Durante décadas, acreditou-se que a fome era controlada principalmente pelo estômago. Hoje sabemos que essa visão era apenas parte da história.
Na realidade, o intestino funciona como um sofisticado órgão endócrino, capaz de produzir diversos hormônios que informam ao cérebro quando devemos comer, quando já estamos satisfeitos e como nosso organismo deve utilizar os nutrientes.
Entre esses hormônios, dois ganharam enorme importância:
- GLP-1 (Peptídeo semelhante ao glucagon tipo 1);
- GIP (Polipeptídeo insulinotrópico dependente da glicose).
Essas substâncias são chamadas incretinas.
Em pessoas saudáveis, elas são liberadas naturalmente logo após as refeições.
Sua função é preparar o organismo para receber os alimentos.
O que fazem as incretinas?
Embora atuem em vários órgãos, seus principais efeitos podem ser resumidos em cinco ações:
✔ Estimulam a liberação de insulina. Mas apenas quando a glicemia está elevada, reduzindo o risco de hipoglicemia.
✔ Reduzem a produção de glucagon. O glucagon é um hormônio que aumenta a glicemia. Ao diminuir sua liberação, ajudam no controle do diabetes.
✔ Retardam o esvaziamento do estômago. Os alimentos permanecem mais tempo no estômago. A saciedade dura mais. A fome demora mais para voltar.
✔ Atuam diretamente no cérebro. Esse talvez seja o efeito mais importante. As incretinas alcançam centros cerebrais envolvidos no controle do apetite, reduzindo a sensação de fome e diminuindo o interesse por alimentos altamente calóricos (Müller et al., 2019).
Muitos pacientes descrevem algo curioso: “Pela primeira vez, consigo passar perto de uma padaria sem sentir vontade de entrar.” Ou: “A comida deixou de ocupar meus pensamentos o tempo todo.”
Esse fenômeno tem sido chamado popularmente de “silêncio alimentar” (food noise reduction), expressão que não corresponde a um diagnóstico médico, mas descreve uma experiência relatada por muitos pacientes em uso desses medicamentos.
✔ Favorecem perda de peso. Como consequência da menor fome e maior saciedade, ocorre redução espontânea da ingestão calórica.
É importante destacar: esses medicamentos não queimam gordura diretamente. Eles facilitam que a pessoa coma menos. A perda de peso decorre principalmente desse balanço energético negativo.
Resumo Prático
As incretinas não “derretem gordura”. Elas ajudam o cérebro e o organismo a recuperar mecanismos naturais de saciedade que, em muitas pessoas com obesidade, encontram-se alterados. Não substituem as medidas do estilo de vida.
Atenção: As incretinas não tomam o lugar da alimentação saudável nem da atividade física estruturada. Mas dão um tempo, uma oportunidade, para o paciente incorporar bons hábitos com mais facilidade. É uma janela de oportunidade. Não uma substituição do estilo de vida saudável por recursos farmacológicos.
Liraglutida (nomes comerciais mais conhecidos Saxenda e Victoza): a pioneira das canetas para obesidade
Em 2014 surgiu um marco histórico. A liraglutida 3,0 mg tornou-se o primeiro agonista do GLP-1 aprovado especificamente para tratamento da obesidade.
Aplicada por via subcutânea uma vez ao dia, demonstrou perdas médias de aproximadamente 8% do peso corporal, associadas à melhora da glicemia, da pressão arterial e de diversos fatores de risco cardiovascular (Pi-Sunyer et al., 2015).
Foi um enorme avanço. Pela primeira vez muitos pacientes conseguiam permanecer mais tempo saciados. Mesmo assim, ainda havia espaço para resultados melhores.
Como é utilizada?
A dose é aumentada gradualmente para reduzir náuseas:
- 0,6 mg/dia
- 1,2 mg/dia
- 1,8 mg/dia
- 2,4 mg/dia
- 3,0 mg/dia (dose-alvo)
Principais efeitos colaterais
- náuseas;
- sensação de empachamento;
- vômitos;
- constipação;
- diarreia.
Na maioria das vezes são leves e transitórios.
Semaglutida (nomes comerciais mais conhecidos Ozempic e Wegovy): quando a obesidade entrou em uma nova era
Em 2021, a publicação do estudo STEP 1, no New England Journal of Medicine, mudou completamente o cenário.
A semaglutida 2,4 mg, aplicada apenas uma vez por semana, produziu uma perda média de aproximadamente 15% do peso corporal, resultado nunca antes observado com um medicamento aprovado para obesidade (Wilding et al., 2021).
Esse número chamou atenção porque começava a se aproximar dos resultados obtidos com algumas técnicas cirúrgicas.
Outro aspecto importante foi a melhora de diversos parâmetros metabólicos:
- diabetes;
- hipertensão;
- esteatose hepática;
- qualidade de vida;
- risco cardiovascular.
Mais recentemente, o estudo SELECT demonstrou que a semaglutida reduziu eventos cardiovasculares maiores em pessoas com obesidade e doença cardiovascular estabelecida, mesmo na ausência de diabetes (Lincoff et al., 2023).
