteínas suficientes apenas pela alimentação.

 

O que realmente está cientificamente demonstrado?

Entre todos os suplementos esportivos disponíveis atualmente, poucos possuem um nível de evidência tão elevado quanto o whey protein.

Diversas revisões sistemáticas e meta-análises mostram que, quando associado ao treinamento de resistência, ele:

  • aumenta discretamente o ganho de massa muscular;
  • melhora os ganhos de força;
  • acelera a recuperação após exercícios intensos;
  • facilita o atingimento da ingestão proteica diária recomendada (Morton et al., 2018).

Entretanto, um aspecto frequentemente ignorado merece destaque.

Os maiores benefícios são observados em pessoas cuja alimentação não fornece proteína suficiente. Quando a ingestão diária total já é adequada, acrescentar grandes quantidades de whey protein costuma produzir ganhos pequenos ou inexistentes.

Em outras palavras, o fator mais importante não é tomar whey protein, mas consumir proteína suficiente ao longo do dia.

 

O que ainda permanece controverso?

Apesar do enorme número de pesquisas publicadas, algumas alegações continuam sem comprovação consistente.

Até o momento, as evidências são limitadas ou conflitantes quanto à capacidade do whey protein de:

  • acelerar significativamente o emagrecimento independentemente da dieta;
  • aumentar a imunidade em pessoas saudáveis;
  • melhorar a memória ou o desempenho cognitivo;
  • retardar o envelhecimento;
  • aumentar os níveis naturais de testosterona;
  • produzir grandes benefícios apenas pelo fato de ser consumido imediatamente após o treino.

Esses temas continuam sendo investigados.

 

Exageros midiáticos

A popularização das redes sociais fez surgir inúmeras promessas relacionadas ao whey protein.

Entre as mais comuns estão:

  • “Quanto mais whey, maior o músculo.”
  • “Quem toma whey não precisa comer proteína.”
  • “Todo praticante de academia precisa usar whey.”
  • “O hidrolisado é muito superior aos demais.”
  • “Existe uma janela anabólica de poucos minutos após o treino.”

Nenhuma dessas afirmações encontra respaldo sólido na literatura científica atual.

O whey protein pode ser uma ferramenta útil, mas não substitui uma alimentação equilibrada nem um programa adequado de treinamento.

 

Resumo Prático

O que a ciência realmente confirma

✔ É uma proteína de excelente qualidade.

✔ Auxilia no ganho de massa muscular quando associado ao treinamento.

✔ Facilita atingir a ingestão diária de proteínas.

✔ É seguro para a maioria das pessoas saudáveis.

✔ Não substitui alimentação adequada.

 

Na Parte II, abordaremos os aspectos mais discutidos sobre o whey protein: efeitos colaterais, riscos reais, saúde dos rins e do fígado, acne, intolerância à lactose, doses ideais, melhor horário para consumir, uso em idosos, emagrecimento, microbiota intestinal, novidades científicas e responderemos às perguntas mais frequentes sobre esse suplemento.

 

Referências (ABNT)

JÄGER, R. et al. International Society of Sports Nutrition Position Stand: protein and exercise. Journal of the International Society of Sports Nutrition, London, v. 14, art. 20, 2017.

MORTON, R. W. et al. A systematic review, meta-analysis and meta-regression of the effect of protein supplementation on resistance training-induced gains in muscle mass and strength in healthy adults. British Journal of Sports Medicine, London, v. 52, n. 6, p. 376–384, 2018.

PHILLIPS, S. M.; VAN LOON, L. J. C. Dietary protein for athletes: from requirements to optimum adaptation. Journal of Sports Sciences, London, v. 29, Suppl. 1, p. S29–S38, 2011.

WOLFE, R. R. Update on protein intake: importance of milk proteins for health status of the elderly. Nutrition Reviews, Oxford, v. 73, Suppl. 1, p. 41–47, 2015.

 

 

Parte II – Segurança, doses, mitos, microbiota intestinal e o que há de novo na ciência

Na primeira parte deste artigo vimos que o whey protein é uma proteína de alto valor biológico derivada do soro do leite, capaz de auxiliar o ganho de massa muscular e a recuperação quando associado a uma alimentação adequada e ao treinamento de força. Nesta segunda parte responderemos às dúvidas mais frequentes: afinal, ele faz mal aos rins? Existe um horário ideal para tomá-lo? Quais são os riscos? E o que a ciência mais recente revela sobre seus efeitos na saúde?

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O Whey Protein faz mal aos rins?

Esse é, provavelmente, o mito mais difundido sobre o suplemento.

Em pessoas com rins saudáveis, não há evidências consistentes de que o consumo de whey protein, dentro de uma ingestão proteica adequada, cause lesão renal ou reduza a função dos rins (Antonio et al., 2016; Jäger et al., 2017).

É verdade que dietas mais ricas em proteínas aumentam temporariamente a filtração renal. Entretanto, esse fenômeno, chamado hiperfiltração fisiológica, representa uma adaptação normal do organismo e não significa, por si só, dano aos rins.

A situação é diferente em pessoas com doença renal crônica, nas quais a ingestão de proteínas pode precisar ser reduzida ou individualizada. Nesses casos, qualquer suplementação deve ser orientada pelo médico ou nutricionista.

 

E o fígado?

Outro mito frequente é que o whey protein “sobrecarrega o fígado”.

Até o momento, não existem evidências de que o whey protein provoque lesão hepática em indivíduos saudáveis.

O fígado participa naturalmente do metabolismo dos aminoácidos provenientes de qualquer alimento rico em proteínas, como carnes, ovos, leite ou leguminosas. O whey protein não altera esse processo de forma diferente das proteínas obtidas pela alimentação.

Novamente, pessoas com doenças hepáticas avançadas devem receber orientação individualizada.

 

Pode causar osteoporose?

Durante muitos anos acreditou-se que dietas ricas em proteínas aumentariam a perda de cálcio pelos ossos. Hoje sabemos que essa hipótese não se confirmou.

Na realidade, quando o consumo de cálcio é adequado, a ingestão de proteínas parece contribuir para a manutenção da massa óssea, especialmente em idosos, provavelmente por favorecer a preservação da musculatura e estimular fatores relacionados à formação óssea (Rizzoli et al., 2018).

 

Pode causar acne?

Essa é uma das poucas associações que encontra algum respaldo científico.

Alguns estudos observacionais sugerem que indivíduos predispostos podem apresentar piora da acne com o consumo frequente de suplementos à base de whey protein, possivelmente por alterações nos níveis de insulina e do fator de crescimento semelhante à insulina tipo 1 (IGF-1), que estimulam a atividade das glândulas sebáceas (Pontes et al., 2013).

Entretanto, essa relação não ocorre em todas as pessoas e ainda carece de estudos clínicos de melhor qualidade.

 

E quando existe intolerância à lactose ou alergia às proteínas do leite?

É importante não confundir essas duas condições, pois elas têm causas e condutas completamente diferentes. A intolerância à lactose ocorre pela redução da atividade da enzima lactase, responsável por digerir a lactose, o açúcar natural do leite. Como consequência, após consumir leite ou derivados, algumas pessoas podem apresentar distensão abdominal, gases, cólicas e diarreia.

Nesses casos, o whey protein concentrado pode provocar sintomas por conter pequenas quantidades de lactose. Já o whey protein isolado (e, em muitos casos, o hidrolisado) passa por um processo de filtração que remove praticamente toda a lactose, sendo frequentemente bem tolerado por indivíduos com intolerância leve ou moderada. Entretanto, pessoas com intolerância mais intensa devem avaliar a tolerância individual e, se necessário, optar por suplementos isentos de lactose ou utilizar lactase conforme orientação profissional (Heyman, 2006; Lomer; Parkes; Sanderson, 2008).

