Sair do Abismo: O Que Você Precisa Entender Sobre a Depressão – Parte 3 – O futuro já começou: neuromodulação, microbiota, medicina genômica e estilo de vida

 

 

A psiquiatria está mudando

Durante boa parte do século XX, a psiquiatria concentrou seus esforços no desenvolvimento de novos medicamentos. Eles salvaram e continuam salvando milhões de vidas.

Mas uma constatação chamou a atenção dos pesquisadores: mesmo com antidepressivos eficazes, psicoterapia e bons profissionais, uma parcela importante dos pacientes permanecia sintomática ou apresentava recaídas frequentes.

Essa percepção impulsionou uma nova forma de pensar. Em vez de procurar um único tratamento capaz de resolver todos os casos, a psiquiatria passou a integrar diferentes estratégias, considerando que a depressão resulta da interação entre fatores biológicos, psicológicos, sociais e ambientais.

Essa visão, hoje amplamente adotada pelas principais diretrizes internacionais, abriu espaço para terapias inovadoras e para uma valorização crescente da medicina do estilo de vida (Malhi et al., 2021; Kennedy et al., 2023).

 

Estimulação Magnética Transcraniana (EMT)

Imagine poder estimular áreas específicas do cérebro sem cirurgia, sem anestesia geral e sem necessidade de internação. É exatamente essa a proposta da Estimulação Magnética Transcraniana (EMT).

Por meio de pulsos magnéticos aplicados sobre o couro cabeludo, a técnica modula circuitos cerebrais envolvidos na regulação do humor, principalmente o córtex pré-frontal dorsolateral esquerdo, cuja atividade costuma estar reduzida em muitos pacientes com depressão (Lefaucheur et al., 2020).

A EMT é indicada principalmente para pacientes que não responderam adequadamente a um ou mais antidepressivos ou que apresentaram efeitos colaterais importantes.

O tratamento costuma ser realizado em sessões diárias durante quatro a seis semanas. Os efeitos adversos geralmente são leves, limitando-se a desconforto local ou cefaleia transitória. O risco de convulsões é extremamente baixo quando o procedimento é realizado de acordo com protocolos padronizados.

 

Resumo Prático

✔ Não é cirurgia.

✔ Não requer anestesia.

✔ Não provoca perda de memória.

✔ Pode beneficiar pacientes com depressão resistente.

 

Eletroconvulsoterapia (ECT): muito diferente do que o cinema mostrou

Poucos tratamentos médicos sofreram tanto preconceito quanto a eletroconvulsoterapia. Durante décadas, filmes e programas de televisão retrataram o procedimento como uma forma de punição ou violência. Nada poderia estar mais distante da realidade atual.

Hoje a ECT é realizada sob anestesia geral, com relaxamento muscular e monitorização rigorosa. Ela continua sendo considerada um dos tratamentos mais eficazes para depressão grave, especialmente quando há risco de suicídio, catatonia, sintomas psicóticos ou necessidade de resposta rápida (APA, 2022).

Sua principal limitação continua sendo a possibilidade de alterações transitórias da memória em parte dos pacientes, geralmente reversíveis ao longo do tempo.

 

A revolução da cetamina e da esketamina

Talvez nenhuma novidade tenha provocado tanto entusiasmo na psiquiatria nos últimos anos quanto a introdução da cetamina e, posteriormente, da esketamina intranasal.

Ao contrário dos antidepressivos tradicionais, que costumam levar semanas para produzir efeito, a esketamina pode reduzir sintomas depressivos graves e ideação suicida em poucas horas ou poucos dias em pacientes selecionados (Daly et al., 2019).

Seu mecanismo de ação envolve principalmente o sistema glutamatérgico e a rápida indução de neuroplasticidade, representando uma mudança importante na compreensão da biologia da depressão.

Entretanto, trata-se de um tratamento reservado para situações específicas, realizado em ambiente controlado e sempre associado ao acompanhamento psiquiátrico.

 

A farmacogenômica pode ajudar?

Outro campo em rápida expansão é a farmacogenômica, que procura entender como diferenças genéticas influenciam a resposta aos medicamentos.

Genes como CYP2D6 e CYP2C19 podem alterar a velocidade com que alguns antidepressivos são metabolizados. Em determinadas situações, esse conhecimento auxilia na escolha da medicação ou no ajuste da dose (CPIC, 2023).

