Vegetarianismo e Veganismo: É ou não saudável? – Parte 1

 

 

Introdução

Poucos temas relacionados à alimentação despertam tanto interesse — e, ao mesmo tempo, tanta polarização — quanto o vegetarianismo e o veganismo. Enquanto alguns os apresentam como a alimentação ideal para todos, outros os criticam como dietas potencialmente deficientes ou incompatíveis com uma boa saúde. Como costuma acontecer em Medicina, a verdade científica encontra-se longe dos extremos.

Nas últimas décadas, o número de pessoas que reduziram ou eliminaram alimentos de origem animal cresceu significativamente em diversos países. As motivações são variadas. Para alguns, trata-se de uma decisão ética relacionada ao bem-estar animal. Para outros, a preocupação principal é ambiental. Há ainda aqueles que adotam esse padrão alimentar por motivos religiosos, filosóficos ou por acreditarem que ele oferece benefícios à saúde e à longevidade.

Essa crescente popularidade despertou enorme interesse da comunidade científica. Hoje existem milhares de estudos investigando os efeitos das dietas vegetarianas sobre obesidade, diabetes tipo 2, doenças cardiovasculares, alguns tipos de câncer, função renal, microbiota intestinal, envelhecimento saudável e mortalidade. Entretanto, interpretar corretamente esses estudos exige cautela. Afinal, pessoas vegetarianas frequentemente apresentam outros hábitos saudáveis — praticam mais atividade física, fumam menos, consomem menos álcool e tendem a ter maior preocupação com a própria saúde — fatores que também influenciam os resultados observados.

Assim, a pergunta mais importante talvez não seja simplesmente “vegetarianismo faz bem?”, mas sim:

Em quais condições uma alimentação vegetariana ou vegana pode ser considerada nutricionalmente adequada e promotora de saúde?

É essa questão que procuraremos responder ao longo deste artigo.

 

Nem todo vegetariano é igual

Embora frequentemente utilizados como sinônimos, os termos vegetarianismo e veganismo não significam exatamente a mesma coisa.

O vegetarianismo engloba diferentes padrões alimentares que excluem a carne, mas podem ou não incluir alguns alimentos de origem animal.

Entre os principais tipos destacam-se:

  • Ovolactovegetariano: exclui carnes, mas consome ovos, leite e derivados.
  • Lactovegetariano: exclui carnes e ovos, mantendo leite e derivados.
  • Ovovegetariano: exclui carnes e laticínios, mas inclui ovos.
  • Vegetariano estrito: exclui todos os alimentos de origem animal.

Já o veganismo vai além da alimentação. Trata-se de uma filosofia de vida que busca evitar, sempre que possível, a utilização de animais para alimentação, vestuário, entretenimento ou qualquer outra finalidade. Assim, além de excluir carnes, ovos, leite e derivados, muitos veganos também evitam couro, lã, seda, cosméticos testados em animais e outros produtos de origem animal.

Vale lembrar que o pescetariano, embora frequentemente incluído em discussões sobre alimentação baseada em vegetais, não é considerado vegetariano, pois mantém o consumo de peixes e frutos do mar.

Essa distinção é importante porque muitos estudos científicos analisam esses grupos separadamente, e seus resultados nem sempre são equivalentes.

 

Alimentação baseada em vegetais não significa alimentação saudável

Um dos maiores equívocos atuais é imaginar que toda dieta vegetariana ou vegana seja automaticamente saudável. Não é.

Batatas fritas, refrigerantes, balas, biscoitos recheados, salgadinhos industrializados, doces e diversos alimentos ultraprocessados podem ser completamente livres de ingredientes de origem animal, ou “veganos”, e, ainda assim, constituírem uma alimentação de péssima qualidade nutricional.

Nos últimos anos surgiu, inclusive, a expressão “junk food vegana”, referindo-se justamente a produtos ultraprocessados que atendem aos critérios do veganismo, mas apresentam elevado teor de açúcares, farinhas refinadas, sódio, gorduras de baixa qualidade e aditivos alimentares.

Por outro lado, uma alimentação vegetariana rica em verduras, legumes, frutas, leguminosas, cereais integrais, oleaginosas e sementes apresenta perfil nutricional completamente diferente.

Esse conceito levou pesquisadores a distinguir dois padrões bastante distintos:

  • Dieta saudável baseada em vegetais (healthful plant-based diet), composta predominantemente por alimentos minimamente processados.
  • Dieta não saudável baseada em vegetais (unhealthful plant-based diet), caracterizada por elevado consumo de alimentos refinados e ultraprocessados.

Essa diferenciação mostrou-se extremamente importante. Um interessante estudo publicado no The Journal of Nutrition, envolvendo participantes da coorte norte-americana Nurses’ Health Study, demonstrou que padrões alimentares vegetais baseados em alimentos integrais estavam associados a menor risco de doença coronariana, enquanto padrões predominantemente compostos por alimentos vegetais ultraprocessados apresentavam associação oposta (Satija et al., 2017).

Em outras palavras, não basta perguntar se a alimentação é vegetariana. É preciso perguntar que tipo de alimentos compõem essa dieta.

 

Loma Linda: uma das Blue Zones mais estudadas do mundo

Quando o assunto é longevidade, poucas localidades despertam tanto interesse científico quanto Loma Linda, na Califórnia.

A cidade tornou-se mundialmente conhecida por integrar as chamadas Blue Zones, regiões onde uma proporção incomumente elevada de pessoas alcança idades avançadas com boa qualidade de vida.

Entretanto, Loma Linda possui uma característica singular: além de abrigar uma população frequentemente estudada por seus hábitos saudáveis, é também sede da Loma Linda University, um dos principais centros mundiais de pesquisa em nutrição e estilo de vida.

Grande parte de seus habitantes pertence à Igreja Adventista do Sétimo Dia, tradição religiosa que incentiva hábitos como abstinência do tabaco, consumo muito reduzido de álcool, prática regular de atividade física, descanso semanal, forte integração comunitária e, para muitos de seus membros, alimentação predominantemente vegetariana.

Essa população vem sendo acompanhada há décadas por estudos epidemiológicos de grande porte, especialmente o Adventist Health Study e, posteriormente, o Adventist Health Study-2, envolvendo dezenas de milhares de participantes.

