Modismos alimentares: exageros, paranoias e distorções

 

 Entre a ciência, a simplificação e a “dieta da moda”

Poucas áreas da saúde são tão férteis para modismos quanto a alimentação. A cada época surge um alimento “milagroso”, um nutriente que passa a ser responsabilizado por todos os males, uma dieta que promete emagrecimento rápido ou uma explicação aparentemente simples para problemas complexos.

Já demonizamos gordura, carboidrato, glúten, leite, frutas, ovos, sal, carne, soja, óleos vegetais e até determinados vegetais. Em outros momentos, fizemos o movimento contrário e transformamos óleo de coco, manteiga, bacon, suplementos proteicos, sementes, água alcalina ou jejum em soluções quase universais.

O problema não está em estudar esses alimentos ou estratégias. A ciência precisa justamente fazer isso. O problema começa quando uma informação verdadeira é retirada de seu contexto, simplificada, exagerada e transformada em regra universal.

Uma alimentação saudável não precisa ser monótona, nem baseada em proibições. Também não precisa ser “perfeita”. O que importa é o padrão alimentar global, sua adequação nutricional, sua sustentabilidade ao longo do tempo e sua adaptação às características individuais.

Este artigo não pretende declarar que todas as dietas alternativas sejam ruins. Algumas podem produzir resultados importantes em determinadas circunstâncias. O objetivo é identificar modismos, exageros, distorções, demonizações e dietas potencialmente perigosas, explicando brevemente o que existe de verdadeiro e onde começa o exagero.

 

  1. A primeira grande loucura: acreditar que existe uma dieta universal

Uma das maiores distorções da nutrição é imaginar que existe uma única dieta capaz de funcionar igualmente para todos.

Idade, sexo, composição corporal, atividade física, doenças, medicamentos, cultura, preferências alimentares, condição socioeconômica e objetivos modificam as necessidades nutricionais.

Até mesmo dietas reconhecidamente saudáveis podem ser inadequadas quando mal planejadas.

O conceito mais importante é, portanto: Não existe uma dieta universalmente perfeita; existem padrões alimentares com maior ou menor qualidade e estratégias que podem ou não ser adequadas para determinada pessoa.

 

  1. Dietas extremamente hipocalóricas

Dietas de muito baixa energia ou muito baixo valor calórico podem produzir perda rápida de peso. Isso não é surpresa: quando a ingestão energética cai drasticamente, o organismo utiliza glicogênio, água e gordura corporal e, dependendo da duração e da composição da dieta, também pode haver perda de massa magra.

O problema é transformar uma estratégia clínica específica em método universal de emagrecimento.

Dietas muito hipocalóricas podem exigir supervisão profissional, especialmente quando prolongadas ou utilizadas em pessoas com doenças, idosos ou indivíduos com risco de desnutrição. Formulações modernas com substitutos de refeições podem ser úteis em programas estruturados de tratamento da obesidade, mas isso é muito diferente de simplesmente “passar fome” (Edwards-Hampton; Ard, 2024).

O famigerado “efeito rebote” após um período de dieta rígida demais é o desastre mais comum.  Definitivamente, não funciona no longo prazo. São planos não sustentáveis. Embora em situações bem pontuais, por períodos curtos, com indicação precisa, para a pessoa certa e monitoramento criterioso e profissional, possam trazer benefícios.

O erro: confundir rapidez da perda de peso com qualidade do tratamento.

 

  1. Jejum intermitente transformado em jejum prolongado

O jejum intermitente é um fenômeno biológico, não é um absurdo. As células precisam alternar períodos de alimentação e jejum. Há numerosos estudos mostrando efeitos metabólicos benéficos de diferentes formas de restrição temporal da alimentação.

O problema surgiu quando a ideia de “dar um intervalo para o organismo” passou a significar jejuns cada vez mais longos, algumas vezes de vários dias, apresentados como se fossem necessariamente superiores aos protocolos mais moderados.

Estudos recentes indicam benefícios metabólicos potenciais do jejum intermitente, mas também mostram que os resultados variam conforme o protocolo e a população. A segurança e a sustentabilidade dos jejuns prolongados continuam sendo questões importantes (Brasse et al., 2025; Liu et al., 2025).

Jejuns mais prolongados podem provocar alterações hormonais, perda de massa magra, hipotensão, alterações eletrolíticas e dificuldades na realimentação, especialmente quando realizados sem acompanhamento (2025).

O erro: transformar “jejuar pode ser útil” em “quanto mais tempo sem comer, melhor”.

 

  1. Jejum seco ou “dry fasting”

Aqui o exagero pode tornar-se particularmente perigoso.

No jejum seco, além dos alimentos, restringe-se a ingestão de água durante determinado período. Há estudos sobre o jejum seco associado ao Ramadã, mas isso não significa que longos períodos voluntários sem água devam ser recomendados como estratégia universal de saúde.

O risco potencial de desidratação, alterações hidroeletrolíticas e intolerância ao calor precisa ser considerado.

O erro: confundir os efeitos metabólicos do jejum com os efeitos da privação hídrica.

 

  1. Dieta Atkins e dietas low carb

Não se pode negar que a dieta Atkins influenciou a história moderna das dietas de emagrecimento. Seu princípio básico é a redução importante de carboidratos, frequentemente acompanhada de maior consumo de proteínas e gorduras.

Porém havia aqui um grave erro de origem. A redução de carboidratos produz perda de peso especialmente porque reduz espontaneamente a ingestão energética e aumenta a saciedade. Estudos clássicos mostraram vantagem limitadas no tempo de dietas low-carb. Mas com o tempo os aparentes benefícios se perdiam (Astrup; Meinert Larsen; Harper, 2004).

O grande erro aqui foi conceber uma dieta baseada em grandes quantidades de carnes processadas, manteiga, bacon e outras fontes de gordura saturada. E ignorar a importância dos “carboidratos do bem” no equilíbrio nutricional de uma dieta sustentável.

Também não se pode ignorar o fato de que os povos mais longevos e saudáveis do mundo (momo nas regiões denominadas “blue zones”) a dieta é constituída principalmente de fontes de carboidratos saudáveis como frutas, grãos integrais, raízes, etc. Resultado: dieta aterogênica, nada saudável.

O erro: transformar o carboidrato em “grande inimigo da alimentação”.

 

  1. Dieta cetogênica usada sem critério

A dieta cetogênica possui algumas aplicações médicas pontuais, como no tratamento de determinadas formas de epilepsia refratária. Também pode produzir perda de peso e alterações metabólicas em pessoas com obesidade. Mas a cetose nutricional não é sinônimo de saúde.

Uma dieta cetogênica pode ser construída de maneiras muito diferentes. Uma versão rica em vegetais, azeite, peixes, castanhas e outras fontes de gorduras insaturadas é metabolicamente diferente de uma versão baseada em bacon, manteiga, carnes gordurosas e alimentos ultraprocessados.

Pode ser adequada por um determinado período, desde que criteriosamente formulada e indicada. Porém, ao se transformar em um modismo universal, vem trazendo mais malefícios que benefícios.

O erro: imaginar que “estar em cetose” transforma automaticamente qualquer alimento consumido em alimento saudável.

 

  1. Dieta carnívora: eliminar praticamente todos os vegetais

A dieta carnívora é uma das versões mais recentes da radicalização alimentar. A proposta é consumir predominantemente ou exclusivamente alimentos de origem animal.

Uma revisão de 2026 encontrou apenas nove estudos humanos sobre o padrão carnívoro e destacou a grande limitação das evidências de longo prazo, além de potenciais deficiências de fibras, vitamina C, vitamina D, cálcio, magnésio e iodo e possibilidade de elevação do LDL-colesterol (Lietz; Dapprich; Fischer, 2026). Enfim, um plano nada saudável.

Não é necessário afirmar que toda pessoa que faça uma dieta carnívora acabará ficando doente.

O erro: transformar a ausência de carboidratos em sinônimo de ausência de risco.

 

  1. Paleo transformada em religião alimentar

A dieta paleolítica procura aproximar a alimentação de alimentos considerados disponíveis antes da agricultura moderna. Há alguns poucos estudos mostrando efeitos metabólicos favoráveis de algumas versões da dieta paleo, inclusive em marcadores cardiometabólicos (2025).

