As ambiguidades da medicina: quando aquilo que parecia verdade deixou de ser

 

Embora a ciência médica seja frequentemente celebrada por suas conquistas extraordinárias, há um reverso menos confortável em sua história: o legado de conceitos tidos como verdades absolutas que, posteriormente, a própria ciência desmistificou.

Durante séculos, médicos competentes, bem-intencionados e respeitados defenderam teorias e tratamentos que hoje nos parecem estranhos, inúteis ou até perigosos.

Alguns eram baseados em conhecimentos incompletos; outros, em observações mal interpretadas; alguns foram mantidos pela tradição; outros, pela autoridade de seus defensores.

E houve situações em que uma prática nova, que posteriormente se mostrou correta, foi inicialmente recebida com desconfiança ou até ridicularização.

Isso não significa que a medicina seja uma fraude ou que “a ciência não sabe nada”. Significa exatamente o contrário: a ciência é valiosa porque admite a possibilidade de estar errada.

 

Quando lavar as mãos parecia uma excentricidade

Poucas histórias ilustram melhor essa característica da medicina do que a de Ignaz Semmelweis.

Na década de 1840, a febre puerperal era uma das grandes causas de morte de mulheres após o parto. Semmelweis observou que a mortalidade era muito maior numa das clínicas obstétricas do Hospital Geral de Viena, onde mulheres eram examinadas por médicos e estudantes que também trabalhavam nas salas de autópsia.

Ele percebeu algo perturbador: quando os médicos lavavam as mãos com solução de cal clorada antes de examinar as parturientes, a mortalidade caía drasticamente. Entre 1847 e 1849, a diferença entre as clínicas praticamente desapareceu (Semmelweis, 1847–1849; Best; Neuhauser, 2004).

Hoje parece óbvio. Na época, não era. A teoria microbiana das doenças ainda não estava consolidada. A ideia de que as mãos de médicos poderiam transportar algo invisível de um cadáver para uma mulher saudável era difícil de aceitar. A proposta encontrou resistência, e a adoção rotineira da antissepsia obstétrica demorou décadas. O trabalho posterior de Joseph Lister e o desenvolvimento da teoria microbiana contribuíram decisivamente para a mudança da prática cirúrgica (Tröhler, 2015).

Lister publicou em 1867 seu trabalho clássico sobre o princípio antisséptico na cirurgia. Sua proposta também encontrou resistência e debate, especialmente na Grã-Bretanha. A aceitação não aconteceu de um dia para o outro.

A história costuma ser contada como se Semmelweis tivesse descoberto uma verdade evidente que médicos “burros” recusaram. A realidade é mais complexa. Ele tinha uma observação clínica extraordinariamente importante, mas ainda não possuía uma explicação microbiológica adequada.

Essa distinção é preciosa. Uma pessoa pode estar certa sobre um fenômeno e errada sobre sua explicação. Também pode acontecer o contrário: uma teoria aparentemente elegante pode sobreviver durante muito tempo sem produzir resultados clínicos verdadeiros.

 

Sangrar o paciente para curá-lo

Durante muitos séculos, a sangria foi uma das principais ferramentas terapêuticas da medicina ocidental. A retirada de sangue era empregada em numerosas doenças, apoiada por concepções fisiológicas que pareciam coerentes dentro do modelo médico de cada época.

Hoje sabemos que, para a maioria das condições em que era utilizada, a sangria era ineficaz ou potencialmente prejudicial.

A história é particularmente interessante porque seu abandono não aconteceu simplesmente quando alguém “descobriu a verdade”. Ele foi gradual e envolveu uma mudança profunda na maneira de compreender o organismo e a própria doença (Drakman, 2025).

A medicina contemporânea ainda utiliza retirada terapêutica de sangue em situações específicas, como hemocromatose e policitemia vera. Portanto, até mesmo a conclusão “sangria é ruim” seria simplista. A mesma intervenção pode ser inútil em uma doença e fundamental em outra. O contexto importa.

