As dietas que parecem saudáveis, mas não são

 

 

Na primeira parte desta série, vimos que uma alimentação saudável não depende de uma dieta da moda, de uma lista interminável de alimentos proibidos ou de uma fórmula que sirva igualmente para todos. Ela precisa nutrir, ter qualidade, respeitar quantidades e proporções, considerar o modo e o momento de comer, ser individualizada e, principalmente, ser sustentável.

Mas existe uma pergunta complementar: se sabemos, em linhas gerais, o que caracteriza uma alimentação saudável, por que tantas dietas inadequadas continuam fazendo tanto sucesso?

Talvez porque algumas delas não sejam completamente absurdas. Realmente produzem perda de peso no início, embora não poucas possam levar a perda de massa muscular junto, o que é péssimo.

Outras melhoram determinados marcadores metabólicos. Algumas têm aplicações terapêuticas legítimas. Outras simplesmente reduzem drasticamente a ingestão calórica e, por isso, produzem resultados rápidos na balança. No fim desnutrem e produzem o abominável efeito rebote

O problema maior aqui é quando um efeito parcial é apresentado como uma verdade universal. Buscar emagrecimento a qualquer preço custou a banalização da maioria das propostas dietéticas.

Uma dieta pode funcionar para uma finalidade específica e, ainda assim, não ser uma boa dieta para todos. Pode ser útil durante determinado período e inadequada como estilo de vida permanente. Pode produzir emagrecimento e, simultaneamente, reduzir a variedade alimentar, comprometer a ingestão de determinados nutrientes ou, vale enfatizar, favorecer perda de massa magra e massa muscular.

Por isso, tão importante quanto perguntar “essa dieta é saudável?”, precisamos perguntar: para quem, para quê, por quanto tempo e com quais consequências?

 

  1. A dieta hiperproteica: quando a proteína vira protagonista demais

Proteína é fundamental. Não se discute. Participa da formação e manutenção dos músculos, enzimas, hormônios, anticorpos e inúmeras estruturas do organismo. Durante o emagrecimento, uma ingestão adequada de proteínas pode aumentar a saciedade e contribuir para a preservação da massa magra. O problema começa quando uma propriedade verdadeira é transformada em uma conclusão falsa: “se proteína ajuda, quanto mais proteína, melhor.”

É comum encontrar na internet dietas nas quais praticamente toda refeição gira em torno de carnes, ovos, shakes ou suplementos proteicos. Vegetais aparecem como acompanhamento, frutas são reduzidas, leguminosas são vistas como “carboidratos” e cereais (como arroz integral) passam a ser tratados como vilões. A proteína deixa de ser um componente da alimentação e passa a ocupar o lugar de quase todos os outros grupos alimentares. Péssima escolha!

O organismo não precisa de um único nutriente em excesso. Precisa de adequação nutricional. Proteína de menos pode ser inadequada; proteína em excesso também. E, quando a hiperproteica vem acompanhada de restrição exagerada de carboidratos, frutas, cereais e leguminosas, o problema deixa de ser apenas a quantidade de proteína: passa a ser a qualidade do padrão alimentar como um todo. Os riscos à saúde não são desprezíveis.

É possível emagrecer com uma dieta hiperproteica. Mas isso não significa que o excesso de proteína tenha sido o responsável por todo o resultado, nem que seja uma estratégia saudável. Nem que o emagrecimento tenha sido acompanhado de uma melhora da composição corporal. Muitas vezes, a perda de peso decorre principalmente da redução espontânea da ingestão energética e da maior saciedade.

Emagrecer não transforma automaticamente uma dieta em uma dieta saudável.

 

 

  1. Dieta cetogênica: uma fisiologia real cercada de muita mistificação

Poucos assuntos da nutrição contemporânea foram tão envolvidos por entusiasmo, modismos, simplificações e propostas contraditórias quanto a dieta cetogênica.

Antes de discutir seus méritos ou limitações, é preciso esclarecer uma questão básica: cetose é um fenômeno fisiológico real. Ela ocorre quando a disponibilidade de carboidratos e de glicose proveniente da alimentação diminui suficientemente, a insulina cai e o glicogênio se exaure, alterando o metabolismo energético em direção à maior utilização de gordura e à produção de corpos cetônicos. Um mecanismo de sobrevivência de troca do combustível. Faltando glicose, o corpo usa gordura.

Isso pode acontecer em diferentes situações. O jejum prolongado é cetogênico. Dietas de muito baixo valor energético podem induzir cetose. Dietas com quantidade muito reduzida de carboidratos também podem fazê-lo. Em determinadas condições, uma dieta com elevada participação proteica e pouquíssimo carboidrato pode contribuir para esse estado metabólico. A cetose, portanto, não é uma propriedade exclusiva de uma determinada “dieta milagrosa”. Mas de novo, forçar esse processo com intensidade, apelando para dietas radicais sem adequada individualização, é sempre um risco.

O que existe então é um estado metabólico, que pode ser alcançado por diferentes caminhos. O problema começa quando esse fenômeno fisiológico é apresentado como se fosse, por si só, sinônimo de saúde, emagrecimento superior ou vantagem metabólica universal.

Como vimos, a redução acentuada de carboidratos diminui a secreção de insulina e reduz as reservas de glicogênio. A produção endógena de glicose passa a depender proporcionalmente mais da gliconeogênese – transformação de outros nutrientes como gordura e proteína em glicose.

Em estudos metabólicos antigos, porém clássicos, dietas com carboidrato muito baixo aumentaram a participação da gliconeogênese na produção de glicose e modificaram a utilização do glicogênio (Boden et al., 2000).

Isso é fisiologia. Não é necessariamente uma patologia. Mas também não é uma justificativa para concluir que quanto menos carboidrato, melhor. Trata-se de uma conclusão simplista, baseada em modismos, não em ciência.

 

  1. O grande problema: confundimos cetose com uma dieta saudável

Na prática clínica, o que mais preocupa não é a existência da cetose. É a forma como o conceito vem sendo utilizado e banalizado.

Hoje encontramos inúmeras propostas denominadas “cetogênicas”: algumas bem formuladas, outras extremamente restritivas; algumas com proteína adequada, outras com proteína insuficiente; algumas com vegetais, fibras e gorduras de boa qualidade, outras baseadas quase exclusivamente em carnes, queijos, manteiga e suplementos.

As antigas mas ainda praticadas dietas Atkins e cetogênica clássicas, embora promovam perda de peso rápida, apresentam riscos cardiovasculares significativos quando fundamentadas no consumo excessivo de gorduras animais, carnes e embutidos. O aumento do colesterol LDL e a ausência de fibras e antioxidantes essenciais elevam a probabilidade de infartos e acidentes vasculares cerebrais.

Mas há protocolos que simplesmente reduzem carboidratos. Há outros que praticamente os eliminam. Há dietas que recomendam enormes quantidades de gordura. Há dietas hiperproteicas apresentadas como cetogênicas. Há jejuns prolongados. Há versões carnívoras. Há propostas comerciais que acrescentam suplementos, bebidas, pós e produtos “keto” a uma alimentação já extremamente restritiva.

Colocar o nome “cetogênica” em uma dieta não garante que ela seja nutricionalmente adequada. Muito menos saudável.

E essa é, na minha experiência clínica de mais de quatro décadas acompanhando pessoas com obesidade, doenças metabólicas e diferentes padrões alimentares, uma das questões que mais merece cautela. Tenho observado repetidamente pessoas que chegam extremamente preocupadas com carboidratos, com medo de frutas, arroz integral, feijão, pão integral ou batata, e que passaram a organizar toda a vida em torno daquilo que não podem comer.

Claro que eliminar os “carboidratos do mal” é um passo louvável. A saúde agradece. Remover doces, guloseimas, refrigerantes, alimentos refinados, ultraprocessados, é um brinde à saúde. Mas não se pode usar a mesa régua para frutas, cereais, tubérculos e leguminosas. É insensato.

O que popularizou as mais bizarras dessas dietas é que emagrecem. Às vezes até muito, inicialmente. Porém não são sustentáveis. Há quem as chame de “dietas do mau humor”, pois mexem adversamente com a psiquê.

Mas, reconheçamos, há protocolos cetogênicos adequados, indicados da maneira certa e para a pessoa certa, que melhoram a glicemia e outros parâmetros metabólicos. Até podem ajudar a controlar a fome.

