O Método Lapinha e o Conceito Atual de Spa Médico

               

Durante muito tempo, a ideia de um spa médico esteve associada a programas de emagrecimento rápido, dietas excessivamente restritivas e exercícios realizados em excesso. Em alguns modelos antigos, a intensidade era valorizada quase como sinônimo de eficácia. Hoje, a medicina baseada em evidências aponta para outra direção: o objetivo não é apenas fazer o peso diminuir, mas melhorar a saúde, reduzir gordura corporal, preservar a massa muscular e, principalmente, criar mudanças que possam ser mantidas após o retorno à vida cotidiana.

O conceito contemporâneo de medicina do estilo de vida reforça essa visão. Alimentação, atividade física, sono restaurador, manejo do estresse, vínculos sociais e redução de comportamentos de risco são componentes interligados da saúde. Uma intervenção que atua simultaneamente sobre diferentes comportamentos pode produzir benefícios clínicos relevantes, embora sua execução e avaliação sejam mais complexas do que as de uma intervenção dirigida a um único fator (GREGA et al., 2024; SILVA et al., 2025).

 

O objetivo não é apenas emagrecer, mas cuidar da pessoa

O emagrecimento pode ser importante, mas não deve ser a única medida de sucesso. Hoje se reconhece a obesidade como uma doença crônica e complexa, que deve ser tratada considerando suas complicações, seu contexto metabólico, seu comportamento alimentar, sua capacidade funcional e sua qualidade de vida. As recomendações brasileiras mais recentes enfatizam justamente uma abordagem individualizada, centrada na pessoa e não apenas no número da balança (SARAIVA et al., 2025).

Por isso, o spa médico moderno pode ser entendido como um ambiente estruturado de intensificação terapêutica e educação em saúde. Durante um período de imersão, o paciente consegue afastar-se temporariamente de parte dos fatores que dificultam a mudança e experimentar uma rotina organizada de alimentação, movimento, sono, descanso e cuidados médicos. O verdadeiro resultado, entretanto, não está apenas no período de permanência: está naquilo que o paciente consegue incorporar à sua vida depois dele.

 

Menos extremos, mais consistência

Dietas muito rígidas, jejuns prolongados, restrições desnecessárias e propostas nutricionais baseadas em modismos podem produzir resultados rápidos, mas não necessariamente sustentáveis. Atualmente, a evidência favorece padrões alimentares que priorizem alimentos minimamente processados, vegetais, frutas, legumes, leguminosas, grãos integrais, fontes adequadas de proteína e gorduras de melhor qualidade.

Uma alimentação predominantemente baseada em plantas pode fazer parte desse modelo, desde que seja nutricionalmente adequada. É importante, porém, não confundir “plant-based” com qualquer dieta comercial rotulada como vegetal. Alimentos ultraprocessados também podem ser de origem vegetal. Estudos recentes mostram que os benefícios cardiovasculares estão associados principalmente a padrões alimentares vegetais de boa qualidade, enquanto padrões vegetais de baixa qualidade podem não produzir os mesmos resultados (WANG et al., 2024; LANDRY et al., 2024).

É nesse sentido que o Método Lapinha valoriza uma alimentação predominantemente à base de plantas, com frutas, hortaliças, legumes, leguminosas, grãos e outros alimentos naturais e minimamente processados. A opção por alimentos orgânicos, quando adotada pela instituição, pode fazer parte dessa proposta, mas não deve ser confundida com uma afirmação de que o alimento orgânico seja, isoladamente, responsável pelos benefícios metabólicos do método.

Mais importante do que seguir uma “dieta da moda” é aprender a comer de maneira saudável, suficiente e sustentável.

 

Proteína: nem excesso, nem deficiência

Outro movimento recente da nutrição é o culto ao consumo exageradamente elevado de proteínas. Há situações clínicas em que uma ingestão proteica maior pode ser útil, especialmente em idosos ou em determinados programas de emagrecimento e treinamento. Mas isso não significa que quanto mais proteína, melhor.

O planejamento deve considerar idade, atividade física, função renal, composição corporal, ingestão energética global e objetivo terapêutico. A ideia de dietas hiperproteicas como regra para a população geral não encontra justificativa científica.

