Whey Protein: o suplemento mais estudado da nutrição esportiva realmente funciona?

 

O que a ciência sabe — e o que a internet exagera

 

Disclaimer

Este artigo tem finalidade exclusivamente educativa e não substitui a orientação de médicos ou nutricionistas. Embora o whey protein seja considerado um suplemento seguro para a maioria das pessoas saudáveis, sua utilização deve fazer parte de uma alimentação equilibrada e considerar as necessidades individuais, doenças pré-existentes e objetivos de cada pessoa.

 

O que é o Whey Protein?

Poucos suplementos alimentares despertam tantas opiniões quanto o whey protein. Para alguns, ele é praticamente indispensável para ganhar massa muscular. Para outros, seria um produto artificial que sobrecarrega os rins, prejudica o fígado ou deveria ser utilizado apenas por atletas.

A ciência mostra que nenhuma dessas visões extremas corresponde à realidade.

O whey protein é simplesmente uma proteína de alta qualidade obtida a partir do soro do leite, um líquido que durante muitos anos foi considerado apenas um subproduto da fabricação de queijos.

Quando o leite é transformado em queijo, ocorre a separação entre a caseína (que forma a parte sólida) e o soro (a parte líquida). Esse soro contém proteínas de excelente qualidade biológica, que são concentradas, purificadas e secas, originando o whey protein.

Em outras palavras, trata-se de um alimento derivado do leite e não de um medicamento nem de um hormônio.

 

Por que ele desperta tanto interesse?

As proteínas são os principais “blocos de construção” do organismo.

Elas participam da formação dos músculos, ossos, pele, cabelos, hormônios, enzimas e anticorpos. Todos os dias nosso organismo degrada e produz novas proteínas para manter esses tecidos funcionando adequadamente.

Para realizar esse processo, necessita de aminoácidos provenientes da alimentação.

O whey protein tornou-se popular porque apresenta diversas características favoráveis:

  • elevado teor de proteínas;
  • todos os aminoácidos essenciais;
  • alta digestibilidade;
  • rápida absorção;
  • grande quantidade de leucina, um dos principais estimuladores da síntese de proteínas musculares (Jäger et al., 2017).

Essas características fazem dele uma das proteínas alimentares mais estudadas do mundo.

 

Resumo Prático

O whey protein é:

✔ uma proteína derivada do leite;

✔ um alimento, não um hormônio;

✔ rico em aminoácidos essenciais;

✔ especialmente rico em leucina;

✔ facilmente digerido e absorvido.

 

Quais são os tipos de Whey Protein?

Nem todo whey protein é igual.

Existem três apresentações principais.

  1. Whey Protein Concentrado (WPC)

É a forma menos processada.

Contém normalmente entre 35% e 80% de proteína, preservando pequenas quantidades de lactose, gordura e outros componentes naturais do leite.

Para a maioria das pessoas saudáveis, oferece excelente relação custo-benefício.

 

  1. Whey Protein Isolado (WPI)

Passa por processos adicionais de filtração.

Apresenta geralmente mais de 90% de proteína, com quantidades muito pequenas de lactose e gordura.

Pode ser uma boa opção para pessoas com intolerância leve à lactose ou para quem necessita aumentar a ingestão proteica reduzindo calorias provenientes de gorduras e carboidratos.

 

  1. Whey Protein Hidrolisado (WPH)

Nesse tipo, parte das proteínas é previamente quebrada em pequenos peptídeos por hidrólise enzimática.

Isso acelera sua absorção intestinal.

Apesar desse benefício teórico, os estudos mostram que, para a maioria das pessoas, ele não promove ganhos significativamente maiores de força ou massa muscular quando comparado ao whey isolado ou concentrado, principalmente quando a ingestão diária total de proteínas é adequada (Jäger et al., 2017; Morton et al., 2018).

Seu custo, entretanto, costuma ser bastante superior.

 

Resumo Prático

Tipo Características Melhor indicação
Concentrado Mais econômico, contém lactose Maioria das pessoas
Isolado Mais proteína, pouca lactose Intolerância leve à lactose
Hidrolisado Proteína parcialmente digerida Situações específicas; poucas vantagens para a maioria

 

Para que ele realmente serve?

Ao contrário do que muitos imaginam, o whey protein não faz os músculos crescerem sozinho.

O crescimento muscular depende principalmente de três fatores:

  • treinamento de força;
  • ingestão adequada de proteínas;
  • recuperação (sono e descanso).

O whey apenas facilita o fornecimento de proteínas de alta qualidade quando a alimentação não consegue atingir as necessidades diárias.

