O Que a Ciência Realmente Mostra: Benefícios, Riscos e Exageros
Na primeira parte deste artigo, vimos que o jejum acompanha a humanidade há milênios, que o trabalho de Yoshinori Ohsumi revolucionou nossa compreensão da autofagia e que o interesse científico moderno pelo tema cresceu rapidamente nas últimas décadas.
Mas a pergunta que realmente interessa à maioria das pessoas é outra:
O jejum intermitente funciona?
A resposta curta é: sim, em determinadas circunstâncias e para determinados objetivos.
A resposta completa, entretanto, é muito mais interessante.
Mas vale enfatizar que algumas afirmações frequentemente repetidas em redes sociais — como “o jejum aumenta dramaticamente a longevidade humana”, “cura câncer”, ou “ativa autofagia profunda após exatamente X horas” — não possuem atualmente evidência clínica robusta em humanos e serão tratadas criticamente na Parte III, juntamente com a microbiota intestinal e o eixo intestino-cérebro.
Jejum Intermitente Emagrece?
A principal razão pela qual a maioria das pessoas procura o jejum intermitente continua sendo a perda de peso.
As evidências atuais sugerem que ele pode ser uma ferramenta eficaz para emagrecimento, sobretudo quando ajuda o indivíduo a reduzir espontaneamente sua ingestão calórica total.
Entretanto, um detalhe importante costuma ser omitido nas redes sociais:
o jejum não “quebra as leis da fisiologia”.
Em última análise, a perda de peso continua dependendo de um balanço energético negativo, ou seja, gastar mais energia do que se consome ao longo do tempo.
Uma importante revisão sistemática e meta-análise publicada por Varady e colaboradores observou que diferentes modalidades de jejum intermitente produzem perdas de peso clinicamente relevantes em indivíduos com sobrepeso e obesidade, frequentemente variando entre 3% e 8% do peso corporal ao longo de algumas semanas ou meses (VARADY et al., 2022).
Outro estudo que recebeu ampla atenção foi publicado no New England Journal of Medicine. Nessa revisão, os autores concluíram que os benefícios observados provavelmente resultam de uma combinação de redução da ingestão energética, alterações hormonais e adaptações metabólicas relacionadas ao período de jejum (DE CABO; MATTSON, 2019).
Portanto, o jejum pode ajudar muitas pessoas a emagrecer, mas não porque possua propriedades “mágicas”. Ele funciona principalmente como uma estratégia comportamental e metabólica que facilita a redução do consumo energético em determinados indivíduos.
Jejum Intermitente é Superior às Dietas Convencionais?
Aqui encontramos uma das maiores surpresas da literatura científica.
Diversos ensaios clínicos randomizados compararam jejum intermitente com dietas tradicionais de restrição calórica contínua.
O resultado mais comum foi o seguinte:
ambas funcionam.
Na maioria dos estudos, quando a redução calórica total é semelhante, as diferenças de perda de peso entre os métodos tendem a ser pequenas ou inexistentes (LIU et al., 2022; SUN et al., 2024).
Isso significa que o melhor método costuma ser aquele que o indivíduo consegue manter a longo prazo.
Algumas pessoas sentem enorme dificuldade em controlar porções diariamente, mas adaptam-se bem a uma janela alimentar restrita.
Outras experimentam exatamente o oposto.
A adesão continua sendo um dos fatores mais importantes para o sucesso.
O Impacto Sobre a Resistência à Insulina
Uma das áreas mais promissoras do jejum intermitente envolve a saúde metabólica.
Durante períodos sem alimentação ocorre redução dos níveis de insulina circulante, permitindo maior mobilização de gordura armazenada e menor exposição crônica do organismo a esse hormônio.
Diversos estudos demonstraram melhora de parâmetros relacionados à resistência à insulina, especialmente em indivíduos com excesso de peso, obesidade ou pré-diabetes (DE CABO; MATTSON, 2019; SUN et al., 2024).
Uma revisão abrangente publicada em 2024 encontrou evidências consistentes de melhora em indicadores glicêmicos e metabólicos em vários protocolos de restrição alimentar temporal (SUN et al., 2024).