Da mesma forma, não devemos criar um medo exagerado de qualquer perda de massa magra durante o emagrecimento. Parte da massa livre de gordura pode diminuir com a perda de peso por razões fisiológicas, e massa livre de gordura não é sinônimo de músculo. Ela inclui água, órgãos, tecido conjuntivo e outros componentes. A literatura recente mostra grande variabilidade nessa proporção e recomenda atenção especial à preservação da função muscular, sobretudo em pessoas mais velhas e vulneráveis (NEELAND; LINGE; BIRKENFELD, 2024).

 

O exercício tem uma função que vai muito além de gastar calorias

O exercício não deve ser utilizado apenas como instrumento para “queimar” o que foi ingerido. Ele é parte do tratamento por seus efeitos sobre força, capacidade funcional, sensibilidade à insulina, saúde cardiovascular, equilíbrio e autonomia.

O treinamento resistido merece atenção especial durante o emagrecimento. Uma revisão sistemática e meta-análise publicada em 2025 mostrou que a associação do exercício resistido à restrição alimentar reduz a perda de massa livre de gordura, aumenta a perda de gordura e melhora a força muscular, embora não produza necessariamente maior perda de peso na balança (BINMAHFOZ et al., 2025).

Por isso, o Método Lapinha não deve ser compreendido como um programa de “queima calórica”. O objetivo é melhorar a composição corporal e a capacidade funcional, combinando treinamento resistido, atividade aeróbica, mobilidade, caminhadas e outras formas de movimento adaptadas às condições de cada pessoa.

 

Alimentação, corpo e mente: três dimensões inseparáveis

O Método Lapinha pode ser compreendido didaticamente em três grandes dimensões de autocuidado:

  1. Alimentação.
    Valorizar alimentos naturais ou minimamente processados, variedade alimentar, fibras, vegetais, leguminosas, frutas, grãos integrais e fontes adequadas de proteína, sem transformar a alimentação em uma obsessão por números.
  2. Corpo.
    Promover atividade física regular e progressiva, com especial atenção ao treinamento de força, à capacidade cardiorrespiratória, à mobilidade e à funcionalidade.
  3. Mente.
    Trabalhar sono, estresse, comportamento alimentar, equilíbrio espiritual e emocional, paz interior, descanso, relações e hábitos que interferem na capacidade de manter as mudanças. A medicina do estilo de vida reconhece atualmente esses componentes como dimensões interdependentes da saúde (GREGA et al., 2024; FARIA et al., 2024).

A natureza e o ambiente da Lapinha também fazem parte dessa experiência. O objetivo não é criar uma fuga permanente da vida real, mas permitir que a pessoa experimente uma rotina mais organizada e compreenda como determinadas escolhas influenciam seu bem-estar.

 

E as “canetas” para emagrecer?

Os agonistas do receptor de GLP-1 e os agonistas duplos, como semaglutida e tirzepatida, mudaram significativamente o tratamento da obesidade. São medicamentos eficazes e importantes para pacientes adequadamente selecionados. A questão atual não é ser contra ou a favor dessas medicações, mas utilizá-las com indicação médica, acompanhamento e dentro de uma estratégia mais ampla de tratamento.

As diretrizes mais recentes são claras ao recomendar que a farmacoterapia seja associada às mudanças do estilo de vida. A diretriz canadense de 2025 reconhece inclusive que, para muitos pacientes, o tratamento medicamentoso poderá ser necessário a longo prazo para manter a perda de peso e seus benefícios (PEDERSEN et al., 2025). Mas, sem negligenciar as necessárias mudanças de comportamento.

A recomendação brasileira de 2025 segue uma lógica igualmente integrada, com tratamento individualizado segundo o risco e as complicações da obesidade (SARAIVA et al., 2025).

Há, portanto, uma diferença importante entre usar a medicação como parte de um tratamento global e transformar a medicação no tratamento inteiro.

O exercício resistido e a adequação nutricional também merecem atenção durante a perda de peso. A massa livre de gordura pode diminuir com qualquer estratégia de emagrecimento, e a preservação da saúde muscular depende de alimentação adequada e treinamento de força (NEELAND; LINGE; BIRKENFELD, 2024; BINMAHFOZ et al., 2025).