Um interessante estudo publicado no JAMA Internal Medicine, envolvendo mais de 73 mil adventistas norte-americanos acompanhados no Adventist Health Study-2, observou que determinados padrões alimentares vegetarianos estavam associados a menor mortalidade por todas as causas quando comparados aos padrões não vegetarianos (Orlich et al., 2013).

Entretanto, os próprios autores destacam uma questão fundamental: seria um erro atribuir esses resultados exclusivamente à alimentação.

Os adventistas de Loma Linda apresentam, em média, um conjunto de hábitos saudáveis que inclui menor prevalência de tabagismo, menor consumo de bebidas alcoólicas, maior prática de atividade física, melhor qualidade do sono, forte apoio social e maior preocupação com prevenção.

Assim, Loma Linda provavelmente representa um excelente exemplo daquilo que hoje chamamos de Medicina do Estilo de Vida: um conjunto integrado de comportamentos saudáveis, e não apenas um padrão alimentar específico.

Essa observação é extremamente importante para evitar conclusões simplistas. A ciência raramente encontra um único fator responsável por fenômenos complexos como a longevidade.

 

Conclusão

Talvez a principal mensagem desta primeira parte seja que vegetarianismo e veganismo não devem ser analisados sob uma perspectiva ideológica, mas científica.

Uma alimentação predominantemente baseada em vegetais pode, quando bem planejada, oferecer excelente qualidade nutricional e associar-se a diversos benefícios para a saúde. Entretanto, ela não constitui uma garantia automática de boa alimentação.

Mais importante do que classificar uma dieta como vegetariana, vegana ou onívora é avaliar sua qualidade global, seu grau de processamento, seu equilíbrio nutricional e sua capacidade de ser mantida de forma segura e sustentável ao longo da vida.

Na próxima parte, analisaremos o que os principais estudos científicos revelam sobre os benefícios e as limitações das dietas vegetarianas, discutindo doenças cardiovasculares, diabetes tipo 2, obesidade, câncer, longevidade e os nutrientes que merecem atenção especial — especialmente a vitamina B12.

 

Referências

ORLICH, M. J. et al. Vegetarian dietary patterns and mortality in Adventist Health Study 2. JAMA Internal Medicine, v. 173, n. 13, p. 1230–1238, 2013.

SATIJA, A. et al. Healthful and unhealthful plant-based diets and the risk of coronary heart disease in U.S. adults. The Journal of Nutrition, v. 147, n. 4, p. 624–631, 2017.

MELINA, V.; CRAIG, W.; LEVIN, S. Position of the Academy of Nutrition and Dietetics: Vegetarian Diets. Journal of the Academy of Nutrition and Dietetics, v. 116, n. 12, p. 1970–1980, 2016.

DYSON, P. Plant-based diets and cardiovascular disease. Journal of Human Nutrition and Dietetics, v. 36 (Suppl. 1), p. 3–17, 2023.

FRASER, G. E. Diet, life expectancy, and chronic disease: Studies of Seventh-day Adventists and other vegetarians. Oxford: Oxford University Press, 2003.

 

Diabetes Tipo 2 – A revolução dos medicamentos: da metformina às “canetas” que mudaram a história do diabete – Parte 3

 

Durante grande parte do século XX, os medicamentos para diabetes tinham um único objetivo: baixar a glicemia. Hoje, a realidade é muito diferente. Alguns fármacos modernos conseguem, além de controlar o açúcar no sangue, reduzir o risco de infarto, proteger os rins, favorecer a perda de peso e até prolongar a sobrevida de determinados pacientes (ADA, 2025; Davies et al., 2022).

 

Uma história de progresso contínuo

O tratamento medicamentoso do diabetes tipo 2 evoluiu extraordinariamente nas últimas décadas.

Nas décadas de 1950 e 1960, as opções eram limitadas. O foco era simplesmente reduzir a glicemia. Com o passar dos anos, surgiram medicamentos mais eficazes e seguros, até chegarmos aos atuais análogos das incretinas, que inauguraram uma nova era na Endocrinologia.

Hoje, o médico não escolhe apenas um medicamento para “baixar a glicose”. Ele procura selecionar aquele que melhor atende às características do paciente, considerando obesidade, risco cardiovascular, doença renal, idade, risco de hipoglicemia e custo do tratamento.

 

Resumo Prático

Atualmente, a escolha do medicamento leva em consideração:

✔ controle da glicemia;

✔ proteção cardiovascular;

✔ proteção renal;

✔ controle do peso;

✔ risco de hipoglicemia;

✔ preferência e perfil clínico do paciente.

 

Metformina: a velha conhecida que continua atual

Poucos medicamentos resistiram tão bem ao tempo quanto a metformina. Introduzida na prática clínica na década de 1950, ela continua sendo considerada o tratamento inicial de escolha para muitos pacientes com diabetes tipo 2, especialmente quando não existem contraindicações (ADA, 2025).

Seu principal mecanismo consiste em reduzir a produção de glicose pelo fígado e melhorar a sensibilidade à insulina.

 

Principais vantagens

  • excelente perfil de segurança;
  • baixo custo;
  • não costuma causar hipoglicemia;
  • pode favorecer discreta perda de peso ou neutralidade ponderal;
  • extensa experiência clínica.

 

Efeitos adversos

Os mais comuns são gastrointestinais:

  • náuseas;
  • sensação de estômago cheio;
  • diarreia;
  • desconforto abdominal.

Esses sintomas costumam diminuir quando a medicação é introduzida gradualmente ou utilizada na formulação de liberação prolongada (XR).

Outra observação importante é que o uso prolongado pode reduzir a absorção de vitamina B12, motivo pelo qual sua dosagem periódica deve ser considerada, sobretudo em idosos, vegetarianos, pacientes com neuropatia periférica ou anemia (ADA, 2025; de Jager et al., 2010).

 

Sulfonilureias: ainda têm espaço?

Medicamentos como gliclazida, glimepirida e glibenclamida estimulam diretamente o pâncreas a produzir insulina. São eficazes na redução da glicemia e apresentam baixo custo. Entretanto, perderam protagonismo porque podem provocar:

  • hipoglicemia;
  • ganho de peso;
  • perda gradual de eficácia ao longo dos anos.

