Saúde dos olhos: calázio, hordéolo (terçol), blefarite e conjuntivite

 

 

Os olhos estão entre os órgãos mais expostos do organismo. Poeira, poluição, vento, radiação ultravioleta, microrganismos, cosméticos, telas, lentes de contato e hábitos como esfregar os olhos podem interferir na saúde da superfície ocular.

Entre os problemas mais frequentes estão calázio, hordéolo (terçol), blefarite e conjuntivite. Embora possam apresentar sintomas semelhantes, são condições diferentes e, portanto, nem sempre devem ser tratadas da mesma maneira.

Um princípio merece destaque: olho vermelho não significa necessariamente infecção bacteriana e “caroço” na pálpebra não significa necessariamente que seja necessário um antibiótico. O diagnóstico correto é o primeiro passo para evitar tanto tratamentos insuficientes quanto o uso desnecessário de medicamentos.

A boa notícia é que muitas dessas condições podem ser controladas com medidas simples de higiene e cuidados adequados. Em outras situações, entretanto, a avaliação oftalmológica é fundamental.

 

  1. Calázio: quando uma glândula da pálpebra fica obstruída

O calázio é uma inflamação geralmente crônica de uma glândula de Meibômio, pequenas glândulas localizadas nas pálpebras que produzem parte da camada oleosa da lágrima. Quando sua saída fica obstruída, o material produzido pela glândula se acumula e desencadeia uma reação inflamatória.

Diferentemente do hordéolo, o calázio costuma ser pouco doloroso ou indolor. Pode começar como uma pequena área avermelhada e evoluir para um nódulo mais firme dentro da pálpebra.

 

Resumo prático

Calázio geralmente significa obstrução e inflamação, não infecção.

O tratamento inicial costuma ser conservador:

  • compressas mornas;
  • higiene das pálpebras;
  • massagem suave da pálpebra após a compressa;
  • evitar espremer ou perfurar a lesão.

As compressas podem ser feitas por aproximadamente 10–15 minutos, várias vezes ao dia, mantendo a temperatura morna durante todo o período. A massagem deve ser suave e nunca tentar “estourar” o nódulo.

Antibióticos não são tratamento de rotina para um calázio não infectado. Podem ser considerados quando há infecção associada, blefarite importante ou outra indicação clínica.

Quando o calázio persiste, cresce, provoca alterações visuais ou apresenta características atípicas, o oftalmologista pode indicar tratamentos como injeção intralesional de corticosteroide ou incisão e curetagem.

 

  1. Hordéolo: o conhecido “terçol”

O hordéolo, popularmente chamado de terçol, é uma inflamação/infeção aguda associada às estruturas glandulares da pálpebra. Pode ser externo, quando surge próximo à margem palpebral, ou interno, quando envolve estruturas mais profundas.

Em comparação com o calázio, o hordéolo tende a ser:

  • mais agudo;
  • mais doloroso;
  • mais avermelhado;
  • mais sensível ao toque;
  • eventualmente acompanhado de secreção purulenta.

O tratamento inicial também envolve compressas mornas, que favorecem a drenagem das secreções.

 

Nunca se deve espremer o terçol.

Antibióticos tópicos podem ser utilizados em situações selecionadas, especialmente quando há infecção bacteriana associada, mas não devem ser considerados obrigatórios em todos os casos.

Se houver aumento importante do edema, disseminação da vermelhidão, febre, alteração visual ou outros sinais de infecção mais extensa, é necessária avaliação médica.

 

  1. Blefarite: quando a margem da pálpebra é o problema

A blefarite é uma inflamação da margem das pálpebras. Pode estar relacionada a alterações da pele, colonização microbiana, inflamação, disfunção das glândulas de Meibômio e outras condições.

É frequentemente crônica e recorrente. Diferentemente do hordéolo e do calázio, que costumam se apresentar como uma lesão localizada, a blefarite tende a acometer a margem palpebral de maneira mais difusa.