Esse resultado marcou uma mudança de paradigma: o medicamento deixou de ser visto apenas como um agente para perda de peso e passou a demonstrar benefícios cardiovasculares independentes.
Como é utilizada?
A titulação habitual é semanal:
- 0,25 mg
- 0,5 mg
- 1,0 mg
- 1,7 mg
- 2,4 mg
Cada etapa costuma durar quatro semanas, podendo ser ajustada conforme a tolerabilidade.
Tirzepatida (nomes comerciais Mounjaro e Zepbound): a primeira dupla incretina
Quando parecia difícil superar a semaglutida, surgiu uma nova estratégia. Em vez de estimular apenas o GLP-1, pesquisadores passaram a ativar simultaneamente:
- GLP-1
- GIP
Nascia a tirzepatida. O estudo SURMOUNT-1 mostrou perdas médias superiores a 20% do peso corporal, com alguns participantes ultrapassando 25% (Jastreboff et al., 2022).
Pela primeira vez, muitos endocrinologistas passaram a discutir algo impensável poucos anos antes:
seria possível alcançar resultados próximos aos da cirurgia bariátrica utilizando apenas tratamento medicamentoso em uma parcela dos pacientes?
Ainda não existe resposta definitiva.
Mas os resultados são extraordinários.
Como é utilizada?
Aplicação semanal.
Escalonamento habitual:
- 2,5 mg
- 5 mg
- 7,5 mg
- 10 mg
- 12,5 mg
- 15 mg
O aumento gradual reduz significativamente os efeitos gastrointestinais.
Resumo Prático
| Medicamento | Hormônio | Frequência | Perda média de peso* |
| Liraglutida | GLP-1 | Diária | ~8% |
| Semaglutida | GLP-1 | Semanal | ~15% |
| Tirzepatida | GLP-1 + GIP | Semanal | ~21% |
* Valores médios observados em grandes ensaios clínicos, associados a mudanças no estilo de vida. A resposta individual pode variar.
Retatrutida: a próxima fronteira
Se a tirzepatida surpreendeu por estimular dois hormônios, a retatrutida deu mais um passo. Ela atua simultaneamente sobre três receptores:
- GLP-1;
- GIP;
- glucagon.
À primeira vista, estimular o receptor do glucagon parece contraditório, pois esse hormônio aumenta a glicemia.
Entretanto, ele também aumenta o gasto energético e favorece a utilização de gordura corporal. O desafio dos pesquisadores foi equilibrar esses efeitos, potencializando os benefícios metabólicos sem provocar descontrole glicêmico.
Os resultados dos estudos iniciais impressionaram. No ensaio de fase 2 publicado no New England Journal of Medicine, participantes tratados com as doses mais altas atingiram perdas médias de peso próximas de 24% em 48 semanas, com tendência de continuação da perda ao final do acompanhamento (Jastreboff et al., 2023).
Atualmente, (julho de 2026) a retatrutida está sendo avaliada em grandes estudos de fase 3 para confirmar sua eficácia e segurança. Caso esses resultados sejam confirmados e as agências regulatórias aprovem seu uso, poderemos assistir a uma nova mudança de paradigma.
Em alguns pacientes, medicamentos poderão atingir reduções de peso próximas às obtidas com determinadas técnicas de cirurgia bariátrica. Isso não significa que a cirurgia deixará de existir.
Mas talvez ela passe a ser indicada para um grupo menor de pessoas, especialmente aquelas com obesidade mais grave ou que não respondam adequadamente ao tratamento clínico.
Mas toda revolução exige prudência…
Os resultados são realmente impressionantes. Entretanto, existe um risco.
Quando uma tecnologia produz grande entusiasmo, frequentemente surgem exageros. E foi exatamente isso que começou a acontecer com as “canetinhas”.
Elas passaram a ser utilizadas por pessoas sem indicação médica, por razões puramente estéticas, em doses inadequadas, sem acompanhamento nutricional e, muitas vezes, sem qualquer preocupação com perda de massa muscular ou qualidade da alimentação.
É justamente sobre esses riscos — e sobre como utilizar esses medicamentos de forma responsável — que falaremos na Parte III.
Referências – Parte 2
JASTREBOFF, A. M. et al. Tirzepatide once weekly for the treatment of obesity. New England Journal of Medicine, Boston, v. 387, p. 205–216, 2022.
JASTREBOFF, A. M. et al. Triple-hormone receptor agonist retatrutide for obesity: a phase 2 trial. New England Journal of Medicine, Boston, v. 389, n. 6, p. 514–526, 2023.
LINCOFF, A. M. et al. Semaglutide and cardiovascular outcomes in obesity without diabetes. New England Journal of Medicine, Boston, v. 389, p. 2221–2232, 2023.
MÜLLER, T. D. et al. Anti-obesity drug discovery: advances and challenges. Nature Reviews Drug Discovery, London, v. 21, p. 201–223, 2022.
PI-SUNYER, X. et al. A randomized, controlled trial of 3.0 mg of liraglutide in weight management. New England Journal of Medicine, Boston, v. 373, p. 11–22, 2015.
WILDING, J. P. H. et al. Once-weekly semaglutide in adults with overweight or obesity. New England Journal of Medicine, Boston, v. 384, p. 989–1002, 2021.