Situação bastante diferente é a alergia às proteínas do leite de vaca (APLV). Trata-se de uma reação do sistema imunológico contra proteínas do leite, como a beta-lactoglobulina, a alfa-lactoalbumina e a caseína. Mesmo pequenas quantidades dessas proteínas podem desencadear urticária, inchaço, vômitos, chiado no peito e, nos casos mais graves, anafilaxia, uma reação potencialmente fatal.

Como o whey protein é obtido justamente do soro do leite e contém essas proteínas, nenhuma de suas apresentações (concentrado, isolado ou hidrolisado) é considerada segura para pessoas com alergia às proteínas do leite. Nesses casos, a recomendação é evitar completamente esses produtos e buscar alternativas apropriadas com orientação médica e nutricional (Fiocchi et al., 2010; Venter et al., 2023).

 

Existe um “whey vegano”?

Na realidade, o termo “whey vegano” não é tecnicamente correto. A palavra whey significa soro do leite, portanto, por definição, todo whey protein é de origem animal. Os produtos comercializados como “whey vegano” são, na verdade, misturas de proteínas vegetais, geralmente obtidas da ervilha, arroz, soja, grão-de-bico, semente de abóbora ou outras fontes vegetais. A estratégia de combinar diferentes proteínas busca oferecer um perfil de aminoácidos mais completo e aproximar sua qualidade nutricional daquela das proteínas do leite.

Quando formuladas adequadamente e consumidas em quantidade suficiente, essas proteínas vegetais podem contribuir para o ganho e a manutenção da massa muscular. No entanto, de forma geral, apresentam menor teor de leucina, aminoácido fundamental para estimular a síntese de proteínas musculares, além de digestibilidade ligeiramente inferior ao whey protein. Por esse motivo, alguns estudos sugerem que pessoas que utilizam proteínas vegetais como principal fonte suplementar podem necessitar de uma quantidade um pouco maior de proteína total para obter respostas semelhantes às observadas com o whey. Apesar disso, quando a ingestão diária de proteínas é adequada e associada ao treinamento de força, as diferenças práticas tendem a ser pequenas para a maioria das pessoas (Jäger et al., 2019; van Vliet; Burd; van Loon, 2015).

Assim, para indivíduos vegetarianos estritos (veganos), com alergia às proteínas do leite ou por preferência pessoal, os suplementos de proteínas vegetais representam uma excelente alternativa. Eles não são inferiores por definição, mas também não são exatamente equivalentes ao whey protein em composição e propriedades. O aspecto mais importante continua sendo atingir a quantidade diária recomendada de proteínas de boa qualidade, dentro de uma alimentação equilibrada.

 

Resumo Prático

O que sabemos sobre a segurança

✔ Não causa doença renal em pessoas com rins saudáveis.

✔ Não há evidências de dano hepático em indivíduos saudáveis.

✔ Não aumenta o risco de osteoporose.

✔ Pode agravar a acne em pessoas predispostas.

✔ É contraindicado para pessoas com alergia às proteínas do leite.

✔ Para veganos e para os alérgicos e intolerantes aos produtos do leite, o assim chamado “whey vegano” pode ser uma boa alternativa.

 

Quais são os efeitos colaterais mais comuns?

Na maioria das pessoas, o whey protein é muito bem tolerado.

Os efeitos adversos mais frequentes são digestivos:

  • sensação de estufamento;
  • gases;
  • desconforto abdominal;
  • diarreia.

Esses sintomas costumam ocorrer principalmente com o whey concentrado, que contém maior quantidade de lactose.

Pessoas com intolerância à lactose geralmente toleram melhor o whey isolado, que contém quantidades muito pequenas desse açúcar.

Já indivíduos com alergia às proteínas do leite não devem utilizar nenhuma forma de whey protein.

 

Quem realmente pode se beneficiar?

Embora seja frequentemente associado à musculação, o whey protein pode ser útil em diversas situações.

Entre elas:

  • atletas;
  • praticantes de treinamento de força;
  • idosos com risco de sarcopenia;
  • pessoas em processo de emagrecimento que necessitam preservar massa muscular;
  • indivíduos com baixa ingestão proteica;
  • pacientes em recuperação nutricional, quando indicado por profissionais de saúde.

Por outro lado, pessoas que já atingem facilmente suas necessidades diárias de proteínas por meio da alimentação provavelmente terão pouco benefício adicional com a suplementação.

 

Quanto devo tomar?

Essa é uma das perguntas mais frequentes.

A resposta depende muito mais da necessidade diária de proteínas do que do suplemento em si.

As recomendações atuais sugerem aproximadamente:

  • Adultos sedentários: cerca de 0,8 g de proteína/kg/dia.
  • Praticantes de atividade física: entre 1,2 e 2,0 g/kg/dia.
  • Treinamento intenso para hipertrofia: geralmente entre 1,6 e 2,2 g/kg/dia.
  • Idosos: frequentemente 1,0 a 1,2 g/kg/dia, podendo chegar a 1,5 g/kg/dia em situações de doença ou maior risco de perda muscular (Jäger et al., 2017; Devries; Phillips, 2015).

O whey protein é apenas uma forma prática de ajudar a atingir essas metas.

Uma porção fornece, em média, 20 a 30 gramas de proteína, quantidade suficiente para estimular significativamente a síntese proteica muscular na maioria dos adultos.

 

Existe um horário ideal?

Durante muitos anos acreditou-se que existia uma “janela anabólica” extremamente curta após o exercício. Hoje a visão é mais equilibrada.

Consumir proteína nas horas próximas ao treino pode ser vantajoso, mas o fator mais importante continua sendo a ingestão total de proteínas distribuída ao longo do dia (Morton et al., 2018).

Em outras palavras, para a maioria das pessoas, preocupar-se em atingir a quantidade diária adequada é mais importante do que ingerir whey imediatamente após o exercício.

 

Resumo Prático

Como utilizar

✔ Uma dose geralmente fornece 20–30 g de proteína.

✔ O mais importante é atingir a necessidade diária.

✔ Distribuir proteínas ao longo do dia parece ser mais relevante do que um horário específico.

✔ O suplemento não substitui refeições equilibradas.

 

Existe relação com a microbiota intestinal?

Nos últimos anos, pesquisadores passaram a investigar se diferentes proteínas alimentares poderiam influenciar a composição da microbiota intestinal.

Os resultados sugerem que o whey protein pode aumentar a produção de alguns peptídeos bioativos e favorecer discretamente o crescimento de determinadas bactérias potencialmente benéficas. No entanto, os estudos em humanos ainda apresentam resultados heterogêneos e não permitem concluir que o whey protein, isoladamente, melhore de forma consistente a saúde da microbiota (Smith-Ryan et al., 2020).

Portanto, não há evidências suficientes para recomendar o whey protein com o objetivo específico de “equilibrar o intestino”.

Uma alimentação rica em fibras, frutas, verduras, legumes e alimentos minimamente processados continua sendo muito mais importante para a saúde intestinal.

 

O que há de novo na ciência?

As pesquisas sobre whey protein continuam evoluindo. Algumas áreas de maior interesse incluem:

Envelhecimento saudável

Estudos recentes mostram que o consumo adequado de proteínas, associado ao treinamento de força, pode ajudar a retardar a perda de massa muscular relacionada ao envelhecimento (sarcopenia), melhorando força, equilíbrio e independência funcional.

 

Emagrecimento

O whey protein pode aumentar a saciedade e contribuir para a preservação da massa muscular durante dietas de perda de peso. Entretanto, ele não emagrece sozinho. Seus benefícios aparecem quando integrado a um plano alimentar com déficit calórico e atividade física.