É por isso que ele pode beneficiar diferentes grupos de pessoas, incluindo:

  • praticantes de musculação;
  • atletas;
  • idosos com risco de perda muscular;
  • pessoas em processo de emagrecimento;
  • indivíduos com dificuldade para consumir proteínas suficientes apenas pela alimentação.

 

O que realmente está cientificamente demonstrado?

Entre todos os suplementos esportivos disponíveis atualmente, poucos possuem um nível de evidência tão elevado quanto o whey protein.

Diversas revisões sistemáticas e meta-análises mostram que, quando associado ao treinamento de resistência, ele:

  • aumenta discretamente o ganho de massa muscular;
  • melhora os ganhos de força;
  • acelera a recuperação após exercícios intensos;
  • facilita o atingimento da ingestão proteica diária recomendada (Morton et al., 2018).

Entretanto, um aspecto frequentemente ignorado merece destaque.

Os maiores benefícios são observados em pessoas cuja alimentação não fornece proteína suficiente. Quando a ingestão diária total já é adequada, acrescentar grandes quantidades de whey protein costuma produzir ganhos pequenos ou inexistentes.

Em outras palavras, o fator mais importante não é tomar whey protein, mas consumir proteína suficiente ao longo do dia.

 

O que ainda permanece controverso?

Apesar do enorme número de pesquisas publicadas, algumas alegações continuam sem comprovação consistente.

Até o momento, as evidências são limitadas ou conflitantes quanto à capacidade do whey protein de:

  • acelerar significativamente o emagrecimento independentemente da dieta;
  • aumentar a imunidade em pessoas saudáveis;
  • melhorar a memória ou o desempenho cognitivo;
  • retardar o envelhecimento;
  • aumentar os níveis naturais de testosterona;
  • produzir grandes benefícios apenas pelo fato de ser consumido imediatamente após o treino.

Esses temas continuam sendo investigados.

 

Exageros midiáticos

A popularização das redes sociais fez surgir inúmeras promessas relacionadas ao whey protein.

Entre as mais comuns estão:

  • “Quanto mais whey, maior o músculo.”
  • “Quem toma whey não precisa comer proteína.”
  • “Todo praticante de academia precisa usar whey.”
  • “O hidrolisado é muito superior aos demais.”
  • “Existe uma janela anabólica de poucos minutos após o treino.”

Nenhuma dessas afirmações encontra respaldo sólido na literatura científica atual.

O whey protein pode ser uma ferramenta útil, mas não substitui uma alimentação equilibrada nem um programa adequado de treinamento.

 

Resumo Prático

O que a ciência realmente confirma

✔ É uma proteína de excelente qualidade.

✔ Auxilia no ganho de massa muscular quando associado ao treinamento.

✔ Facilita atingir a ingestão diária de proteínas.

✔ É seguro para a maioria das pessoas saudáveis.

✔ Não substitui alimentação adequada.

 

Na Parte II, abordaremos os aspectos mais discutidos sobre o whey protein: efeitos colaterais, riscos reais, saúde dos rins e do fígado, acne, intolerância à lactose, doses ideais, melhor horário para consumir, uso em idosos, emagrecimento, microbiota intestinal, novidades científicas e responderemos às perguntas mais frequentes sobre esse suplemento.

 

Referências (ABNT)

JÄGER, R. et al. International Society of Sports Nutrition Position Stand: protein and exercise. Journal of the International Society of Sports Nutrition, London, v. 14, art. 20, 2017.

MORTON, R. W. et al. A systematic review, meta-analysis and meta-regression of the effect of protein supplementation on resistance training-induced gains in muscle mass and strength in healthy adults. British Journal of Sports Medicine, London, v. 52, n. 6, p. 376–384, 2018.

PHILLIPS, S. M.; VAN LOON, L. J. C. Dietary protein for athletes: from requirements to optimum adaptation. Journal of Sports Sciences, London, v. 29, Suppl. 1, p. S29–S38, 2011.

WOLFE, R. R. Update on protein intake: importance of milk proteins for health status of the elderly. Nutrition Reviews, Oxford, v. 73, Suppl. 1, p. 41–47, 2015.

 

 

Parte II – Segurança, doses, mitos, microbiota intestinal e o que há de novo na ciência

Na primeira parte deste artigo vimos que o whey protein é uma proteína de alto valor biológico derivada do soro do leite, capaz de auxiliar o ganho de massa muscular e a recuperação quando associado a uma alimentação adequada e ao treinamento de força. Nesta segunda parte responderemos às dúvidas mais frequentes: afinal, ele faz mal aos rins? Existe um horário ideal para tomá-lo? Quais são os riscos? E o que a ciência mais recente revela sobre seus efeitos na saúde?

