VO₂ Máximo e Força Muscular: Dois dos Melhores Indicadores da Sua Saúde

Durante muitos anos, quando um médico queria avaliar a saúde de uma pessoa, observava principalmente exames de sangue: colesterol, glicemia, pressão arterial, peso corporal e outros marcadores tradicionais.

Todos continuam importantes. Mas, nas últimas décadas, a ciência descobriu que existem dois indicadores capazes de prever, com impressionante precisão, o risco de adoecimento e morte precoce: a capacidade cardiorrespiratória (representada principalmente pelo VO₂ máximo) e a força muscular (Blair et al., 1989; Myers et al., 2002).

Esses dois marcadores dizem muito sobre a maneira como o organismo funciona como um todo e, melhor ainda, podem ser melhorados em praticamente qualquer idade.

 

O que é o VO₂ máximo?

O VO₂ máximo representa a maior quantidade de oxigênio que o organismo consegue captar, transportar e utilizar durante um exercício intenso.

Imagine uma cidade. O oxigênio é a mercadoria. Os pulmões fazem a captação. O coração funciona como a transportadora. Os vasos sanguíneos são as rodovias.

As mitocôndrias, presentes dentro das células, são as fábricas que utilizam esse oxigênio para produzir energia. Quanto mais eficiente todo esse sistema, maior será o VO₂ máximo.

Na prática, ele representa a capacidade do corpo de produzir energia utilizando oxigênio. É considerado o melhor indicador isolado do condicionamento físico (American College of Sports Medicine, 2021).

 

Por que ele é tão importante?

Diversos estudos acompanharam milhares de pessoas durante décadas. O resultado foi surpreendente. Indivíduos com maior capacidade cardiorrespiratória apresentam menor risco de:

  • doenças cardiovasculares;
  • diabetes tipo 2;
  • alguns tipos de câncer;
  • demência;
  • hospitalizações;
  • mortalidade por qualquer causa (Kodama et al., 2009; Ross et al., 2016).

Uma metanálise envolvendo mais de 100 mil participantes mostrou que cada aumento de 1 MET (aproximadamente 3,5 mL/kg/min de VO₂) esteve associado a uma redução de cerca de 13% no risco de mortalidade por todas as causas e de 15% no risco de doença cardiovascular (Kodama et al., 2009).

Mais recentemente, estudos reforçaram que pessoas com níveis elevados de aptidão cardiorrespiratória podem apresentar redução substancial do risco de morte prematura em comparação com aquelas de baixa aptidão (Ross et al., 2016; Franklin et al., 2022). A magnitude desse benefício varia entre os estudos e depende da população avaliada.

 

O que é força muscular?

Força muscular é a capacidade que um músculo possui de gerar tensão para mover ou sustentar uma carga. Ela depende de vários fatores:

  • massa muscular;
  • qualidade das fibras musculares;
  • funcionamento do sistema nervoso;
  • equilíbrio hormonal;
  • alimentação adequada;
  • prática regular de exercícios.

Não significa ser fisiculturista.

Uma pessoa pode apresentar excelente força sem ter músculos muito volumosos.

 

A força prevê quanto viveremos?

Surpreendentemente, sim. Diversos estudos demonstraram que pessoas mais fortes vivem mais e permanecem independentes por mais tempo (Ruiz et al., 2008; García-Hermoso et al., 2018).

Entre os testes mais estudados está a força de preensão manual, medida com um dinamômetro. Parece um teste simples. Mas ele reflete, de forma bastante consistente, a força global do organismo e tem sido associado ao risco futuro de:

  • quedas;
  • incapacidade funcional;
  • internações;
  • fragilidade;
  • mortalidade (Leong et al., 2015).

No estudo PURE, que acompanhou cerca de 140 mil adultos em diversos países, menor força de preensão esteve associada a maior risco de morte e eventos cardiovasculares, independentemente de muitos fatores de risco tradicionais (Leong et al., 2015).

 

Por que esses marcadores são tão poderosos?

Porque eles resumem o funcionamento integrado do organismo. Uma boa capacidade cardiorrespiratória exige:

  • pulmões saudáveis;
  • coração eficiente;
  • circulação adequada;
  • músculos ativos;
  • mitocôndrias funcionantes;
  • metabolismo equilibrado.

Da mesma forma, boa força muscular depende de:

  • nutrição adequada;
  • atividade física regular;
  • equilíbrio hormonal;
  • boa função neurológica;
  • envelhecimento saudável.

Quando ambos estão preservados, geralmente significa que diversos sistemas do corpo também estão funcionando bem.

 

Como medir o VO₂ máximo?

O método mais preciso é o teste cardiopulmonar de esforço (ergoespirometria). Durante o exercício em esteira ou bicicleta, um equipamento mede diretamente o oxigênio consumido e o gás carbônico produzido. É considerado o padrão-ouro.

Entretanto, nem todos precisam realizar esse exame. Na prática, diversos testes oferecem estimativas úteis:

  • teste ergométrico com protocolos validados;
  • teste de caminhada de seis minutos (especialmente em pessoas com doenças crônicas);
  • teste de Cooper (12 minutos);
  • estimativas fornecidas por alguns relógios inteligentes, embora sua precisão seja variável e inferior à da ergoespirometria.

 

Como avaliar a força?

Além da preensão manual, podem ser utilizados:

  • teste de sentar e levantar da cadeira em 30 segundos;
  • velocidade da marcha;
  • teste de levantar do chão;
  • número de flexões ou agachamentos realizados corretamente;
  • testes de uma repetição máxima (1RM), realizados sob supervisão quando apropriado.

Mais importante do que comparar seus resultados com atletas é acompanhar sua própria evolução ao longo do tempo.

 

Como melhorar o VO₂ máximo?

A ciência é bastante consistente. O VO₂ melhora principalmente com exercícios aeróbicos. Entre eles:

  • caminhada rápida;
  • corrida;
  • bicicleta;
  • natação;
  • remo;
  • dança;
  • elíptico.

Treinos contínuos e intervalados de maior intensidade (HIIT) costumam produzir ganhos mais rápidos em pessoas aptas, mas exercícios moderados e regulares também aumentam significativamente a aptidão cardiorrespiratória, especialmente em indivíduos sedentários (American College of Sports Medicine, 2021).

A progressão deve respeitar idade, condição clínica e experiência com exercícios.

 

Como aumentar a força?

A resposta também é clara. O treinamento resistido é a intervenção mais eficaz. Inclui:

  • musculação;
  • exercícios com elásticos;
  • peso corporal;
  • pilates com resistência;
  • exercícios funcionais.

As principais diretrizes internacionais recomendam treinar os principais grupos musculares pelo menos duas vezes por semana, com progressão gradual da carga (WHO, 2020; ACSM, 2021).

Além do exercício, ingestão adequada de proteínas, sono de boa qualidade e recuperação entre os treinos também são fundamentais.

 

Existe um “valor ideal” de VO₂ máximo?