Portanto, algumas de suas versões não poderiam ser consideradas “absurdas”. O problema aparece quando a hipótese evolucionista (hipótese!) é usada como argumento absoluto: “O ser humano não comia isso há milhares de anos; portanto, isso necessariamente faz mal.”

A história evolutiva da alimentação humana é muito mais complexa e não há como afirmar definitivamente muitas coisas tidas erradamente como dogma.

Na maioria das vezes a construção de um cardápio “paleo” não segue os princípios cientificamente estabelecidos para uma dieta saudável. Mais uma vez, um terreno minado, em que não vale a pena se aventurar.

O erro: transformar evolução em argumento nutricional definitivo.

 

  1. “Detox”: o terreno mais fértil para dietas, suplementos e divulgação de conceitos exagerados

Sucos detox, chás detox, jejuns detox, dietas de limão, dietas de líquidos, suco verde, suco vermelho e protocolos de “limpeza” continuam populares.

Não há como negar inúmeros testemunhos de “cura” ou “melhora” com a aplicação de alguns desses protocolos, que, de novo, sendo adequadamente conduzidos e criteriosamente aplicados, podem trazer certos benefícios. Mas o contrário também é verdade. Há riscos e exageros.

O organismo realmente possui sistemas sofisticados de metabolismo e eliminação de substâncias potencialmente tóxicas, principalmente fígado, rins, pulmões, pele e trato gastrointestinal.

Não existe evidência robusta de que uma dieta comercial “detox” ou que um protocolo universal de “detox do fígado” possa trazer resultados vantajosos para todos.

Uma revisão crítica encontrou evidências clínicas muito limitadas para dietas detox, e o NCCIH destaca a baixa qualidade de grande parte dos estudos disponíveis (Klein; Kiat, 2015).

Isso não significa que períodos curtos de alimentação mais simples, com menor densidade energética e maior consumo de alimentos vegetais, sejam necessariamente ruins. Pelo contrário: determinadas estratégias alimentares anti-inflamatórias estruturadas podem ser muito úteis. A hipótese associa períodos de dieta detox bem conduzida com melhora do ecossistema intestinal e desinflamação do microbioma.

O erro: atribuir à palavra “detox” uma capacidade fisiológica que a dieta não demonstrou possuir.

 

  1. Dieta FODMAP transformada em dieta permanente

A dieta low-FODMAP é outro excelente exemplo de uma ferramenta clínica que pode ser deformada pelo modismo. FODMAP é a sigla para um conjunto de carboidratos fermentáveis, incluindo oligossacarídeos, dissacarídeos, monossacarídeos e polióis.

A estratégia pode ser muito útil em pessoas selecionadas com síndrome do intestino irritável.

Mas não foi concebida como uma dieta para toda a vida e nem como uma dieta universalmente saudável.

O modelo tradicional envolve restrição inicial, seguida de reintrodução sistemática dos alimentos, identificando tolerâncias individuais. A fase de reintrodução é fundamental (Schoenfeld, 2024).

O erro: confundir uma ferramenta terapêutica temporária com um padrão alimentar definitivo.

 

  1. “Não como glúten porque glúten inflama”

Para pessoas com doença celíaca, o glúten é claramente um problema e a dieta sem glúten é tratamento obrigatório.

Há também pessoas com alergia ao trigo ou sensibilidade ao trigo não celíaca, que vão precisar de restrições. Mas transformar o glúten em vilão universal não é sustentado pela ciência. O problema maior aqui mora no consumo excessivo de gluten e no beneficiamento do trigo.

Além disso, produtos industrializados “sem glúten” não são automaticamente mais saudáveis. Alguns possuem menos proteína e fibra e mais açúcar e calorias do que seus equivalentes convencionais (2024).

O erro: confundir uma indicação médica específica com uma recomendação para toda a população. Mas mantêm-se a recomendação de que o trigo na sua forma integral é melhor e que o consumo excessivo de derivados do trigo deve ser desencorajado.

 

  1. Demonizar o leite e todos os derivados

Lactose, proteína do leite, gordura do leite e leite como alimento são assuntos diferentes. Pessoas com intolerância à lactose podem precisar reduzir ou modificar seu consumo. Pessoas com alergia à proteína do leite necessitam de conduta específica.

Isso não significa que todos os seres humanos devam retirar leite e derivados. Da mesma forma, a substituição do leite por bebidas vegetais precisa considerar proteína, cálcio, vitamina D e fortificação.

O erro: transformar uma condição individual em regra universal.

 

  1. “Fruta tem açúcar e alto índice glicêmico, portanto engorda”

Esse é um dos exemplos mais claros de como um conceito verdadeiro pode gerar uma conclusão absurda. Frutas contêm carboidratos e algumas apresentam índice glicêmico relativamente elevado.

Mas uma fruta inteira também contém água, fibras, vitaminas, minerais, polifenóis e diversos compostos bioativos.

O índice glicêmico é uma característica de um alimento em condições padronizadas; não é uma classificação de “alimento saudável” ou “alimento não saudável”.

Uma metanálise recente de cinco RCTs em pessoas com diabetes tipo 2 encontrou redução de HbA1c e glicemia de jejum associada ao consumo de frutas inteiras (2025).

O erro: transformar índice glicêmico em selo de qualidade nutricional.

 

  1. “Vegetais têm agrotóxicos, portanto não são saudáveis”

Claro que uma alimentação orgânica é melhor. Não se discute. Porém mora aqui outra distorção. Claro que resíduos de pesticidas são uma questão legítima de segurança alimentar e devem ser monitorados. No Brasil, estudos detectam resíduos em frutas e vegetais e reforçam a importância da fiscalização e do controle dos limites máximos de resíduos (Andrade et al., 2023).

Mas disso não se conclui que vegetais sejam alimentos perigosos. A literatura epidemiológica acumulada mostra associação consistente entre maior consumo de frutas e vegetais e menor risco de diversas doenças crônicas (Devirgiliis et al., 2024).

A resposta racional não é abandonar vegetais. É: produzir, fiscalizar, lavar adequadamente os alimentos e ampliar o acesso a frutas e verduras.

O erro: utilizar um problema real de segurança alimentar para justificar a retirada de alimentos reconhecidamente importantes para a saúde.

 

  1. Demonizar todos os óleos de sementes

Nos últimos anos, óleos de soja, milho, girassol, canola e outros passaram a ser chamados de “óleos tóxicos”.

Existe uma discussão científica legítima sobre composição de ácidos graxos, processamento, estabilidade térmica e contexto alimentar. E a melhor recomendação é sempre que possível preferir os óleos prensados a frio.

Mas afirmar que o ácido linoleico ou os óleos de sementes são intrinsecamente inflamatórios ou aterogênicos não corresponde ao conjunto das evidências.

Análises recentes mostram associações favoráveis do ácido linoleico com alguns desfechos cardiovasculares, embora os efeitos dos diferentes ácidos graxos não sejam uniformes (2024).

O erro: substituir a análise da qualidade global da dieta por uma guerra contra uma classe inteira de alimentos.

 

  1. O óleo de coco como “gordura saudável”

O óleo de coco merece um capítulo próprio porque representa perfeitamente a transformação de uma característica verdadeira em exagero.

Ele contém ácidos graxos de cadeia média, especialmente C12, além de menores quantidades de C8 e C10.

Entretanto, é predominantemente gordura saturada e pode elevar o LDL-colesterol.

Os benefícios demonstrados para MCT concentrados em C8 e C10 não podem ser simplesmente transferidos para o óleo de coco.

O erro: confundir “contém alguns ácidos graxos de cadeia média” com “é um óleo metabólica e cardiovascularmente superior”.

 

  1. O ovo proibido (?)

Durante décadas, o colesterol do ovo foi tratado quase como se fosse colesterol diretamente despejado na corrente sanguínea.

Hoje sabemos que a relação entre colesterol dietético, LDL e risco cardiovascular é mais complexa.

Uma grande análise prospectiva e metanálise encontrou que o consumo de até aproximadamente um ovo por dia não estava associado a aumento do risco cardiovascular global (Drouin-Chartier et al., 2020). Uma umbrella review publicada em 2025 concluiu, entretanto, que a literatura apresenta heterogeneidade considerável e evidência global ainda limitada para várias associações (Formisano et al., 2025).

Portanto, nem “ovo faz mal” nem “ovo pode ser consumido sem limite”.

