Hashimoto: 10 mitos e 10 fatos

 

 O que realmente sabemos sobre glúten, leite, crucíferas, iodo, selênio, vitamina D, microbiota, jejum, anticorpos e T3

A tireoidite de Hashimoto é uma doença autoimune na qual o sistema imunológico passa a reconhecer componentes da própria tireoide como alvos. O processo pode permanecer durante anos com função tireoidiana normal ou evoluir para hipotireoidismo.

E justamente por ser uma doença autoimune, Hashimoto tornou-se terreno fértil para explicações simplistas: “é o glúten”, “é o leite”, “é o intestino”, “faltou selênio”, “os anticorpos precisam zerar”, “você precisa tomar T3”.

Algumas dessas ideias têm uma base biológica plausível. Outras apresentam associações interessantes. Poucas, porém, já demonstraram benefício clínico suficiente para se transformar em recomendação universal.

Essa distinção é fundamental.

 

  1. MITO: “Quem tem Hashimoto precisa retirar o glúten”

FATO: o glúten não precisa ser retirado de rotina

Existe uma razão legítima para essa associação: pessoas com doenças autoimunes da tireoide apresentam maior frequência de doença celíaca. Nesses pacientes, a retirada do glúten é tratamento — não uma dieta “para Hashimoto”.

Mas isso não significa que todo paciente com tireoidite de Hashimoto tenha intolerância ao glúten ou que uma dieta sem glúten modifique necessariamente a evolução da doença.

Uma revisão sistemática de intervenções nutricionais encontrou resultados heterogêneos e concluiu que ainda não existe evidência suficiente para estabelecer uma estratégia dietética universal para Hashimoto (Karbownik-Lewińska et al., 2023).

Mais recentemente, uma revisão sistemática e metanálise publicada em 2025 especificamente em pacientes com Hashimoto sem doença celíaca mostrou que a literatura ainda é limitada e heterogênea.

Há, portanto, uma diferença importante:

Glúten → doença celíaca → retirar.
Glúten → Hashimoto isolado → não há indicação universal de retirar.

O que é plausível? Que indivíduos geneticamente suscetíveis, especialmente aqueles com doença celíaca ou sintomas relacionados ao glúten, possam se beneficiar da exclusão.

O que é associação? A maior prevalência de doença celíaca em pacientes com Hashimoto.

O que tem evidência clínica? A dieta sem glúten é claramente indicada na doença celíaca; para Hashimoto sem doença celíaca, ainda não há demonstração consistente de benefício clínico que justifique sua prescrição universal.

 

  1. MITO: “Leite piora o Hashimoto”

FATO: não há evidência de que todo paciente com Hashimoto precise excluir leite

Não existe demonstração convincente de que a eliminação de laticínios, por si só, trate a autoimunidade da tireoide em pessoas sem intolerância à lactose ou outra indicação específica.

Mas há uma questão diferente e muito prática: o leite pode interferir na absorção da levotiroxina quando ingerido simultaneamente.

Um estudo farmacocinético mostrou redução da absorção da levotiroxina quando administrada junto com leite de vaca, provavelmente pela presença de cálcio.

Portanto, não é preciso demonizar o leite.

É mais importante ensinar o paciente a tomar corretamente a levotiroxina.

Plausível: lactose ou componentes alimentares podem causar sintomas gastrointestinais em indivíduos suscetíveis.

Associação: algumas pessoas com Hashimoto apresentam intolerância à lactose ou doença celíaca.

Evidência clínica: não há indicação de retirar leite universalmente para tratar Hashimoto; há evidência de que leite e cálcio podem reduzir a absorção da levotiroxina quando tomados concomitantemente.

 

  1. MITO: “Brócolis, couve e couve-flor fazem mal à tireoide”

FATO: crucíferas não precisam ser eliminadas

Aqui existe um interessante caso de verdade científica transformada em exagero.

Brócolis, couve, couve-flor, repolho, couve-de-Bruxelas e outras crucíferas contêm glucosinolatos. Alguns de seus metabólitos podem interferir experimentalmente no transporte de iodo para a tireoide. O mecanismo é real.

A conclusão de que “crucíferas fazem mal à tireoide”, porém, não é sustentada pelos dados clínicos disponíveis.

Uma revisão sistemática de 123 trabalhos concluiu que a grande maioria das evidências não sustenta um efeito antitireoidiano relevante das crucíferas consumidas em quantidades habituais.

Existem relatos extremos, como o de consumo de enormes quantidades de vegetais crus durante meses, mas isso não pode ser extrapolado para o consumo alimentar convencional. O cozimento também reduz a atividade da mirosinase e, consequentemente, parte do potencial efeito goitrogênico.

Plausível: alguns compostos das crucíferas podem interferir no metabolismo do iodo em determinadas condições.

Associação: consumo muito elevado de vegetais crus em indivíduos com ingestão insuficiente de iodo.

Evidência clínica: não há motivo para retirar brócolis, couve ou couve-flor da alimentação habitual de pacientes com Hashimoto.

Na prática, os benefícios nutricionais dessas hortaliças provavelmente superam qualquer risco teórico associado ao consumo convencional.

 

  1. MITO: “Quanto mais iodo, melhor para Hashimoto”

FATO: iodo é indispensável, mas excesso pode ser prejudicial

Esse talvez seja um dos mitos mais perigosos. A tireoide precisa de iodo para produzir T4 e T3. Portanto, deficiência grave de iodo prejudica a função tireoidiana.

Mas isso não significa que doses elevadas sejam terapêuticas.

Em pessoas suscetíveis, especialmente aquelas com doença tireoidiana preexistente, o excesso de iodo pode precipitar ou agravar disfunção tireoidiana. A American Thyroid Association alerta particularmente contra suplementos de iodo e algas contendo doses elevadas.  A recomendação não é “evitar iodo”.

É evitar a ideia de que megadoses de iodo tratam Hashimoto. A ingestão adequada deve ser garantida; suplementação farmacológica deve ter indicação.

A antiga lógica: “Hashimoto destrói a tireoide → precisamos fornecer mais iodo para fazê-la trabalhar” não é fisiologicamente adequada.

Em determinadas circunstâncias, aumentar excessivamente o substrato pode inclusive piorar a disfunção.

Plausível: corrigir deficiência de iodo é importante.

Associação: excesso de iodo pode desencadear disfunção em indivíduos predispostos.

Evidência clínica: não há benefício demonstrado para megadoses de iodo como tratamento rotineiro do Hashimoto.

 

  1. MITO: “Todo paciente com Hashimoto deve tomar selênio”

FATO: o selênio é biologicamente importante, mas suplementação não é sinônimo de tratamento

Aqui a situação é mais interessante. O selênio participa de enzimas antioxidantes e das desiodases envolvidas no metabolismo dos hormônios tireoidianos. Portanto, existe uma forte plausibilidade biológica.

E temos ensaios clínicos. Uma metanálise de 2024 que reuniu 35 estudos encontrou redução de TSH em pacientes que não utilizavam reposição hormonal e, sobretudo, redução dos anticorpos anti-TPO com suplementação de selênio. Entretanto, não houve mudanças significativas consistentes em T4L, T3L, T3 ou volume da tireoide. A certeza global da evidência foi considerada moderada.  Isso é importante.

Reduzir anticorpos não significa necessariamente melhorar desfechos clínicos.

O paciente não deve receber selênio simplesmente para “baixar o anti-TPO” sem considerar estado nutricional, dieta, dose e risco de excesso.

Plausível: muito forte — o selênio participa diretamente da fisiologia tireoidiana.

Associação: deficiência ou menor disponibilidade de selênio pode estar relacionada a maior atividade autoimune em algumas populações.

Evidência clínica: existe evidência de redução de anti-TPO com suplementação, mas ainda não é suficiente para considerar o selênio um tratamento universal capaz de modificar a história natural do Hashimoto.

 

  1. MITO: “Vitamina D baixa causa Hashimoto — basta corrigir e a doença melhora”

FATO: vitamina D e autoimunidade estão relacionadas, mas causalidade ainda não está estabelecida

A relação entre vitamina D e doenças autoimunes é biologicamente interessante. Receptores de vitamina D estão presentes em células do sistema imune, e pacientes com Hashimoto frequentemente apresentam níveis reduzidos de 25-OH-vitamina D.

