CAFEÍNA: DO CAFEZINHO AO RISCO CARDÍACO – PARTE 2

Exageros midiáticos e o perigo do consumo excessivo de cafeína.

BEBIDAS ENERGÉTICAS

Um dos erros mais comuns na interpretação da literatura científica consiste em considerar café e bebidas energéticas como produtos equivalentes apenas porque ambos contêm cafeína.

Na realidade, existem diferenças importantes.

O café tradicional é uma bebida consumida há séculos, cuja composição inclui centenas de compostos bioativos potencialmente benéficos. Já muitas bebidas energéticas combinam cafeína com açúcar, taurina, guaraná, ginseng, vitaminas do complexo B e outros estimulantes. Além disso, costumam ser consumidas rapidamente, muitas vezes em associação com álcool, atividade física intensa ou privação de sono.

Essas circunstâncias criam um cenário fisiológico completamente diferente daquele observado nos estudos epidemiológicos sobre café.

Nos últimos anos, diversos relatos clínicos e séries de casos documentaram a ocorrência de eventos cardiovasculares graves temporalmente associados ao consumo de energéticos, incluindo taquiarritmias, síndrome coronariana aguda, cardiomiopatia, dissecção de aorta e parada cardiorrespiratória (Enriquez & Halliday, 2024).

É importante destacar que associação temporal não significa necessariamente causalidade. Entretanto, a repetição desses relatos e a plausibilidade biológica dos mecanismos envolvidos justificam cautela, especialmente em indivíduos suscetíveis.

 


ARRITMIAS, INTERVALO QT E RISCO CARDIOVASCULAR

A maior preocupação cardiovascular relacionada ao excesso de cafeína não se refere ao café consumido moderadamente, mas ao uso de doses elevadas e concentradas.

A cafeína pode aumentar a atividade simpática, elevando os níveis circulantes de adrenalina e noradrenalina. Em determinadas circunstâncias, isso pode favorecer o surgimento de arritmias em indivíduos predispostos.

Uma questão frequentemente discutida é o prolongamento do intervalo QT, parâmetro eletrocardiográfico relacionado à repolarização ventricular. O prolongamento excessivo desse intervalo pode aumentar o risco de arritmias potencialmente graves, como a torsades de pointes.

Estudos experimentais demonstraram que algumas bebidas energéticas podem produzir prolongamentos discretos do QT quando consumidas em grandes volumes. Embora tais alterações sejam geralmente pequenas em indivíduos saudáveis, podem adquirir maior relevância em portadores de síndrome do QT longo congênito ou outras canalopatias hereditárias (Enriquez & Halliday, 2024; SADS Foundation, 2023).

Por esse motivo, sociedades especializadas recomendam cautela com energéticos em indivíduos com histórico pessoal ou familiar de síncope inexplicada, morte súbita precoce ou cardiopatias hereditárias.

Curiosamente, o café em si não parece aumentar o risco de fibrilação atrial na maioria dos estudos populacionais. Algumas investigações sugerem até associação neutra ou discretamente protetora quando consumido em quantidades moderadas (Kim et al., 2021).

Esse contraste reforça a importância de distinguir claramente entre café tradicional e suplementos ou bebidas altamente concentradas.

 


O PERIGO DOS SUPLEMENTOS PRÉ-TREINO

Se as bebidas energéticas já representam um desafio para a saúde pública, os suplementos pré-treino acrescentam uma camada adicional de preocupação.

Muitos desses produtos contêm quantidades elevadas de cafeína por dose, frequentemente associadas a outros estimulantes.

Em alguns casos, uma única porção pode fornecer entre 300 e 400 mg de cafeína. Como é comum o consumo de mais de uma dose ao dia, alguns usuários ultrapassam facilmente 800 ou 1.000 mg diários.

Além disso, nem sempre existe correspondência exata entre o teor declarado no rótulo e a quantidade efetivamente presente no produto.

Outro problema é o contexto de utilização: exercício intenso, aumento da temperatura corporal, desidratação e ativação simpática já inerentes ao esforço físico.

Nessas circunstâncias, os efeitos cardiovasculares da cafeína podem ser potencializados.

Isso não significa que suplementos contendo cafeína sejam necessariamente perigosos para todos os usuários. Significa, porém, que extrapolar os benefícios observados para o café tradicional a esses produtos constitui um erro científico importante.

 


POPULAÇÕES ESPECIALMENTE VULNERÁVEIS

Embora a maioria dos adultos saudáveis tolere bem quantidades moderadas de cafeína, determinados grupos merecem atenção especial.