O erro: transformar um alimento em vilão ou superalimento.

 

  1. O ovo como alimento milagroso

O exagero inverso também existe. O ovo é excelente fonte de proteínas, colina, vitaminas e minerais e pode fazer parte de uma alimentação saudável.

Mas não existe fundamento para consumir quantidades exageradas porque “o colesterol do ovo é bom”, “a gema aumenta testosterona” ou porque “quanto mais proteína, melhor”.

O erro: substituir uma demonização por uma idolatria.

 

  1. Whey protein em excesso

Whey protein é simplesmente uma fonte concentrada de proteína do leite.

Pode ser extremamente útil quando existe dificuldade de atingir necessidades proteicas por meio da alimentação, inclusive em idosos, atletas ou determinadas situações clínicas.

Mas suplemento não é sinônimo de necessidade.

Consumir enormes quantidades de whey para “manter o metabolismo acelerado” ou “evitar catabolismo” não é uma estratégia universal.

Em pessoas com doença renal, por exemplo, a quantidade de proteína precisa ser individualizada.

O erro: transformar uma ferramenta nutricional em alimento obrigatório.

 

  1. “Quanto mais proteína, melhor”

A proteína é indispensável para músculos, enzimas, hormônios, anticorpos e inúmeros processos fisiológicos.

Mas necessidades não são infinitas. Dietas hiperproteicas podem ser úteis em determinados contextos, porém consumo muito elevado e prolongado, especialmente baseado em carnes processadas e alimentos ricos em gordura saturada e sódio, não deve ser automaticamente considerado saudável. Em pessoas com doença renal, a questão é ainda mais delicada (2025).

O erro: confundir suficiência proteica com consumo máximo possível.

 

  1. Dietas exclusivamente líquidas

Dietas de sucos, caldos, shakes ou líquidos podem reduzir rapidamente a ingestão energética. Mas a mastigação, a saciedade, a fibra, a densidade nutricional e a variedade alimentar fazem parte da fisiologia normal da alimentação.

Além disso, retirar alimentos inteiros por longos períodos pode reduzir a ingestão de determinados nutrientes.

Dietas de sucos por períodos bem curtos podem trazer alguns benefícios desde que competentemente indicadas e monitoradas. Mas períodos longos representam um exagero que ameaça a nutrição.

O erro: considerar que quanto menos estrutura tiver a alimentação, mais “leve” e saudável ela será.

 

  1. Dietas de um único alimento

Dieta da banana, dieta da sopa, dieta da maçã, dieta da carne, dieta do ovo, dieta do abacaxi e inúmeras outras variações já apareceram.

Alguns planos monótonos de alimentação, desde que adequadamente construídos, por tempo limitado, monitorados e bem indicados, podem ser benéficos.

E se forcarmos só na perda de peso, ela pode ocorrer, porque a dieta é monótona e energeticamente restritiva. Mas geralmente dura pouco. Isso não demonstra superioridade metabólica do alimento escolhido.

O erro: atribuir ao alimento aquilo que foi produzido principalmente pela restrição energética e pela monotonia alimentar.

 

  1. “Uma colher de vinagre antes das refeições emagrece”

O vinagre e o ácido acético despertaram interesse científico, inclusive por possíveis efeitos modestos sobre glicemia pós-prandial e saciedade. Isso é muito diferente de transformá-lo em tratamento para obesidade.

Não há justificativa para ingerir grandes quantidades de vinagre ou utilizar preparações concentradas, que podem causar irritação gastrointestinal e danos ao esmalte dentário.

O erro: transformar um efeito fisiológico pequeno em promessa de emagrecimento.

 

  1. Água alcalina e dieta alcalina

Existem diversos relatos empíricos sobre os benefícios do consumo de água alcalina, somados à longevidade histórica do conceito de dieta alcalinizante. Na ampla maioria das circunstâncias, a adoção dessas práticas não acarreta prejuízos diretos à saúde — a não ser quando são conduzidas a extremos dogmáticos e comercializadas como propostas isoladas de “cura”.

Uma revisão sistemática rigorosa evidenciou a quase total ausência de dados clínicos que sustentem a indicação de dietas ou águas alcalinas para a prevenção ou o tratamento do câncer (Fenton; Huang, 2016). Afirmar que essas intervenções curam neoplasias é um erro crasso e recorrente, extrapolado com frequência para outros cenários clínicos.

Por outro lado, incorre-se no erro oposto ao rejeitar sumariamente a prática. Ingerir água alcalina, embora careça de respaldo metodológico robusto, não se configura como uma conduta prejudicial; pode haver ali algum benefício biológico ainda não elucidado pela literatura, lembrando sempre o preceito epistemológico de que ausência de evidência não constitui evidência de ausência. Ao mesmo tempo, não cabe inflacionar ou simplificar diretrizes destituídas de confirmação científica. Se o hábito é amplamente defendido por usuários que relatam bem-estar, na pior das hipóteses estamos diante de um efeito placebo benéfico. Ou haveria algo a mais? A observação clínica é o ponto de partida da ciência médica. Se a prática não gera dano, acumula relatos favoráveis e resiste ao tempo, não há justificativa para uma contraindicação peremptória — sobretudo considerando que ensaios clínicos controlados e de grande porte dependem de vultosos financiamentos e nem sempre despertam interesse comercial. Obviamente, isso não autoriza a atribuição de propriedades mágicas ou curativas, como o combate ao câncer.

Do ponto de vista fisiológico, o organismo humano dispõe de sistemas-tampão respiratórios e renais extraordinariamente refinados para manter o pH sanguíneo dentro de uma faixa estrita e constante (7,35 a 7,45). Na prática moderna, a noção de “dieta alcalinizante” vem sendo mais adequadamente traduzida pelo conceito de alimentação saudável associada à integridade do ecossistema intestinal. Afinal, as escolhas alimentares alteram de fato a carga ácida renal e parâmetros pontuais da urina, mas isso não confere a nenhum alimento a capacidade de alterar o pH sistêmico.

O equívoco central reside em confundir pH urinário com pH plasmático, reduzindo uma homeostase bioquímica altamente sofisticada a um argumento comercial simplista.

 

 

 

  1. Dieta baseada no tipo sanguíneo

A ideia de que pessoas com sangue A, B, AB ou O deveriam seguir dietas diferentes ganhou enorme popularidade. Uma revisão sistemática não encontrou evidência que demonstrasse benefícios à saúde decorrentes da adesão a dietas determinadas pelo grupo sanguíneo (Cusack et al., 2013).

Não é incomum ouvirmos de pessoas que seguem essas dietas relatos de benefícios, pois costumam excluir vários alimentos não saudáveis. Mas pecam ao propor restrições desnecessárias de alimentos saudáveis ou insistir em mudanças e padrões sem embasamento consistente.

O erro: utilizar uma característica biológica verdadeira — o grupo sanguíneo — para sustentar uma relação nutricional que não foi demonstrada.

 

  1. “Sem lectinas”

As lectinas são proteínas presentes em diversos vegetais e leguminosas.

Algumas lectinas podem realmente ser tóxicas quando determinados alimentos são consumidos crus ou inadequadamente preparados. O cozimento, entretanto, reduz substancialmente essa atividade em muitas leguminosas. Transformar todas as lectinas em inimigas da saúde não é justificável.

O erro: transformar uma questão real de segurança alimentar em uma teoria geral de toxicidade vegetal.

 

 

  1. “Sem antinutrientes”

Fitatos, oxalatos, taninos e outras substâncias passaram a ser chamadas genericamente de “antinutrientes”. Algumas podem reduzir a absorção de determinados minerais em certas circunstâncias.

Mas isso não significa que alimentos ricos nessas substâncias sejam necessariamente prejudiciais. Muitos desses compostos também apresentam propriedades biológicas potencialmente benéficas.

O erro: chamar de “antinutriente” algo que, dependendo do contexto, também pode ser um composto bioativo.

 

  1. Dietas sem carboidrato levadas ao extremo

Reduzir açúcar livre e bebidas açucaradas é uma orientação perfeitamente razoável. O problema aparece quando “açúcar” passa a significar qualquer carboidrato.

Frutas, raízes, leguminosas e cereais integrais não devem ser colocados no mesmo grupo que refrigerantes, doces e produtos ultraprocessados simplesmente porque contêm carboidratos ou açúcares naturalmente presentes.

