Introdução
Poucos temas relacionados à alimentação despertam tanto interesse — e, ao mesmo tempo, tanta polarização — quanto o vegetarianismo e o veganismo. Enquanto alguns os apresentam como a alimentação ideal para todos, outros os criticam como dietas potencialmente deficientes ou incompatíveis com uma boa saúde. Como costuma acontecer em Medicina, a verdade científica encontra-se longe dos extremos.
Nas últimas décadas, o número de pessoas que reduziram ou eliminaram alimentos de origem animal cresceu significativamente em diversos países. As motivações são variadas. Para alguns, trata-se de uma decisão ética relacionada ao bem-estar animal. Para outros, a preocupação principal é ambiental. Há ainda aqueles que adotam esse padrão alimentar por motivos religiosos, filosóficos ou por acreditarem que ele oferece benefícios à saúde e à longevidade.
Essa crescente popularidade despertou enorme interesse da comunidade científica. Hoje existem milhares de estudos investigando os efeitos das dietas vegetarianas sobre obesidade, diabetes tipo 2, doenças cardiovasculares, alguns tipos de câncer, função renal, microbiota intestinal, envelhecimento saudável e mortalidade. Entretanto, interpretar corretamente esses estudos exige cautela. Afinal, pessoas vegetarianas frequentemente apresentam outros hábitos saudáveis — praticam mais atividade física, fumam menos, consomem menos álcool e tendem a ter maior preocupação com a própria saúde — fatores que também influenciam os resultados observados.
Assim, a pergunta mais importante talvez não seja simplesmente “vegetarianismo faz bem?”, mas sim:
Em quais condições uma alimentação vegetariana ou vegana pode ser considerada nutricionalmente adequada e promotora de saúde?
É essa questão que procuraremos responder ao longo deste artigo.
Nem todo vegetariano é igual
Embora frequentemente utilizados como sinônimos, os termos vegetarianismo e veganismo não significam exatamente a mesma coisa.
O vegetarianismo engloba diferentes padrões alimentares que excluem a carne, mas podem ou não incluir alguns alimentos de origem animal.
Entre os principais tipos destacam-se:
- Ovolactovegetariano: exclui carnes, mas consome ovos, leite e derivados.
- Lactovegetariano: exclui carnes e ovos, mantendo leite e derivados.
- Ovovegetariano: exclui carnes e laticínios, mas inclui ovos.
- Vegetariano estrito: exclui todos os alimentos de origem animal.
Já o veganismo vai além da alimentação. Trata-se de uma filosofia de vida que busca evitar, sempre que possível, a utilização de animais para alimentação, vestuário, entretenimento ou qualquer outra finalidade. Assim, além de excluir carnes, ovos, leite e derivados, muitos veganos também evitam couro, lã, seda, cosméticos testados em animais e outros produtos de origem animal.
Vale lembrar que o pescetariano, embora frequentemente incluído em discussões sobre alimentação baseada em vegetais, não é considerado vegetariano, pois mantém o consumo de peixes e frutos do mar.
Essa distinção é importante porque muitos estudos científicos analisam esses grupos separadamente, e seus resultados nem sempre são equivalentes.
Alimentação baseada em vegetais não significa alimentação saudável
Um dos maiores equívocos atuais é imaginar que toda dieta vegetariana ou vegana seja automaticamente saudável. Não é.
Batatas fritas, refrigerantes, balas, biscoitos recheados, salgadinhos industrializados, doces e diversos alimentos ultraprocessados podem ser completamente livres de ingredientes de origem animal, ou “veganos”, e, ainda assim, constituírem uma alimentação de péssima qualidade nutricional.
Nos últimos anos surgiu, inclusive, a expressão “junk food vegana”, referindo-se justamente a produtos ultraprocessados que atendem aos critérios do veganismo, mas apresentam elevado teor de açúcares, farinhas refinadas, sódio, gorduras de baixa qualidade e aditivos alimentares.
Por outro lado, uma alimentação vegetariana rica em verduras, legumes, frutas, leguminosas, cereais integrais, oleaginosas e sementes apresenta perfil nutricional completamente diferente.
Esse conceito levou pesquisadores a distinguir dois padrões bastante distintos:
- Dieta saudável baseada em vegetais (healthful plant-based diet), composta predominantemente por alimentos minimamente processados.
- Dieta não saudável baseada em vegetais (unhealthful plant-based diet), caracterizada por elevado consumo de alimentos refinados e ultraprocessados.
