Vegetarianismo e Veganismo: Benefícios, Limitações e Cuidados – Parte 2

 

 

Na primeira parte deste artigo vimos que vegetarianismo e veganismo representam muito mais do que uma simples escolha alimentar. Também discutimos que nem toda dieta baseada em vegetais é necessariamente saudável. Nesta segunda parte, analisaremos o que os principais estudos científicos realmente demonstram sobre os possíveis benefícios dessas dietas, bem como suas limitações e os nutrientes que merecem atenção especial.

 

O que a ciência demonstra com maior consistência?

Ao longo das últimas três décadas, centenas de estudos avaliaram os efeitos das dietas vegetarianas sobre diferentes doenças crônicas. Como ocorre em praticamente todas as pesquisas envolvendo nutrição, a interpretação dos resultados exige cautela. A maioria das evidências provém de grandes estudos observacionais, que permitem identificar associações, mas não demonstrar causalidade absoluta.

Ainda assim, quando diferentes estudos realizados em populações distintas apontam na mesma direção, aumenta nossa confiança de que exista um efeito biológico real.

Entre os benefícios mais consistentemente observados destacam-se menor índice de obesidade, menor prevalência de diabetes tipo 2, níveis mais baixos de colesterol LDL, menor pressão arterial e redução do risco de algumas doenças cardiovasculares.

 

Obesidade: uma das evidências mais consistentes

Talvez um dos achados mais reproduzidos na literatura seja o menor índice de massa corporal (IMC) entre vegetarianos.

Um interessante estudo envolvendo mais de 96 mil participantes do Adventist Health Study-2 demonstrou que, em média, vegetarianos apresentavam IMC significativamente menor que indivíduos onívoros. Os veganos exibiram os menores valores, seguidos pelos ovolactovegetarianos, enquanto os consumidores habituais de carne apresentaram os maiores índices (Tonstad et al., 2009).

Diversos fatores provavelmente contribuem para esse resultado. Dietas baseadas em vegetais costumam apresentar maior teor de fibras, menor densidade energética, maior volume alimentar e maior poder de saciedade, favorecendo espontaneamente menor ingestão calórica.

Entretanto, convém lembrar que o emagrecimento não depende exclusivamente da exclusão da carne. Uma alimentação vegetariana ou vegana rica em doces, refrigerantes, frituras e ultraprocessados está longe de ser saudável e dificilmente produzirá esse benefício.

 

Diabetes tipo 2

Outra área em que os resultados têm sido bastante consistentes é a prevenção do diabetes tipo 2.

No próprio Adventist Health Study-2, um interessante estudo envolvendo dezenas de milhares de participantes observou que vegetarianos apresentavam risco significativamente menor de desenvolver diabetes tipo 2 quando comparados aos não vegetarianos, mesmo após ajustes para idade, sexo, atividade física e índice de massa corporal (Tonstad et al., 2009).

Mais recentemente, revisões sistemáticas e metanálises confirmaram que padrões alimentares predominantemente vegetais estão associados à melhora da sensibilidade à insulina, redução da hemoglobina glicada em indivíduos com diabetes e melhor controle metabólico, sobretudo quando baseados em alimentos integrais e minimamente processados.

Boa parte desse efeito parece decorrer da combinação entre perda de peso, maior ingestão de fibras, menor consumo de gorduras saturadas e melhora da qualidade global da alimentação.

 

Doenças cardiovasculares

As doenças cardiovasculares continuam sendo a principal causa de morte no mundo. Naturalmente, muitos pesquisadores procuraram avaliar se dietas vegetarianas influenciam esse risco.

Uma importante metanálise publicada por Dinu e colaboradores (2017), reunindo estudos envolvendo centenas de milhares de participantes, observou associação entre dietas vegetarianas e menores concentrações de colesterol total, colesterol LDL e pressão arterial, além de menor incidência de doença isquêmica do coração.

Outro interessante estudo publicado no Journal of the American Heart Association demonstrou que padrões alimentares vegetais compostos predominantemente por alimentos integrais estavam associados a menor risco de doença cardiovascular, enquanto dietas ricas em alimentos vegetais ultraprocessados apresentavam associação oposta (Satija et al., 2019).

Esses achados reforçam uma mensagem fundamental: não basta consumir alimentos de origem vegetal; é necessário priorizar alimentos pouco processados.

 

E quanto ao câncer?

Esse talvez seja um dos temas que mais desperta interesse do público.

Os estudos disponíveis sugerem que dietas ricas em frutas, verduras, legumes, cereais integrais e leguminosas podem contribuir para reduzir o risco de alguns tipos de câncer, especialmente colorretal. Entretanto, atribuir esse benefício exclusivamente ao vegetarianismo seria uma simplificação inadequada.

A menor ingestão de carnes processadas, reconhecidas pela International Agency for Research on Cancer como carcinogênicas para humanos quando consumidas regularmente, provavelmente representa um dos fatores envolvidos.

Além disso, alimentos vegetais fornecem fibras, antioxidantes, carotenoides, flavonoides e milhares de compostos bioativos que podem exercer efeitos favoráveis sobre inflamação, microbiota intestinal e metabolismo celular.

Por outro lado, até o momento não existem evidências suficientes para afirmar que simplesmente retirar a carne da alimentação reduza, por si só, o risco global de câncer. A qualidade geral da dieta continua sendo determinante.

 

Longevidade: promessa ou realidade?

Poucos assuntos despertam tanta curiosidade quanto a possibilidade de viver mais.

As populações vegetarianas estudadas em Loma Linda apresentam, de fato, expectativa de vida superior à média norte-americana. Entretanto, interpretar corretamente esses dados exige prudência.

Além da alimentação, esses indivíduos fumam menos, ingerem pouco álcool, praticam atividade física regularmente, possuem forte integração social, valorizam o descanso semanal e mantêm acompanhamento médico preventivo com maior frequência.

Portanto, embora diversos estudos observacionais sugiram associação entre padrões alimentares vegetarianos e menor mortalidade, é cientificamente mais correto afirmar que a alimentação constitui apenas um dos componentes de um estilo de vida globalmente saudável.

Essa conclusão está plenamente alinhada com os princípios da Medicina do Estilo de Vida, que enfatiza a atuação conjunta da alimentação, atividade física, sono adequado, controle do estresse, vínculos sociais e prevenção do tabagismo.

 

Nutrientes que merecem atenção

Apesar de seus inúmeros aspectos positivos, dietas vegetarianas e, principalmente, veganas podem apresentar limitações nutricionais quando não são cuidadosamente planejadas. A principal delas diz respeito à vitamina B12.

Produzida por microrganismos, e não pelos animais propriamente ditos, essa vitamina encontra-se naturalmente disponível em quantidades relevantes quase exclusivamente em alimentos de origem animal.

Sua deficiência pode provocar anemia megaloblástica, alterações neurológicas, neuropatia periférica, prejuízo cognitivo e aumento das concentrações de homocisteína.

