Descobri um Nódulo na Tireoide. E Agora?

 

Receber o resultado de um ultrassom informando a presença de um nódulo na tireoide costuma assustar. Muitas pessoas associam imediatamente a palavra “nódulo” ao câncer. Felizmente, isso quase nunca acontece.

A boa notícia é que mais de 90% dos nódulos da tireoide são benignos, ou seja, não são câncer e, muitas vezes, sequer necessitam de tratamento. O desafio da medicina moderna é identificar corretamente o pequeno grupo de nódulos que merece investigação ou tratamento, evitando cirurgias desnecessárias (Haugen et al., 2016; Durante et al., 2018).

 

O que é a tireoide?

A tireoide é uma pequena glândula localizada na parte da frente do pescoço, logo abaixo do “pomo de Adão”. Ela produz os hormônios T3 e T4, responsáveis por controlar o metabolismo, a temperatura corporal, os batimentos cardíacos, o funcionamento do intestino, o gasto de energia e diversos outros processos do organismo.

Um nódulo é simplesmente uma área da glândula que cresceu de forma diferente do restante do tecido. Esse crescimento pode ser sólido, cheio de líquido (cístico) ou misto. Ter um nódulo não significa, por si só, que exista uma doença grave.

 

Quão frequentes são os nódulos?

Os nódulos da tireoide estão entre os achados mais comuns da endocrinologia. Quando o médico examina apenas o pescoço, consegue sentir nódulos em cerca de 4 a 7% dos adultos.

Entretanto, quando se realiza um ultrassom de alta resolução, pequenos nódulos podem ser encontrados em 20 a 70% da população adulta, especialmente após os 50 anos (Durante et al., 2018).

Isso significa que muitas pessoas convivem com nódulos durante toda a vida sem jamais apresentar qualquer problema.

 

Eles estão ficando mais frequentes?

Sim, mas existe uma explicação importante. Nas últimas décadas houve um aumento expressivo do número de diagnósticos de nódulos e também de câncer de tireoide.

Hoje sabemos que boa parte desse aumento ocorreu porque os exames de imagem ficaram muito mais sensíveis. Pequenos nódulos, que antigamente passavam despercebidos, passaram a ser encontrados durante ultrassonografias realizadas por outros motivos.

Curiosamente, apesar do aumento do número de diagnósticos, a mortalidade por câncer de tireoide permaneceu praticamente estável em muitos países, mostrando que muitos tumores descobertos atualmente apresentam comportamento pouco agressivo (Vaccarella et al., 2021).

Esse conhecimento mudou profundamente a forma como os médicos tratam essa doença.

 

Quem tem maior risco?

Os nódulos são muito mais comuns em:

  • mulheres;
  • pessoas acima dos 40 ou 50 anos;
  • indivíduos com deficiência de iodo (hoje menos frequente em países que utilizam sal iodado);
  • pessoas com história familiar de doenças da tireoide;
  • pacientes expostos à radiação na infância ou adolescência.

Ter um nódulo, entretanto, continua sendo muito mais comum do que desenvolver câncer.

 

Quais são os sintomas?

Na maioria das vezes, não existe sintoma algum. O nódulo costuma ser descoberto:

  • durante um ultrassom realizado por outro motivo;
  • em exames de check-up;
  • quando o próprio paciente percebe um pequeno caroço no pescoço;
  • durante o exame físico realizado pelo médico.

Quando maiores, alguns nódulos podem provocar:

  • sensação de pressão no pescoço;
  • dificuldade para engolir;
  • rouquidão persistente;
  • desconforto ao deitar;
  • sensação de “bolo na garganta”.

É importante lembrar que esses sintomas podem ocorrer também por diversas outras causas.

 

O nódulo altera o funcionamento da tireoide?

Na maioria das pessoas, não. Grande parte dos nódulos aparece em indivíduos com função hormonal normal.

Por isso, um dos primeiros exames solicitados costuma ser o TSH, que avalia como a tireoide está funcionando.

Quando o TSH está diminuído, pode haver um nódulo produtor de hormônios (“nódulo quente”), situação em que, muitas vezes, também é indicada uma cintilografia da tireoide (ATA, 2016).

 

Existe relação com doenças autoimunes?

Existe, mas ela não é obrigatória. A principal doença autoimune da tireoide é a tireoidite de Hashimoto.

