A maioria das pessoas acredita que toda pressão alta é consequência do excesso de sal, do estresse, da herança familiar ou do envelhecimento. Embora isso seja verdade em muitos casos, existe uma causa que costuma passar despercebida e que, em algumas pessoas, pode até ser curada: o hiperaldosteronismo primário (HAP).
Trata-se de uma doença das glândulas suprarrenais (também chamadas de adrenais), pequenas estruturas localizadas acima dos rins, responsáveis pela produção de diversos hormônios importantes para o organismo.
Hoje, o hiperaldosteronismo primário é reconhecido como a causa hormonal mais comum de hipertensão arterial secundária, ou seja, aquela em que existe uma doença específica provocando a elevação da pressão arterial (Adler et al., 2025).
O que acontece nessa doença?
As glândulas suprarrenais produzem um hormônio chamado aldosterona. Sua principal função é ajudar o organismo a controlar a quantidade de sódio, potássio e água no corpo.
Quando tudo funciona normalmente, a produção desse hormônio aumenta ou diminui conforme a necessidade.
No hiperaldosteronismo primário, entretanto, uma ou ambas as glândulas passam a produzir aldosterona em excesso, mesmo quando o organismo não precisa.
Esse excesso faz com que os rins retenham sódio e água e eliminem mais potássio pela urina. Como consequência, ocorre aumento do volume de sangue circulante e da pressão arterial.
Além disso, sabe-se hoje que a aldosterona em excesso não apenas aumenta a pressão, mas também exerce efeitos diretos sobre o coração, os vasos sanguíneos e os rins, favorecendo inflamação, fibrose e lesões desses órgãos (Yang et al., 2024).
É uma doença rara?
Surpreendentemente, não. Durante muitos anos acreditou-se que fosse uma condição incomum. Hoje sabemos que ela é muito mais frequente do que se imaginava.
As diretrizes mais recentes da Endocrine Society estimam que o hiperaldosteronismo esteja presente em cerca de 5% a 14% das pessoas com hipertensão atendidas na atenção primária, podendo atingir até 30% dos pacientes com hipertensão resistente, aquela que permanece elevada apesar do uso de vários medicamentos (Adler et al., 2025).
Isso significa que milhões de pessoas podem apresentar essa doença sem saber.
Quem tem maior risco?
A doença pode surgir em qualquer idade, mas é mais frequentemente diagnosticada entre 30 e 60 anos.
Ela deve ser especialmente lembrada em pessoas que apresentam:
- pressão alta de difícil controle;
- necessidade de três ou mais medicamentos para controlar a pressão;
- pressão muito alta antes dos 40 anos;
- queda do potássio no sangue sem explicação aparente;
- nódulo em uma das glândulas suprarrenais descoberto em exames de imagem;
- histórico familiar de hipertensão grave ou acidente vascular cerebral (AVC) em idade precoce.
Curiosamente, muitas pessoas apresentam níveis normais de potássio. Ou seja, ter potássio normal não exclui a doença, um conceito que mudou bastante nos últimos anos (Adler et al., 2025).
Quais são os sintomas?
Em muitos casos, o único sinal é a própria hipertensão.
Quando presentes, os sintomas costumam estar relacionados à perda excessiva de potássio e podem incluir:
- fraqueza muscular;
- cansaço;
- câimbras frequentes;
- palpitações;
- sede excessiva;
- aumento da quantidade de urina;
- formigamentos.
Em situações mais graves, níveis muito baixos de potássio podem provocar arritmias cardíacas potencialmente perigosas.
Quais são as causas?
As duas causas mais comuns são:
Adenoma produtor de aldosterona – um pequeno tumor benigno em uma das glândulas suprarrenais.
Hiperplasia adrenal bilateral – aumento da produção hormonal pelas duas glândulas, sem formação de um tumor único.
Mais recentemente, a medicina descobriu que muitos adenomas apresentam mutações adquiridas em genes como KCNJ5, CACNA1D, ATP1A1 e ATP2B3, responsáveis por alterar o funcionamento das células da adrenal e estimular a produção exagerada de aldosterona. Essas descobertas abriram novas perspectivas para a medicina de precisão, embora ainda não façam parte da rotina clínica da maioria dos pacientes (Adler et al., 2025).
Existe relação com doenças autoimunes?