 

Diabetes tipo 2

Pesquisas sugerem que o consumo de whey protein imediatamente antes de refeições pode reduzir o pico glicêmico em alguns pacientes com diabetes tipo 2, provavelmente por estimular hormônios intestinais, como o GLP-1, e aumentar a secreção de insulina. Embora os resultados sejam promissores, essa estratégia ainda deve ser individualizada e não substitui o tratamento convencional (Jakubowicz et al., 2014; Nilsson et al., 2004).

 

Exageros que circulam nas redes sociais

Algumas afirmações são repetidas com tanta frequência que acabam parecendo verdade.

Entre elas:

  • “Quanto mais proteína, maior o ganho muscular.”
  • “Whey substitui refeições completas.”
  • “É indispensável para qualquer pessoa que frequente academia.”
  • “O hidrolisado é muito superior aos outros tipos.”
  • “Sem whey não há hipertrofia.”

Nenhuma dessas afirmações é sustentada pelas melhores evidências científicas.

O whey protein é um suplemento útil, mas continua sendo apenas isso: um complemento da alimentação, e não um substituto de hábitos saudáveis.

 

Conclusão

O whey protein é, provavelmente, o suplemento nutricional mais estudado da atualidade. As evidências científicas mostram que ele pode facilitar o alcance das necessidades diárias de proteínas, favorecer o ganho de massa muscular quando associado ao treinamento de força e contribuir para a preservação da musculatura durante o envelhecimento ou o emagrecimento.

Ao mesmo tempo, muitas promessas atribuídas ao suplemento são exageradas. O whey protein não substitui uma alimentação equilibrada, não produz resultados sem exercício físico e não é indispensável para todas as pessoas.

Também não existem evidências de que cause danos aos rins, ao fígado ou aos ossos em indivíduos saudáveis quando consumido de forma adequada.

Como acontece com qualquer suplemento, seu uso deve considerar os objetivos, o estado de saúde e a alimentação de cada indivíduo. Quando bem indicado, ele pode ser uma ferramenta prática e segura. Mas seu verdadeiro benefício depende muito mais do contexto em que é utilizado do que do produto em si.

 

Resumo Final

✔ O que é?
Proteína de alto valor biológico obtida do soro do leite.

✔ Funciona?
Sim. Auxilia no ganho e na preservação da massa muscular quando associado ao treinamento e à ingestão adequada de proteínas.

✔ Faz mal aos rins?
Não em pessoas com função renal normal.

✔ Qual a melhor opção?
Para a maioria das pessoas, o whey concentrado oferece excelente relação custo-benefício. O isolado pode ser preferível para indivíduos com intolerância à lactose.

✔ Vale a pena?
Depende. Para quem não consegue atingir as necessidades de proteínas apenas pela alimentação, pode ser uma alternativa prática, segura e cientificamente embasada.

 

Referências

ANTONIO, J. et al. A high protein diet has no harmful effects: a one-year crossover study in resistance-trained males. Journal of Nutrition and Metabolism, v. 2016, Article ID 9104792, 2016.

DEVRIES, M. C.; PHILLIPS, S. M. Supplemental protein in support of muscle mass and health: advantage whey. Journal of Food Science, v. 80, Suppl. 1, p. A8–A15, 2015.

FIOCCHI, A. et al. World Allergy Organization (WAO) Diagnosis and Rationale for Action against Cow’s Milk Allergy (DRACMA) Guidelines. World Allergy Organization Journal, Milwaukee, v. 3, n. 4, p. 57–161, 2010.

HEYMAN, M. B.; COMMITTEE ON NUTRITION. Lactose intolerance in infants, children, and adolescents. Pediatrics, Elk Grove Village, v. 118, n. 3, p. 1279–1286, 2006.

JÄGER, R. et al. International Society of Sports Nutrition Position Stand: protein and exercise. Journal of the International Society of Sports Nutrition, London, v. 14, art. 20, 2017.

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COMO GANHAR MASSA MUSCULAR – Por que o Organismo Decide Construí-los – PARTE 4

Por que a hipertrofia é muito mais inteligente do que imaginamos? A resposta pode ser resumida no seguinte princípio, que vale a pena ler e reler:

“Nenhum suplemento faz um músculo crescer. Quem faz isso é o próprio organismo, quando conclui que aquele músculo será necessário.”

 

Uma máquina extraordinariamente econômica

Se perguntarmos a um grupo de pessoas como um músculo aumenta de tamanho, provavelmente ouviremos respostas bastante diferentes.

Alguns dirão que isso acontece porque ingerimos mais proteínas.

Outros atribuirão o crescimento muscular à creatina, aos aminoácidos ou aos chamados “pré-treinos”.

Há ainda quem acredite que determinados hormônios sejam capazes de produzir músculos praticamente sozinhos.

Embora cada uma dessas respostas contenha uma pequena parcela de verdade, nenhuma delas explica o fenômeno principal.

A hipertrofia muscular não começa no prato. Nem no suplemento. Muito menos na farmácia. Ela começa em uma decisão biológica tomada pelo próprio organismo. Pode parecer estranho falar em “decisão”, mas é exatamente isso que acontece.

O corpo humano procura economizar energia o tempo todo. Ao longo de milhões de anos de evolução, sobreviveram os organismos que aprenderam a utilizar seus recursos com eficiência. Construir músculo é um processo extremamente caro do ponto de vista energético. Cada nova fibra muscular exige proteínas, aminoácidos, glicose, oxigênio, minerais, vitaminas, irrigação sanguínea, controle nervoso e manutenção permanente.

Em outras palavras, músculos custam caro. Por isso, o organismo só investe nesse tecido quando percebe que ele será realmente necessário. Esse princípio é conhecido na biologia como adaptação.

Nosso corpo adapta-se continuamente aos desafios que enfrenta. Exemplos incríveis:

  1. Quem vive em grandes altitudes produz mais hemácias.
  2. Quem se expõe ao sol desenvolve bronzeamento.
  3. Quem permanece meses com um braço imobilizado perde músculos.
  4. Quem submete regularmente seus músculos a cargas progressivamente maiores recebe exatamente a adaptação oposta: hipertrofia.

Essa talvez seja a primeira grande lição da fisiologia muscular.

O organismo nunca constrói músculos porque recebeu proteínas. Ele constrói músculos porque passou a precisar deles.

Essa ideia, aparentemente simples, muda completamente a forma de enxergar suplementos alimentares e dietas hiperproteicas.

 

O treinamento é o verdadeiro ponto de partida

Quando realizamos um exercício de força — seja levantando pesos, utilizando elásticos ou o próprio peso corporal — as fibras musculares sofrem uma pequena deformação mecânica.

Essa deformação não representa uma lesão importante, como muitas vezes se imaginou no passado. Hoje sabemos que ela funciona principalmente como um estímulo biológico.

Proteínas localizadas na membrana das fibras musculares atuam como verdadeiros sensores de carga. Elas percebem o aumento da tensão mecânica e convertem esse estímulo físico em sinais bioquímicos, processo denominado mecanotransdução (Hornberger, 2011).

É como se o músculo dissesse ao restante do organismo: “Se esse tipo de esforço continuar acontecendo, precisaremos ficar mais fortes.” A partir desse momento inicia-se uma sofisticada cascata de sinalização celular.

Diversas proteínas passam a comunicar-se entre si até ativarem um dos principais reguladores do crescimento muscular: a via mTOR (mammalian Target of Rapamycin), considerada atualmente um dos centros de comando da síntese de proteínas musculares (Bodine et al., 2001; Laplante; Sabatini, 2012).