 

O cigarro que acalmava

Talvez seja difícil imaginar hoje, mas houve um período em que o tabaco não era simplesmente tolerado: ele foi considerado por séculos uma espécie de medicamento vegetal e chegou a ser utilizado por médicos para diversas finalidades terapêuticas (Greene, 2020).

Já no século XX, a publicidade da indústria do tabaco passou a utilizar médicos e sua autoridade para transmitir uma imagem de segurança. Nas décadas de 1930 e 1940, anúncios de cigarros faziam referência direta a médicos e procuravam associar determinadas marcas a menor irritação ou maior segurança (Gardner; Brandt, 2006).

Havia também uma percepção subjetiva que ajudava a sustentar essa ideia: fumar parecia acalmar.

Hoje compreendemos melhor o fenômeno. A nicotina pode produzir alterações agudas de humor e reduzir temporariamente determinados sintomas desagradáveis, mas, em fumantes dependentes, parte importante da sensação de “relaxamento” corresponde à reversão dos sintomas de abstinência provocados pela própria dependência (Parrott, 2003).

O que parecia um ansiolítico podia, portanto, participar da criação do problema que depois parecia aliviar.

É uma lembrança importante para a medicina atual: uma melhora imediata de um sintoma não prova benefício em longo prazo.

 

Quando o refinamento dos alimentos parecia progresso

A história da alimentação também contém seus paradoxos. Com o desenvolvimento da moagem e do polimento industrial, alimentos como o arroz passaram a ser cada vez mais refinados. O arroz branco era visualmente mais atraente, tinha maior durabilidade e podia ser considerado um produto de qualidade superior.

Entretanto, o polimento removia camadas externas do grão que continham nutrientes essenciais.

O trabalho de Christiaan Eijkman, posteriormente reconhecido com o Prêmio Nobel, mostrou a relação entre arroz polido e uma doença semelhante ao beribéri em animais. Estudos posteriores demonstraram que o problema estava relacionado à ausência de um fator nutricional que hoje conhecemos como tiamina ou vitamina B1 (Eijkman, 1897; Carpenter, 1995).

O paradoxo é fascinante: a tecnologia havia produzido um alimento aparentemente mais “limpo”, mais refinado e mais valorizado, mas retirara justamente uma parte importante de seu valor nutricional.

Isso não significa que todo alimento refinado seja necessariamente ruim. Significa que aparência, palatabilidade, conservação, tecnologia e valor nutricional não são sinônimos. É uma distinção que continua extremamente atual.

 

O álcool e a longa história da “dose saudável”

Talvez nenhuma outra substância tenha produzido tanta ambiguidade na comunicação médica quanto o álcool.

Durante décadas, difundiu-se a ideia de que pequenas quantidades, especialmente de vinho, poderiam proteger o coração. Estudos observacionais encontravam associações entre consumo moderado e determinados desfechos cardiovasculares, contribuindo para a famosa curva em “J”.

O problema é que associação não significa necessariamente causalidade.  O grande estudo do Global Burden of Disease publicado no Lancet em 2018 avaliou dados de 195 países e concluiu que o risco global de dano aumenta com o consumo de álcool e que, considerando o conjunto de desfechos avaliados, o nível de consumo associado ao menor risco global foi zero (GBD 2016 Alcohol Collaborators, 2018).

Isso não significa que todo médico que anteriormente falou em “uma taça de vinho para o coração” fosse irresponsável. Significa que a interpretação das evidências mudou.

E existe aqui uma lição especialmente importante: uma recomendação médica pode parecer extremamente razoável em determinado momento histórico e, posteriormente, revelar-se inadequada quando métodos melhores permitem controlar melhor os vieses.

