Jejum Intermitente: Ciência, Promessas, Benefícios e Mitos – Parte 3 de 3

 

Parte 3 — Microbiota Intestinal, Eixo Intestino-Cérebro, Autofagia, Exageros Midiáticos e Conclusão

Nas duas primeiras partes vimos que o jejum intermitente está longe de ser uma simples moda passageira. Existe uma base fisiológica plausível para muitos de seus efeitos, bem como um número crescente de estudos sugerindo benefícios metabólicos em determinados contextos.

Entretanto, talvez a área mais fascinante das pesquisas atuais seja a interação entre o jejum, a microbiota intestinal e o chamado eixo intestino-cérebro.

Ao mesmo tempo, é justamente nessa fronteira do conhecimento que surgem algumas das maiores extrapolações da mídia e das redes sociais.

Separar o que já sabemos daquilo que ainda está sendo investigado é essencial.

 

O Intestino: Muito Mais que um Órgão Digestivo

Durante décadas, o intestino foi visto principalmente como um órgão responsável pela digestão e absorção de nutrientes.

Hoje sabemos que ele desempenha funções muito mais amplas.

O trato gastrointestinal abriga trilhões de microrganismos — bactérias, fungos, vírus e arqueias — que formam a chamada microbiota intestinal.

Esses microrganismos participam de inúmeros processos biológicos:

  • digestão de fibras;
  • produção de vitaminas;
  • metabolismo de ácidos biliares;
  • regulação imunológica;
  • manutenção da barreira intestinal;
  • comunicação com o cérebro.

Por isso, muitos pesquisadores passaram a considerar a microbiota um verdadeiro “órgão metabólico” adicional (FAN; PEDERSEN, 2021).

 

O Eixo Intestino-Cérebro

Uma das descobertas mais importantes da medicina moderna é que intestino e cérebro mantêm comunicação constante.

Essa comunicação ocorre por diversas vias simultaneamente:

Via Neural – Principalmente através do nervo vago.

Via Imunológica – Por meio de citocinas e mediadores inflamatórios.

Via Endócrina – Através de hormônios produzidos no intestino e em outros tecidos.

Via Metabólica – Por metabólitos produzidos pelas bactérias intestinais.

Esse sistema integrado recebeu o nome de eixo intestino-cérebro (gut-brain axis) (CRYAN et al., 2019).

Embora muitas perguntas ainda permaneçam sem resposta, tornou-se claro que a saúde intestinal influencia muito mais do que a digestão.

 

Como o Jejum Pode Influenciar a Microbiota?

Os microrganismos intestinais não respondem apenas ao que comemos.

Eles também respondem a quando comemos.

Durante os períodos de alimentação e jejum ocorrem alterações importantes na disponibilidade de nutrientes dentro do intestino.

Essas mudanças podem favorecer determinadas populações bacterianas e reduzir outras.

Uma revisão publicada na revista Gut mostrou que ritmos alimentares e ciclos circadianos influenciam significativamente a composição e a atividade metabólica da microbiota intestinal (ZARRINPAR et al., 2014).

Estudos mais recentes sugerem que protocolos de alimentação com restrição de tempo podem promover:

  • aumento da diversidade microbiana;
  • melhora da integridade da barreira intestinal;
  • alterações favoráveis na produção de metabólitos bacterianos;
  • redução de marcadores inflamatórios em alguns indivíduos (LI et al., 2023).

Entretanto, é importante enfatizar:

A literatura ainda não permite afirmar que o jejum produza uma microbiota universalmente “melhor”.

Os resultados variam conforme:

  • dieta de base;
  • idade;
  • estado metabólico;
  • duração do protocolo;
  • composição individual da microbiota.

 

Os Ácidos Graxos de Cadeia Curta

Entre os metabólitos produzidos pelas bactérias intestinais, poucos receberam tanta atenção quanto os chamados ácidos graxos de cadeia curta.

Os principais são:

  • butirato;
  • acetato;
  • propionato.

Eles surgem principalmente da fermentação de fibras alimentares.

Essas moléculas participam de processos extremamente importantes:

  • nutrição das células intestinais;
  • manutenção da barreira intestinal;
  • regulação imunológica;
  • modulação inflamatória;
  • sinalização metabólica.

O butirato, em particular, vem sendo estudado por seus potenciais efeitos anti-inflamatórios e metabólicos (MORRISON; PRESTON, 2016).

Curiosamente, muitos dos benefícios atribuídos ao jejum talvez dependam não apenas da ausência temporária de alimentos, mas também da qualidade da alimentação durante os períodos em que a pessoa se alimenta.

Uma janela alimentar de oito horas baseada em ultraprocessados provavelmente produzirá resultados muito diferentes de uma janela alimentar semelhante baseada em vegetais, frutas, leguminosas, castanhas e proteínas de qualidade.

 

Jejum, Inflamação e Imunidade

Outro tema que desperta enorme interesse é o possível impacto do jejum sobre a inflamação crônica de baixo grau.

Atualmente sabe-se que diversas doenças modernas apresentam algum componente inflamatório:

  • obesidade;
  • diabetes tipo 2;
  • doença hepática gordurosa;
  • aterosclerose;
  • algumas doenças neurodegenerativas.

Uma revisão publicada no New England Journal of Medicine destacou que a restrição energética intermitente pode modular vias relacionadas ao estresse oxidativo, inflamação e adaptação celular (DE CABO; MATTSON, 2019).