Os sinais mais característicos incluem:

  • vermelhidão da borda das pálpebras;
  • pequenas crostas ou “caspinhas” junto aos cílios;
  • ardência ou sensação de areia nos olhos;
  • coceira;
  • olhos lacrimejantes ou irritados;
  • cílios grudados ao acordar;
  • sensação de olhos secos;
  • recorrência de hordéolos ou calázios.

Um ponto importante é que a blefarite e a disfunção das glândulas de Meibômio podem coexistir e contribuir para sintomas de olho seco. Assim, um paciente que apresenta repetidamente “terçóis”, “calázios” ou irritação ocular pode, na realidade, ter uma doença crônica da margem palpebral como fator predisponente.

 

Tratamento: mais higiene, menos improvisação

A base do tratamento é a higiene regular das pálpebras, e não simplesmente o uso repetido de antibióticos.

Pode-se utilizar:

  • compressas mornas;
  • limpeza cuidadosa da margem palpebral;
  • produtos específicos para higiene palpebral, quando apropriados;
  • tratamento do olho seco associado;
  • medicamentos específicos nos casos moderados ou graves, conforme avaliação oftalmológica.

A regularidade é fundamental. Em uma doença crônica, fazer higiene palpebral apenas quando os sintomas aparecem pode ser menos eficaz do que estabelecer uma rotina adequada.

A diretriz da American Academy of Ophthalmology destaca o papel das medidas de higiene palpebral e das compressas mornas no manejo da blefarite e da disfunção das glândulas de Meibômio (Lin et al., 2024).

 

  1. Conjuntivite: quando a inflamação está na superfície do olho

A conjuntivite é a inflamação da conjuntiva, membrana que recobre a parte branca dos olhos e a superfície interna das pálpebras.

Pode ser:

  • viral;
  • bacteriana;
  • alérgica;
  • irritativa ou química.

Por isso, simplesmente dizer “estou com conjuntivite” não determina o tratamento.

A conjuntivite viral costuma produzir vermelhidão, lacrimejamento e ardência, frequentemente começando em um olho e passando para o outro. Pode ser altamente contagiosa.

A bacteriana tende a apresentar secreção mais espessa ou purulenta, podendo fazer as pálpebras amanhecerem grudadas.

Já na conjuntivite alérgica, a manifestação mais característica costuma ser a coceira intensa, frequentemente acompanhada de outros sintomas alérgicos.

Antibióticos não são necessários para conjuntivites virais ou alérgicas. Corticosteroides também não devem ser utilizados por conta própria, pois podem agravar ou mascarar determinadas infecções.

 

  1. Como diferenciar rapidamente: quatro problemas que podem parecer iguais

Uma maneira bastante prática de orientar o paciente é observar onde está o problema, como começou e qual é o sintoma predominante.

Característica Hordéolo Calázio Blefarite Conjuntivite
Onde está o problema? Ponto localizado na pálpebra Nódulo dentro da pálpebra Margem das pálpebras Superfície do olho
Início Geralmente rápido Mais gradual Crônico/recorrente Geralmente agudo
Dor Frequente Geralmente pouca ou nenhuma Ardência/desconforto Geralmente ardência
Coceira Pode ocorrer Pouco característica Frequente Muito característica na alérgica
Secreção Pode ser purulenta e localizada Geralmente ausente Crostas nos cílios Frequente, dependendo da causa
Vermelhidão Mais localizada Localizada no início Na borda das pálpebras Difusa no olho
“Caroço” Pode haver Característico Não é o principal achado Não
Contagioso Não costuma Não Não Viral/bacteriana: sim
Tratamento inicial Compressa morna Compressa morna + higiene Higiene palpebral Depende da causa

 

Uma regra simples para o paciente

“Caroço dolorido na pálpebra” → pense primeiro em hordéolo.

“Caroço duro, mais profundo e pouco dolorido” → pense em calázio.

“Borda das pálpebras vermelha, com crostas, ardência e recorrência” → pense em blefarite.

“Olho vermelho, lacrimejando ou com secreção, sem um caroço definido” → pense em conjuntivite.

É claro que essas regras são apenas orientativas. As condições podem coexistir. Por exemplo, blefarite pode favorecer o aparecimento recorrente de hordéolos e calázios, e a inflamação das glândulas de Meibômio pode contribuir para sintomas de olho seco.