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O Whey Protein faz mal aos rins?

Esse é, provavelmente, o mito mais difundido sobre o suplemento.

Em pessoas com rins saudáveis, não há evidências consistentes de que o consumo de whey protein, dentro de uma ingestão proteica adequada, cause lesão renal ou reduza a função dos rins (Antonio et al., 2016; Jäger et al., 2017).

É verdade que dietas mais ricas em proteínas aumentam temporariamente a filtração renal. Entretanto, esse fenômeno, chamado hiperfiltração fisiológica, representa uma adaptação normal do organismo e não significa, por si só, dano aos rins.

A situação é diferente em pessoas com doença renal crônica, nas quais a ingestão de proteínas pode precisar ser reduzida ou individualizada. Nesses casos, qualquer suplementação deve ser orientada pelo médico ou nutricionista.

 

E o fígado?

Outro mito frequente é que o whey protein “sobrecarrega o fígado”.

Até o momento, não existem evidências de que o whey protein provoque lesão hepática em indivíduos saudáveis.

O fígado participa naturalmente do metabolismo dos aminoácidos provenientes de qualquer alimento rico em proteínas, como carnes, ovos, leite ou leguminosas. O whey protein não altera esse processo de forma diferente das proteínas obtidas pela alimentação.

Novamente, pessoas com doenças hepáticas avançadas devem receber orientação individualizada.

 

Pode causar osteoporose?

Durante muitos anos acreditou-se que dietas ricas em proteínas aumentariam a perda de cálcio pelos ossos. Hoje sabemos que essa hipótese não se confirmou.

Na realidade, quando o consumo de cálcio é adequado, a ingestão de proteínas parece contribuir para a manutenção da massa óssea, especialmente em idosos, provavelmente por favorecer a preservação da musculatura e estimular fatores relacionados à formação óssea (Rizzoli et al., 2018).

 

Pode causar acne?

Essa é uma das poucas associações que encontra algum respaldo científico.

Alguns estudos observacionais sugerem que indivíduos predispostos podem apresentar piora da acne com o consumo frequente de suplementos à base de whey protein, possivelmente por alterações nos níveis de insulina e do fator de crescimento semelhante à insulina tipo 1 (IGF-1), que estimulam a atividade das glândulas sebáceas (Pontes et al., 2013).

Entretanto, essa relação não ocorre em todas as pessoas e ainda carece de estudos clínicos de melhor qualidade.

 

E quando existe intolerância à lactose ou alergia às proteínas do leite?

É importante não confundir essas duas condições, pois elas têm causas e condutas completamente diferentes. A intolerância à lactose ocorre pela redução da atividade da enzima lactase, responsável por digerir a lactose, o açúcar natural do leite. Como consequência, após consumir leite ou derivados, algumas pessoas podem apresentar distensão abdominal, gases, cólicas e diarreia.

Nesses casos, o whey protein concentrado pode provocar sintomas por conter pequenas quantidades de lactose. Já o whey protein isolado (e, em muitos casos, o hidrolisado) passa por um processo de filtração que remove praticamente toda a lactose, sendo frequentemente bem tolerado por indivíduos com intolerância leve ou moderada. Entretanto, pessoas com intolerância mais intensa devem avaliar a tolerância individual e, se necessário, optar por suplementos isentos de lactose ou utilizar lactase conforme orientação profissional (Heyman, 2006; Lomer; Parkes; Sanderson, 2008).

Situação bastante diferente é a alergia às proteínas do leite de vaca (APLV). Trata-se de uma reação do sistema imunológico contra proteínas do leite, como a beta-lactoglobulina, a alfa-lactoalbumina e a caseína. Mesmo pequenas quantidades dessas proteínas podem desencadear urticária, inchaço, vômitos, chiado no peito e, nos casos mais graves, anafilaxia, uma reação potencialmente fatal.

Como o whey protein é obtido justamente do soro do leite e contém essas proteínas, nenhuma de suas apresentações (concentrado, isolado ou hidrolisado) é considerada segura para pessoas com alergia às proteínas do leite. Nesses casos, a recomendação é evitar completamente esses produtos e buscar alternativas apropriadas com orientação médica e nutricional (Fiocchi et al., 2010; Venter et al., 2023).

 

Existe um “whey vegano”?