 

Medicamentos que pareciam promissores

A história farmacológica é ainda mais contundente. A talidomida, introduzida no final dos anos 1950 como sedativo, foi utilizada em diversos países e acabou associada a milhares de malformações congênitas. Nos Estados Unidos, a médica Frances Kelsey, da FDA, recusou-se a aprovar o medicamento por considerar insuficientes os dados de segurança. O episódio contribuiu para mudanças importantes na legislação norte-americana, incluindo a exigência de evidências de eficácia e maior rigor na avaliação dos medicamentos (FDA, 2023).

Outro exemplo foi o dietilestilbestrol (DES). Prescrito durante décadas a mulheres grávidas para prevenir aborto e parto prematuro, posteriormente demonstrou não ser eficaz para essas finalidades e foi associado a um risco aumentado de carcinoma de células claras de vagina e colo em mulheres expostas ainda no útero (NCI, 2026).

Não eram “poções de charlatães”. Eram medicamentos inseridos na medicina convencional. Isso deveria nos ensinar alguma coisa sobre a palavra convencional. Convencional significa aceito naquele momento. Não significa necessariamente definitivo.

 

Cirurgias que funcionavam — mas cobravam um preço alto demais

A história dos procedimentos médicos contém exemplos semelhantes. Na cirurgia da obesidade, o bypass jejunoileal, desenvolvido nas décadas de 1950 e 1960, produzia impressionante perda de peso porque provocava uma enorme redução da superfície intestinal funcional.

O problema foi que essa eficácia tinha um preço elevado: diarreia intensa, distúrbios eletrolíticos, deficiência nutricional, doença renal, doença hepática e outras complicações graves. O procedimento acabou abandonado (Kremen et al., 1954; Griffen, 1981).

Aqui aparece outro princípio fundamental da medicina: não basta que um tratamento produza o efeito desejado. É preciso saber a que custo. Uma intervenção pode reduzir um marcador, um sintoma ou até produzir uma grande perda de peso e, ainda assim, apresentar uma relação benefício-risco inadequada.

 

A lobotomia e o perigo da autoridade

Poucos exemplos são tão impressionantes quanto a lobotomia. A psicocirurgia desenvolvida por António Egas Moniz ganhou grande prestígio. Moniz recebeu o Prêmio Nobel de Fisiologia ou Medicina em 1949 por suas contribuições à leucotomia pré-frontal. O procedimento foi posteriormente amplamente adotado em diferentes países.

Com o tempo, tornaram-se evidentes suas consequências graves: alterações irreversíveis de personalidade e comportamento, déficits neurológicos e complicações importantes. A introdução dos antipsicóticos na década de 1950 contribuiu para o rápido declínio da técnica (Mundalil Vasu; Bunch, 2014).

O episódio é particularmente desconfortável porque demonstra que até uma ideia suficientemente aceita para receber o maior reconhecimento científico pode posteriormente perder seu lugar na medicina. O prêmio não transformou uma hipótese em verdade eterna.

 

Quando o oxigênio também podia fazer mal

Outro episódio menos conhecido ocorreu na neonatologia. Durante parte do século XX, o oxigênio foi administrado de forma liberal a recém-nascidos prematuros. Posteriormente, percebeu-se a relação entre níveis elevados de oxigênio e a retinopatia da prematuridade.

A lição novamente é desconcertante: aquilo que salva vidas em determinada circunstância pode causar dano quando utilizado em excesso. Não é necessário transformar isso numa oposição entre “oxigênio bom” e “oxigênio ruim”.

A medicina real raramente funciona assim. Dose, momento, indicação, duração, população e contexto transformam o significado de uma intervenção. Até tratamentos que pareciam muito modernos tiveram de ser revistos

 

Terapia hormonal

Essa história não pertence apenas ao passado distante. Em 2002, o grande estudo da Women’s Health Initiative interrompeu precocemente o braço de terapia hormonal combinada com estrogênio e progestágeno porque os resultados mostraram aumento de risco de doença coronariana, acidente vascular cerebral, embolia pulmonar e câncer de mama. Em 2004, o braço de estrogênio isolado também foi interrompido, após aumento do risco de acidente vascular cerebral e ausência do benefício cardiovascular esperado (WHI, 2026).