Os valores variam conforme idade e sexo. Em geral, quanto maior o VO₂ máximo dentro da faixa esperada para sua idade, melhor.

No entanto, é importante lembrar que o objetivo não é atingir níveis de atletas de elite. Para a maioria das pessoas, sair de uma condição de baixa aptidão para uma condição moderada já está associado a expressivos benefícios para a saúde (Ross et al., 2016).

O mesmo raciocínio vale para a força muscular.

 

Ciência ou exagero?

Nos últimos anos, podcasts e redes sociais passaram a tratar VO₂ máximo e força muscular quase como “o segredo da longevidade”.

Há um fundo de verdade nisso. Esses são, de fato, dois dos mais fortes preditores de saúde já identificados. Mas é importante evitar simplificações.

Primeiro, porque grande parte das evidências é observacional. Pessoas com maior VO₂ máximo e maior força tendem a viver mais, mas isso também reflete outros hábitos saudáveis, como melhor alimentação, menor tabagismo e acesso aos cuidados de saúde. Embora estudos de intervenção mostrem que melhorar a aptidão física traz benefícios, nem toda a associação observada pode ser atribuída exclusivamente ao exercício.

Segundo, porque saúde é multifatorial. Um excelente condicionamento físico não elimina os riscos associados ao tabagismo, à hipertensão não tratada, ao diabetes descontrolado, ao excesso de álcool, ao sono insuficiente ou ao estresse crônico.

Terceiro, porque existe uma tendência, nas redes sociais, de valorizar apenas treinos extremamente intensos. A literatura científica mostra que a maior parte dos benefícios ocorre quando a pessoa deixa o sedentarismo e passa a se exercitar regularmente. Ganhos adicionais existem, mas seguem uma relação de retornos progressivamente menores e dependem do contexto individual (Warburton; Bredin, 2017).

Portanto, a mensagem central da ciência é simples: movimente-se de forma consistente, desenvolva sua capacidade cardiorrespiratória, preserve sua força muscular e mantenha esses hábitos ao longo da vida. Esses dois marcadores não substituem uma alimentação equilibrada, um sono reparador, o controle dos fatores de risco e o acompanhamento médico quando necessário, mas integram um dos pilares mais sólidos de uma vida longa, ativa e com qualidade.

 

Referências (ABNT)

AMERICAN COLLEGE OF SPORTS MEDICINE. ACSM’s Guidelines for Exercise Testing and Prescription. 11. ed. Philadelphia: Wolters Kluwer, 2021.

BLAIR, S. N. et al. Physical fitness and all-cause mortality: a prospective study of healthy men and women. JAMA, v. 262, n. 17, p. 2395–2401, 1989.

FRANKLIN, B. A. et al. Importance of Cardiorespiratory Fitness in Clinical Practice: A Case for Fitness as a Clinical Vital Sign. Circulation, v. 146, p. e1–e17, 2022.

GARCÍA-HERMOSO, A. et al. Muscular strength as a predictor of all-cause mortality in an apparently healthy population: a systematic review and meta-analysis. Journal of Sport and Health Science, v. 7, n. 2, p. 175–181, 2018.

KODAMA, S. et al. Cardiorespiratory fitness as a quantitative predictor of all-cause mortality and cardiovascular events: a meta-analysis. JAMA, v. 301, n. 19, p. 2024–2035, 2009.

LEONG, D. P. et al. Prognostic value of grip strength: findings from the Prospective Urban Rural Epidemiology (PURE) study. The Lancet, v. 386, n. 9990, p. 266–273, 2015.

MYERS, J. et al. Exercise capacity and mortality among men referred for exercise testing. New England Journal of Medicine, v. 346, n. 11, p. 793–801, 2002.

ROSS, R. et al. Importance of assessing cardiorespiratory fitness in clinical practice: a case for fitness as a clinical vital sign. Circulation, v. 134, n. 24, p. e653–e699, 2016.

WARBURTON, D. E. R.; BREDIN, S. S. D. Health benefits of physical activity: a systematic review of current systematic reviews. Current Opinion in Cardiology, v. 32, n. 5, p. 541–556, 2017.

WORLD HEALTH ORGANIZATION. WHO Guidelines on Physical Activity and Sedentary Behaviour. Geneva: WHO, 2020.

REPETIÇÃO COTIDIANA DE PEQUENAS ESCOLHAS – CHAVE DA LONGEVIDADE

 

 

Muitas vezes imaginamos que uma vida longa e saudável depende de grandes rupturas. Fomos condicionados a acreditar que a saúde é um troféu conquistado apenas por meio de medidas intensas e radicais: dietas extremamente restritivas, rotinas exaustivas de exercícios, jejuns heroicos ou um afastamento quase completo da vida cotidiana em busca de um equilíbrio utópico. Criou-se o mito de que, se não houver sofrimento ou esforço hercúleo, não há resultado.

No entanto, a ciência médica moderna, a neurociência e os estudos populacionais sobre longevidade vêm mostrando um caminho radicalmente diferente — e muito mais humano. A verdadeira saúde duradoura raramente nasce de espasmos de esforço extremo e passageiro. Ela é construída, silenciosamente, na repetição cotidiana de pequenas escolhas.

A longevidade — aquela que não apenas acrescenta anos à vida, mas também vida aos anos — depende muito mais da consistência do que da intensidade.

 

A Neurobiologia da Consistência: Por que o Cérebro Prefere o Pequeno

O cérebro humano funciona por repetição. Nossos circuitos neurais são moldados e fortalecidos pelos hábitos cotidianos (a chamada neuroplasticidade), e não por atos esporádicos de motivação intensa. Quando tentamos mudar nossa vida de forma radical e abrupta, o sistema nervoso interpreta essa mudança como uma ameaça, ativando mecanismos de estresse que sabotam nossa força de vontade a longo prazo (CLEAR, 2019).

Biologicamente, o corpo humano busca a homeostase — um estado de equilíbrio interno estável. O metabolismo responde muito mais favoravelmente à previsibilidade do que aos extremos. Pequenas decisões, repetidas por meses e anos, geram um “efeito cascata” silencioso, capaz de modular:

  • A inflamação crônica de baixo grau;
  • A sensibilidade celular à insulina;
  • A microbiota intestinal;
  • A saúde cardiovascular e a regulação da pressão arterial.

Em outras palavras: a saúde não é o resultado de um único gesto heroico. Ela nasce da delicada arquitetura dos microhábitos — comportamentos quase invisíveis que, acumulados ao longo do tempo, blindam o corpo e a mente contra o envelhecimento precoce.