 

O desafio não termina quando a pessoa deixa a Lapinha

Um dos maiores desafios do tratamento de qualquer doença relacionada ao estilo de vida é a manutenção. Durante a internação, a pessoa está em um ambiente protegido, organizado e estruturado. Ao voltar para casa, retornam o trabalho, a família, os compromissos, as viagens, os restaurantes, o estresse, os horários irregulares e antigos hábitos.

Por isso, uma experiência de imersão precisa ser acompanhada por uma estratégia de continuidade.

A importância dessa continuidade é reforçada pelos próprios estudos de longo prazo. No Look AHEAD, uma grande intervenção intensiva de estilo de vida em pessoas com diabetes tipo 2 e excesso de peso, os efeitos sobre peso e composição corporal puderam ser observados muitos anos depois da randomização; análises posteriores também mostram que intervenções intensivas de estilo de vida podem produzir efeitos duradouros sobre composição corporal e funcionalidade (ASHBY-THOMPSON et al., 2024).

Isso não significa, porém, que manter o peso seja simples. Após o encerramento da intervenção intensiva, parte dos participantes pode voltar a ganhar peso. Esse fenômeno reforça a necessidade de estratégias de manutenção e acompanhamento prolongado.

É nesse contexto que se insere o Pós-Lapinha, com consultas médicas e nutricionais, acompanhamento à distância e retornos programados. O objetivo é ajudar o paciente a transformar uma experiência intensiva em um novo padrão de vida.

 

O que acontece quando a medicação para emagrecer é suspensa?

Também aqui é necessário abandonar simplificações.

Algumas pessoas conseguem manter boa resposta depois da redução ou suspensão de medicamentos. Outras apresentam recuperação significativa do peso e das alterações metabólicas. No estudo de extensão do STEP 1, participantes que interromperam a semaglutida recuperaram aproximadamente dois terços do peso que haviam perdido durante o tratamento ao longo do ano seguinte (WILDING et al., 2022).

Resultados semelhantes foram observados com a retirada da tirzepatida: a maioria dos participantes apresentou recuperação de pelo menos 25% do peso previamente perdido no acompanhamento após a suspensão, e maior recuperação de peso esteve associada a reversão de parte dos benefícios cardiometabólicos (JASTREBOFF et al., estudo SURMOUNT-4, análise posterior).

Por essa razão, é essencial que as mudanças de comportamento incorporadas durante a janela de oportunidade da redução de apetite sejam mantidas. E em alguns casos, poderá ser necessário manter a medicação.

A decisão deve ser individualizada. Em alguns casos será possível reduzir e retirar; em outros, a manutenção do medicamento poderá ser a alternativa mais apropriada para preservar os resultados alcançados.

O objetivo do tratamento é, sempre que possível, ampliar a autonomia do paciente. Mas autonomia não significa necessariamente ficar sem medicamento. Significa encontrar, com acompanhamento médico, a estratégia mais segura e sustentável para aquela pessoa. E na Lapinha você encontra uma orientação equilibrada, focada no longo prazo.

 

Por que a imersão pode ser útil?

Uma das grandes vantagens de um spa médico é a possibilidade de reduzir temporariamente a interferência do ambiente habitual e oferecer ao paciente uma experiência intensiva de aprendizagem.

Em vez de apenas receber uma lista de recomendações, a pessoa vivencia uma rotina: horários regulares, alimentação orientada, atividade física adequada, sono, consultas, educação em saúde e contato com uma equipe multiprofissional.

Intervenções que trabalham simultaneamente diferentes comportamentos são hoje reconhecidas como uma área própria de investigação. Revisões sistemáticas de ensaios clínicos mostram que programas que atuam sobre múltiplos comportamentos podem produzir mudanças relevantes em alimentação, atividade física e outros hábitos, embora o desenho e a avaliação desses programas sejam metodologicamente mais complexos do que os de intervenções isoladas (SILVA et al., 2025; ZHANG et al., 2024).

Isso ajuda a compreender uma característica fundamental do Método Lapinha: seu objeto não é uma doença isolada nem uma variável isolada, mas a pessoa inserida em um conjunto de hábitos e relações que influenciam sua saúde.

