Vegetarianismo e Veganismo: Impacta positivamente o meio ambiente? – Parte 3

 

Nas duas primeiras partes deste artigo discutimos os possíveis benefícios das dietas vegetarianas para a saúde, suas limitações e os cuidados necessários para que sejam nutricionalmente adequadas. Nesta última parte ampliaremos o olhar. Afinal, a escolha dos alimentos influencia não apenas nosso organismo, mas também o planeta, a utilização dos recursos naturais e, para muitas pessoas, representa uma decisão ética profundamente pessoal.

 

Alimentação e meio ambiente: uma relação inseparável

Nas últimas décadas, ficou cada vez mais evidente que os sistemas alimentares exercem enorme impacto sobre o meio ambiente. A produção de alimentos responde por parcela expressiva das emissões globais de gases de efeito estufa, do consumo de água doce, da utilização de terras agricultáveis e da perda de biodiversidade.

Entre os diversos setores da produção de alimentos, a pecuária ocupa posição de destaque.

Segundo a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO), aproximadamente 77% das terras agrícolas do planeta são utilizadas para pastagens ou para produção de alimentos destinados aos animais de criação. Entretanto, toda essa área responde por uma parcela muito menor da oferta mundial de calorias destinadas à alimentação humana.

Em outras palavras, uma quantidade muito significativa de grãos produzidos no mundo não é consumida diretamente pelas pessoas, mas utilizada como ração para bovinos, suínos e aves.

Esse aspecto ajuda a explicar por que diversos pesquisadores consideram a redução do consumo excessivo de produtos de origem animal — especialmente nas populações de alta renda — uma estratégia potencialmente importante para diminuir a pressão sobre os recursos naturais.

Entretanto, convém evitar simplificações. Nem toda pecuária apresenta o mesmo impacto ambiental. Sistemas regenerativos, integração lavoura-pecuária-floresta, manejo adequado das pastagens e recuperação de áreas degradadas podem reduzir significativamente parte desses impactos. Da mesma forma, monoculturas vegetais intensivas também podem provocar degradação ambiental quando conduzidas de maneira inadequada.

Mais uma vez, a ciência recomenda equilíbrio, e não generalizações.

 

Um estudo que mudou a discussão mundial

Poucos trabalhos científicos exerceram tanta influência sobre esse debate quanto o estudo publicado na revista Science por Poore e Nemecek (2018).

Os autores analisaram dados provenientes de aproximadamente 38 mil propriedades rurais, distribuídas em 119 países, abrangendo cerca de 40 diferentes produtos alimentícios.

Os resultados impressionam. Os alimentos de origem animal, especialmente a carne bovina, apresentaram, em média, impacto ambiental significativamente maior do que alimentos vegetais quando avaliados sob diferentes indicadores, incluindo emissões de gases de efeito estufa, utilização de terras e consumo de água.

Os próprios autores concluíram que mudanças graduais em direção a padrões alimentares mais baseados em vegetais poderiam representar uma das estratégias individuais mais eficazes para reduzir o impacto ambiental relacionado à alimentação.

É importante observar, entretanto, que esse estudo não propõe a eliminação universal da carne, mas demonstra que o padrão atual de consumo, particularmente nos países de maior renda, dificilmente será ambientalmente sustentável a longo prazo.

 

A Comissão EAT-Lancet

Outro marco importante ocorreu em 2019, quando a Comissão EAT-Lancet reuniu especialistas de diferentes áreas para propor um padrão alimentar capaz de promover simultaneamente saúde humana e sustentabilidade ambiental.

O relatório recomenda uma alimentação baseada predominantemente em vegetais, com abundância de frutas, verduras, legumes, cereais integrais, leguminosas e oleaginosas, associada à redução do consumo de carnes vermelhas, carnes processadas e alimentos ultraprocessados.

Embora o documento tenha recebido críticas metodológicas em alguns aspectos, especialmente relacionadas à sua aplicabilidade em diferentes contextos culturais e econômicos, sua principal contribuição foi colocar definitivamente a alimentação no centro das discussões sobre sustentabilidade global.

 

As motivações vão muito além da saúde

Nem todas as pessoas tornam-se vegetarianas pelos mesmos motivos.

Para muitos indivíduos, a principal motivação é ética. O desejo de reduzir o sofrimento animal constitui uma das razões mais frequentemente citadas por adeptos do veganismo.

Outros enfatizam questões ambientais, preocupando-se com mudanças climáticas, preservação da biodiversidade e utilização racional dos recursos naturais.

Há ainda motivações religiosas. Diversas tradições espirituais valorizam uma alimentação predominantemente vegetal. Entre elas destacam-se o hinduísmo, algumas correntes do budismo e, em parte significativa de seus membros, a Igreja Adventista do Sétimo Dia, cuja população de Loma Linda vem sendo estudada há décadas por pesquisadores da Loma Linda University.