Crianças e adolescentes

Diversas entidades pediátricas recomendam evitar bebidas energéticas nessa faixa etária.

Além da maior sensibilidade aos efeitos cardiovasculares e neurológicos, há preocupação quanto ao impacto sobre o sono, desenvolvimento cerebral, ansiedade e desempenho escolar.

Gestantes

Durante a gestação, o metabolismo da cafeína torna-se significativamente mais lento.

A Organização Mundial da Saúde e outras entidades internacionais recomendam limitar o consumo de cafeína durante a gravidez, uma vez que doses elevadas têm sido associadas a maior risco de restrição de crescimento fetal e desfechos obstétricos adversos (WHO, 2016).

Portadores de cardiopatias hereditárias

Indivíduos com síndrome do QT longo, taquicardia ventricular catecolaminérgica polimórfica e outras canalopatias podem apresentar maior vulnerabilidade aos efeitos pró-arrítmicos dos estimulantes.

O problema é que muitos desconhecem sua condição até a ocorrência do primeiro evento clínico.

Metabolizadores lentos

Polimorfismos genéticos da enzima CYP1A2 podem resultar em metabolismo mais lento da cafeína.

Nesses indivíduos, concentrações plasmáticas permanecem elevadas por mais tempo, aumentando potencialmente a exposição cardiovascular e os efeitos adversos (Palatini et al., 2009).

 


O EQUÍVOCO DA DIVULGAÇÃO CIENTÍFICA SIMPLIFICADA

A comunicação científica moderna enfrenta um desafio crescente: transformar resultados complexos em mensagens simples sem perder a precisão.

Quando uma meta-análise conclui que indivíduos que consomem três xícaras de café por dia apresentam menor mortalidade, a manchete frequentemente se transforma em algo como:

“Café aumenta a expectativa de vida.”

Embora atraente, essa simplificação elimina nuances fundamentais.

Primeiro, a maioria das evidências disponíveis é observacional. Isso significa que os estudos identificam associações, mas não necessariamente relações causais.

Pessoas que consomem café moderadamente podem diferir das demais em inúmeros aspectos relacionados ao estilo de vida, alimentação, nível socioeconômico e acesso à saúde.

Uma revisão sistemática recente baseada em estudos de randomização mendeliana concluiu que a evidência de causalidade para muitos dos benefícios atribuídos ao café é mais modesta do que frequentemente sugerido pelas manchetes (Pham et al., 2025).

Isso não invalida os resultados epidemiológicos, mas reforça a necessidade de interpretá-los com cautela.

O segundo erro consiste em ignorar completamente a questão da dose.

Os benefícios observados para três ou quatro xícaras diárias não autorizam a conclusão de que dez xícaras produzirão benefícios maiores.

Muito menos autorizam extrapolações para suplementos concentrados contendo centenas de miligramas de cafeína por dose.

Na farmacologia, a dose continua sendo um dos principais determinantes entre benefício e risco.

 


LIMITES DE SEGURANÇA E RECOMENDAÇÕES PRÁTICAS

A Autoridade Europeia para a Segurança dos Alimentos (EFSA) concluiu que a ingestão diária de até 400 mg de cafeína é geralmente segura para adultos saudáveis (EFSA, 2015).

Esse valor corresponde aproximadamente a:

  • quatro xícaras de café coado;
  • cinco a seis expressos;
  • ou uma combinação equivalente de diferentes fontes.

Para gestantes, recomenda-se consumo substancialmente menor.

Algumas recomendações práticas incluem:

  • evitar o uso simultâneo de múltiplas fontes de cafeína;
  • ler cuidadosamente os rótulos de suplementos e energéticos;
  • evitar doses elevadas em curto período;
  • evitar associação com álcool;
  • interromper o consumo diante de palpitações, síncope ou sintomas cardiovasculares;
  • procurar avaliação médica antes do uso de estimulantes em caso de doenças cardíacas conhecidas.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

O café ocupa posição singular na nutrição moderna. Poucas bebidas foram tão estudadas e tão frequentemente mal interpretadas.

A evidência científica atual sugere que o consumo moderado de café pode integrar um estilo de vida saudável e está associado a diversos desfechos favoráveis de saúde.

Entretanto, esses achados não devem ser confundidos com uma autorização para o consumo irrestrito de cafeína.

Os benefícios observados nas grandes coortes populacionais referem-se predominantemente ao consumo moderado de café, e não ao uso de suplementos concentrados ou energéticos em altas doses.