O erro: confundir açúcar adicionado com todos os carboidratos da alimentação.

 

  1. “Carboidrato é inflamatório”

Carboidratos são uma família extremamente ampla. A resposta metabólica a um refrigerante, uma porção de aveia, uma lentilha, uma batata cozida e uma fruta não é equivalente.

Qualidade, quantidade, processamento, fibra, combinação alimentar e contexto metabólico importam.

O erro: tratar todos os carboidratos como uma única substância.

 

  1. “Gordura é inflamatória” — ou “gordura é saudável”

As duas frases podem ser igualmente simplistas. Gordura trans, gordura saturada, ácido oleico, ômega-3 e outros ácidos graxos apresentam propriedades diferentes. Não existe uma única categoria metabólica chamada simplesmente “gordura”.

O erro: discutir macronutrientes como se cada grupo tivesse uma única propriedade biológica.

 

  1. Vegetarianismo como sinônimo automático de saúde

Uma dieta vegetariana pode ser excelente. Pode ser rica em verduras, frutas, legumes, feijões, lentilhas, grãos integrais, castanhas e sementes.

Mas também pode ser baseada em pão branco, massas, doces, biscoitos, frituras e produtos ultraprocessados vegetarianos. Portanto:

Vegetariano descreve uma escolha alimentar; não é um certificado de qualidade nutricional.

 

  1. Veganismo como sinônimo automático de saúde

A mesma lógica se aplica à dieta vegana. Uma dieta vegana adequadamente planejada pode ser nutricionalmente adequada e oferecer benefícios metabólicos importantes (Melina et al., 2025).

Mas vitamina B12 precisa ser adequadamente suprida. Dependendo da composição da dieta, também merecem atenção proteína, ferro, zinco, cálcio, iodo, vitamina D e, em algumas situações, ômega-3 de cadeia longa.

Portanto, vegano pode ser muito saudável ou nutricionalmente inadequado, dependendo da qualidade e do planejamento.

 

  1. “Plant-based” como sinônimo de “qualquer coisa vegetal”

“Plant-based” também não significa automaticamente saudável.

Uma alimentação predominantemente vegetal composta por legumes, verduras, frutas, grãos integrais, leguminosas, castanhas e sementes é muito diferente de uma dieta baseada em produtos ultraprocessados “plant-based”. Mais uma vez, a qualidade global importa.

 

  1. “Sem ultraprocessados” levado ao fundamentalismo

Reduzir ultraprocessados é uma estratégia alimentar amplamente recomendada.

Mas transformar qualquer alimento industrializado em “veneno” também é uma simplificação.

Congelamento, pasteurização, fermentação, moagem, cozimento, embalagem e outros processos industriais não tornam automaticamente um alimento inadequado.

O importante é analisar o produto, sua composição, sua função na dieta e a frequência de consumo.

 

  1. Superalimentos

Mirtilo, chia, cúrcuma, quinoa, spirulina, goji berry, maca, matcha, açaí e muitos outros alimentos já receberam o título de “superalimento”. A maioria contém nutrientes ou compostos bioativos interessantes. O problema está no prefixo “super”. Nenhum alimento isolado compensa uma alimentação ruim.

O erro: procurar saúde em um alimento excepcional em vez de construir um padrão alimentar consistentemente saudável.

 

  1. Megadoses de vitaminas e minerais

A ideia de que “se pouco faz bem, muito faz melhor” é particularmente perigosa na suplementação.

Vitaminas A, D, E e K podem acumular-se no organismo. Ferro pode ser tóxico em excesso. Selênio apresenta janela terapêutica relativamente estreita. Mesmo substâncias hidrossolúveis não são automaticamente inofensivas em doses farmacológicas.

Suplementação deve responder a uma necessidade identificada, não a uma lógica de “quanto mais, melhor”.

 

  1. Suplementos para “acelerar o metabolismo”

Termogênicos, cápsulas para queimar gordura, combinações de cafeína, extratos vegetais e diversos suplementos são frequentemente vendidos com promessas superiores às evidências.

Mesmo quando um ingrediente aumenta discretamente a termogênese, isso não significa necessariamente perda significativa de peso. Pelo contrário, o exagero no consumo de termogênicos vem representando uma ameaça à saúde.

O erro: transformar uma alteração bioquímica mensurável em benefício clínico relevante.

 

  1. A demonização de um único alimento

“Leite faz mal.”

“Ovo faz mal.”

“Carne faz mal.”

“Soja faz mal.”

“Glúten faz mal.”

“Fruta faz mal.”

“Óleo vegetal faz mal.”

“Batata faz mal.”

Quase sempre, a realidade é mais complexa.

Um alimento deve ser avaliado considerando dose, frequência, processamento, composição global da dieta e características da pessoa que o consome.

 

  1. E quais padrões alimentares têm hoje melhor sustentação científica?

É importante não terminar um artigo sobre modismos apenas dizendo o que não fazer. Existe, sim, um núcleo de características que aparece repetidamente nos padrões alimentares associados à melhor saúde.

Mediterrânea e DASH são padrões particularmente bem estabelecidos; padrões vegetarianos, veganos e plant-based também podem ser saudáveis quando adequadamente planejados; Portfolio, nórdico e MIND têm evidências relevantes, embora com objetivos e volumes de evidência diferentes. “Dieta prudente” é mais propriamente uma descrição de padrão alimentar saudável encontrada em estudos epidemiológicos do que uma dieta padronizada equivalente à Mediterrânea ou DASH. Diretrizes contemporâneas também enfatizam que diferentes padrões podem funcionar quando compartilham os elementos fundamentais de qualidade alimentar. Entre os padrões com sólida sustentação científica estão resumidamente:

 

Dieta Mediterrânea

Rica em vegetais, frutas, legumes, grãos integrais, castanhas, azeite de oliva e peixes, com consumo moderado de aves, ovos e laticínios e menor participação de carnes processadas, carne vermelha e doces.

É provavelmente o padrão alimentar mais extensamente estudado em prevenção cardiovascular e doenças crônicas (2025/2026).

 

DASH

Desenvolvida inicialmente para prevenção e tratamento da hipertensão.

Prioriza frutas, vegetais, grãos integrais, leguminosas, castanhas e laticínios com menor teor de gordura, além de controlar especialmente o sódio.

A evidência para redução da pressão arterial é particularmente consistente (ACC/AHA, 2025).

 

Padrões vegetarianos e veganos adequadamente planejados

Podem apresentar excelente qualidade nutricional quando incluem variedade de alimentos vegetais e atenção aos nutrientes potencialmente críticos.

A literatura contemporânea não sustenta dizer que vegetarianismo ou veganismo sejam necessariamente melhores ou piores em todas as circunstâncias; a qualidade da composição da dieta é determinante.

 

Padrões plant-based de alta qualidade

A expressão é ampla, mas os modelos que priorizam alimentos vegetais minimamente processados — verduras, frutas, legumes, leguminosas, grãos integrais, castanhas e sementes — apresentam consistente associação com melhores desfechos de saúde.

 

Dieta Portfolio

Combina elementos como fibras viscosas, proteínas vegetais, castanhas e fitoesteróis, tendo como principal objetivo melhorar o perfil lipídico. É uma estratégia particularmente interessante no contexto da prevenção cardiovascular.

A Dieta Portfolio possui alto nível de evidência clínica para o controle da dislipidemia e redução de risco cardiovascular, comparável, em termos de potência, a intervenções medicamentosas iniciais.

 

Padrão nórdico saudável

Baseado em alimentos como frutos do mar, cereais integrais, frutas vermelhas, raízes, vegetais, leguminosas e óleos vegetais, também apresenta evidências crescentes.

 

Padrão MIND

Combina características da dieta Mediterrânea e DASH, enfatizando alimentos associados à saúde cerebral, como folhas verdes, frutas vermelhas, castanhas, leguminosas e grãos integrais.

 

  1. O que esses padrões têm em comum?

Curiosamente, as dietas cientificamente mais consistentes não dependem de uma única regra espetacular. Elas têm muito em comum:

mais alimentos vegetais;

mais fibras;

mais frutas e verduras;

mais leguminosas;

mais grãos integrais;

mais castanhas e sementes;

gorduras predominantemente insaturadas;

menos carne vermelha e carnes processadas;

menor consumo de açúcar e bebidas açucaradas;

menor consumo de ultraprocessados;

adequação energética;

variedade alimentar;

sem “alimentos-lixo”;

e sustentabilidade ao longo do tempo.