Mas existe uma pergunta essencial: a deficiência de vitamina D causa ou acompanha a doença?

Não sabemos completamente. Metanálises de ensaios clínicos encontraram redução dos títulos de anti-TPO e anti-Tg com suplementação de vitamina D em alguns estudos.

Entretanto, resultados entre metanálises e estudos não são completamente uniformes, e redução de anticorpos não equivale automaticamente a redução de sintomas, necessidade de levotiroxina ou prevenção da progressão do hipotireoidismo.

Portanto:

Corrigir deficiência de vitamina D? Sim.

Prescrever vitamina D em megadose para “curar” Hashimoto? Não.

 

  1. MITO: “Hashimoto é uma doença do intestino; basta corrigir a microbiota”

FATO: a microbiota é uma hipótese científica promissora, mas ainda não é um tratamento estabelecido

Este é talvez um dos temas mais fascinantes.

Estudos mostram diferenças na composição e diversidade da microbiota intestinal de pessoas com doenças autoimunes da tireoide. Revisões sistemáticas encontraram associações entre determinadas alterações bacterianas e níveis de anticorpos, especialmente anti-TPO.

Uma revisão sistemática publicada em 2024 discutiu justamente a possível participação da permeabilidade intestinal e da microbiota na gênese e evolução da tireoidite de Hashimoto.

Mas existe um problema fundamental: associação não significa causalidade.

Ainda não sabemos se: microbiota alterada → Hashimoto, ou se: Hashimoto + dieta + medicamentos + alterações metabólicas → microbiota alterada. Ou se ambas as coisas acontecem simultaneamente.

Portanto, dizer que “Hashimoto é causado por intestino permeável” vai muito além da evidência disponível.

Plausível: sim, e bastante interessante.

Associação: demonstrada em diversos estudos.

Evidência clínica: ainda insuficiente para prescrever um determinado probiótico, prebiótico ou protocolo de microbiota como tratamento do Hashimoto.

 

  1. MITO: “Jejum é ruim para quem tem Hashimoto”

FATO: não existe evidência de que todo paciente com Hashimoto precise comer a cada três horas

O jejum é frequentemente tratado como se fosse automaticamente benéfico ou automaticamente prejudicial à tireoide. Nenhuma dessas posições é cientificamente adequada.

Não há evidência clínica robusta de que o paciente com Hashimoto precise fazer refeições frequentes para “manter a tireoide funcionando”.

Por outro lado, também não há evidência de que jejuns prolongados sejam tratamento específico da autoimunidade tireoidiana.

O jejum pode produzir benefícios metabólicos em determinados contextos — particularmente quando facilita redução da ingestão energética, melhora do padrão alimentar ou alinhamento do horário das refeições ao ritmo circadiano. Mas isso é diferente de afirmar que jejuar trata Hashimoto.

Dietas muito restritivas também podem produzir ingestão insuficiente de energia, proteína, ferro, selênio, iodo ou outros micronutrientes.

Portanto, a pergunta correta não é: “Hashimoto pode fazer jejum?”

Mas: “Esse padrão alimentar é nutricionalmente adequado e clinicamente apropriado para esta pessoa?”

Plausível: mudanças metabólicas e circadianas provocadas pelo horário alimentar podem influenciar vias imunometabólicas.

Associação: estudos experimentais e clínicos relacionam alimentação e ritmos circadianos à função metabólica.

Evidência clínica: ainda não há demonstração de que jejum seja tratamento específico da tireoidite de Hashimoto.

 

  1. MITO: “Se os anticorpos baixarem, o Hashimoto está curado”

FATO: anticorpos ajudam no diagnóstico, mas não são o principal marcador para acompanhar a função da tireoide

Anti-TPO e anti-tireoglobulina são excelentes marcadores da autoimunidade tireoidiana.

Mas existe uma diferença entre: atividade imunológica e função tireoidiana.

Uma pessoa pode ter anti-TPO muito elevado e TSH e T4L normais. Outra pode ter anti-TPO positivo e hipotireoidismo estabelecido.

E alguém pode apresentar redução do anti-TPO sem que isso signifique recuperação funcional da tireoide.

Por isso, a SBEM recomenda não repetir rotineiramente os anticorpos no acompanhamento de pacientes com Hashimoto já diagnosticado e com anticorpos previamente positivos.

O que interessa principalmente para a função tireoidiana é: TSH + T4L + quadro clínico. Os anticorpos ajudam a explicar por que a doença existe; não necessariamente dizem como a tireoide está funcionando hoje.

 

  1. MITO: “Quem tem Hashimoto precisa tomar T3 porque a tireoide não produz T3 suficiente”

FATO: para a grande maioria dos pacientes, levotiroxina continua sendo o tratamento padrão

Este é um dos assuntos mais controversos — e justamente por isso merece menos dogma e mais ciência.

A tireoide produz T4 e T3, mas grande parte do T3 circulante resulta da conversão periférica de T4 por desiodases.

A levotiroxina fornece T4, que posteriormente pode ser convertido em T3 nos tecidos. A lógica de administrar diretamente T3 é biologicamente atraente, sobretudo para alguns pacientes que continuam sintomáticos apesar de TSH normal.

O problema é que os ensaios clínicos não demonstraram de forma consistente superioridade da combinação T4 + T3 sobre levotiroxina isolada. O consenso internacional de 2021 concluiu que ainda não existem evidências suficientes para recomendar rotineiramente a terapia combinada.

A recomendação do NICE também é clara: levotiroxina deve ser primeira linha e liotironina não deve ser oferecida rotineiramente, isolada ou combinada, pela insuficiência de evidências de benefício e pelas incertezas sobre efeitos adversos de longo prazo.

No Brasil, a iniciativa Choosing Wisely da SBEM igualmente recomenda não prescrever T3 isoladamente ou em combinação com T4 de maneira rotineira.  Isso não significa que a discussão esteja encerrada para todos os pacientes.

Significa que T3 não deve ser transformado em solução universal para sintomas inespecíficos.

Antes de atribuir fadiga, queda de concentração, ganho de peso ou depressão à “falta de T3”, é necessário investigar sono, anemia, deficiência nutricional, menopausa, depressão, medicamentos, obesidade, sedentarismo e outras condições.

 

O que realmente fazer diante do Hashimoto?

Depois dos dez mitos, talvez a conclusão mais importante seja esta:

 

  1. Diagnosticar corretamente

Hashimoto é uma doença autoimune. Anti-TPO e, em algumas situações, anti-Tg ajudam no diagnóstico, mas a função tireoidiana deve ser interpretada principalmente por TSH e T4 livre.

 

  1. Não transformar anticorpo em objetivo terapêutico isolado

Um anti-TPO elevado não significa, sozinho, que o paciente precise de mais medicamento ou de uma dieta radical.

 

  1. Garantir nutrição adequada

Proteína adequada, frutas, verduras, legumes, fibras, gorduras de boa qualidade e micronutrientes suficientes fazem muito mais sentido do que listas intermináveis de alimentos proibidos.

 

  1. Corrigir deficiências reais

Iodo, selênio, vitamina D, ferro, vitamina B12 e outros nutrientes devem ser avaliados quando houver indicação clínica, evitando tanto deficiência quanto excesso.

 

  1. Não retirar glúten ou leite automaticamente

A exclusão deve ter uma razão: doença celíaca, intolerância, alergia ou outra indicação individualizada — e não simplesmente o diagnóstico de Hashimoto.

 

  1. Não ter medo das crucíferas

Brócolis, couve, couve-flor e repolho continuam sendo excelentes alimentos.

 

  1. Cuidado com megadoses de iodo

“Mais” não significa “melhor”. O excesso pode ser particularmente problemático em indivíduos com doença tireoidiana.

 

  1. Enxergar a microbiota como ciência em evolução

A relação entre intestino, imunidade e tireoide é provavelmente real e merece investigação. Mas probiótico não é sinônimo de tratamento de Hashimoto.