 

Perceba como esse mecanismo é elegante

A mTOR não “cria músculos”. Ela coordena o processo. Recebe informações sobre disponibilidade de aminoácidos, energia, hormônios, oxigênio e intensidade do treinamento.

Somente quando esse conjunto de sinais indica que o organismo possui condições favoráveis é que aumenta a velocidade de fabricação de novas proteínas musculares.

A proteína ingerida fornece os tijolos. O treinamento fornece o projeto.

A mTOR coordena a construção. Sem projeto, os tijolos permanecem armazenados ou serão utilizados para outras funções do organismo.

 

Muito além dos músculos: o cérebro também participa

Existe outro aspecto fascinante.

Durante muito tempo acreditava-se que a hipertrofia dependia exclusivamente do músculo. Hoje sabemos que o sistema nervoso participa intensamente desse processo.

Nas primeiras semanas de treinamento resistido, boa parte do aumento da força não decorre do crescimento muscular, mas da melhora na comunicação entre cérebro, medula espinhal e fibras musculares (ACSM, 2009).

Em outras palavras, antes mesmo de construir novos músculos, o organismo aprende a utilizar melhor aqueles que já possui.

Essa adaptação neural explica por que iniciantes frequentemente ficam muito mais fortes antes mesmo de apresentarem aumento perceptível da massa muscular.

Também explica por que técnica correta, progressão gradual de cargas e acompanhamento profissional são tão importantes. Treinar não significa simplesmente mover pesos. Significa ensinar o sistema nervoso e o músculo a trabalharem em perfeita sintonia.

 

Continua na parte 5…

Na próxima parte entraremos em um dos assuntos mais interessantes de toda a série:

  • por que o descanso é tão importante quanto o treino;
  • por que dormir pouco dificulta a hipertrofia;
  • o papel da leucina e dos aminoácidos essenciais;
  • por que excesso de proteína não significa excesso de músculos;
  • como o organismo “desliga” a síntese proteica após certo limite;
  • o conceito de resistência anabólica, fundamental para compreender o envelhecimento e a sarcopenia.

COMO GANHAR MASSA MUSCULAR – Cuidado com falsos atalhos – PARTE 3  

 

Vivemos em uma época fascinante. Nunca houve tanto conhecimento científico disponível sobre fisiologia muscular e, paradoxalmente, nunca circularam tantas promessas de resultados rápidos.

É comum encontrar anúncios que prometem “ganhar cinco quilos de músculos em um mês”, “ativar o metabolismo anabólico”, “despertar genes do crescimento muscular” ou “substituir anos de treinamento por protocolos inovadores”. Embora essas mensagens sejam sedutoras, elas desconsideram um princípio básico da biologia: o organismo humano é extraordinariamente econômico.

 

Como o corpo constrói músculo

Construir músculo custa caro do ponto de vista metabólico. Cada fibra muscular adicional exige energia para ser produzida, irrigada, inervada e mantida ao longo da vida. Por essa razão, o organismo somente aumenta sua musculatura quando percebe que isso representa uma vantagem adaptativa.

É justamente essa lógica que explica por que suplementos, hormônios ou dietas isoladas não conseguem produzir hipertrofia significativa na ausência de um estímulo mecânico adequado. Os aminoácidos fornecem matéria-prima; a creatina melhora a disponibilidade energética para esforços de alta intensidade; uma alimentação equilibrada favorece a recuperação. Entretanto, quem “autoriza” a construção de novas proteínas musculares continua sendo o treinamento resistido associado ao adequado período de recuperação (Jäger et al., 2017).

Essa visão fisiológica também ajuda a compreender por que a hipertrofia ocorre lentamente. Diferentemente do tecido adiposo, que pode acumular energia em poucos dias, o músculo precisa remodelar milhares de proteínas estruturais, reorganizar vasos sanguíneos, fortalecer tendões, adaptar o sistema nervoso e aumentar sua capacidade metabólica. É um processo complexo, gradual e biologicamente caro.

Talvez a maior virtude desse mecanismo seja justamente impedir que o organismo desperdice recursos construindo um tecido que não será utilizado. Em fisiologia, não existem atalhos; existem adaptações.

 

Como acompanhar o ganho de massa muscular?

Outra consequência da popularização da musculação foi o aumento do interesse pelos exames de composição corporal. Entretanto, é importante compreender que nenhum método é perfeito, e todos devem ser interpretados dentro do contexto clínico.

Atualmente, a absorciometria por dupla emissão de raios X (DEXA ou DXA) é considerada um dos métodos de referência para avaliação da composição corporal, permitindo estimar com boa precisão a massa óssea, a massa gorda e a massa magra regional. Além de sua elevada reprodutibilidade, o DEXA apresenta excelente utilidade clínica no acompanhamento da sarcopenia e na avaliação longitudinal da composição corporal. Entretanto, não mede diretamente a qualidade muscular nem distingue adequadamente a infiltração gordurosa no interior do músculo, além de ser menos acessível e envolver pequena exposição à radiação ionizante (Maeda et al., 2022; Slart et al., 2025).

A bioimpedância elétrica (BIA) tornou-se extremamente popular por ser rápida, indolor e relativamente barata. Quando realizada em condições padronizadas e utilizando equipamentos validados, representa excelente ferramenta para acompanhamento clínico. Entretanto, seus resultados podem variar significativamente conforme o estado de hidratação, ingestão alimentar, exercício físico recente, temperatura ambiente e até o equipamento utilizado. Assim, pequenas diferenças entre exames sucessivos nem sempre representam verdadeiro ganho ou perda de músculo (EWGSOP2; Maeda et al., 2022).

A plicometria, baseada na medida das dobras cutâneas, continua tendo utilidade em consultórios e academias, especialmente quando realizada por avaliadores experientes. Embora seja menos precisa para estimar massa muscular, pode fornecer informações úteis sobre a evolução da gordura corporal e do estado nutricional, sobretudo quando recursos mais sofisticados não estão disponíveis (Maeda et al., 2022).

Mais importante do que escolher o exame mais sofisticado é compreender que nenhum deles substitui a avaliação clínica. A evolução da força muscular, do desempenho funcional, da disposição física, da circunferência muscular e do contexto clínico do paciente continua sendo indispensável para interpretar corretamente qualquer resultado.

 

Hipertrofia saudável: um projeto de longo prazo

Talvez a principal mensagem deste capítulo seja que ganhar massa muscular não significa apenas aumentar o volume dos músculos.

O verdadeiro objetivo é construir um organismo mais resistente, mais funcional e metabolicamente mais saudável.

Esse processo exige regularidade, paciência e respeito à fisiologia. Não depende apenas de proteínas, suplementos ou equipamentos sofisticados. Depende, sobretudo, da interação entre treinamento adequado, alimentação equilibrada, recuperação suficiente e acompanhamento profissional qualificado.

Em uma época marcada por soluções instantâneas, vale lembrar que o músculo continua obedecendo às mesmas leis biológicas que governaram a evolução humana durante milhões de anos. Ele cresce quando é desafiado. Recupera-se quando recebe os nutrientes necessários.

E se fortalece quando esse ciclo é repetido, semana após semana, mês após mês.Não existem atalhos confiáveis para esse processo. Mas existe uma excelente notícia.

Quando construído de forma gradual, sem exageros nem loucuras, o músculo torna-se um dos investimentos mais valiosos que podemos fazer em nossa saúde.

 

O que devemos guardar deste artigo

✔ Massa magra e massa muscular não são sinônimos.

✔ O músculo é um órgão metabolicamente ativo, com funções endócrinas e imunometabólicas.

✔ Força muscular é um dos melhores indicadores de envelhecimento saudável.