Por essa razão, praticamente todas as sociedades científicas que publicam recomendações sobre alimentação vegetariana são unânimes em afirmar que veganos devem utilizar alimentos fortificados ou suplementação regular de vitamina B12.

Essa é uma das recomendações mais sólidas de toda a literatura científica sobre veganismo.

 

Outros nutrientes potencialmente limitantes

Além da vitamina B12, alguns nutrientes merecem monitorização individualizada.

Entre eles destacam-se:

  • ferro;
  • zinco;
  • cálcio;
  • iodo;
  • vitamina D;
  • ácidos graxos ômega-3 de cadeia longa (EPA e DHA);
  • proteína, especialmente em idosos, atletas ou indivíduos com maior demanda metabólica.

É importante destacar que isso não significa que dietas vegetarianas sejam inadequadas. Significa apenas que, assim como ocorre em qualquer padrão alimentar, elas precisam ser corretamente planejadas.

Na prática clínica, exames laboratoriais periódicos e orientação nutricional individualizada costumam ser suficientes para prevenir a maioria dessas deficiências.

 

O equilíbrio continua sendo a melhor escolha

À medida que a ciência evolui, torna-se cada vez mais evidente que o debate não deve opor vegetarianos e onívoros. A verdadeira questão é a qualidade da alimentação.

Uma dieta vegetariana rica em vegetais frescos, leguminosas, frutas, cereais integrais e oleaginosas provavelmente será muito mais saudável do que uma dieta onívora baseada em ultraprocessados.

Da mesma forma, uma alimentação onívora composta predominantemente por alimentos naturais, com consumo moderado de carnes, abundância de vegetais e reduzida quantidade de alimentos industrializados poderá oferecer excelente perfil nutricional.

Em outras palavras, o que a ciência vem mostrando de forma crescente é que a qualidade global da dieta importa muito mais do que a simples presença ou ausência de carne no prato.

Na terceira e última parte deste artigo discutiremos um aspecto igualmente importante: os impactos ambientais da produção de alimentos, as motivações éticas para o vegetarianismo, os desafios da sustentabilidade, o consumo consciente e os principais mitos e verdades que ainda cercam esse tema.

 

Referências

DINU, M. et al. Vegetarian, vegan diets and multiple health outcomes: a systematic review with meta-analysis of observational studies. Critical Reviews in Food Science and Nutrition, v. 57, n. 17, p. 3640–3649, 2017.

ORLICH, M. J. et al. Vegetarian dietary patterns and mortality in Adventist Health Study 2. JAMA Internal Medicine, v. 173, n. 13, p. 1230–1238, 2013.

SATIJA, A. et al. Plant-based dietary patterns and incidence of cardiovascular disease: prospective cohort study. Journal of the American Heart Association, v. 8, e012865, 2019.

TONSTAD, S. et al. Type of vegetarian diet, body weight, and prevalence of type 2 diabetes. Diabetes Care, v. 32, n. 5, p. 791–796, 2009.

MELINA, V.; CRAIG, W.; LEVIN, S. Position of the Academy of Nutrition and Dietetics: Vegetarian Diets. Journal of the Academy of Nutrition and Dietetics, v. 116, n. 12, p. 1970–1980, 2016.

CRAIG, W. J. et al. The safe and effective use of plant-based diets with guidelines for health professionals. Nutrients, v. 13, n. 11, 2021.

A Revolução das “Canetinhas” Emagrecedoras – Para Onde Caminha o Tratamento da Obesidade? – PARTE 4

 

O futuro já começou. 

 

Estamos apenas no começo da revolução

Se alguém tivesse me dito, há vinte anos, que um medicamento poderia proporcionar perdas médias de peso superiores a 20%, provavelmente eu teria considerado um otimismo exagerado.

Naquela época, perder entre 5% e 10% do peso corporal já era visto como um excelente resultado. Hoje discutimos medicamentos capazes de produzir reduções próximas de 25% em parte dos pacientes.

Isso não significa que a obesidade esteja “curada”. Significa que a medicina entrou em uma nova era. E tudo indica que ainda estamos apenas no início.

 

A próxima geração de medicamentos

Os primeiros medicamentos modernos atuavam principalmente sobre um único mecanismo cerebral relacionado ao apetite. Os agonistas do GLP-1 inauguraram uma nova estratégia: utilizar hormônios naturalmente produzidos pelo intestino.

A seguir vieram os agonistas duplos, como a tirzepatida, que combina os efeitos do GLP-1 e do GIP. Agora estamos entrando na era dos agonistas múltiplos. A principal representante dessa nova geração é a retatrutida, que estimula simultaneamente três receptores hormonais:

  • GLP-1;
  • GIP;
  • glucagon.

Nos estudos clínicos de fase 2, os resultados impressionaram a comunidade científica, com reduções médias de peso próximas de 24% após 48 semanas nas doses mais elevadas, ainda com tendência de continuação da perda de peso ao final do estudo (Jastreboff et al., 2023).

Grandes estudos de fase 3 estão em andamento para confirmar esses achados em um número muito maior de participantes.

 

Outras terapias promissoras

A retatrutida provavelmente não será a última grande inovação. Diversos medicamentos encontram-se em desenvolvimento. Entre eles destacam-se:

 

CagriSema

Combina a semaglutida com a cagrilintida, um análogo da amilina, hormônio que também participa da sensação de saciedade.

A hipótese é que a atuação simultânea em diferentes vias reguladoras do apetite possa aumentar ainda mais a eficácia.

 

Amicretina

Outra molécula extremamente promissora.

Ela combina atividade sobre o receptor de GLP-1 com ação relacionada à amilina, podendo ser administrada por via subcutânea e, futuramente, também por via oral, dependendo dos resultados finais dos estudos.

Embora os dados ainda sejam preliminares, os primeiros ensaios clínicos apontam reduções expressivas de peso.

 

Combinações personalizadas

Muito provavelmente o futuro não será representado por um único medicamento.

Assim como ocorre na hipertensão arterial e no diabetes, diferentes combinações poderão ser utilizadas conforme o perfil clínico de cada paciente. A medicina da obesidade caminha rapidamente em direção à personalização.

 

Cuidado com falsificações!

A febre global em torno das “canetinhas emagrecedoras” abriu espaço para um mercado clandestino extremamente perigoso: a falsificação e a venda ilícita de medicamentos injetáveis.

Movidos pela promessa de um emagrecimento rápido ou pela busca por preços mais baixos diante do desabastecimento nas farmácias, milhares de pacientes estão comprando frascos falsificados na internet e em redes sociais.

No caso de moléculas revolucionárias como a retatrutida — o triplo agonista que promete perdas de peso ainda mais impressionantes —, o alerta deve ser máximo. A retatrutida ainda não está disponível para venda em nenhum lugar do mundo.

Ela continua em fase final de estudos clínicos (fase 3), com previsão de submissão e avaliação pelas agências regulatórias — como a FDA nos Estados Unidos e a Anvisa no Brasil — a partir de 2026 ou 2027.