 

  1. Não perseguir anticorpos a qualquer custo

O objetivo principal é preservar ou restaurar a função tireoidiana e a qualidade de vida, e não necessariamente produzir um anti-TPO negativo.

 

  1. Usar levotiroxina quando houver indicação

Quando o hipotireoidismo está estabelecido, a levotiroxina permanece o tratamento de referência.

 

A grande lição: plausibilidade não é evidência

Hashimoto é um excelente exemplo de como a medicina pode se perder quando confundimos três níveis diferentes de conhecimento:

 

  1. Mecanismo plausível
    “Isso poderia acontecer biologicamente.”

 

  1. Associação
    “Isso aparece mais frequentemente junto com a doença.”

 

  1. Evidência clínica
    “Quando fazemos uma intervenção controlada, o paciente realmente melhora de maneira clinicamente relevante.”

 

Essas três afirmações não são equivalentes. O glúten pode participar de mecanismos imunológicos? É plausível. A microbiota é diferente em pessoas com Hashimoto? Há evidência de associação. Selênio pode reduzir anti-TPO? Há ensaios clínicos e metanálises sugerindo que sim.

Isso significa que retirar glúten, tomar probióticos e suplementar selênio seja capaz de curar o Hashimoto? Não. E essa talvez seja a mensagem mais importante para o paciente:

Hashimoto não precisa de uma lista interminável de proibições. Precisa de diagnóstico correto, alimentação adequada, correção racional de deficiências, acompanhamento da função tireoidiana e tratamento baseado em evidências.

A medicina nutricional mais sofisticada não é aquela que proíbe mais alimentos que podem participar de um plano alimentar saudável.

É aquela que sabe quando existe uma razão para retirar, quando existe uma razão para suplementar e, principalmente, quando não existe.

 

Referências essenciais

  1. HUWILER, V. V. et al. Selenium supplementation in patients with Hashimoto thyroiditis: a systematic review and meta-analysis of randomized clinical trials. Thyroid, v. 34, n. 3, p. 295–313, 2024.
  2. JONKLAAS, J. et al. Evidence-based use of levothyroxine/liothyronine combinations in treating hypothyroidism: a consensus document. Thyroid, v. 31, n. 2, p. 156–182, 2021.
  3. CHON, D. A. et al. Concurrent milk ingestion decreases absorption of levothyroxine. Thyroid, v. 28, n. 4, p. 454–457, 2018.
  4. RODZIEWICZ, M. et al. The influence of nutritional intervention in the treatment of Hashimoto’s thyroiditis: a systematic review. Nutrients, v. 15, n. 4, 1041, 2023.
  5. HUSSAIN, M. et al. Do Brassica vegetables affect thyroid function? A comprehensive systematic review. International Journal of Molecular Sciences, v. 25, 3988, 2024.
  6. VIRILI, C. et al. The relationship between thyroid and human-associated microbiota: a systematic review of reviews. Reviews in Endocrine and Metabolic Disorders, v. 25, p. 215–237, 2024.
  7. FERNANDES et al. Effects of vitamin D supplementation on autoantibodies and thyroid function in patients with Hashimoto’s thyroiditis: a systematic review and meta-analysis. Medicine, 2024.
  8. AMERICAN THYROID ASSOCIATION. ATA statement on the potential risks of excess iodine ingestion and exposure. 2024 update.
  9. BRASIL. Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia. Choosing Wisely for thyroid conditions: recommendations of the Thyroid Department of the Brazilian Society of Endocrinology and Metabolism. Archives of Endocrinology and Metabolism.
  10. NICE. Thyroid disease: assessment and management. Guideline NG145. Updated 2023, reviewed subsequently.

Disclaimer: Este conteúdo tem finalidade educativa e não substitui avaliação médica individualizada. Condutas relacionadas a levotiroxina, T3, iodo, selênio, vitamina D ou dietas de exclusão devem considerar diagnóstico, idade, gestação, comorbidades, medicamentos, exames laboratoriais e estado nutricional de cada pessoa.

Tireoidite de Hashimoto: quando o sistema imunológico ataca a própria tireoide

 

Durante muito tempo, a tireoidite de Hashimoto foi apresentada de maneira relativamente simples: uma doença autoimune que destrói progressivamente a tireoide e pode levar ao hipotireoidismo.

Essa definição está correta, mas é incompleta. Hoje sabemos que a tireoidite de Hashimoto (TH) é uma doença imunomediada complexa, resultado da interação entre predisposição genética, mecanismos de tolerância imunológica, fatores ambientais, estado nutricional e provavelmente alterações metabólicas e da microbiota intestinal.

E existe uma particularidade clínica importante: a pessoa pode ter Hashimoto durante anos sem apresentar hipotireoidismo.

Isso significa que a presença de anticorpos antitireoidianos não é sinônimo de necessidade imediata de reposição hormonal.

Por outro lado, também significa que olhar apenas para o TSH pode ser insuficiente para compreender toda a história da doença.

 

O que é a tireoidite de Hashimoto?

A tireoidite de Hashimoto, também denominada tireoidite autoimune crônica ou tireoidite linfocítica crônica, caracteriza-se por uma resposta imunológica dirigida contra componentes da própria glândula tireoide.

Os principais marcadores são:

  • anticorpos antiperoxidase tireoidiana (anti-TPO);
  • anticorpos antitireoglobulina (anti-Tg);
  • alterações características da tireoide à ultrassonografia, particularmente heterogeneidade e redução da ecogenicidade.

A consequência, em parte dos pacientes, é uma destruição progressiva do tecido tireoidiano e redução da capacidade de produzir os hormônios T4 e T3.

Mas essa evolução não é obrigatoriamente linear.

Um indivíduo pode apresentar anticorpos positivos, ultrassonografia compatível e função tireoidiana completamente normal. Outro pode desenvolver hipotireoidismo subclínico e, posteriormente, hipotireoidismo manifesto.

Segundo uma revisão publicada recentemente sobre a doença, a patogênese resulta de uma complexa interação entre suscetibilidade genética, fatores ambientais e regulação imunológica, e a apresentação clínica pode variar consideravelmente entre os indivíduos.

 

Hashimoto não é sinônimo de hipotireoidismo

Esta talvez seja uma das primeiras distinções que precisam ser feitas. Hashimoto é uma doença autoimune.

Hipotireoidismo é uma consequência funcional que pode ocorrer em decorrência dela. São conceitos relacionados, mas não equivalentes.

Uma pessoa pode ter: Hashimoto + função tireoidiana normal ou Hashimoto + hipotireoidismo subclínico ou Hashimoto + hipotireoidismo manifesto.

Essa distinção é fundamental porque o tratamento não deve ser determinado simplesmente pela presença de anticorpos.

O objetivo clínico é avaliar o conjunto: sintomas + TSH + T4 livre + anticorpos + ultrassonografia, quando indicada + contexto clínico.

 

Anti-TPO elevado: o que ele realmente significa?

O anticorpo antiperoxidase tireoidiana é o marcador mais utilizado para identificar a autoimunidade tireoidiana.

Um anti-TPO elevado aumenta substancialmente a probabilidade de tireoidite autoimune, mas existe uma questão frequentemente esquecida:

o número do anti-TPO não funciona como um “termômetro” proporcional da gravidade clínica.

Um paciente com anti-TPO de 500 não necessariamente tem uma doença duas vezes mais grave que alguém com anti-TPO de 250.

Da mesma forma, reduzir o anti-TPO não significa necessariamente que a doença foi “curada”.

Esse ponto é particularmente importante quando se avaliam suplementos e intervenções nutricionais.

Uma redução estatisticamente significativa de anticorpos pode ser biologicamente interessante, mas precisamos perguntar: Essa redução produz algum benefício clínico relevante para o paciente? Essa é uma pergunta muito mais difícil.

 

Por que a tireoide é tão vulnerável à autoimunidade?

A tireoide possui características particulares em relação ao metabolismo oxidativo.

A síntese dos hormônios tireoidianos envolve reações que utilizam peróxido de hidrogênio. Portanto, a glândula dispõe de sistemas antioxidantes importantes para controlar o estresse oxidativo.

É nesse contexto que entram algumas enzimas dependentes de selênio, incluindo as glutationa peroxidases e as iodotironina desiodases.