Isso não significa que um teste genético indique automaticamente “o antidepressivo ideal”. A decisão continua dependendo da avaliação clínica, das características do paciente e de sua história de resposta aos tratamentos anteriores.

A farmacogenômica deve ser vista como uma ferramenta complementar, e não como substituta do raciocínio clínico.

 

O intestino também participa da conversa

Nas últimas duas décadas, uma área da pesquisa cresceu de forma impressionante: o estudo do eixo intestino-cérebro.

Hoje sabemos que os trilhões de microrganismos que vivem normalmente em nosso intestino produzem metabólitos capazes de influenciar a inflamação, o metabolismo, a função imunológica e a comunicação entre intestino e cérebro (Cryan et al., 2019).

Alguns estudos sugerem que determinadas alterações da microbiota podem estar associadas a sintomas depressivos. Entretanto, ainda não existem evidências suficientes para recomendar probióticos específicos como tratamento isolado da depressão.

O que já sabemos é que uma alimentação rica em frutas, verduras, legumes, fibras e alimentos minimamente processados favorece uma microbiota mais saudável e traz benefícios para a saúde física e mental.

 

A medicina do estilo de vida entrou definitivamente na psiquiatria

Talvez a maior transformação da psiquiatria moderna tenha sido reconhecer que medicamentos são fundamentais, mas não suficientes para muitos pacientes.

Cada vez mais estudos mostram que hábitos cotidianos influenciam diretamente o funcionamento cerebral.

 

Exercício físico

Uma das intervenções não farmacológicas mais bem documentadas é o exercício físico.

Meta-análises recentes mostram que exercícios aeróbicos, musculação, caminhadas rápidas e atividades como yoga podem reduzir significativamente sintomas depressivos, muitas vezes como complemento importante ao tratamento convencional (Noetel et al., 2024).

Além de melhorar o humor, o exercício favorece a neuroplasticidade, aumenta os níveis de BDNF, reduz marcadores inflamatórios e melhora o sono.

 

Sono

Dormir mal aumenta o risco de depressão. Ao mesmo tempo, a própria depressão frequentemente prejudica o sono.

Esse ciclo pode ser rompido com medidas simples de higiene do sono, tratamento da insônia e, quando indicado, Terapia Cognitivo-Comportamental para Insônia (CBT-I), atualmente considerada uma das intervenções mais eficazes para esse problema (Riemann et al., 2023).

 

Alimentação

O estudo SMILES mostrou que pacientes com depressão moderada a grave apresentaram melhora significativa quando adotaram um padrão alimentar semelhante à dieta mediterrânea, rico em vegetais, frutas, azeite de oliva, peixes, castanhas e grãos integrais (Jacka et al., 2017).

Isso não significa que exista uma “dieta antidepressiva”, mas reforça a ideia de que cérebro e metabolismo caminham juntos.

 

Luz solar, natureza e relações humanas

Exposição regular à luz natural, contato com áreas verdes, relacionamentos saudáveis, redução do isolamento social e abstinência do álcool também fazem parte das recomendações atuais para promoção da saúde mental.  São intervenções simples, de baixo custo e frequentemente negligenciadas.

 

Respostas além da ciência – na fé

A busca incessante da ciência por respostas neurológicas e psicológicas valida o que a humanidade pratica há milênios: a fé, a oração, a meditação e a religiosidade são escudos poderosos na preservação da saúde mental.

Quando um indivíduo medita, ora ou exercita sua devoção, o cérebro reduz drasticamente a hiperatividade da amígdala — o centro do medo e do estresse —, enquanto estimula o córtex pré-frontal, promovendo estabilidade emocional, resiliência e esperança.

 

Longe de serem meros escapes subjetivos, essas práticas atuam como agentes terapêuticos complementares fundamentais, capazes de reconfigurar a resposta humana ao sofrimento, mitigando os sintomas neurovegetativos da ansiedade crônica e oferecendo um suporte existencial robusto que ampara e resgata o indivíduo do abismo da depressão.

Uma revisão sistemática publicada no Journal of Clinical Psychology demonstrou de forma inequívoca que intervenções baseadas em práticas religiosas e espirituais, incluindo a meditação e a prece, possuem eficácia clínica estatisticamente significativa na redução de sintomas gerais de ansiedade e no suporte ao tratamento de quadros depressivos (Gonçalves et al., 2015).