A estimativa mais realista e prudente da comunidade científica e de analistas de mercado é que a aprovação da FDA ocorra em 2027 (com um cenário extremamente otimista abrindo margem para o fim de 2026 nos EUA).

No Brasil, a submissão e o processo de análise pela Anvisa costumam acontecer em seguida, o que geralmente empurra a chegada nas farmácias brasileiras para final de 2027 ou 2028

Qualquer produto oferecido hoje (julho de 2026) sob esse nome na internet, em clínicas estéticas ou no mercado paralelo é falso, ilegal e altamente arriscado.

Alergias graves, infecções por bactérias, contaminação por metais pesados e até choque anafilático são apenas alguns dos riscos reais de injetar substâncias desconhecidas produzidas em laboratórios clandestinos.

Agências regulatórias internacionais e a própria Anvisa têm emitido alertas constantes para que a população jamais adquira esses medicamentos fora de farmácias credenciadas ou sem a devida prescrição e acompanhamento médico.

A busca por um atalho estético não pode custar a sua vida: medicamento de verdade exige rigor científico, aprovação oficial dos órgãos de saúde e responsabilidade médica do início ao fim do tratamento.

 

A cirurgia bariátrica deixará de existir?

Provavelmente não. A cirurgia bariátrica continua sendo uma das intervenções mais eficazes para obesidade grave, proporcionando perdas importantes de peso, melhora do diabetes tipo 2 e redução da mortalidade em pacientes cuidadosamente selecionados (ASMBS; IFSO, 2022).

Entretanto, um cenário bastante interessante começa a surgir. Se medicamentos forem capazes de produzir reduções de peso próximas às obtidas por algumas técnicas cirúrgicas, parte dos pacientes poderá alcançar seus objetivos sem necessidade de uma intervenção invasiva.

Isso poderá representar:

  • menor risco cirúrgico;
  • menor tempo de recuperação;
  • maior aceitação do tratamento;
  • possibilidade de intervenção mais precoce.

É importante destacar que ainda aguardamos os resultados de longo prazo dos novos agonistas múltiplos para confirmar se esses benefícios se manterão ao longo dos anos. Por enquanto, trata-se de uma perspectiva promissora, e não de uma substituição definitiva da cirurgia bariátrica.

 

Resumo Prático

A cirurgia bariátrica continuará tendo um papel importante.

Mas é possível que, no futuro, um número crescente de pacientes consiga resultados semelhantes apenas com tratamento clínico bem conduzido.

 

A obesidade continuará sendo uma doença crônica

Existe uma expectativa equivocada de que esses medicamentos representem uma “cura”. Provavelmente não. Tudo indica que a obesidade continuará sendo uma doença crônica. Isso significa que muitos pacientes poderão necessitar de tratamento prolongado, assim como acontece com:

  • hipertensão arterial;
  • diabetes;
  • asma;
  • hipotireoidismo.

Essa visão não deve ser encarada como fracasso. Pelo contrário. Ela representa uma mudança de paradigma. Ninguém considera um fracasso o uso contínuo de medicamentos para controlar a pressão arterial.

Da mesma forma, utilizar tratamento prolongado para controlar uma doença crônica como a obesidade pode ser uma estratégia perfeitamente racional.

 

O que ainda precisamos aprender?

Apesar do enorme entusiasmo, várias perguntas permanecem abertas.

Por exemplo:

  • Qual será a segurança após 15 ou 20 anos de tratamento?
  • Quem realmente precisará utilizar medicamentos por toda a vida?
  • Em quais pacientes será possível suspender a medicação sem recuperar peso?
  • Como preservar ainda melhor a massa muscular durante perdas importantes de peso?
  • Como tornar esses medicamentos acessíveis para sistemas públicos de saúde?
  • Como evitar o uso inadequado por pessoas sem indicação médica?

Essas perguntas estão sendo investigadas por centenas de pesquisadores em todo o mundo.

 

A verdadeira revolução talvez não esteja na caneta

Talvez o maior legado desses medicamentos não seja apenas fazer pessoas emagrecerem. Talvez seja outro. Eles ajudaram a destruir um antigo preconceito.

Durante décadas, muitos indivíduos com obesidade ouviram que bastava “ter força de vontade”. Hoje sabemos que isso não corresponde à realidade.

A fome é regulada por circuitos hormonais extremamente sofisticados. O cérebro responde intensamente a esses sinais. A genética influencia esse processo. O ambiente moderno favorece o excesso de ingestão calórica. A microbiota intestinal participa da regulação metabólica. Dormir pouco aumenta a fome. O estresse modifica hormônios relacionados ao apetite.

A obesidade deixou definitivamente de ser compreendida apenas como uma falha moral ou comportamental. Passou a ser reconhecida como uma doença biológica complexa, que merece tratamento baseado em evidências e livre de estigmas. Essa talvez seja a maior vitória de todas.

 

O que realmente faz diferença

Depois de quatro décadas acompanhando pessoas com obesidade, continuo acreditando em uma verdade simples. Os medicamentos mudaram profundamente o tratamento. Mas continuam sendo parte do tratamento. Os maiores resultados aparecem quando diferentes estratégias caminham juntas:

✔ alimentação equilibrada;

✔ atividade física regular — especialmente exercícios de força;

✔ sono adequado;

✔ controle do estresse;

✔ acompanhamento nutricional;

✔ apoio psicológico quando necessário;

✔ tratamento medicamentoso, quando indicado.

Não existe concorrência entre essas abordagens. Existe complementaridade. Quanto mais elas se integram, maiores costumam ser os benefícios.

 

Resumo Final

O que aprendemos ao longo deste artigo?

✔ A obesidade é uma doença crônica, complexa e multifatorial.

✔ Durante décadas, os medicamentos disponíveis proporcionavam resultados modestos.

✔ Os agonistas das incretinas transformaram a farmacoterapia da obesidade ao restaurar mecanismos fisiológicos de saciedade.

✔ Liraglutida, semaglutida, tirzepatida e, possivelmente, retatrutida representam marcos sucessivos dessa evolução.

✔ Essas medicações são altamente eficazes, mas exigem indicação correta, acompanhamento médico e integração com mudanças no estilo de vida.

✔ O emagrecimento de qualidade depende da preservação da massa muscular, da boa nutrição e da prática regular de exercícios resistidos.

✔ O entusiasmo é justificável, mas o uso indiscriminado, estético ou sem supervisão médica precisa ser desencorajado.

✔ A ciência ainda responderá muitas perguntas, mas já mudou definitivamente a forma como compreendemos e tratamos a obesidade.

 

 

Conclusão

Durante muitos anos, médicos e pacientes caminharam lado a lado em uma jornada frequentemente marcada pela frustração. Sabíamos que emagrecer era possível, mas manter o peso perdido era um desafio enorme. Não por falta de empenho, mas porque lutávamos contra mecanismos biológicos que ainda eram pouco compreendidos.