 

O verdadeiro resultado é a autonomia possível

O spa médico contemporâneo não precisa ser um local de sofrimento, privação ou emagrecimento relâmpago. Ele pode ser um ambiente de medicina intensiva do estilo de vida, educação e reorganização de hábitos.

O Método Lapinha procura integrar alimentação, movimento, sono, manejo do estresse, cuidado médico e contato com a natureza dentro de uma experiência estruturada. O propósito não é simplesmente produzir uma mudança rápida na balança, mas favorecer uma transformação que possa continuar depois da alta.

A principal pergunta, portanto, não deveria ser apenas:

“Quanto peso essa pessoa perdeu?” Mas também: “O que ela aprendeu, o que mudou em sua vida e o que ela conseguirá manter quando voltar para casa?”

Esse é, talvez, o verdadeiro significado de uma experiência de spa médico nos dias atuais: não substituir a vida do paciente, mas ajudá-lo a reorganizá-la de modo mais saudável, consciente e sustentável.

 

Resumo prático

O Método Lapinha em poucas ideias:

Alimentação: comida de verdade, predominantemente à base de plantas, orgânica, variada e nutricionalmente adequada.

Corpo: movimento diário, exercício aeróbico, alogamento e treinamento de força para preservar função e massa muscular. Adequado ao indivíduo, evitando-se, no outro extremo, o excesso (overtraining).

Mente: sono adequado, manejo do estresse, paz interior, comportamento alimentar e equilíbrio da rotina.

Medicação: quando indicada, integra o tratamento da obesidade, mas não substitui alimentação, atividade física e mudança comportamental.

Imersão: cria um ambiente temporário de organização, aprendizado e intensificação do cuidado.

Pós-Lapinha: a manutenção dos resultados exige continuidade, acompanhamento e adaptação à vida real.

Objetivo final: não é apenas emagrecer, mas melhorar a saúde e desenvolver o máximo possível de autonomia para cuidar dela.

 

Referências

ASHBY-THOMPSON, Maxine et al.; LOOK AHEAD RESEARCH GROUP. Long-term sustained effects of the Look AHEAD lifestyle intervention on body composition among adults with type 2 diabetes. Obesity, Silver Spring, v. 32, n. 6, p. 1093-1101, 2024. DOI: 10.1002/oby.24025.

ARD, Jamy D.; LEWIS, Kristina H.; MOORE, Justin B. Lifestyle interventions for obesity in the era of GLP-1 receptor agonists. JAMA, Chicago, v. 332, n. 1, p. 16-18, 2024. DOI: 10.1001/jama.2024.7062.

BINMAHFOZ, Ahmad et al. Effect of resistance exercise on body composition, muscle strength and cardiometabolic health during dietary weight loss in people living with overweight or obesity: a systematic review and meta-analysis. BMJ Open Sport & Exercise Medicine, London, v. 11, n. 3, e002363, 2025. DOI: 10.1136/bmjsem-2024-002363.

FARIA, Rafaella Rogatto de et al. The six pillars of lifestyle medicine in managing noncommunicable diseases: the gaps in current guidelines. Arquivos Brasileiros de Cardiologia, São Paulo, v. 120, n. 12, e20230408, 2024. DOI: 10.36660/abc.20230408.

GREGA, Meagan L. et al. American College of Lifestyle Medicine expert consensus statement: lifestyle medicine for optimal outcomes in primary care. American Journal of Lifestyle Medicine, Thousand Oaks, v. 18, n. 2, p. 269-293, 2024. DOI: 10.1177/15598276231202970.

JASTREBOFF, Ania M. et al. Tirzepatide after intensive lifestyle intervention in adults with overweight or obesity: the SURMOUNT-3 phase 3 trial. Nature Medicine, New York, v. 29, p. 2909-2918, 2023. DOI: 10.1038/s41591-023-02597-w. Erratum publicado em 2024.

LANDRY, Matthew J. et al. Vegetarian dietary patterns and cardiovascular risk factors and disease prevention: an umbrella review of systematic reviews. American Journal of Preventive Cardiology, Amsterdam, v. 20, 100868, 2024. DOI: 10.1016/j.ajpc.2024.100868.