✔ A sarcopenia é uma doença reconhecida internacionalmente e pode ser prevenida ou retardada.

✔ A hipertrofia depende do treinamento, da alimentação, da recuperação e da continuidade.

✔ Proteínas fornecem a matéria-prima; o treinamento fornece o estímulo biológico.

✔ Não existem atalhos fisiológicos capazes de substituir esses princípios.

 

Referências (ABNT)

BODINE, S. C. et al. Akt/mTOR pathway is a crucial regulator of skeletal muscle hypertrophy and can prevent muscle atrophy in vivo. Nature Cell Biology, v. 3, n. 11, p. 1014-1019, 2001.

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DENT, E. et al. International Clinical Practice Guidelines for Sarcopenia (ICFSR): screening, diagnosis and management. Journal of Nutrition, Health & Aging, v. 22, p. 1148-1161, 2018.

HEYMSFIELD, S. B. et al. Multi-component molecular-level body composition reference methods: evolving concepts and future directions. Obesity Reviews, v. 16, n. 4, p. 282-294, 2015.

JÄGER, R. et al. International Society of Sports Nutrition Position Stand: protein and exercise. Journal of the International Society of Sports Nutrition, v. 14, art. 20, 2017.

MAEDA, S. S. et al. Official position of the Brazilian Association of Bone Assessment and Metabolism (ABRASSO) on the evaluation of body composition by densitometry: Part I – Technical aspects, general concepts, indications, acquisition and analysis. Advances in Rheumatology, v. 62, art. 7, 2022.

PEDERSEN, B. K.; FEBBRAIO, M. A. Muscles, exercise and obesity: skeletal muscle as a secretory organ. Nature Reviews Endocrinology, v. 8, n. 8, p. 457-465, 2012.

RUIZ, J. R. et al. Association between muscular strength and mortality in men: prospective cohort study. BMJ, v. 337, a439, 2008.

SLART, R. H. J. A. et al. Updated practice guideline for dual-energy X-ray absorptiometry (DXA). European Journal of Nuclear Medicine and Molecular Imaging, v. 52, p. 539-563, 2025.

COMO GANHAR MASSA MUSCULAR – Força muscular: um dos melhores indicadores de longevidade – PARTE 2

 

 Imagine dois homens de 70 anos. Ambos têm o mesmo peso, altura e índice de massa corporal. Os exames laboratoriais são semelhantes, a pressão arterial está controlada e nenhum deles apresenta doença grave aparente.

Um deles, entretanto, levanta-se da cadeira com facilidade, sobe escadas sem dificuldade, carrega as compras do supermercado e pratica musculação duas ou três vezes por semana. O outro precisa apoiar-se nos braços para se levantar, caminha lentamente e evita qualquer esforço físico.

À primeira vista, poderíamos imaginar que a diferença entre eles é apenas funcional. A ciência mostra que ela é muito maior e embora abranja o metabolismo como um todo começa pela FORÇA MUSCULAR. 

 

Força muscular

Hoje sabemos que a força muscular é um dos mais consistentes marcadores de saúde e de expectativa de vida. Diversos estudos de coorte demonstraram que indivíduos com menor força apresentam maior risco de hospitalizações, perda da independência, incapacidade funcional e mortalidade por todas as causas, mesmo após o ajuste para idade, obesidade, tabagismo e outras doenças (Cruz-Jentoft et al., 2019; Ruiz et al., 2008).

Essa associação é tão consistente que muitos especialistas passaram a considerar a força muscular uma espécie de “sinal vital” do envelhecimento saudável.

Naturalmente, isso não significa que músculos fortes sejam uma garantia contra doenças. O que os estudos sugerem é que uma boa capacidade muscular reflete um organismo mais resiliente, capaz de responder melhor aos desafios impostos pelo envelhecimento, por infecções, cirurgias e períodos de hospitalização.

Em outras palavras, o músculo funciona como uma reserva biológica. Quanto maior sua qualidade funcional, maior tende a ser a capacidade do organismo de enfrentar situações de estresse.

Essa talvez seja uma das razões pelas quais a musculação deixou de ser recomendada apenas para atletas e passou a integrar praticamente todas as diretrizes internacionais de promoção da saúde.

 

Sarcopenia: a epidemia silenciosa do envelhecimento

Quando pensamos em doenças associadas ao envelhecimento, normalmente lembramos da hipertensão arterial, do diabetes, da osteoporose ou da doença de Alzheimer. Entretanto, existe outra condição que cresce silenciosamente em praticamente todos os países: a sarcopenia.

Durante muito tempo, acreditou-se que a perda de massa muscular fosse apenas uma consequência inevitável da idade. Hoje sabemos que ela constitui uma doença reconhecida internacionalmente, com critérios diagnósticos próprios e importantes repercussões clínicas (Cruz-Jentoft et al., 2019).

A sarcopenia caracteriza-se pela redução progressiva da força muscular, acompanhada de diminuição da quantidade e da qualidade do tecido muscular. Seus efeitos vão muito além da dificuldade para caminhar ou levantar objetos. Pessoas com sarcopenia apresentam maior risco de quedas, fraturas, internações, dependência funcional e morte precoce.

Além disso, a perda muscular compromete profundamente o metabolismo. Como o músculo é o principal local de captação de glicose estimulada pela insulina, sua redução favorece o desenvolvimento de resistência insulínica e diabetes tipo 2. A diminuição da massa muscular também reduz o gasto energético basal, facilitando o ganho de gordura corporal e agravando a síndrome metabólica (Pedersen; Febbraio, 2012).

O aspecto mais preocupante é que a sarcopenia costuma instalar-se lentamente. A partir da quinta década de vida, indivíduos sedentários podem perder cerca de 3% a 8% da massa muscular por década, processo que tende a acelerar após os 60 anos. Embora exista grande variabilidade entre as pessoas, o sedentarismo, a ingestão insuficiente de proteínas, doenças crônicas e períodos prolongados de imobilização contribuem significativamente para essa perda (Cruz-Jentoft et al., 2019).

Felizmente, essa trajetória não é inevitável. A prática regular de treinamento resistido, associada a uma alimentação adequada, constitui atualmente a intervenção mais eficaz para preservar força e função muscular ao longo do envelhecimento.

 

O músculo não cresce porque recebe proteínas; cresce porque precisa adaptar-se

Talvez nenhuma ideia seja tão difundida — e ao mesmo tempo tão equivocada — quanto a de que basta consumir grandes quantidades de proteína para ganhar músculos.

Se isso fosse verdade, bastaria aumentar continuamente a ingestão de carnes, ovos ou suplementos proteicos para construir um físico atlético. Mas a fisiologia humana é muito mais sofisticada.

O organismo não investe energia na construção de tecido muscular simplesmente porque recebeu aminoácidos. Ele só aumenta sua musculatura quando percebe que ela será necessária. É exatamente nesse ponto que entra o treinamento resistido.

Cada vez que um músculo é submetido a uma carga suficientemente intensa, ocorre uma pequena deformação mecânica das fibras musculares. Esse estímulo é percebido por estruturas especializadas capazes de converter força mecânica em sinais bioquímicos, processo conhecido como mecanotransdução.

Esses sinais ativam diversas vias celulares envolvidas na adaptação muscular, sendo a mais conhecida a via da proteína mTOR (mammalian Target of Rapamycin), considerada um dos principais reguladores da síntese proteica muscular (Bodine et al., 2001).

Em resposta ao treinamento, o organismo aumenta temporariamente a velocidade com que produz novas proteínas musculares. Se houver disponibilidade adequada de energia, aminoácidos, recuperação suficiente e repetição periódica desse estímulo, ocorre gradualmente a hipertrofia.