O selênio, portanto, participa de processos fundamentais para o metabolismo tireoidiano e para a proteção antioxidante da glândula.

Mas isso não significa que todo paciente com Hashimoto deva automaticamente receber suplementação. E aqui a literatura recente é particularmente interessante.

 

Selênio: promessa, evidência e cautela

Segundo um interessante estudo publicado em 2024 na revista Thyroid, uma revisão sistemática e meta-análise de ensaios clínicos randomizados avaliou 35 estudos envolvendo pacientes com tireoidite de Hashimoto.

Os autores observaram que a suplementação com selênio esteve associada à redução dos níveis de TSH em pacientes que não utilizavam reposição hormonal e à redução dos níveis de anti-TPO. Entretanto, não foram observadas mudanças significativas em T4, T3, volume tireoidiano ou anticorpos antitireoglobulina. A certeza global da evidência foi considerada moderada.

É um resultado interessante. Mas é importante não dar ao estudo uma interpretação maior do que ele permite. Reduzir anticorpos não é a mesma coisa que interromper a doença autoimune.

E reduzir TSH não significa necessariamente que a história natural da doença tenha sido modificada.

Uma meta-análise mais recente, publicada em 2025 e envolvendo 21 estudos e 1.610 participantes, também encontrou redução de anti-TPO e, em determinadas análises, redução de TSH com suplementação de selênio. Os autores, entretanto, ainda tratam esses resultados no contexto da evidência disponível, e não como demonstração de que o selênio seja um tratamento substitutivo para Hashimoto.

Portanto, a pergunta correta não é: “Selênio funciona para Hashimoto?” Mas: “Em quais pacientes, com qual estado nutricional, qual dose, durante quanto tempo e com qual objetivo clínico o selênio pode oferecer benefício?” Essa é uma pergunta muito mais científica.

 

E a vitamina D?

A vitamina D também desperta grande interesse na investigação da tireoidite autoimune.

Existe plausibilidade biológica para sua participação na regulação imunológica, e estudos observacionais frequentemente encontram associação entre níveis reduzidos de vitamina D e doenças autoimunes.

Mas associação não significa causalidade. É possível que níveis baixos de vitamina D sejam, em determinados indivíduos, consequência de menor exposição solar, características metabólicas ou da própria condição clínica, e não necessariamente uma causa da autoimunidade.

Por isso, embora a correção de deficiência de vitamina D seja importante por razões clínicas gerais, não há evidência suficiente para apresentar a vitamina D como tratamento específico capaz de controlar ou curar a tireoidite de Hashimoto.

 

O papel da alimentação

É aqui que frequentemente encontramos mais entusiasmo do que evidência.

Dietas sem glúten, dietas anti-inflamatórias, dietas de eliminação, dietas cetogênicas, protocolos de jejum e diferentes estratégias nutricionais são frequentemente apresentados como tratamentos para Hashimoto.

Algumas dessas estratégias podem ser úteis para determinados pacientes e determinados objetivos, especialmente quando existe doença celíaca, intolerâncias alimentares, excesso de peso, síndrome metabólica ou outras condições associadas.

Mas não devemos transformar hipóteses fisiopatológicas em recomendações universais.

A ausência de glúten, por exemplo, é absolutamente fundamental para pessoas com doença celíaca. Fora dessa situação, entretanto, a evidência de que retirar o glúten de todas as pessoas com Hashimoto modifique a história natural da doença é insuficiente para justificar uma recomendação universal.

A mesma cautela vale para dietas extremamente restritivas. A alimentação deve ser utilizada como instrumento terapêutico, e não como uma coleção de proibições.

 

Hashimoto e microbiota intestinal

Nos últimos anos, surgiu outro campo fascinante de investigação: a possível relação entre microbiota intestinal, permeabilidade intestinal e autoimunidade tireoidiana.

A hipótese é biologicamente atraente. Alterações na composição da microbiota podem modificar:

  • produção de metabólitos;
  • integridade da barreira intestinal;
  • sinalização imunológica;
  • metabolismo de nutrientes;
  • inflamação sistêmica.

Alguns trabalhos encontraram diferenças na composição da microbiota de pacientes com doenças tireoidianas autoimunes.

Mas ainda estamos diante de uma área em desenvolvimento.

Não sabemos, com segurança, se a alteração da microbiota é causa, consequência ou simplesmente um marcador associado à doença. Esse detalhe é fundamental.

A microbiota é provavelmente importante, mas ainda não temos evidências suficientes para afirmar que “tratar a microbiota” seja capaz de tratar a causa do Hashimoto.

 

O paciente que continua cansado apesar do TSH normal

Este é um dos aspectos mais interessantes da prática clínica. Alguns pacientes tratados com levotiroxina apresentam TSH dentro da faixa de referência e, mesmo assim, continuam relatando:

  • fadiga;
  • dificuldade de concentração;
  • alterações do humor;
  • ganho ou dificuldade de perda de peso;
  • sensação de frio;
  • alterações do sono;
  • redução da qualidade de vida.

Isso não significa automaticamente que o tratamento esteja inadequado ou que o TSH “normal” esteja errado. É necessário ampliar a investigação.

Anemia, deficiência de ferro, deficiência de B12, distúrbios do sono, depressão, ansiedade, menopausa, obesidade, sedentarismo, resistência à insulina e diversas outras condições podem produzir sintomas semelhantes.

Uma revisão recente especificamente dedicada aos sintomas persistentes em pacientes com Hashimoto bioquimicamente eutireoidianos destaca justamente essa complexidade e discute possíveis mecanismos e estratégias de manejo, embora muitas abordagens ainda necessitem de estudos clínicos de melhor qualidade.

 

Portanto:

TSH normal não significa necessariamente que todos os sintomas desaparecerão.

Mas também: Sintomas persistentes não significam necessariamente que o paciente precise de mais hormônio tireoidiano.

 

Levotiroxina continua sendo o tratamento padrão

Quando existe hipotireoidismo manifesto decorrente de Hashimoto, a levotiroxina continua sendo o tratamento de referência.

Seu objetivo é fornecer ao organismo o hormônio tireoidiano que a glândula deixou de produzir adequadamente.

A questão clínica não é simplesmente prescrever levotiroxina, mas utilizá-la corretamente.

A absorção pode ser influenciada por alimentos, café, ferro, cálcio, alguns medicamentos e condições gastrointestinais.

Por isso, antes de concluir que uma dose é insuficiente, é importante perguntar:

O paciente está tomando corretamente? Essa pergunta aparentemente simples pode evitar aumentos desnecessários de dose.

 

T4 ou T4 + T3?

A combinação de levotiroxina (T4) com liotironina (T3) continua sendo tema de discussão.

Existe uma explicação fisiológica para o interesse: o organismo converte T4 em T3 nos tecidos, e algumas pessoas questionam se a reposição exclusivamente com T4 reproduziria perfeitamente a fisiologia individual.

Até o momento, entretanto, os ensaios clínicos não demonstraram benefício consistente da combinação T4/T3 para a maioria dos pacientes com hipotireoidismo.

Portanto, ela não deve ser apresentada como uma evolução automática do tratamento. Em casos selecionados, particularmente diante de sintomas persistentes apesar de tratamento adequado e após exclusão de outras causas, a discussão pode ser individualizada.

 

O que fazer com os anticorpos?

Esta é uma pergunta muito frequente: “Meu anti-TPO está alto. Preciso baixar o anticorpo?” Não necessariamente.

Os anticorpos ajudam no diagnóstico e na caracterização da autoimunidade, mas não devem ser tratados como se fossem um colesterol que precisa obrigatoriamente atingir determinado número.

O que importa clinicamente é o conjunto da doença: função tireoidiana + sintomas + evolução + contexto clínico.

A repetição seriada de anticorpos, portanto, geralmente oferece menos informação do que o acompanhamento adequado da função tireoidiana.

 

O papel do estilo de vida

Aqui existe provavelmente uma oportunidade terapêutica subestimada. Não porque exercício, sono ou alimentação “curem” Hashimoto.

Mas porque a pessoa com Hashimoto não é apenas uma tireoide. Ela é um organismo inteiro.