Apesar disso, continuam sendo úteis em situações específicas, especialmente quando há limitações econômicas ou indisponibilidade de medicamentos mais modernos.

 

 

Pioglitazona: uma opção que merece seleção cuidadosa

A pioglitazona aumenta a sensibilidade dos tecidos à ação da insulina.Pode beneficiar especialmente pacientes com resistência insulínica importante e esteatose hepática associada.Por outro lado, requer cautela devido à possibilidade de:

  • retenção de líquidos;
  • edema;
  • piora da insuficiência cardíaca;
  • ganho de peso;
  • aumento do risco de fraturas em alguns grupos de pacientes.

Por isso, sua indicação deve ser cuidadosamente individualizada.

 

Inibidores da DPP-4: discretos, porém seguros

Medicamentos como:

  • sitagliptina;
  • vildagliptina;
  • saxagliptina;
  • linagliptina.

Atuam prolongando a ação das incretinas produzidas naturalmente pelo organismo. Sua redução da hemoglobina glicada costuma ser moderada. Como vantagens:

  • praticamente não causam hipoglicemia;
  • são bem tolerados;
  • apresentam poucos efeitos adversos.

Em contrapartida, não promovem perda significativa de peso nem demonstraram benefícios cardiovasculares comparáveis aos observados com os agonistas de GLP-1 ou os inibidores de SGLT2.

 

Os inibidores de SGLT2: quando a glicose sai pela urina

Talvez nenhuma classe tenha surpreendido tanto os cardiologistas e nefrologistas quanto os inibidores do cotransportador sódio-glicose tipo 2 (SGLT2). Entre eles destacam-se:

  • empagliflozina;
  • dapagliflozina;
  • canagliflozina;
  • ertugliflozina.

Esses medicamentos atuam nos rins, promovendo a eliminação de glicose pela urina. O mecanismo é elegante: em vez de tentar utilizar toda a glicose filtrada, o organismo passa a eliminar parte dela naturalmente.

O resultado vai muito além da redução da glicemia. Grandes estudos demonstraram redução consistente de:

  • hospitalizações por insuficiência cardíaca;
  • progressão da doença renal crônica;
  • eventos cardiovasculares em grupos selecionados (Zinman et al., 2015; McMurray et al., 2019; Heerspink et al., 2020).

Hoje, muitos pacientes utilizam essas medicações principalmente pela proteção cardíaca e renal, e não apenas pelo diabetes.

 

Resumo Prático

Os inibidores de SGLT2:

✔ reduzem a glicemia;

✔ ajudam discretamente na perda de peso;

✔ diminuem a pressão arterial;

✔ protegem os rins;

✔ reduzem internações por insuficiência cardíaca.

 

Cuidados importantes com os inibidores de SGLT2

Apesar dos benefícios, alguns cuidados são fundamentais. Podem ocorrer:

  • infecções genitais por fungos;
  • aumento da frequência urinária;
  • desidratação em indivíduos suscetíveis.

Existe ainda uma complicação rara, porém importante: a cetoacidose diabética euglicêmica, situação em que o paciente pode desenvolver acidose metabólica grave mesmo sem glicemias muito elevadas (Peters et al., 2015).

Por essa razão, esses medicamentos costumam ser suspensos temporariamente antes de cirurgias de médio e grande porte, durante jejum prolongado ou em doenças agudas graves.

 

A revolução das incretinas

Poucas descobertas modificaram tanto o tratamento do diabetes quanto a compreensão dos hormônios intestinais conhecidos como incretinas.

Após uma refeição, o intestino libera hormônios como o GLP-1, que estimulam a secreção de insulina apenas quando a glicemia está elevada.

Além disso:

  • reduzem o glucagon;
  • retardam o esvaziamento gástrico;
  • aumentam a saciedade;
  • diminuem o apetite.

Foi essa descoberta que levou ao desenvolvimento dos agonistas do receptor de GLP-1.

Entre eles destacam-se:

  • liraglutida;
  • semaglutida;
  • dulaglutida.

Esses medicamentos passaram a promover algo que antes parecia muito difícil: perda significativa de peso associada a excelente controle glicêmico.

 

Tirzepatida: dois hormônios em uma única molécula

A tirzepatida representa mais um avanço importante.

Ela atua simultaneamente sobre os receptores de GIP e GLP-1.

Os estudos SURPASS demonstraram reduções expressivas tanto da hemoglobina glicada quanto do peso corporal, frequentemente superiores às observadas com diversos agonistas isolados de GLP-1 (Del Prato et al., 2021; Frías et al., 2021).

Seu uso ainda requer acompanhamento médico criterioso devido aos efeitos gastrointestinais e às contraindicações conhecidas da classe.

 

E a retatrutida?

A retatrutida ainda não estava disponível para uso clínico rotineiro até meados de 2026, mas seus resultados em estudos de fase 2 mostraram perda de peso sem precedentes para tratamento farmacológico.

Ela atua simultaneamente sobre três receptores:

  • GLP-1;
  • GIP;
  • glucagon.

Os resultados publicados até o momento sugerem reduções de peso superiores a 20% em muitos participantes, aproximando-se dos efeitos obtidos com algumas cirurgias bariátricas (Jastreboff et al., 2023).

Se os estudos de fase 3 confirmarem esses achados e demonstrarem segurança em longo prazo, a retatrutida poderá representar mais uma mudança de paradigma no tratamento da obesidade e do diabetes tipo 2.

Entretanto, como ocorre com toda inovação, é prudente aguardar a consolidação das evidências antes de ampliar suas indicações.

 

Resumo Comparativo das Principais Classes

Classe Hipoglicemia Peso Benefício cardiovascular Benefício renal
Metformina Muito baixa ↓/↔ Possível benefício indireto Neutro
Sulfonilureias Alta Não demonstrado Neutro
Pioglitazona Baixa Situações específicas Neutro
DPP-4 Muito baixa Neutro Neutro
SGLT2 Muito baixa Sim Sim
GLP-1 Muito baixa ↓↓↓ Sim Possível benefício
Tirzepatida Muito baixa ↓↓↓↓ Evidências crescentes Evidências promissoras

 

O futuro é a medicina personalizada

As diretrizes mais recentes enfatizam que não existe mais um único tratamento para todos.