A crescente popularização de produtos estimulantes exige uma compreensão mais sofisticada da relação entre dose e risco.

Em indivíduos saudáveis, a cafeína pode ser uma aliada do desempenho, da atenção e da produtividade. Em excesso, especialmente quando consumida por meio de formulações concentradas, pode contribuir para eventos cardiovasculares potencialmente graves em pessoas suscetíveis.

A mensagem central talvez seja simples: os estudos que mostram benefícios do café não constituem uma licença para exageros. Como ocorre com tantos aspectos da medicina e da nutrição, a moderação continua sendo uma das recomendações mais sólidas da ciência.

 


REFERÊNCIAS

ACKERMAN, M. J. et al. Sudden cardiac arrest occurring in temporal proximity to consumption of energy drinks. Heart Rhythm, v. 21, n. 7, p. 1068-1075, 2024.

BERGER, A. J.; ALFORD, K. Cardiac arrest in a young man following excess consumption of caffeinated energy drinks. Medical Journal of Australia, v. 190, n. 1, p. 41-43, 2009.

CAPPELLETTI, S. et al. Caffeine: cognitive and physical performance enhancer or psychoactive drug? Current Neuropharmacology, v. 13, n. 1, p. 71-88, 2015.

DING, M. et al. Long-term coffee consumption and risk of cardiovascular disease: a systematic review and a dose-response meta-analysis of prospective cohort studies. Circulation, v. 129, n. 6, p. 643-659, 2014.

EMADI, R. C.; KAMANGAR, F. Coffee’s Impact on Health and Well-Being. Nutrients, v. 17, n. 15, p. 2558, 2025.

EFSA PANEL ON DIETETIC PRODUCTS, NUTRITION AND ALLERGIES. Scientific Opinion on the Safety of Caffeine. EFSA Journal, v. 13, n. 5, p. 4102, 2015.

ENRIQUEZ, A.; HALLIDAY, B. P. Cardiovascular Toxicity of Energy Drinks in Youth: A Call for Regulation. Journal of Pediatrics, v. 274, 114200, 2024.

FREDHOLM, B. B. et al. Actions of caffeine in the brain with special reference to factors that contribute to its widespread use. Pharmacological Reviews, v. 51, n. 1, p. 83-133, 1999.

KIM, E. J. et al. Coffee Consumption and Incident Tachyarrhythmias: Reported Behavior, Mendelian Randomization and Their Interactions. JAMA Internal Medicine, v. 181, n. 9, p. 1185-1193, 2021.

PALATINI, P. et al. CYP1A2 genotype modifies the association between coffee intake and the risk of hypertension. Journal of Hypertension, v. 27, n. 8, p. 1594-1601, 2009.

PHAM, K. et al. Coffee and health outcomes: a systematic review of Mendelian randomisation studies. Nutrition Research Reviews, 2025.

POOLE, R. et al. Coffee consumption and health: umbrella review of meta-analyses of multiple health outcomes. BMJ, v. 359, j5024, 2017.

SADS FOUNDATION. Energy Drinks and SADS Conditions. Salt Lake City: SADS Foundation, 2023.

SPRIET, L. L. Exercise and sport performance with low doses of caffeine. Sports Medicine, v. 44, Suppl. 2, p. S175-S184, 2014.

WORLD HEALTH ORGANIZATION. WHO recommendations on antenatal care for a positive pregnancy experience. Geneva: WHO, 2016.

CAFEÍNA: DO CAFEZINHO AO RISCO CARDÍACO – PARTE 1

A cafeína é a substância psicoativa mais consumida no mundo, presente naturalmente no café, chá, cacau e guaraná, além de ser amplamente utilizada em bebidas energéticas e suplementos alimentares. Nas últimas décadas, estudos observacionais de grande porte e meta-análises demonstraram associação entre o consumo moderado de café e menor risco de mortalidade geral, doenças cardiovasculares, diabetes tipo 2, doenças hepáticas e algumas doenças neurodegenerativas (Ding et al., 2014; Poole et al., 2017). Entretanto, a ampla divulgação desses resultados pela mídia frequentemente omite aspectos fundamentais, como a dose estudada, o tipo de produto consumido e as limitações metodológicas dos estudos observacionais.

Como consequência, tornou-se comum a interpretação equivocada de que “quanto mais cafeína, melhor”, favorecendo o uso crescente de suplementos concentrados, energéticos e formulações pré-treino contendo doses muito superiores às encontradas no café tradicional. Este artigo revisa os principais mecanismos farmacológicos da cafeína, os benefícios comprovados do consumo moderado e os riscos associados ao uso excessivo, especialmente os potenciais efeitos cardiovasculares relacionados a arritmias, hipertensão arterial e eventos cardíacos graves em indivíduos suscetíveis.

