TDAH em Crianças e Adultos: Muito Além da Falta de Atenção – Parte 2 de 3

 

 

Parte 2 — O Poder do Estilo de Vida e o Papel das Medicações

Na primeira parte deste artigo, vimos que o TDAH é um transtorno do neurodesenvolvimento com forte componente biológico, genético e neuroquímico. Entretanto, reconhecer a base biológica do transtorno não significa concluir que os sintomas sejam imutáveis.

Uma das descobertas mais importantes das últimas décadas é que diversos fatores do estilo de vida podem influenciar significativamente a intensidade dos sintomas, a resposta ao tratamento e a qualidade de vida dos pacientes.

Embora o estilo de vida não seja a causa do TDAH, ele pode funcionar como um amplificador ou um atenuador dos sintomas.

 

AVISO LEGAL (DISCLAIMER)

Este artigo possui finalidade exclusivamente informativa e educacional. Seu conteúdo não substitui consulta médica, psicológica, psiquiátrica, nutricional ou qualquer outra avaliação profissional individualizada.

O diagnóstico de TDAH exige avaliação clínica completa, realizada por profissional habilitado, considerando histórico de desenvolvimento, contexto familiar, desempenho acadêmico ou profissional, além da exclusão de outras condições que possam produzir sintomas semelhantes.

Nenhuma medicação deve ser iniciada, modificada ou interrompida sem orientação médica.

 

O Sono: Um dos Tratamentos Mais Subestimados

Poucas intervenções produzem tanto impacto sobre a atenção quanto um sono adequado.

O cérebro utiliza o período de sono para consolidar memórias, reorganizar circuitos neurais, regular neurotransmissores e restaurar funções cognitivas essenciais.

Quando o sono é insuficiente ou de má qualidade, surgem alterações muito semelhantes aos sintomas observados no TDAH:

  • dificuldade de concentração;
  • pior memória de trabalho;
  • redução do controle dos impulsos;
  • irritabilidade;
  • lentificação cognitiva;
  • pior desempenho escolar ou profissional.

Em adolescentes, o problema tornou-se particularmente relevante devido à combinação entre privação crônica de sono, uso excessivo de telas e horários irregulares de dormir.

Em alguns casos, a privação de sono pode agravar significativamente um TDAH já existente; em outros, pode até mesmo produzir sintomas que se confundem com o transtorno.

Por isso, qualquer plano terapêutico sério para TDAH deve incluir avaliação dos hábitos de sono (WOLRAICH et al., 2019).

 

Exercício Físico: Uma Ferramenta Poderosa e Subutilizada

Se fosse possível colocar os benefícios do exercício físico em um comprimido, provavelmente ele seria considerado uma das intervenções mais valiosas da medicina moderna.

Diversas revisões sistemáticas e meta-análises demonstraram que a atividade física regular pode melhorar aspectos importantes do funcionamento cognitivo em crianças e adolescentes com TDAH, incluindo atenção, impulsividade, funções executivas e comportamento geral.

O exercício promove uma série de adaptações biológicas benéficas:

  • aumento da liberação de dopamina;
  • aumento da disponibilidade de noradrenalina;
  • aumento da produção de serotonina;
  • elevação do BDNF (Brain-Derived Neurotrophic Factor);
  • melhora da neuroplasticidade;
  • redução de marcadores inflamatórios.

O BDNF merece destaque especial. Frequentemente chamado de “fertilizante cerebral”, ele favorece a sobrevivência neuronal, a formação de novas conexões sinápticas e o aprendizado.

Meta-análises sugerem que programas regulares de exercício aeróbico apresentam efeitos particularmente favoráveis sobre atenção, hiperatividade, impulsividade e funções executivas.

Importante destacar que o exercício não substitui necessariamente a medicação quando esta está indicada. Entretanto, ele pode potencializar os resultados do tratamento e trazer benefícios adicionais para humor, sono, autoestima e saúde cardiovascular.

 

Quanto Exercício é Recomendado?

As diretrizes internacionais geralmente recomendam para crianças e adolescentes:

  • pelo menos 60 minutos diários de atividade física moderada a vigorosa;
  • redução do tempo sedentário;
  • participação em esportes, jogos ativos ou atividades recreativas.