Dois pacientes com a mesma glicemia podem receber tratamentos completamente diferentes.

Hoje, a decisão leva em conta:

  • obesidade;
  • doença cardiovascular;
  • insuficiência cardíaca;
  • doença renal crônica;
  • risco de hipoglicemia;
  • idade;
  • fragilidade;
  • preferências do paciente;
  • acesso ao tratamento.

Essa individualização representa um dos maiores avanços da Endocrinologia moderna.

 

Conclusão

A evolução dos medicamentos para o diabetes tipo 2 reflete uma transformação profunda na própria medicina. Se antes o objetivo era apenas reduzir a glicemia, hoje busca-se proteger o organismo como um todo: coração, rins, cérebro, vasos sanguíneos e qualidade de vida. O tratamento deixou de ser centrado apenas em números e passou a considerar o paciente em sua totalidade.

Ao mesmo tempo, é importante lembrar que nenhum medicamento substitui hábitos saudáveis. Mesmo as terapias mais modernas alcançam seus melhores resultados quando associadas a alimentação equilibrada, atividade física regular, sono adequado e acompanhamento multiprofissional. A verdadeira revolução do diabetes não está apenas nas novas moléculas, mas na integração entre ciência, tecnologia e estilo de vida.

 

Na próxima parte…

Quando chega o momento de iniciar insulina? Isso significa que o diabetes “piorou”? Quais são os tipos de insulina, como elas são aplicadas e por que tantas pessoas ainda têm medo desse tratamento?

Na Parte IV, abordaremos a insulinização, a história natural do diabetes, o monitoramento contínuo da glicose, as bombas de infusão e as principais inovações no tratamento dos casos mais complexos.

 

Referências

AMERICAN DIABETES ASSOCIATION. Standards of Care in Diabetes—2025. Diabetes Care, Alexandria, v. 48, Suppl. 1, 2025.

DAVIES, M. J. et al. Management of hyperglycaemia in type 2 diabetes, 2022. A consensus report by the American Diabetes Association (ADA) and the European Association for the Study of Diabetes (EASD). Diabetes Care, Alexandria, v. 45, n. 11, p. 2753–2786, 2022.

DE JAGER, J. et al. Long term treatment with metformin in patients with type 2 diabetes and risk of vitamin B-12 deficiency: randomised placebo controlled trial. BMJ, London, v. 340, c2181, 2010.

DEL PRATO, S. et al. Tirzepatide versus insulin glargine in type 2 diabetes and increased cardiovascular risk (SURPASS-4). The Lancet, London, v. 398, n. 10313, p. 1811–1824, 2021.

FRÍAS, J. P. et al. Tirzepatide versus semaglutide once weekly in patients with type 2 diabetes (SURPASS-2). The New England Journal of Medicine, Boston, v. 385, n. 6, p. 503–515, 2021.

HEERSPINK, H. J. L. et al. Dapagliflozin in patients with chronic kidney disease. The New England Journal of Medicine, Boston, v. 383, n. 15, p. 1436–1446, 2020.

JASTREBOFF, A. M. et al. Triple-hormone-receptor agonist retatrutide for obesity — a phase 2 trial. The New England Journal of Medicine, Boston, v. 389, n. 6, p. 514–526, 2023.

MCMURRAY, J. J. V. et al. Dapagliflozin in patients with heart failure and reduced ejection fraction. The New England Journal of Medicine, Boston, v. 381, n. 21, p. 1995–2008, 2019.

PETERS, A. L. et al. Euglycemic diabetic ketoacidosis: a potential complication of treatment with sodium-glucose cotransporter 2 inhibition. Diabetes Care, Alexandria, v. 38, n. 9, p. 1687–1693, 2015.

ZINMAN, B. et al. Empagliflozin, cardiovascular outcomes, and mortality in type 2 diabetes. The New England Journal of Medicine, Boston, v. 373, n. 22, p. 2117–2128, 2015.

 

 

 

 

 

 

Vitamina B12: O Que Você Não Pode Deixar de Saber

 

Um estudo epidemiológico de grande porte publicado no jornal científico JAMA Network Open, acompanhando mais de 5.500 adultos ao longo de 8 anos, demonstrou que níveis plasmáticos excessivamente altos de vitamina B12 estão associados a um aumento significativo no risco de mortalidade por todas as causas (FLORES-GUERRERO et al., 2020). Essa descoberta sacudiu a comunidade médica, quebrando o antigo mito de que as vitaminas hidrossolúveis podiam ser ingeridas de forma ilimitada sem qualquer consequência.

Embora a deficiência de cobalamina (vitamina B12) seja um problema grave de saúde pública, a corrida descontrolada por megadoses e a automedicação criaram um cenário de riscos metabólicos antes ignorados.

 

As Funções Vitais e os Sinais de Alerta

A vitamina B12 é fundamental para o funcionamento do nosso corpo. Ela atua como uma engrenagem bioquímica indispensável para a síntese do nosso material genético (DNA) e na formação adequada das hemácias (glóbulos vermelhos) (SHIPTON; THACHIL, 2015). Além disso, ela é responsável por manter a integridade da bainha de mielina — a capa protetora que reveste os neurônios e permite a condução rápida dos estímulos nervosos (SMITH et al, 2018).

Quando os níveis dessa vitamina começam a despencar no organismo, os sintomas se manifestam de forma gradual e podem ser facilmente confundidos com outras condições:

  • Sinais Neurológicos: Sensação de formigamento e dormência nas mãos e nos pés (parestesia), fraqueza muscular e desequilíbrio ao caminhar (ataxia) (NICE, 2024).
  • Sintomas Cognitivos: Dificuldade de concentração, névoa mental (brain fog), falhas de memória recente, irritabilidade e até episódios depressivos (SMITH et al, 2018).
  • Sinais Físicos Gerais: Fadiga crônica incapacitante, palidez cutânea e uma característica língua lisa, dolorida e avermelhada (glossite) (SHIPTON; THACHIL, 2015).