Mas a maioria dessas dietas vem fazendo mais mal do que bem, na nossa experiência, com alimentação monótona, baixa variedade, perda importante de massa corporal magra, constipação, alterações lipídicas, aterosclerose, dificuldade de manter o padrão alimentar e uma relação cada vez mais rígida e ansiosa com a comida.

Uma dieta que produz emagrecimento, mas produz também medo de comer, não pode ser considerada automaticamente uma boa estratégia de saúde.

 

  1. E o carboidrato saudável? Ele não é um inimigo

Talvez seja necessário recuperar uma ideia que ficou esquecida no entusiasmo pelas dietas low carb: carboidrato também é nutriente.

Não estamos falando de açúcar em excesso, refrigerantes, doces ou farinhas refinadas consumidas indiscriminadamente. Estamos falando de carboidratos provenientes de frutas, verduras, legumes, leguminosas e cereais integrais, que podem fornecer energia, fibras, vitaminas, minerais e diversos compostos bioativos. Os povos mais longevos do mundo, nas blue zones, têm sua dieta baseada nesses carboidratos, que perfazem até 60% do valor calórico total de sua alimentação.

Além disso, o carboidrato possui uma função metabólica importante. A glicose pode ser utilizada diretamente como combustível por diversos tecidos, incluindo o cérebro, e, quando disponível em quantidade adequada, reduz a necessidade de utilizar aminoácidos como substratos para produção de glicose. Estudos metabólicos antigos e clássicos demonstram que a restrição severa de carboidratos altera o metabolismo proteico e aumenta a perda de nitrogênio em determinadas condições (Louard et al., 1992; Pacy et al., 1994).

É por isso que podemos falar, didaticamente, em efeito poupador de proteína dos carboidratos. Isso não significa que uma dieta levemente low carb bem planejada necessariamente cause perda muscular — a literatura atual não permite uma afirmação tão absoluta. Mas significa que não devemos ignorar o problema, especialmente quando combinamos restrição intensa de carboidratos com grande déficit energético, baixa ingestão proteica, ausência de treinamento de força, idade avançada ou emagrecimento muito rápido.

Esse cuidado é particularmente importante em pessoas nas quais preservar massa muscular é prioridade.

 

  1. Perder peso não é a mesma coisa que perder gordura

Outro problema das dietas cetogênicas é a interpretação da balança. Quando reduzimos drasticamente os carboidratos, ocorre redução das reservas de glicogênio. Como o glicogênio é armazenado associado a água, sua redução também provoca perda de água corporal. Além disso, a redução do conteúdo intestinal pode contribuir para uma queda rápida do peso.

O indivíduo sobe na balança e observa uma queda expressiva. “Perdi quatro quilos em dez dias!” Mas isso não significa que quatro quilos de gordura tenham desaparecido. A diferença é fundamental.

O objetivo de um programa de emagrecimento não deveria ser simplesmente produzir a maior queda possível no peso corporal. Deveria ser reduzir principalmente gordura corporal, preservar massa muscular e melhorar saúde metabólica e funcional.

Uma revisão sistemática e metanálise de ensaios randomizados encontrou, em dietas cetogênicas, redução de peso e gordura corporal, mas também redução de massa livre de gordura em comparação com dietas controle (Leung et al., 2025).

Outro estudo de 2025, reunindo 33 estudos, encontrou resultados mais complexos: não observou diferença significativa na massa muscular propriamente dita ou na força, mas encontrou redução de massa livre de gordura com dietas cetogênicas. Os próprios autores ressaltaram a necessidade de estudos randomizados melhores para esclarecer esses efeitos (2025).

Portanto, a afirmação correta não é “dieta cetogênica destrói músculos”. A afirmação correta é mais cuidadosa: dietas cetogênicas não garantem preservação de massa magra, e o risco de perda de massa livre de gordura precisa ser considerado, especialmente quando há grande restrição energética e outros fatores de risco.

 

  1. Quanto menos carboidrato, melhor? Não.

Aqui está talvez um dos maiores equívocos da atual onda cetogênica. Não existe uma regra fisiológica segundo a qual reduzir progressivamente o carboidrato produzirá benefícios progressivamente maiores.

Como vimos e vale enfatizar, uma coisa é reduzir açúcar, bebidas açucaradas e farinhas refinadas. Outra é reduzir carboidratos de boa qualidade a uma pequena fração das necessidades energéticas.

As consequências metabólicas dependem da pessoa, da composição da dieta, da quantidade total de energia, da quantidade e qualidade das proteínas e gorduras, da atividade física e, sobretudo, do tempo durante o qual a estratégia é mantida.

Uma dieta baixa em carboidratos pode produzir efeitos favoráveis sobre triglicerídeos, glicemia e peso em determinadas pessoas. Mas a literatura também apresenta resultados controversos. Uma grande metanálise de 53 ensaios clínicos publicada em 2026 encontrou redução de triglicerídeos e aumento de HDL-colesterol, mas também aumento de LDL-colesterol e colesterol total, com heterogeneidade importante entre os estudos. Os autores concluíram que os efeitos cardiovasculares de longo prazo permanecem incertos (Zhao et al., 2026).

Outra metanálise publicada no mesmo ano, reunindo 62 estudos, chegou a resultados semelhantes: redução de triglicerídeos e aumento de HDL, mas elevação média de LDL-colesterol (o “mau” colesterol) e colesterol total, sem dados suficientes sobre desfechos cardiovasculares de longo prazo (Chang et al., 2026).

Isso é particularmente importante porque um marcador metabólico isolado não determina o resultado clínico final. Não basta dizer que uma dieta reduz a insulina.

Precisamos perguntar o que acontece com LDL, massa muscular, micronutrientes, fibras, microbiota, desempenho físico, função renal quando pertinente, adesão e qualidade de vida — e, finalmente, com a saúde cardiovascular ao longo dos anos.

 

  1. O problema das dietas cetogênicas muito restritivas

Existe ainda um problema mais grave: algumas pessoas não fazem simplesmente uma dieta low carb. Elas fazem uma dieta nutricionalmente insuficiente.

Cortam arroz. Cortam feijão. Cortam frutas. Cortam cereais. Cortam leite. Cortam praticamente todos os vegetais que consideram “carboidratos”. Passam a comer carne, ovos, queijo, manteiga, bacon e suplementos. Depois, reduzem também a quantidade total de comida porque descobriram que “quanto mais cetose, melhor”.

Em pouco tempo, a dieta pode se tornar extremamente monótona e pobre em fibras e determinados micronutrientes. Quando isso acontece, já não estamos diante de uma discussão abstrata sobre “low carb versus low fat”.

Estamos diante de um problema nutricional. Dietas de muito baixo valor energético também merecem cautela. Elas podem ser úteis em situações clínicas específicas, mas apresentam risco de perda de massa magra, especialmente quando mantidas por períodos inadequados ou sem atenção à proteína e ao exercício de resistência (Janssen; Van Every; Phillips, 2023). A mesma lógica vale para dietas cetogênicas muito restritivas.

 

 

  1. A dieta cetogênica pode ter indicação? Sim. Mas indicação não é universalização

É importante deixar claro: não estou afirmando que a dieta cetogênica não tenha lugar na medicina.  A dieta cetogênica clássica possui uma indicação terapêutica bem estabelecida, por exemplo, em determinadas formas de epilepsia refratária. Também existem estudos em obesidade, diabetes, doenças neurológicas e outras condições.

O que precisa ser rejeitado é a ideia de que uma estratégia terapêutica específica deva ser transformada em padrão alimentar universal.

Uma revisão sistemática publicada em 2026 sobre versões plant-based de dietas low carb e cetogênicas encontrou efeitos metabólicos interessantes em estudos de curta duração, mas também observou que a adesão diminuiu em condições de vida real e que as versões cetogênicas exigiram maior supervisão (Mazzola et al., 2026).

Esse detalhe é fundamental. Uma dieta que funciona dentro de um estudo controlado pode ser muito diferente de uma dieta que uma pessoa consegue sustentar sozinha durante cinco ou dez anos.

E sustentabilidade é um dos critérios centrais de uma alimentação saudável.