 

Os Pilares Práticos da Longevidade Sustentável

Para entender como a simplicidade vence o radicalismo, a ciência costuma dividir esses microhábitos em pilares fundamentais de eficácia comprovada:

  1. O Ritmo da Luz e do Sono

Expor-se à luz natural logo nos primeiros 30 minutos após acordar regula o nosso relógio biológico central (o núcleo supraquiasmático), otimizando a produção de cortisol e, mais tarde, de melatonina (HUBLERMAN, 2021). Dormir um pouco melhor, mantendo horários regulares, permite que o cérebro ative o sistema glinfático — uma espécie de “serviço de limpeza” cerebral que remove toxinas e resíduos metabólicos associados a doenças neurodegenerativas (NEDERGAARD, 2013).

  1. O Movimento Natural e Contínuo

A ciência da longevidade demonstra que não é preciso correr maratonas para estender a vida. Estudos focados nas “Zonas Azuis” (regiões do planeta com o maior índice de centenários saudáveis) mostram que essas pessoas não frequentam academias exaustivas; elas simplesmente se movem naturalmente a cada 20 ou 30 minutos, caminhando, cuidando do jardim ou subindo escadas (BUETTNER, 2016). Uma caminhada diária leve já é suficiente para reduzir drasticamente o risco cardiovascular.

  1. A Calma à Mesa

Comer com atenção plena e mastigar devagar altera a sinalização dos hormônios da saciedade (como a leptina e a grelina), melhorando a digestão e prevenindo picos glicêmicos exagerados. Além disso, a redução sutil e constante de excessos alimentares repetidos aciona vias moleculares de reparo celular, como as sirtuínas, que estão diretamente ligadas ao retardamento do envelhecimento (LONGO; PANDA, 2016).

  1. A Desaceleração do Sistema Nervoso

Aprender a fazer pausas e respirar de forma consciente ao longo do dia ativa o sistema nervoso parassimpático através do nervo vago. Esse ato simples reduz os níveis circulantes de estresse e diminui a secreção de citocinas pró-inflamatórias, que são a base de quase todas as doenças crônicas modernas.

O extraordinário da longevidade está justamente nisso: tirar o peso do “tudo ou nada” e abraçar o poder biológico das pequenas escolhas feitas todos os dias.

A longevidade não é um evento com data marcada; é uma prática diária. Ao modularmos nossa rotina através de microhábitos consolidados, paramos de lutar contra o nosso corpo e passamos a esculpir a nossa biologia de dentro para fora, garantindo um envelhecimento ativo, lúcido e profundamente vibrante.

 

Referências

BUETTNER, Dan. The Blue Zones: 9 lessons for living longer from the people who’ve lived the longest. National Geographic Books, 2016.

CLEAR, James. Hábitos Atômicos: um método fácil e comprovado de mudar de hábitos e obter resultados extraordinários. Rio de Janeiro: Alta Life, 2019.

HUBERMAN, Andrew D. Huberman Lab Podcast. Stanford University School of Medicine, 2021. Disponível em: https://hubermanlab.com. Acesso em: 25 jun. 2026. (Nota: Referência à consagrada série de episódios sobre neurobiologia do sono, luz matinal e rotinas circadianas).

LONGO, Valter D.; PANDA, Satchidananda. Fasting, circadian rhythms, and time-restricted feeding in healthy lifespan. Cell Metabolism, v. 23, n. 6, p. 1048-1059, 2016.

XIE, Lulu; KANG, Hongyi; XU, Qiwu; CHEN, Michael J.; LIAO, Yonghong; THIYAGARAJAN, Meenakshisundaram; O’DONNELL, John; CHRISTENSEN, Daniel J.; NICHOLSON, Charles; ILIFF, Jeffrey J.; TAKANO, Takahiro; DEANE, Rashid; NEDERGAARD, Maiken. Sleep drives metabolite clearance from the adult brain. Science, v. 342, n. 6156, p. 373-377, 2013. (Nota: O estudo liderado pelo laboratório de Nedergaard que descobriu o sistema glinfático e a limpeza cerebral durante o sono)

Modas, Mitos e Verdades: a Medicina que Resiste ao Tempo

 

 

 Por que certas ideias médicas explodem, viram manchete e desaparecem — enquanto os princípios de sempre continuam de pé, discretos e inabaláveis O ovo era o vilão. Depois virou mocinho. A gordura matava. Depois salvava. A proteína curava tudo. Depois virou excesso. A história da medicina está cheia de certezas que duraram uma estação e de modismos que custaram — e ainda custam — a saúde de muitas pessoas.

 

A roda que nunca para de girar

Existe um padrão que se repete com perturbadora regularidade no mundo da saúde: uma descoberta científica — muitas vezes preliminar, frequentemente mal interpretada — é amplificada pela mídia, abraçada pela indústria e transformada em promessa salvadora. Livros tornam-se best-sellers. Suplementos esgotam nas prateleiras. Clínicas especialistas surgem da noite para o dia. E então, quando a fumaça dissipa, o que sobra é, na maioria das vezes, decepção.

Não se trata de ceticismo barato. Trata-se de um fenômeno documentado e estudado. Goldacre (2012), no livro Bad Science — e em publicações na revista BMJ —, descreveu com precisão cirúrgica como a mídia transforma achados de estudos em animais, ou estudos observacionais de pequena escala, em manchetes do tipo “descoberto o alimento que cura o câncer”. O problema é estrutural: jornais precisam de audiência, indústrias precisam de mercado, e a nuance científica raramente vende.

O nutricionista e pesquisador David Katz, da Universidade Yale, sintetizou bem o problema numa revisão publicada no Annual Review of Public Health (Katz; Meller, 2014): “Sabemos muito sobre o que é uma dieta saudável. O problema é que esse conhecimento não rende manchetes.” Comer mais vegetais, mover-se, dormir bem e não fumar não tem lobby poderoso, não gera patente, não vira trending topic.

“Sabemos muito sobre o que é uma dieta saudável. O problema é que esse conhecimento não rende manchetes.” — Katz e Meller, 2014

 

O ovo: de vilão a mártir da desinformação

Poucos exemplos ilustram tão bem a dança dos modismos quanto a trajetória do ovo na cultura nutricional ocidental. Entre as décadas de 1960 e 2010, o ovo foi sistematicamente vilipendiado. A lógica parecia irrefutável: ovos contêm colesterol; colesterol causa doença cardiovascular; logo, ovos matam. Simples, elegante, errado!

O problema começa no estudo original que deu origem a essa narrativa. Ancel Keys, nos anos 1950 e 1960, conduziu o famoso Seven Countries Study — que correlacionou consumo de gordura saturada com mortalidade cardiovascular. O estudo era real, mas a extrapolação para o ovo foi precipitada. Mais tarde, análises independentes demonstraram que Keys havia selecionado apenas os países que confirmavam sua hipótese, ignorando dezenas que contradiziam (Yerushalmy; Hilleboe, 1957, citado em Ravnskov, 2002).

Décadas depois, metanálise publicada no British Medical Journal por Rong e colaboradores (2013), reunindo dados de 17 estudos prospectivos com mais de 3 milhões de pessoas-ano de acompanhamento, não encontrou associação significativa entre consumo moderado de ovos (até um por dia) e risco cardiovascular em populações saudáveis. A revisão sistemática de Blesso e Fernandez (2018), no Nutrients, foi além: demonstrou que o ovo inteiro melhora o perfil de partículas LDL (tornando-as maiores e menos aterogênicas) e eleva o HDL de forma favorável.