NEELAND, Ian J.; LINGE, Jens; BIRKENFELD, Andreas L. Changes in lean body mass with glucagon-like peptide-1-based therapies and mitigation strategies. Diabetes, Obesity and Metabolism, Chichester, v. 26, supl. 4, p. 16-27, 2024. DOI: 10.1111/dom.15728.

PEDERSEN, Sue D. et al. Pharmacotherapy for obesity management in adults: 2025 clinical practice guideline update. CMAJ, Ottawa, v. 197, n. 27, p. E797-E809, 2025. DOI: 10.1503/cmaj.250502.

SARAIVA, José Francisco Kerr et al. 2025 Brazilian evidence-based guideline on the management of obesity and prevention of cardiovascular disease and obesity-associated complications: a position statement by five medical societies. Arquivos Brasileiros de Cardiologia, São Paulo, v. 122, n. 9, e20250621, 2025. DOI: 10.36660/abc.20250621.

SILVA, Carolina C. et al. Components of multiple health behaviour change interventions for patients with chronic conditions: a systematic review and meta-regression of randomized trials. Health Psychology Review, London, v. 19, n. 1, p. 200-255, 2025. DOI: 10.1080/17437199.2024.2413871.

WANG, Xiang Jun et al. Healthy and unhealthy plant-based diets and the risk of cardiovascular diseases: the Rotterdam study and updated meta-analysis. Progress in Cardiovascular Diseases, Philadelphia, v. 87, p. 8-15, 2024. DOI: 10.1016/j.pcad.2024.10.008.

WILDING, John P. H. et al. Weight regain and cardiometabolic effects after withdrawal of semaglutide: the STEP 1 trial extension. Diabetes, Obesity and Metabolism, Chichester, v. 24, n. 8, p. 1553-1564, 2022. DOI: 10.1111/dom.14725.

ZHANG, Angela L. et al. Health-promotion interventions targeting multiple behaviors: a meta-analytic review of general and behavior-specific processes of change. Psychological Bulletin, Washington, DC, v. 150, n. 7, p. 798-838, 2024. DOI: 10.1037/bul0000427.

Sair do Abismo: O Que Você Precisa Entender Sobre a Depressão  – Parte 2 — Da descoberta dos antidepressivos à psiquiatria personalizada

 

O que a ciência já sabe sobre os transtornos depressivos — como e por que eles podem ser tratados

 

Da era do acaso à medicina de precisão

Até meados do século XX, os recursos para tratar a depressão eram extremamente limitados. Muitos pacientes permaneciam internados durante meses ou anos, e a perspectiva de recuperação era modesta.

Curiosamente, os primeiros antidepressivos não foram desenvolvidos para tratar depressão. Sua descoberta foi, em grande parte, fruto do acaso. Na década de 1950, médicos observaram que pacientes tratados com iproniazida, inicialmente estudada para tuberculose, apresentavam melhora importante do humor. Pouco depois, a imipramina, desenvolvida como potencial antipsicótico, mostrou efeito antidepressivo marcante (Lopez-Muñoz; Alamo, 2009).

Essas observações inauguraram uma nova era da psiquiatria e deram origem às primeiras classes de antidepressivos.

 

Um breve passeio pela história dos antidepressivos

 

  1. Inibidores da monoaminoxidase (IMAO)

Os IMAOs foram os pioneiros.

Eles aumentam a disponibilidade cerebral de serotonina, noradrenalina e dopamina ao bloquear a enzima monoaminoxidase.

Apesar de muito eficazes em alguns casos — especialmente na chamada depressão atípica —, exigem importantes restrições alimentares e apresentam risco de interações medicamentosas potencialmente graves, razão pela qual hoje são reservados para situações específicas (Kennedy et al., 2023).

 

  1. Antidepressivos tricíclicos

Logo surgiram medicamentos como imipramina, amitriptilina, nortriptilina e clomipramina.

São fármacos bastante eficazes, mas também apresentam maior incidência de efeitos colaterais, como boca seca, constipação, retenção urinária, sonolência, hipotensão postural e ganho de peso. Em doses elevadas, podem provocar arritmias cardíacas, o que limita seu uso em alguns pacientes (NICE, 2022).