Entre os exercícios mais estudados encontram-se:

  • corrida;
  • ciclismo;
  • natação;
  • esportes coletivos;
  • artes marciais;
  • treinamento funcional;
  • exercícios coordenativos.

Há ainda evidências emergentes de que atividades que combinam demanda física e cognitiva possam gerar benefícios adicionais sobre funções executivas.

 

Alimentação: Não é a Causa, Mas Pode Influenciar

Um dos temas mais debatidos quando se fala em TDAH é a alimentação.

A pergunta costuma ser simples:

“O que meu filho come pode influenciar sua atenção?”

A resposta mais honesta é: sim, mas de forma mais complexa do que normalmente se imagina.

Não existem evidências convincentes de que açúcar, corantes ou um alimento específico sejam a causa primária do TDAH.

Por outro lado, diversos estudos observacionais sugerem associação entre padrões alimentares de baixa qualidade e maior intensidade dos sintomas (DEL PONTE et al., 2019).

Dietas caracterizadas por:

  • elevado consumo de ultraprocessados;
  • excesso de açúcares refinados;
  • bebidas açucaradas;
  • gorduras trans;
  • baixo consumo de frutas;
  • baixo consumo de vegetais;
  • deficiência de fibras;

tendem a estar associadas a piores desfechos cognitivos e comportamentais.

Em contraste, padrões alimentares mais próximos da chamada dieta mediterrânea parecem estar associados a melhor desempenho cognitivo e menor intensidade de sintomas em alguns estudos observacionais.

É importante evitar exageros.

Nenhuma dieta atualmente disponível demonstrou substituir os tratamentos convencionais para TDAH.

Contudo, uma alimentação saudável fornece o ambiente metabólico necessário para o funcionamento adequado do cérebro.

 

O Excesso de Telas: Um Novo Desafio

A vida moderna trouxe um desafio inédito para crianças e adolescentes.

Redes sociais, vídeos curtos, notificações constantes e estímulos digitais de alta intensidade competem continuamente pela atenção.

Embora o uso de telas não seja considerado causa comprovada do TDAH, diversos estudos sugerem que a exposição excessiva pode agravar dificuldades atencionais, reduzir a qualidade do sono e aumentar comportamentos impulsivos em indivíduos vulneráveis.

Isso é particularmente relevante porque o cérebro humano evoluiu para alternar períodos de foco com períodos de repouso mental. A hiperestimulação constante pode dificultar esse equilíbrio.

 

Medicamentos: O Tratamento Mais Eficaz para os Sintomas Centrais

Apesar da crescente valorização das intervenções comportamentais e do estilo de vida, as medicações continuam sendo as intervenções isoladas com maior eficácia comprovada para redução dos sintomas centrais do TDAH (CORTESE et al., 2018).

Isso não significa que todos os pacientes precisem utilizar medicamentos.

Entretanto, quando corretamente indicados, os benefícios podem ser substanciais.

 

Estimulantes: Primeira Linha de Tratamento

Os estimulantes constituem a principal classe terapêutica utilizada mundialmente.

Os mais conhecidos são:

  • metilfenidato;
  • lisdexanfetamina.

Esses medicamentos atuam aumentando a disponibilidade de dopamina e noradrenalina em regiões cerebrais relacionadas ao foco atencional, planejamento e autocontrole.

A grande meta-análise publicada por Cortese e colaboradores avaliou dezenas de estudos clínicos e concluiu que os estimulantes apresentam os maiores tamanhos de efeito entre as intervenções farmacológicas disponíveis para TDAH (CORTESE et al., 2018).

 

Metilfenidato

O metilfenidato é um dos medicamentos mais estudados da história da psiquiatria infantil.

Possui:

  • eficácia comprovada;
  • perfil de segurança bem conhecido;
  • diversas formulações de curta e longa duração.

Em crianças e adolescentes, frequentemente constitui a primeira escolha terapêutica (WOLRAICH et al., 2019).

 

Lisdexanfetamina

A lisdexanfetamina representa uma formulação moderna derivada das anfetaminas.