 

  1. A dieta carnívora: quando a restrição chega ao extremo

Se existe uma tendência de restringir carboidratos, existe uma versão ainda mais radical: a dieta carnívora. A proposta é praticamente eliminar o reino vegetal e concentrar a alimentação em carne e outros alimentos de origem animal.

É importante não confundir essa estratégia com uma alimentação que simplesmente contém carne. Uma dieta predominantemente vegetal pode conter pequenas quantidades de carne para os que optarem por esse plano. O problema da dieta carnívora é justamente a eliminação quase completa dos alimentos vegetais.

Uma revisão de escopo publicada em 2026 encontrou apenas nove estudos em humanos sobre a dieta carnívora. Alguns relataram perda de peso, maior saciedade e possíveis melhorias metabólicas, mas a evidência disponível é muito limitada, com estudos pequenos, curtos e frequentemente sem grupo controle. Ao mesmo tempo, foram identificados riscos potenciais de deficiência de vitamina C, vitamina D, cálcio, magnésio, iodo e fibras, além de elevação de LDL-colesterol e colesterol total em alguns estudos (Lietz; Dapprich; Fischer, 2026).

A conclusão dos autores é particularmente importante: não existem atualmente evidências suficientes para recomendar a dieta carnívora como padrão alimentar de longo prazo. Isso parece coerente com um princípio bastante simples: se precisamos eliminar quase todos os vegetais para que uma dieta funcione, talvez devêssemos questionar a dieta — e não os vegetais.

 

  1. “Sou vegano, portanto minha alimentação é saudável”

O extremo oposto também precisa ser discutido. Uma dieta vegana pode ser excelente. Mas veganismo não é sinônimo de alimentação saudável.

É perfeitamente possível consumir pão branco, biscoitos, massas refinadas, batatas fritas, doces, refrigerantes e produtos ultraprocessados e, ainda assim, não consumir nenhum alimento de origem animal.

O rótulo “vegano” não informa, sozinho, a qualidade nutricional. Por outro lado, uma alimentação vegana bem planejada pode ser rica em frutas, vegetais, leguminosas, cereais integrais, sementes e castanhas, oferecendo excelente quantidade de fibras e diversos micronutrientes.

Existe, entretanto, uma questão particularmente importante: vitamina B12. Pessoas que seguem dietas veganas precisam assegurar uma fonte confiável dessa vitamina, geralmente por suplementação. Dependendo da composição da dieta e das características individuais, também pode ser necessário atenção especial a ferro, cálcio, vitamina D, iodo, zinco e ômega-3.

Portanto: não há problema em ser vegano. O problema é acreditar que o rótulo da dieta substitui o planejamento nutricional.

 

  1. Sem glúten para quem não precisa

Poucas palavras ganharam tanta força no imaginário alimentar quanto “glúten”. Para quem tem doença celíaca, a retirada do glúten é tratamento e deve ser rigorosa. Há também outras situações clínicas específicas relacionadas ao trigo ou ao glúten, como a sensibilidade não celíaca ao glúten, nas quais uma estratégia individualizada pode ser considerada.

Mas isso não significa que retirar o glúten de uma pessoa saudável automaticamente produza mais saúde. Um biscoito sem glúten continua sendo um biscoito. Uma farinha sem glúten continua podendo ser refinada. E um produto industrializado “gluten free” não se transforma em alimento saudável simplesmente porque não contém glúten.

Além disso, uma revisão sistemática e metanálise publicada em 2025 encontrou associação entre dietas sem glúten e inadequações de determinados micronutrientes em diferentes grupos com doenças relacionadas ao trigo, embora os autores tenham classificado a certeza global da evidência como muito baixa (Russell et al., 2025).

Portanto: sem glúten é necessário para alguns; não é sinônimo de saudável para todos.

 

  1. Low-FODMAP: boa ferramenta, péssimo uso quando vira prisão alimentar

A dieta low-FODMAP é um bom exemplo de como uma intervenção terapêutica pode ser mal utilizada.

Ela possui evidência para o tratamento de sintomas da síndrome do intestino irritável. Uma revisão abrangente publicada em 2026, reunindo 16 metanálises e mais de 9.900 pacientes com síndrome do intestino irritável, encontrou melhora significativa dos sintomas globais e da qualidade de vida com a estratégia (2026).

Portanto, não devemos demonizá-la. O problema é utilizar uma dieta criada para uma condição clínica específica como se fosse uma dieta geral de saúde. A abordagem tradicional envolve três etapas: restrição, reintrodução e personalização (Lomer, 2023).

A fase de restrição é justamente isso: uma fase. Um estudo com reintrodução controlada mostrou que, entre pacientes que responderam à fase inicial, diferentes FODMAPs provocaram sintomas em diferentes pessoas, demonstrando que a tolerância é individual e que não existe uma lista universal de alimentos que todos precisam evitar (Van den Houte et al., 2024).

Portanto, o objetivo não deveria ser terminar com uma lista de vinte alimentos proibidos. Deveria ser exatamente o contrário: descobrir o que a pessoa tolera e ampliar novamente sua alimentação.

  1. E as dietas de exclusão?

Existe uma categoria ainda mais ampla: a dieta que vai retirando alimentos até que quase nada reste.

Primeiro, açúcar (aqui uma exclusão sensata, quando inclui guloseimas e afins). Depois, glúten. Depois, leite. Depois, carne. Depois, frutas à noite. Depois, alimentos “inflamatórios”. Depois, alimentos ricos em histamina. Depois, FODMAPs. Depois, lectinas. Depois, solanáceas. Depois, qualquer ingrediente cujo nome pareça “químico”.

A lista cresce. E a alimentação diminui. É importante deixar claro que restrição não é necessariamente erro. Uma alergia alimentar verdadeira justifica exclusão. A doença celíaca justifica exclusão do glúten. Uma condição metabólica ou gastrointestinal específica pode exigir restrições determinadas.

O problema aparece quando a exclusão não possui diagnóstico, objetivo ou prazo. Quanto mais alimentos saudáveis são eliminados sem necessidade, maior pode ser o risco de inadequação nutricional e menor a variedade da dieta.

Toda exclusão deveria responder a uma pergunta simples: por que este alimento precisa sair?

 

  1. Os famosos testes de “intolerância alimentar”

Esse é outro terreno fértil para confusão entre tecnologia e medicina.

Imagine uma pessoa que não apresenta nenhum sintoma ao comer ovo, tomate, leite ou frutas. Ela faz um painel comercial de “intolerâncias” baseado em IgG e recebe uma lista de dezenas de alimentos “positivos”.

A pessoa acredita que seu organismo “não tolera” esses alimentos e começa a eliminá-los. O problema é que a presença de IgG contra alimentos não demonstra, por si só, intolerância alimentar.

A American Academy of Allergy, Asthma & Immunology explica que a presença de IgG contra alimentos provavelmente representa uma resposta normal à exposição alimentar e recomenda contra o uso desses testes para diagnosticar alergia, intolerância ou “sensibilidade” alimentar (AAAAI, 2026).

O princípio é muito importante: um exame pode medir alguma coisa e, ainda assim, não ser apropriado para responder à pergunta clínica que estamos fazendo.

Nem todo resultado laboratorial merece virar uma restrição alimentar.

  1. E a nutrigenômica?

Aqui precisamos ser ainda mais cuidadosos, porque existe ciência verdadeira por trás do conceito.

Nossos genes influenciam o metabolismo. A alimentação interage com genes, proteínas, vias metabólicas e microbiota. A nutrição personalizada é uma área legítima de investigação e provavelmente terá importância crescente.

Mas existe uma distância enorme entre dizer: “genes e alimentação interagem” e dizer: “seu teste genético determina exatamente o que você deve comer”. A evidência ainda não permite essa simplificação.

Revisões de ensaios clínicos mostram resultados heterogêneos para estratégias de nutrição personalizada baseadas em características genéticas. Há estudos promissores, mas ainda não temos base científica para transformar um painel genético comercial em uma lista automática de alimentos permitidos e proibidos. Portanto, a questão não é rejeitar a nutrigenômica.

É impedir que uma ciência promissora seja transformada em marketing de precisão sem precisão clínica suficiente.