Os análogos das incretinas mudaram esse cenário. Pela primeira vez, dispomos de medicamentos capazes de atuar sobre os próprios circuitos fisiológicos da fome e da saciedade, permitindo perdas de peso antes consideradas inalcançáveis com tratamento clínico. Trata-se de um dos maiores avanços da endocrinologia e da medicina metabólica nas últimas décadas.

Entretanto, toda revolução traz consigo novos desafios. O entusiasmo não pode abrir espaço para o uso indiscriminado, para promessas irreais ou para a ilusão de que existe uma solução simples para um problema complexo. Nenhuma caneta substitui alimentação adequada, exercício físico, sono de qualidade, saúde emocional e acompanhamento profissional.

Talvez a maior contribuição dessas medicações seja outra: elas ajudaram a mostrar que a obesidade não é um defeito de caráter nem uma simples falta de disciplina. É uma doença crônica, multifatorial e biologicamente determinada em grande parte, que merece ser tratada com o mesmo respeito, seriedade e base científica dedicados às demais doenças crônicas.

A verdadeira revolução, portanto, não está apenas na tecnologia das novas canetas. Está na mudança de olhar. Saímos de uma época em que muitos pacientes eram culpabilizados por não conseguir emagrecer para uma era em que compreendemos melhor a biologia da obesidade e dispomos de ferramentas muito mais eficazes para ajudá-los. Se soubermos utilizar esses recursos com responsabilidade, bom senso e humanidade, talvez estejamos diante de um dos capítulos mais transformadores da história da medicina preventiva e metabólica.

 

Referências– Parte 4

AMERICAN SOCIETY FOR METABOLIC AND BARIATRIC SURGERY (ASMBS); INTERNATIONAL FEDERATION FOR THE SURGERY OF OBESITY AND METABOLIC DISORDERS (IFSO). 2022 ASMBS/IFSO Indications for Metabolic and Bariatric Surgery. Surgery for Obesity and Related Diseases, v. 18, n. 12, p. 1345–1356, 2022.

JASTREBOFF, A. M. et al. Triple-hormone receptor agonist retatrutide for obesity: a phase 2 trial. New England Journal of Medicine, Boston, v. 389, n. 6, p. 514–526, 2023.

KNOP, F. K.; MÜLLER, T. D. The future of obesity pharmacotherapy. Nature Reviews Endocrinology, London, v. 20, 2024.

MÜLLER, T. D. et al. Anti-obesity drug discovery: advances and challenges. Nature Reviews Drug Discovery, London, v. 21, p. 201–223, 2022.

RUBINO, D. et al. Definition and diagnostic criteria of clinical obesity. The Lancet Diabetes & Endocrinology, 2025.

A Revolução das “Canetinhas” Emagrecedoras – Quatro décadas de uma longa espera – PARTE 1

 

Da frustração ao entusiasmo: como os novos medicamentos transformaram o tratamento da obesidade — e por que ainda precisamos de equilíbrio

 

 Disclaimer

Este artigo tem finalidade exclusivamente educativa e não substitui consulta médica. Medicamentos para tratamento da obesidade devem ser prescritos apenas após avaliação individualizada, considerando benefícios, riscos, contraindicações e acompanhamento contínuo. Nenhum medicamento substitui uma alimentação saudável, atividade física regular e outras mudanças no estilo de vida.

 

Confesso: durante muitos anos tratar a obesidade era frustrante

Há mais de quarenta anos acompanho pessoas que desejam emagrecer. Ao longo desse período, vi milhares de histórias. Algumas extremamente bem-sucedidas.

Muitas, infelizmente, repetiam o mesmo roteiro. O paciente conseguia perder alguns quilos. Sentia-se motivado. Depois surgiam as dificuldades da rotina. A fome aumentava. O organismo reagia. O peso voltava. Frequentemente maior do que antes.

Era o conhecido efeito sanfona. Como médico, poucas situações produziam tanta frustração.

Sabíamos orientar alimentação. Incentivávamos atividade física. Tratávamos ansiedade quando necessário. Prescrevíamos os medicamentos disponíveis. Mesmo assim, grande parte dos pacientes não conseguia manter resultados duradouros.

Hoje compreendemos que isso não acontecia por falta de força de vontade. A ciência mudou profundamente nossa compreensão da obesidade.

 

A maior mudança foi compreender que obesidade é uma doença

Durante muitos anos a obesidade foi interpretada quase exclusivamente como consequência de escolhas individuais.

Quem engordava era frequentemente visto como alguém sem disciplina. Esse pensamento mostrou-se profundamente simplista.

Hoje sabemos que a obesidade é uma doença crônica, complexa e multifatorial, influenciada por genética, ambiente, hormônios, microbiota intestinal, sono, estresse, saúde mental, disponibilidade de alimentos ultraprocessados e inúmeros outros fatores (Rubino et al., 2025).

O cérebro possui sistemas extremamente sofisticados para defender as reservas de energia.

Quando uma pessoa emagrece, o organismo frequentemente responde aumentando a fome, reduzindo o gasto energético e estimulando mecanismos biológicos que favorecem a recuperação do peso.

Em outras palavras: o corpo humano foi programado para evitar perder peso, não para evitar ganhar peso. Essa descoberta mudou completamente a forma como encaramos o tratamento.

 

Resumo Prático

Obesidade não é simplesmente falta de força de vontade. É uma doença crônica na qual fatores biológicos, psicológicos, sociais e ambientais interagem continuamente.

 

Uma breve história dos medicamentos para emagrecer

A busca por medicamentos capazes de reduzir o peso corporal acompanha a medicina há muitas décadas. Alguns trouxeram benefícios importantes. Outros acabaram abandonados por falta de eficácia ou por problemas de segurança.

Conhecer essa história ajuda a entender por que as chamadas “canetinhas” representam um momento tão especial.

 

Os primeiros anorexígenos: muito entusiasmo, muitos problemas

Na década de 1940 começaram a surgir os derivados anfetamínicos. Eles reduziam o apetite estimulando diretamente o sistema nervoso central. Inicialmente pareciam revolucionários.

Entretanto, logo ficaram evidentes diversos problemas:

  • aumento da pressão arterial;
  • insônia;
  • ansiedade;
  • taquicardia;
  • risco de dependência;
  • abuso recreativo.

Muitos desses medicamentos foram posteriormente retirados do mercado ou tiveram seu uso severamente restringido. Eles ensinaram uma importante lição: reduzir o apetite não basta; o tratamento também precisa ser seguro.

 

Sibutramina: um avanço importante, mas limitado

No final da década de 1990 surgiu a sibutramina. Seu mecanismo de ação era diferente. Ela aumentava a disponibilidade cerebral de serotonina e noradrenalina, promovendo maior sensação de saciedade. Durante muitos anos representou um dos principais tratamentos farmacológicos da obesidade.

Ainda hoje permanece disponível em diversos países, inclusive no Brasil, com critérios rigorosos de prescrição.