 

  1. Um detalhe que confunde muita gente

Existe uma diferença importante entre secreção na margem dos cílios e secreção conjuntival.

Na blefarite, é comum encontrar pequenas crostas ou descamação aderidas aos cílios, especialmente ao despertar.

Na conjuntivite bacteriana, a secreção tende a ser mais abundante, podendo se acumular na conjuntiva e fazer as pálpebras grudarem.

Essa distinção não é absoluta, mas pode ajudar na avaliação inicial.

Outro dado útil é a coceira: quando ela é o sintoma predominante, especialmente bilateral e acompanhada de história de alergia, a hipótese de conjuntivite alérgica ganha força.

Já a dor importante não é típica de uma conjuntivite simples e deve levar à consideração de outras doenças oculares.

 

  1. Prevenção: cuidar das pálpebras também é cuidar dos olhos

Algumas medidas simples reduzem a frequência de muitos desses problemas:

  • lavar as mãos antes de tocar os olhos;
  • evitar esfregar os olhos;
  • manter adequada higiene das pálpebras;
  • não compartilhar toalhas, maquiagem ou colírios;
  • retirar corretamente a maquiagem dos olhos;
  • não utilizar cosméticos vencidos;
  • cuidar adequadamente das lentes de contato;
  • suspender o uso de lentes durante episódios de inflamação ou infecção ocular;
  • utilizar proteção adequada contra radiação ultravioleta;
  • fazer pausas durante o uso prolongado de telas e lembrar-se de piscar.

Em pessoas com blefarite, disfunção das glândulas de Meibômio ou recorrência de calázios/hordéolos, a higiene palpebral regular pode ser mais importante do que simplesmente tratar cada episódio isoladamente.

 

  1. Quando procurar o oftalmologista?

A maioria dos casos leves evolui bem, mas alguns sinais exigem maior atenção:

  • dor ocular intensa;
  • redução ou alteração da visão;
  • fotofobia importante;
  • trauma ocular;
  • sensação persistente de corpo estranho;
  • edema importante das pálpebras;
  • febre;
  • dor ao movimentar os olhos;
  • protrusão do olho;
  • uso de lentes de contato associado a dor ou alteração visual;
  • piora rápida;
  • lesão palpebral persistente ou recorrente.

Uma regra particularmente importante é:

Olho vermelho com dor intensa ou alteração visual não deve ser tratado simplesmente como conjuntivite.

Doenças da córnea, uveítes, glaucoma agudo, ceratites e celulite orbitária, entre outras, podem apresentar inicialmente um quadro de “olho vermelho”.

 

Para levar para casa

  1. Hordéolo: geralmente é agudo, dolorido e localizado na pálpebra. Compressas mornas são a primeira medida.
  2. Calázio: geralmente é um nódulo pouco doloroso decorrente da obstrução de uma glândula. Compressas mornas e higiene palpebral são o tratamento inicial.
  3. Blefarite: é uma inflamação da margem palpebral, frequentemente crônica e recorrente. Crostas nos cílios, ardência e recorrência de “terçóis” ou calázios são pistas importantes.
  4. Conjuntivite: acomete a superfície do olho e pode ser viral, bacteriana, alérgica ou irritativa. O tratamento depende da causa.
  5. Antibiótico não é sinônimo de tratamento ocular: muitos quadros não precisam dele, e corticosteroides oftálmicos não devem ser utilizados sem indicação apropriada.
  6. Dor intensa ou alteração da visão são sinais de alerta: nesses casos, é necessária avaliação oftalmológica.

 

Disclaimer

Este texto tem finalidade educativa e não substitui avaliação médica ou oftalmológica individualizada. Sintomas oculares podem ter causas diferentes e algumas doenças potencialmente graves podem apresentar inicialmente manifestações semelhantes às de condições benignas. A escolha de colírios, antibióticos, corticosteroides ou outros tratamentos deve considerar o diagnóstico, a idade, as comorbidades, o uso de lentes de contato e as características específicas de cada paciente.

 

Referências

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