 

  1. Quando a busca pela alimentação perfeita começa a adoecer

Existe ainda um problema mais sutil. A pessoa começa querendo comer melhor. Elimina quase tudo, tenta quase tudo.  Finalmente, quase nada parece suficientemente puro ou saudável.

É nesse contexto que surgiu o termo ortorexia nervosa, utilizado para descrever uma preocupação patológica com a pureza ou qualidade dos alimentos. Toca as raias da loucura, da paranoia.

É importante, entretanto, não transformar o termo em diagnóstico indiscriminado. Uma revisão sistemática de revisões publicada em 2024 destacou que a ortorexia ainda não é formalmente reconhecida como diagnóstico nos principais sistemas classificatórios e que seus critérios permanecem controversos (Ng et al., 2024). Portanto, gostar de comida saudável não é ortorexia.

A preocupação surge quando a busca pela alimentação saudável produz ansiedade, sofrimento, isolamento social, rigidez excessiva ou prejuízo nutricional. A comida deve contribuir para a saúde. Não deve transformar a vida em uma prisão.

 

  1. O grande erro: confundir restrição com qualidade

Talvez exista uma espécie de “lei psicológica” por trás de muitas dietas da moda: quanto maior a lista de proibições, mais científica a dieta parece. Mas pode ser o contrário.

Uma alimentação de qualidade não precisa ser definida pelo número de alimentos que exclui. Ela deveria ser definida pela quantidade e qualidade dos alimentos saudáveis que consegue incluir: Frutas. Vegetais. Leguminosas. Cereais integrais. Castanhas. Sementes. Azeite. Proteínas adequadas. Água. Variedade. Prazer com o saudável.

Uma dieta pode ser vegetariana. Pode conter ovos. Pode conter leite. Pode conter pequenas quantidades de carne. Pode utilizar uma estratégia de restrição temporal. Pode até, em situações bem específicas, utilizar uma estratégia cetogênica temporária, com orientação competente.

Mas nenhuma dessas características, isoladamente, determina a qualidade da alimentação. A qualidade está no conjunto.

 

  1. O verdadeiro teste de uma dieta: o que acontece depois de um ano?

Talvez devêssemos mudar completamente a maneira como avaliamos as dietas.

Em vez de perguntar: “Quanto você emagreceu em 30 dias?” perguntar: “Como você estará daqui a um ano?”

Em vez de perguntar: “Quantos alimentos você eliminou?” perguntar: “Quantos alimentos saudáveis você conseguiu incorporar?”

Em vez de perguntar: “Quantas regras você consegue seguir?” perguntar: “Você consegue viver assim?”

E talvez a pergunta mais importante seja: “Essa dieta melhorou sua relação com a comida ou tornou você cada vez mais dependente de regras?”

Uma estratégia nutricional verdadeiramente boa precisa sobreviver à vida real: viagens, restaurantes, festas, trabalho, família, férias, imprevistos e mudanças de rotina.

Se a dieta funciona somente quando tudo está sob controle, talvez ela não seja uma boa dieta para a vida.

 

  1. Então nenhuma dieta específica presta?

Não. E essa seria outra conclusão equivocada. Dietas terapêuticas existem por uma razão. A dieta sem glúten é indispensável na doença celíaca. A low-FODMAP pode ser útil em determinados pacientes com síndrome do intestino irritável. Dietas cetogênicas têm aplicações terapêuticas específicas e continuam sendo estudadas. Dietas vegetarianas e veganas podem ser excelentes quando bem planejadas. Dietas hipocalóricas podem ser necessárias para redução de peso. Restrições específicas podem ser indispensáveis em determinadas doenças metabólicas, renais, gastrointestinais ou alérgicas.

O problema não é a existência dessas dietas. O problema é transformar uma ferramenta em dogma. Uma dieta terapêutica deveria ter: indicação → objetivo → planejamento → monitorização → reavaliação.

E, quando possível: reintrodução → ampliação da variedade → manutenção sustentável.

Essa sequência é muito diferente de encontrar uma dieta na internet e decidir que ela deverá ser seguida para sempre.

  1. A regra de ouro

Depois de analisar tantas dietas, talvez possamos estabelecer uma regra bastante simples: quanto mais uma dieta promete resolver tudo eliminando cada vez mais alimentos, maior deve ser nossa desconfiança.

Uma boa alimentação não precisa ser misteriosa. Não precisa depender de suplementos caros. Não precisa de dezenas de exames. Não precisa de uma lista de 50 alimentos proibidos. Não precisa de um guru.

E não precisa ser perfeita. Precisa ser nutricionalmente adequada, qualitativamente boa, equilibrada, individualizada e sustentável.

Essa é a diferença entre uma dieta que funciona por algumas semanas e uma alimentação capaz de acompanhar uma pessoa durante toda a vida.

 

Conclusão

A ciência da nutrição não é uma competição para descobrir qual será o próximo alimento vilão. Nem para descobrir qual dieta produzirá a maior perda de peso no menor tempo.

A pergunta mais interessante é outra: qual padrão alimentar consegue reunir saúde, adequação nutricional, prazer, variedade, individualização e sustentabilidade?

Uma dieta pode ser low carb. Pode ser vegetariana. Pode ser vegana. Pode conter carne. Pode utilizar jejum. Pode, em situações específicas, utilizar uma estratégia cetogênica. Pode precisar excluir determinado alimento por razões clínicas.

Mas nenhuma dessas características, isoladamente, transforma uma dieta em saudável. A qualidade está no conjunto.

E talvez essa seja a melhor maneira de olhar para todas as dietas que aparecem diariamente nas redes sociais: não precisamos perguntar primeiro se a dieta é famosa. Precisamos perguntar se ela é necessária, se é segura, se é nutricionalmente adequada, se é sustentada por evidências e, principalmente, se conseguimos mantê-la.

Porque, no fim, uma dieta que funciona durante trinta dias pode ser interessante. Uma alimentação que conseguimos manter durante trinta anos é muito mais poderosa.

 

Disclaimer

Este texto tem finalidade educativa e não substitui avaliação médica ou nutricional individualizada. Dietas terapêuticas, dietas de exclusão e estratégias de restrição energética ou de macronutrientes podem ter indicações específicas e devem ser individualizadas e acompanhadas por profissionais habilitados. Pessoas com doenças, gestantes, crianças, idosos, atletas e indivíduos em uso de medicamentos podem apresentar necessidades nutricionais particulares.

 

Referências

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Dieta saudável: afinal, o que é isso?

 

 

Nunca tivemos tanta informação sobre alimentação. E, paradoxalmente, talvez nunca tenha sido tão difícil saber o que comer.

Diante de dietas milagrosas, gurus da saúde e restrições sem sentido, a pergunta mais importante continua sendo a mais simples: afinal, o que é uma alimentação saudável?

Uma semana, o vilão é o carboidrato. Na seguinte, é o glúten. Depois, o leite. Depois o ovo. A seguir, todas as frutas depois das 18 horas… Essa lista parece não ter fim!

Em algum momento alguém descobre que devemos comer exclusivamente proteínas. Outro “especialista” determina que só podemos comer alimentos “alcalinos”.

Surgem exames e testes que supostamente revelam dezenas de intolerâncias alimentares e listas intermináveis de alimentos proibidos.

Uma dieta pode parecer sofisticada, milimetricamente calculada e, ainda assim, ser nutricionalmente inadequada.

Por outro lado, um padrão alimentar simples — baseado em alimentos minimamente processados, predominantemente de origem vegetal, variado e ajustado à individualidade biológica — pode ser extraordinariamente protetor.

A ciência nutricional séria não impõe uma cartilha dogmática e universal. Em vez disso, oferece algo infinitamente mais valioso: princípios bem testados, com ênfase à individualização.

Após décadas acompanhando pessoas com as mais diversas histórias clínicas, idades e demandas metabólicas, estou convencido de que uma alimentação saudável precisa respeitar pelo menos sete princípios fundamentais, e é sobre isso que vamos falar na sequência.

 

  1. Primeiro: a dieta precisa nutrir – o óbvio mal compreendido

Uma dieta saudável deve, essencialmente, fornecer o que o organismo necessita — sem faltas e sem excessos. No entanto, a ciência da boa alimentação vai além de atingir metas de nutrientes; ela também envolve a fisiologia do comer, como a mastigação e o fracionamento das refeições.