 


INTRODUÇÃO

Poucas substâncias desfrutam simultaneamente de tamanha popularidade e aceitação social quanto a cafeína. Presente em hábitos culturais milenares e associada a prazer, socialização e produtividade, ela é consumida diariamente por bilhões de pessoas ao redor do mundo.

O café, principal fonte de cafeína na maioria dos países ocidentais, vem sendo objeto de intensa investigação científica. Nas últimas duas décadas, diversos estudos epidemiológicos passaram a demonstrar associações consistentes entre consumo moderado de café e melhores desfechos de saúde, incluindo menor mortalidade geral e cardiovascular (Poole et al., 2017; Ding et al., 2014).

Esses resultados representam uma importante mudança de paradigma. Durante boa parte do século XX, o café foi frequentemente tratado como um hábito potencialmente prejudicial. Atualmente, a literatura científica sugere que seu consumo moderado pode integrar um estilo de vida saudável.

Entretanto, existe uma diferença fundamental entre afirmar que o consumo moderado de café está associado a benefícios e concluir que qualquer quantidade de cafeína seja benéfica. Essa distinção nem sempre aparece nas manchetes ou nas redes sociais.

Nos últimos anos, observou-se uma expansão extraordinária do mercado de bebidas energéticas, termogênicos e suplementos pré-treino. Muitos desses produtos fornecem em uma única dose a quantidade de cafeína correspondente a três, quatro ou até seis xícaras de café. Em alguns casos, consumidores utilizam múltiplas doses ao longo do dia, frequentemente associadas a exercício físico intenso, privação de sono, desidratação ou outros estimulantes.

Essa mudança de contexto levanta uma questão importante: os benefícios observados para o consumo moderado de café podem ser extrapolados para o consumo elevado de cafeína concentrada?

A resposta da literatura científica atual é clara: não.

 


FARMACOLOGIA DA CAFEÍNA: COMO ELA AGE NO ORGANISMO

A cafeína (1,3,7-trimetilxantina) exerce seus principais efeitos por meio do bloqueio dos receptores de adenosina, especialmente os subtipos A1 e A2A (Fredholm et al., 1999).

A adenosina é uma molécula produzida naturalmente pelo organismo e atua como um importante modulador do sistema nervoso central. À medida que permanecemos acordados, seus níveis aumentam progressivamente, promovendo sensação de cansaço e facilitando o início do sono.

Ao bloquear os receptores de adenosina, a cafeína impede temporariamente esse sinal biológico de fadiga. Como consequência, ocorre aumento do estado de alerta, redução da percepção subjetiva de cansaço e melhora transitória do desempenho cognitivo.

Além disso, a cafeína aumenta a atividade de neurotransmissores como dopamina, noradrenalina e glutamato, contribuindo para sensação de energia, motivação e concentração (Fredholm et al., 1999).

Metabolismo e diferenças individuais

A maior parte da cafeína é metabolizada no fígado pela enzima CYP1A2.

Existe importante variabilidade genética nesse processo. Algumas pessoas metabolizam a cafeína rapidamente; outras a eliminam mais lentamente. Essa diferença ajuda a explicar por que certos indivíduos conseguem tomar café à noite sem prejuízo significativo do sono, enquanto outros apresentam insônia, palpitações ou ansiedade mesmo após pequenas doses (Palatini et al., 2009).

A meia-vida média da cafeína varia entre três e cinco horas em adultos saudáveis, podendo aumentar significativamente durante a gestação, em doenças hepáticas ou em usuários de determinados medicamentos.

Cafeína não é sinônimo de café

Um aspecto frequentemente ignorado é que o café não contém apenas cafeína.

A bebida possui centenas de compostos bioativos, incluindo polifenóis, ácidos clorogênicos, melanoidinas e diterpenos, muitos dos quais apresentam propriedades antioxidantes e anti-inflamatórias (Emadi; Kamangar, 2025).

Essa observação é importante porque parte dos benefícios atribuídos ao café pode decorrer da interação entre esses diversos compostos, e não exclusivamente da cafeína isolada.

 


O QUE A CIÊNCIA REALMENTE DEMONSTRA SOBRE O CONSUMO MODERADO

A literatura atual fornece evidências relativamente consistentes de que o consumo moderado de café está associado a melhores indicadores de saúde.