Ao contrário de outras doenças hormonais, como diabetes tipo 1 ou tireoidite de Hashimoto, o hiperaldosteronismo primário não é considerado uma doença autoimune.
Na maioria dos casos, sua origem está relacionada a alterações benignas da própria glândula suprarrenal ou a mutações adquiridas em suas células.
Como os médicos fazem o diagnóstico?
A investigação começa com um exame de sangue relativamente simples.
São dosados dois hormônios:
- aldosterona;
- renina.
A relação entre eles — conhecida como relação aldosterona/renina (RAR) — é atualmente o principal exame de rastreamento recomendado pelas sociedades médicas internacionais (Adler et al., 2025).
Quando o resultado sugere hiperaldosteronismo, normalmente são realizados exames confirmatórios e, posteriormente, tomografia das suprarrenais. Em muitos pacientes também é necessário um exame especializado chamado cateterismo das veias adrenais, considerado o método mais preciso para identificar se o excesso hormonal está vindo de apenas uma glândula ou das duas (Farah et al., 2025).
Um resumo prático
Você deve conversar com seu médico sobre a possibilidade de hiperaldosteronismo primário se apresentar:
✔ Pressão alta antes dos 40 anos.
✔ Hipertensão resistente ao tratamento.
✔ Uso de três ou mais medicamentos para controlar a pressão.
✔ Potássio baixo.
✔ Nódulo na adrenal.
✔ Histórico familiar de AVC ou hipertensão grave em idade precoce.
O reconhecimento precoce da doença é importante porque, diferentemente da hipertensão comum, o hiperaldosteronismo primário possui tratamento específico e, em muitos casos, pode ser controlado de forma muito mais eficaz ou até mesmo curado quando a causa é um adenoma localizado.
(Continua na Parte II: tratamento, cirurgia, medicamentos, estilo de vida, mitos, novidades da genética e o que realmente diz a ciência.)
Disclaimer
Este artigo tem finalidade exclusivamente educativa e não substitui a consulta médica. Pressão alta persistente, especialmente quando de difícil controle ou acompanhada de alterações no potássio, deve ser investigada por um médico. Nunca interrompa ou modifique medicamentos por conta própria.
Referências
ADLER, G. K. et al. Primary Aldosteronism: An Endocrine Society Clinical Practice Guideline. The Journal of Clinical Endocrinology & Metabolism, v. 110, n. 9, p. 2453–2495, 2025.
FARAH, M. H. et al. A Systematic Review Supporting the Endocrine Society Clinical Practice Guideline on Management of Primary Aldosteronism. The Journal of Clinical Endocrinology & Metabolism, v. 110, n. 9, p. e2833–e2844, 2025.
YANG, J. et al. Challenges in Diagnosing and Managing the Spectrum of Primary Aldosteronism. Journal of the Endocrine Society, v. 8, n. 7, 2024.
Quando a Pressão Alta Vem de uma Glândula: Conheça o Hiperaldosteronismo Primário – Parte II
Tem tratamento? Na maioria dos casos, sim.
A boa notícia é que o hiperaldosteronismo primário está entre as causas de hipertensão com tratamento mais específico. Em muitos pacientes, controlar a produção excessiva de aldosterona melhora significativamente a pressão arterial e reduz o risco de infarto, acidente vascular cerebral (AVC), insuficiência cardíaca, fibrilação atrial e doença renal crônica (Adler et al., 2025).
O tratamento depende da causa da doença.
Quando a alteração está em apenas uma glândula
Se os exames mostrarem que apenas uma glândula suprarrenal está produzindo aldosterona em excesso — geralmente por causa de um pequeno adenoma benigno — a cirurgia para retirada dessa glândula (adrenalectomia laparoscópica) costuma ser o tratamento de escolha.
Em muitos pacientes, a pressão arterial melhora de forma importante após a cirurgia. Alguns deixam de precisar de medicamentos; outros continuam usando remédios, mas em menor quantidade e com melhor controle da pressão (Farah et al., 2025).
Quando as duas glândulas produzem aldosterona em excesso
Quando o problema envolve ambas as suprarrenais, a cirurgia normalmente não é indicada.
Nesses casos, o tratamento é feito com medicamentos chamados antagonistas do receptor mineralocorticoide, que bloqueiam a ação da aldosterona.
Os mais utilizados são:
- Espironolactona;
- Eplerenona.