Pessoas com Hashimoto podem apresentar nódulos, embora a maioria deles também seja benigna.

Alguns estudos sugerem discreto aumento do risco de carcinoma papilífero em pacientes com Hashimoto, mas essa associação ainda é motivo de discussão científica e não significa que todo paciente com tireoidite desenvolverá câncer (ETA, 2023).

 

Como o médico investiga um nódulo?

A avaliação começa com três etapas simples:

  1. História clínica

O médico pergunta sobre:

  • crescimento rápido;
  • rouquidão;
  • dificuldade para engolir;
  • exposição prévia à radioterapia;
  • casos de câncer de tireoide na família.
  1. Exame físico

Durante a consulta, observa-se:

  • tamanho da glândula;
  • consistência do nódulo;
  • mobilidade;
  • presença de linfonodos aumentados no pescoço.

Esses achados ajudam a definir o risco.

  1. Exames laboratoriais

O principal exame é o TSH.

Dependendo do caso, podem ser solicitados T4 livre, anticorpos antitireoidianos e calcitonina em situações específicas.

 

O ultrassom mudou completamente o diagnóstico

O exame mais importante para avaliar um nódulo é a ultrassonografia. Ela informa muito mais do que o tamanho do nódulo. O radiologista analisa características capazes de estimar o risco de malignidade, como:

  • se o nódulo é sólido ou cístico;
  • sua ecogenicidade (mais claro ou mais escuro);
  • presença de microcalcificações;
  • formato;
  • regularidade das bordas;
  • invasão de estruturas vizinhas;
  • alterações nos linfonodos do pescoço.

Hoje sabemos que essas características são muito mais importantes do que o tamanho isoladamente.

 

O que é o TI-RADS?

Para facilitar a interpretação dos exames, foi criado um sistema internacional chamado TI-RADS (Thyroid Imaging Reporting and Data System).

Ele funciona de maneira semelhante ao BI-RADS utilizado na mamografia.

Cada característica observada no ultrassom recebe uma pontuação.

No final, o nódulo é classificado em uma categoria de risco:

  • TR1 – benigno.
  • TR2 – praticamente benigno.
  • TR3 – baixo risco.
  • TR4 – risco intermediário.
  • TR5 – alta suspeita de malignidade.

É importante entender que TR5 não significa diagnóstico de câncer. Apenas indica que o nódulo merece investigação mais cuidadosa, geralmente com punção aspirativa, dependendo também do seu tamanho (Tessler et al., 2017).

 

Resumo prático

O que tranquiliza?

✔ Mais de 90% dos nódulos são benignos.

✔ Muitos nunca precisarão de cirurgia.

✔ O ultrassom é capaz de identificar com boa precisão quais nódulos apresentam maior risco.

✔ Nem todo nódulo precisa de punção.

Quando procurar um endocrinologista?

✔ Surgimento de um nódulo palpável.

✔ Crescimento perceptível do pescoço.

✔ Rouquidão persistente.

✔ Dificuldade para engolir.

✔ Histórico familiar de câncer de tireoide.

✔ Exposição à radiação durante a infância.

Na segunda parte veremos quando é necessário realizar a punção por agulha fina (PAAF), o que significa a classificação de Bethesda, quando a cirurgia é indicada, quais pacientes podem apenas ser acompanhados, o papel da radiofrequência, os avanços da medicina genômica e o que realmente funciona para cuidar da saúde da tireoide.

 

Disclaimer

Este artigo tem finalidade exclusivamente educativa e não substitui a consulta médica. A presença de um nódulo na tireoide não significa, necessariamente, câncer. A avaliação deve ser individualizada e realizada por profissional habilitado.

 

Referências

AMERICAN THYROID ASSOCIATION (ATA). HAUGEN, B. R. et al. 2015 American Thyroid Association Management Guidelines for Adult Patients with Thyroid Nodules and Differentiated Thyroid Cancer. Thyroid, v. 26, n. 1, p. 1-133, 2016.

DURANTE, C. et al. Long-term surveillance of benign thyroid nodules: ultrasonography behavior and clinical implications. JAMA, v. 313, n. 9, p. 926-935, 2015.

TESSLER, F. N. et al. ACR Thyroid Imaging, Reporting and Data System (ACR TI-RADS): White Paper of the ACR TI-RADS Committee. Journal of the American College of Radiology, v. 14, n. 5, p. 587-595, 2017.