De forma complementar, estudos clínicos controlados e randomizados comprovam que a prática da oração gera melhoras sustentadas nos níveis de otimismo e na redução da angústia mental, mantendo esses benefícios protetivos ativos a longo prazo na mente dos pacientes (Boelens et al., 2012).

 

Resumo Prático

Uma boa rotina diária continua sendo um dos melhores “remédios” para o cérebro.

✔ Exercício.

✔ Sono adequado.

✔ Alimentação saudável.

✔ Contato social.

✔ Natureza.

✔ Redução do álcool.

✔ Tratamento adequado quando necessário.

✔ Fé e oração representam amparo e forte apoio ao tratamento.

 

Esses fatores não substituem medicamentos quando eles são indicados, mas potencializam seus resultados.

 

O futuro da depressão

Os próximos anos prometem avanços importantes.

Pesquisadores investigam biomarcadores capazes de prever qual tratamento funcionará melhor para cada paciente.

A inteligência artificial poderá integrar informações clínicas, genéticas, metabólicas e comportamentais para apoiar decisões terapêuticas.

A metabolômica, a farmacogenômica, os escores poligênicos e novas formas de neuromodulação provavelmente ampliarão ainda mais as possibilidades da medicina personalizada.

Ainda estamos no início dessa jornada, mas a direção parece clara: caminhar para tratamentos cada vez mais individualizados.

 

Resumo Geral

✔ A depressão é uma doença complexa, mas tratável.

✔ Hoje dispomos de medicamentos mais seguros, psicoterapia baseada em evidências, neuromodulação e novas abordagens biológicas.

✔ Exercício, alimentação, sono e estilo de vida passaram a integrar definitivamente o tratamento moderno.

✔ O futuro aponta para uma psiquiatria cada vez mais personalizada.

 

Conclusão

Durante muito tempo acreditou-se que a depressão fosse apenas um desequilíbrio químico do cérebro. Hoje sabemos que ela envolve circuitos neurais, genética, inflamação, hormônios, microbiota intestinal, experiências de vida, relacionamentos e hábitos cotidianos. Essa nova compreensão mudou profundamente a maneira de cuidar das pessoas.

A boa notícia é que nunca tivemos tantas opções terapêuticas. Antidepressivos continuam sendo ferramentas fundamentais quando bem indicados. A psicoterapia ajuda a reconstruir formas mais saudáveis de pensar e enfrentar a vida. Técnicas como a estimulação magnética transcraniana e a esketamina ampliaram as possibilidades para casos resistentes. Ao mesmo tempo, ficou claro que exercício físico, sono adequado, alimentação equilibrada, vínculos sociais e manejo do estresse não são apenas recomendações genéricas: fazem parte do tratamento baseado em evidências.

Talvez a maior lição da psiquiatria moderna seja esta: não existe uma única causa para a depressão, e provavelmente nunca existirá um único tratamento capaz de resolver todos os casos. O futuro pertence à medicina personalizada, que combina ciência, experiência clínica e um olhar atento para a singularidade de cada pessoa.

E há uma mensagem que merece ser levada a todos os pacientes e familiares: a depressão é uma doença real, não um sinal de fraqueza. Ela pode causar intenso sofrimento, mas, na grande maioria dos casos, pode ser tratada com sucesso quando reconhecida precocemente e acompanhada por uma equipe qualificada. Buscar ajuda não é um sinal de derrota; é o primeiro passo para recuperar aquilo que a depressão tenta silenciar: a capacidade de sentir esperança, prazer e sentido na vida.

 

Referências

AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION. The American Psychiatric Association Practice Guideline for the Treatment of Patients with Major Depressive Disorder. 3. ed. Washington, DC: APA Publishing, 2022.

BOELENS, P. A., Reeves, R. R., Replogle, W. H., & Koenig, H. G. (2012). The effect of prayer on depression and anxiety: maintenance of positive influence one year after prayer intervention. Journal of Religion and Health, 51(3), 630–638.

CLINICAL PHARMACOGENETICS IMPLEMENTATION CONSORTIUM (CPIC). Clinical Pharmacogenetics Implementation Consortium (CPIC) Guideline for CYP2D6, CYP2C19 and selective serotonin reuptake inhibitors. Clinical Pharmacology & Therapeutics, v. 114, 2023.

CRYAN, J. F. et al. The microbiota-gut-brain axis. Physiological Reviews, Bethesda, v. 99, n. 4, p. 1877–2013, 2019.