Independentemente da motivação, todas essas escolhas merecem respeito quando realizadas de forma consciente, equilibrada e nutricionalmente adequada.

 

Mitos e Verdades

 

“Toda dieta vegetariana é saudável.”

Mito.

Uma alimentação baseada em refrigerantes, batatas fritas, doces, biscoitos recheados e outros ultraprocessados pode ser completamente vegetariana — ou mesmo vegana — e, ainda assim, ser nutricionalmente inadequada.

 

“Veganos precisam suplementar vitamina B12.”

Verdade.

Esta é provavelmente uma das recomendações mais consensuais da literatura científica atual. Como a vitamina B12 praticamente não está presente em quantidades suficientes nos alimentos vegetais, veganos devem utilizar alimentos fortificados ou suplementação regular, com acompanhamento profissional.

 

“É possível ganhar massa muscular sendo vegetariano?”

Verdade.

Diversos estudos demonstram que, quando a ingestão de proteínas e aminoácidos essenciais é adequada, indivíduos vegetarianos podem desenvolver força e massa muscular de maneira semelhante aos onívoros. O planejamento alimentar torna-se ainda mais importante para atletas e idosos.

 

“Crianças podem seguir dietas vegetarianas?”

Verdade, com planejamento.

Diversas entidades internacionais reconhecem que dietas vegetarianas bem planejadas podem ser adequadas em todas as fases da vida. Entretanto, acompanhamento médico e nutricional é particularmente importante durante crescimento, gestação, lactação e adolescência.

 

“Vegetarianos vivem mais?”

Resposta: provavelmente sim, mas não apenas por causa da alimentação.

Os estudos observacionais mostram associação entre padrões alimentares vegetarianos e maior expectativa de vida em algumas populações. Entretanto, esses indivíduos também costumam apresentar outros hábitos saudáveis, dificultando atribuir o benefício exclusivamente à dieta.

 

Recomendações práticas

Independentemente da opção alimentar escolhida, algumas recomendações parecem reunir amplo consenso científico:

  • Priorize alimentos naturais ou minimamente processados.
  • Consuma diariamente verduras, legumes, frutas e leguminosas.
  • Prefira cereais integrais sempre que possível.
  • Reduza alimentos ultraprocessados, independentemente de serem vegetarianos/veganos ou não.
  • Mantenha adequada ingestão proteica.
  • Monitore periodicamente vitamina B12 quando indicado, especialmente em vegetarianos estritos e veganos.
  • Associe alimentação saudável à prática regular de atividade física, sono adequado, controle do estresse e abandono do tabagismo.

 

Conclusão

Durante muitos anos, o debate sobre vegetarianismo foi conduzido como se houvesse apenas duas posições possíveis: ser totalmente favorável ou completamente contrário. A ciência contemporânea mostra um cenário muito mais sofisticado.

Uma alimentação vegetariana bem planejada pode oferecer inúmeros benefícios para a saúde e contribuir para a redução do impacto ambiental da produção de alimentos. Entretanto, ela exige conhecimento, planejamento e atenção especial a alguns nutrientes, particularmente a vitamina B12.

Talvez a principal lição deixada pelas pesquisas mais recentes seja que a qualidade global da alimentação importa muito mais do que rótulos. O verdadeiro problema parece residir no excesso de alimentos ultraprocessados, na baixa ingestão de vegetais, no sedentarismo e nos demais componentes de um estilo de vida inadequado.

Mais do que escolher entre vegetarianismo, veganismo ou onivorismo, vale a pena perseguir um objetivo maior: construir uma alimentação baseada em evidências científicas, rica em alimentos naturais, sustentável para o planeta e possível de ser mantida por toda a vida.

 

Referências

FAO – FOOD AND AGRICULTURE ORGANIZATION OF THE UNITED NATIONS. Tackling climate change through livestock. Rome: FAO, 2013.

FAO – FOOD AND AGRICULTURE ORGANIZATION OF THE UNITED NATIONS. The State of Food and Agriculture 2023. Rome: FAO, 2023.

INTERGOVERNMENTAL PANEL ON CLIMATE CHANGE (IPCC). Climate Change 2022: Mitigation of Climate Change. Cambridge: Cambridge University Press, 2022.

POORE, J.; NEMECEK, T. Reducing food’s environmental impacts through producers and consumers. Science, v. 360, n. 6392, p. 987–992, 2018.

WILLETT, W. et al. Food in the Anthropocene: the EAT-Lancet Commission on healthy diets from sustainable food systems. The Lancet, v. 393, n. 10170, p. 447–492, 2019.

MELINA, V.; CRAIG, W. J.; LEVIN, S. Position of the Academy of Nutrition and Dietetics: Vegetarian Diets. Journal of the Academy of Nutrition and Dietetics, v. 116, n. 12, p. 1970–1980, 2016.

CRAIG, W. J. et al. The safe and effective use of plant-based diets with guidelines for health professionals. Nutrients, v. 13, n. 11, 2021.

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