Mas atenção: isso não autoriza o extremo oposto. Hoje circulam nas redes recomendações para consumir 10, 12 ovos por dia, associadas a protocolos carnívoros radicais. Estudo de Zhong e colaboradores (2019), publicado no JAMA com 29.615 participantes e seguimento médio de 17,5 anos, demonstrou associação dose-dependente entre consumo elevado de colesterol dietético e risco cardiovascular. Ou seja: moderação continua sendo a palavra científica mais importante — e menos popular.

 

A dieta da proteína: quando o excesso vira dogma

Nenhum macronutriente foi tão glorificado nos últimos vinte anos quanto a proteína. A narrativa é sedutora: proteínas constroem músculos, saciam, aceleram o metabolismo, são os “tijolos da vida”. Tudo verdadeiro — até o ponto em que deixa de ser.

A recomendação global de organismos como a World Health Organization (WHO, 2007) para pessoas saudáveis é de 0,8 g de proteína por kg de peso corporal por dia. Para atletas e idosos, há consenso para valores entre 1,2 e 1,6 g/kg/dia (Morton et al., 2018 — metanálise no British Journal of Sports Medicine com 49 ensaios clínicos). Acima disso, os ganhos adicionais de massa muscular são marginais e os riscos começam a aparecer.

Levine e colaboradores (2014), no Cell Metabolism, acompanharam 6.381 adultos por 18 anos e encontraram que consumo elevado de proteína animal na meia-idade associou-se a aumento de 4 vezes no risco de morte por câncer — com a associação mediada em grande parte pelo IGF-1, fator de crescimento insulínico estimulado pelo excesso proteico. A ressalva: esse risco parece se inverter após os 65 anos, quando a proteína adequada (não excessiva!) passa a ser protetora. Mais uma vez: contexto, dose, individualização.

 

Peptídeos, soroterapia e o negócio da esperança

A onda dos peptídeos é a versão contemporânea de promessas milenares. Alguns têm uso médico legítimo — análogos do GLP-1 para obesidade e diabetes, colágeno hidrolisado para articulações. O problema está na extrapolação selvagem. Revisão sistemática de Elad e colaboradores (2022), no Pharmacology & Therapeutics, concluiu que a vasta maioria dos “peptídeos funcionais” comercializados para longevidade e performance carece de ensaios clínicos randomizados em humanos que comprovem segurança e eficácia.

A soroterapia — infusões intravenosas de vitaminas e minerais — tem nicho clínico real e restrito: repleção de deficiências documentadas, suporte oncológico adjuvante. Fora desse contexto, a evidência para uso rotineiro em pessoas saudáveis é, conforme revisão de Lawson e colaboradores (2015) no Journal of Evidence-Based Complementary & Alternative Medicine, de baixa qualidade.

Modismos surgem na borda da ciência — onde os dados são preliminares, a esperança é grande e o ceticismo ainda não chegou.

 

O “detox” e a fisiologia que ninguém conta

O mercado global de produtos “detox” movimentou mais de 50 bilhões de dólares em 2022 — apesar de um fato biológico simples: o corpo humano possui um sistema de desintoxicação extraordinariamente eficiente, composto pelo fígado, rins, pulmões, pele e sistema linfático, que trabalham ininterruptamente, desde que não sejam estorvados. E vale lembrar que somos nós que colocamos pedrinhas e pedronas no caminho da nossa saúde – alimentação errada, sono ruim, sedentarismo, tabagismo, álcool e por aí vai.

Klein e Kiat (2015), numa revisão no Journal of Human Nutrition and Dietetics, analisaram 15 estudos sobre dietas e produtos “detox” comerciais e concluíram que nenhum apresentava ensaio clínico randomizado de qualidade suficiente para embasar as afirmações.

Isso não significa que períodos de alimentação simples, anti-inflamatória ou jejum intermitente bem conduzido sejam sem valor — muito pelo contrário. Mas o mecanismo é fisiológico: reduzir carga inflamatória, restaurar sensibilidade insulínica, permitir autofagia celular — processos premiados com o Nobel de Medicina de 2016 (Ohsumi, 2016).

 

Por que os modismos funcionam: psicologia e neurociência

Kahneman (2011), em décadas de pesquisa premiadas com o Nobel de Economia (2002), descreveu o “viés de disponibilidade”: tendemos a julgar como provável o que é fácil de lembrar — e uma manchete impactante é muito mais memorável do que um estudo de coorte de 20 anos.

Loewenstein, Brennan e Volpp (2007), no JAMA, documentaram o papel das emoções nas decisões de saúde: pessoas preferem intervenções com resultados imediatos e tangíveis — mesmo quando são menos eficazes — a mudanças de comportamento graduais com benefícios de longo prazo. Um “detox relâmpago” promete resultado rápido, visível, sentido. Já uma dieta mediterrânea ou outro plano saudável de alimentação, levado a capricho por décadas, promete saúde real. A neurobiologia do prazer imediato sempre preferiu a primeira opção.

 

O que resiste: os axiomas que o tempo confirma

Existe um conjunto de intervenções cujo suporte científico não apenas sobreviveu ao tempo, mas cresceu com ele — acumulando metanálises, revisões sistemáticas e ensaios de alta qualidade apontando consistentemente na mesma direção:

 

  • Dieta mediterrânea: reduz 30% do risco cardiovascular (Estruch et al., 2013 — NEJM, 7.447 participantes)
  • Exercício físico regular: reduz mortalidade total em 31-35% (Arem et al., 2015 — JAMA, 661.137 participantes)
  • Sono adequado (7-9h): associado a menor mortalidade e risco metabólico (Cappuccio et al., 2010)
  • Não fumar: acrescenta até 10 anos de expectativa de vida (Doll et al., 2004 — BMJ, 50 anos de seguimento)
  • Moderação/abstinência de álcool: sem dose segura para câncer (Wood et al., 2018 — The Lancet, 599.912 participantes)
  • Vínculos sociais: isolamento aumenta mortalidade com risco equivalente ao tabagismo (Holt-Lunstad et al., 2010 — PLOS Medicine)
  • Controle de peso com atenção à massa muscular: reduz risco de diabetes, doença cardiovascular, certos cânceres (GBD 2015 Obesity Collaborators — NEJM)

 

Note que nenhum item dessa lista envolve suplemento, protocolo relâmpago, peptídeo exclusivo ou terapia intravenosa cara. Todos têm evidência de nível A — o mais alto da hierarquia científica!

 

A hierarquia que importa (e que os modismos ignoram)

Ioannidis (2005), em artigo seminal no PLOS Medicine — “Why Most Published Research Findings Are False” —, demonstrou matematicamente que a maioria dos resultados positivos em estudos individuais com amostras pequenas são falsos positivos. Esse artigo tornou-se um dos mais citados da história da medicina e impulsionou uma era de maior rigor metodológico.

