Imunidade “renovada” pelo jejum (sem desnutrição)?

 

 

O jejum intermitente deixou de ser apenas uma estratégia para emagrecimento e passou a despertar interesse por seus possíveis efeitos sobre o relógio biológico, a microbiota intestinal, o metabolismo e o sistema imunológico. Entre suas diferentes modalidades, o early time-restricted eating (eTRE) — concentração da alimentação nas primeiras horas do dia — parece particularmente interessante. É justamente aqui que surge uma possível aproximação com o método Mayr, no qual, dependendo do protocolo, as refeições podem ser concentradas aproximadamente entre 8 e 14 horas, ou, em versões mais flexíveis, entre 8 e 18 horas. Não se trata de dizer que Mayr e eTRE sejam métodos idênticos, mas de reconhecer que ambos valorizam um período alimentar mais precoce e um intervalo prolongado sem ingestão calórica.

 

Disclaimer: Este artigo tem caráter exclusivamente educativo e informativo e não substitui avaliação, diagnóstico ou orientação médica individualizada. As evidências científicas disponíveis sobre jejum intermitente, early time-restricted eating (eTRE), microbiota intestinal e possíveis efeitos imunológicos ainda são heterogêneas e, em muitos aspectos, preliminares. Resultados observados em estudos experimentais ou clínicos de curta duração não permitem afirmar que o jejum produza “renovação”, “rejuvenescimento” ou fortalecimento do sistema imunológico. A aplicação de estratégias de jejum deve considerar idade, estado nutricional, composição corporal, medicamentos, doenças preexistentes e objetivos individuais, sendo recomendável acompanhamento por profissional de saúde habilitado.

 

Uma hipótese nova: o jejum pode conversar com o sistema imunológico

Um dos estudos mais interessantes sobre o tema foi publicado em 2024 por Chen et al., que acompanharam 49 adultos durante 30 dias submetidos a uma janela alimentar de oito horas, das 9 às 17 horas. O estudo não foi randomizado e não teve um grupo-controle equivalente, portanto sua capacidade de demonstrar causalidade é limitada.

Ainda assim, os resultados chamaram atenção: houve redução da frequência de células T CD4+ senescentes e aumento de populações como Treg, Th1, células Tfh-like e células B. Paralelamente, foram observadas mudanças no repertório imune, em metabólitos séricos e na composição da microbiota, incluindo aumento de Akkermansia e de outros microrganismos considerados potencialmente favoráveis. Os autores descreveram o fenômeno como uma microbiota de perfil mais “jovem” e levantaram a possibilidade de efeitos sobre a imunossenescência (Chen et al., 2024).

É uma observação fascinante — mas devemos resistir à tentação de transformá-la em uma conclusão clínica. Não sabemos ainda se o jejum realmente “rejuvenesce” o sistema imunológico humano. O estudo sugere uma remodelação imunológica, não uma demonstração de rejuvenescimento. E 30 dias são insuficientes para afirmar que essas alterações produzam benefícios clínicos duradouros.

 

Por que o horário das refeições pode importar?

O organismo não funciona da mesma maneira durante as 24 horas do dia. Metabolismo, secreção hormonal, sensibilidade à insulina, expressão gênica e atividade de diversos órgãos obedecem a ritmos circadianos.

A alimentação também participa desses ritmos.

Por isso, não é necessariamente indiferente comer das 7 às 15 horas ou das 14 às 22 horas, mesmo quando o número de calorias seja semelhante.

Um estudo randomizado publicado na Nature Communications comparou diferentes janelas de alimentação e encontrou resultados metabólicos mais favoráveis quando a alimentação era concentrada na primeira parte do dia. O grupo submetido ao eTRF apresentou maior melhora da sensibilidade à insulina, menor glicemia de jejum, menor adiposidade e uma microbiota intestinal mais diversa que o grupo-controle (Xie et al., 2022).

Isso não significa que todo indivíduo precise obrigatoriamente terminar sua alimentação às 14 horas. Significa que o momento em que comemos pode ser uma variável biologicamente relevante.

 

E onde entra a microbiota?

A microbiota intestinal possui seus próprios ritmos diários e interage continuamente com a alimentação e com o relógio circadiano do hospedeiro.