Isso não significa que terapia hormonal seja simplesmente “ruim”. Significa que a pergunta correta nunca deveria ser apenas: “Esse tratamento funciona?” As perguntas precisam ser maiores:

  • Para quem?
  • Para qual indicação?
  • Em que idade?
  • Em qual dose?
  • Por quanto tempo?
  • Comparado a quê?
  • Quais são os benefícios?
  • Quais são os riscos?
  • Qual é o risco absoluto?
  • O que acontece depois de cinco, dez ou vinte anos?

 

Criticar a ciência não é atacá-la

É assim que a ciência e particularmente a medicina amadurecem. O problema não é apenas errar. É não perceber que podemos estar errando. Existe uma diferença importante entre ignorância e erro científico. A ignorância reconhece que ainda não sabemos. O erro científico ocorre quando acreditamos saber e, posteriormente, descobrimos que nossa conclusão estava equivocada.

O segundo é mais perigoso porque vem acompanhado de confiança. E a história mostra vários mecanismos que podem produzir essa confiança excessiva:

autoridade, quando acreditamos porque uma pessoa importante disse;

tradição, quando algo parece verdadeiro porque sempre foi feito;

experiência pessoal, quando poucos casos são tomados como prova geral;

mecanismo biológico, quando uma explicação parece elegante e, por isso, acreditamos que necessariamente funciona;

associação estatística, quando confundimos correlação com causalidade;

marcadores intermediários, quando melhorar um exame é interpretado como reduzir doença;

interesses comerciais, quando a divulgação de uma intervenção ultrapassa a força de suas evidências;

entusiasmo tecnológico, quando uma novidade parece automaticamente superior ao que existia antes.

A medicina contemporânea criou ferramentas justamente para tentar reduzir esses problemas: ensaios clínicos randomizados, grupos de controle, metanálises, revisões sistemáticas, farmacovigilância, registros de longo prazo, epidemiologia causal e análise de risco absoluto.

Mas nenhuma dessas ferramentas elimina completamente o erro. A ciência não é uma coleção de verdades absolutas Talvez essa seja a principal mensagem. Dizer que a ciência pode errar não é atacar a ciência. É compreender como ela funciona.

Uma teoria científica não precisa ser eterna para ser útil. Ela precisa ser a melhor explicação disponível diante das evidências atuais e permanecer aberta à revisão quando surgirem evidências melhores.

É justamente essa possibilidade de correção que diferencia ciência de dogma. O conhecimento médico é, portanto, provisório — mas isso não significa que todas as ideias tenham o mesmo valor.

Há uma diferença enorme entre uma hipótese sem evidências e uma conclusão apoiada por dezenas de ensaios clínicos consistentes. Humildade científica não significa relativismo científico.

Não precisamos colocar a medicina baseada em evidências no mesmo plano que qualquer opinião encontrada nas redes sociais. Precisamos, sim, reconhecer que até as melhores evidências possuem limites.

 

Prudência não deve significar fechamento

Existe uma tentação compreensível depois de conhecer esses episódios históricos: desconfiar de toda novidade. Seria outro erro.

Se os médicos do passado tivessem simplesmente rejeitado qualquer ideia nova porque “a medicina já sabe tudo”, talvez a antissepsia, a vacinação, os antibióticos, a anestesia moderna, a cirurgia cardíaca, a terapia intensiva e inúmeras outras conquistas nunca tivessem avançado.

A postura mais madura está entre dois extremos: nem acreditar em tudo que é novo, nem rejeitar tudo que é novo. É preciso curiosidade com prudência. Uma nova hipótese merece ser ouvida. Uma nova intervenção merece ser estudada. Uma observação inesperada merece investigação.