Entretanto, a magnitude desses efeitos em humanos ainda está sendo investigada.

Mais uma vez, a ciência sugere prudência.

Há sinais promissores, mas ainda não respostas definitivas.

 

Autofagia: Onde a Ciência Termina e os Mitos Começam

Poucos conceitos sofreram tantas distorções na internet quanto a autofagia.

Após o Prêmio Nobel concedido a Yoshinori Ohsumi em 2016, o termo passou a aparecer em milhares de vídeos, cursos e materiais de divulgação.

Infelizmente, muitas dessas interpretações ultrapassaram aquilo que os estudos realmente demonstraram.

O que sabemos com segurança:

  • a autofagia existe;
  • é um mecanismo essencial de reciclagem celular;
  • participa da manutenção da saúde celular;
  • pode ser influenciada por estados de restrição energética.

O que ainda não sabemos com precisão:

  • quantas horas de jejum são necessárias para ativá-la em diferentes tecidos humanos;
  • qual a intensidade dessa ativação;
  • qual sua relevância clínica prática para indivíduos saudáveis;
  • qual protocolo produz os melhores resultados.

Portanto, afirmações categóricas como:

“A autofagia começa exatamente após 16 horas.”

ou

“Após 72 horas o organismo entra em limpeza profunda.”

não encontram respaldo sólido na literatura científica atual.

A biologia humana é muito mais complexa do que esses números simplificados sugerem.

 

Os Perigos da Transformação do Jejum em Ideologia

Talvez o maior risco atual não seja o jejum em si. É a sua transformação em uma ideologia.

Quando uma ferramenta potencialmente útil passa a ser apresentada como solução universal para todos os problemas de saúde, a ciência começa a ser substituída pelo marketing.

Existem pessoas que emagrecem com jejum.Outras não.

Existem indivíduos que relatam melhora da disposição. Outros experimentam piora.

Alguns adaptam-se facilmente. Outros tornam-se excessivamente preocupados com horários e alimentação.

A medicina baseada em evidências raramente trabalha com soluções universais.

 

O Que as Melhores Evidências Permitem Concluir?

Após mais de duas décadas de intensa pesquisa, algumas conclusões parecem razoavelmente sólidas:

Há evidências favoráveis para:

  • perda de peso em indivíduos selecionados;
  • melhora de alguns parâmetros metabólicos;
  • melhora da resistência à insulina;
  • redução de alguns fatores de risco cardiovascular;
  • organização alimentar em determinados perfis de pacientes.

Ainda permanecem incertos:

  • efeitos sobre longevidade humana;
  • prevenção de câncer;
  • prevenção de doenças neurodegenerativas;
  • impacto clínico da autofagia em humanos;
  • efeitos de muito longo prazo.

Não existem evidências robustas de que:

  • cure doenças;
  • substitua tratamentos médicos estabelecidos;
  • funcione para todas as pessoas;
  • seja superior a todas as outras estratégias alimentares.

 

Conclusão Geral

O jejum intermitente representa uma das áreas mais interessantes da nutrição e da medicina metabólica contemporânea.

A literatura científica atual sugere que ele pode ser uma ferramenta útil para determinadas pessoas, especialmente no contexto de perda de peso, melhora da resistência à insulina e saúde metabólica.

Entretanto, seus benefícios não devem ser confundidos com promessas milagrosas.

Talvez a maior lição extraída das pesquisas seja que o sucesso do jejum depende menos do número de horas sem comer e mais do contexto global em que ele está inserido.

Qualidade da alimentação, atividade física, sono adequado, controle do estresse, saúde mental e adesão a longo prazo continuam sendo fatores centrais para a saúde.

O jejum pode ser uma ferramenta. Não uma filosofia, não uma religião.

Pode ser um recurso terapêutico. Não uma cura universal.

E, como ocorre com praticamente todas as intervenções médicas sérias, seus melhores resultados parecem surgir quando ele é utilizado com conhecimento, individualização e bom senso.

 

REFERÊNCIAS

CRYAN, John F. et al. The microbiota-gut-brain axis. Physiological Reviews, Bethesda, v. 99, n. 4, p. 1877–2013, 2019.

DE CABO, Rafael; MATTSON, Mark P. Effects of intermittent fasting on health, aging, and disease. New England Journal of Medicine, Boston, v. 381, n. 26, p. 2541–2551, 2019.

FAN, Yong; PEDERSEN, Oluf. Gut microbiota in human metabolic health and disease. Nature Reviews Microbiology, London, v. 19, p. 55–71, 2021.

LI, Guoliang et al. Time-restricted feeding and gut microbiota: mechanisms and metabolic implications. Nutrients, Basel, v. 15, n. 9, 2023.

MORRISON, Douglas J.; PRESTON, Tom. Formation of short chain fatty acids by the gut microbiota and their impact on human metabolism. Gut Microbes, Austin, v. 7, n. 3, p. 189–200, 2016.

OHSUMI, Yoshinori. Historical landmarks of autophagy research. Cell Research, Beijing, v. 24, n. 1, p. 9–23, 2014.

ZARRINPAR, Amir; CHAIX, Amandine; YOON, Mi-Ok; PANDA, Satchidananda. Diet and feeding pattern affect the diurnal dynamics of the gut microbiome. Cell Metabolism, Cambridge, v. 20, n. 6, p. 1006–1017, 2014.

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