Excesso de peso, resistência à insulina, sedentarismo, privação de sono, estresse crônico, deficiência de micronutrientes e alimentação inadequada podem coexistir com a doença e influenciar fortemente a percepção de saúde e qualidade de vida.

Uma abordagem verdadeiramente preventiva precisa olhar para esse conjunto. Tratar a tireoide é importante. Cuidar do paciente é maior do que tratar a tireoide.

 

O que realmente podemos dizer hoje?

A ciência sobre Hashimoto avançou muito, mas ainda existem importantes lacunas.

Podemos afirmar com segurança que:

  • Hashimoto é uma doença autoimune;
  • anti-TPO e anti-Tg são importantes marcadores de autoimunidade;
  • nem todo paciente com anticorpos positivos tem hipotireoidismo;
  • levotiroxina é o tratamento padrão do hipotireoidismo manifesto;
  • selênio apresenta sinais de benefício sobre alguns marcadores laboratoriais, especialmente anti-TPO, mas ainda não deve ser considerado tratamento universal da doença;
  • sintomas persistentes merecem investigação ampla, mesmo quando o TSH está normal;
  • alimentação e estilo de vida são importantes para a saúde global, mas não há uma dieta universalmente comprovada como “cura” do Hashimoto;
  • microbiota, imunometabolismo e medicina de precisão representam campos promissores, mas ainda em evolução.

E talvez a principal mensagem seja esta: Hashimoto não deve ser tratado apenas como um número de TSH. É uma doença dinâmica, individual e multifatorial.

O futuro provavelmente estará menos na busca por uma única intervenção capaz de “desligar” a autoimunidade e mais na identificação de diferentes fenótipos da doença — aqueles que apresentam maior risco de progressão, aqueles que permanecem eutireoidianos, aqueles que desenvolvem sintomas persistentes e aqueles nos quais fatores ambientais ou metabólicos podem ter maior importância.

 

Hashimoto e a medicina do futuro

A evolução da medicina está nos levando de uma abordagem baseada em valores isolados para uma análise baseada em trajetórias individuais.

Em vez de olhar apenas: TSH = 4,8, podemos perguntar:

O TSH estava em 1,8 há três anos?
Quando começou a subir?
Qual foi sua velocidade de mudança?
O T4 livre acompanhou essa trajetória?
Os anticorpos estavam presentes antes da alteração funcional?
Houve mudança de peso, medicamentos, sono, estresse ou estado nutricional?

Essa visão longitudinal pode ser particularmente valiosa na tireoidite de Hashimoto. A medicina preventiva não pretende simplesmente descobrir a doença quando ela já está estabelecida.

Pretende compreender a trajetória que conduz até ela. E talvez seja justamente aí que o acompanhamento longitudinal, a integração de dados clínicos e a modelagem matemática possam encontrar um espaço interessante na medicina personalizada.

 

Uma última reflexão

Hashimoto é uma doença em que a fronteira entre imunologia, endocrinologia, metabolismo, nutrição e estilo de vida se torna particularmente evidente. Não devemos cair em dois extremos.

De um lado, reduzir tudo ao TSH. Do outro, atribuir à alimentação, à microbiota ou a suplementos uma capacidade terapêutica que a ciência ainda não demonstrou.

Entre esses dois extremos existe um caminho mais interessante: avaliar o paciente como um todo, tratar aquilo que precisa ser tratado, corrigir deficiências comprovadas, acompanhar a evolução ao longo do tempo e utilizar as melhores evidências disponíveis para individualizar as decisões.

Essa talvez seja a verdadeira medicina de precisão aplicada à tireoidite de Hashimoto.

Disclaimer: Este conteúdo tem finalidade exclusivamente educativa e informativa e não substitui avaliação médica individualizada, diagnóstico ou tratamento. As informações apresentadas refletem o conhecimento científico disponível no momento da publicação, mas novas evidências podem modificar recomendações e interpretações. A decisão sobre exames, medicamentos, suplementos, doses ou intervenções nutricionais deve ser individualizada por profissional habilitado, considerando as características clínicas de cada paciente.

 

Referências selecionadas

Huwiler, V. V. et al. Selenium Supplementation in Patients with Hashimoto Thyroiditis: A Systematic Review and Meta-Analysis of Randomized Clinical Trials. Thyroid, v. 34, n. 3, p. 295–313, 2024.

Kolanu, N. D. et al. From Antibodies to Artificial Intelligence: A Comprehensive Review of Diagnostic Challenges in Hashimoto’s Thyroiditis. Cureus, v. 16, n. 2, e54393, 2024.

Luo, J. et al. Clinical comparative efficacy and therapeutic strategies for the Hashimoto’s thyroiditis: A systematic review and network meta-analysis. Heliyon, v. 10, e35114, 2024.

van Gerwen, M. et al. The Impact of Environmental Factors on the Development of Autoimmune Thyroiditis—Review. 2024.

Kong, X-Q. et al. Clinical efficacy of selenium supplementation in patients with Hashimoto thyroiditis: A systematic review and meta-analysis. Medicine, v. 102, n. 20, e33791, 2023.

Clinical efficacy of selenium supplementation in patients with Hashimoto thyroiditis: A systematic review and meta-analysis. Medicine, 2025. Meta-análise incluindo 21 estudos e 1.610 participantes.

Descobri um Nódulo na Tireoide. E Agora?

 

Receber o resultado de um ultrassom informando a presença de um nódulo na tireoide costuma assustar. Muitas pessoas associam imediatamente a palavra “nódulo” ao câncer. Felizmente, isso quase nunca acontece.

A boa notícia é que mais de 90% dos nódulos da tireoide são benignos, ou seja, não são câncer e, muitas vezes, sequer necessitam de tratamento. O desafio da medicina moderna é identificar corretamente o pequeno grupo de nódulos que merece investigação ou tratamento, evitando cirurgias desnecessárias (Haugen et al., 2016; Durante et al., 2018).

 

O que é a tireoide?

A tireoide é uma pequena glândula localizada na parte da frente do pescoço, logo abaixo do “pomo de Adão”. Ela produz os hormônios T3 e T4, responsáveis por controlar o metabolismo, a temperatura corporal, os batimentos cardíacos, o funcionamento do intestino, o gasto de energia e diversos outros processos do organismo.

Um nódulo é simplesmente uma área da glândula que cresceu de forma diferente do restante do tecido. Esse crescimento pode ser sólido, cheio de líquido (cístico) ou misto. Ter um nódulo não significa, por si só, que exista uma doença grave.

 

Quão frequentes são os nódulos?

Os nódulos da tireoide estão entre os achados mais comuns da endocrinologia. Quando o médico examina apenas o pescoço, consegue sentir nódulos em cerca de 4 a 7% dos adultos.

Entretanto, quando se realiza um ultrassom de alta resolução, pequenos nódulos podem ser encontrados em 20 a 70% da população adulta, especialmente após os 50 anos (Durante et al., 2018).

Isso significa que muitas pessoas convivem com nódulos durante toda a vida sem jamais apresentar qualquer problema.

 

Eles estão ficando mais frequentes?

Sim, mas existe uma explicação importante. Nas últimas décadas houve um aumento expressivo do número de diagnósticos de nódulos e também de câncer de tireoide.

Hoje sabemos que boa parte desse aumento ocorreu porque os exames de imagem ficaram muito mais sensíveis. Pequenos nódulos, que antigamente passavam despercebidos, passaram a ser encontrados durante ultrassonografias realizadas por outros motivos.

Curiosamente, apesar do aumento do número de diagnósticos, a mortalidade por câncer de tireoide permaneceu praticamente estável em muitos países, mostrando que muitos tumores descobertos atualmente apresentam comportamento pouco agressivo (Vaccarella et al., 2021).

Esse conhecimento mudou profundamente a forma como os médicos tratam essa doença.

 

Quem tem maior risco?

Os nódulos são muito mais comuns em:

  • mulheres;
  • pessoas acima dos 40 ou 50 anos;
  • indivíduos com deficiência de iodo (hoje menos frequente em países que utilizam sal iodado);
  • pessoas com história familiar de doenças da tireoide;
  • pacientes expostos à radiação na infância ou adolescência.