Mas uma hipótese não deve ser transformada imediatamente em tratamento, e um tratamento não deve ser transformado imediatamente em recomendação universal. O verdadeiro progresso talvez esteja em poder mudar de opinião

Há uma qualidade particularmente valiosa na medicina: a capacidade de dizer “estávamos errados”. Não deveria ser motivo de vergonha descobrir que uma prática antiga não funciona.

Vergonhoso seria continuar praticando algo prejudicial apenas porque é antigo, popular ou defendido por autoridades.

Semmelweis estava certo sobre a importância da higiene das mãos, embora sua explicação ainda fosse incompleta.

A sangria perdeu seu espaço quando seu fundamento terapêutico deixou de resistir às evidências. O tabaco deixou de ser visto como medicamento quando seus danos ficaram suficientemente demonstrados.

A talidomida e o DES mostraram a necessidade de uma avaliação de segurança muito mais rigorosa. O bypass jejunoileal mostrou que eficácia sem segurança não é boa medicina.

A terapia hormonal demonstrou como grandes ensaios clínicos podem modificar conclusões construídas durante décadas. E o álcool nos lembra que até recomendações aparentemente inocentes podem mudar quando aprendemos a enxergar melhor os vieses dos estudos observacionais.

 

A medicina do futuro também poderá corrigir a medicina de hoje

É inevitável pensar que algumas das nossas certezas atuais serão modificadas. Talvez algumas recomendações nutricionais hoje consideradas sólidas sejam revistas.

Talvez determinadas intervenções farmacológicas sejam consideradas excessivas em determinados grupos.

Talvez alguns marcadores laboratoriais hoje valorizados revelem menor importância clínica do que imaginamos.

Talvez determinados procedimentos sejam substituídos por outros.

Talvez novas tecnologias mostrem que algumas doenças que hoje agrupamos sob um mesmo diagnóstico são, na realidade, várias doenças diferentes. Isso não deve nos assustar. É assim que o conhecimento avança.

O médico precisa, portanto, de duas virtudes aparentemente contraditórias: abertura e prudência. Abertura para ouvir o novo. Prudência para não adotá-lo antes da hora. Humildade para reconhecer os limites do conhecimento.

Coragem para abandonar uma prática quando as evidências mostrarem que ela não deve continuar. E rigor para não confundir novidade com progresso.

 

Uma medicina suficientemente humilde para continuar aprendendo

Depois de mais de um século de grandes descobertas, talvez a medicina tenha aprendido uma de suas lições mais importantes: não existe vergonha em mudar de opinião quando as evidências mudam.

A ciência não é uma estátua de mármore. É um processo. Não é uma coleção de certezas imutáveis.

É uma construção permanente. E justamente porque sabemos que podemos errar, devemos investigar melhor, comparar alternativas, acompanhar os pacientes por mais tempo, medir resultados relevantes e desconfiar tanto das velhas certezas quanto das novas modas.

A medicina precisa conservar o espírito crítico que permitiu substituir a sangria, abandonar procedimentos perigosos, reconhecer os danos do tabaco, retirar medicamentos inadequados e incorporar a antissepsia.

O melhor cientista não é aquele que acredita nunca estar errado. É aquele que constrói sua prática de maneira que consiga descobrir o mais cedo possível quando estiver.

Essa talvez seja uma das formas mais honestas de respeitar a ciência — e, sobretudo, o paciente.

 

Disclaimer

Este artigo tem finalidade educativa e de reflexão histórica. A história da medicina é apresentada de forma necessariamente resumida e não deve ser utilizada para interromper, iniciar ou modificar tratamentos médicos. O fato de uma prática ter sido abandonada ou modificada historicamente não significa que todas as suas aplicações contemporâneas sejam inadequadas. Decisões clínicas devem considerar indicação, evidências atuais, características individuais do paciente, benefícios, riscos e acompanhamento profissional.

 

Referências

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WOMEN’S HEALTH INITIATIVE. About the Women’s Health Initiative: hormone therapy trials. 2026.