A lição prática é direta: antes de adotar qualquer intervenção médica ou nutricional, suplemento ou protocolo, faça quatro perguntas essenciais:

  • Há metanálise ou revisão sistemática sobre o assunto?
  • Quantas pessoas foram estudadas?
  • Por quanto tempo?
  • Quem financiou a pesquisa?

Essas questões simples filtram 90% do ruído informativo. Isso não significa que devemos ignorar as novidades ou desprezar o saber ancestral, como a acupuntura. Estudos clínicos robustos são caros, e geralmente apenas grandes indústrias e instituições de peso têm recursos para patrociná-los. É justamente aqui que entra o bom senso.

Além de buscar evidências científicas sólidas, é fundamental indagar: há quanto tempo esse método é conhecido? Se uma prática resiste desde tempos imemoriais — e não se trata apenas de folclore ou misticismo —, o filtro do tempo se encarrega de eliminar as falsas promessas, que raramente se sustentam por gerações. Partimos da premissa de que o que sobrevive ao tempo na medicina carrega eficácia real e, por isso, merece ser submetido a investigações científicas mais aprofundadas.

O equilíbrio deve prevalecer: não podemos ser excessivamente acadêmicos, nem puramente empiristas ou pragmáticos. O segredo está em ter a acurácia necessária para filtrar informações e ponderar riscos com sabedoria.

Antes de adotar qualquer promessa de saúde: existe metanálise? Quantas pessoas? Por quanto tempo? Quem pagou a pesquisa?

A ciência que envelhece bem

Comer comida de verdade — predominantemente plantas, pouco processada. Mover o corpo diariamente. Dormir o suficiente. Não fumar. Cuidar dos vínculos humanos. Gerenciar o estresse. Esses são os axiomas da saúde que resistem ao tempo, às modas e às manchetes.

Os modismos virão e passarão. O ovo voltará a ser vilão e depois mocinho novamente, dependendo de qual estudo o jornal resolver reportar esta semana. Novos “superalimentos” serão descobertos. Novos peptídeos prometerão a imortalidade. E a indústria do bem-estar continuará crescendo sobre a insegurança humana e o desejo legítimo de viver melhor.

Mas os axiomas ficam. A ciência que envelhece bem não é aquela que explode nas redes sociais — é aquela que sobrevive ao teste do tempo, à replicação independente e ao escrutínio dos pares.

Às vezes, a coisa mais revolucionária que um médico pode prescrever é: durma bem, coma mais vegetais, caminhe todo dia e mantenha seus laços afetivos. Não tem patente. Não tem margem de lucro. Mas tem evidência.

 

 

 

Referências

AREM, H. et al. Leisure time physical activity and mortality: a detailed pooled analysis of the dose-response relationship. JAMA Internal Medicine, v. 175, n. 6, p. 959-967, 2015.

BLESSO, C. N.; FERNANDEZ, M. L. Dietary cholesterol, serum lipids, and heart disease: are eggs working for or against you? Nutrients, v. 10, n. 4, p. 426, 2018.

CAPPUCCIO, F. P. et al. Sleep duration and all-cause mortality: a systematic review and meta-analysis of prospective studies. Sleep, v. 33, n. 5, p. 585-592, 2010.

DOLL, R. et al. Mortality in relation to smoking: 50 years’ observations on male British doctors. British Medical Journal, v. 328, n. 7455, p. 1519, 2004.

ELAD, D. et al. Peptide therapeutics: oncology and beyond. Pharmacology & Therapeutics, v. 234, p. 108085, 2022.

ESTRUCH, R. et al. Primary prevention of cardiovascular disease with a Mediterranean diet. New England Journal of Medicine, v. 368, n. 14, p. 1279-1290, 2013.

GBD 2015 OBESITY COLLABORATORS. Health effects of overweight and obesity in 195 countries over 25 years. New England Journal of Medicine, v. 377, n. 1, p. 13-27, 2017.

GOLDACRE, B. Bad Science. London: Fourth Estate, 2012.

HOLT-LUNSTAD, J.; SMITH, T. B.; LAYTON, J. B. Social relationships and mortality risk: a meta-analytic review. PLOS Medicine, v. 7, n. 7, e1000316, 2010.

IOANNIDIS, J. P. Why most published research findings are false. PLOS Medicine, v. 2, n. 8, e124, 2005.

KAHNEMAN, D. Thinking, Fast and Slow. New York: Farrar, Straus and Giroux, 2011.

KATZ, D. L.; MELLER, S. Can we say what diet is best for health? Annual Review of Public Health, v. 35, p. 83-103, 2014.

KLEIN, A. V.; KIAT, H. Detox diets for toxin elimination and weight management: a critical review of the evidence. Journal of Human Nutrition and Dietetics, v. 28, n. 6, p. 675-686, 2015.

KO, G. J. et al. Dietary protein intake and chronic kidney disease. Current Opinion in Clinical Nutrition & Metabolic Care, v. 20, n. 1, p. 77-85, 2017.

LAWSON, J. et al. Intravenous vitamin therapy in non-deficient adults: a review. Journal of Evidence-Based Complementary & Alternative Medicine, v. 20, n. 4, p. 291-296, 2015.

LEVINE, M. E. et al. Low protein intake is associated with a major reduction in IGF-1, cancer, and overall mortality in the 65 and younger but not older population. Cell Metabolism, v. 19, n. 3, p. 407-417, 2014.

LOEWENSTEIN, G.; BRENNAN, T.; VOLPP, K. G. Asymmetric paternalism to improve health behaviors. JAMA, v. 298, n. 20, p. 2415-2417, 2007.

MORTON, R. W. et al. A systematic review, meta-analysis and meta-regression of the effect of protein supplementation on resistance training-induced gains in muscle mass and strength in healthy adults. British Journal of Sports Medicine, v. 52, n. 6, p. 376-384, 2018.

OHSUMI, Y. Autophagy: an intracellular degradation system and its physiological functions. Proceedings of the Japan Academy, Series B, v. 74, n. 9, p. 242-250, 1998. [Nobel de Fisiologia ou Medicina, 2016]

RAVNSKOV, U. The questionable role of saturated and polyunsaturated fatty acids in cardiovascular disease. Journal of Clinical Epidemiology, v. 51, n. 6, p. 443-460, 2002.

RONG, Y. et al. Egg consumption and risk of coronary heart disease and stroke: dose-response meta-analysis of prospective cohort studies. British Medical Journal, v. 346, e8539, 2013.

WALKER, M. Why We Sleep: Unlocking the Power of Sleep and Dreams. New York: Scribner, 2017.

WHO — WORLD HEALTH ORGANIZATION. Protein and Amino Acid Requirements in Human Nutrition. Geneva: WHO Press, 2007. (WHO Technical Report Series, 935).