 

A Conexão Intestinal: B12 e a Microbiota

A absorção da vitamina B12 é uma das funções mais complexas e frágeis do trato digestivo. O processo depende do ácido clorídrico do estômago e de uma proteína chamada Fator Intrínseco, que é secretada pelas células gástricas (SHIPTON; THACHIL, 2015).

Recentemente, a ciência começou a desvendar a profunda relação de via dupla entre a B12 e a nossa microbiota intestinal. Embora as bactérias presentes no nosso cólon consigam sintetizar certas formas de cobalamina, nós não somos capazes de absorvê-las ativamente nessa porção final do intestino (ALLEN, L. H, 2024).

Por outro lado, a própria microbiota do intestino delgado e grosso compete ativamente com o hospedeiro humano pela B12 dietética; uma escassez ou mesmo o excesso desse nutriente pode desequilibrar a composição bacteriana, alterando a proporção de filos essenciais para a nossa imunidade e bem-estar (ALLEN, L. H, 2024).

 

Os Diferentes Tipos de B12: Qual a Melhor Escolha?

Ao entrar em uma farmácia, nos deparamos com diferentes formas químicas de cobalamina. Cada uma se comporta de maneira distinta no metabolismo:

  • Cianocobalamina: É a versão sintética, extremamente estável e de baixo custo de produção. Ela necessita ser convertida no fígado em suas formas ativas (adenosil e metilcobalamina). Embora amplamente eficaz para a população geral, sua velocidade de conversão pode ser inferior em indivíduos com distúrbios enzimáticos específicos (O’LEARY; SAMMAN, 2010).
  • Metilcobalamina: Trata-se de uma forma ativa e bioidêntica da B12, ideal para suplementação via oral e, principalmente, sublingual (PARROTT, J. et al, 2020). Ela atua diretamente no ciclo de metilação, auxiliando no controle dos níveis de homocisteína no sangue (SHIPTON; THACHIL, 2015).
  • Hidroxocobalamina: Uma forma natural obtida por fermentação bacteriana. Por possuir uma meia-vida longa e excelente estabilidade na corrente sanguínea, é a forma de preferência absoluta para o preparo de fórmulas injetáveis de depósito (NICE, 2024).

 

Como e Quando Suplementar?

A escolha da via de administração deve respeitar a causa da deficiência do paciente.

  1. Suplementação Oral e Sublingual: Historicamente, acreditava-se que indivíduos sem o fator intrínseco (como bariatrizados ou pacientes com gastrite atrófica crônica) só podiam receber B12 por injeção. No entanto, uma revisão sistemática robusta demonstrou que doses orais elevadas (entre 1.000 e 2.000 microgramas diários) são tão eficazes quanto a via injetável para normalizar os níveis de B12, devido a uma via de absorção passiva e independente no intestino (SANZ-CUESTA et al., 2020). A via sublingual com metilcobalamina é uma excelente e confortável alternativa à picada da agulha para vegetarianos e pacientes com deficiências leves a moderadas.
  2. Via Injetável (Intramuscular): Permanece sendo a conduta padrão ouro e indispensável nos casos de deficiência severa aguda com comprometimento neurológico grave ou quando há problemas intestinais graves que impedem qualquer nível de absorção gástrica (NICE, 2024).

Que níveis no exame de sangue são considerados normais?

Embora os valores de referência possam variar discretamente entre os laboratórios, de modo geral considera-se que níveis séricos de vitamina B12 abaixo de 200 pg/mL (148 pmol/L) são altamente sugestivos de deficiência, enquanto concentrações entre 200 e 300 pg/mL representam uma faixa limítrofe, na qual a investigação complementar costuma ser recomendada. Valores acima de 300 pg/mL são considerados adequados para a maioria das pessoas.

Exame normal, mas existe uma deficiência funcional

Entretanto, o resultado do exame deve ser interpretado em conjunto com a história clínica, os sintomas e outros exames laboratoriais, pois a vitamina B12 sérica isoladamente não reflete, em todos os casos, a quantidade de vitamina efetivamente disponível para as células (O’Leary; Samman, 2010; Wolffenbuttel et al., 2023).

Na prática, isso significa que uma pessoa pode apresentar sintomas compatíveis com deficiência de vitamina B12 — como fadiga persistente, formigamentos nas mãos e nos pés, perda de memória, dificuldade de concentração, alterações do humor ou anemia macrocítica — mesmo com níveis séricos aparentemente normais, sobretudo quando estes se situam na faixa limítrofe (por exemplo, entre 200 e 400 pg/mL). Nesses casos, o médico pode solicitar exames que avaliam a atividade funcional da vitamina B12 no organismo, principalmente o ácido metilmalônico (MMA) e a homocisteína. Quando a vitamina B12 é insuficiente dentro das células, esses metabólitos tendem a se elevar, indicando uma deficiência funcional. Se houver sintomas sugestivos ou alterações nesses marcadores, deve-se investigar a causa da deficiência (como anemia perniciosa, doenças intestinais, uso prolongado de metformina ou inibidores da bomba de prótons, ou dieta estritamente vegetariana sem suplementação) e instituir o tratamento adequado, que pode incluir suplementação oral ou injetável, conforme a causa e a gravidade do quadro (O’Leary; Samman, 2010; Wolffenbuttel et al., 2023).

 

Quanto de vitamina B12 devo ingerir por dia e como conseguir isso

A recomendação diária de vitamina B12 varia conforme a idade e a fase da vida. Para a maioria dos adultos, a ingestão recomendada é de 2,4 microgramas (mcg) por dia. Durante a gestação, essa necessidade aumenta para 2,6 mcg/dia, e na amamentação para 2,8 mcg/dia. Como a vitamina B12 é produzida por microrganismos e se acumula principalmente nos tecidos dos animais, suas principais fontes alimentares são carnes bovina, suína e de aves, peixes, frutos do mar, fígado, ovos, leite e derivados. Pessoas que seguem uma alimentação vegetariana estrita (vegana) ou com pouca ingestão de alimentos de origem animal apresentam maior risco de deficiência e, em geral, necessitam de suplementação ou do consumo regular de alimentos fortificados para atender às necessidades do organismo (National Institutes of Health, 2025; Allen, 2009).