Ter um nódulo, entretanto, continua sendo muito mais comum do que desenvolver câncer.

 

Quais são os sintomas?

Na maioria das vezes, não existe sintoma algum. O nódulo costuma ser descoberto:

  • durante um ultrassom realizado por outro motivo;
  • em exames de check-up;
  • quando o próprio paciente percebe um pequeno caroço no pescoço;
  • durante o exame físico realizado pelo médico.

Quando maiores, alguns nódulos podem provocar:

  • sensação de pressão no pescoço;
  • dificuldade para engolir;
  • rouquidão persistente;
  • desconforto ao deitar;
  • sensação de “bolo na garganta”.

É importante lembrar que esses sintomas podem ocorrer também por diversas outras causas.

 

O nódulo altera o funcionamento da tireoide?

Na maioria das pessoas, não. Grande parte dos nódulos aparece em indivíduos com função hormonal normal.

Por isso, um dos primeiros exames solicitados costuma ser o TSH, que avalia como a tireoide está funcionando.

Quando o TSH está diminuído, pode haver um nódulo produtor de hormônios (“nódulo quente”), situação em que, muitas vezes, também é indicada uma cintilografia da tireoide (ATA, 2016).

 

Existe relação com doenças autoimunes?

Existe, mas ela não é obrigatória. A principal doença autoimune da tireoide é a tireoidite de Hashimoto.

Pessoas com Hashimoto podem apresentar nódulos, embora a maioria deles também seja benigna.

Alguns estudos sugerem discreto aumento do risco de carcinoma papilífero em pacientes com Hashimoto, mas essa associação ainda é motivo de discussão científica e não significa que todo paciente com tireoidite desenvolverá câncer (ETA, 2023).

 

Como o médico investiga um nódulo?

A avaliação começa com três etapas simples:

  1. História clínica

O médico pergunta sobre:

  • crescimento rápido;
  • rouquidão;
  • dificuldade para engolir;
  • exposição prévia à radioterapia;
  • casos de câncer de tireoide na família.
  1. Exame físico

Durante a consulta, observa-se:

  • tamanho da glândula;
  • consistência do nódulo;
  • mobilidade;
  • presença de linfonodos aumentados no pescoço.

Esses achados ajudam a definir o risco.

  1. Exames laboratoriais

O principal exame é o TSH.

Dependendo do caso, podem ser solicitados T4 livre, anticorpos antitireoidianos e calcitonina em situações específicas.

 

O ultrassom mudou completamente o diagnóstico

O exame mais importante para avaliar um nódulo é a ultrassonografia. Ela informa muito mais do que o tamanho do nódulo. O radiologista analisa características capazes de estimar o risco de malignidade, como:

  • se o nódulo é sólido ou cístico;
  • sua ecogenicidade (mais claro ou mais escuro);
  • presença de microcalcificações;
  • formato;
  • regularidade das bordas;
  • invasão de estruturas vizinhas;
  • alterações nos linfonodos do pescoço.

Hoje sabemos que essas características são muito mais importantes do que o tamanho isoladamente.

 

O que é o TI-RADS?

Para facilitar a interpretação dos exames, foi criado um sistema internacional chamado TI-RADS (Thyroid Imaging Reporting and Data System).

Ele funciona de maneira semelhante ao BI-RADS utilizado na mamografia.

Cada característica observada no ultrassom recebe uma pontuação.

No final, o nódulo é classificado em uma categoria de risco:

  • TR1 – benigno.
  • TR2 – praticamente benigno.
  • TR3 – baixo risco.
  • TR4 – risco intermediário.
  • TR5 – alta suspeita de malignidade.

É importante entender que TR5 não significa diagnóstico de câncer. Apenas indica que o nódulo merece investigação mais cuidadosa, geralmente com punção aspirativa, dependendo também do seu tamanho (Tessler et al., 2017).

 

Resumo prático

O que tranquiliza?

✔ Mais de 90% dos nódulos são benignos.

✔ Muitos nunca precisarão de cirurgia.

✔ O ultrassom é capaz de identificar com boa precisão quais nódulos apresentam maior risco.

✔ Nem todo nódulo precisa de punção.

Quando procurar um endocrinologista?

✔ Surgimento de um nódulo palpável.

✔ Crescimento perceptível do pescoço.

✔ Rouquidão persistente.

✔ Dificuldade para engolir.

✔ Histórico familiar de câncer de tireoide.

✔ Exposição à radiação durante a infância.

Na segunda parte veremos quando é necessário realizar a punção por agulha fina (PAAF), o que significa a classificação de Bethesda, quando a cirurgia é indicada, quais pacientes podem apenas ser acompanhados, o papel da radiofrequência, os avanços da medicina genômica e o que realmente funciona para cuidar da saúde da tireoide.

 

Disclaimer

Este artigo tem finalidade exclusivamente educativa e não substitui a consulta médica. A presença de um nódulo na tireoide não significa, necessariamente, câncer. A avaliação deve ser individualizada e realizada por profissional habilitado.

 

Referências

AMERICAN THYROID ASSOCIATION (ATA). HAUGEN, B. R. et al. 2015 American Thyroid Association Management Guidelines for Adult Patients with Thyroid Nodules and Differentiated Thyroid Cancer. Thyroid, v. 26, n. 1, p. 1-133, 2016.

DURANTE, C. et al. Long-term surveillance of benign thyroid nodules: ultrasonography behavior and clinical implications. JAMA, v. 313, n. 9, p. 926-935, 2015.

TESSLER, F. N. et al. ACR Thyroid Imaging, Reporting and Data System (ACR TI-RADS): White Paper of the ACR TI-RADS Committee. Journal of the American College of Radiology, v. 14, n. 5, p. 587-595, 2017.

VACCARELLA, S. et al. The impact of diagnostic changes on the rise in thyroid cancer incidence: a population-based study. The Lancet Diabetes & Endocrinology, v. 9, n. 5, p. 323-330, 2021.

EUROPEAN THYROID ASSOCIATION (ETA). 2023 European Thyroid Association Clinical Practice Guidelines for thyroid nodule management. European Thyroid Journal, 2023.

 

 

Nódulos da Tireoide – Parte 2

 

Como saber se um nódulo é benigno ou maligno?

Depois do ultrassom, a dúvida mais comum é: “Será que esse nódulo é câncer?”

Felizmente, a medicina dispõe hoje de excelentes ferramentas para responder a essa pergunta, e a maioria delas permite evitar cirurgias desnecessárias.

 

O ultrassom é o primeiro filtro

Como vimos na primeira parte, o ultrassom não serve apenas para medir o tamanho do nódulo. Ele analisa características que ajudam a estimar o risco de malignidade.

Por exemplo, um nódulo sólido, muito escuro (hipoecoico), com bordas irregulares, microcalcificações e formato “mais alto do que largo” desperta mais preocupação do que um nódulo cístico ou predominantemente líquido, de contornos regulares (Tessler et al., 2017; ETA, 2023).

É justamente a combinação dessas características que determina a classificação pelo ACR TI-RADS. Mas existe um detalhe importante: Nem todo nódulo classificado como TI-RADS 4 ou 5 é câncer.

Da mesma forma, nem todo nódulo precisa ser puncionado. O tamanho do nódulo e suas características são analisados em conjunto para decidir a melhor conduta.

 

O que é a punção da tireoide?

Quando o risco é considerado suficiente, o médico pode solicitar uma Punção Aspirativa por Agulha Fina (PAAF). Apesar do nome assustar, trata-se de um procedimento simples.

Com auxílio do ultrassom, uma agulha muito fina é introduzida no nódulo para retirar algumas células, que serão analisadas pelo patologista.

Na maioria das vezes:

  • não é necessário internamento;
  • não há necessidade de anestesia geral;
  • o procedimento dura poucos minutos;
  • o paciente retorna às suas atividades logo em seguida.

A PAAF tornou-se um dos exames mais importantes da endocrinologia moderna porque evita milhares de cirurgias desnecessárias todos os anos (Haugen et al., 2016).

 

O que é o Sistema Bethesda?

Depois da punção, o resultado não vem simplesmente como “benigno” ou “maligno”.