 

Cúrcuma: alimento, fitoterápico ou suplemento?

 

A cúrcuma (Curcuma longa L.), conhecida no Brasil como açafrão-da-terra, é uma das plantas medicinais mais estudadas dos últimos anos. Seu rizoma contém diversos compostos, entre eles os curcuminoides, dos quais a curcumina é o principal representante. Há interesse científico sobretudo por seus efeitos anti-inflamatórios e antioxidantes, embora a qualidade das evidências varie bastante conforme a indicação e a formulação utilizada.

Mas existe uma distinção fundamental — e frequentemente esquecida: Uma coisa é usar cúrcuma como alimento. Outra, completamente diferente, é ingerir um extrato concentrado de curcuminoides em cápsulas. Essa diferença tornou-se ainda mais importante em 2026.

 

Cúrcuma na cozinha: talvez a forma mais simples de utilizá-la

A cúrcuma pode ser utilizada como tempero, adicionada a sopas, arroz, legumes, ovos, molhos, ensopados, caldos e preparações com leguminosas.

É uma maneira interessante de incorporar à alimentação um alimento rico em compostos bioativos, sem transformar a cúrcuma em uma “medicação natural”.

Pode-se utilizar o rizoma fresco, quando disponível, ou o tradicional pó de cúrcuma, facilmente encontrado no comércio.

Uma sugestão prática é incorporá-la regularmente às refeições, em pequenas quantidades, associada a uma alimentação predominantemente baseada em alimentos in natura ou minimamente processados.

Não é necessário transformar a cúrcuma em cápsulas para que ela faça parte de uma alimentação saudável.

E aqui está uma informação especialmente importante: a própria Anvisa esclarece que o risco de hepatotoxicidade identificado em 2026 não está relacionado ao uso habitual da cúrcuma como alimento ou tempero. Os casos descritos envolvem principalmente medicamentos, suplementos e extratos concentrados.

 

RESUMO PRÁTICO

Cúrcuma como alimento: use como tempero, dentro de uma alimentação saudável.
Cúrcuma em altas doses como extrato: já é outra história.

 

E os benefícios? O que realmente sabemos?

A cúrcuma e seus curcuminoides apresentam mecanismos anti-inflamatórios e antioxidantes biologicamente plausíveis. Mas mecanismo não é sinônimo de benefício clínico.

Entre as áreas em que existem estudos clínicos mais interessantes está a osteoartrite, particularmente a osteoartrite do joelho.

Uma revisão sistemática de 16 ensaios clínicos randomizados, envolvendo 1.810 adultos, encontrou redução da dor e melhora da função com extratos de cúrcuma em comparação com placebo. Entretanto, os estudos eram relativamente curtos e heterogêneos, e apresentavam risco de viés moderado (Daily et al., 2021).

Uma revisão mais recente, publicada em 2024, reuniu 103 ensaios clínicos randomizados e encontrou efeitos favoráveis de suplementos de curcumina em alguns marcadores metabólicos, inflamatórios e antropométricos. Entretanto, a qualidade da evidência variou muito: para vários desfechos ela foi classificada como baixa ou muito baixa (Hewlings et al., 2024).

Portanto, é perfeitamente legítimo estudar a cúrcuma e utilizar determinados extratos em situações específicas. O que não é legítimo é transformar uma planta promissora em uma panaceia.

 

Alimento não é suplemento

Esta talvez seja a mensagem mais importante deste artigo. Quando colocamos cúrcuma na comida, estamos consumindo uma pequena quantidade do rizoma, dentro de uma matriz alimentar complexa.

Quando ingerimos uma cápsula contendo um extrato padronizado, podemos estar consumindo uma quantidade muito maior de determinados compostos.

E algumas formulações são desenvolvidas justamente para aumentar a biodisponibilidade da curcumina. É aqui que a história muda.