Entre suas vantagens destacam-se:

  • longa duração de ação;
  • menor potencial de uso inadequado;
  • cobertura sintomática ao longo do dia.

Diversos pacientes que apresentam resposta parcial ao metilfenidato podem responder muito bem à lisdexanfetamina (CORTESE et al., 2018).

 

Medicamentos Não Estimulantes

Nem todos os pacientes toleram estimulantes.

Nesses casos, podem ser utilizadas alternativas como:

  • atomoxetina;
  • guanfacina;
  • clonidina.

Esses medicamentos tendem a apresentar efeito mais gradual e, em média, menor magnitude de resposta quando comparados aos estimulantes.

Por outro lado, podem ser extremamente úteis em situações específicas, especialmente quando coexistem ansiedade importante, distúrbios do sono ou contraindicações aos estimulantes (WOLRAICH et al., 2019).

 

O Que Funciona Melhor: Estilo de Vida ou Medicação?

Essa é uma pergunta frequente, mas talvez incorreta.

A ciência sugere que o melhor resultado geralmente não surge da oposição entre essas estratégias, mas da combinação delas.

Os medicamentos apresentam a maior eficácia para os sintomas centrais do TDAH.

O estilo de vida, por sua vez, influencia:

  • qualidade do sono;
  • saúde cerebral;
  • desempenho cognitivo;
  • humor;
  • motivação;
  • saúde metabólica;
  • qualidade de vida geral.

Em outras palavras:

A medicação frequentemente ajuda o paciente a funcionar melhor.

O estilo de vida ajuda o cérebro a funcionar em seu melhor potencial.

Os melhores resultados costumam surgir quando ambos trabalham em conjunto.

 

REFERÊNCIAS

CERRILLO-URBINA, A. J.; GARCÍA-HERMOSO, A.; SÁNCHEZ-LÓPEZ, M.; PARDO-GUIJARRO, M. J.; SANTOS GÓMEZ, J. L.; MARTÍNEZ-VIZCAÍNO, V. The effects of physical exercise in children with attention deficit hyperactivity disorder: a systematic review and meta-analysis of randomized control trials. Child: Care, Health and Development, Oxford, v. 41, n. 6, p. 779–788, 2015.

CORTESE, Samuele et al. Comparative efficacy and tolerability of medications for attention-deficit hyperactivity disorder in children, adolescents, and adults: a systematic review and network meta-analysis. The Lancet Psychiatry, London, v. 5, n. 9, p. 727–738, 2018.

DEL PONTE, Bruna et al. Dietary patterns and attention deficit/hyperactivity disorder: a systematic review and meta-analysis. Journal of Affective Disorders, Amsterdam, v. 252, p. 160–173, 2019.

NEUDECKER, Christina; MEWES, Nadine; REIMERS, Anne K.; WOLL, Alexander. Exercise Interventions in Children and Adolescents With ADHD: A Systematic Review. Journal of Attention Disorders, Thousand Oaks, v. 23, n. 4, p. 307–324, 2019.

VYSNIAUSKE, Ruta; VERBURGH, Lot; OOSTERLAAN, Jaap; MOLENDIJK, Marc L. The Effects of Physical Exercise on Functional Outcomes in the Treatment of ADHD: A Meta-Analysis. Journal of Attention Disorders, Thousand Oaks, v. 24, n. 5, p. 644–654, 2020.

WOLRAICH, Mark L. et al. Clinical Practice Guideline for the Diagnosis, Evaluation, and Treatment of Attention-Deficit/Hyperactivity Disorder in Children and Adolescents. Pediatrics, Elk Grove Village, v. 144, n. 4, e20192528, 2019.

DEN HEIJER, Anne E.; GROEN, Yvonne; TUCHA, Lara; FUERMAIER, Anselm B. M.; KOERTS, Janneke; THOME, Johannes; TUCHA, Oliver. Sweat it out? The effects of physical exercise on cognition and behavior in children and adults with ADHD: a systematic literature review. Journal of Neural Transmission, Vienna, v. 124, n. 1, p. 3–26, 2017.

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