Entretanto, isso não significa que pessoas diabéticas devam iniciar jejuns prolongados por conta própria.
Pacientes em uso de insulina ou determinados medicamentos hipoglicemiantes podem apresentar risco aumentado de hipoglicemia e necessitam de acompanhamento médico individualizado.
Saúde Cardiovascular: Promessas e Realidade
O jejum intermitente também tem sido estudado em relação à saúde cardiovascular.
Alguns ensaios clínicos identificaram reduções modestas em:
- pressão arterial;
- triglicerídeos;
- colesterol LDL;
- marcadores inflamatórios.
Esses benefícios parecem ocorrer principalmente em indivíduos que também apresentam perda de peso associada (DE CABO; MATTSON, 2019).
No entanto, ainda não existem evidências robustas demonstrando que o jejum intermitente reduza diretamente mortalidade cardiovascular ou aumente a longevidade em humanos.
Essa distinção é importante.
Melhorar fatores de risco não é necessariamente a mesma coisa que comprovar redução de eventos clínicos importantes.
E Quanto à Longevidade?
Talvez nenhum tema gere mais entusiasmo.
Em modelos animais, especialmente leveduras, vermes, moscas e roedores, a restrição energética frequentemente está associada ao aumento da expectativa de vida.
Entretanto, extrapolar esses resultados para seres humanos é extremamente complexo.
Até o momento, não existem ensaios clínicos capazes de demonstrar que o jejum intermitente prolonga a vida humana.
O que existe são evidências indiretas de melhora em alguns marcadores associados ao envelhecimento saudável (LONGO; PANDA, 2016).
A ciência ainda não permite afirmar que jejuar fará alguém viver mais.
Os Possíveis Benefícios Cognitivos
Outra área de intenso interesse envolve o cérebro.
Em modelos experimentais, períodos de restrição alimentar parecem aumentar a resistência neuronal ao estresse metabólico e estimular mecanismos celulares relacionados à plasticidade cerebral (MATTSON et al., 2018).
Em seres humanos, alguns estudos sugerem possíveis benefícios sobre:
- clareza mental;
- concentração;
- regulação do apetite;
- percepção de energia.
Contudo, os resultados permanecem heterogêneos e ainda insuficientes para conclusões definitivas.
Nem Tudo São Benefícios: Os Riscos do Jejum
A popularização do jejum muitas vezes ignora seus potenciais efeitos adversos.
Entre os sintomas mais frequentemente relatados estão:
- fome intensa;
- irritabilidade;
- cefaleia;
- fadiga;
- tonturas;
- dificuldade de concentração;
- redução do desempenho esportivo em algumas circunstâncias.
Esses sintomas costumam ser transitórios, mas nem sempre.
Além disso, determinadas populações exigem atenção especial.
Quem Deve Ter Cuidado ou Evitar o Jejum?
O jejum intermitente pode não ser apropriado para:
- gestantes;
- lactantes;
- crianças;
- adolescentes em crescimento;
- indivíduos com histórico de transtornos alimentares;
- pessoas com baixo peso;
- pacientes com doenças debilitantes;
- idosos frágeis;
- diabéticos em uso de medicamentos com risco de hipoglicemia.
Nesses grupos, a avaliação individualizada é particularmente importante.
Há Risco de Perda de Massa Muscular?
Sim, principalmente para pessoas previamente sarcopênicas (debilitadas, com pouco músculo), ou que já estejam inseridas num contexto alimentar restritivo. Este é talvez um dos receios mais frequentes em relação ao jejum intermitente, e uma das perguntas mais recorrentes.
Mas há uma boa notícia. O organismo possui mecanismos adaptativos que procuram preservar a musculatura nas fases iniciais do jejum. Nas primeiras 12 a 24 horas (pode variar de pessoa para pessoa), a maior parte da energia provém da utilização do glicogênio hepático e da mobilização crescente de gordura corporal. Com a progressão do jejum, ocorre aumento da produção de corpos cetônicos, que passam a servir como importante combustível para o cérebro e outros tecidos, reduzindo a necessidade de utilização de aminoácidos musculares para produção de glicose. Esse fenômeno é considerado uma estratégia metabólica de preservação da massa magra (CAHILL, 2006; DE CABO; MATTSON, 2019).