 

O Caso dos Vegetarianos e Bariatrizados

  • Vegetarianos e Veganos: Como a B12 ativa está presente apenas em tecidos e derivados de origem animal, a suplementação em indivíduos que adotam uma dieta estritamente vegetal é mandatória (O’LEARY; SAMMAN, 2010). A recomendação padrão diária para manutenção gira em torno de 50 a 250 microgramas, ou 2.000 microgramas ingeridos uma única vez por semana.
  • Pacientes Bariatrizados: A redução cirúrgica do estômago limita drasticamente a produção do fator intrínseco. Esses indivíduos necessitam de monitoramento clínico rigoroso e suplementação vitalícia, geralmente utilizando a via sublingual em doses diárias de 1.000 microgramas ou por via injetável a cada 1 a 3 meses (PARROTT, J. et al., 2020).

 

Condições clínicas e remédios que comprometem a suficiência de vitamina B12

Além dos vegetarianos estritos, pessoas com doenças disabsortivas também apresentam maior risco de deficiência de vitamina B12. Essas condições dificultam a absorção dos nutrientes pelo intestino, mesmo quando a alimentação é adequada. Entre os exemplos mais comuns estão a anemia perniciosa (doença autoimune que reduz a produção do fator intrínseco, indispensável para a absorção da vitamina B12), a doença celíaca, a doença de Crohn, cirurgias bariátricas ou ressecções do estômago e do intestino, além do uso prolongado de medicamentos como metformina e inibidores da bomba de prótons (omeprazol, pantoprazol e similares), que também podem reduzir a absorção da vitamina. Nesses casos, assim como para vegetarianos estritos, a suplementação costuma ser necessária, mas a dose e a via de administração (oral ou injetável) devem ser individualizadas e prescritas por um profissional habilitado, levando em consideração os exames laboratoriais, a causa da deficiência e as características de cada paciente (National Institutes of Health, 2025; Wolffenbuttel et al., 2023).

 

Prescrições exageradas

Nos últimos anos, a popularização de conteúdos sobre saúde nas redes sociais e em outras plataformas digitais favoreceu a disseminação da ideia de que níveis séricos muito elevados de vitamina B12 — frequentemente acima de 1.000 pg/mL — seriam necessários para promover mais energia, melhorar o desempenho físico e mental ou retardar o envelhecimento. No entanto, não existem diretrizes ou evidências científicas robustas que recomendem manter concentrações tão elevadas em indivíduos saudáveis.

Na ausência de deficiência documentada ou de uma indicação clínica específica, o uso indiscriminado de megadoses de vitamina B12 não demonstrou benefícios consistentes para a saúde ou para a chamada “alta performance”, podendo levar a suplementações desnecessárias, aumento de custos e interpretações equivocadas dos exames laboratoriais (Wolffenbuttel et al., 2023; O’Leary; Samman, 2010).

 

Vitamina B12 alta sem suplemento: por que pode ser um sinal de alerta?

Vitamina B12 alta no sangue nem sempre é sinônimo de supersaúde. Se você não toma nenhuma vitamina ou injeção, esse aumento espontâneo funciona como um sinal de alerta do corpo.

Quando os níveis sobem sozinhos, pode ser um indício de que algo não vai bem nos bastidores do organismo [FEDOSOV, 2024].

Segundo FEDOSOV, níveis elevados de vitamina B12 circulando na ausência de suplementação prévia, não são sinais de saúde, mas sim de alerta clínico. A elevação espontânea da B12 no sangue costuma ser um marcador precoce de disfunções renais e hepáticos que podem ser severos ou, em casos específicos, doenças mieloproliferativas (como leucemia mielóide crônica).

 

O que pode estar acontecendo?

De modo simplificado:

  • Fígado sobrecarregado: O fígado armazena a B12. Se ele estiver inflamado ou com lesões, deixa a vitamina “vazar” para o sangue.
  • Filtração dos rins lenta: Rins com funcionamento reduzido acumulam substâncias, impedindo a eliminação do excesso de B12 pela urina.
  • Alterações no sangue: Em casos mais específicos e raros, pode indicar que a medula óssea está produzindo células em excesso.

 

Seus próximos passos

  1. Procure por B12 “oculta”: Cheque o rótulo de tudo o que consome. Procure por termos técnicos terminados em “cobalamina” (como cianocobalamina ou metilcobalamina) em polivitamínicos, shakes ou suplementos de academia.
  2. Consulte seu médico: Leve o resultado e peça uma investigação orientada. O foco não é reduzir a B12, mas sim entender o que causou o aumento.

 

 

Conclusão

A suplementação de vitamina B12 deve ser indicada com base em uma avaliação clínica criteriosa e, sempre que possível, confirmada por exames laboratoriais. Da mesma forma, quando a deficiência é diagnosticada, o tratamento não deve ser adiado, pois a falta prolongada dessa vitamina pode causar anemia, comprometimento neurológico e outros problemas que, em alguns casos, podem tornar-se irreversíveis se não forem tratados precocemente.

 

 

Em saúde, mais nem sempre significa melhor. O objetivo não é alcançar números elevados apenas porque circulam nas redes sociais ou em recomendações sem embasamento científico, mas manter níveis adequados para o bom funcionamento do organismo. A melhor medicina continua sendo aquela fundamentada em evidências e no equilíbrio: oferecer ao corpo exatamente o que ele necessita — nem menos, nem mais.

 

 

           

Referências

ALLEN, L. H. Causes of vitamin B12 and folate deficiency. Food and Nutrition Bulletin, Boston, v. 29, supl. 2, p. S20-S34, 2009.

BOUILLON, R.; GIOVANNUCCI, E.; HOLICK, M. F. et al. Vitamin D supplementation: from guidelines to clinical practice. Endocrine Reviews, v. 45, n. 5, 2024. (Consenso internacional elaborado por especialistas da Endocrine Society e European Calcified Tissue Society, atualmente uma das referências mais robustas sobre suplementação de vitamina D.)

FEDOSOV, S. N.; NEXO, E. Macro-B12 and unexpectedly high levels of plasma vitamin B12: a critical review. Nutrients, v. 16, n. 5, art. 648, 2024.