DALY, E. J. et al. Efficacy and safety of intranasal esketamine adjunctive to oral antidepressant therapy in treatment-resistant depression. JAMA Psychiatry, Chicago, v. 76, n. 9, p. 893–903, 2019.

GONÇALVES, J. P., Lucchetti, G., Menezes, P. R., & Vallada, H. (2015). Religious and spiritual interventions in mental health care: a systematic review and meta-analysis of randomized controlled clinical trials. Journal of Clinical Psychology, 71(10), 1023–1039.

JACKA, F. N. et al. A randomised controlled trial of dietary improvement for adults with major depression (SMILES). BMC Medicine, London, v. 15, n. 23, 2017.

KENNEDY, S. H. et al. Canadian Network for Mood and Anxiety Treatments (CANMAT) 2023 Clinical Guidelines for the Management of Major Depressive Disorder. Canadian Journal of Psychiatry, 2023.

LEFAUCHEUR, J.-P. et al. Evidence-based guidelines on the therapeutic use of repetitive transcranial magnetic stimulation (rTMS). Clinical Neurophysiology, Amsterdam, v. 131, n. 2, p. 474–528, 2020.

MALHI, G. S. et al. Royal Australian and New Zealand College of Psychiatrists clinical practice guidelines for mood disorders. Australian & New Zealand Journal of Psychiatry, v. 55, n. 1, p. 7–117, 2021.

NOETEL, M. et al. Effect of exercise for depression: systematic review and network meta-analysis. BMJ, London, v. 384, e075847, 2024.

RIEMANN, D. et al. European guideline for the diagnosis and treatment of insomnia. Journal of Sleep Research, v. 32, 2023.

 

 

 

Sair do Abismo: O Que Você Precisa Entender Sobre a Depressão – Parte I — Entendendo a depressão: muito além da “falta de serotonina”

 

A depressão não é preguiça, frescura ou falta de força de vontade. É uma doença complexa que vai muito além de um simples desequilíbrio de serotonina no cérebro. Reduzir a dor de milhões de pessoas a uma única substância química é um erro grave. Esse mito antigo impede tratamentos eficazes e perpetua o sofrimento silencioso de quem finge estar bem.

A ciência moderna mostra que inflamações corporais, traumas profundos e alterações estruturais na mente moldam essa condição. Até as condições do intestino interferem no equilíbrio emocional.

 Ignorar esses fatores sabota a cura e mantém você preso a soluções superficiais. Está na hora de quebrar o tabu e encarar a verdadeira anatomia do transtorno. Entenda o que acontece no corpo e na mente e finalmente encare um tratamento para valer.

 

Disclaimer

Este artigo tem finalidade exclusivamente educativa e não substitui avaliação médica ou psicológica. O diagnóstico e o tratamento dos transtornos depressivos devem ser realizados por profissionais habilitados. Em caso de pensamentos suicidas ou sofrimento psíquico intenso, procure atendimento médico imediatamente.

 

Quando a tristeza deixa de ser apenas tristeza

Todos nós experimentamos tristeza. Ela faz parte da condição humana. Perdemos pessoas queridas. Enfrentamos frustrações. Passamos por doenças. Mudanças inesperadas. Fracassos. A tristeza, nesses momentos, é uma reação natural e até saudável.

A depressão é outra coisa. Ela não representa fraqueza de caráter, falta de fé, preguiça ou ausência de força de vontade. Também não significa simplesmente “pensar positivo”.

A depressão é uma doença complexa, que modifica o funcionamento do cérebro, do organismo e da maneira como a pessoa percebe a si mesma, o mundo e o futuro (American Psychiatric Association, 2022).

 

Resumo Prático

✔ Toda depressão pode causar tristeza.

✔ Nem toda tristeza é depressão.

✔ A diferença está na intensidade, na duração, no sofrimento e no prejuízo causado à vida da pessoa.

 

Da “melancolia” à neurociência moderna

A depressão acompanha a humanidade há milhares de anos.

Hipócrates, cerca de quatro séculos antes de Cristo, descrevia pacientes com profunda tristeza e desânimo utilizando o termo melancolia, atribuindo seus sintomas ao excesso de “bile negra”.

Durante muitos séculos predominaram explicações filosóficas, religiosas e morais. Em algumas épocas, pessoas deprimidas chegaram a ser consideradas pecadoras, fracas ou até possuídas por forças sobrenaturais.