Embora muitos pacientes apresentassem boa resposta, a perda média de peso costumava situar-se entre 5% e 10% do peso corporal, além de haver preocupações quanto ao uso em pacientes com doença cardiovascular estabelecida, especialmente após a publicação do estudo SCOUT (James et al., 2010). Para muitos indivíduos, ainda era pouco.

 

Orlistate: uma estratégia completamente diferente

Enquanto os medicamentos anteriores atuavam principalmente sobre o cérebro, o orlistate passou a agir no intestino.

Seu mecanismo consiste em bloquear parte da ação das lipases pancreáticas, reduzindo a absorção de aproximadamente 30% da gordura ingerida. A estratégia mostrou-se segura do ponto de vista cardiovascular.

Entretanto, os efeitos colaterais gastrointestinais — como evacuações oleosas, urgência evacuatória e flatulência com eliminação de gordura — limitaram bastante sua aceitação. Mesmo assim, permanece uma alternativa útil em situações específicas.

 

Novas combinações: tentando aumentar a eficácia

Nas décadas seguintes surgiram associações medicamentosas buscando atuar simultaneamente sobre diferentes mecanismos cerebrais envolvidos no apetite.

Entre elas destacam-se:

  • Fentermina + Topiramato, aprovada em diversos países e capaz de produzir perdas de peso superiores às observadas com muitos medicamentos anteriores.
  • Naltrexona + Bupropiona, combinação que atua sobre centros cerebrais relacionados tanto à fome quanto ao comportamento alimentar, sendo particularmente útil para alguns pacientes com episódios de compulsão alimentar.

 

Lorcaserina – acabou sendo retirada do mercado

Outro medicamento que despertou grande interesse foi a lorcaserina, agonista seletivo dos receptores serotoninérgicos 5-HT2C.

Inicialmente considerada bastante promissora, acabou sendo retirada do mercado norte-americano em 2020 após análises sugerirem um possível aumento da incidência de alguns tipos de câncer em estudos de acompanhamento prolongado.

Até hoje, essa decisão continua sendo discutida na literatura científica, mas ilustra um princípio fundamental da farmacoterapia: a segurança em longo prazo é tão importante quanto a eficácia (FDA, 2020).

 

Apesar dos avanços, ainda faltava alguma coisa…

Todos esses medicamentos ajudaram milhares de pessoas. Mas havia um problema. Na maioria dos casos, a perda de peso permanecia modesta. Muitos pacientes continuavam frustrados. Era comum observar reduções de 5%, 8% ou 10% do peso corporal.

Esses resultados já produziam benefícios metabólicos importantes. Mas ainda estavam muito distantes das perdas frequentemente observadas após uma cirurgia bariátrica.

Foi então que a endocrinologia encontrou um caminho completamente diferente. Em vez de apenas reduzir artificialmente o apetite, pesquisadores passaram a estudar um sofisticado sistema hormonal que o próprio organismo utiliza diariamente para controlar fome, saciedade e metabolismo.

Esses hormônios receberam o nome de incretinas. Poucos imaginavam que eles iniciariam uma das maiores revoluções da história do tratamento da obesidade.

 

Resumo da Parte I

✔ Durante décadas, os médicos conviveram com resultados modestos no tratamento farmacológico da obesidade.

✔ A maior mudança científica foi reconhecer que a obesidade é uma doença crônica e multifatorial, e não uma simples falta de disciplina.

✔ Diversos medicamentos contribuíram para a evolução do tratamento, mas apresentavam eficácia limitada ou problemas de segurança.

✔ A verdadeira transformação começou quando a pesquisa voltou sua atenção para hormônios naturalmente produzidos pelo intestino: as incretinas.

✔ Sempre vale lembrar e enfatizar que os medicamente jamais substituem as mudanças comportamentais, um estilo de vida saudável.

Na Parte II, conheceremos os hormônios GLP-1 e GIP, entenderemos como nasceram as “canetinhas emagrecedoras” e veremos por que medicamentos como liraglutida, semaglutida, tirzepatida e, futuramente, retatrutida estão mudando a história do tratamento da obesidade.

 

Referências – Parte 1

FOOD AND DRUG ADMINISTRATION (FDA). FDA requests the withdrawal of the weight-loss drug Belviq (lorcaserin) from the market. Silver Spring: FDA, 2020.

JAMES, W. P. T. et al. Effect of sibutramine on cardiovascular outcomes in overweight and obese subjects. New England Journal of Medicine, Boston, v. 363, n. 10, p. 905–917, 2010.

RUBINO, D. et al. (em nome das principais sociedades internacionais de obesidade). Definition and diagnostic criteria of clinical obesity. The Lancet Diabetes & Endocrinology, 2025.

YANOVSKI, S. Z.; YANOVSKI, J. A. Long-term drug treatment for obesity: a systematic and clinical review. JAMA, Chicago, v. 311, n. 1, p. 74–86, 2014.

WEINTRAUB, M. Long-term weight control study: conclusions. Clinical Pharmacology & Therapeutics, v. 51, n. 5, p. 642–646, 1992.

BALANÇA, A TRAIDORA

 

Dr. Daniel S. F. Boarim, diretor médico da Lapinha

 

Quando a balança lhe conta que você perdeu pouco ou até nenhum peso num determinado intervalo de tempo, o que isso significa? O corpo impõe seu ritmo ao emagrecimento. Quando alguém exagera na dose da dieta e do exercício, leva uma lição inesquecível, que pode incluir queda de pressão, queda de glicemia, moleza, fraqueza ou até um estranho congelamento na perda de peso. Além de passar mal, você se desnorteia. O corpo não protesta à toa!

 

Você está fazendo tudo direitinho. Comendo certo e se exercitando. Consciência tranquila. Até se permite sonhar vestindo aquela coleção há tantos verões socada lá no fundo do guarda-roupa.

Mas, passada uma semana do início do programa, ao subir na balança, o susto.

Não emagreci quase nada! É isso mesmo?! Não é possível. Tanto sacrifício para quê? O que há de errado?

E vem a raiva. Raiva da balança, da dieta, da nutricionista, do personal, do médico, de você mesmo. Frustração, desânimo.

E agora? Nunca mais o manequim dos bons tempos?

 

O pesadelo

 

Apesar dos spas, pílulas, injeções, dietas e academias, você, que já tentou ou está tentando emagrecer e se manter magro, provavelmente já sentiu na carne a impiedade da balança.

É daqueles pesadelos que faz muita gente chutar o pau da barraca.

Desistir?  Eis a sina de uma incompreensível frustração, que se repete todo dia.

Tem mesmo muita gente nesse barco – sobrecarregado e avariado. Estima-se que quase um terço da população do mundo afluente e emergente está tentando desesperadamente perder peso nesse exato momento. A maioria sem êxito, ou com êxito apenas temporário.

Nos Estados Unidos, dois terços da população sofrem com sobrepeso e obesidade. No Brasil, já é metade da polução.