VACCARELLA, S. et al. The impact of diagnostic changes on the rise in thyroid cancer incidence: a population-based study. The Lancet Diabetes & Endocrinology, v. 9, n. 5, p. 323-330, 2021.

EUROPEAN THYROID ASSOCIATION (ETA). 2023 European Thyroid Association Clinical Practice Guidelines for thyroid nodule management. European Thyroid Journal, 2023.

 

 

Nódulos da Tireoide – Parte 2

 

Como saber se um nódulo é benigno ou maligno?

Depois do ultrassom, a dúvida mais comum é: “Será que esse nódulo é câncer?”

Felizmente, a medicina dispõe hoje de excelentes ferramentas para responder a essa pergunta, e a maioria delas permite evitar cirurgias desnecessárias.

 

O ultrassom é o primeiro filtro

Como vimos na primeira parte, o ultrassom não serve apenas para medir o tamanho do nódulo. Ele analisa características que ajudam a estimar o risco de malignidade.

Por exemplo, um nódulo sólido, muito escuro (hipoecoico), com bordas irregulares, microcalcificações e formato “mais alto do que largo” desperta mais preocupação do que um nódulo cístico ou predominantemente líquido, de contornos regulares (Tessler et al., 2017; ETA, 2023).

É justamente a combinação dessas características que determina a classificação pelo ACR TI-RADS. Mas existe um detalhe importante: Nem todo nódulo classificado como TI-RADS 4 ou 5 é câncer.

Da mesma forma, nem todo nódulo precisa ser puncionado. O tamanho do nódulo e suas características são analisados em conjunto para decidir a melhor conduta.

 

O que é a punção da tireoide?

Quando o risco é considerado suficiente, o médico pode solicitar uma Punção Aspirativa por Agulha Fina (PAAF). Apesar do nome assustar, trata-se de um procedimento simples.

Com auxílio do ultrassom, uma agulha muito fina é introduzida no nódulo para retirar algumas células, que serão analisadas pelo patologista.

Na maioria das vezes:

  • não é necessário internamento;
  • não há necessidade de anestesia geral;
  • o procedimento dura poucos minutos;
  • o paciente retorna às suas atividades logo em seguida.

A PAAF tornou-se um dos exames mais importantes da endocrinologia moderna porque evita milhares de cirurgias desnecessárias todos os anos (Haugen et al., 2016).

 

O que é o Sistema Bethesda?

Depois da punção, o resultado não vem simplesmente como “benigno” ou “maligno”.

Os patologistas utilizam uma classificação internacional chamada Sistema Bethesda, que organiza os resultados em seis categorias.

Bethesda I

O material coletado foi insuficiente para análise.

Normalmente é necessário repetir a punção.

Bethesda II

Resultado benigno.

É a situação mais frequente.

O risco de câncer costuma ser inferior a 3%.

Na maioria dos casos, apenas acompanhamento periódico é suficiente.

Bethesda III

Resultado indeterminado.

Algumas células apresentam alterações, mas ainda não é possível afirmar se o nódulo é benigno ou maligno.

Dependendo do caso, pode-se repetir a punção, solicitar testes moleculares ou indicar cirurgia.

Bethesda IV

Sugere neoplasia folicular.

Também costuma exigir investigação adicional ou tratamento cirúrgico, pois apenas a análise completa do tecido permite diferenciar adenoma de carcinoma folicular.

Bethesda V

Alta suspeita de malignidade.

O risco de câncer é elevado.

Na maioria das vezes, a cirurgia é recomendada.

Bethesda VI

Maligno.

O diagnóstico citológico é compatível com câncer, geralmente carcinoma papilífero da tireoide.

 

Resumo prático do Bethesda

Categoria O que significa? Conduta habitual
I Material insuficiente Repetir PAAF
II Benigno Acompanhar
III Indeterminado Nova investigação
IV Suspeita de neoplasia folicular Geralmente cirurgia
V Alta suspeita de câncer Cirurgia
VI Câncer Tratamento cirúrgico

 

É importante lembrar que essa tabela representa a conduta mais comum. A decisão final depende da idade do paciente, do ultrassom, do tamanho do nódulo e de outros fatores clínicos.

 

O que são testes moleculares?

Nos últimos anos surgiu uma nova ferramenta para ajudar justamente nos casos em que a punção não fornece uma resposta definitiva.

São os chamados testes moleculares.