Na realidade, o termo “whey vegano” não é tecnicamente correto. A palavra whey significa soro do leite, portanto, por definição, todo whey protein é de origem animal. Os produtos comercializados como “whey vegano” são, na verdade, misturas de proteínas vegetais, geralmente obtidas da ervilha, arroz, soja, grão-de-bico, semente de abóbora ou outras fontes vegetais. A estratégia de combinar diferentes proteínas busca oferecer um perfil de aminoácidos mais completo e aproximar sua qualidade nutricional daquela das proteínas do leite.

Quando formuladas adequadamente e consumidas em quantidade suficiente, essas proteínas vegetais podem contribuir para o ganho e a manutenção da massa muscular. No entanto, de forma geral, apresentam menor teor de leucina, aminoácido fundamental para estimular a síntese de proteínas musculares, além de digestibilidade ligeiramente inferior ao whey protein. Por esse motivo, alguns estudos sugerem que pessoas que utilizam proteínas vegetais como principal fonte suplementar podem necessitar de uma quantidade um pouco maior de proteína total para obter respostas semelhantes às observadas com o whey. Apesar disso, quando a ingestão diária de proteínas é adequada e associada ao treinamento de força, as diferenças práticas tendem a ser pequenas para a maioria das pessoas (Jäger et al., 2019; van Vliet; Burd; van Loon, 2015).

Assim, para indivíduos vegetarianos estritos (veganos), com alergia às proteínas do leite ou por preferência pessoal, os suplementos de proteínas vegetais representam uma excelente alternativa. Eles não são inferiores por definição, mas também não são exatamente equivalentes ao whey protein em composição e propriedades. O aspecto mais importante continua sendo atingir a quantidade diária recomendada de proteínas de boa qualidade, dentro de uma alimentação equilibrada.

 

Resumo Prático

O que sabemos sobre a segurança

✔ Não causa doença renal em pessoas com rins saudáveis.

✔ Não há evidências de dano hepático em indivíduos saudáveis.

✔ Não aumenta o risco de osteoporose.

✔ Pode agravar a acne em pessoas predispostas.

✔ É contraindicado para pessoas com alergia às proteínas do leite.

✔ Para veganos e para os alérgicos e intolerantes aos produtos do leite, o assim chamado “whey vegano” pode ser uma boa alternativa.

 

Quais são os efeitos colaterais mais comuns?

Na maioria das pessoas, o whey protein é muito bem tolerado.

Os efeitos adversos mais frequentes são digestivos:

  • sensação de estufamento;
  • gases;
  • desconforto abdominal;
  • diarreia.

Esses sintomas costumam ocorrer principalmente com o whey concentrado, que contém maior quantidade de lactose.

Pessoas com intolerância à lactose geralmente toleram melhor o whey isolado, que contém quantidades muito pequenas desse açúcar.

Já indivíduos com alergia às proteínas do leite não devem utilizar nenhuma forma de whey protein.

 

Quem realmente pode se beneficiar?

Embora seja frequentemente associado à musculação, o whey protein pode ser útil em diversas situações.

Entre elas:

  • atletas;
  • praticantes de treinamento de força;
  • idosos com risco de sarcopenia;
  • pessoas em processo de emagrecimento que necessitam preservar massa muscular;
  • indivíduos com baixa ingestão proteica;
  • pacientes em recuperação nutricional, quando indicado por profissionais de saúde.

Por outro lado, pessoas que já atingem facilmente suas necessidades diárias de proteínas por meio da alimentação provavelmente terão pouco benefício adicional com a suplementação.

 

Quanto devo tomar?

Essa é uma das perguntas mais frequentes.

A resposta depende muito mais da necessidade diária de proteínas do que do suplemento em si.

As recomendações atuais sugerem aproximadamente:

  • Adultos sedentários: cerca de 0,8 g de proteína/kg/dia.
  • Praticantes de atividade física: entre 1,2 e 2,0 g/kg/dia.
  • Treinamento intenso para hipertrofia: geralmente entre 1,6 e 2,2 g/kg/dia.
  • Idosos: frequentemente 1,0 a 1,2 g/kg/dia, podendo chegar a 1,5 g/kg/dia em situações de doença ou maior risco de perda muscular (Jäger et al., 2017; Devries; Phillips, 2015).

O whey protein é apenas uma forma prática de ajudar a atingir essas metas.

Uma porção fornece, em média, 20 a 30 gramas de proteína, quantidade suficiente para estimular significativamente a síntese proteica muscular na maioria dos adultos.

 

Existe um horário ideal?

Durante muitos anos acreditou-se que existia uma “janela anabólica” extremamente curta após o exercício. Hoje a visão é mais equilibrada.

Consumir proteína nas horas próximas ao treino pode ser vantajoso, mas o fator mais importante continua sendo a ingestão total de proteínas distribuída ao longo do dia (Morton et al., 2018).