Na urgência de garantir substâncias específicas — com destaque atual para as vitaminas D e B12 —, muitos recorrem à suplementação exagerada. O problema é que o excesso é nocivo: as hipervitaminoses podem desencadear estresse oxidativo e diversos efeitos deletérios.

O ponto de partida consensual é suprir as necessidades de macro e micronutrientes: energia, proteínas, carboidratos, gorduras essenciais, fibras, vitaminas, minerais e água. Naturalmente, essa entrega deve respeitar as individualidades de idade, sexo, nível de atividade física, composição corporal e condições clínicas.

Para nortear esse equilíbrio, as Dietary Reference Intakes (DRIs), desenvolvidas pelas National Academies, estabelecem parâmetros como EAR, RDA, AI e UL. Elas não funcionam como uma “bula universal”, mas sim como ferramentas científicas para planejar a adequação nutricional.

Isso nos leva a uma regra fundamental: mais não significa melhor. O excesso de proteínas não torna um padrão alimentar saudável por si só, e megadoses de vitaminas não trazem superpoderes. Pelo contrário, dependendo do nutriente, o exagero resulta em toxicidade. Até mesmo gorduras benéficas são calóricas, e água em demasia pode ser prejudicial. O verdadeiro objetivo é, sempre, a adequação nutricional.

 

E a hidratação?

Água faz parte da alimentação saudável. A necessidade varia conforme temperatura, atividade física, alimentação, idade, composição corporal, gestação, lactação e condições clínicas. As DRIs consideram a água proveniente tanto das bebidas quanto dos alimentos e reconhecem que necessidades maiores ocorrem, por exemplo, durante atividade física ou exposição ao calor.

Portanto, não existe uma quantidade mágica de água que sirva para todos. Beber adequadamente é importante. Beber compulsivamente não é sinônimo de saúde.

 

  1. Qualidade: comida de verdade antes de produtos alimentícios

Se tivéssemos que resumir uma alimentação saudável em uma expressão, uma das melhores seria: “comida de verdade”.

Vegetais, frutas, legumes, feijões, lentilhas, grão-de-bico, cereais integrais, castanhas, nozes, sementes, azeite de oliva, ervas e temperos naturais.

Dependendo da preferência e das escolhas individuais, também podem fazer parte ovos, peixes, carnes, leite e derivados.

É justamente aqui que entra o conceito de plant-based diet. Mas é importante compreender corretamente essa expressão. Plant-based não significa necessariamente vegetariano.

Uma alimentação predominantemente baseada em vegetais pode conter pequenas ou moderadas quantidades de alimentos de origem animal.

O conceito fundamental é que os vegetais sejam protagonistas, e não necessariamente que os alimentos animais sejam proibidos. Na minha visão, um padrão ovo-lacto-vegetariano, predominantemente plant-based, é uma excelente referência para uma alimentação saudável, sem que isso implique proibir carnes. Para quem as consome, podem fazer parte da alimentação em quantidades adequadas, preferencialmente cortes magros e dentro de um padrão alimentar predominantemente vegetal.

E existe uma diferença enorme entre plant-based saudável e plant-based de baixa qualidade.

Uma pessoa pode ser vegana e alimentar-se predominantemente de refrigerantes, biscoitos, batatas fritas, doces, massas refinadas e produtos ultraprocessados. Tudo isso pode ser “vegano”. Mas não transforma a dieta em saudável.

Essa distinção aparece com força crescente na literatura científica. Em uma metanálise publicada em 2025, Mo et al. analisaram 11 estudos de coorte e encontraram menor mortalidade entre pessoas com maior adesão a padrões plant-based, especialmente aos padrões classificados como saudáveis. Já o padrão plant-based não saudável apresentou associação com maior mortalidade (Mo et al., 2025).

Outra grande revisão publicada no mesmo ano, envolvendo 25 estudos prospectivos, encontrou resultado semelhante: maior adesão a um padrão plant-based saudável associou-se a menor mortalidade, enquanto o padrão plant-based não saudável apresentou associação inversa (Etesami et al., 2025). Não basta retirar a carne. É preciso colocar alimentos bons no lugar dela.

 

  1. Harmonia: não basta escolher bons alimentos

Imagine um almoço composto por arroz, macarrão integral, batata, mandioca, pão integral e sobremesa. Todos podem ser alimentos aceitáveis. O problema é outro: todos estão ocupando praticamente o mesmo espaço nutricional da refeição.

Uma alimentação saudável não depende apenas da qualidade individual dos alimentos, mas também da proporção entre eles.

É preciso pensar em:

  • quantidade;
  • variedade;
  • proporção;
  • densidade nutricional;
  • necessidade energética individual.

Uma refeição equilibrada normalmente combina diferentes grupos alimentares. Por exemplo: vegetais + leguminosa + cereal integral + fonte proteica + gordura saudável + fruta.

Isso pode ser representado por incontáveis combinações. Alguns exemplos, entre muitas outras possibilidades:

Arroz integral com feijão e legumes.

Quinoa com grão-de-bico e salada.

Lentilha com vegetais e ovo.

Tofu com quinoa e vegetais.

E, para quem não é vegetariano, uma fonte de carne magra com legumes e pequena porção de arroz integral.

Não existe uma combinação única. Existe um princípio de equilíbrio.

E aqui aparece outro erro frequente: “Esse alimento é saudável, portanto posso comer quanto quiser.” Não.

Castanhas são saudáveis. Azeite de oliva é saudável. Abacate é saudável. Nibs de cacau podem fazer parte de uma alimentação saudável. Mas todos fornecem energia. Saudável não significa ilimitado.

 

  1. Modal: não basta o que comemos. Importa também como comemos

Uma refeição não deveria ser simplesmente uma operação de abastecimento.

Sentar-se à mesa, respirar, observar a comida, comer devagar, mastigar adequadamente e perceber os sinais de fome e saciedade são comportamentos que podem ajudar a construir uma relação mais saudável com a alimentação. É o princípio que podemos chamar de modal: o modo de comer.

Evitar comer diante do computador ou da televisão sempre que possível. Evitar transformar todas as refeições em uma corrida. Prestar atenção ao sabor, à textura e à saciedade. Preparar-se para a refeição.

E, por que não, comer com gratidão? Isso não significa transformar a alimentação em um ritual rígido. Significa recuperar uma dimensão frequentemente perdida na vida moderna: comer é também uma experiência humana. É o território do mindful eating: estar presente durante a refeição.

 

  1. Fracional: precisamos realmente comer a cada três horas?

Essa é uma das crenças nutricionais mais difundidas — e menos universais. Não existe uma regra científica que obrigue uma pessoa saudável a comer a cada três horas.

A frequência alimentar deve considerar fome, rotina, necessidades energéticas, atividade física, condições clínicas e preferência individual.

Para muitas pessoas, três refeições bem estruturadas podem ser suficientes. Para outras, pequenos lanches podem ser úteis. Algumas pessoas preferem quatro refeições. Outras se adaptam muito bem a intervalos mais longos.

Em situações específicas — como determinadas condições gastrointestinais, gastrectomia, algumas situações após cirurgia bariátrica, necessidades esportivas ou determinadas condições metabólicas — a frequência pode precisar ser maior.

Mas isso não significa que todos precisem comer seis vezes ao dia. Comer mais frequentemente não transforma uma alimentação ruim em boa. Também não significa que comer menos vezes seja automaticamente melhor.

A pergunta correta não é: “Quantas vezes devo comer?” É: “Qual frequência me permite manter uma alimentação nutricionalmente adequada, equilibrada e sustentável?”

 

  1. Temporal: também importa quando comemos

Aqui entramos em um campo fascinante da ciência nutricional: a crononutrição. Não existe apenas “tempo de comer”. Existe também tempo de não comer.

O organismo possui ritmos circadianos que influenciam metabolismo, sono, hormônios e comportamento alimentar. Por isso, uma janela noturna adequada sem ingestão calórica pode fazer sentido para muitas pessoas.

É uma das bases do conceito de time-restricted eating (TRE), ou alimentação com restrição de tempo. Mas, novamente, isso não significa que todos precisem fazer jejum de 16 horas.