Essa talvez seja uma das mensagens mais importantes da ciência nutricional contemporânea.

 

Conclusão: o problema não é experimentar; é transformar hipótese em dogma

A história da alimentação mostra que os modismos mudam, mas o mecanismo é quase sempre semelhante.

Primeiro aparece uma observação verdadeira. Depois ela é simplificada. Em seguida, é exagerada. Depois transforma-se em uma promessa. Finalmente, aparece uma regra:

“Nunca coma isso.” ou “Coma isso todos os dias.” ou ainda: “Quanto mais, melhor.”

A ciência nutricional raramente é tão simples. Jejum pode ser útil — mas não significa que jejuns cada vez mais longos sejam melhores.

Carboidratos podem ser reduzidos em determinadas estratégias — mas isso não transforma todos os carboidratos em inimigos.

Proteína é essencial — mas não significa que quantidades enormes sejam melhores.

Gorduras são necessárias — mas não são metabolicamente iguais.

Frutas contêm açúcar — mas isso não as transforma em doces.

Vegetais podem conter resíduos de pesticidas — mas isso não elimina seus benefícios nutricionais.

Óleo de coco contém ácidos graxos interessantes — mas isso não o transforma em gordura cardioprotetora.

Vegetarianismo e veganismo podem ser excelentes — mas precisam ser nutricionalmente bem planejados.

A verdadeira alimentação saudável provavelmente é muito menos “milagrosa” do que a alimentação das redes sociais.

E talvez justamente por isso seja mais difícil de vender. Ela não promete uma transformação em sete dias. Ela não precisa demonizar um alimento. Ela não exige uma lista interminável de proibições. Ela não depende de um ingrediente secreto.

Ela consiste, principalmente, em comer uma variedade de alimentos de boa qualidade, em quantidades adequadas, com regularidade, prazer, equilíbrio e adaptação às necessidades individuais.

Na nutrição, frequentemente a melhor resposta não está no extremo oposto do último modismo, mas no equilíbrio entre fisiologia, evidência científica, individualidade e bom senso.

 

Referências

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O

As dietas que parecem saudáveis, mas não são

 

 

Na primeira parte desta série, vimos que uma alimentação saudável não depende de uma dieta da moda, de uma lista interminável de alimentos proibidos ou de uma fórmula que sirva igualmente para todos. Ela precisa nutrir, ter qualidade, respeitar quantidades e proporções, considerar o modo e o momento de comer, ser individualizada e, principalmente, ser sustentável.

Mas existe uma pergunta complementar: se sabemos, em linhas gerais, o que caracteriza uma alimentação saudável, por que tantas dietas inadequadas continuam fazendo tanto sucesso?

Talvez porque algumas delas não sejam completamente absurdas. Realmente produzem perda de peso no início, embora não poucas possam levar a perda de massa muscular junto, o que é péssimo.

Outras melhoram determinados marcadores metabólicos. Algumas têm aplicações terapêuticas legítimas. Outras simplesmente reduzem drasticamente a ingestão calórica e, por isso, produzem resultados rápidos na balança. No fim desnutrem e produzem o abominável efeito rebote

O problema maior aqui é quando um efeito parcial é apresentado como uma verdade universal. Buscar emagrecimento a qualquer preço custou a banalização da maioria das propostas dietéticas.

Uma dieta pode funcionar para uma finalidade específica e, ainda assim, não ser uma boa dieta para todos. Pode ser útil durante determinado período e inadequada como estilo de vida permanente. Pode produzir emagrecimento e, simultaneamente, reduzir a variedade alimentar, comprometer a ingestão de determinados nutrientes ou, vale enfatizar, favorecer perda de massa magra e massa muscular.

Por isso, tão importante quanto perguntar “essa dieta é saudável?”, precisamos perguntar: para quem, para quê, por quanto tempo e com quais consequências?

 

  1. A dieta hiperproteica: quando a proteína vira protagonista demais

Proteína é fundamental. Não se discute. Participa da formação e manutenção dos músculos, enzimas, hormônios, anticorpos e inúmeras estruturas do organismo. Durante o emagrecimento, uma ingestão adequada de proteínas pode aumentar a saciedade e contribuir para a preservação da massa magra. O problema começa quando uma propriedade verdadeira é transformada em uma conclusão falsa: “se proteína ajuda, quanto mais proteína, melhor.”

É comum encontrar na internet dietas nas quais praticamente toda refeição gira em torno de carnes, ovos, shakes ou suplementos proteicos. Vegetais aparecem como acompanhamento, frutas são reduzidas, leguminosas são vistas como “carboidratos” e cereais (como arroz integral) passam a ser tratados como vilões. A proteína deixa de ser um componente da alimentação e passa a ocupar o lugar de quase todos os outros grupos alimentares. Péssima escolha!

O organismo não precisa de um único nutriente em excesso. Precisa de adequação nutricional. Proteína de menos pode ser inadequada; proteína em excesso também. E, quando a hiperproteica vem acompanhada de restrição exagerada de carboidratos, frutas, cereais e leguminosas, o problema deixa de ser apenas a quantidade de proteína: passa a ser a qualidade do padrão alimentar como um todo. Os riscos à saúde não são desprezíveis.

É possível emagrecer com uma dieta hiperproteica. Mas isso não significa que o excesso de proteína tenha sido o responsável por todo o resultado, nem que seja uma estratégia saudável. Nem que o emagrecimento tenha sido acompanhado de uma melhora da composição corporal. Muitas vezes, a perda de peso decorre principalmente da redução espontânea da ingestão energética e da maior saciedade.

Emagrecer não transforma automaticamente uma dieta em uma dieta saudável.

 

 

  1. Dieta cetogênica: uma fisiologia real cercada de muita mistificação

Poucos assuntos da nutrição contemporânea foram tão envolvidos por entusiasmo, modismos, simplificações e propostas contraditórias quanto a dieta cetogênica.

Antes de discutir seus méritos ou limitações, é preciso esclarecer uma questão básica: cetose é um fenômeno fisiológico real. Ela ocorre quando a disponibilidade de carboidratos e de glicose proveniente da alimentação diminui suficientemente, a insulina cai e o glicogênio se exaure, alterando o metabolismo energético em direção à maior utilização de gordura e à produção de corpos cetônicos. Um mecanismo de sobrevivência de troca do combustível. Faltando glicose, o corpo usa gordura.

Isso pode acontecer em diferentes situações. O jejum prolongado é cetogênico. Dietas de muito baixo valor energético podem induzir cetose. Dietas com quantidade muito reduzida de carboidratos também podem fazê-lo. Em determinadas condições, uma dieta com elevada participação proteica e pouquíssimo carboidrato pode contribuir para esse estado metabólico. A cetose, portanto, não é uma propriedade exclusiva de uma determinada “dieta milagrosa”. Mas de novo, forçar esse processo com intensidade, apelando para dietas radicais sem adequada individualização, é sempre um risco.

O que existe então é um estado metabólico, que pode ser alcançado por diferentes caminhos. O problema começa quando esse fenômeno fisiológico é apresentado como se fosse, por si só, sinônimo de saúde, emagrecimento superior ou vantagem metabólica universal.

Como vimos, a redução acentuada de carboidratos diminui a secreção de insulina e reduz as reservas de glicogênio. A produção endógena de glicose passa a depender proporcionalmente mais da gliconeogênese – transformação de outros nutrientes como gordura e proteína em glicose.

Em estudos metabólicos antigos, porém clássicos, dietas com carboidrato muito baixo aumentaram a participação da gliconeogênese na produção de glicose e modificaram a utilização do glicogênio (Boden et al., 2000).

Isso é fisiologia. Não é necessariamente uma patologia. Mas também não é uma justificativa para concluir que quanto menos carboidrato, melhor. Trata-se de uma conclusão simplista, baseada em modismos, não em ciência.

 

  1. O grande problema: confundimos cetose com uma dieta saudável

Na prática clínica, o que mais preocupa não é a existência da cetose. É a forma como o conceito vem sendo utilizado e banalizado.