Em outras palavras, para a maioria das pessoas, preocupar-se em atingir a quantidade diária adequada é mais importante do que ingerir whey imediatamente após o exercício.

 

Resumo Prático

Como utilizar

✔ Uma dose geralmente fornece 20–30 g de proteína.

✔ O mais importante é atingir a necessidade diária.

✔ Distribuir proteínas ao longo do dia parece ser mais relevante do que um horário específico.

✔ O suplemento não substitui refeições equilibradas.

 

Existe relação com a microbiota intestinal?

Nos últimos anos, pesquisadores passaram a investigar se diferentes proteínas alimentares poderiam influenciar a composição da microbiota intestinal.

Os resultados sugerem que o whey protein pode aumentar a produção de alguns peptídeos bioativos e favorecer discretamente o crescimento de determinadas bactérias potencialmente benéficas. No entanto, os estudos em humanos ainda apresentam resultados heterogêneos e não permitem concluir que o whey protein, isoladamente, melhore de forma consistente a saúde da microbiota (Smith-Ryan et al., 2020).

Portanto, não há evidências suficientes para recomendar o whey protein com o objetivo específico de “equilibrar o intestino”.

Uma alimentação rica em fibras, frutas, verduras, legumes e alimentos minimamente processados continua sendo muito mais importante para a saúde intestinal.

 

O que há de novo na ciência?

As pesquisas sobre whey protein continuam evoluindo. Algumas áreas de maior interesse incluem:

Envelhecimento saudável

Estudos recentes mostram que o consumo adequado de proteínas, associado ao treinamento de força, pode ajudar a retardar a perda de massa muscular relacionada ao envelhecimento (sarcopenia), melhorando força, equilíbrio e independência funcional.

 

Emagrecimento

O whey protein pode aumentar a saciedade e contribuir para a preservação da massa muscular durante dietas de perda de peso. Entretanto, ele não emagrece sozinho. Seus benefícios aparecem quando integrado a um plano alimentar com déficit calórico e atividade física.

 

Diabetes tipo 2

Pesquisas sugerem que o consumo de whey protein imediatamente antes de refeições pode reduzir o pico glicêmico em alguns pacientes com diabetes tipo 2, provavelmente por estimular hormônios intestinais, como o GLP-1, e aumentar a secreção de insulina. Embora os resultados sejam promissores, essa estratégia ainda deve ser individualizada e não substitui o tratamento convencional (Jakubowicz et al., 2014; Nilsson et al., 2004).

 

Exageros que circulam nas redes sociais

Algumas afirmações são repetidas com tanta frequência que acabam parecendo verdade.

Entre elas:

  • “Quanto mais proteína, maior o ganho muscular.”
  • “Whey substitui refeições completas.”
  • “É indispensável para qualquer pessoa que frequente academia.”
  • “O hidrolisado é muito superior aos outros tipos.”
  • “Sem whey não há hipertrofia.”

Nenhuma dessas afirmações é sustentada pelas melhores evidências científicas.

O whey protein é um suplemento útil, mas continua sendo apenas isso: um complemento da alimentação, e não um substituto de hábitos saudáveis.

 

Conclusão

O whey protein é, provavelmente, o suplemento nutricional mais estudado da atualidade. As evidências científicas mostram que ele pode facilitar o alcance das necessidades diárias de proteínas, favorecer o ganho de massa muscular quando associado ao treinamento de força e contribuir para a preservação da musculatura durante o envelhecimento ou o emagrecimento.

Ao mesmo tempo, muitas promessas atribuídas ao suplemento são exageradas. O whey protein não substitui uma alimentação equilibrada, não produz resultados sem exercício físico e não é indispensável para todas as pessoas.

Também não existem evidências de que cause danos aos rins, ao fígado ou aos ossos em indivíduos saudáveis quando consumido de forma adequada.

Como acontece com qualquer suplemento, seu uso deve considerar os objetivos, o estado de saúde e a alimentação de cada indivíduo. Quando bem indicado, ele pode ser uma ferramenta prática e segura. Mas seu verdadeiro benefício depende muito mais do contexto em que é utilizado do que do produto em si.

 

Resumo Final

✔ O que é?
Proteína de alto valor biológico obtida do soro do leite.

✔ Funciona?
Sim. Auxilia no ganho e na preservação da massa muscular quando associado ao treinamento e à ingestão adequada de proteínas.

✔ Faz mal aos rins?
Não em pessoas com função renal normal.