Entretanto, quando os períodos de jejum se tornam excessivamente prolongados, repetitivos ou são associados a ingestão insuficiente de macronutrientes, particularmente carboidratos e proteínas, baixo peso corporal, envelhecimento, sarcopenia, doenças debilitantes ou ausência de estímulo muscular por exercícios de resistência, o organismo pode aumentar gradualmente a degradação de proteínas musculares para fornecer aminoácidos destinados à gliconeogênese e outras funções vitais.
Uma revisão publicada na Nature Reviews Endocrinology destaca que protocolos bem conduzidos de jejum intermitente geralmente preservam a massa magra de forma relativamente satisfatória, especialmente quando acompanhados de adequada ingestão proteica e treinamento de força. Ainda assim, parte da perda ponderal observada em alguns estudos pode incluir uma fração de massa muscular, sobretudo em indivíduos mais vulneráveis ou submetidos a restrições energéticas muito intensas (VARADY et al., 2022). Em outras palavras, o maior risco para a musculatura não parece ser o jejum intermitente moderado, individualizado e bem planejado, mas sim o jejum prolongado, inadequadamente conduzido e associado à desnutrição proteica e ao sedentarismo.
O Perigo dos Extremos
Talvez a maior lição da literatura científica seja que o jejum intermitente não deve ser encarado nem como vilão nem como solução universal.
De um lado, existem pessoas que afirmam que qualquer período sem alimentação é prejudicial.
Do outro, há quem atribua ao jejum propriedades quase milagrosas.
Ambas as posições são incompatíveis com o conhecimento científico atual.
O que as melhores evidências sugerem é algo muito mais equilibrado:
Para indivíduos adequadamente selecionados, o jejum intermitente pode ser uma ferramenta útil para perda de peso, melhora metabólica e organização alimentar.
Mas seus benefícios dependem do contexto, da qualidade da alimentação, da adesão ao longo prazo e das características individuais de cada pessoa.
Na próxima parte abordaremos uma das áreas mais fascinantes da pesquisa moderna: a relação entre jejum intermitente, microbiota intestinal, eixo intestino-cérebro, inflamação, imunidade e saúde metabólica.
REFERÊNCIAS
CAHILL, George F. Fuel metabolism in starvation. Annual Review of Nutrition, Palo Alto, v. 26, p. 1–22, 2006.
DE CABO, Rafael; MATTSON, Mark P. Effects of intermittent fasting on health, aging, and disease. New England Journal of Medicine, Boston, v. 381, n. 26, p. 2541–2551, 2019. DOI: 10.1056/NEJMra1905136.
LIU, Ding et al. Intermittent fasting versus continuous energy restriction for weight loss and cardiometabolic outcomes: a systematic review and meta-analysis of randomized controlled trials. eClinicalMedicine, London, v. 48, 101477, 2022.
LONGO, Valter D.; PANDA, Satchidananda. Fasting, circadian rhythms, and time-restricted feeding in healthy lifespan. Cell Metabolism, Cambridge, v. 23, n. 6, p. 1048–1059, 2016. DOI: 10.1016/j.cmet.2016.06.001.
MATTSON, Mark P.; LONGO, Valter D.; HARVIE, Michelle. Impact of intermittent fasting on health and disease processes. Ageing Research Reviews, Amsterdam, v. 39, p. 46–58, 2017. DOI: 10.1016/j.arr.2016.10.005.
SUN, Ming-Li et al. Intermittent fasting and health outcomes: an umbrella review of systematic reviews and meta-analyses of randomized controlled trials. eClinicalMedicine, London, v. 70, 102519, 2024.
VARADY, Krista A. et al. Clinical application of intermittent fasting for weight loss: progress and future directions. Nature Reviews Endocrinology, London, v. 18, p. 309–321, 2022.