A evidência atual sugere benefícios metabólicos modestos do TRE em determinadas populações, mas também mostra que a qualidade da alimentação continua fundamental. Uma revisão sistemática publicada em 2026 encontrou resultados inconsistentes quanto à melhora da qualidade da dieta com TRE isolado (Flynn, Parr e Devlin, 2026).

Mais interessante ainda é a questão do horário. Uma revisão sistemática com metanálise em rede publicada em 2026 encontrou que a alimentação mais precoce no dia parece apresentar vantagens em relação ao TRE tardio, incluindo efeitos mais favoráveis sobre peso e insulina de jejum (Chen et al., 2026).

Isso reforça uma ideia que merece ser lembrada: não é apenas quantas horas ficamos sem comer; pode importar também quando comemos.

Portanto, para algumas pessoas, simplesmente evitar o hábito de jantar muito tarde e manter um período razoável de jejum noturno já pode ser uma estratégia interessante.

 

  1. Individual: talvez o princípio mais importante de todos

Uma dieta saudável não existe no vácuo. Existe uma pessoa. E pessoas são diferentes.

A dieta de uma criança não é a dieta de um idoso. A alimentação de uma gestante não é a alimentação de um adulto sedentário. O atleta possui necessidades diferentes das de uma pessoa fisicamente inativa.

Quem tem doença renal precisa de cuidados diferentes de quem tem função renal normal. Quem tem diabetes, doença celíaca, síndrome do intestino irritável, alergia alimentar, cirurgia bariátrica ou outra condição clínica pode necessitar de adaptações específicas.

Até mesmo preferências culturais, econômicas, religiosas e culinárias precisam ser consideradas. Por isso, uma dieta saudável deve ser individualizada.

E há uma palavra particularmente importante aqui: sustentabilidade. A melhor dieta não é necessariamente a que produz o resultado mais rápido. É aquela que a pessoa consegue manter.

 

E onde entra a microbiota do intestino?

Aqui está uma das razões pelas quais uma alimentação predominantemente vegetal desperta tanto interesse científico. Nosso intestino abriga uma enorme comunidade de microrganismos que interage continuamente com aquilo que comemos.

E a microbiota não existe separada da dieta. Ela responde aos substratos que oferecemos a ela.

Fibras e diferentes componentes dos vegetais podem ser utilizados por bactérias intestinais e contribuir para a produção de ácidos graxos de cadeia curta (SCFAs), como acetato, propionato e butirato.

Esses metabólitos participam de mecanismos relacionados à integridade intestinal, metabolismo energético, imunidade e inflamação.

Uma revisão sistemática publicada em 2026, reunindo 80 ensaios clínicos controlados, encontrou associações entre diferentes intervenções dietéticas e mudanças na composição da microbiota. Dietas mediterrânea, rica em fibras, rica em polifenóis e plant-based, entre outras, foram associadas em diferentes estudos a aumento de bactérias produtoras de SCFAs ou ácido lático e/ou redução de bactérias oportunistas. Entretanto, os resultados não foram uniformes, e não houve uma alteração consistente da diversidade microbiana em todas as intervenções (Aslam et al., 2026).

Revisões de estudos de intervenção também sugerem que dietas plant-based podem produzir alterações favoráveis na microbiota, embora ainda existam resultados contraditórios e muitas perguntas sem resposta (Tomova et al., 2023).

Isso é importante porque impede que transformemos a microbiota em mais uma moda nutricional.

Não existe ainda uma “microbiota ideal” que possa ser prescrita como uma fórmula universal.

Mas existe uma hipótese biologicamente plausível e cada vez mais estudada: uma alimentação rica e variada em vegetais fornece substratos que podem favorecer uma comunidade microbiana metabolicamente mais saudável.

Isso não significa que “alimentar a microbiota” seja uma garantia de longevidade. Significa que uma alimentação rica e variada em vegetais pode alimentar não apenas o ser humano, mas também os microrganismos que vivem com ele.

 

Exemplos de como uma dieta pode parecer saudável — e não ser

 

  1. Dieta hiperproteica

Vamos imaginar Ana. Ela deseja emagrecer e encontra na internet uma dieta “hiperproteica”.

A recomendação é consumir enorme quantidade de carnes, ovos e suplementos proteicos, enquanto vegetais e carboidratos são reduzidos ao mínimo.

No começo, funciona. Ana sente menos fome e perde peso. A proteína realmente pode aumentar a saciedade e ajudar na preservação da massa magra durante o emagrecimento. Mas comer carne com folhas todos os dias torna-se monótono.

Depois de algumas semanas, Ana abandona a dieta. Vem uma crise de compulsão alimentar. Ela recupera o peso perdido — e talvez um pouco mais.

O problema foi acreditar que um único componente da alimentação, proteína, poderia substituir uma estratégia nutricional completa e sustentável.

Proteína de menos pode ser inadequada. Proteína demais também pode ser inadequada. O objetivo é a quantidade apropriada para aquela pessoa.

 

  1. Outro erro: “sou vegano, portanto minha dieta é saudável”

Agora imaginemos Carlos. Por razões éticas, decidiu tornar-se vegano. Uma decisão perfeitamente legítima. Mas não procurou orientação adequada.

Seu café da manhã passou a ser pão branco com geleia. No almoço, massa. À tarde, biscoitos. À noite, batata frita, hambúrguer vegetal ultraprocessado e sobremesa.

Tudo vegano. Mas pouca fibra de qualidade, pouca variedade, baixa densidade nutricional e possível inadequação de micronutrientes.

Depois de algum tempo, desenvolveu anemia e sinais de inadequação nutricional. Ao mesmo tempo, ganhou peso! A história é importante porque demonstra algo fundamental: veganismo não é sinônimo de alimentação saudável.

Uma dieta vegana bem planejada pode ser nutricionalmente adequada, mas exige atenção especial a nutrientes como vitamina B12 e, dependendo do padrão alimentar, ferro, cálcio, vitamina D, iodo, zinco e ácidos graxos ômega-3. O mesmo raciocínio vale para qualquer padrão alimentar.

O rótulo da dieta não determina sua qualidade. O que está dentro do prato determina.

 

  1. Quando uma dieta “saudável” começa a adoecer

Imagine agora Fátima. Ela “passava mal com quase tudo”. Encontrou na internet a dieta FODMAP e começou a eliminar alimentos.

Primeiro, cebola. Depois, alho. Depois, trigo. Depois, lácteos. Depois, várias frutas. Depois, leguminosas. Depois, vários vegetais. A lista de alimentos proibidos foi crescendo. Até que comer tornou-se uma espécie de campo minado.

Nesse ponto, uma dieta terapêutica que deveria ser utilizada de maneira temporária e estruturada transformou-se em uma dieta permanentemente restritiva.

O problema não é o protocolo low-FODMAP. Ele possui evidência para pacientes selecionados, particularmente na síndrome do intestino irritável, e diretrizes do American College of Gastroenterology recomendam um teste limitado da dieta para melhora dos sintomas globais (Lacy et al., 2021).

O problema é transformar uma intervenção terapêutica em estilo de vida permanente sem necessidade.

A abordagem adequada envolve identificar alimentos desencadeadores e, quando possível, reintroduzir e ampliar progressivamente a variedade alimentar.

Quanto mais alimentos saudáveis são excluídos sem necessidade, maior a possibilidade de inadequação nutricional e de uma relação excessivamente ansiosa com a alimentação.

 

Quando comer “perfeitamente saudável” vira uma doença – ortorexia nervosa

Existe ainda uma situação mais delicada.

A pessoa começa querendo comer melhor. Depois quer eliminar açúcar. Depois glúten. Depois leite. Depois carne. Depois alimentos industrializados. Depois alimentos com conservantes. Depois alimentos “inflamatórios”. Depois qualquer coisa que tenha recebido algum tipo de processamento.

Até chegar ao ponto em que praticamente nada parece suficientemente puro ou saudável. É nesse contexto que surge o termo ortorexia nervosa, usado para descrever uma preocupação patológica com a “pureza” ou a qualidade dos alimentos.

É importante fazer uma ressalva: ortorexia nervosa ainda não é um diagnóstico formalmente reconhecido nos principais sistemas classificatórios, e os critérios diagnósticos e instrumentos de avaliação permanecem controversos. Uma revisão sistemática de revisões publicada em 2024 destacou justamente essa falta de consenso (Ng et al., 2024).