Ainda hoje continuam tendo papel importante em determinadas situações clínicas, como dor neuropática, enxaqueca e alguns transtornos ansiosos.

 

  1. A revolução dos ISRS

No final da década de 1980 surgiu um medicamento que mudaria profundamente a psiquiatria: a fluoxetina.

Ela inaugurou a era dos Inibidores Seletivos da Recaptação de Serotonina (ISRS), posteriormente acompanhada por sertralina, escitalopram, citalopram, paroxetina e fluvoxamina.

Esses medicamentos apresentaram eficácia semelhante à dos antidepressivos mais antigos, porém com perfil de segurança muito melhor, reduzindo significativamente o risco de intoxicações graves e facilitando o tratamento ambulatorial (Cipriani et al., 2018).

Até hoje, os ISRS permanecem entre as principais opções de primeira linha para transtorno depressivo maior.

 

  1. Os IRSN

Mais tarde surgiram os Inibidores da Recaptação de Serotonina e Noradrenalina (IRSN).

Os principais representantes são:

  • venlafaxina;
  • desvenlafaxina;
  • duloxetina.

Além da depressão, esses medicamentos costumam ser úteis em pacientes com dor crônica, fibromialgia e neuropatias diabéticas, ampliando as possibilidades terapêuticas.

 

  1. Antidepressivos “atípicos”

A psiquiatria moderna passou então a dispor de medicamentos com mecanismos bastante diferentes.

Entre eles destacam-se:

  • bupropiona, que atua predominantemente sobre dopamina e noradrenalina, sendo interessante em pacientes com fadiga, lentificação psicomotora e na cessação do tabagismo;
  • mirtazapina, útil quando predominam insônia, ansiedade intensa e perda de apetite;
  • agomelatina, disponível em alguns países, que atua também sobre receptores relacionados ao ritmo circadiano.

Essa diversidade permite individualizar muito melhor o tratamento.

 

 

Resumo Prático

Hoje não existe “o melhor antidepressivo”.

Existe o medicamento mais adequado para determinado paciente, considerando idade, sintomas predominantes, doenças associadas, interações medicamentosas e perfil de efeitos adversos.

 

As doses mais utilizadas na prática clínica

Embora apenas o médico possa definir o tratamento adequado, muitos leitores têm curiosidade sobre as doses habitualmente empregadas.

A tabela abaixo apresenta apenas valores usuais para adultos.

Atenção: Obtenha sempre orientação médica para o uso de medicamentos ou alteração de dose. Este diagrama é de caráter apenas informativo.

 

Medicamento Dose inicial habitual Faixa terapêutica mais utilizada
Fluoxetina 20 mg/dia 20–60 mg/dia
Sertralina 50 mg/dia 50–200 mg/dia
Escitalopram 10 mg/dia 10–20 mg/dia
Citalopram 20 mg/dia 20–40 mg/dia*
Paroxetina 20 mg/dia 20–50 mg/dia
Venlafaxina XR 75 mg/dia 75–225 mg/dia
Desvenlafaxina 50 mg/dia 50–100 mg/dia
Duloxetina 30–60 mg/dia 60–120 mg/dia
Bupropiona XR 150 mg/dia 150–300 mg/dia
Mirtazapina 15 mg/noite 15–45 mg/noite
Trazodona 50–150 mg/noite 150–300 mg/dia (quando antidepressivo)

*Em muitos pacientes, especialmente idosos ou pessoas com risco de prolongamento do intervalo QT, recomenda-se não ultrapassar 20 mg/dia.

 

Os antidepressivos causam dependência?

Essa talvez seja uma das maiores preocupações dos pacientes. A resposta, na imensa maioria dos casos, é não. Antidepressivos não produzem dependência química da mesma forma que álcool, nicotina, opioides ou benzodiazepínicos.

Entretanto, a interrupção abrupta de alguns medicamentos pode provocar sintomas transitórios, conhecidos como síndrome de descontinuação, incluindo tontura, sensação de choques elétricos (“brain zaps”), irritabilidade, insônia e mal-estar geral (Warner et al., 2006).