WOOD, A. M. et al. Risk thresholds for alcohol consumption: combined analysis of individual-participant data for 599,912 current drinkers in 83 prospective studies. The Lancet, v. 391, n. 10129, p. 1513-1523, 2018.

ZHONG, V. W. et al. Associations of dietary cholesterol or egg consumption with incident cardiovascular disease and mortality. JAMA, v. 321, n. 11, p. 1081-1095, 2019.

 

Artigo de caráter educacional. Consulte sempre um profissional de saúde qualificado para orientação individualizada

SEGREDOS DOS POVOS MAIS LONGEVOS DO MUNDO – REVISITANDO O TEMA

Vêm surgindo críticas ao manejo e interpretação dos dados provenientes das assim chamadas “blue zones”. Seria falácia a existência de regiões privilegiadas, onde as pessoas vivem vidas significativamente mais longas e saudáveis? Ou as “blue zones”, espalhadas pelo planeta, do Oriente ao Ocidente, teriam realmente seus “segredos” em grande parte revelados pela ciência médica? O que é verdade, o que é mito?

 

Erros de origem?

 

Kevin E. G. Perry do U S Lifestyle, citando o famoso Dr. Saul Newman, não poupa críticas ao conceito das blue zones. Aqui resumimos as principais e a nossa conclusão. 

1. “As pessoas querem que haja uma ilha exótica e distante onde tudo esteja bem”. As zonas azuis seriam, então, uma criação fantasiosa, lugares mágicos de longevidade & felicidade? Quando atrelamos a boa vida dessas pessoas meramente ao lugar onde vivem,  realmente soa até hollywoodiano. Dan Buettner, que cunhou a expressão, sem subestimar seu mérito, não era médico nem cientista, e de fato, cometeu alguns equívocos de interpretação, hoje reconhecidos, ao idealizar sua “fórmula de longevidade” para os habitantes desses locais. E Kevin não perdoa, é incisivo.
2. Um dos principais erros, hoje admitidos pela ciência, foi o de recomendar usar vinho diariamente como um dos “segredos da longevidade” dos habitantes do Mediterrâneo. Notem o que diz o artigo: “as alegações sobre os benefícios à saúde do suposto estilo de vida da Zona Azul perdem toda a credibilidade quando você entende o quão sem suporte a premissa é por dados empíricos… o mais surpreendente é que uma das diretrizes é que você deve beber todos os dias… essa é uma receita para o alcoolismo. É uma loucura que esteja sendo impulsionado como um conselho de saúde. Se você fosse um médico dizendo ao seu paciente para beber todos os dias, você perderia sua licença.”
3. PORÉM consideramos exagerado afirmar que o conceito “perde toda a credibilidade”.  Além da crítica à recomendação para beber álcool, há também períodos de vida superestimados, datas de nascimento erradas, alegações contraditórias sobre qualidade de vida em Okinawa, entre outras alegações passíveis de crítica. Mas nada disso anula a notável associação entre um número considerável de habitantes dessas regiões e seu modo devida,  e a verdade científica disso pode ser apoiada em 3 pontos principais: (1) Há muitos estudos sérios que relacionam o ESTILO DE VIDA SAUDÁVEL com a longevidade nessas regiões, principalmente em Loma Linda, onde há um Centro de Pesquisa reconhecido. (2) Os parâmetros dessa equação são repetidamente endossados pela ciência médica, com ênfase aos três níveis de autocuidado (corpo, mente e alimentação). (3) Na covid 19, a morbimortalidade nessas regiões foi mais baixa, com P valor significativo. Não foi por acaso. Outros estudos relacionaram também a microbiota do intestino dessas regiões com um padrão bioquímico imunoprotetor, com aumento do betahidroxibutirato entérico, o que foi muito claramente associado com o estilo de vida saudável das assim chamadas “blue zones”.
4. CONCLUINDO – Por causa desses erros de origem, a expressão “blue zone” cunhada por alguém considerado “aventureiro”, e que acabou se consagrando e popularizando em muitas publicações não científicas, inclusive num documentário da Netflix, começa a ser ridicularizada, o que nos convida a REVISITAR o tema. Pesquisas médicas são sempre exaustivas e complexas, e como envolvem numerosas variáveis e facetas, ao cruzarmos e categorizarmos dados envolvendo populações, é preciso redobrada atenção para não supervalorizar fatos empíricos em detrimento da análise científica, como ficou claro no erro da recomendação absurda de ingerir bebidas alcoólicas como “fator de saúde e longevidade”, também na coleta de dados com estimativas exageradas para o tempo de vida, entre outras afirmações infundadas e equivocadas.

 

Onde vivem esses povos longevos e saudáveis?

 

O termo “Blue Zones” ou “Zonas Azuis”, como vimos, foi cunhado por Dan Buettner, bolsista da National Geographic e autor de best-sellers do New York Times, um deles intitulado “Blue Zones”, cuja primeira edição foi lançada em 2008. Desde então, apesar das críticas, o assunto vem ganhando grande popularidade internacionalmente. As cinco regiões mapeadas e mais conhecidas no momento são Okinawa (Japão), Península de Nicoya (Costa Rica), Icaria (Grécia), Ogliastra (Sardenha, Itália) e Loma Linda (Califórnia, EUA) [1-2].

Esta última é uma das mais estudadas, até porque lá existe uma Faculdade de Medicina e um reconhecido Centro de Pesquisa, que há anos vem publicando sobre a qualidade de vida de seus habitantes e seus baixos índices de doenças. Seus números de longevidade seus incríveis, muito acima de seus conterrâneos norte-americanos, atingindo não raro a marca dos 90 e 100 anos [3]. Não é incomum você encontrar um Lomalindense nonagenário ou até centenário frequentando academia, dirigindo seu automóvel e até cuidando de seu jardim. Embora haja diferenças culturais marcantes de região para região, as pesquisas identificaram vários pontos comuns no estilo de vida de todas as blue zones. Destacam-se também fatores ambientais que contribuem para a longevidade e saúde de seus residentes.

Mas há uma nota recente e lamentável nisso tudo: Novas gerações nas blue zones estão perdendo parte da cultura de seus antepassados saudáveis e longevos, aderindo aos hábitos ocidentais de alimentação, o que traz incertezas sobre o futuro.

 

Como explicar tanta saúde e vida tão longa?

 

Como afirma Dan Buettner, “não existem soluções mágicas para uma vida longa.” Os principais fatores destacados na equação cientificamente estudada para a longevidade e bem-estar, embora não deixe de fora a contribuição genética, inclui uma dieta predominantemente baseada em vegetais, baixa ingestão calórica, porém sem desnutrição, atividade física regular, religiosidade, fortes conexões sociais e um senso de propósito [1-2]. A ingestão calórica moderada vem sendo desde longa data associada à longevidade [4], e é talvez o vetor mais forte. Um fato inegável é que o homem moderno, a maioria de nós, come exageradamente, e por isso convivemos com uma pandemia de obesidade sem precedentes, com suas consequências deletérias.