Os patologistas utilizam uma classificação internacional chamada Sistema Bethesda, que organiza os resultados em seis categorias.

Bethesda I

O material coletado foi insuficiente para análise.

Normalmente é necessário repetir a punção.

Bethesda II

Resultado benigno.

É a situação mais frequente.

O risco de câncer costuma ser inferior a 3%.

Na maioria dos casos, apenas acompanhamento periódico é suficiente.

Bethesda III

Resultado indeterminado.

Algumas células apresentam alterações, mas ainda não é possível afirmar se o nódulo é benigno ou maligno.

Dependendo do caso, pode-se repetir a punção, solicitar testes moleculares ou indicar cirurgia.

Bethesda IV

Sugere neoplasia folicular.

Também costuma exigir investigação adicional ou tratamento cirúrgico, pois apenas a análise completa do tecido permite diferenciar adenoma de carcinoma folicular.

Bethesda V

Alta suspeita de malignidade.

O risco de câncer é elevado.

Na maioria das vezes, a cirurgia é recomendada.

Bethesda VI

Maligno.

O diagnóstico citológico é compatível com câncer, geralmente carcinoma papilífero da tireoide.

 

Resumo prático do Bethesda

Categoria O que significa? Conduta habitual
I Material insuficiente Repetir PAAF
II Benigno Acompanhar
III Indeterminado Nova investigação
IV Suspeita de neoplasia folicular Geralmente cirurgia
V Alta suspeita de câncer Cirurgia
VI Câncer Tratamento cirúrgico

 

É importante lembrar que essa tabela representa a conduta mais comum. A decisão final depende da idade do paciente, do ultrassom, do tamanho do nódulo e de outros fatores clínicos.

 

O que são testes moleculares?

Nos últimos anos surgiu uma nova ferramenta para ajudar justamente nos casos em que a punção não fornece uma resposta definitiva.

São os chamados testes moleculares.

Eles pesquisam alterações genéticas nas células retiradas durante a punção.

Entre as mutações mais estudadas estão:

  • BRAF
  • RAS
  • RET
  • NTRK
  • TERT

Além disso, plataformas como ThyroSeq® e Afirma® analisam dezenas ou centenas de genes simultaneamente.

Seu principal objetivo não é descobrir todos os cânceres, mas evitar cirurgias desnecessárias em pacientes com resultados indeterminados da punção (NIKIFOROV, Y. E et al 2016; LIVHITS, M. J. et al 2021).

Hoje esses testes já fazem parte das diretrizes internacionais em situações específicas, embora ainda tenham custo elevado e disponibilidade limitada em muitos países.

 

Existem outros exames?

Na maioria dos pacientes, o ultrassom e a punção fornecem todas as informações necessárias.

Tomografia, ressonância magnética ou PET-CT raramente são utilizados na investigação inicial de um nódulo.

Quando o TSH está baixo, pode ser indicada uma cintilografia da tireoide, que ajuda a identificar os chamados nódulos quentes, produtores de hormônios.

Esses nódulos apresentam risco muito baixo de malignidade e costumam ser tratados por causa do hipertireoidismo, e não pelo risco de câncer (ATA, 2016).

 

Quais sinais merecem maior atenção?

Embora a maioria dos nódulos seja benigna, alguns sinais justificam investigação mais cuidadosa:

✔ crescimento rápido;

✔ rouquidão persistente;

✔ dificuldade progressiva para engolir;

✔ dificuldade para respirar;

✔ linfonodos aumentados no pescoço;

✔ história de radioterapia na infância;

✔ parentes de primeiro grau com câncer medular de tireoide ou síndromes hereditárias associadas.

Esses sinais não significam necessariamente câncer, mas indicam que a avaliação médica deve ser feita com maior atenção.

 

O que a ciência demonstra

✔ A ultrassonografia é o exame mais importante para estratificar o risco de um nódulo.

✔ A maioria das punções revela nódulos benignos.

✔ O Sistema Bethesda padronizou a interpretação da citologia e reduziu decisões desnecessárias.

✔ Os testes moleculares representam um dos maiores avanços dos últimos anos, principalmente para os nódulos de resultado indeterminado.

 

O que ainda é mais promessa do que evidência

✘ Que exames de sangue possam substituir a punção.

✘ Que inteligência artificial, sozinha, já consiga substituir o médico na interpretação dos nódulos.

✘ Que todos os testes genéticos estejam indicados para qualquer paciente.

Na próxima parte veremos quando um nódulo precisa ser operado, quando apenas o acompanhamento é suficiente e por que uma das maiores novidades da endocrinologia atual é justamente não operar alguns pequenos cânceres da tireoide.

 

Referências

AMERICAN THYROID ASSOCIATION (ATA). HAUGEN, B. R. et al. 2015 American Thyroid Association Management Guidelines for Adult Patients with Thyroid Nodules and Differentiated Thyroid Cancer. Thyroid, v. 26, n. 1, p. 1–133, 2016.

EUROPEAN THYROID ASSOCIATION (ETA). 2023 European Thyroid Association Clinical Practice Guidelines for Thyroid Nodule Management. European Thyroid Journal, 2023.

LIVHITS, M. J. et al. Effectiveness of Molecular Testing Techniques for Diagnosis of Indeterminate Thyroid Nodules: A Systematic Review and Meta-analysis. JAMA Oncology, 2021.

NIKIFOROV, Y. E.; SEETHALA, R. R.; TALLINI, G. et al. Nomenclature Revision for Encapsulated Follicular Variant of Papillary Thyroid Carcinoma: A Paradigm Shift to Reduce Overtreatment of Indolent Tumors. JAMA Oncology, v. 2, n. 8, p. 1023–1029, 2016.

TESSLER, F. N. et al. ACR Thyroid Imaging, Reporting and Data System (ACR TI-RADS): White Paper of the ACR TI-RADS Committee. Journal of the American College of Radiology, v. 14, n. 5, p. 587–595, 2017.

 

 

Nódulos da Tireoide – Parte IIB

Quando tratar, quando apenas acompanhar e as novidades que estão mudando a Endocrinologia

 

Durante muitos anos, descobrir um nódulo suspeito na tireoide quase sempre levava à cirurgia.Hoje, essa realidade mudou.

Graças a estudos realizados principalmente no Japão, Coreia do Sul, Europa e Estados Unidos, aprendemos que nem todos os nódulos precisam ser operados e nem todo câncer da tireoide exige tratamento imediato. Em muitos casos, observar cuidadosamente pode ser a melhor decisão (ATA, 2025).

 

Quando apenas acompanhar?

Se a punção demonstrar que o nódulo é benigno (Bethesda II), normalmente não há necessidade de tratamento. A recomendação costuma ser apenas acompanhamento periódico com ultrassonografia. A frequência depende das características do nódulo.

De forma geral:

  • nódulos muito estáveis podem ser reavaliados em 12 a 24 meses;
  • se permanecerem sem alterações importantes, os intervalos podem ser ampliados;
  • alguns nódulos pequenos e claramente benignos podem até deixar de necessitar acompanhamento regular, conforme avaliação médica (ETA, 2023).

Mais importante do que um pequeno aumento de tamanho é o aparecimento de novas características suspeitas ao ultrassom.

 

Quando repetir a punção?

Nem todo crescimento significa câncer. Na verdade, muitos nódulos benignos aumentam discretamente ao longo dos anos. A nova punção costuma ser indicada quando:

  • surgem características ultrassonográficas suspeitas;
  • ocorre crescimento significativo;
  • o primeiro exame foi inconclusivo;
  • existe discordância entre a punção e o ultrassom.

 

Quando a cirurgia é indicada?

A cirurgia continua sendo o melhor tratamento em diversas situações. Ela costuma ser recomendada quando:

  • a punção confirma câncer (Bethesda VI);
  • existe alta suspeita de malignidade (Bethesda V);
  • há suspeita de neoplasia folicular em situações selecionadas;
  • o nódulo provoca compressão importante da traqueia ou do esôfago;
  • há crescimento progressivo associado a sintomas;
  • o paciente prefere tratamento definitivo após discutir riscos e benefícios.

Dependendo do caso, pode ser retirada apenas metade da glândula (lobectomia) ou toda a tireoide (tireoidectomia total).