Esses medicamentos reduzem a pressão arterial, ajudam a normalizar os níveis de potássio e diminuem os danos causados pelo excesso de aldosterona ao coração, aos vasos sanguíneos e aos rins (Adler et al., 2025).
O estilo de vida continua sendo importante?
Sim. Embora não elimine a produção excessiva de aldosterona, um estilo de vida saudável potencializa os resultados do tratamento.
As principais recomendações incluem:
- reduzir o consumo de sal;
- manter peso adequado;
- praticar atividade física regularmente;
- evitar o tabagismo;
- limitar o consumo de bebidas alcoólicas;
- tratar adequadamente a apneia obstrutiva do sono, quando presente.
Essas medidas ajudam no controle da pressão arterial e reduzem o risco cardiovascular global.
Existe algum tratamento complementar?
Muitos pacientes perguntam sobre acupuntura, fitoterápicos, suplementos ou terapias naturais.
Até o momento, não existem evidências científicas robustas de que essas abordagens reduzam a produção de aldosterona ou substituam o tratamento convencional.
Algumas práticas, como atividade física supervisionada, técnicas de relaxamento, meditação e manejo do estresse, podem contribuir para o bem-estar e auxiliar no controle da pressão arterial como um todo, mas não tratam o hiperaldosteronismo primário (ESH Task Force, 2024).
Da mesma forma, não há estudos clínicos de boa qualidade demonstrando benefício específico de fitoterápicos, hidroterapia ou acupuntura para essa doença.
Quais são os principais mitos?
“Minha pressão alta é apenas nervosismo.”
Nem sempre. Quando a pressão permanece elevada apesar do tratamento ou surge muito cedo, é importante investigar causas hormonais.
“Se meu potássio está normal, não posso ter hiperaldosteronismo.”
Mito.
Hoje sabemos que uma parcela significativa dos pacientes apresenta potássio normal no momento do diagnóstico (Adler et al., 2025).
“Se eu operar, nunca mais terei pressão alta.”
Nem sempre.
A cirurgia corrige a produção excessiva de aldosterona, mas alguns pacientes continuam hipertensos devido a outros fatores, como predisposição genética, envelhecimento ou lesões vasculares já estabelecidas.
Quais doenças podem se parecer com o hiperaldosteronismo?
O médico também considera outras causas de hipertensão secundária, entre elas:
- estenose da artéria renal;
- síndrome de Cushing;
- feocromocitoma;
- doenças da tireoide;
- apneia obstrutiva do sono;
- uso de medicamentos como corticoides e anticoncepcionais em situações específicas.
Por isso, o diagnóstico deve ser individualizado.
Existem situações de emergência?
O hiperaldosteronismo primário raramente provoca uma emergência por si só.
Entretanto, níveis muito baixos de potássio podem favorecer:
- arritmias cardíacas;
- fraqueza muscular intensa;
- paralisia muscular;
- alterações importantes do ritmo cardíaco.
Além disso, a hipertensão não tratada aumenta o risco de complicações graves, como infarto, AVC e insuficiência cardíaca.
O que há de novo na ciência?
Nos últimos anos, os avanços mais importantes ocorreram em três áreas.
- Mais pessoas estão sendo diagnosticadas
As novas diretrizes recomendam ampliar o rastreamento em pacientes com hipertensão resistente, hipertensão de início precoce, hipocalemia e nódulos na suprarrenal. Isso tem aumentado o reconhecimento da doença (Adler et al., 2025).
- Medicina genômica
Pesquisas identificaram mutações em genes como KCNJ5, CACNA1D, ATP1A1 e ATP2B3, que ajudam a explicar por que alguns adenomas produzem grandes quantidades de aldosterona. Embora esses testes ainda não façam parte da rotina clínica, eles abrem caminho para abordagens mais individualizadas no futuro (Yang et al., 2024).
- Danos além da pressão arterial
Hoje sabemos que o excesso de aldosterona causa lesões diretas no coração, nos vasos e nos rins, mesmo quando a pressão arterial parece relativamente controlada. Isso reforça a importância de diagnosticar e tratar precocemente a doença (Adler et al., 2025).
Até o momento, não existem evidências consistentes de que alterações da microbiota intestinal desempenhem papel direto no desenvolvimento do hiperaldosteronismo primário. Essa área permanece em investigação, mas ainda não há aplicações clínicas.