Hoje encontramos inúmeras propostas denominadas “cetogênicas”: algumas bem formuladas, outras extremamente restritivas; algumas com proteína adequada, outras com proteína insuficiente; algumas com vegetais, fibras e gorduras de boa qualidade, outras baseadas quase exclusivamente em carnes, queijos, manteiga e suplementos.

As antigas mas ainda praticadas dietas Atkins e cetogênica clássicas, embora promovam perda de peso rápida, apresentam riscos cardiovasculares significativos quando fundamentadas no consumo excessivo de gorduras animais, carnes e embutidos. O aumento do colesterol LDL e a ausência de fibras e antioxidantes essenciais elevam a probabilidade de infartos e acidentes vasculares cerebrais.

Mas há protocolos que simplesmente reduzem carboidratos. Há outros que praticamente os eliminam. Há dietas que recomendam enormes quantidades de gordura. Há dietas hiperproteicas apresentadas como cetogênicas. Há jejuns prolongados. Há versões carnívoras. Há propostas comerciais que acrescentam suplementos, bebidas, pós e produtos “keto” a uma alimentação já extremamente restritiva.

Colocar o nome “cetogênica” em uma dieta não garante que ela seja nutricionalmente adequada. Muito menos saudável.

E essa é, na minha experiência clínica de mais de quatro décadas acompanhando pessoas com obesidade, doenças metabólicas e diferentes padrões alimentares, uma das questões que mais merece cautela. Tenho observado repetidamente pessoas que chegam extremamente preocupadas com carboidratos, com medo de frutas, arroz integral, feijão, pão integral ou batata, e que passaram a organizar toda a vida em torno daquilo que não podem comer.

Claro que eliminar os “carboidratos do mal” é um passo louvável. A saúde agradece. Remover doces, guloseimas, refrigerantes, alimentos refinados, ultraprocessados, é um brinde à saúde. Mas não se pode usar a mesa régua para frutas, cereais, tubérculos e leguminosas. É insensato.

O que popularizou as mais bizarras dessas dietas é que emagrecem. Às vezes até muito, inicialmente. Porém não são sustentáveis. Há quem as chame de “dietas do mau humor”, pois mexem adversamente com a psiquê.

Mas, reconheçamos, há protocolos cetogênicos adequados, indicados da maneira certa e para a pessoa certa, que melhoram a glicemia e outros parâmetros metabólicos. Até podem ajudar a controlar a fome.

Mas a maioria dessas dietas vem fazendo mais mal do que bem, na nossa experiência, com alimentação monótona, baixa variedade, perda importante de massa corporal magra, constipação, alterações lipídicas, aterosclerose, dificuldade de manter o padrão alimentar e uma relação cada vez mais rígida e ansiosa com a comida.

Uma dieta que produz emagrecimento, mas produz também medo de comer, não pode ser considerada automaticamente uma boa estratégia de saúde.

 

  1. E o carboidrato saudável? Ele não é um inimigo

Talvez seja necessário recuperar uma ideia que ficou esquecida no entusiasmo pelas dietas low carb: carboidrato também é nutriente.

Não estamos falando de açúcar em excesso, refrigerantes, doces ou farinhas refinadas consumidas indiscriminadamente. Estamos falando de carboidratos provenientes de frutas, verduras, legumes, leguminosas e cereais integrais, que podem fornecer energia, fibras, vitaminas, minerais e diversos compostos bioativos. Os povos mais longevos do mundo, nas blue zones, têm sua dieta baseada nesses carboidratos, que perfazem até 60% do valor calórico total de sua alimentação.

Além disso, o carboidrato possui uma função metabólica importante. A glicose pode ser utilizada diretamente como combustível por diversos tecidos, incluindo o cérebro, e, quando disponível em quantidade adequada, reduz a necessidade de utilizar aminoácidos como substratos para produção de glicose. Estudos metabólicos antigos e clássicos demonstram que a restrição severa de carboidratos altera o metabolismo proteico e aumenta a perda de nitrogênio em determinadas condições (Louard et al., 1992; Pacy et al., 1994).

É por isso que podemos falar, didaticamente, em efeito poupador de proteína dos carboidratos. Isso não significa que uma dieta levemente low carb bem planejada necessariamente cause perda muscular — a literatura atual não permite uma afirmação tão absoluta. Mas significa que não devemos ignorar o problema, especialmente quando combinamos restrição intensa de carboidratos com grande déficit energético, baixa ingestão proteica, ausência de treinamento de força, idade avançada ou emagrecimento muito rápido.

Esse cuidado é particularmente importante em pessoas nas quais preservar massa muscular é prioridade.

 

  1. Perder peso não é a mesma coisa que perder gordura

Outro problema das dietas cetogênicas é a interpretação da balança. Quando reduzimos drasticamente os carboidratos, ocorre redução das reservas de glicogênio. Como o glicogênio é armazenado associado a água, sua redução também provoca perda de água corporal. Além disso, a redução do conteúdo intestinal pode contribuir para uma queda rápida do peso.

O indivíduo sobe na balança e observa uma queda expressiva. “Perdi quatro quilos em dez dias!” Mas isso não significa que quatro quilos de gordura tenham desaparecido. A diferença é fundamental.

O objetivo de um programa de emagrecimento não deveria ser simplesmente produzir a maior queda possível no peso corporal. Deveria ser reduzir principalmente gordura corporal, preservar massa muscular e melhorar saúde metabólica e funcional.

Uma revisão sistemática e metanálise de ensaios randomizados encontrou, em dietas cetogênicas, redução de peso e gordura corporal, mas também redução de massa livre de gordura em comparação com dietas controle (Leung et al., 2025).

Outro estudo de 2025, reunindo 33 estudos, encontrou resultados mais complexos: não observou diferença significativa na massa muscular propriamente dita ou na força, mas encontrou redução de massa livre de gordura com dietas cetogênicas. Os próprios autores ressaltaram a necessidade de estudos randomizados melhores para esclarecer esses efeitos (2025).

Portanto, a afirmação correta não é “dieta cetogênica destrói músculos”. A afirmação correta é mais cuidadosa: dietas cetogênicas não garantem preservação de massa magra, e o risco de perda de massa livre de gordura precisa ser considerado, especialmente quando há grande restrição energética e outros fatores de risco.

 

  1. Quanto menos carboidrato, melhor? Não.

Aqui está talvez um dos maiores equívocos da atual onda cetogênica. Não existe uma regra fisiológica segundo a qual reduzir progressivamente o carboidrato produzirá benefícios progressivamente maiores.

Como vimos e vale enfatizar, uma coisa é reduzir açúcar, bebidas açucaradas e farinhas refinadas. Outra é reduzir carboidratos de boa qualidade a uma pequena fração das necessidades energéticas.

As consequências metabólicas dependem da pessoa, da composição da dieta, da quantidade total de energia, da quantidade e qualidade das proteínas e gorduras, da atividade física e, sobretudo, do tempo durante o qual a estratégia é mantida.

Uma dieta baixa em carboidratos pode produzir efeitos favoráveis sobre triglicerídeos, glicemia e peso em determinadas pessoas. Mas a literatura também apresenta resultados controversos. Uma grande metanálise de 53 ensaios clínicos publicada em 2026 encontrou redução de triglicerídeos e aumento de HDL-colesterol, mas também aumento de LDL-colesterol e colesterol total, com heterogeneidade importante entre os estudos. Os autores concluíram que os efeitos cardiovasculares de longo prazo permanecem incertos (Zhao et al., 2026).

Outra metanálise publicada no mesmo ano, reunindo 62 estudos, chegou a resultados semelhantes: redução de triglicerídeos e aumento de HDL, mas elevação média de LDL-colesterol (o “mau” colesterol) e colesterol total, sem dados suficientes sobre desfechos cardiovasculares de longo prazo (Chang et al., 2026).

Isso é particularmente importante porque um marcador metabólico isolado não determina o resultado clínico final. Não basta dizer que uma dieta reduz a insulina.

Precisamos perguntar o que acontece com LDL, massa muscular, micronutrientes, fibras, microbiota, desempenho físico, função renal quando pertinente, adesão e qualidade de vida — e, finalmente, com a saúde cardiovascular ao longo dos anos.

 

  1. O problema das dietas cetogênicas muito restritivas

Existe ainda um problema mais grave: algumas pessoas não fazem simplesmente uma dieta low carb. Elas fazem uma dieta nutricionalmente insuficiente.

