Aprenda a usar o FRAX, uma calculadora gratuita que estima seu risco de fraturas nos próximos 10 anos
Você sabia que é possível estimar seu risco de sofrer uma fratura por osteoporose, mesmo sem ter feito uma densitometria óssea?
Existe uma ferramenta científica, gratuita e relativamente simples chamada FRAX, desenvolvida por pesquisadores da Universidade de Sheffield, no Reino Unido.
Ela permite calcular a probabilidade de sofrer determinadas fraturas nos próximos dez anos, levando em consideração a idade, o peso, a altura, o histórico de fraturas e outros fatores relacionados à saúde.
O FRAX pode ajudar tanto pessoas com osteopenia quanto aquelas com osteoporose ou que ainda não sabem como está sua densidade óssea.
- O que é o FRAX?
O FRAX (Fracture Risk Assessment Tool) é uma ferramenta desenvolvida para estimar o risco de fraturas relacionadas à fragilidade óssea.
Segundo Kanis e colaboradores (2008), que participaram de seu desenvolvimento, a combinação de diferentes fatores clínicos permite avaliar melhor o risco de fraturas do que considerar apenas a densidade mineral óssea.
A ferramenta calcula duas probabilidades:
- Fratura osteoporótica maior: possibilidade de sofrer uma fratura no quadril, na coluna vertebral, no punho ou no ombro, nos próximos dez anos.
- Fratura de quadril: probabilidade específica de ocorrer uma fratura nessa região, particularmente importante por suas possíveis consequências sobre a mobilidade e a independência.
O FRAX utiliza modelos adaptados à realidade epidemiológica de diferentes países, incluindo o Brasil (ZERBINI et al., 2015).
- Onde posso calcular meu risco?
Você pode utilizar gratuitamente a versão oficial do FRAX, disponível em português:
Acessar a calculadora oficial FRAXplus
Para residentes no Brasil, também recomendamos consultar a página da Associação Brasileira de Avaliação Óssea e Osteometabolismo (ABRASSO):
Acessar o FRAX Brasil 2.0 — ABRASSO
A ferramenta brasileira permite interpretar os resultados considerando referências e critérios de avaliação utilizados no país.
- Como utilizar o FRAX: passo a passo
O preenchimento é simples e pode ser realizado em poucos minutos.
Passo 1 — Escolha o país
Selecione o continente América do Sul e o país Brasil. Essa escolha é importante porque a frequência de fraturas varia entre as populações.
Passo 2 — Informe seus dados
Preencha sua idade, sexo, peso em quilogramas e altura em centímetros.
A calculadora foi desenvolvida para avaliar pessoas entre 40 e 90 anos.
Passo 3 — Responda às perguntas sobre sua saúde
A ferramenta perguntará se você:
- Já sofreu uma fratura após um pequeno trauma, como uma queda da própria altura.
- Tem pai ou mãe que sofreu fratura de quadril.
- Fuma atualmente.
- Utiliza ou utilizou corticoides orais por tempo prolongado.
- Tem artrite reumatoide.
- Apresenta alguma doença associada à osteoporose secundária.
- Consome três ou mais unidades de bebida alcoólica por dia.
Responda cuidadosamente, pois essas informações influenciam o cálculo.
Passo 4 — Informe a densitometria, se tiver
Se você possui uma densitometria óssea, poderá inserir o valor da densidade mineral óssea do colo do fêmur, em g/cm², conforme o equipamento utilizado.
É importante não confundir esse valor com a densidade da coluna ou de outras regiões.
Se não tiver feito densitometria, deixe o campo sem preencher. O FRAX também calcula o risco sem esse exame.
Passo 5 — Clique em “Calcular”
O sistema apresentará duas porcentagens: o risco de fratura osteoporótica maior e o risco específico de fratura de quadril nos próximos dez anos.
Esses valores são estimativas estatísticas, não uma previsão de que você necessariamente sofrerá uma fratura.
- Como entender o resultado?
Imagine que a calculadora apresente os seguintes resultados:
| Resultado hipotético | O que significa? |
| Fratura osteoporótica maior: 10% | Entre 100 pessoas com características semelhantes, aproximadamente 10 poderão sofrer uma dessas fraturas em dez anos |
| Fratura de quadril: 3% | Entre 100 pessoas com características semelhantes, aproximadamente 3 poderão sofrer uma fratura de quadril no mesmo período |
Esses números são apenas exemplos para explicar as porcentagens, não resultados calculados para uma pessoa específica.
É importante compreender que um risco de 10% não significa que a pessoa terá uma fratura, mas também não significa que o risco deva ser ignorado.
O médico avaliará se o resultado é baixo, intermediário, alto ou muito alto, considerando a idade, a densitometria, o histórico clínico e os critérios recomendados para o Brasil.
- Um exemplo real apresentado pela ABRASSO
A Associação Brasileira de Avaliação Óssea e Osteometabolismo apresenta um exemplo interessante de como interpretar e ajustar o risco de fraturas.