✔ Qual a melhor opção?
Para a maioria das pessoas, o whey concentrado oferece excelente relação custo-benefício. O isolado pode ser preferível para indivíduos com intolerância à lactose.

✔ Vale a pena?
Depende. Para quem não consegue atingir as necessidades de proteínas apenas pela alimentação, pode ser uma alternativa prática, segura e cientificamente embasada.

 

Referências

ANTONIO, J. et al. A high protein diet has no harmful effects: a one-year crossover study in resistance-trained males. Journal of Nutrition and Metabolism, v. 2016, Article ID 9104792, 2016.

DEVRIES, M. C.; PHILLIPS, S. M. Supplemental protein in support of muscle mass and health: advantage whey. Journal of Food Science, v. 80, Suppl. 1, p. A8–A15, 2015.

FIOCCHI, A. et al. World Allergy Organization (WAO) Diagnosis and Rationale for Action against Cow’s Milk Allergy (DRACMA) Guidelines. World Allergy Organization Journal, Milwaukee, v. 3, n. 4, p. 57–161, 2010.

HEYMAN, M. B.; COMMITTEE ON NUTRITION. Lactose intolerance in infants, children, and adolescents. Pediatrics, Elk Grove Village, v. 118, n. 3, p. 1279–1286, 2006.

JÄGER, R. et al. International Society of Sports Nutrition Position Stand: protein and exercise. Journal of the International Society of Sports Nutrition, London, v. 14, art. 20, 2017.

JÄGER, R. et al. International Society of Sports Nutrition Position Stand: vegetarian diets. Journal of the International Society of Sports Nutrition, London, v. 16, art. 54, 2019.

JAKUBOWICZ, D. et al. High-energy breakfast with whey protein reduces body weight, postprandial glycemia and HbA1c in type 2 diabetes. Obesity, v. 22, n. 5, p. E46–E54, 2014.

LOMER, M. C. E.; PARKES, G. C.; SANDERSON, J. D. Review article: lactose intolerance in clinical practice—myths and realities. Alimentary Pharmacology & Therapeutics, Oxford, v. 27, n. 2, p. 93–103, 2008.

MORTON, R. W. et al. A systematic review, meta-analysis and meta-regression of the effect of protein supplementation on resistance training-induced gains in muscle mass and strength in healthy adults. British Journal of Sports Medicine, London, v. 52, n. 6, p. 376–384, 2018.

NILSSON, M. et al. Glycemia and insulinemia in healthy subjects after lactose-equivalent meals of milk and other food proteins: the role of plasma amino acids and incretins. American Journal of Clinical Nutrition, v. 80, n. 5, p. 1246–1253, 2004.

RIZZOLI, R. et al. Benefits and safety of dietary protein for bone health—an expert consensus paper. Osteoporosis International, v. 29, n. 9, p. 1933–1948, 2018.

SMITH-RYAN, A. E. et al. The influence of dietary protein on the gut microbiota in humans: a systematic review. Nutrients, v. 12, n. 11, 2020.

VAN VLIET, S.; BURD, N. A.; VAN LOON, L. J. C. The skeletal muscle anabolic response to plant- versus animal-based protein consumption. Journal of Nutrition, Rockville, v. 145, n. 9, p. 1981–1991, 2015.

VENTER, C. et al. World Allergy Organization (WAO) DRACMA Guideline Update: diagnosis and management of cow’s milk allergy. World Allergy Organization Journal, v. 16, n. 7, 2023.

 

 

 

 

COMO GANHAR MASSA MUSCULAR – Quais suplementos realmente funcionam? – PARTE 6

 

 “O melhor suplemento é aquele que corrige uma necessidade real. O pior é aquele que promete substituir a fisiologia.”

 

Antes de comprar suplementos, vale responder uma pergunta simples

Imagine dois indivíduos.

O primeiro dorme cinco horas por noite, alimenta-se de forma irregular, treina sem planejamento e apresenta ingestão insuficiente de proteínas.

O segundo mantém uma alimentação equilibrada, realiza treinamento bem orientado, respeita o descanso e atinge suas necessidades nutricionais.

Ambos compram exatamente o mesmo suplemento. Os resultados serão iguais? Muito provavelmente, não.

Essa comparação ilustra um princípio fundamental da nutrição esportiva: suplementos potencializam uma estratégia já bem construída; eles raramente conseguem compensar hábitos inadequados (Thomas; Erdman; Burke, 2016).

Em outras palavras, nenhum suplemento supera um treinamento mal executado, uma dieta desequilibrada ou noites cronicamente mal dormidas.