Observe, portanto, que a proteína exerce um papel indispensável, mas secundário. Ela fornece a matéria-prima. Quem determina se essa matéria-prima será utilizada é o estímulo promovido pelo exercício.

Uma analogia ajuda a compreender esse processo. Imagine uma equipe de pedreiros diante de um depósito repleto de tijolos. Os tijolos representam os aminoácidos provenientes da alimentação. Entretanto, nenhum prédio será construído apenas porque o depósito está cheio. É necessário que exista um projeto de construção.

Na hipertrofia muscular, esse projeto é elaborado pelo treinamento. Sem treinamento, há matéria-prima. Com treinamento adequado, existe motivo para construir.

É por isso que indivíduos sedentários dificilmente obtêm ganhos expressivos de massa muscular apenas aumentando o consumo de proteínas ou suplementos. O músculo cresce porque precisa adaptar-se ao trabalho que lhe foi imposto.

Essa talvez seja a principal mensagem desta parte do artigo. Antes de pensar em suplementos, precisamos compreender a extraordinária inteligência fisiológica do organismo humano.

Continua…

REFERÊNCIAS EM “COMO GANHAR MASSA MUSCULAR – Cuidado com falsos atalhos – VERSÃO APROFUNDADA – PARTE 3 “

COMO GANHAR MASSA MUSCULAR – Construindo músculos, preservando a saúde e evitando os modismos – PARTE 1

 

Pense nisso: “Na medicina, quase sempre as soluções mais duradouras são também as menos espetaculares.”

Muito Além da Estética: Por que a Massa Muscular se Tornou um dos Maiores Indicadores de Saúde

Construir músculos não significa apenas mudar a aparência do corpo. Significa aumentar a reserva funcional do organismo para enfrentar o envelhecimento, as doenças e os desafios da vida.

 

A nova corrida pela massa muscular

Nas últimas décadas, poucas áreas da medicina preventiva evoluíram tanto quanto o conhecimento sobre o músculo esquelético. Durante muito tempo, ele foi visto apenas como a estrutura responsável pelos movimentos do corpo. Hoje sabemos que essa visão era extremamente limitada.

O interesse crescente pela massa muscular não nasceu apenas das academias ou das redes sociais. Ele surgiu, sobretudo, dos laboratórios de pesquisa. À medida que a expectativa de vida aumentou em praticamente todo o mundo, médicos e pesquisadores passaram a observar um fenômeno intrigante: pessoas que envelheciam preservando força e musculatura apresentavam menor risco de hospitalizações, quedas, fraturas, incapacidade funcional e morte precoce (Cruz-Jentoft et al., 2019; Dent et al., 2018).

Essa constatação mudou profundamente a maneira como a medicina passou a enxergar o músculo.

Hoje compreendemos que ele constitui muito mais do que um tecido responsável pela locomoção. Trata-se de um órgão metabolicamente ativo, capaz de influenciar o funcionamento de praticamente todo o organismo (Pedersen; Febbraio, 2012).

Em outras palavras, preservar músculos passou a ser considerado um investimento em saúde, e não apenas em estética.

 

Quando a ciência encontra o mercado

Infelizmente, sempre que um tema científico desperta grande interesse da população, surge também um mercado disposto a oferecer soluções rápidas.

Foi exatamente isso que aconteceu com a hipertrofia muscular.

Nos últimos anos, multiplicaram-se cursos, protocolos, fórmulas manipuladas, suplementos, “moduladores hormonais”, pré-treinos, soros intravenosos, dietas extremas e programas que prometem resultados extraordinários em poucas semanas.

Algumas dessas estratégias possuem respaldo científico. Muitas outras não.

É importante compreender que a própria existência de um suplemento não significa que ele seja necessário. Da mesma forma, o fato de um alimento ser saudável não autoriza seu consumo em quantidades ilimitadas. Na fisiologia humana, excesso nem sempre significa benefício. Frequentemente, significa apenas desperdício ou, em algumas situações, aumento do risco de efeitos adversos (Jäger et al., 2017).

Por isso, antes de discutir proteínas, creatina, testosterona ou qualquer outro recurso, precisamos responder a uma pergunta muito mais importante:

 

Por que o músculo é tão importante para a saúde?

Massa magra e massa muscular: conceitos que costumam ser confundidos

Uma das expressões mais repetidas atualmente é “ganhar massa magra”. Entretanto, esse termo costuma ser empregado de forma imprecisa.

Embora relacionados, massa magra e massa muscular não são sinônimos.

A massa magra corresponde a todos os componentes do organismo que não pertencem ao tecido adiposo. Nela estão incluídos os músculos esqueléticos, mas também os ossos, os órgãos internos, a pele, os vasos sanguíneos e grande parte da água corporal (Heymsfield et al., 2015).

Já a massa muscular representa especificamente os músculos esqueléticos, responsáveis pelos movimentos voluntários, pela postura, pela produção de força e por uma série de funções metabólicas que somente recentemente começaram a ser plenamente compreendidas. Essa diferença não é apenas acadêmica.

Imagine duas pessoas que perderam cinco quilogramas de gordura corporal. Ambas podem apresentar aumento proporcional da massa magra simplesmente porque diminuíram a quantidade de gordura no organismo. Isso não significa, necessariamente, que tenham construído novos músculos.

Da mesma forma, um indivíduo pode apresentar aumento da massa magra após iniciar um programa de treinamento apenas por maior retenção de água dentro das fibras musculares, fenômeno fisiológico comum nas primeiras semanas de exercício. Embora faça parte do processo de adaptação, isso ainda não corresponde à hipertrofia propriamente dita (Heymsfield et al., 2015).

Essa distinção explica por que exames de composição corporal devem sempre ser interpretados com cautela e por profissionais habilitados.

 

O músculo: um órgão que conversa com todo o organismo

Talvez uma das descobertas mais fascinantes da fisiologia moderna seja o reconhecimento de que os músculos funcionam como um verdadeiro órgão endócrino.

Até pouco tempo acreditava-se que apenas glândulas, como a tireoide ou o pâncreas, produziam substâncias capazes de enviar sinais para outros órgãos. Hoje sabemos que, durante a contração muscular, centenas de moléculas biologicamente ativas são liberadas na circulação. Essas substâncias receberam o nome de mioquinas (Pedersen; Febbraio, 2012).

As mioquinas participam da comunicação entre músculos, cérebro, fígado, tecido adiposo, ossos e sistema imunológico, regulando processos relacionados ao metabolismo da glicose, ao controle da inflamação, à utilização de gorduras como fonte de energia e até à plasticidade cerebral.

Esse conhecimento ajuda a explicar por que indivíduos fisicamente ativos apresentam menor risco de desenvolver diversas doenças crônicas, como diabetes tipo 2, síndrome metabólica e fragilidade física. Evidentemente, esses benefícios resultam da combinação entre exercício, alimentação equilibrada, controle do peso corporal e outros hábitos saudáveis. Ainda assim, o músculo desempenha papel central nesse processo (Pedersen; Febbraio, 2012; Cruz-Jentoft et al., 2019).

Talvez seja essa a maior mudança de paradigma das últimas décadas: hoje sabemos que fortalecer músculos significa fortalecer muito mais do que a capacidade de levantar pesos. Significa fortalecer um dos principais sistemas reguladores do metabolismo humano.

 

Muito mais importante do que músculos grandes: músculos funcionais

Existe outro conceito que merece destaque. Durante muitos anos, acreditou-se que bastava medir a quantidade de músculo para avaliar sua importância clínica. Atualmente, sabemos que isso é insuficiente.

Dois indivíduos podem apresentar volumes musculares semelhantes e, ainda assim, possuir capacidades físicas completamente diferentes.