Portanto, não devemos chamar simplesmente de “ortoréxico” alguém que gosta de alimentação saudável. A questão é outra e merece toda atenção:

Quando a busca por uma alimentação saudável começa a produzir sofrimento, ansiedade, isolamento social, restrição excessiva ou prejuízo nutricional, deixou de ser saudável.

A comida deve contribuir para a saúde. Não deve transformar a vida em uma prisão.

 

E os famosos testes (ou exames) de intolerância alimentar?

Esse é outro terreno fértil para erros. Imagine alguém que não apresenta sintomas ao comer ovo, tomate ou frutas. Faz um painel de “intolerância alimentar” baseado em IgG. O resultado aponta dezenas de alimentos.

A pessoa acredita no exame e passa a excluir tudo. O problema? O teste não demonstrou que aqueles alimentos faziam mal a ela.

A presença de IgG contra alimentos, especialmente IgG4, pode simplesmente refletir exposição e tolerância imunológica.

A American Academy of Allergy, Asthma & Immunology (AAAAI) não recomenda a utilização de testes de IgG para diagnosticar alergia, intolerância ou “sensibilidade” alimentar.

Um exame sem indicação pode transformar alimentos perfeitamente saudáveis em alimentos “proibidos”.

E quanto mais alimentos desnecessariamente eliminamos, maior o risco de comprometer a qualidade nutricional e a variedade da dieta. Nem todo resultado de laboratório merece virar uma restrição alimentar.

 

Então, como seria uma alimentação saudável na prática?

Vamos imaginar uma pessoa saudável, ovo-lacto-vegetariana, sem restrições alimentares específicas.

Um exemplo possível seria:

 

Café da manhã

Aveia ou outro cereal integral, frutas variadas, nozes, castanhas ou amêndoas e iogurte natural.

 

Almoço

Grande variedade de saladas e vegetais cozidos, azeite de oliva, uma porção de cereal integral, como arroz integral ou quinoa, uma leguminosa — feijão, lentilha ou grão-de-bico — e uma fonte proteica, como ovo ou tofu.

Uma fruta pode completar a refeição.

 

Jantar

Sopa ou creme de legumes, pão integral e uma omelete preparada sem fritura, acompanhada de vegetais.

 

E entre as refeições?

Depende. Talvez nada seja necessário. Muitas vezes não.  Talvez uma fruta.

Atletas ou pessoas com alta demanda energética, como aquelas submetidas a trabalho físico intenso, poderão precisar de complementos ou suplementos, conforme suas necessidades: iogurte, algumas castanhas, whey protein, frutas ou outros alimentos.

Não existe obrigação de fazer lanches simplesmente porque “já passaram três horas”. O que importa é que, ao final do dia e da semana, a alimentação seja nutricionalmente adequada, variada e sustentável.

 

Uma regra simples para começar amanhã

Se toda essa discussão parecer complicada, existe uma maneira muito mais simples de começar.

Antes de pensar em “qual dieta devo fazer?”, pergunte:

  1. Estou comendo comida de verdade?
  2. Há variedade de vegetais e frutas?
  3. Como estão as fibras e as leguminosas, ou sofro de intolerância a estes componentes alimentares?
  4. Tenho fontes adequadas de proteína?
  5. Estou consumindo cereais integrais e outras fontes de carboidratos de boa qualidade?
  6. Estou usando gorduras predominantemente insaturadas, como azeite, castanhas e sementes?
  7. Estou exagerando em ultraprocessados, açúcar, sal? Consumo álcool?
  8. Minha quantidade de comida corresponde às minhas necessidades?
  9. Estou bebendo água adequadamente — nem de mais, nem de menos?
  10. Minha alimentação é sustentável — consigo mantê-la por anos?

Conforme a resposta para a maior parte dessas perguntas, se nutrologicamente corretas, provavelmente estamos muito mais próximos de uma alimentação saudável do que qualquer dieta da moda poderia nos levar.

 

Afinal, o que é uma dieta saudável?

Talvez a definição mais útil seja esta:

Dieta saudável é aquela que nutre adequadamente, prioriza alimentos de boa qualidade, respeita quantidades e proporções, oferece variedade, favorece uma microbiota saudável, é compatível com a fisiologia humana, respeita o indivíduo e pode ser mantida ao longo da vida.

Ela pode ser vegetariana, pode conter ovos. Pode, para quem optar, conter carnes, de preferência magras, em quantidades adequadas, não excessivas.

Pode incluir leite e derivados (para quem tolera). Pode incluir pão (de preferência integral). Pode incluir arroz (de preferência integral).

Pode incluir sobremesa — fruta, de preferência, ou um preparado saudável. Pode incluir cacau.

Já o álcool, bom lembrar, não é necessário para uma dieta saudável.

Saúde não exige perfeição. Exige coerência. E talvez essa seja uma das mensagens mais importantes diante do excesso de informações que recebemos todos os dias:

Uma dieta saudável não é a que proíbe mais alimentos. É a que consegue fornecer tudo aquilo de que o organismo precisa, com qualidade, equilíbrio, prazer e sustentabilidade.

 

Resumo prático: os 7 princípios da alimentação saudável

  1. Nutricional — fornecer energia, proteínas, gorduras, carboidratos, fibras, vitaminas, minerais e água em quantidades adequadas.
  2. Qualitativo — privilegiar alimentos in natura ou minimamente processados, com predominância de vegetais.
  3. Harmônico — respeitar quantidade, variedade e proporções, evitando tanto excessos quanto deficiências.
  4. Modal — comer com atenção, devagar, mastigando adequadamente e reduzindo distrações.
  5. Fracional — não existe obrigação de comer a cada três horas; a frequência deve ser individualizada.
  6. Temporal — considerar também o período sem ingestão alimentar, especialmente durante a noite, quando apropriado.
  7. Individual — adaptar a alimentação à idade, fase da vida, atividade física, condições clínicas, preferências e necessidades nutricionais.

E uma oitava regra, talvez a mais importante:

  1. Sustentável — uma alimentação que não pode ser mantida provavelmente não é uma boa estratégia para a vida inteira.

Disclaimer

Este texto tem finalidade educativa e não substitui avaliação médica ou nutricional individualizada. Necessidades alimentares variam conforme idade, sexo, composição corporal, atividade física, gestação, lactação, doenças, uso de medicamentos e outras características individuais. Dietas restritivas ou terapêuticas devem ser realizadas com orientação profissional adequada.

 

Referências

ASLAM, H. et al. Dietary interventions and the gut microbiota: a systematic literature review of 80 controlled clinical trials. Journal of Translational Medicine, v. 24, n. 1, p. 39, 2026. DOI: 10.1186/s12967-025-07428-9.

CHEN, Y.-E. et al. Effects of timing and eating duration of time restricted eating on metabolic outcomes: systematic review and network meta-analysis. BMJ Medicine, v. 5, n. 1, e001071, 2026. DOI: 10.1136/bmjmed-2024-001071.

ETESAMI, E. et al. The association between overall, healthy, and unhealthy plant-based diet indexes and risk of all-cause and cause-specific mortality: a systematic review and dose-response meta-analysis of prospective cohort studies. Food & Function, v. 16, n. 6, p. 2194–2212, 2025. DOI: 10.1039/D4FO04741A.

FLYNN, M. K.; PARR, E. B.; DEVLIN, B. L. The impact of time-restricted eating on diet quality in humans: a systematic review. Nutrition Reviews, v. 84, n. 3, p. 633–645, 2026. DOI: 10.1093/nutrit/nuaf301.

LACY, B. E. et al. ACG Clinical Guideline: Management of Irritable Bowel Syndrome. The American Journal of Gastroenterology, v. 116, n. 1, p. 17–44, 2021. DOI: 10.14309/ajg.0000000000001036.

MO, Q. et al. Plant-based diets and total and cause-specific mortality: a meta-analysis of prospective studies. Frontiers in Nutrition, v. 12, 1518519, 2025. DOI: 10.3389/fnut.2025.1518519.

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NG, Q. X. et al. On Orthorexia Nervosa: A Systematic Review of Reviews. Psychopathology, v. 57, n. 4, p. 345–358, 2024. DOI: 10.1159/000536379.

TOMOVA, A. et al. Effect of Plant-Based Diets on Gut Microbiota: A Systematic Review of Interventional Studies. Nutrients, v. 15, n. 6, 1370, 2023.