Somente no século XIX, com os trabalhos de Emil Kraepelin, iniciou-se uma classificação mais científica dos transtornos mentais. Nas décadas seguintes, a psiquiatria passou a distinguir diferentes formas de depressão, culminando nas classificações atuais do DSM-5-TR (American Psychiatric Association, 2022) e da CID-11 (Organização Mundial da Saúde, 2022).

Hoje sabemos que aquilo que chamamos genericamente de “depressão” representa, na verdade, um conjunto de transtornos com causas, apresentações clínicas e respostas ao tratamento bastante variadas.

 

Existem vários tipos de depressão

Um erro comum é imaginar que existe apenas uma depressão. Na realidade, os médicos utilizam o termo transtornos depressivos porque diferentes condições compartilham sintomas semelhantes.

Entre as principais estão:

  • Transtorno Depressivo Maior, caracterizado por episódios de depressão intensa que duram pelo menos duas semanas e comprometem significativamente a vida da pessoa.
  • Transtorno Depressivo Persistente (Distimia), uma forma geralmente mais branda, porém prolongada, na qual o humor deprimido pode persistir durante anos.
  • Depressão perinatal, relacionada à gestação ou ao período após o parto.
  • Transtorno Afetivo Sazonal, mais frequente em regiões com pouca exposição solar durante parte do ano.

Além disso, é importante lembrar que pacientes com transtorno bipolar também podem apresentar episódios depressivos. Nesses casos, entretanto, o tratamento costuma ser diferente, motivo pelo qual identificar corretamente o diagnóstico é fundamental (Malhi et al., 2021).

 

Resumo Prático

A palavra “depressão” engloba diferentes doenças. Por isso, pessoas aparentemente semelhantes podem necessitar de tratamentos completamente diferentes.

 

Diminuição da Serotonina?

Durante muitos anos ensinou-se que a depressão era causada simplesmente pela diminuição da serotonina no cérebro. Essa hipótese ajudou enormemente no desenvolvimento dos antidepressivos modernos. Entretanto, hoje sabemos que ela explica apenas parte do problema.

Uma importante revisão publicada na revista Molecular Psychiatry mostrou que não existem evidências consistentes de que uma simples deficiência de serotonina explique, sozinha, a depressão (Moncrieff et al., 2022). Isso não significa que os antidepressivos deixaram de funcionar; significa apenas que seu mecanismo de ação é muito mais complexo do que se imaginava.

Atualmente, a depressão é compreendida como uma condição multifatorial, envolvendo alterações em diferentes sistemas biológicos que interagem entre si. Entre eles destacam-se:

  • serotonina;
  • noradrenalina;
  • dopamina;
  • glutamato;
  • GABA;
  • processos inflamatórios;
  • hormônios do estresse;
  • neuroplasticidade;
  • fatores genéticos;
  • ambiente;
  • microbiota do intestino;
  • experiências de vida.

É como uma grande orquestra. Quando apenas um instrumento desafina, muitas vezes a música continua agradável.

Mas quando vários instrumentos começam a tocar fora do ritmo ao mesmo tempo, toda a sinfonia perde a harmonia. Algo semelhante parece acontecer na depressão.

 

O cérebro continua capaz de mudar

Uma das descobertas mais animadoras das últimas décadas foi perceber que o cérebro adulto continua produzindo adaptações importantes ao longo da vida. Chamamos isso de neuroplasticidade.

Hoje sabemos que o estresse crônico, a privação de sono, o sedentarismo, processos inflamatórios persistentes e alguns episódios depressivos podem reduzir essa capacidade adaptativa.

Por outro lado, antidepressivos, atividade física regular, psicoterapia, sono adequado e alguns tratamentos modernos parecem estimular mecanismos de reparo cerebral mediados, entre outros fatores, pelo BDNF (Brain-Derived Neurotrophic Factor), uma proteína envolvida na sobrevivência e na formação de novas conexões entre os neurônios (Duman; Monteggia, 2006). Essa talvez seja uma das mensagens mais importantes deste capítulo:

O cérebro deprimido não está condenado. Ele mantém capacidade de reorganização e recuperação.

 

Resumo Prático

A depressão não “estraga” definitivamente o cérebro. O cérebro conserva uma extraordinária capacidade de adaptação quando recebe o tratamento adequado.