Isso acontece porque o desempenho muscular depende não apenas da quantidade de tecido, mas também da sua qualidade.

Com o envelhecimento, o sedentarismo e algumas doenças crônicas, ocorre infiltração progressiva de gordura e tecido conjuntivo entre as fibras musculares, reduzindo sua eficiência mecânica. Esse processo, conhecido como miosteatose, pode comprometer significativamente a força e a funcionalidade mesmo quando o volume muscular parece preservado (Cruz-Jentoft et al., 2019).

Por essa razão, o consenso europeu mais recente sobre sarcopenia propôs uma mudança importante: atualmente, considera-se que a força muscular é o principal marcador clínico da doença, enquanto a redução da massa muscular confirma o diagnóstico e a limitação do desempenho físico determina sua gravidade (Cruz-Jentoft et al., 2019).

Essa mudança tem profundas implicações práticas.O verdadeiro objetivo da hipertrofia não deve ser apenas aumentar centímetros de circunferência ou melhorar resultados na bioimpedância. O objetivo deve ser construir uma musculatura forte, funcional, metabolicamente ativa e capaz de preservar autonomia e qualidade de vida ao longo das décadas.

Essa será a base sobre a qual construiremos todos os próximos artigos desta série.

(Continua…)

REFERÊNCIAS EM “COMO GANHAR MASSA MUSCULAR – Cuidado com falsos atalhos – PARTE 3 “

“DIETA DA PROTEÍNA” – EMAGRECE OU INFLAMA?

Dr Daniel S F Boarim – Diretor médico da Lapinha SPA

 

Uma dúvida recorrente: Entre os pesquisadores de nutrição, é ponto pacífico que o balanço das proteínas na dieta é essencial à manutenção ou ganho de massa muscular, mantendo o metabolismo e a composição corporal equilibrados. Também sabemos que dietas mais ricas em proteínas ajudam a promover a saciedade, podendo apoiar o emagrecimento. Porém – e aqui mora o paradoxo – estudos recentes apontam para um efeito inflamatório de dietas abundantes em proteínas, especialmente provenientes de fontes animais. Essas dietas tendem a desequilibrar a microbiota e criar um ambiente propício ao desenvolvimento de doenças crônicas. E aí? Como conciliar isso?

 

PROTEÍNAS PODEM SER PRÓ-INFLAMATÓRIAS?

 

Estudos atuais vêm revelando que dietas ricas em proteínas, especialmente aquelas ricas em alimentos de fontes animais, podem exacerbar a inflamação, atrelada à disbiose (desequilíbrio da microbiota do intestino) e ao risco de doenças crônicas. Um desses estudos descobriu que uma dieta abundante em proteínas (perfazendo 30% de energia) aumentou os marcadores de inflamação em indivíduos obesos em comparação com uma dieta adequada em proteínas, com 15% do VET (valor energético total). [1] Da mesma forma, outros estudos demonstraram que dietas ricas em proteína animal podem promover respostas pró-inflamatórias de macrófagos, exacerbando a colite.[2]

 

TIPO DE PROTEÍNA

 

O tipo de proteína também desempenha um papel significativo. As proteínas animais, especialmente as provenientes da carne, têm sido associadas ao aumento de marcadores inflamatórios, enquanto as proteínas vegetais não parecem ter o mesmo efeito.[1][3]. Por exemplo, um estudo comparando diferentes fontes de proteína descobriu que a proteína do soro de leite teve uma resposta inflamatória pós-prandial menor em comparação com as proteínas do bacalhau e da caseína.[4]

 

DIETAS DE PROTEÍNA ALTERAM A MICROBIOTA?

 

Além disso, dietas ricas em proteínas a longo prazo podem alterar a microbiota intestinal, aumentar a permeabilidade intestinal e levar à inflamação sistêmica.[5] Isto é particularmente preocupante no contexto de dietas ricas em gordura, onde a combinação de alto teor de proteína e alto teor de gordura pode agravar ainda mais as respostas inflamatórias.[6-7]

 

PROTEÍNAS PROMOVEM A SACIEDADE?

 

Por outro lado, foi demonstrado que dietas ricas em proteínas promovem a saciedade e por tabela reduzem a ingestão calórica, o que pode ajudar no controle de peso. Isso se deve aos efeitos combinados de níveis elevados de aminoácidos plasmáticos, aumento das concentrações de hormônios anorexígenos e aumento da termogênese induzida pela dieta.[8-9] Além disso, dietas ricas em proteínas podem ajudar a preservar a massa livre de gordura durante a perda de peso, o que, no longo prazo, é crucial para manter o gasto energético basal.[10]

 

DIETAS PLANT BASED

 

A fonte e a qualidade da proteína também desempenham papéis significativos. Aqui, mais uma novidade que fala a favor da plant based diet e dieta DASH: Observou-se que a proteína do soro de leite e as proteínas vegetais exercem efeitos favoráveis ​​na composição corporal e nos parâmetros metabólicos, reduzindo potencialmente o risco de desenvolver obesidade.[11] Veja bem, proteínas vegetais! Demonstrou-se também que aminoácidos específicos, como aminoácidos de cadeia ramificada (BCAAs), metionina e triptofano, influenciam positivamente os parâmetros relacionados à obesidade, embora a maioria das evidências venha de estudos em cobaias de laboratório.[12]

 

DIETA LOW CARB

 

Há uma hipótese, que acabou sendo distorcida a ponto de se tornar um modismo pernicioso, da assim chamada “alavancagem proteica”, que deu à luz as dietas “low carb”. Essa hipótese sugere que dietas pobres em proteínas podem aumentar a ingestão de energia total, incluindo carboidratos, e assim contribuindo para a obesidade. E, até certo ponto, há dados que a apoiam, mostrando que uma maior ingestão de proteínas está associada a uma menor ingestão total de energia, independentemente do teor de carboidratos ou gordura da dieta. [4-5]. Porém, isso está longe de abonar um plano alimentar exagerado em proteínas animais ou “livre” de carboidratos. É preciso lembrar que os carboidratos “do bem” vêm sendo confundidos com os “do mal”, levando à demonização de frutas, raízes e cereais integrais, certamente um desatino que não conta com qualquer respaldo científico.

 

RESUMO

 

Resumindo, as dietas adequadas em proteínas, podendo atingir proporções leve e calculadamente maiores, sem excluir os carboidratos saudáveis, podem ser benéficas para o controle do peso, promovendo a saciedade, preservando a massa magra e reduzindo potencialmente a ingestão global de energia. No entanto, os efeitos no longo prazo e as fontes proteicas devem ser considerados, pois proteína demais, especialmente as de fonte animal, apresenta efeitos inflamatórios, favorecendo o aparecimento de males crônicos. O tipo e a quantidade de proteína devem ser cuidadosamente levados em conta para mitigar essas reações indesejáveis. A solução desse aparente paradoxo se traduz, como sempre, no equilíbrio e no bom-senso. Nem tanto ao mar nem tanto à terra. Nem proteína demais, nem de menos.