Cortam arroz. Cortam feijão. Cortam frutas. Cortam cereais. Cortam leite. Cortam praticamente todos os vegetais que consideram “carboidratos”. Passam a comer carne, ovos, queijo, manteiga, bacon e suplementos. Depois, reduzem também a quantidade total de comida porque descobriram que “quanto mais cetose, melhor”.

Em pouco tempo, a dieta pode se tornar extremamente monótona e pobre em fibras e determinados micronutrientes. Quando isso acontece, já não estamos diante de uma discussão abstrata sobre “low carb versus low fat”.

Estamos diante de um problema nutricional. Dietas de muito baixo valor energético também merecem cautela. Elas podem ser úteis em situações clínicas específicas, mas apresentam risco de perda de massa magra, especialmente quando mantidas por períodos inadequados ou sem atenção à proteína e ao exercício de resistência (Janssen; Van Every; Phillips, 2023). A mesma lógica vale para dietas cetogênicas muito restritivas.

 

 

  1. A dieta cetogênica pode ter indicação? Sim. Mas indicação não é universalização

É importante deixar claro: não estou afirmando que a dieta cetogênica não tenha lugar na medicina.  A dieta cetogênica clássica possui uma indicação terapêutica bem estabelecida, por exemplo, em determinadas formas de epilepsia refratária. Também existem estudos em obesidade, diabetes, doenças neurológicas e outras condições.

O que precisa ser rejeitado é a ideia de que uma estratégia terapêutica específica deva ser transformada em padrão alimentar universal.

Uma revisão sistemática publicada em 2026 sobre versões plant-based de dietas low carb e cetogênicas encontrou efeitos metabólicos interessantes em estudos de curta duração, mas também observou que a adesão diminuiu em condições de vida real e que as versões cetogênicas exigiram maior supervisão (Mazzola et al., 2026).

Esse detalhe é fundamental. Uma dieta que funciona dentro de um estudo controlado pode ser muito diferente de uma dieta que uma pessoa consegue sustentar sozinha durante cinco ou dez anos.

E sustentabilidade é um dos critérios centrais de uma alimentação saudável.

 

  1. A dieta carnívora: quando a restrição chega ao extremo

Se existe uma tendência de restringir carboidratos, existe uma versão ainda mais radical: a dieta carnívora. A proposta é praticamente eliminar o reino vegetal e concentrar a alimentação em carne e outros alimentos de origem animal.

É importante não confundir essa estratégia com uma alimentação que simplesmente contém carne. Uma dieta predominantemente vegetal pode conter pequenas quantidades de carne para os que optarem por esse plano. O problema da dieta carnívora é justamente a eliminação quase completa dos alimentos vegetais.

Uma revisão de escopo publicada em 2026 encontrou apenas nove estudos em humanos sobre a dieta carnívora. Alguns relataram perda de peso, maior saciedade e possíveis melhorias metabólicas, mas a evidência disponível é muito limitada, com estudos pequenos, curtos e frequentemente sem grupo controle. Ao mesmo tempo, foram identificados riscos potenciais de deficiência de vitamina C, vitamina D, cálcio, magnésio, iodo e fibras, além de elevação de LDL-colesterol e colesterol total em alguns estudos (Lietz; Dapprich; Fischer, 2026).

A conclusão dos autores é particularmente importante: não existem atualmente evidências suficientes para recomendar a dieta carnívora como padrão alimentar de longo prazo. Isso parece coerente com um princípio bastante simples: se precisamos eliminar quase todos os vegetais para que uma dieta funcione, talvez devêssemos questionar a dieta — e não os vegetais.

 

  1. “Sou vegano, portanto minha alimentação é saudável”

O extremo oposto também precisa ser discutido. Uma dieta vegana pode ser excelente. Mas veganismo não é sinônimo de alimentação saudável.

É perfeitamente possível consumir pão branco, biscoitos, massas refinadas, batatas fritas, doces, refrigerantes e produtos ultraprocessados e, ainda assim, não consumir nenhum alimento de origem animal.

O rótulo “vegano” não informa, sozinho, a qualidade nutricional. Por outro lado, uma alimentação vegana bem planejada pode ser rica em frutas, vegetais, leguminosas, cereais integrais, sementes e castanhas, oferecendo excelente quantidade de fibras e diversos micronutrientes.

Existe, entretanto, uma questão particularmente importante: vitamina B12. Pessoas que seguem dietas veganas precisam assegurar uma fonte confiável dessa vitamina, geralmente por suplementação. Dependendo da composição da dieta e das características individuais, também pode ser necessário atenção especial a ferro, cálcio, vitamina D, iodo, zinco e ômega-3.

Portanto: não há problema em ser vegano. O problema é acreditar que o rótulo da dieta substitui o planejamento nutricional.

 

  1. Sem glúten para quem não precisa

Poucas palavras ganharam tanta força no imaginário alimentar quanto “glúten”. Para quem tem doença celíaca, a retirada do glúten é tratamento e deve ser rigorosa. Há também outras situações clínicas específicas relacionadas ao trigo ou ao glúten, como a sensibilidade não celíaca ao glúten, nas quais uma estratégia individualizada pode ser considerada.

Mas isso não significa que retirar o glúten de uma pessoa saudável automaticamente produza mais saúde. Um biscoito sem glúten continua sendo um biscoito. Uma farinha sem glúten continua podendo ser refinada. E um produto industrializado “gluten free” não se transforma em alimento saudável simplesmente porque não contém glúten.

Além disso, uma revisão sistemática e metanálise publicada em 2025 encontrou associação entre dietas sem glúten e inadequações de determinados micronutrientes em diferentes grupos com doenças relacionadas ao trigo, embora os autores tenham classificado a certeza global da evidência como muito baixa (Russell et al., 2025).

Portanto: sem glúten é necessário para alguns; não é sinônimo de saudável para todos.

 

  1. Low-FODMAP: boa ferramenta, péssimo uso quando vira prisão alimentar

A dieta low-FODMAP é um bom exemplo de como uma intervenção terapêutica pode ser mal utilizada.

Ela possui evidência para o tratamento de sintomas da síndrome do intestino irritável. Uma revisão abrangente publicada em 2026, reunindo 16 metanálises e mais de 9.900 pacientes com síndrome do intestino irritável, encontrou melhora significativa dos sintomas globais e da qualidade de vida com a estratégia (2026).

Portanto, não devemos demonizá-la. O problema é utilizar uma dieta criada para uma condição clínica específica como se fosse uma dieta geral de saúde. A abordagem tradicional envolve três etapas: restrição, reintrodução e personalização (Lomer, 2023).

A fase de restrição é justamente isso: uma fase. Um estudo com reintrodução controlada mostrou que, entre pacientes que responderam à fase inicial, diferentes FODMAPs provocaram sintomas em diferentes pessoas, demonstrando que a tolerância é individual e que não existe uma lista universal de alimentos que todos precisam evitar (Van den Houte et al., 2024).

Portanto, o objetivo não deveria ser terminar com uma lista de vinte alimentos proibidos. Deveria ser exatamente o contrário: descobrir o que a pessoa tolera e ampliar novamente sua alimentação.

  1. E as dietas de exclusão?

Existe uma categoria ainda mais ampla: a dieta que vai retirando alimentos até que quase nada reste.

Primeiro, açúcar (aqui uma exclusão sensata, quando inclui guloseimas e afins). Depois, glúten. Depois, leite. Depois, carne. Depois, frutas à noite. Depois, alimentos “inflamatórios”. Depois, alimentos ricos em histamina. Depois, FODMAPs. Depois, lectinas. Depois, solanáceas. Depois, qualquer ingrediente cujo nome pareça “químico”.

A lista cresce. E a alimentação diminui. É importante deixar claro que restrição não é necessariamente erro. Uma alergia alimentar verdadeira justifica exclusão. A doença celíaca justifica exclusão do glúten. Uma condição metabólica ou gastrointestinal específica pode exigir restrições determinadas.

O problema aparece quando a exclusão não possui diagnóstico, objetivo ou prazo. Quanto mais alimentos saudáveis são eliminados sem necessidade, maior pode ser o risco de inadequação nutricional e menor a variedade da dieta.

Toda exclusão deveria responder a uma pergunta simples: por que este alimento precisa sair?

 

  1. Os famosos testes de “intolerância alimentar”

Esse é outro terreno fértil para confusão entre tecnologia e medicina.