FLORES-GUERRERO, J. L. et al. Association of plasma concentration of vitamin B12 with all-cause mortality in the general population in the Netherlands. JAMA Network Open, v. 3, n. 1, e1919274, 2020.

ALLEN, L. H. Vitamin B12 and gut microbiota interactions: current knowledge and future perspectives. Advances in Nutrition, v. 15, n. 2, 2024.

NATIONAL INSTITUTE FOR HEALTH AND CARE EXCELLENCE (NICE). Vitamin B12 deficiency in over 16s: diagnosis and management (NG239). London: NICE, 2024.

NATIONAL INSTITUTES OF HEALTH. Office of Dietary Supplements. Vitamin B12 – Fact Sheet for Health Professionals. Bethesda, MD, 2025.

O’LEARY, F.; SAMMAN, S. Vitamin B12 in health and disease. Nutrients, Basel, v. 2, n. 3, p. 299–316, 2010. DOI: 10.3390/nu2030299.

PARROTT, J.; FRANK, L.; RABENA, R. et al. American Society for Metabolic and Bariatric Surgery Integrated Health Nutritional Guidelines for the Surgical Weight Loss Patient—2020 Update: Micronutrients. Surgery for Obesity and Related Diseases, v. 16, n. 2, p. 175–247, 2020.

SANZ-CUESTA, T. et al. Oral versus intramuscular administration of vitamin B12 for the treatment of patients with vitamin B12 deficiency: a systematic review. Family Practice, v. 37, n. 3, p. 291–298, 2020.

SHIPTON, M. J.; THACHIL, J. Vitamin B12 deficiency – A 21st century perspective. Clinical Medicine, v. 15, n. 2, p. 145–150, 2015.

SMITH, A. D.; WARREN, M. J.; REFSUM, H. Vitamin B12. Advances in Food and Nutrition Research, v. 83, p. 215–279, 2018.

WOLFFENBUTTEL, B. H. R. et al. The many faces of cobalamin (vitamin B12) deficiency. Mayo Clinic Proceedings, v. 98, n. 6, p. 1019–1035, 2023. DOI: 10.1016/j.mayocp.2023.01.024.

A Receita Quilométrica: O Limiar entre a Suplementação Científica e a Toxicidade

 

 

Imagine a seguinte cena em um consultório médico: um paciente jovem, fisicamente ativo e preocupado com a própria saúde procura atendimento devido a desconforto abdominal persistente, náuseas recorrentes e episódios de palpitação. Durante a anamnese, apresenta uma lista extensa de suplementos e fórmulas manipuladas, incluindo vitaminas em altas doses, minerais, aminoácidos, fitoterápicos e estimulantes diversos. Nenhuma deficiência nutricional havia sido documentada previamente, e grande parte das substâncias fora prescrita com a promessa de melhorar energia, imunidade, composição corporal ou longevidade.

Embora esse exemplo seja hipotético, situações semelhantes têm se tornado cada vez mais frequentes na prática clínica. A suplementação nutricional representa uma ferramenta valiosa quando utilizada para corrigir deficiências comprovadas, complementar necessidades específicas ou apoiar determinadas condições clínicas. Entretanto, a crescente popularização de prescrições extensas, frequentemente desvinculadas de critérios diagnósticos claros, levanta questionamentos importantes sobre eficácia, segurança e racionalidade terapêutica.

 

O Fascínio das Soluções Complexas

Existe uma percepção difundida de que uma combinação de múltiplos nutrientes produziria benefícios superiores aos obtidos por intervenções mais simples. Contudo, a fisiologia humana não necessariamente responde de forma linear ao aumento da quantidade de substâncias ingeridas.

Vitaminas, minerais e compostos bioativos participam de redes metabólicas complexas e frequentemente compartilham mecanismos de absorção, transporte e utilização celular. O excesso de determinados nutrientes pode interferir na absorção de outros ou alterar mecanismos regulatórios naturais do organismo. Além disso, diversos nutrientes podem competir entre si em vias metabólicas específicas, tornando improvável que “mais” seja automaticamente sinônimo de “melhor” (Bouayed e Bohn, 2010).

Quanto maior o número de substâncias utilizadas simultaneamente, maior também a dificuldade de identificar a origem de eventuais efeitos adversos, intolerâncias ou interações medicamentosas. Embora indivíduos saudáveis possuam ampla capacidade de metabolização e excreção, o uso prolongado e desnecessário de múltiplos suplementos pode aumentar a carga metabólica sobre fígado e rins, particularmente em pessoas suscetíveis ou portadoras de doenças pré-existentes.

 

Soroterapia: Entre a Medicina e o Marketing

Nos últimos anos, tornou-se popular a oferta de chamados “soros da imunidade”, “soros energéticos” ou “soros da beleza”, frequentemente comercializados como estratégias de promoção da saúde e prevenção de doenças.

É importante destacar que a administração intravenosa de nutrientes possui indicações médicas legítimas em contextos específicos, como nutrição parenteral, correção de deficiências graves ou situações clínicas especiais. Entretanto, a utilização rotineira dessas infusões em indivíduos saudáveis carece de evidências científicas robustas que demonstrem benefícios consistentes para desempenho físico, rejuvenescimento ou fortalecimento imunológico.

Além disso, qualquer procedimento intravenoso envolve riscos inerentes, incluindo infecções, flebites, reações adversas e erros de dosagem. Por esse motivo, diversas sociedades médicas e especialistas em medicina baseada em evidências recomendam cautela diante de promessas terapêuticas que extrapolem os dados científicos atualmente disponíveis.

 

O Paradoxo dos Antioxidantes

Poucos conceitos são tão atraentes quanto a ideia de combater o envelhecimento por meio da ingestão de antioxidantes. De fato, o estresse oxidativo participa de inúmeros processos patológicos, e nutrientes antioxidantes desempenham funções importantes na manutenção da saúde (Halliwell e Gutteridge, 2015).

Entretanto, a biologia humana é mais complexa do que uma simples batalha entre radicais livres e antioxidantes.

As espécies reativas de oxigênio exercem funções fisiológicas fundamentais, participando da defesa imunológica, da comunicação celular, da adaptação ao exercício físico e de diversos processos metabólicos. Dessa forma, níveis moderados de oxidação não representam necessariamente um problema; em muitos casos, são essenciais para o funcionamento normal do organismo (Halliwell e Gutteridge, 2015).