Por isso, quando chega o momento de interromper o tratamento, a redução costuma ser feita gradualmente e sob orientação médica.

 

Quando o remédio não resolve tudo

Talvez uma das maiores mudanças da psiquiatria moderna tenha sido compreender que medicamentos são extremamente importantes, mas raramente representam toda a solução.

É aqui que entra a Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC). Desenvolvida por Aaron Beck, a TCC parte da ideia de que pensamentos, emoções e comportamentos influenciam-se mutuamente (Beck, 1979).

Ela ajuda o paciente a reconhecer padrões automáticos de pensamento, interpretar situações de maneira mais realista e desenvolver estratégias para enfrentar problemas cotidianos.

Estudos mostram que a TCC apresenta eficácia comparável à farmacoterapia em muitos casos de depressão leve e moderada e, quando associada aos antidepressivos, reduz o risco de recaídas, especialmente nos quadros recorrentes (Cuijpers et al., 2023).

Isso não significa que a psicoterapia substitua o psiquiatra. Nem que o psiquiatra substitua a psicoterapia. Na verdade, ambos costumam funcionar melhor quando trabalham juntos.

 

Resumo Prático

✔ Antidepressivos ajudam a corrigir alterações biológicas importantes.

✔ A TCC ensina novas formas de interpretar e enfrentar as dificuldades da vida.

✔ Em muitos pacientes, a combinação das duas estratégias produz resultados superiores aos obtidos com qualquer uma delas isoladamente.

 

Quando a resposta não é suficiente

Apesar dos enormes avanços das últimas décadas, aproximadamente um terço dos pacientes não responde adequadamente ao primeiro antidepressivo utilizado (Rush et al., 2006).

Foi justamente essa limitação que impulsionou o desenvolvimento de novas abordagens terapêuticas.

Nas duas últimas décadas surgiram tratamentos capazes de modificar profundamente a forma como entendemos a depressão resistente.

Entre eles destacam-se a estimulação magnética transcraniana (EMT), a esketamina intranasal, a redescoberta da eletroconvulsoterapia (ECT) em indicações precisas e, mais recentemente, pesquisas promissoras envolvendo psicodélicos em ambientes altamente controlados. Esses avanços serão o tema da próxima parte deste artigo.

 

Na Parte III, veremos como a psiquiatria entrou definitivamente na era da medicina de precisão: estimulação magnética transcraniana, cetamina, eletroconvulsoterapia moderna, farmacogenômica aplicada, eixo intestino-cérebro, exercício físico, sono, alimentação e medicina do estilo de vida como pilares fundamentais no tratamento dos transtornos depressivos.

 

Referências

BECK, A. T. Cognitive Therapy of Depression. New York: Guilford Press, 1979.

CIPRIANI, A. et al. Comparative efficacy and acceptability of 21 antidepressant drugs for the acute treatment of adults with major depressive disorder: a systematic review and network meta-analysis. The Lancet, London, v. 391, n. 10128, p. 1357–1366, 2018.

CUIJPERS, P. et al. Psychological treatment of depression: current status and future directions. World Psychiatry, v. 22, n. 3, p. 366–393, 2023.

KENNEDY, S. H. et al. Canadian Network for Mood and Anxiety Treatments (CANMAT) 2023 Clinical Guidelines for the Management of Major Depressive Disorder. Canadian Journal of Psychiatry, 2023.

LOPEZ-MUÑOZ, F.; ALAMO, C. Monoaminergic neurotransmission: the history of the discovery of antidepressants. Current Pharmaceutical Design, v. 15, n. 14, p. 1563–1586, 2009.

NATIONAL INSTITUTE FOR HEALTH AND CARE EXCELLENCE (NICE). Depression in adults: treatment and management (NG222). London: NICE, 2022.

RUSH, A. J. et al. Acute and longer-term outcomes in depressed outpatients requiring one or several treatment steps: a STAR*D report. American Journal of Psychiatry, v. 163, n. 11, p. 1905–1917, 2006.

WARNER, C. H. et al. Antidepressant discontinuation syndrome. American Family Physician, v. 74, n. 3, p. 449–456, 2006.

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