Quando falamos em emagrecimento, falamos no recorde mundial de tentativas fracassadas.

Tentar entender isso, aprofundar-se nas causas ocultas e incultas, por mais impossível e irritante que pareça, é o primeiro passo da virada.

Por que o fracasso? Todos sabemos do “peso” dos comportamentos, da transferência insana de cargas emocionais para a comida. Isso explica grande parte do problema. Fatores metabólicos, culturais e genéticos mancomunam-se para explicar a outra parte. Mas não há como livrar-se de uma certa aura de mistério, incompreensão e sobretudo inquietação.

O desafio de mudar sustentavelmente – veja bem, sustentavelmente – rotinas engordativas e pouco saudáveis, só é entendido por quem passa ou já passou por isso. Mas, enquanto quem está fora racionaliza de modo frio e calculista pelas calorias, quem está dentro tende a avaliar pela emoção.

 

Balança – aliada ou traidora?

 

Nessa busca dramática, a ansiedade é um vilão sorrateiro. Quando você se dá conta, o impulso da comilança já acordou. Enquanto estiver fora de controle, não haverá como impor rédeas ao desejo. Comer torna-se a válvula de escape do desassossego emocional. E o seu cérebro vai se acostumando, até que a autossabotagem degenera em negação. A vítima prefere nem pensar nisso. Come sem arrazoar, enquanto sufoca o apelo do córtex pré-frontal pela racionalidade.

Nesse joguete, a balança geralmente fica de fora. Mas sempre, invariavelmente, chega o dia em que se “cai na real”. Você resolve subir nela. E bate a agonia. Algo precisa ser feito e já!

É quando o mesmo desespero que o levou a comer desenfreadamente desperta impulsos igualmente nada racionais, só que no sentido oposto. É quando a balança se torna, paradoxalmente, companheira e traidora. Bate uma paranoia de pesagens sucessivas, uma fixação pela perda de peso a qualquer preço, o mais rápido possível. Mesmo que os quilos extras tenham se acumulado por anos sob um policiamento desleixado, o alvo agora é perdê-lo em semanas sob uma observação alucinada.

Porém, nenhuma obsessão irracional dura muito. Logo o fôlego acaba e o ciclo recomeça impiedoso. A ansiedade que a balança não pode mitigar é desviada novamente para o conforto da comida. Claro que isso é flertar com o abismo do fracasso, mas é onde quase todos caem.

 

Como a balança “engana” você

 

Há três armadilhas clássicas em que a balança pode “ludibriar” você, atrapalhando mais que ajudando:

  1. A balança no curto prazo não diz muita coisa! O peso sempre flutua para mais e para menos de modo fisiológico, por causa da expansão ou retração dos líquidos corporais, também pelo conteúdo digestivo, sem um padrão que possa ser generalizado. Por isso, comparar a variação da balança no curto prazo, comparar-se com você mesmo em outros tempos e, pior ainda, comparar-se com outras pessoas, são a receita da decepção e da loucura!
  2. O ganho de massa magra pode mascarar a perda de peso no curto prazo. É desejável e comum ganhar alguma massa magra ao seguir-se um plano correto de exercícios e dieta. Isso é mais frequente em pessoas de compleição mais “forte”, ou com alguma memória muscular, mas pode acontecer com qualquer um. O resultado é uma perda pífia ou um platô. O que não significa que você não esteja emagrecendo, claro, se estiver fazendo tudo certinho. Também não há como avaliar corretamente perdas ou ganhos de massa magra no prazo de dias, mesmo poucas semanas.
  3. Perder mais peso não quer dizer que você esteja emagrecendo mais. Às vezes, surpreendentemente é exatamente o contrário! Dietas muito rígidas podem levar a maior perda de massa muscular, enquanto dietas mais adequadas, com menor defasagem calórica, ajudam a preservar e estimular o crescimento da boa massa muscular.

 

Sofrimento desnecessário

 

Vamos explicar melhor este assunto tão desconcertante, que muita gente reluta em aceitar, e gera tanto sofrimento desnecessário.

Afinal, a balança não me põe a par da realidade?

Não estou falando de balanças desreguladas, mas de interpretação errada. Isso mesmo, a tentativa simplória de comparar um número com o outro em qualquer intervalo de tempo pode falsear resultados. Veja porquê:

A balança, desde que obviamente bem regulada, mostra fielmente seu peso corporal pontual, num dado momento, mas NÃO DISTINGUE outros três parâmetros vitais, que fazem parte da equação do emagrecimento, permitindo por isso interpretações disparatadas:

 

  1. CICLO DOS LÍQUIDOS CORPORAIS
  2. COMPOSIÇÃO CORPORAL
  3. MEDIDAS CORPORAIS

 

Isso quer dizer que se você OLHAR SÓ PARA A BALANÇA, principalmente no CURTO PRAZO, poderá tirar CONCLUSÕES ERRADAS sobre o seu corpo, como achar que está emagrecendo enquanto está engordando, ou o contrário, achar que está engordando enquanto está emagrecendo. Vamos aos itens mais importantes:

 

  1. VARIAÇÃO DIÁRIA – De um dia para o outro, mesmo da manhã à noite, seu corpo pode acumular significativa quantidade de líquidos e alimentos, o que leva a variação normal de peso, que pode nalguns casos ultrapassar um quilo, para cima ou para baixo. E quando você se pesa, digamos, num horário em que estes acúmulos (liquidos e alimentos) estão em baixa e depois, no dia seguinte, quando estão em alta, ficará intrigado, para não dizer outra coisa mais realista, imaginando erradamente haver engordado. E pode ocorrer exatamente o contrário – alguém imagina que emagreceu, ao passo que, infelizmente, isso não aconteceu, ou ocorreu numa magnitude bem menor.
  2. VARIAÇÃO SEMANAL De uma semana para outra os líquidos também têm seu ciclo normal (em algumas situações pode ser patológico ou induzido por medicamentos). Ocorre mais frequentemente em mulheres que ainda menstruam, na fase pré-menstrual, ou qualquer pessoa em qualquer idade que tenda a “inchar”. Flutuações hormonais são comuns, e podem forçar maior volume de água para o terceiro espaço (entre a célula e o vaso sanguíneo), algo que às vezes se nota, outras vezes não, mas a balança não perdoa! A perda de um quilo em uma semana pode ser mascarada por 1,5 kg de acúmulos no momento da pesagem, levando a um saldo positivamente desanimador de meio kg a mais. E inúmeras possibilidades, para mais e para menos, até com variação zerada, podem se listar aqui. Resultados enganadores e enlouquecedores!
  3. VARIAÇÃO MENSAL De um mês para o outro, embora essa margem de erro diminua, na hipótese de se estar fazendo tudo direitinho, ainda assim os mesmos fatores que acabamos de citar podem interferir na confiabilidade do resultado da balança, quando se compara apenas o ponto de partida com o de chegada. Ao fazer exercício físico, sua massa muscular aumentará enquanto o percentual de gordura encolherá. E isso é tudo que se pode desejar: diminuição das medidas, saúde e percepção de estar mais disposto. Imagine que frustração se, no momento da pesagem, todos aqueles fatores de confundimento estiverem juntos! E, somados ainda ao fator positivo que acabamos de citar, o aumento dos músculos, que pesam mais que a gordura, pois são mais densos, a confusão será maior!