Estudos experimentais demonstram que alguns antioxidantes podem apresentar comportamento pró-oxidante em determinadas circunstâncias, especialmente quando utilizados em doses elevadas e isoladamente (Bouayed e Bohn, 2010). Revisões da literatura também mostram que os benefícios teóricos observados em modelos laboratoriais nem sempre se traduzem em vantagens clínicas quando antioxidantes são utilizados indiscriminadamente em seres humanos (Seifried et al., 2007).

Isso não significa que vitaminas antioxidantes sejam prejudiciais por definição, mas reforça um princípio fundamental da fisiologia: equilíbrio é mais importante do que excesso.

 

Testosterona e a Busca pelo Desempenho

Outro fenômeno crescente é o uso de testosterona e outros andrógenos por indivíduos sem hipogonadismo diagnosticado.

A terapia de reposição hormonal possui papel estabelecido no tratamento de homens com deficiência androgênica clinicamente comprovada. Contudo, sua utilização para fins estéticos, ganho de massa muscular ou melhora inespecífica da vitalidade permanece controversa. As diretrizes da Endocrine Society (Bhasin et al., 2018) e da American Urological Association (Mulhall et al., 2018) recomendam que o tratamento seja reservado a pacientes que apresentem sintomas compatíveis associados a níveis laboratoriais reduzidos de testosterona.

O uso inadequado pode levar à supressão da produção natural do hormônio, redução da fertilidade, alterações testiculares e diversas repercussões metabólicas. Também podem ocorrer elevação do hematócrito, alterações do perfil lipídico e potenciais repercussões cardiovasculares em grupos suscetíveis, especialmente quando doses suprafisiológicas são utilizadas por períodos prolongados (Bhasin et al., 2018; Mulhall et al., 2018).

 

Energéticos e Estimulantes: Quando a Energia Cobra Seu Preço

As bebidas energéticas e os suplementos pré-treino conquistaram amplo espaço entre estudantes, profissionais e praticantes de atividade física.

Em doses moderadas, a cafeína pode melhorar o estado de alerta, a atenção e o desempenho esportivo, especialmente em modalidades de resistência e atividades que exigem concentração (Spriet, 2014). Entretanto, o consumo excessivo ou repetido ao longo do dia pode gerar efeitos adversos importantes.

Entre os problemas mais frequentemente observados estão ansiedade, insônia, tremores, palpitações, aumento transitório da pressão arterial e desconforto gastrointestinal. Em indivíduos predispostos, doses elevadas podem contribuir para arritmias cardíacas e outros eventos cardiovasculares (Spriet, 2014).

Além disso, a privação crônica de sono frequentemente induzida pelo uso inadequado de estimulantes compromete mecanismos fundamentais de recuperação física, cognitiva e metabólica, criando um ciclo de fadiga e dependência comportamental.

 

O Verdadeiro Papel da Suplementação

Nenhuma dessas observações deve ser interpretada como uma crítica à suplementação baseada em evidências.

Ao contrário, existem situações nas quais a reposição nutricional representa uma das intervenções mais eficazes disponíveis na prática clínica.

Entre os exemplos clássicos estão a reposição de vitamina B12 em indivíduos com deficiência documentada, o tratamento da anemia ferropriva com suplementação de ferro, a utilização de ácido fólico no período periconcepcional para prevenção de defeitos do tubo neural e a correção de deficiência de vitamina D quando clinicamente indicada (World Health Organization, 2012).

Da mesma forma, determinadas formulações de ômega-3 possuem respaldo científico para o manejo de hipertrigliceridemia em contextos específicos, quando utilizadas dentro das recomendações clínicas estabelecidas.

Nesses cenários, o benefício decorre da identificação adequada da necessidade clínica, da escolha correta da dose e do acompanhamento profissional.

A diferença entre uma intervenção racional e uma prática potencialmente nociva não está na existência do suplemento, mas na qualidade do diagnóstico que justifica sua utilização.

 

Considerações Finais

A medicina moderna dispõe hoje de recursos extraordinários para corrigir deficiências nutricionais, melhorar desfechos clínicos e promover saúde. No entanto, o entusiasmo p

 

Referências

BHASIN, S. et al. Testosterone therapy in men with hypogonadism: an Endocrine Society clinical practice guideline. The Journal of Clinical Endocrinology & Metabolism, v. 103, n. 5, p. 1715-1744, 2018.

BOUAYED, J.; BOHN, T. Exogenous antioxidants: double-edged swords in cellular redox state: health beneficial effects at physiologic doses versus deleterious effects at high doses. Oxidative Medicine and Cellular Longevity, v. 3, n. 4, p. 228-237, 2010.

HALLIWELL, B.; GUTTERIDGE, J. M. C. Free Radicals in Biology and Medicine. 5. ed. Oxford: Oxford University Press, 2015.

MULHALL, J. P. et al. Evaluation and management of testosterone deficiency: AUA guideline. The Journal of Urology, v. 200, n. 2, p. 423-432, 2018.

SEIFRIED, H. E. et al. A review of the interaction among dietary antioxidants and reactive oxygen species. The Journal of Nutritional Biochemistry, v. 18, n. 9, p. 567-579, 2007.

SPRIET, L. L. Exercise and sport performance with low doses of caffeine. Sports Medicine, v. 44, Suppl. 2, p. S175-S184, 2014.

WORLD HEALTH ORGANIZATION. Guideline: Daily iron and folic acid supplementation in pregnant women. Geneva: WHO, 2012.

Receba nosso conteúdo

Tenha acesso em primeira mão às nossas novidades e programações especiais

A Lapinha se compromete em proteger e respeitar sua privacidade. Usaremos suas informações pessoais apenas para administrar sua conta e fornecer os produtos e serviços que você nos solicitou. Ocasionalmente, gostaríamos de entrar em contato sobre nossas ofertas, bem como sobre outros conteúdos que possam ser de seu interesse. Você pode optar por desinscrever-se de nosso mailing a qualquer momento.

Lar Lapeano de Saúde LTDA - CNPJ 75.189.597/0001-63. Todos os direitos reservados.