Uma das análises mais abrangentes foi publicada por Poole e colaboradores (2017) no British Medical Journal. Trata-se de uma umbrella review que reuniu mais de duzentas meta-análises previamente publicadas.

Os autores observaram que o maior benefício tendia a ocorrer entre indivíduos que consumiam aproximadamente três a quatro xícaras de café por dia.

Nessa faixa de consumo foram observadas associações com:

  • menor mortalidade por todas as causas;
  • menor mortalidade cardiovascular;
  • menor incidência de diabetes tipo 2;
  • menor risco de doenças hepáticas crônicas;
  • menor risco de doença de Parkinson;
  • menor risco de algumas neoplasias.

Resultados semelhantes foram observados por Ding et al. (2014), em meta-análise envolvendo milhões de participantes acompanhados por longos períodos.

Um aspecto particularmente interessante é que a relação entre café e saúde não costuma ser linear. Em muitos estudos observa-se uma curva em “J”, na qual os benefícios aumentam até determinado ponto e depois tendem a estabilizar ou mesmo diminuir em consumos muito elevados.

Em outras palavras: os estudos não demonstram que quantidades progressivamente maiores produzam benefícios progressivamente maiores.

Café e desempenho físico

No contexto esportivo, a cafeína é um dos recursos ergogênicos mais estudados da história.

Segundo revisão de Spriet (2014), doses entre 3 e 6 mg/kg podem melhorar o desempenho em exercícios de resistência, especialmente em atletas treinados.

Os mecanismos incluem:

  • redução da percepção de esforço;
  • aumento do recrutamento neuromuscular;
  • melhora da vigilância e atenção;
  • maior tolerância à fadiga.

Mesmo nesse contexto, entretanto, mais nem sempre significa melhor. Doses excessivas podem provocar ansiedade, tremores, desconforto gastrointestinal, insônia e redução da performance.

 


QUANDO O BENEFÍCIO DÁ LUGAR AO RISCO

A segurança da cafeína depende de fatores como dose, velocidade de ingestão, predisposição genética, presença de doenças prévias e associação com outras substâncias estimulantes.

A Autoridade Europeia para a Segurança dos Alimentos (EFSA) concluiu que a ingestão de até 400 mg de cafeína por dia é geralmente segura para adultos saudáveis (EFSA, 2015).

Contudo, esse limite não deve ser interpretado como uma meta de consumo, mas como um teto de segurança populacional.

Além disso, o risco não depende apenas da dose total diária. A forma de consumo também importa.

Tomar 300 mg de cafeína distribuídos ao longo do dia em forma de café difere significativamente de ingerir a mesma quantidade em poucos minutos por meio de um suplemento altamente concentrado.

A absorção rápida produz concentrações plasmáticas mais elevadas em curto intervalo de tempo, aumentando a probabilidade de efeitos adversos.

Toxicidade aguda

Em doses elevadas, a cafeína pode provocar:

  • ansiedade intensa;
  • tremores;
  • insônia grave;
  • náuseas;
  • vômitos;
  • hipertensão arterial;
  • taquicardia;
  • hipocalemia;
  • convulsões.

Casos fatais por intoxicação aguda são raros, mas estão bem documentados na literatura médica, especialmente envolvendo cafeína em pó ou suplementos concentrados (Cappelletti et al., 2015).

Um dos principais problemas dessas formulações é a facilidade de ingerir quantidades equivalentes a dezenas de xícaras de café em poucos minutos, muitas vezes sem que o usuário tenha plena consciência da dose consumida.

Cafeína e sistema cardiovascular

A cafeína estimula o sistema nervoso simpático, aumentando temporariamente a frequência cardíaca e a pressão arterial.

Na maioria dos adultos saudáveis, esses efeitos são modestos e transitórios.

Porém, em indivíduos predispostos, especialmente aqueles com cardiopatias estruturais ou doenças elétricas hereditárias, concentrações elevadas podem aumentar a suscetibilidade a eventos arrítmicos.

Nos últimos anos, o crescimento do consumo de energéticos motivou maior atenção da comunidade cardiológica para essa questão. Estudos sugerem que algumas bebidas energéticas podem produzir alterações eletrocardiográficas discretas, incluindo prolongamento do intervalo QT, embora a relevância clínica dessas alterações varie conforme o perfil individual do consumidor (Enriquez; Halliday, 2024).

A preocupação é maior em pessoas portadoras de síndromes arrítmicas hereditárias, muitas vezes ainda não diagnosticadas.

CONTINUA NA PARTE 2

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