 

Referências

 

    1. Lopez-Legarrea P, de la Iglesia R, Abete I, et al. The Protein Type Within a Hypocaloric Diet Affects Obesity-Related Inflammation: The RESMENA Project. Nutrition (Burbank, Los Angeles County, Calif.). 2014;30(4):424-9. doi:10.1016/j.nut.2013.09.009
    2. Kostovcikova K, Coufal S, Galanova N, et al. Diet Rich in Animal Protein Promotes Pro-Inflammatory Macrophage Response and Exacerbates Colitis in Mice. Frontiers in Immunology. 2019;10:919. doi:10.3389/fimmu.2019.00919. Copyright License: CC BY
    3. Markova M, Koelman L, Hornemann S, et al. \Effects of Plant and Animal High Protein Diets on Immune-Inflammatory Biomarkers: A 6-Week Intervention Trial. Clinical Nutrition (Edinburgh, Scotland). 2020;39(3):862-869. doi:10.1016/j.clnu.2019.03.019.
    4. Holmer-Jensen J, Karhu T, Mortensen LS, et al. Differential Effects of Dietary Protein Sources on Postprandial Low-Grade Inflammation After a Single High Fat Meal in Obese Non-Diabetic Subjects. Nutrition Journal. 2011;10:115. doi:10.1186/1475-2891-10-115. Copyright License: CC BY
    5. Snelson M, Clarke RE, Nguyen TV, et al. Long Term High Protein Diet Feeding Alters the Microbiome and Increases Intestinal Permeability, Systemic Inflammation and Kidney Injury in Mice. Molecular Nutrition & Food Research. 2021;65(8):e2000851. doi:10.1002/mnfr.202000851.
    6. Zhang M, Song S, Zhao D, et al. High Intake of Chicken and Pork Proteins Aggravates High-Fat-Diet-Induced Inflammation and Disorder of Hippocampal Glutamatergic System. The Journal of Nutritional Biochemistry. 2020;85:108487. doi:10.1016/j.jnutbio.2020.108487.
    7. Hussain M, Umair Ijaz M, Ahmad MI, et al. Meat Proteins in a High-Fat Diet Have a Substantial Impact on Intestinal Barriers Through Mucus Layer and Tight Junction Protein Suppression in C57bl/6j Mice. Food & Function. 2019;10(10):6903-6914. doi:10.1039/c9fo01760g
    8. Drummen M, Tischmann L, Gatta-Cherifi B, Adam T, Westerterp-Plantenga M. Dietary Protein and Energy Balance in Relation to Obesity and Co-Morbidities. Frontiers in Endocrinology. 2018;9:443. doi:10.3389/fendo.2018.00443. Copyright License: CC BY
    9. Westerterp-Plantenga MS, Lemmens SG, Westerterp KR. Dietary Protein – Its Role in Satiety, Energetics, Weight Loss and Health. The British Journal of Nutrition. 2012;108 Suppl 2:S105-12. doi:10.1017/S0007114512002589.
    10. Simonson M, Boirie Y, Guillet C. Protein, Amino Acids and Obesity Treatment. Reviews in Endocrine & Metabolic Disorders. 2020;21(3):341-353. doi:10.1007/s11154-020-09574-5. Copyright License: CC BY
    11. Gosby AK, Conigrave AD, Raubenheimer D, Simpson SJ.Protein Leverage and Energy Intake. Obesity Reviews : An Official Journal of the International Association for the Study of Obesity. 2014;15(3):183-91. doi:10.1111/obr.12131.
    12. Grech A, Sui Z, Rangan A, et al. Macronutrient (Im)balance Drives Energy Intake in an Obesogenic Food Environment: An Ecological Analysis. Obesity (Silver Spring, Md.). 2022;30(11):2156-2166. doi:10.1002/oby.23578.

 

 

ENGLISH

 

“Protein diet” – Does it help you lose weight or cause inflammation?

 

Dr Daniel S F Boarim, MD, Medical Director of Lapinha SPA

 

A recurring question: Among nutrition researchers, it is common ground that a balanced diet of proteins is essential for maintaining or gaining muscle mass, keeping metabolism and body composition balanced. We also know that diets richer in proteins help promote satiety, which can support weight loss. However – and here lies the paradox – recent studies point to an inflammatory effect of diets rich in proteins, especially those from animal sources. These diets tend to unbalance the microbiota and create an environment conducive to the development of chronic diseases. So what? How can this be reconciled?

 

CAN PROTEINS BE PRO-INFLAMMATORY?

 

Current studies have revealed that diets rich in proteins, especially those rich in foods from animal sources, can exacerbate inflammation, linked to dysbiosis (imbalance of the intestinal microbiota) and the risk of chronic diseases. One such study found that a high-protein diet (making up 30% of energy) increased markers of inflammation in obese individuals compared to a high-protein diet with 15% of total energy value.[1] Similarly, other studies have shown that diets high in animal protein can promote pro-inflammatory macrophage responses, exacerbating colitis.[2]

 

TYPE OF PROTEIN

 

The type of protein also plays a significant role. Animal proteins, especially those from meat, have been associated with increased inflammatory markers, while plant proteins do not appear to have the same effect.[1][3]. For example, a study comparing different protein sources found that whey protein had a lower postprandial inflammatory response compared to cod and casein proteins.[4]

 

DO PROTEIN DIETS ALTER THE MICROBIOTA?

 

Furthermore, long-term high-protein diets can alter the gut microbiota, increase intestinal permeability, and lead to systemic inflammation.[5] This is particularly concerning in the context of high-fat diets, where the combination of high protein and high fat can further exacerbate inflammatory responses.[6-7]

 

DOES PROTEIN PROMOTE SATIETY?

 

On the other hand, high-protein diets have been shown to promote satiety and thereby reduce caloric intake, which may aid in weight management. This is due to the combined effects of elevated plasma amino acid levels, increased concentrations of anorectic hormones, and increased diet-induced thermogenesis.[8-9] Furthermore, high-protein diets may help preserve fat-free mass during weight loss, which in the long term is crucial for maintaining basal energy expenditure.[10]

 

PLANT-BASED DIETS

 

The source and quality of protein also play significant roles. Here’s another piece of news that speaks in favor of the plant-based diet and the DASH diet: Whey protein and plant proteins have been shown to have favorable effects on body composition and metabolic parameters, potentially reducing the risk of developing obesity.[11] Well, plant proteins! Specific amino acids, such as branched-chain amino acids (BCAAs), methionine, and tryptophan, have also been shown to positively influence obesity-related parameters, although most of the evidence comes from studies in laboratory animals.[12]

 

LOW CARB DIET

 

There is a hypothesis, which has ended up being distorted to the point of becoming a pernicious fad, of the so-called “protein leverage,” which gave rise to “low-carb” diets. This hypothesis suggests that low-protein diets can increase total energy intake, including carbohydrates, and thus contribute to obesity. And to some extent, there is data to support this, showing that higher protein intake is associated with lower total energy intake, regardless of the carbohydrate or fat content of the diet. [4-5]. However, this is far from supporting a diet plan that is excessive in animal proteins or “free” of carbohydrates. It is important to remember that “good” carbohydrates have been confused with “bad” carbohydrates, leading to the demonization of fruits, roots and whole grains, which is certainly a nonsense that has no scientific basis.

 

ABSTRACT

 

In summary, diets that are adequate in protein, which can be achieved in slightly higher proportions and that do not exclude healthy carbohydrates, can be beneficial for weight control by promoting satiety, preserving lean mass and potentially reducing overall energy intake. However, long-term effects and protein sources should be considered, as too much protein, especially from animal sources, has inflammatory effects,

 

References

 

  1. Lopez-Legarrea P, de la Iglesia R, Abete I, et al. The Protein Type Within a Hypocaloric Diet Affects Obesity-Related Inflammation: The RESMENA Project. Nutrition (Burbank, Los Angeles County, Calif.). 2014;30(4):424-9. doi:10.1016/j.nut.2013.09.009
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  4. Holmer-Jensen J, Karhu T, Mortensen LS, et al. Differential Effects of Dietary Protein Sources on Postprandial Low-Grade Inflammation After a Single High Fat Meal in Obese Non-Diabetic Subjects. Nutrition Journal. 2011;10:115. doi:10.1186/1475-2891-10-115. Copyright License: CC BY
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