Hoje existe uma tendência mundial de preservar mais tecido tireoidiano sempre que isso for seguro, reduzindo a necessidade de reposição hormonal definitiva (ATA, 2025).

 

Como é a recuperação?

Na maioria dos pacientes, a cirurgia é bastante segura quando realizada por equipes experientes.

As complicações são pouco frequentes, mas podem incluir:

  • rouquidão temporária ou permanente;
  • queda do cálcio por alteração das paratireoides;
  • sangramento;
  • infecção (rara).

Felizmente, a grande maioria dos pacientes evolui muito bem.

 

Uma das maiores novidades: a vigilância ativa

Este talvez seja o conceito que mais mudou nos últimos anos.

Durante décadas, praticamente todo câncer da tireoide era operado logo após o diagnóstico.

Hoje sabemos que alguns microcarcinomas papilíferos, geralmente com até 1 cm, sem sinais de invasão ou metástases, apresentam crescimento extremamente lento.

Em pacientes cuidadosamente selecionados, as diretrizes atuais admitem que o tratamento inicial possa ser simplesmente acompanhar o tumor com ultrassonografias periódicas, adiando ou até evitando a cirurgia (ATA, 2025).

É importante destacar: isso não significa ignorar um câncer.

Significa observá-lo cuidadosamente, intervindo apenas se houver sinais de crescimento ou mudança de comportamento. Essa estratégia exige acompanhamento regular e decisão compartilhada entre médico e paciente.

 

Radiofrequência: uma alternativa à cirurgia?

Outra novidade importante é a ablação por radiofrequência (RFA). Nesse procedimento, uma agulha especial introduzida sob orientação ultrassonográfica aquece o interior do nódulo, destruindo parte do tecido sem necessidade de cirurgia.

Hoje, há consenso internacional de que a radiofrequência é uma excelente opção para nódulos benignos sintomáticos, principalmente quando provocam desconforto estético ou compressão. Ela costuma reduzir significativamente o volume do nódulo, preservando a função da tireoide e proporcionando recuperação mais rápida do que uma cirurgia.

Quanto aos pequenos cânceres papilíferos, a radiofrequência também vem sendo estudada com resultados promissores. As diretrizes mais recentes admitem seu uso em pacientes cuidadosamente selecionados, especialmente quando recusam cirurgia ou vigilância ativa, ou apresentam contraindicação ao tratamento cirúrgico. Entretanto, a cirurgia continua sendo o tratamento padrão na maioria dos casos, e a radiofrequência ainda deve ser indicada apenas por equipes experientes e após decisão compartilhada.

 

Medicina de precisão

Outro avanço importante foi o desenvolvimento dos testes moleculares. Hoje é possível pesquisar mutações como:

  • BRAF V600E
  • RAS
  • RET
  • NTRK
  • TERT

Essas informações ajudam principalmente quando a punção apresenta resultado indeterminado, permitindo selecionar melhor os pacientes que realmente se beneficiarão da cirurgia.

Apesar desse avanço, esses exames não substituem a avaliação clínica nem o ultrassom.

 

Existe relação com a microbiota intestinal?

A microbiota intestinal tem despertado enorme interesse em praticamente todas as áreas da medicina. No caso dos nódulos da tireoide, entretanto, as evidências ainda são iniciais.

Alguns estudos sugerem alterações no perfil da microbiota em pacientes com doenças tireoidianas, mas ainda não existe demonstração de que modificar a microbiota reduza nódulos ou previna câncer da tireoide. Por enquanto, trata-se de um campo promissor, porém experimental.

 

O estilo de vida pode ajudar?

Pode, embora não faça um nódulo desaparecer. As recomendações mais importantes continuam sendo:

  • alimentação equilibrada;
  • ingestão adequada (e não excessiva) de iodo;
  • cessar o tabagismo;
  • manter peso saudável;
  • praticar atividade física regularmente;
  • controlar doenças metabólicas;
  • evitar suplementação indiscriminada de iodo ou hormônios tireoidianos.

Essas medidas não eliminam um nódulo já formado, mas contribuem para a saúde geral e reduzem diversos fatores de risco.

 

Tratamentos complementares

É comum surgirem propostas de fitoterápicos, suplementos, acupuntura, ozonioterapia ou “dietas para dissolver nódulos”.

Até o momento, não existem evidências científicas robustas de que essas abordagens façam um nódulo benigno desaparecer ou previnam câncer de tireoide.

Algumas práticas integrativas podem contribuir para redução do estresse, melhora do bem-estar e qualidade de vida, mas devem ser vistas como complementares e jamais substituir o acompanhamento médico.

 

Mitos e verdades

“Todo nódulo é câncer.”
❌ Mito. Mais de 90% são benignos.

 

“Toda pessoa com câncer de tireoide precisa ser operada imediatamente.”
❌ Não necessariamente. Alguns microcarcinomas de baixo risco podem ser acompanhados com segurança em pacientes selecionados.

 

“Punção espalha o câncer.”
❌ Mito. A PAAF é considerada um procedimento seguro e não aumenta o risco de disseminação tumoral.

 

“Se o nódulo crescer um pouco, é porque virou câncer.”
❌ Nem sempre. Muitos nódulos benignos aumentam discretamente ao longo dos anos.

 

O que a ciência demonstra

✔ A maioria dos nódulos da tireoide é benigna.

✔ O ultrassom e a PAAF permitem excelente estratificação de risco.

✔ Nem todo nódulo precisa de cirurgia.

✔ A vigilância ativa é uma opção segura para pacientes cuidadosamente selecionados com microcarcinoma papilífero de baixo risco.

✔ A radiofrequência tornou-se uma alternativa consolidada para muitos nódulos benignos sintomáticos.

 

O que ainda é mais promessa do que evidência

✘ Dietas capazes de eliminar nódulos.

✘ Fitoterápicos que façam um nódulo desaparecer.

✘ Modulação da microbiota como tratamento dos nódulos tireoidianos.

✘ Testes genéticos indicados para todos os pacientes.

 

Mensagem final

Talvez a maior lição deixada pelos estudos mais recentes seja que a medicina moderna está cada vez mais personalizada. O objetivo já não é tratar todos os pacientes da mesma maneira, mas compreender o risco individual de cada nódulo e escolher a estratégia mais adequada para aquela pessoa. Em muitos casos, isso significa operar; em outros, significa apenas acompanhar. Saber diferenciar essas situações é um dos maiores avanços da endocrinologia nas últimas décadas.

 

Disclaimer

Este artigo tem finalidade exclusivamente educativa e não substitui avaliação médica. O diagnóstico e o tratamento dos nódulos da tireoide devem ser individualizados, levando em consideração a história clínica, o exame físico, os exames laboratoriais, a ultrassonografia, a citologia e as preferências do paciente.

 

Referências

AMERICAN THYROID ASSOCIATION. 2025 American Thyroid Association Management Guidelines for Adult Patients with Differentiated Thyroid Cancer. Thyroid, 2025.

HAUGEN, B. R. et al. 2015 American Thyroid Association Management Guidelines for Adult Patients with Thyroid Nodules and Differentiated Thyroid Cancer. Thyroid, v. 26, n. 1, p. 1-133, 2016.

EUROPEAN THYROID ASSOCIATION (ETA). 2023 European Thyroid Association Clinical Practice Guidelines for Thyroid Nodule Management. European Thyroid Journal, 2023.

SINCLAIR, C. F. et al. General Principles for the Safe Performance, Training, and Adoption of Ablation Techniques for Benign Thyroid Nodules: An American Thyroid Association Statement. Thyroid, v. 33, n. 10, 2023.

ORLOFF, L. A. et al. Radiofrequency Ablation and Related Ultrasound-Guided Ablation Technologies for Treatment of Benign and Malignant Thyroid Disease: An International Multidisciplinary Consensus Statement. Head & Neck, v. 44, p. 633-660, 2022.

2024 International Expert Consensus on Ultrasound-Guided Thermal Ablation for T1N0M0 Papillary Thyroid Cancer. Radiology, 2025 (consenso internacional publicado eletronicamente com atualização de 2025).

 

 

 

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