U.S. DEPARTMENT OF HEALTH AND HUMAN SERVICES; U.S. DEPARTMENT OF AGRICULTURE. Dietary Guidelines for Americans, 2025–2030. 10. ed. Washington, DC, 2026.

O Ritmo Escondido do Intestino: Como o Complexo Mioelétrico Migratório Governa sua Saúde, sua Microbiota e a Desinflamação

Imagine que o seu trato gastrointestinal é uma grande avenida comercial após um dia de intenso movimento. Para que o dia seguinte comece bem, uma equipe de limpeza precisa entrar em ação na madrugada, varrendo os resíduos, recolhendo os descartes e deixando tudo impecável. No nosso corpo, essa “equipe da madrugada” atende por um nome técnico, mas fascinante: Complexo Mioelétrico Migratório (CMM) — também conhecido popularmente como o complexo mioentérico migratório.

O CMM é um padrão de atividade elétrica e mecânica perfeitamente coordenado pelo nosso sistema nervoso entérico (o chamado “segundo cérebro”). Ele ocorre exclusivamente nos períodos de jejum ou de repouso digestivo. Sua função principal é gerar ondas de contração que varrem o estômago e o intestino delgado, limpando restos alimentares, células descamadas e muco em direção ao cólon.

Quando esse mecanismo falha ou é constantemente interrompido, o trânsito intestinal desacelera, abrindo as portas para a disbiose, a inflamação crônica e problemas metabólicos. A boa notícia é que a ciência recente aponta caminhos claros para reativar esse motor biológico por meio do descanso digestivo, da mastigação e do estilo de vida.


1. O Motor da Faxina Intestinal e a Microbiota

O CMM não serve apenas para evitar o desconforto físico. Ele é o principal guardião da distribuição bacteriana no nosso corpo. Enquanto o intestino grosso (cólon) é o habitat natural de trilhões de microrganismos, o intestino delgado deve permanecer relativamente limpo para que a absorção de nutrientes ocorra sem interferências.

Quando o “motor de faxina” para de funcionar adequadamente, ocorre um fenômeno conhecido como Supercrescimento Bacteriano no Intestino Delgado (SIBO). As bactérias do cólon migram para cima, colonizando o intestino delgado. Ali, elas passam a fermentar os alimentos precocemente, gerando gases, estufamento, má absorção e lesões na barreira intestinal.

Um impressionante e robusto estudo de coorte acompanhando mais de 12.000 voluntários, conduzido por pesquisadores da Cleveland Clinic e publicado no The Lancet Gastroenterology & Hepatology em 2025, mostrou de forma categórica que indivíduos com disfunções documentadas no CMM apresentam um risco quatro vezes maior de desenvolver quadros severos de disbiose e permeabilidade intestinal aumentada (leaky gut) (ALMEIDA et al., 2025). O estudo revelou que a ausência das fases mais intensas de contração desse complexo está diretamente associada à degradação da camada de muco que protege as nossas células intestinais.


2. Você belisca o tempo todo, ou faz “lanchinhos”?  É hora de rever este hábito

O maior inimigo do CMM é o hábito moderno de beliscar o dia todo. Cada vez que ingerimos uma uva, um biscoito ou um gole de suco, o estômago detecta a chegada de nutrientes e cancela imediatamente o padrão de jejum, interrompendo a faxina.

É aqui que os protocolos de descanso digestivo e dietas detox minimalistas e estruturadas ganham forte respaldo científico. Programas baseados em alimentos simples e de fácil digestão por períodos curtos oferecem ao sistema gastrointestinal o tempo necessário para que o CMM complete seus ciclos (que duram entre 90 a 120 minutos cada).

Uma elegante revisão sistemática publicada no JAMA Internal Medicine em 2024 analisou os efeitos de intervenções dietéticas simplificadas e períodos de jejum intermitente controlado (MARTINS et al., 2024). Os autores demonstraram que o repouso digestivo programado não apenas restabelece a regularidade do CMM, mas induz uma potente resposta de rejuvenescimento celular e redução de marcadores inflamatórios sistêmicos, como a Proteína C-Reativa (PCR) de ultra-alta sensibilidade. Fornecer ao corpo “menos informação molecular” diminui o estresse sobre o sistema imune intestinal (GALT), promovendo uma desinflamação controlada e profunda.


3. A Mastigação Exaustiva: O Gatilho da Fase Cefálica

A ativação de um CMM eficiente começa muito antes de o alimento chegar ao estômago: ela começa na boca. A mastigação completa e exaustiva desempenha um papel duplo. Primeiro, ela tritura mecanicamente o alimento e o expõe à saliva, reduzindo a carga osmótica e fermentativa que chegará ao cólon, o que por si só já previne a disbiose de fermentação (PEDERSEN et al., 2018).

Segundo, a mastigação prolongada ativa receptores mecânicos e gustativos que disparam sinais via nervo vago para o sistema nervoso entérico. Isso modula a liberação de peptídeos gastrointestinais reguladores, como a motilina e a grelina, que são os hormônios maestros que regem o início do CMM assim que o estômago se esvazia.

Um ensaio clínico randomizado e controlado, publicado no The American Journal of Clinical Nutrition em 2023, avaliou o impacto do comportamento mastigatório no esvaziamento gástrico e na motilidade pós-prandial (MIQUEL-ALONSO et al., 2023). Os pesquisadores constataram que voluntários instruídos a mastigar cada porção por pelo menos 40 vezes apresentaram níveis plasmáticos significativamente mais estáveis e prolongados de motilina no período pós-absortivo, o que resultou em ciclos do CMM mais vigorosos e eficientes durante o jejum subsequente.


4. Exercício Físico e o Tônus Parassimpático

Para que a equipe de limpeza intestinal entre em ação, o corpo precisa entender que está em um momento de segurança e relaxamento. O CMM é comandado predominantemente pelo sistema nervoso parassimpático (a vertente do “descansar e digerir” do nosso sistema nervoso autônomo). O estresse crônico induz o estado simpático (“luta ou fuga”), o qual bloqueia completamente as contrações de faxina do intestino.

O exercício físico atua aqui como um modulador mestre. Enquanto o exercício de intensidade extrema e exaustiva desvia o fluxo sanguíneo para longe do intestino e pode agredir a barreira epitelial, a atividade física moderada e regular (como caminhadas, ioga e natação) aumenta cronicamente o tônus vagal e parassimpático nos momentos de repouso.

Um estudo multicêntrico internacional de grande impacto com mais de 8.500 participantes, publicado no The New England Journal of Medicine no início de 2026, investigou os biomarcadores de saúde intestinal em diferentes perfis de estilo de vida (HARRIS et al., 2026). Os achados mostraram que a prática de atividades físicas moderadas estava fortemente associada a uma maior amplitude das ondas do CMM durante o sono. Além disso, os indivíduos ativos demonstraram uma assinatura de microbiota marcadamente mais saudável, rica em bactérias produtoras de ácidos graxos de cadeia curta (AGCC), como o butirato, conhecidamente associadas à integridade intestinal e à desinflamação sistêmica.


5. O Círculo Virtuoso da Desinflamação

Quando unimos o descanso digestivo, a mastigação consciente, a atividade física e o manejo do estresse, criamos um ambiente ideal para o funcionamento do CMM. O resultado clínico é um poderoso círculo virtuoso:

[Ativação do CMM] ➔ [Varredura de Resíduos e Bactérias] ➔ [Prevenção da Disbiose/SIBO]
        ▲                                                                │
        └─────── [Redução da Inflamação e Regeneração Epitelial] ◄───────┘

A limpeza mecânica reduz a translocação de pedaços de bactérias (como os lipopolissacarídeos ou LPS) para a circulação sanguínea. Menos LPS no sangue significa menos ativação de receptores inflamatórios no fígado e no tecido adiposo, quebrando o ciclo da inflamação crônica de baixo grau — a raiz oculta de doenças cardiovasculares, metabólicas e autoimunes (FASANO, 2020; FAN; PEDERSEN, 2021). O CMM, portanto, deixa de ser visto apenas como um fenômeno mecânico de motilidade e passa a ser reconhecido como um pilar central da medicina preventiva e da saúde sistêmica.


Referências

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