Eles pesquisam alterações genéticas nas células retiradas durante a punção.

Entre as mutações mais estudadas estão:

  • BRAF
  • RAS
  • RET
  • NTRK
  • TERT

Além disso, plataformas como ThyroSeq® e Afirma® analisam dezenas ou centenas de genes simultaneamente.

Seu principal objetivo não é descobrir todos os cânceres, mas evitar cirurgias desnecessárias em pacientes com resultados indeterminados da punção (NIKIFOROV, Y. E et al 2016; LIVHITS, M. J. et al 2021).

Hoje esses testes já fazem parte das diretrizes internacionais em situações específicas, embora ainda tenham custo elevado e disponibilidade limitada em muitos países.

 

Existem outros exames?

Na maioria dos pacientes, o ultrassom e a punção fornecem todas as informações necessárias.

Tomografia, ressonância magnética ou PET-CT raramente são utilizados na investigação inicial de um nódulo.

Quando o TSH está baixo, pode ser indicada uma cintilografia da tireoide, que ajuda a identificar os chamados nódulos quentes, produtores de hormônios.

Esses nódulos apresentam risco muito baixo de malignidade e costumam ser tratados por causa do hipertireoidismo, e não pelo risco de câncer (ATA, 2016).

 

Quais sinais merecem maior atenção?

Embora a maioria dos nódulos seja benigna, alguns sinais justificam investigação mais cuidadosa:

✔ crescimento rápido;

✔ rouquidão persistente;

✔ dificuldade progressiva para engolir;

✔ dificuldade para respirar;

✔ linfonodos aumentados no pescoço;

✔ história de radioterapia na infância;

✔ parentes de primeiro grau com câncer medular de tireoide ou síndromes hereditárias associadas.

Esses sinais não significam necessariamente câncer, mas indicam que a avaliação médica deve ser feita com maior atenção.

 

O que a ciência demonstra

✔ A ultrassonografia é o exame mais importante para estratificar o risco de um nódulo.

✔ A maioria das punções revela nódulos benignos.

✔ O Sistema Bethesda padronizou a interpretação da citologia e reduziu decisões desnecessárias.

✔ Os testes moleculares representam um dos maiores avanços dos últimos anos, principalmente para os nódulos de resultado indeterminado.

 

O que ainda é mais promessa do que evidência

✘ Que exames de sangue possam substituir a punção.

✘ Que inteligência artificial, sozinha, já consiga substituir o médico na interpretação dos nódulos.

✘ Que todos os testes genéticos estejam indicados para qualquer paciente.

Na próxima parte veremos quando um nódulo precisa ser operado, quando apenas o acompanhamento é suficiente e por que uma das maiores novidades da endocrinologia atual é justamente não operar alguns pequenos cânceres da tireoide.

 

Referências

AMERICAN THYROID ASSOCIATION (ATA). HAUGEN, B. R. et al. 2015 American Thyroid Association Management Guidelines for Adult Patients with Thyroid Nodules and Differentiated Thyroid Cancer. Thyroid, v. 26, n. 1, p. 1–133, 2016.

EUROPEAN THYROID ASSOCIATION (ETA). 2023 European Thyroid Association Clinical Practice Guidelines for Thyroid Nodule Management. European Thyroid Journal, 2023.

LIVHITS, M. J. et al. Effectiveness of Molecular Testing Techniques for Diagnosis of Indeterminate Thyroid Nodules: A Systematic Review and Meta-analysis. JAMA Oncology, 2021.

NIKIFOROV, Y. E.; SEETHALA, R. R.; TALLINI, G. et al. Nomenclature Revision for Encapsulated Follicular Variant of Papillary Thyroid Carcinoma: A Paradigm Shift to Reduce Overtreatment of Indolent Tumors. JAMA Oncology, v. 2, n. 8, p. 1023–1029, 2016.

TESSLER, F. N. et al. ACR Thyroid Imaging, Reporting and Data System (ACR TI-RADS): White Paper of the ACR TI-RADS Committee. Journal of the American College of Radiology, v. 14, n. 5, p. 587–595, 2017.

 

 

Nódulos da Tireoide – Parte IIB

Quando tratar, quando apenas acompanhar e as novidades que estão mudando a Endocrinologia

 

Durante muitos anos, descobrir um nódulo suspeito na tireoide quase sempre levava à cirurgia.Hoje, essa realidade mudou.