Uma revisão sistemática publicada em Nutrition Reviews analisou estudos humanos e animais sobre TRE e jejum do Ramadã. Nos estudos humanos, foram observados aumentos da diversidade microbiana e alterações em gêneros como Faecalibacterium; em alguns estudos, também houve aumento de Akkermansia. Entre os achados observados no jejum do Ramadã estavam ainda bactérias como Roseburia, Butyricicoccus e outras relacionadas ao metabolismo de fibras e à produção de ácidos graxos de cadeia curta (SCFA). Os autores, entretanto, ressaltaram que a dieta continua sendo um dos principais determinantes da composição da microbiota (Ozkul et al., 2024).

Essa observação é fundamental. O benefício potencial do jejum provavelmente não está simplesmente em “ficar horas sem comer”. Pode resultar da combinação entre horário alimentar, qualidade da dieta, fibras, diversidade alimentar, ritmo circadiano e período de repouso metabólico.

 

Butirato: uma possível peça dessa engrenagem

Entre os produtos da microbiota, os ácidos graxos de cadeia curta — acetato, propionato e butirato — são particularmente interessantes.

O butirato é produzido principalmente pela fermentação bacteriana de fibras e exerce funções importantes no intestino. É utilizado como fonte energética pelos colonócitos, participa da manutenção da barreira intestinal e apresenta efeitos imunomoduladores.

Por isso, a possibilidade de que alterações no tempo de alimentação modifiquem a ecologia microbiana e, consequentemente, a produção de metabólitos como os SCFA oferece uma hipótese biologicamente plausível para explicar parte dos efeitos sistêmicos do jejum. Mas novamente: plausibilidade biológica não é prova de benefício clínico.

 

E o que surgiu de novo em 2025?

Um estudo publicado em Nutrients em 2025 é particularmente interessante porque comparou eTRE + restrição energética, TRE tardio + restrição energética e restrição energética isoladamente, acompanhando a microbiota de 76 pessoas com sobrepeso ou obesidade. No grupo eTRE, foram observadas mudanças na diversidade microbiana e aumento de gêneros como Faecalibacterium e Subdoligranulum. Algumas dessas alterações permaneceram no acompanhamento. Houve também associações entre Faecalibacterium e glicemia de jejum, embora as correlações tenham sido fracas (Habe et al., 2025).

Esse estudo é importante porque aproxima o conceito de eTRE de uma situação clínica real: não estamos falando apenas de modelos animais ou de mecanismos teóricos. Entretanto, ele também mostra por que devemos ser cautelosos: nem todas as alterações da microbiota foram diferentes entre os grupos, e a intervenção envolvia também restrição energética.

 

O sistema imunológico: uma segunda linha de investigação

A hipótese imunológica ganhou ainda mais interesse com um estudo publicado em 2026, um ensaio clínico randomizado cruzado em pacientes com antecedente de infarto. Os participantes fizeram duas semanas de TRE com alimentação entre 8 e 14 horas ou mantiveram sua alimentação habitual.

Comparado ao período-controle, o TRE foi associado a menor contagem de neutrófilos, menor relação neutrófilos/linfócitos, redução da expressão de CD11b nos neutrófilos e alterações anti-inflamatórias no transcriptoma dos monócitos, além de redução de marcadores de inflamação sistêmica de baixo grau. É importante notar que nem todos os parâmetros imunológicos se modificaram. (2026).

Esse trabalho é particularmente interessante para a discussão do Mayr porque a janela utilizada — 8 às 14 horas — é muito próxima do padrão de eTRE que você mencionou.

Ainda assim, são apenas duas semanas de intervenção e 19 participantes analisados. Portanto, o estudo reforça a hipótese de modulação imunológica, mas está muito longe de provar “renovação” ou “rejuvenescimento” do sistema imune.

 

Então, o método Mayr pode “renovar” o sistema imunológico?

Aqui podemos formular uma hipótese cientificamente interessante:

A concentração da alimentação nas primeiras horas do dia, seguida de um período prolongado de jejum, pode favorecer uma organização metabólica e circadiana capaz de influenciar a microbiota intestinal e determinados componentes da resposta imune.

Essa hipótese encontra suporte em estudos humanos que mostram alterações da microbiota, de metabólitos e de células imunológicas após períodos de alimentação restrita no tempo.

Entretanto, ainda precisamos de ensaios maiores, mais longos e adequadamente controlados para saber se essas alterações representam benefício imunológico real e clinicamente relevante. E essa distinção é especialmente importante.