Considere uma mulher de 65 anos, com artrite reumatoide, em uso de corticoide oral e índice de massa corporal (IMC) de 25 kg/m², sem outros fatores de risco considerados no exemplo.
O cálculo básico do FRAX apresenta:
- 6,9% de probabilidade de fratura osteoporótica maior em dez anos.
- 2,1% de probabilidade de fratura de quadril no mesmo período.
Entretanto, existe um detalhe importante: essa mulher utiliza corticoide, e a dose do medicamento pode aumentar o risco.
Se estiver utilizando uma dose elevada, equivalente a pelo menos 7,5 mg diários de prednisolona, a ABRASSO orienta que o profissional considere um ajuste das probabilidades.
Nesse exemplo, os resultados passariam a ser:
|
Risco em 10 anos |
FRAX inicial | FRAX ajustado |
| Fratura osteoporótica maior | 6,9% | 7,9% |
| Fratura de quadril | 2,1% | 2,5% |
Fonte: exemplo disponibilizado pela ABRASSO no FRAX Brasil 2.0.
Esse exemplo demonstra que o risco de fratura depende não apenas da densidade óssea, mas também das doenças e dos medicamentos utilizados.
Ajustes como esse devem ser interpretados pelo médico, pois não se aplicam igualmente a todos os pacientes.
- Tenho osteopenia. Devo me preocupar?
A osteopenia significa que sua densidade óssea está reduzida, mas ainda não atingiu o limite densitométrico utilizado para definir osteoporose.
Entretanto, duas pessoas com osteopenia podem apresentar riscos bastante diferentes.
Uma mulher de 55 anos, ativa, sem fraturas anteriores e com poucos fatores de risco pode ter uma probabilidade relativamente baixa de fraturas.
Já uma mulher de 75 anos, com a mesma classificação densitométrica, histórico de fratura e quedas frequentes, pode apresentar risco muito maior.
Por isso, o FRAX é particularmente útil para identificar pessoas com osteopenia que merecem acompanhamento mais próximo e, eventualmente, tratamento medicamentoso.
Segundo Zerbini e colaboradores (2015), responsáveis pela publicação que descreveu o desenvolvimento do modelo brasileiro, o FRAX permite integrar diversos fatores clínicos e estabelecer parâmetros para orientar decisões terapêuticas.
- O FRAX substitui a consulta médica?
Não. Embora seja uma ferramenta cientificamente fundamentada, o FRAX apresenta limitações.
Ele não considera diretamente todos os fatores que aumentam o risco de fraturas, como quedas recorrentes, fragilidade muscular, determinadas doenças e algumas particularidades das fraturas anteriores.
Também pode subestimar o risco quando a densidade óssea da coluna está muito mais comprometida do que a do colo do fêmur.
A diretriz internacional de Gregson e colaboradores (2025) reforça que a avaliação do risco de fraturas deve integrar os resultados do FRAX com o julgamento clínico.
Portanto, não existe uma porcentagem única que, isoladamente, determine a necessidade de tratamento para todas as pessoas.
Além disso, quem já sofreu uma fratura por fragilidade, especialmente de quadril ou vértebra, deve procurar avaliação médica independentemente de um resultado aparentemente baixo na calculadora.
RESUMO FINAL: CUIDAR DOS OSSOS É PREVENIR FRATURAS
O FRAX é uma ferramenta gratuita, simples e cientificamente fundamentada que ajuda a estimar o risco de determinadas fraturas nos próximos dez anos.
Pode ser utilizado com ou sem densitometria óssea e permite compreender melhor a importância dos fatores de risco individuais.
Entretanto, seu maior valor está em orientar atitudes preventivas e decisões clínicas adequadas.
Conhecer seu risco é o primeiro passo. O mais importante é agir para reduzi-lo, por meio de exercícios físicos apropriados, fortalecimento muscular, alimentação adequada, prevenção de quedas e tratamento médico quando necessário.
Calcule seu risco, compartilhe o resultado com seu médico e lembre-se: preservar a saúde dos ossos significa preservar sua mobilidade, independência e qualidade de vida.
REFERÊNCIAS CIENTÍFICAS
ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE AVALIAÇÃO ÓSSEA E OSTEOMETABOLISMO (ABRASSO). FRAX Brasil 2.0: atualizado e revisado. Disponível em: https://abrasso.org.br/frax-brasil-validacao-app/. Acesso em: 27 out. 2026.
GREGSON, C. L. et al. The 2024 UK clinical guideline for the prevention and treatment of osteoporosis. Archives of Osteoporosis, v. 20, art. 119, 2025. DOI: https://doi.org/10.1007/s11657-025-01588-3.
KANIS, J. A. et al. FRAX and the assessment of fracture probability in men and women from the UK. Osteoporosis International, v. 19, n. 4, p. 385-397, 2008. DOI: https://doi.org/10.1007/s00198-007-0543-5.
ZERBINI, C. A. F. et al. Incidence of hip fracture in Brazil and the development of a FRAX model. Archives of Osteoporosis, v. 10, art. 224, 2015. DOI: https://doi.org/10.1007/s11657-015-0224-5.