 

Whey protein: provavelmente o suplemento mais mal compreendido

Poucos suplementos se tornaram tão populares quanto o whey protein. Essa popularidade tem fundamento científico, mas também foi acompanhada por inúmeros exageros.

O whey nada mais é do que uma proteína de alto valor biológico obtida durante o processamento do leite. Sua principal característica é apresentar excelente digestibilidade, elevada concentração de aminoácidos essenciais e grande quantidade de leucina, um importante ativador da síntese proteica muscular (Tang et al., 2009).

Entretanto, isso não significa que ele seja superior aos alimentos. Para uma pessoa que consegue atingir suas necessidades proteicas por meio de carnes, peixes, ovos, leite, derivados e leguminosas, o whey dificilmente produzirá ganhos adicionais relevantes.

Seu maior benefício está na praticidade. Após um treino ou em situações nas quais preparar uma refeição completa é difícil, ele representa uma forma conveniente de ingerir proteínas de alta qualidade.

Portanto, o whey protein não deve ser encarado como um construtor de músculos, mas como um alimento concentrado, cuja principal vantagem é facilitar o consumo adequado de proteínas.

 

Creatina: um raro consenso científico

Se existe um suplemento que conseguiu atravessar décadas de pesquisas mantendo resultados consistentes, esse suplemento é a creatina.

Poucas substâncias receberam tantas avaliações em estudos clínicos, revisões sistemáticas e posicionamentos oficiais.

Hoje existe amplo consenso de que a suplementação de creatina aumenta os estoques intramusculares de fosfocreatina, favorecendo a rápida regeneração de ATP durante exercícios de alta intensidade e curta duração (Kreider et al., 2022).

Na prática, isso permite que muitos indivíduos realizem uma ou duas repetições adicionais, utilizem cargas ligeiramente maiores ou mantenham intensidade elevada por mais tempo.

Pode parecer pouco. Mas essas pequenas diferenças, repetidas ao longo de meses de treinamento, frequentemente resultam em maior estímulo para hipertrofia.

É importante observar que a creatina não produz músculos diretamente. Ela melhora o desempenho.

Quem produz músculos continua sendo o próprio organismo, em resposta ao treinamento.

Outro aspecto importante é seu perfil de segurança. Em indivíduos saudáveis, estudos de longo prazo demonstram excelente segurança quando utilizada nas doses habitualmente recomendadas. Naturalmente, pessoas com doenças renais estabelecidas ou outras condições clínicas específicas devem ser avaliadas individualmente antes da suplementação (Kreider et al., 2022).

 

BCAA: muito marketing, pouca necessidade

Durante muitos anos, os aminoácidos de cadeia ramificada (BCAA) ocuparam posição de destaque no mercado de suplementos. A lógica parecia convincente.

Se leucina, isoleucina e valina participam da síntese proteica, fornecer esses aminoácidos isoladamente deveria aumentar a hipertrofia. Entretanto, a fisiologia mostrou um detalhe importante.

A construção de proteínas musculares exige a presença de todos os aminoácidos essenciais. Disponibilizar apenas três deles equivale a entregar tijolos, mas esquecer parte do cimento, do aço e da madeira necessários para concluir uma construção.

Por essa razão, indivíduos que já ingerem proteínas suficientes dificilmente obtêm benefícios adicionais com suplementação isolada de BCAA (Wolfe, 2017).

Hoje, grande parte das sociedades científicas considera muito mais racional priorizar proteínas completas do que aminoácidos isolados para indivíduos saudáveis.

 

Glutamina: excelente para algumas situações, dispensável para hipertrofia

A glutamina talvez seja um dos suplementos mais injustiçados da nutrição esportiva.

Ela possui aplicações clínicas extremamente importantes.

Pacientes graves, queimados extensos, algumas situações hospitalares e determinadas doenças intestinais podem se beneficiar da glutamina dentro de protocolos específicos.

Entretanto, quando o objetivo é aumentar massa muscular em indivíduos saudáveis, as evidências permanecem fracas.

As revisões sistemáticas disponíveis não demonstram ganhos consistentes de força ou hipertrofia decorrentes da suplementação rotineira (Jäger et al., 2017).

Isso não significa que a glutamina “não funcione”.

Significa apenas que ela não funciona para aquilo que frequentemente é anunciada.

 

Os chamados “testosterone boosters”

Poucos mercados movimentam tanto dinheiro quanto o dos chamados estimuladores naturais de testosterona.

Tribulus terrestris.

Maca peruana.

Feno-grego.

Ácido D-aspártico.

Longjack.

Ashwagandha.

A lista cresce a cada ano.