A Anvisa identificou um risco raro, mas potencialmente grave, de lesão hepática associado ao uso oral de produtos contendo extratos de Curcuma longa ou curcuminoides. O risco parece ser maior em produtos concentrados e em formulações que aumentam a absorção da curcumina.

Uma série clinicopatológica publicada por Papke et al. (2025), por exemplo, descreveu 11 casos de hepatite associada a suplementos de cúrcuma, todos com normalização dos exames após a retirada do produto.

Isso não significa que toda pessoa que utilize curcumina desenvolverá lesão hepática. Pelo contrário: trata-se de um evento incomum e aparentemente idiossincrásico. Mas significa que o conceito de “natural = absolutamente seguro” precisa ser abandonado.

 

Quanto mais biodisponível, melhor?

Não necessariamente. Durante anos, uma parte importante do mercado de suplementos procurou aumentar a absorção da curcumina, utilizando diferentes tecnologias e associações.

A piperina, por exemplo, tornou-se conhecida internacionalmente por aumentar a biodisponibilidade da curcumina. Outras formulações utilizam sistemas micelares, fitossomais, nanoparticulados ou outras tecnologias.

Mas aumentar a exposição sistêmica também pode modificar o perfil de segurança.

A Anvisa chamou especificamente atenção para esse problema e informou que, no Brasil, estratégias destinadas a ampliar a biodisponibilidade — incluindo piperina e determinadas tecnologias — não foram avaliadas ou autorizadas para suplementos de cúrcuma dentro da regulamentação correspondente.

Em abril de 2026, a Agência atualizou a regulamentação dos suplementos contendo cúrcuma e determinou, entre outras medidas, novos critérios de rotulagem e advertências. A rotulagem passou a exigir alerta para gestantes, lactantes, crianças, pessoas com doenças hepáticas ou biliares e pessoas que utilizam medicamentos.

 

RESUMO PRÁTICO

Maior absorção não significa automaticamente maior benefício. Na medicina, precisamos perguntar: Maior absorção para quê? Em que dose? Durante quanto tempo? E a que custo em termos de segurança?

 

E os medicamentos fitoterápicos?

No Brasil existem medicamentos registrados contendo Curcuma longa. Entre eles estão Motore® e Cumiah®, identificados pela própria Anvisa em seu alerta de farmacovigilância.

O Motore®, por exemplo, é um medicamento fitoterápico à base de extrato seco de Curcuma longa, indicado como coadjuvante no tratamento da osteoartrite. A apresentação de 500 mg contém extrato equivalente a 100 mg de curcuminoides. Sua bula atualmente alerta para o risco de lesão hepática e determina acompanhamento médico e exames laboratoriais periódicos durante o uso.

Isso é muito diferente de dizer que “tomar cúrcuma faz mal ao fígado”. A afirmação correta é:

O consumo alimentar habitual da cúrcuma não está associado ao alerta de hepatotoxicidade; o problema está principalmente nos produtos orais concentrados, especialmente em determinadas formulações.

 

O problema das fórmulas “naturais” cada vez mais complexas

A cúrcuma é apenas um exemplo de um problema maior. É comum encontrarmos suplementos que reúnem cinco, dez ou até mais ingredientes em uma única cápsula, frequentemente com alegações de que todos são “naturais”, “sinérgicos” ou capazes de potencializar uns aos outros.

Mas cada substância acrescentada pode significar:

  • uma nova interação farmacológica;
  • uma nova possibilidade de efeito adverso;
  • uma alteração na absorção de outro componente;
  • dificuldade para identificar qual substância causou determinado sintoma;
  • e maior exposição total a compostos biologicamente ativos.

O prescritor precisa conhecer a fórmula inteira, e não apenas o ingrediente que aparece em letras grandes no rótulo.

No caso da cúrcuma, a própria Anvisa recomenda cautela em pessoas com doenças hepáticas ou biliares e em indivíduos que utilizam determinados medicamentos, incluindo anticoagulantes e alguns imunossupressores e antineoplásicos.