Essa diferenciação mostrou-se extremamente importante. Um interessante estudo publicado no The Journal of Nutrition, envolvendo participantes da coorte norte-americana Nurses’ Health Study, demonstrou que padrões alimentares vegetais baseados em alimentos integrais estavam associados a menor risco de doença coronariana, enquanto padrões predominantemente compostos por alimentos vegetais ultraprocessados apresentavam associação oposta (Satija et al., 2017).
Em outras palavras, não basta perguntar se a alimentação é vegetariana. É preciso perguntar que tipo de alimentos compõem essa dieta.
Loma Linda: uma das Blue Zones mais estudadas do mundo
Quando o assunto é longevidade, poucas localidades despertam tanto interesse científico quanto Loma Linda, na Califórnia.
A cidade tornou-se mundialmente conhecida por integrar as chamadas Blue Zones, regiões onde uma proporção incomumente elevada de pessoas alcança idades avançadas com boa qualidade de vida.
Entretanto, Loma Linda possui uma característica singular: além de abrigar uma população frequentemente estudada por seus hábitos saudáveis, é também sede da Loma Linda University, um dos principais centros mundiais de pesquisa em nutrição e estilo de vida.
Grande parte de seus habitantes pertence à Igreja Adventista do Sétimo Dia, tradição religiosa que incentiva hábitos como abstinência do tabaco, consumo muito reduzido de álcool, prática regular de atividade física, descanso semanal, forte integração comunitária e, para muitos de seus membros, alimentação predominantemente vegetariana.
Essa população vem sendo acompanhada há décadas por estudos epidemiológicos de grande porte, especialmente o Adventist Health Study e, posteriormente, o Adventist Health Study-2, envolvendo dezenas de milhares de participantes.
Um interessante estudo publicado no JAMA Internal Medicine, envolvendo mais de 73 mil adventistas norte-americanos acompanhados no Adventist Health Study-2, observou que determinados padrões alimentares vegetarianos estavam associados a menor mortalidade por todas as causas quando comparados aos padrões não vegetarianos (Orlich et al., 2013).
Entretanto, os próprios autores destacam uma questão fundamental: seria um erro atribuir esses resultados exclusivamente à alimentação.
Os adventistas de Loma Linda apresentam, em média, um conjunto de hábitos saudáveis que inclui menor prevalência de tabagismo, menor consumo de bebidas alcoólicas, maior prática de atividade física, melhor qualidade do sono, forte apoio social e maior preocupação com prevenção.
Assim, Loma Linda provavelmente representa um excelente exemplo daquilo que hoje chamamos de Medicina do Estilo de Vida: um conjunto integrado de comportamentos saudáveis, e não apenas um padrão alimentar específico.
Essa observação é extremamente importante para evitar conclusões simplistas. A ciência raramente encontra um único fator responsável por fenômenos complexos como a longevidade.
Conclusão
Talvez a principal mensagem desta primeira parte seja que vegetarianismo e veganismo não devem ser analisados sob uma perspectiva ideológica, mas científica.
Uma alimentação predominantemente baseada em vegetais pode, quando bem planejada, oferecer excelente qualidade nutricional e associar-se a diversos benefícios para a saúde. Entretanto, ela não constitui uma garantia automática de boa alimentação.
Mais importante do que classificar uma dieta como vegetariana, vegana ou onívora é avaliar sua qualidade global, seu grau de processamento, seu equilíbrio nutricional e sua capacidade de ser mantida de forma segura e sustentável ao longo da vida.
Na próxima parte, analisaremos o que os principais estudos científicos revelam sobre os benefícios e as limitações das dietas vegetarianas, discutindo doenças cardiovasculares, diabetes tipo 2, obesidade, câncer, longevidade e os nutrientes que merecem atenção especial — especialmente a vitamina B12.
Referências
ORLICH, M. J. et al. Vegetarian dietary patterns and mortality in Adventist Health Study 2. JAMA Internal Medicine, v. 173, n. 13, p. 1230–1238, 2013.
SATIJA, A. et al. Healthful and unhealthful plant-based diets and the risk of coronary heart disease in U.S. adults. The Journal of Nutrition, v. 147, n. 4, p. 624–631, 2017.
MELINA, V.; CRAIG, W.; LEVIN, S. Position of the Academy of Nutrition and Dietetics: Vegetarian Diets. Journal of the Academy of Nutrition and Dietetics, v. 116, n. 12, p. 1970–1980, 2016.
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