Não devemos dizer: “O método Mayr rejuvenesce o sistema imunológico.” Podemos dizer: “O padrão de alimentação precoce utilizado pelo método Mayr apresenta características semelhantes ao eTRE, uma estratégia que vem sendo investigada por seus possíveis efeitos sobre microbiota, metabolismo e imunidade.”

 

Um exemplo prático

Imagine uma pessoa que faz suas refeições entre 8 e 14 horas:

08:00 — café da manhã
Refeição completa, com proteínas, fibras, frutas e alimentos minimamente processados.

12:00–13:00 — almoço
Principal refeição do dia, nutricionalmente equilibrada e rica em vegetais.

14:00 — encerramento da alimentação
A partir daí, água e bebidas sem aporte calórico.

14:00–08:00 — período de jejum

São aproximadamente 18 horas sem ingestão calórica.

Em uma versão mais flexível:

08:00–18:00 — janela alimentar
18:00–08:00 — 14 horas de jejum.

 

Essa segunda modalidade é menos restritiva e pode ser mais fácil de manter em determinados pacientes. O ponto central não deveria ser transformar o relógio em uma nova regra rígida, mas reduzir a alimentação noturna, evitar o consumo contínuo de calorias ao longo do dia e respeitar, sempre que possível, a organização circadiana do organismo.

 

O que podemos levar para a prática?

  1. O horário importa.
    Além de “quanto comer”, o momento das refeições pode influenciar metabolismo, relógio circadiano e microbiota.
  2. Mais cedo pode ser biologicamente interessante.
    O eTRE concentra a alimentação na primeira parte do dia e apresenta resultados metabólicos promissores.
  3. A microbiota pode participar dessa resposta.
    Estudos humanos observaram alterações em Akkermansia, Faecalibacterium e outras bactérias após diferentes formas de jejum.
  4. Os SCFA são uma possível ponte.
    Butirato, propionato e acetato conectam a atividade microbiana à barreira intestinal, ao metabolismo e à regulação imune.
  5. “Renovação imunológica” ainda é uma hipótese.
    Os dados são estimulantes, mas não autorizam afirmar que o jejum rejuvenesça ou fortaleça clinicamente o sistema imunológico.

 

Conclusão

O interesse científico pelo jejum está mudando de foco. A pergunta já não é apenas “o jejum emagrece?”, mas também “o que acontece no organismo durante o período em que não estamos comendo?”

Uma das respostas possíveis envolve o diálogo entre relógio circadiano, metabolismo, microbiota e sistema imunológico.

Nesse contexto, o padrão de alimentação precoce do método Mayr é particularmente interessante. Ele compartilha características importantes com o eTRE e, portanto, pode ser considerado uma estratégia plausível para investigar os efeitos de períodos prolongados de jejum sobre esses sistemas. Mas a palavra-chave, neste momento, é possibilidade.

Os estudos sugerem remodelação da microbiota e alterações em determinados componentes imunológicos. Alguns resultados são bastante promissores. Outros são neutros ou inconsistentes. E os estudos ainda são relativamente pequenos e heterogêneos.

Portanto, a conclusão mais equilibrada é também a mais interessante:

O jejum precoce pode não apenas reduzir o tempo de exposição alimentar; pode também oferecer ao organismo um período de reorganização metabólica, circadiana, microbiana e imunológica. Se essa reorganização representa uma verdadeira “renovação” do sistema imune ainda é uma pergunta aberta — e muito interessante — para a ciência.

 

Referências

CHEN, Yiran et al. Time-restricted eating reveals a “younger” immune system and reshapes the intestinal microbiome in human. Redox Biology, v. 78, 103422, 2024. DOI: 10.1016/j.redox.2024.103422.

HABE, Bernarda et al. Effects of time-restricted eating (early and late) combined with energy restriction vs. energy restriction alone on the gut microbiome in adults with obesity. Nutrients, v. 17, n. 14, 2284, 2025. DOI: 10.3390/nu17142284.

MANOOGIAN, Emily N. C. et al. Time-restricted eating in adults with metabolic syndrome: a randomized controlled trial. Annals of Internal Medicine, v. 177, n. 11, p. 1462–1470, 2024. DOI: 10.7326/M24-0859.

XIE, Zhen et al. Randomized controlled trial for time-restricted eating in healthy volunteers without obesity. Nature Communications, 2022. DOI: 10.1038/s41467-022-28662-5.