 

Você é disciplinado para comer?

 

Se você está acima do peso adequado para seu biotipo e altura, provavelmente está comendo mais que gasta. Isso é importante, mas não é só o que conta. Os habitantes das blue zones notabilizam-se por sua disciplina alimentar como um todo, mantendo vários hábitos alimentares saudáveis, como ingerir mais vegetais, frutas e grãos (plant based diet), nunca sair da mesa “empanturrado” e jantar cedo. Os okinawenses (Japão) têm o costume dizer Hara hachi bun me (腹八分目/はらはちぶんめ), (ou hara hachi bu) antes das refeições, um ensino confucionista que os lembra de não comer mais que 80%. Na prática, significa sempre sair da mesa com “um pouco de fome”, mas não faminto.

 

Mas é possível viver como nas blue zones, ou seria apenas uma curiosidade inalcançável?

 

O que podemos aprender com as Zonas Azuis? É possível incorporar alguns dos seus costumes para aumentar nossa expectativa e qualidade de vida? Ou se trata de algo muito particular dessas regiões, privilégio genético, utópico para nós, inacessível à vida moderna? Estudos demonstraram que os referidos fatores de estilo de vida podem ser traduzidos em práticas perfeitamente adequáveis a vida moderna, para melhorar os resultados de saúde pública, que, diga-se de passagem, não são nada animadores. Por exemplo, o Projeto Zonas Azuis nos Estados Unidos implementou mudanças ambientais e políticas baseadas nestes princípios, resultando no aumento da esperança de vida e na redução das taxas de obesidade e doenças crónicas [1, 5]. Enfim, essas mudanças podem perfeitamente ser incorporadas à nossa rotina, pelo menos em parte, com alguma disciplina e foco.

 

“Blue zone brasileira”

 

Na Lapinha, oferecemos aos nossos hóspedes uma imersão que se assemelha em muitos aspectos ao modo de vida nessas regiões, pois contempla exatamente os três níveis de autocuidado que essas pessoas longevas têm: cuidado da alimentação, cuidado do corpo (atividade física e biorritmo) e cuidado da mente (incluindo saúde espiritual). Por isso, nossos clientes nos chamam carinhosamente de “blue zone brasileira”.  

 

Resumindo

 

A relação entre as Zonas Azuis, longevidade e alegria de viver pode ser explicada por uma combinação de fatores, com destaque a hábitos alimentares saudáveis, atividade física, engajamento social e fatores ambientais. Tudo isso resulta não apenas em vida longa, mas menos adoecimento. Diga-se de passagem, durante a pandemia de covid 19, os habitantes das blue zones estiveram em parte protegidos por seu “escudo” de ótima saúde [6, 7]. E podemos tirar daqui várias aplicações práticas.

 

Referências

 

  1. Blue Zones: Lessons From the World’s Longest Lived. Buettner D, Skemp S. American Journal of Lifestyle Medicine. 2016 Sep-Oct;10(5):318-321.
  2. A Narrative Review Exploring the Similarities Between Cilento and the Already Defined “Blue Zones” in Terms of Environment, Nutrition, and Lifestyle: Can Cilento Be Considered an Undefined “Blue Zone”?. Aliberti SM, Donato A, Funk RHW, Capunzo M. Nutrients. 2024;16(5):729. doi:10.3390/nu16050729.
  3. https://www.cnbc.com/2023/09/26/loma-linda-ca-what-the-only-blue-zone-in-the-us-does-for-longevity.html. Acesso em 26/06/2024.
  4. https://sitn.hms.harvard.edu/flash/2020/can-calorie-restriction-extend-your-lifespan/. Acesso em 26/06/2024.
  5. Micro Nudges: A Systems Approach to Health. Buettner D. American Journal of Health Promotion : AJHP. 2021;35(4):593-596. doi:10.1177/08901171211002328d
  6. Extremely reduced COVID-19 mortality in a “Blue Zone”: an observational cohort study. Christodoulos Stefanadis at al. Hellenic J Cardiol.2022 November-December; 68: 60–62. Published online 2022 Sep 22. 
  7. https://about.sharecare.com/blue-zones-project-inspires-resilient-responses-to-covid-19/ . Acesso em 26/06/2024
  8. https://us06web.zoom.us/j/7227453729 pwd=UVJGR2RlQzZqWExjd1o5VFFseXpBZz09

 

ENGLISH

 

SECRETS OF THE LONGEST-LIVED PEOPLE IN THE WORLD – REVISITING THE TOPIC

 

Dr Daniel S F Boarim, – Medical Director of Lapinha

 

Criticism has been mounting regarding the handling and interpretation of data from the so-called “blue zones”. Could it be that there are privileged regions where people live significantly longer and healthier lives? Or could the “blue zones”, spread across the planet, from East to West, really have their “secrets” largely revealed by medical science? What is true, what is myth?

 

Errors of origin?

 

Kevin E. G. Perry from U S Lifestyle, quoting the famous Dr. Saul Newman, does not hold back on criticizing the concept of blue zones. Here we summarize the main ones and our conclusion.

1. “People want there to be an exotic, far-off island where everything is fine”. Would blue zones, then, be a fantasy creation, magical places of longevity and happiness? When we link the good life of these people merely to the place where they live, it really does sound like Hollywood. Dan Buettner, who coined the expression, without underestimating its merit, was neither a doctor nor a scientist, and in fact, he made some mistakes of interpretation, now recognized, when devising his “longevity formula” for the inhabitants of these places. And Kevin does not forgive, he is incisive.
2. One of the main mistakes, now admitted by science, was to recommend drinking wine daily as one of the “secrets of longevity” of the inhabitants of the Mediterranean. Note what the article says: “the claims about the health benefits of the supposed Blue Zone lifestyle lose all credibility when you understand how unsupported the premise is by empirical data… most surprising is that one of the guidelines is that you should drink every day… this is a recipe for alcoholism. It is crazy that it is being promoted as health advice. If you were a doctor telling your patient to drink every day, you would lose your license.”
3. HOWEVER, we consider it an exaggeration to say that the concept “loses all credibility”. In addition to criticism of the recommendation to drink alcohol, there are also overestimated life spans, incorrect birth dates, contradictory claims about quality of life in Okinawa, among other claims that are open to criticism. But none of this nullifies the notable association between a considerable number of inhabitants of these regions and their way of life, and the scientific truth of this can be supported by 3 main points: (1) There are many serious studies that relate HEALTHY LIFESTYLE with longevity in these regions, especially in Loma Linda, where there is a recognized Research Center. (2) The parameters of this equation are repeatedly endorsed by medical science, with emphasis on the three levels of self-care (body, mind and diet). (3) In covid 19, morbidity and mortality in these regions was lower, with a significant P value. This was not by chance. Other studies have also linked the intestinal microbiota of these regions to an immunoprotective biochemical pattern, with increased enteric beta-hydroxybutyrate, which was very clearly associated with the healthy lifestyle of the so-called “blue zones”.
4. CONCLUSION – Because of these errors of origin, the expression “blue zone” coined by someone considered “adventurous”, and which ended up becoming consecrated and popularized in many non-scientific publications, including a Netflix documentary, is beginning to be ridiculed, which invites us to REVISIT the topic. Medical research is always exhaustive and complex, and since it involves numerous variables and facets, when we cross-reference and categorize data involving populations, we need to be extra careful not to overvalue empirical facts to the detriment of scientific analysis, as was clear in the error of the absurd recommendation to drink alcoholic beverages as a “health and longevity factor”, also in the collection of data with exaggerated estimates for life expectancy, among other unfounded and mistaken statements.