Isso reforça uma regra simples da medicina: Natural não significa inerte. Fitoterápico também é farmacologia.

 

É preciso acompanhar o fígado?

Quando se utiliza um medicamento ou extrato concentrado de cúrcuma com finalidade terapêutica, especialmente por períodos prolongados ou em pacientes com fatores de risco, a avaliação médica torna-se particularmente importante.

A bula atual do Motore® recomenda acompanhamento médico estrito e exames laboratoriais periódicos para controle da função hepática.

Não existe, entretanto, uma regra universal dizendo que toda pessoa que consome cúrcuma como tempero precisa fazer exames de fígado. Não precisa. A situação é completamente diferente quando falamos de extratos concentrados.

É razoável que o médico considere, conforme o contexto clínico, exames como: ALT/TGP, AST/TGO, GGT, fosfatase alcalina e bilirrubinas.

E sintomas como icterícia, urina escura, náuseas persistentes, cansaço inexplicável, perda de apetite ou dor abdominal devem levar à interrupção do produto e avaliação médica.

 

A cúrcuma merece ser abandonada?

De maneira alguma. Ela merece ser compreendida.

A cúrcuma como alimento pode continuar fazendo parte de uma alimentação saudável. Os extratos de cúrcuma e curcuminoides também apresentam evidências clínicas interessantes para algumas condições, particularmente no campo da dor e da osteoartrite, embora ainda existam limitações importantes na literatura. (Daily et al., 2021; Bideshki et al., 2024).

O que precisamos abandonar é a ideia de que: “Se uma pequena quantidade faz bem, uma concentração cem vezes maior fará muito melhor.” A farmacologia não funciona assim.

Dose, formulação, biodisponibilidade, duração do tratamento, características do paciente e interações medicamentosas fazem toda a diferença.

 

RESUMO FINAL — cúrcuma em cinco regras

  1. Na cozinha, sim.
    Use cúrcuma como tempero e parte de uma alimentação saudável.
  2. Alimento ≠ suplemento.
    Não extrapole a segurança do uso culinário para extratos concentrados.
  3. “Mais biodisponível” não significa necessariamente “melhor”.
    Formulações que aumentam muito a absorção podem também modificar o perfil de segurança.
  4. Fitoterápico também exige conhecimento farmacológico.
    Interações, contraindicações e efeitos adversos precisam ser considerados.
  5. Quando houver uso terapêutico de extratos concentrados, especialmente prolongado, o acompanhamento médico pode ser necessário. A nova regulamentação e os alertas da Anvisa de 2026 tornam essa cautela ainda mais importante.

Uma última mensagem

A melhor maneira de usar uma planta medicinal não é transformá-la em uma promessa. É saber quando ela é alimento, quando é fitoterápico, quando pode ser útil — e quando sua concentração começa a exigir o mesmo respeito que dedicamos a qualquer medicamento.

 

Disclaimer

Este texto tem finalidade educativa e informativa e não substitui avaliação médica individualizada. Medicamentos fitoterápicos e suplementos alimentares não devem ser iniciados, modificados ou combinados sem considerar diagnóstico, medicamentos em uso, contraindicações e possíveis interações. Pessoas com doença hepática ou biliar, gestantes, lactantes, crianças e pessoas em uso de medicamentos devem buscar orientação profissional antes de utilizar produtos concentrados de cúrcuma. Diante de sintomas sugestivos de lesão hepática, o produto deve ser interrompido e deve-se procurar avaliação médica. As informações regulatórias foram atualizadas com base nas normas e alertas da Anvisa disponíveis em 2026.

 

Referências

BIDESHKI, M. V. et al. The efficacy of curcumin in relieving osteoarthritis: a meta-analysis of meta-analyses. Phytotherapy Research, v. 38, n. 6, p. 2875–2891, 2024. DOI: 10.1002/ptr.8153.

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