 

O intestino conversa com o cérebro

Durante muito tempo acreditava-se que cérebro e intestino funcionavam quase independentemente. Hoje sabemos exatamente o contrário.

Trilhões de microrganismos vivem normalmente em nosso intestino formando a chamada microbiota intestinal.

Essas bactérias produzem substâncias capazes de influenciar o sistema imunológico, o metabolismo e até a comunicação entre o intestino e o cérebro. Esse sistema ficou conhecido como eixo intestino-cérebro.

Diversos estudos sugerem que alterações da microbiota podem participar da inflamação sistêmica, modificar a produção de metabólitos neuroativos e influenciar sintomas depressivos em parte dos pacientes (Cryan et al., 2019).

Isso não significa que a depressão seja causada apenas pelas bactérias intestinais, nem que probióticos curem depressão. Mas significa que alimentação, microbiota e saúde mental passaram definitivamente a fazer parte da mesma conversa científica.

Nos próximos anos provavelmente veremos avanços importantes nessa área.

 

A genética explica tudo?

Também não.

Sabemos hoje que centenas — provavelmente milhares — de variantes genéticas contribuem discretamente para aumentar ou diminuir o risco de desenvolver depressão (Howard et al., 2019). Nenhum gene determina sozinho quem ficará deprimido.

O que existe é uma interação permanente entre predisposição genética e ambiente. Traumas. Perdas. Privação de sono. Sedentarismo. Alimentação. Uso de álcool. Relacionamentos. Estresse. Tudo isso conversa com a genética ao longo da vida.

A farmacogenômica também começa a ganhar espaço. Testes envolvendo genes como CYP2D6 e CYP2C19 podem, em situações selecionadas, auxiliar na escolha ou no ajuste da dose de alguns antidepressivos, embora ainda não sejam indicados de forma rotineira nem estejam acessíveis para todos os pacientes (CPIC, 2023).

 

Resumo Geral da Parte I

✔ Depressão não é sinônimo de tristeza.

✔ Existem diferentes transtornos depressivos.

✔ A antiga teoria da serotonina explica apenas parte da doença.

✔ Hoje sabemos que inflamação, genética, neuroplasticidade, hormônios do estresse e microbiota também participam do processo.

✔ A boa notícia é que compreender essa complexidade ampliou enormemente as possibilidades de tratamento.

 

Na próxima parte…

Se hoje sabemos que a depressão é muito mais complexa do que imaginávamos, surge uma pergunta inevitável: Como tratar uma doença tão complexa?

Na próxima parte, percorreremos a fascinante história dos antidepressivos — dos antigos inibidores da monoaminoxidase às modernas terapias com esketamina —, discutiremos psicoterapia cognitivo-comportamental, estimulação magnética transcraniana, eletroconvulsoterapia, farmacogenômica aplicada e o que há de mais atual no tratamento dos transtornos depressivos.

 

Referências

AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION. Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders: DSM-5-TR. 5. ed., text rev. Arlington: American Psychiatric Association Publishing, 2022.

CLINICAL PHARMACOGENETICS IMPLEMENTATION CONSORTIUM (CPIC). Clinical Pharmacogenetics Implementation Consortium (CPIC) Guideline for CYP2D6, CYP2C19 and selective serotonin reuptake inhibitors. Clinical Pharmacology & Therapeutics, v. 114, 2023.

CRYAN, J. F. et al. The microbiota-gut-brain axis. Physiological Reviews, Bethesda, v. 99, n. 4, p. 1877–2013, 2019.

DUMAN, R. S.; MONTEGGIA, L. M. A neurotrophic model for stress-related mood disorders. Biological Psychiatry, v. 59, n. 12, p. 1116–1127, 2006.

HOWARD, D. M. et al. Genome-wide meta-analysis of depression identifies 102 independent variants and highlights the importance of the prefrontal brain regions. Nature Neuroscience, v. 22, p. 343–352, 2019.

MALHI, G. S. et al. Royal Australian and New Zealand College of Psychiatrists clinical practice guidelines for mood disorders. Australian & New Zealand Journal of Psychiatry, v. 55, n. 1, p. 7–117, 2021.

MONCRIEFF, J. et al. The serotonin theory of depression: a systematic umbrella review of the evidence. Molecular Psychiatry, v. 28, p. 3243–3256, 2023.

ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE. International Classification of Diseases 11th Revision (ICD-11). Geneva: World Health Organization, 2022.

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