OZKUL, C. et al. The effects of time-restricted eating and Ramadan fasting on gut microbiota composition: a systematic review of human and animal studies. Nutrition Reviews, v. 82, n. 6, p. 777–793, 2024. DOI: 10.1093/nutrit/nuad093.

EFFECT of 2 weeks of time-restricted eating on innate immunity and systemic inflammation in patients with a history of myocardial infarction: a randomized-controlled crossover study. Journal of the American Heart Association, 2026. DOI: 10.1161/JAHA.125.048092.

 

O Microbioma Intestinal – Uma Nova Era? – Parte 1

 

 

O estudo publicado na Nature que pode transformar a Medicina Preventiva, evoluindo da descoberta dos comensais bacterianos do intestino à definição científica de um intestino saudável.

 

Introdução

Durante décadas, a medicina concentrou grande parte de sua atenção em um órgão extraordinário: o cérebro. Mais recentemente, outro “órgão invisível” começou a despertar enorme interesse científico: o microbioma intestinal.

Embora não seja propriamente um órgão anatômico, ele funciona como um verdadeiro ecossistema composto por aproximadamente 30 a 40 trilhões de microrganismos, incluindo bactérias, vírus, fungos e arqueias, que convivem em equilíbrio no trato digestório humano.

Hoje sabemos que esses microrganismos participam da digestão, da produção de vitaminas, da modulação do sistema imunológico, do metabolismo energético e até da comunicação entre intestino e cérebro.

Nos últimos quinze anos, milhares de estudos passaram a associar alterações do microbioma à obesidade, diabetes tipo 2, doenças cardiovasculares, depressão, ansiedade, doenças inflamatórias intestinais, doença de Parkinson, doença de Alzheimer e diversas outras condições clínicas.

Entretanto, permanecia uma pergunta aparentemente simples, mas extremamente difícil de responder: Como é, afinal, um microbioma realmente saudável?

A resposta pode estar começando a surgir. Em 2026, um importante estudo publicado na revista Nature propôs uma nova maneira de responder exatamente essa questão.

Mais do que identificar algumas bactérias “boas” ou “ruins”, os pesquisadores desenvolveram uma estratégia para avaliar o equilíbrio global do ecossistema intestinal.

Se essa abordagem se confirmar nos próximos anos, ela poderá representar uma das maiores mudanças da Medicina Preventiva desde o surgimento da genômica.

 

O problema: durante anos estudamos árvores, mas não a floresta

Grande parte das pesquisas sobre microbiota concentrou-se em responder perguntas como:

  • Existe uma bactéria da obesidade?
  • Existe uma bactéria da depressão?
  • Existe uma bactéria que protege contra diabetes?

Essa estratégia produziu importantes descobertas.

Sabemos, por exemplo, que bactérias produtoras de ácidos graxos de cadeia curta (SCFAs), como o butirato, exercem papel importante na integridade da barreira intestinal, na modulação da inflamação e no metabolismo energético. Também sabemos que algumas espécies tendem a diminuir em determinadas doenças.

O problema é que esses achados raramente eram consistentes entre diferentes populações. Uma bactéria considerada benéfica em um país nem sempre aparecia da mesma forma em outro.

Isso levou muitos pesquisadores a perceber que talvez estivéssemos fazendo a pergunta errada. Talvez não exista uma única “bactéria da saúde”. Talvez a saúde dependa muito mais do funcionamento do conjunto.

É como uma orquestra. Uma excelente sinfonia não depende apenas de um bom violinista. Ela depende da harmonia entre todos os instrumentos. O microbioma parece funcionar exatamente dessa maneira.

 

Uma mudança de paradigma

Foi exatamente esse desafio que motivou o trabalho liderado por Nicola Segata, Curtis Huttenhower, Francesco Asnicar e colaboradores.

O grupo reuniu milhares de amostras de microbioma provenientes de diferentes países, continentes, hábitos alimentares e estilos de vida.

Em vez de procurar uma bactéria específica, os pesquisadores utilizaram ferramentas avançadas de bioinformática e aprendizado de máquina (machine learning) para responder outra pergunta:

Existe um padrão global de microbioma que caracterize indivíduos metabolicamente mais saudáveis? A resposta foi surpreendente. Sim. Os autores conseguiram desenvolver dois índices capazes de resumir características extremamente complexas do microbioma:

  • um índice relacionado ao estado geral de saúde do indivíduo;
  • outro relacionado à qualidade da alimentação.