Agora imagine o contrário, uma perda maior que a esperada, comemorada, mas que na verdade reflete um resultado ruim, quando por causa de uma dieta restritiva demais, a perda muscular foi brutal!

 

A balança sozinha então não diz tudo

 

Exatamente. Quando a balança lhe conta que você perdeu menos peso ou nenhum peso num determinado intervalo, mesmo você fazendo o certo, ela não quer dizer que você não emagreceu.

O contrário, quando ela lhe diz que está perdendo muito, também não quer dizer que você está eliminando gordura. É até mais provável que esteja eliminando também água e músculos, numa proporção indesejável.

Na linha do tempo, principalmente num segmento curtinho, a variação de peso nem sempre reflete o resultado do esforço. Mas o médio e o longo prazo, mesmo numa curva oscilante e relutante, vão recompensar o perseverante, que não se deixa desanimar pelo imediatismo do aparente paradoxo da balança.

 

O corpo não protesta à toa!

 

Mas vale lembrar outra coisa importante. Na medida que você vai chegando perto da sua meta metabólica, daquilo que seu corpo, sua constituição e seu metabolismo entendem como ideal e saudável para você, o ritmo de emagrecimento diminuirá. Em outras palavras, a curva da perda de peso tende normalmente a desacelerar cada vez mais. E quem não está tanto acima do peso assim, perderá mais devagar.

O corpo, então, impõe seu ritmo ao emagrecimento. Quando alguém exagera na dose da dieta e do exercício, poderá sofrer uma lição inesquecível de queda de pressão, queda de glicemia, moleza, fraqueza, e até de uma estranha parada na perda de peso. Enfim, além de passar mal, você pode desapontar-se. O corpo não protesta à toa!

 

Resumindo, a balança é um parâmetro avaliativo bem pobre para emagrecimento em certos intervalos e em certas condições, especialmente no curto prazo, mas ao mesmo tempo indispensável para desenharmos a tendência da variabilidade de peso, ao longo de semanas e meses. Isso quer dizer que ganhos ou perdas, principalmente em prazos curtos, não cravam que você engordou ou emagreceu.

Seu foco, então, qual deve ser? Manter-se inabalável na linha, fazendo a coisa certa, sem se deixar afetar, mirando o alvo. Pesando-se racionalmente, na frequência indicada, sem paranoias, e “exercitando a paciência do paciente”. Os resultados certamente virão a seu tempo, seguindo os padrões fisiológicos de sua individualidade metabólica!

 

NOTA IMPORTANTE: POR QUE NÃO FAZEMOS A BIOIMPEDÂNCIA NA ENTRADA 

 

Trata-se de um exame de boa sensibilidade e especificidade para acompanhar a evolução da composição corporal, massa magra, massa muscular, massa gorda, água corporal, etc. Porém, como acontece com a balança, tem suas limitações metodológicas.

Não adianta ficar repetindo com frequência semanal, pois, como todo exame, tem seu tempo em que a variabilidade dos dados começa a apontar tendências, e para a bioimpedância isso é desejavelmente trinta dias.

Por isso não fazemos, na Lapinha, a bioimpedância na entrada de permanências de poucas semanas. Além do mais, na chegada, as pessoas estão mais “inchadas”, e as intensas mudanças que acontecem na dieta e nos exercícios ao longo da hospedagem resultarão em interpretações comparativas bem falseadas! Por isso, fazemos só na saída de quem fica uma semana ou mais, quando você estará mais “enxuto”.

 

 

 

ENGLISH

 

THE SCALE IS BETRAYING YOU

 

Dr. Daniel S. F. Boarim, Medical Director of Lapinha

 

When the scale shows you’ve lost little or no weight in a given period of time, what does that mean? The body dictates its own pace of weight loss. When someone overdoes their diet and exercise, they experience an unforgettable lesson, which can include low blood pressure, low blood sugar, lethargy, weakness, or even a strange weight loss freeze. Besides feeling sick, you feel disappointed. Your body doesn’t protest for nothing!

 

You’re doing everything right. Eating right and exercising. Your conscience is clear. You even allow yourself to dream of wearing that collection you’ve had tucked away in the back of your closet for so many summers.

But, a week after starting the program, when you step on the scale, you’re shocked.

I’ve barely lost any weight! Is that right?! It’s impossible. So much sacrifice for what? What’s wrong?

And anger sets in. Anger at the scale, the diet, the nutritionist, the personal trainer, the doctor, yourself. Frustration, discouragement.

What now? Never again the figure of the good old days?

 

The nightmare

 

Despite spas, pills, injections, diets, and gyms, you, who have tried or are trying to lose weight and stay slim, have probably experienced the scale’s relentlessness firsthand.

It’s one of those nightmares that makes many people give up.

Give up? This is the fate of an incomprehensible frustration, repeated every day.

There are indeed many people in this boat – overwhelmed and damaged. It is estimated that almost a third of the population of the affluent and emerging world is desperately trying to lose weight right now. Most are unsuccessful, or with only temporary success.

In the United States, two-thirds of the population is overweight or obese. In Brazil, half the population is already overweight.

When we talk about weight loss, we’re talking about the world record for failed attempts.

Trying to understand this, delving into the hidden and unexplored causes, as impossible and irritating as it may seem, is the first step toward a change.

Why the failure? We all know about the “weight” of behaviors, the insane transfer of emotional burdens to food. This explains much of the problem. Metabolic, cultural, and genetic factors combine to explain the other part. But there’s no way to shake off a certain aura of mystery, incomprehension, and, above all, unease.

The challenge of sustainably changing—and remember, sustainably—fat-gaining and unhealthy routines is only understood by those who are or have been through it. But while those on the outside rationalize coldly and calculatingly based on calories, those on the inside tend to evaluate based on emotions.

 

Scales—ally or traitor?

 

In this dramatic quest, anxiety is a sneaky villain. Before you know it, the urge to binge has already awakened. As long as it’s out of control, there’s no way to rein in the desire. Eating becomes an escape valve for emotional unease. And your brain gets used to it, until the self-sabotage degenerates into denial. The victim prefers not to think about it. They eat without reasoning, while stifling the prefrontal cortex’s call for rationality.

In this game, the scale is usually left out. But always, invariably, the day comes when reality hits. You decide to step on it. And the agony sets in. Something needs to be done, and now!

This is when the same desperation that drove you to binge eat awakens equally irrational impulses, only in the opposite direction. This is when the scale becomes, paradoxically, both a companion and a traitor. A paranoia of successive weigh-ins sets in, a fixation on losing weight at any cost, as quickly as possible. Even if the extra pounds have accumulated for years under lax policing, the goal now is to lose them in weeks under frenzied observation.