 

Where do these long-lived and healthy people live?

 

The term “Blue Zones” or “Blue Zones”, as we have seen, was coined by Dan Buettner, a National Geographic fellow and author of New York Times best-sellers, one of which was entitled “Blue Zones”, the first edition of which was released in 2008. Since then, despite criticism, the subject has gained great popularity internationally. The five most well-known and mapped regions at the moment are Okinawa (Japan), Nicoya Peninsula (Costa Rica), Ikaria (Greece), Ogliastra (Sardinia, Italy) and Loma Linda (California, USA) [1-2].

 

The latter is one of the most studied, especially because there is a School of Medicine and a renowned Research Center there, which has been publishing for years on the quality of life of its inhabitants and their low rates of disease. Their longevity figures are incredible, far above those of their fellow North Americans, often reaching the 90 and 100 year mark [3]. It is not uncommon to find a nonagenarian or even centenarian from Lomalinda going to the gym, driving a car and even taking care of their garden. Although there are marked cultural differences from region to region, research has identified several common points in the lifestyle of all blue zones. Environmental factors that contribute to the longevity and health of their residents also stand out.

But there is a recent and regrettable note in all this: New generations in the blue zones are losing part of the culture of their healthy and long-lived ancestors, adopting Western eating habits, which brings uncertainty about the future.

 

How can we explain so much health and such a long life?

 

As Dan Buettner states, “there are no magic solutions for a long life.” The main factors highlighted in the scientifically studied equation for longevity and well-being, although it does not exclude genetic contribution, include a predominantly plant-based diet, low calorie intake but without malnutrition, regular physical activity, religiosity, strong social connections and a sense of purpose [1-2]. Moderate calorie intake has long been associated with longevity [4], and is perhaps the strongest vector. An undeniable fact is that modern man, most of us, eats excessively, and that is why we live with an unprecedented obesity pandemic, with its deleterious consequences.

 

Are you disciplined about eating?

 

If you are overweight for your body type and height, you are probably eating more than you burn. This is important, but it is not the only thing that counts. The inhabitants of the Blue Zones are known for their overall dietary discipline, maintaining several healthy eating habits, such as eating more vegetables, fruits and grains (plant-based diet), never leaving the table “stuffed” and eating dinner early. The Okinawans (Japan) have the custom of saying Hara hachi bun me (腹八分目/はらはちぶんめ), (or hara hachi bu) before meals, a Confucian teaching that reminds them not to eat more than 80%. In practice, this means always leaving the table “a little hungry”, but not ravenous.

But is it possible to live like in the Blue Zones, or is it just an unattainable curiosity?

What can we learn from the Blue Zones? Is it possible to incorporate some of their customs to increase our life expectancy and quality of life? Or is it something very particular to these regions, a genetic privilege, utopian for us, inaccessible to modern life? Studies have shown that these lifestyle factors can be translated into practices that are perfectly suited to modern life, to improve public health outcomes, which, by the way, are not at all encouraging. For example, the Blue Zones Project in the United States implemented environmental and political changes based on these principles, resulting in increased life expectancy and reduced rates of obesity and chronic diseases [1, 5]. Ultimately, these changes can be perfectly incorporated into our routine, at least in part, with some discipline and focus.

 

“Brazilian Blue Zone”

 

At Lapinha, we offer our guests an immersion that resembles in many ways the way of life in these regions, as it encompasses exactly the three levels of self-care that these long-lived people have: taking care of their diet, taking care of their body (physical activity and biorhythms) and taking care of their mind (including spiritual health). That is why our guests affectionately call us the “Brazilian Blue Zone”.

 

In short

 

The relationship between Blue Zones, longevity and joy of life can be explained by a combination of factors, with emphasis on healthy eating habits, physical activity, social engagement and environmental factors. All of this results not only in a longer life, but also less illness. Incidentally, during the Covid-19 pandemic, the inhabitants of the Blue Zones were partly protected by their “shield” of excellent health [6, 7]. And we can draw several practical applications from this.

 

References

 

  1. Blue Zones: Lessons From the World’s Longest Lived. Buettner D, Skemp S. American Journal of Lifestyle Medicine. 2016 Sep-Oct;10(5):318-321.
  2. A Narrative Review Exploring the Similarities Between Cilento and the Already Defined “Blue Zones” in Terms of Environment, Nutrition, and Lifestyle: Can Cilento Be Considered an Undefined “Blue Zone”?. Aliberti SM, Donato A, Funk RHW, Capunzo M. Nutrients. 2024;16(5):729. doi:10.3390/nu16050729.
  3. https://www.cnbc.com/2023/09/26/loma-linda-ca-what-the-only-blue-zone-in-the-us-does-for-longevity.html. Acesso em 26/06/2024.
  4. https://sitn.hms.harvard.edu/flash/2020/can-calorie-restriction-extend-your-lifespan/. Acesso em 26/06/2024.
  5. Micro Nudges: A Systems Approach to Health. Buettner D. American Journal of Health Promotion : AJHP. 2021;35(4):593-596. doi:10.1177/08901171211002328d
  6. Extremely reduced COVID-19 mortality in a “Blue Zone”: an observational cohort study. Christodoulos Stefanadis at al. Hellenic J Cardiol.2022 November-December; 68: 60–62. Published online 2022 Sep 22. 
  7. https://about.sharecare.com/blue-zones-project-inspires-resilient-responses-to-covid-19/ . Acesso em 26/06/2024
  8. https://us06web.zoom.us/j/7227453729 pwd=UVJGR2RlQzZqWExjd1o5VFFseXpBZz09

 

 

Receba nosso conteúdo

Tenha acesso em primeira mão às nossas novidades e programações especiais

A Lapinha se compromete em proteger e respeitar sua privacidade. Usaremos suas informações pessoais apenas para administrar sua conta e fornecer os produtos e serviços que você nos solicitou. Ocasionalmente, gostaríamos de entrar em contato sobre nossas ofertas, bem como sobre outros conteúdos que possam ser de seu interesse. Você pode optar por desinscrever-se de nosso mailing a qualquer momento.

Lar Lapeano de Saúde LTDA - CNPJ 75.189.597/0001-63. Todos os direitos reservados.