Imagine uma pessoa que não apresenta nenhum sintoma ao comer ovo, tomate, leite ou frutas. Ela faz um painel comercial de “intolerâncias” baseado em IgG e recebe uma lista de dezenas de alimentos “positivos”.

A pessoa acredita que seu organismo “não tolera” esses alimentos e começa a eliminá-los. O problema é que a presença de IgG contra alimentos não demonstra, por si só, intolerância alimentar.

A American Academy of Allergy, Asthma & Immunology explica que a presença de IgG contra alimentos provavelmente representa uma resposta normal à exposição alimentar e recomenda contra o uso desses testes para diagnosticar alergia, intolerância ou “sensibilidade” alimentar (AAAAI, 2026).

O princípio é muito importante: um exame pode medir alguma coisa e, ainda assim, não ser apropriado para responder à pergunta clínica que estamos fazendo.

Nem todo resultado laboratorial merece virar uma restrição alimentar.

  1. E a nutrigenômica?

Aqui precisamos ser ainda mais cuidadosos, porque existe ciência verdadeira por trás do conceito.

Nossos genes influenciam o metabolismo. A alimentação interage com genes, proteínas, vias metabólicas e microbiota. A nutrição personalizada é uma área legítima de investigação e provavelmente terá importância crescente.

Mas existe uma distância enorme entre dizer: “genes e alimentação interagem” e dizer: “seu teste genético determina exatamente o que você deve comer”. A evidência ainda não permite essa simplificação.

Revisões de ensaios clínicos mostram resultados heterogêneos para estratégias de nutrição personalizada baseadas em características genéticas. Há estudos promissores, mas ainda não temos base científica para transformar um painel genético comercial em uma lista automática de alimentos permitidos e proibidos. Portanto, a questão não é rejeitar a nutrigenômica.

É impedir que uma ciência promissora seja transformada em marketing de precisão sem precisão clínica suficiente.

 

  1. Quando a busca pela alimentação perfeita começa a adoecer

Existe ainda um problema mais sutil. A pessoa começa querendo comer melhor. Elimina quase tudo, tenta quase tudo.  Finalmente, quase nada parece suficientemente puro ou saudável.

É nesse contexto que surgiu o termo ortorexia nervosa, utilizado para descrever uma preocupação patológica com a pureza ou qualidade dos alimentos. Toca as raias da loucura, da paranoia.

É importante, entretanto, não transformar o termo em diagnóstico indiscriminado. Uma revisão sistemática de revisões publicada em 2024 destacou que a ortorexia ainda não é formalmente reconhecida como diagnóstico nos principais sistemas classificatórios e que seus critérios permanecem controversos (Ng et al., 2024). Portanto, gostar de comida saudável não é ortorexia.

A preocupação surge quando a busca pela alimentação saudável produz ansiedade, sofrimento, isolamento social, rigidez excessiva ou prejuízo nutricional. A comida deve contribuir para a saúde. Não deve transformar a vida em uma prisão.

 

  1. O grande erro: confundir restrição com qualidade

Talvez exista uma espécie de “lei psicológica” por trás de muitas dietas da moda: quanto maior a lista de proibições, mais científica a dieta parece. Mas pode ser o contrário.

Uma alimentação de qualidade não precisa ser definida pelo número de alimentos que exclui. Ela deveria ser definida pela quantidade e qualidade dos alimentos saudáveis que consegue incluir: Frutas. Vegetais. Leguminosas. Cereais integrais. Castanhas. Sementes. Azeite. Proteínas adequadas. Água. Variedade. Prazer com o saudável.

Uma dieta pode ser vegetariana. Pode conter ovos. Pode conter leite. Pode conter pequenas quantidades de carne. Pode utilizar uma estratégia de restrição temporal. Pode até, em situações bem específicas, utilizar uma estratégia cetogênica temporária, com orientação competente.

Mas nenhuma dessas características, isoladamente, determina a qualidade da alimentação. A qualidade está no conjunto.

 

  1. O verdadeiro teste de uma dieta: o que acontece depois de um ano?

Talvez devêssemos mudar completamente a maneira como avaliamos as dietas.

Em vez de perguntar: “Quanto você emagreceu em 30 dias?” perguntar: “Como você estará daqui a um ano?”

Em vez de perguntar: “Quantos alimentos você eliminou?” perguntar: “Quantos alimentos saudáveis você conseguiu incorporar?”

Em vez de perguntar: “Quantas regras você consegue seguir?” perguntar: “Você consegue viver assim?”

E talvez a pergunta mais importante seja: “Essa dieta melhorou sua relação com a comida ou tornou você cada vez mais dependente de regras?”

Uma estratégia nutricional verdadeiramente boa precisa sobreviver à vida real: viagens, restaurantes, festas, trabalho, família, férias, imprevistos e mudanças de rotina.

Se a dieta funciona somente quando tudo está sob controle, talvez ela não seja uma boa dieta para a vida.

 

  1. Então nenhuma dieta específica presta?

Não. E essa seria outra conclusão equivocada. Dietas terapêuticas existem por uma razão. A dieta sem glúten é indispensável na doença celíaca. A low-FODMAP pode ser útil em determinados pacientes com síndrome do intestino irritável. Dietas cetogênicas têm aplicações terapêuticas específicas e continuam sendo estudadas. Dietas vegetarianas e veganas podem ser excelentes quando bem planejadas. Dietas hipocalóricas podem ser necessárias para redução de peso. Restrições específicas podem ser indispensáveis em determinadas doenças metabólicas, renais, gastrointestinais ou alérgicas.

O problema não é a existência dessas dietas. O problema é transformar uma ferramenta em dogma. Uma dieta terapêutica deveria ter: indicação → objetivo → planejamento → monitorização → reavaliação.

E, quando possível: reintrodução → ampliação da variedade → manutenção sustentável.

Essa sequência é muito diferente de encontrar uma dieta na internet e decidir que ela deverá ser seguida para sempre.

  1. A regra de ouro

Depois de analisar tantas dietas, talvez possamos estabelecer uma regra bastante simples: quanto mais uma dieta promete resolver tudo eliminando cada vez mais alimentos, maior deve ser nossa desconfiança.

Uma boa alimentação não precisa ser misteriosa. Não precisa depender de suplementos caros. Não precisa de dezenas de exames. Não precisa de uma lista de 50 alimentos proibidos. Não precisa de um guru.

E não precisa ser perfeita. Precisa ser nutricionalmente adequada, qualitativamente boa, equilibrada, individualizada e sustentável.

Essa é a diferença entre uma dieta que funciona por algumas semanas e uma alimentação capaz de acompanhar uma pessoa durante toda a vida.

 

Conclusão

A ciência da nutrição não é uma competição para descobrir qual será o próximo alimento vilão. Nem para descobrir qual dieta produzirá a maior perda de peso no menor tempo.

A pergunta mais interessante é outra: qual padrão alimentar consegue reunir saúde, adequação nutricional, prazer, variedade, individualização e sustentabilidade?

Uma dieta pode ser low carb. Pode ser vegetariana. Pode ser vegana. Pode conter carne. Pode utilizar jejum. Pode, em situações específicas, utilizar uma estratégia cetogênica. Pode precisar excluir determinado alimento por razões clínicas.

Mas nenhuma dessas características, isoladamente, transforma uma dieta em saudável. A qualidade está no conjunto.

E talvez essa seja a melhor maneira de olhar para todas as dietas que aparecem diariamente nas redes sociais: não precisamos perguntar primeiro se a dieta é famosa. Precisamos perguntar se ela é necessária, se é segura, se é nutricionalmente adequada, se é sustentada por evidências e, principalmente, se conseguimos mantê-la.

Porque, no fim, uma dieta que funciona durante trinta dias pode ser interessante. Uma alimentação que conseguimos manter durante trinta anos é muito mais poderosa.

 

Disclaimer

Este texto tem finalidade educativa e não substitui avaliação médica ou nutricional individualizada. Dietas terapêuticas, dietas de exclusão e estratégias de restrição energética ou de macronutrientes podem ter indicações específicas e devem ser individualizadas e acompanhadas por profissionais habilitados. Pessoas com doenças, gestantes, crianças, idosos, atletas e indivíduos em uso de medicamentos podem apresentar necessidades nutricionais particulares.

 

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