Uma nova forma de entender o hiperaldosteronismo
Hoje, em julho de 2026, parece haver uma mudança importante de perspectiva em relação ao que se ensinava há 10 ou 15 anos: o hiperaldosteronismo provavelmente não é uma doença “tudo ou nada”. Durante muito tempo, acreditava-se que as pessoas ou tinham a doença claramente estabelecida, com níveis muito elevados de aldosterona e pressão alta difícil de controlar, ou simplesmente não a tinham. Pesquisas mais recentes sugerem que a realidade pode ser mais complexa. Alguns indivíduos aparentemente classificados como portadores de “hipertensão comum” podem apresentar formas leves ou iniciais de produção inadequada de aldosterona, suficientes para contribuir para a elevação da pressão arterial, mas não o bastante para preencher os critérios clássicos da doença (Adler et al., 2025; Rossi et al., 2025).
Se essa hipótese continuar sendo confirmada pelos estudos, ela poderá mudar a forma como a medicina investiga e trata a hipertensão arterial nas próximas décadas. No entanto, é importante destacar que essa ainda é uma área em evolução. As principais sociedades médicas já reconhecem esse conceito como promissor, mas ainda não recomendam ampliar o diagnóstico ou modificar o tratamento com base apenas nessa nova visão. Em outras palavras, trata-se de uma das descobertas mais interessantes da endocrinologia atual, porém ainda em processo de consolidação científica.
O que a ciência demonstra
✔ O hiperaldosteronismo primário é uma das causas mais comuns de hipertensão secundária.
✔ Muitas pessoas permanecem sem diagnóstico por vários anos.
✔ O tratamento reduz significativamente o risco cardiovascular.
✔ Em casos selecionados, a cirurgia pode proporcionar remissão da doença.
✔ O bloqueio da ação da aldosterona protege coração, rins e vasos sanguíneos.
O que ainda é mais promessa do que evidência
✘ Que suplementos, fitoterápicos ou “detox” possam tratar o hiperaldosteronismo.
✘ Que acupuntura reduza a produção de aldosterona.
✘ Que mudanças na microbiota intestinal sejam um tratamento comprovado para essa doença.
✘ Que toda pessoa com pressão alta deva realizar investigação extensa para hiperaldosteronismo. O rastreamento deve seguir critérios clínicos estabelecidos pelas diretrizes.
Mensagem final
O hiperaldosteronismo primário é um excelente exemplo de como a medicina evoluiu nas últimas décadas. O que antes era considerado uma doença rara hoje é reconhecido como uma causa relativamente frequente de hipertensão arterial, especialmente nos casos de difícil controle.
A boa notícia é que, quando identificado precocemente, ele pode ser tratado de forma eficaz e, em muitos pacientes, até mesmo curado. Por isso, pessoas com hipertensão resistente, pressão alta em idade jovem, potássio baixo ou histórico familiar sugestivo devem conversar com seu médico sobre a possibilidade de investigação.
Reconhecer essa doença pode representar muito mais do que controlar a pressão arterial: pode significar reduzir o risco de infarto, AVC, insuficiência cardíaca e doença renal ao longo da vida.
Disclaimer
Este artigo tem finalidade exclusivamente educativa e não substitui a consulta médica. O diagnóstico e o tratamento do hiperaldosteronismo primário exigem avaliação individualizada por profissional habilitado. Nunca interrompa ou altere medicamentos por conta própria.
Referências
ADLER, G. K. et al. Primary Aldosteronism: An Endocrine Society Clinical Practice Guideline. The Journal of Clinical Endocrinology & Metabolism, v. 110, n. 9, p. 2453–2495, 2025.
FARAH, M. H. et al. A Systematic Review Supporting the Endocrine Society Clinical Practice Guideline on Management of Primary Aldosteronism. The Journal of Clinical Endocrinology & Metabolism, v. 110, n. 9, p. e2833–e2844, 2025.
YANG, J. et al. Challenges in Diagnosing and Managing the Spectrum of Primary Aldosteronism. Journal of the Endocrine Society, v. 8, n. 7, 2024.
MANCIA, G. et al. 2024 European Society of Hypertension Guidelines for the Management of Arterial Hypertension. Journal of Hypertension, 2024.
Rossi, G. P. et al. The Unmet Needs in Primary Aldosteronism: From Screening to Targeted Therapy. Hypertension, v. 82, 2025.