Embora alguns desses compostos apresentem resultados interessantes em estudos preliminares, nenhum demonstrou, de forma consistente, produzir aumentos clinicamente relevantes da testosterona capazes de promover hipertrofia em indivíduos saudáveis (Antonio et al., 2020; ISSN Position Stands).

Isso não impede que determinados fitoterápicos possuam outras aplicações clínicas.

Mas utilizá-los como substitutos de treinamento, alimentação ou indicação médica representa uma extrapolação da evidência científica.

 

O verdadeiro ranking da ciência

Depois de milhares de estudos publicados nas últimas décadas, podemos resumir o conhecimento atual de maneira relativamente simples.

Evidência científica muito forte

✔ Creatina monoidratada.

✔ Whey protein (quando há dificuldade para atingir a ingestão proteica pela alimentação).

✔ Proteínas alimentares adequadas.

✔ Treinamento resistido progressivo.

 

Evidência moderada em situações específicas

✔ Cafeína (para desempenho). Cuidado com estimulantes sem orientação adequada! Cuidado com modismos!

✔ Beta-alanina (principalmente exercícios de alta intensidade com duração intermediária).

✔ Bebidas esportivas em exercícios prolongados.

 

Evidência limitada ou inconsistente para hipertrofia

✘ BCAA isolado.

✘ Glutamina em indivíduos saudáveis.

✘ HMB para praticantes jovens treinados (podendo haver benefício em idosos ou em situações clínicas específicas).

✘ Tribulus terrestris.

✘ “Boosters” naturais de testosterona.

✘ Grande parte das fórmulas manipuladas comercializadas para ganho de massa muscular.

 

O suplemento mais importante continua sendo o ESTILO DE VIDA

Talvez esta afirmação decepcione quem procura soluções rápidas. Mas ela resume fielmente o que mostram as melhores revisões científicas.

A construção de músculos depende muito menos do armário de suplementos e muito mais da regularidade do treinamento, da qualidade da alimentação, do sono e da recuperação.

Em outras palavras, o organismo responde muito melhor aos bons hábitos repetidos diariamente do que a qualquer substância isolada.

Essa constatação não diminui o valor da suplementação. Ao contrário. Ela coloca cada suplemento em seu devido lugar: como ferramenta auxiliar, e não como protagonista.

Talvez essa seja a maior diferença entre a ciência e o marketing.

A ciência pergunta: “Em quais situações este suplemento realmente oferece benefício?”

O marketing costuma perguntar: “Como vender este suplemento para o maior número possível de pessoas?”

São perguntas completamente diferentes.

 

O que você deve guardar

✔ A hipertrofia começa com o treinamento, não com o suplemento.

✔ O descanso e o sono são parte integrante do processo de construção muscular.

✔ A proteína fornece matéria-prima, mas não substitui o estímulo mecânico. Excesso de proteínas não melhora o resultado, podendo até trazer prejuízos.

✔ A ingestão ideal de proteínas deve ser individualizada.

✔ Whey protein é, antes de tudo, uma forma prática de ingerir proteínas de alta qualidade.

✔ A creatina monoidratada permanece como o suplemento com melhor nível de evidência para melhorar o desempenho em exercícios de força.

✔ A maioria dos suplementos comercializados apresenta benefícios modestos, específicos ou ainda insuficientemente demonstrados.

✔ A melhor estratégia para ganhar massa muscular continua sendo a combinação entre treinamento bem orientado, alimentação equilibrada, recuperação adequada e acompanhamento profissional. Individualizar a orientação é a chave.

 

Referências 

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JÄGER, R. et al. International Society of Sports Nutrition Position Stand: protein and exercise. Journal of the International Society of Sports Nutrition, v. 14, art. 20, 2017.

KREIDER, R. B. et al. ISSN Exercise & Sports Nutrition Review Update: research & recommendations. Journal of the International Society of Sports Nutrition, v. 19, n. 1, 2022.

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TANG, J. E. et al. Ingestion of whey hydrolysate, casein, or soy protein isolate: effects on mixed muscle protein synthesis after resistance exercise in young men. Journal of Applied Physiology, v. 107, n. 3, p. 987–992, 2009.

THOMAS, D. T.; ERDMAN, K. A.; BURKE, L. M. Position of the Academy of Nutrition and Dietetics, Dietitians of Canada, and the American College of Sports Medicine: Nutrition and Athletic Performance. Journal of the Academy of Nutrition and Dietetics, v. 116, n. 3, p. 501–528, 2016.

WOLFE, R. R. Branched-chain amino acids and muscle protein synthesis in humans: myth or reality? Journal of the International Society of Sports Nutrition, v. 14, art. 30, 2017.

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