Em outras palavras, pela primeira vez talvez tenha se tornado possível avaliar o microbioma como quem interpreta um eletrocardiograma ou um perfil lipídico: não observando apenas um componente isolado, mas um padrão integrado.

 

O que realmente torna esse estudo inovador?

A grande novidade não foi descobrir mais uma bactéria. Foi abandonar essa lógica. Durante anos imaginou-se que bastaria encontrar algumas espécies “boas” para melhorar a saúde.

O novo estudo mostra que o importante talvez seja o funcionamento coletivo da comunidade microbiana. Essa mudança lembra a evolução ocorrida na Ecologia.

No passado, pesquisadores estudavam espécies isoladas. Hoje compreendem que o equilíbrio de um ecossistema depende muito mais das interações entre seus habitantes do que da presença ou ausência de uma única espécie.

O intestino humano parece obedecer ao mesmo princípio.

 

Alimentação: o principal arquiteto do microbioma

Outro aspecto extremamente interessante do estudo foi mostrar que os padrões alimentares permanecem como um dos fatores mais importantes na organização desse ecossistema.

Dietas ricas em frutas, verduras, legumes, leguminosas, cereais integrais e outros alimentos ricos em fibras mostraram associação consistente com perfis considerados mais favoráveis.

Por outro lado, padrões alimentares ricos em alimentos ultraprocessados, pobres em fibras e excessivamente refinados tenderam a apresentar características menos favoráveis.

Isso não significa que exista um alimento milagroso. Pelo contrário. A pesquisa reforça um conceito cada vez mais presente na Medicina do Estilo de Vida:

O microbioma responde muito mais ao padrão alimentar com um todo do que a alimentos isolados ou suplementos específicos.

Essa talvez seja uma das mensagens mais importantes para pacientes e profissionais de saúde.

Um novo “exame” para o futuro?

Imagine realizar um exame de fezes capaz de informar não apenas quais bactérias vivem em seu intestino, mas também oferecer um índice de qualidade do seu microbioma, semelhante ao que hoje fazemos com colesterol, glicemia ou pressão arterial.

Ainda não chegamos a esse ponto. Mas o estudo publicado na Nature aproxima a Medicina dessa possibilidade.

Os autores ressaltam que seus índices ainda precisam ser validados em diferentes populações e contextos clínicos antes de serem incorporados à prática assistencial.

Mesmo assim, trata-se de um passo importante em direção à chamada Medicina de Precisão baseada no microbioma.

Resumo prático

O estudo da Nature não descobriu “a bactéria perfeita”. Descobriu algo possivelmente mais importante.

Mostrou que um microbioma saudável parece ser definido muito mais pelo equilíbrio funcional entre centenas de espécies do que pela presença de um único microrganismo.

Em vez de procurar um “herói” bacteriano, a ciência começa a enxergar o intestino como um ecossistema complexo, cuja harmonia pode refletir a qualidade da alimentação, do estilo de vida e do estado geral de saúde.

Essa mudança pode representar um dos maiores avanços da pesquisa em microbioma desde o início do Projeto Microbioma Humano.

Na próxima parte discutiremos por que esse trabalho poderá modificar a prática médica, quais são suas limitações, como ele poderá influenciar a nutrição personalizada, os probióticos de nova geração e a prevenção de doenças crônicas, além da pergunta que talvez mais interesse aos leitores: o que essa descoberta muda, na prática, para a minha saúde?

 

Referências

ASNICAR, F. et al. Gut micro-organisms associated with health, nutrition and dietary interventions. Nature, 2026.

THE HUMAN MICROBIOME PROJECT CONSORTIUM. Structure, function and diversity of the healthy human microbiome. Nature, 486:207–214, 2012.

GILBERT, J. A.; BLASER, M. J.; CAPORASO, J. G. et al. Current understanding of the human microbiome. Nature Medicine, 24:392–400, 2018.

FAN, Y.; PEDERSEN, O. Gut microbiota in human metabolic health and disease. Nature Reviews Microbiology, 19:55–71, 2021.

VALDES, A. M.; WALTER, J.; SEGAL, E.; SPECTOR, T. D. Role of the gut microbiota in nutrition and health. BMJ, 361, 2018.

 

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