However, no irrational obsession lasts long. Soon the breath runs out and the cycle begins again mercilessly. The anxiety that the scale can’t alleviate is diverted once again to the comfort of food. Of course, this is flirting with the abyss of failure, but it’s where almost everyone falls.

 

How the Scale “Tricks” You

 

There are three classic traps that the scale can “trick” you into, hindering you more than helping:

The scale doesn’t tell you much in the short term! Weight always fluctuates up and down physiologically, due to the expansion or contraction of body fluids, and also due to digestive contents, without a generalizable pattern. Therefore, comparing the scale’s fluctuations in the short term, comparing yourself to yourself in other times, and, even worse, comparing yourself to other people, are a recipe for disappointment and madness!

Gaining lean mass can mask short-term weight loss. It’s desirable and common to gain some lean mass when following a proper exercise and diet plan. This is more common in people with a stronger build or with some muscle memory, but it can happen to anyone. The result is minimal weight loss or a plateau. This doesn’t mean you’re not  losing weight, of course, if you’re doing everything right. There’s also no way to accurately assess lean mass gains or losses over a period of days, even a few weeks.

Losing more weight doesn’t mean you’re getting fit and healthier. Sometimes, surprisingly, it’s quite the opposite! Very strict diets can lead to greater muscle loss, while more appropriate diets, with a smaller calorie gap, help preserve and stimulate the growth of healthy muscle mass.

 

 

Unnecessary Suffering

 

Let’s explain this disconcerting topic in more detail, which many people are reluctant to accept and which causes so much unnecessary suffering.

After all, doesn’t the scale tell me the truth?

I’m not talking about unbalanced scales, but about misinterpretation. That’s right, the simplistic attempt to compare one number with another over any given timeframe can distort results. Here’s why:

The scale, as long as it’s properly adjusted, accurately displays your body weight at a given moment, but it DOES NOT DISTINGUISH three other vital parameters that are part of the weight loss equation, thus allowing for disparate interpretations:

BODY FLUID CYCLE
BODY COMPOSITION
BODY MEASUREMENTS

This means that if you ONLY LOOK AT THE SCALE, especially in the SHORT TERM, you could draw WRONG CONCLUSIONS about your body, such as thinking you’re losing weight while you’re gaining weight, or vice versa, thinking you’re gaining weight while you’re losing weight. Let’s get to the most important points:

DAILY VARIATION – From one day to the next, even from morning to night, your body can accumulate a significant amount of fluid and food, leading to normal weight fluctuations, which can in some cases exceed a kilogram, either up or down. And when you weigh yourself, say, at a time when these accumulations (fluids and food) are low and then, the next day, when they are high, you will be puzzled, not to mention more realistically, mistakenly imagining you’ve gained weight. And the exact opposite can occur—someone imagines they’ve lost weight, when, unfortunately, this hasn’t happened, or has occurred to a much lesser extent.
WEEKLY VARIATION: From one week to the next, fluids also have their normal cycle (in some situations, it can be pathological or medication-induced). This occurs more frequently in women who are still menstruating, in the premenstrual phase, or anyone of any age who tends to “bloat.” Hormonal fluctuations are common and can force a greater volume of water into the third space (between the cell and the blood vessel), something that is sometimes noticeable, sometimes not, but the scale is unforgiving! A one-kilogram loss in a week can be masked by 1.5 kg of excess weight at the time of weighing, leading to a positively discouraging weight loss of half a kg. And countless possibilities, both higher and lower, even with zero variation, can be listed here. Misleading and maddening results!
MONTHLY VARIATION From one month to the next, although this margin of error decreases, assuming you’re doing everything correctly, the same factors we just mentioned can still interfere with the reliability of the scale’s results when comparing only the starting point with the finishing point. By exercising, your muscle mass will increase while your body fat percentage will decrease. And that’s all you can hope for: a reduction in measurements, health, and a feeling of being more energetic. Imagine the frustration if, at the time of weighing, all those confounding factors were combined! And, added to the positive factor we just mentioned—the increase in muscle, which weighs more than fat because it’s denser—the confusion will be even greater!

Now imagine the opposite: a greater-than-expected loss, celebrated, but which actually reflects a poor result, when, due to an overly restrictive diet, the muscle loss was brutal!

 

The scale alone doesn’t tell the whole story

 

Exactly. When the scale tells you that you’ve lost less weight or none at all in a given period, even if you’re doing the right thing, it doesn’t mean you haven’t lost weight.

On the contrary, when it tells you that you’re losing a lot, it also doesn’t mean you’re losing fat. It’s even more likely that you’re also losing water and muscle, at an undesirable rate.

Over time, especially over a short period, weight fluctuations don’t always reflect the results of your efforts. But the medium and long term, even on a wavering and reluctant curve, will reward the persevering, who doesn’t let themselves be discouraged by the immediacy of the scale’s apparent paradox.

 

The body doesn’t protest for nothing!

 

But it’s worth remembering another important thing. As you get closer to your metabolic goal—what your body, constitution, and metabolism understand as ideal and healthy for you—the rate of weight loss will slow down. In other words, the weight loss curve typically tends to slow down more and more. And those who aren’t significantly overweight will lose weight more slowly.

The body, then, imposes its own pace on weight loss. When someone overdoes diet and exercise, they may experience an unforgettable experience of low blood pressure, low blood sugar, sluggishness, weakness, and even a strange halt in weight loss. In short, besides feeling sick, you may be disappointed. The body doesn’t protest for nothing!

In short, the scale is a very poor evaluative parameter for weight loss at certain intervals and under certain conditions, especially in the short term, but at the same time, it is essential for charting the trend of weight variability over weeks and months. This means that gains or losses, especially in the short term, do not guarantee that you have gained or lost weight.

So, what should your focus be? Staying steadfastly on track, doing the right thing, without letting yourself be affected, aiming for the target. Weighing yourself rationally, at the recommended frequency, without paranoia, and “exercising patient patience.” The results will certainly come in due time, following the physiological patterns of your metabolic individuality!

 

 

 

IMPORTANT NOTE: WHY WE DON’T PERFORM BIOIMPEDANCE AT ADMISSION AT LAPINHA

 

This is a test with good sensitivity and specificity for monitoring the evolution of body composition, lean mass, muscle mass, fat mass, body water, etc. However, as with the scale, it has its methodological limitations.

There’s no point in repeating it weekly, because, like any test, there’s a time when data variability begins to show trends, and for bioimpedance, this is ideally thirty days.

That’s why, at Lapinha, we don’t perform bioimpedance testing upon arrival for guests staying for a few weeks. Furthermore, upon arrival, people are more “bloated,” and the intense changes in diet and exercise that occur throughout their stay will result in very false comparative interpretations! That’s why we only perform it upon departure for those staying a week or more, when you’re leaner.

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