Graças a estudos realizados principalmente no Japão, Coreia do Sul, Europa e Estados Unidos, aprendemos que nem todos os nódulos precisam ser operados e nem todo câncer da tireoide exige tratamento imediato. Em muitos casos, observar cuidadosamente pode ser a melhor decisão (ATA, 2025).

 

Quando apenas acompanhar?

Se a punção demonstrar que o nódulo é benigno (Bethesda II), normalmente não há necessidade de tratamento. A recomendação costuma ser apenas acompanhamento periódico com ultrassonografia. A frequência depende das características do nódulo.

De forma geral:

  • nódulos muito estáveis podem ser reavaliados em 12 a 24 meses;
  • se permanecerem sem alterações importantes, os intervalos podem ser ampliados;
  • alguns nódulos pequenos e claramente benignos podem até deixar de necessitar acompanhamento regular, conforme avaliação médica (ETA, 2023).

Mais importante do que um pequeno aumento de tamanho é o aparecimento de novas características suspeitas ao ultrassom.

 

Quando repetir a punção?

Nem todo crescimento significa câncer. Na verdade, muitos nódulos benignos aumentam discretamente ao longo dos anos. A nova punção costuma ser indicada quando:

  • surgem características ultrassonográficas suspeitas;
  • ocorre crescimento significativo;
  • o primeiro exame foi inconclusivo;
  • existe discordância entre a punção e o ultrassom.

 

Quando a cirurgia é indicada?

A cirurgia continua sendo o melhor tratamento em diversas situações. Ela costuma ser recomendada quando:

  • a punção confirma câncer (Bethesda VI);
  • existe alta suspeita de malignidade (Bethesda V);
  • há suspeita de neoplasia folicular em situações selecionadas;
  • o nódulo provoca compressão importante da traqueia ou do esôfago;
  • há crescimento progressivo associado a sintomas;
  • o paciente prefere tratamento definitivo após discutir riscos e benefícios.

Dependendo do caso, pode ser retirada apenas metade da glândula (lobectomia) ou toda a tireoide (tireoidectomia total).

Hoje existe uma tendência mundial de preservar mais tecido tireoidiano sempre que isso for seguro, reduzindo a necessidade de reposição hormonal definitiva (ATA, 2025).

 

Como é a recuperação?

Na maioria dos pacientes, a cirurgia é bastante segura quando realizada por equipes experientes.

As complicações são pouco frequentes, mas podem incluir:

  • rouquidão temporária ou permanente;
  • queda do cálcio por alteração das paratireoides;
  • sangramento;
  • infecção (rara).

Felizmente, a grande maioria dos pacientes evolui muito bem.

 

Uma das maiores novidades: a vigilância ativa

Este talvez seja o conceito que mais mudou nos últimos anos.

Durante décadas, praticamente todo câncer da tireoide era operado logo após o diagnóstico.

Hoje sabemos que alguns microcarcinomas papilíferos, geralmente com até 1 cm, sem sinais de invasão ou metástases, apresentam crescimento extremamente lento.

Em pacientes cuidadosamente selecionados, as diretrizes atuais admitem que o tratamento inicial possa ser simplesmente acompanhar o tumor com ultrassonografias periódicas, adiando ou até evitando a cirurgia (ATA, 2025).

É importante destacar: isso não significa ignorar um câncer.

Significa observá-lo cuidadosamente, intervindo apenas se houver sinais de crescimento ou mudança de comportamento. Essa estratégia exige acompanhamento regular e decisão compartilhada entre médico e paciente.

 

Radiofrequência: uma alternativa à cirurgia?

Outra novidade importante é a ablação por radiofrequência (RFA). Nesse procedimento, uma agulha especial introduzida sob orientação ultrassonográfica aquece o interior do nódulo, destruindo parte do tecido sem necessidade de cirurgia.

Hoje, há consenso internacional de que a radiofrequência é uma excelente opção para nódulos benignos sintomáticos, principalmente quando provocam desconforto estético ou compressão. Ela costuma reduzir significativamente o volume do nódulo, preservando a função da tireoide e proporcionando recuperação mais rápida do que uma cirurgia.

Quanto aos pequenos cânceres papilíferos, a radiofrequência também vem sendo estudada com resultados promissores. As diretrizes mais recentes admitem seu uso em pacientes cuidadosamente selecionados, especialmente quando recusam cirurgia ou vigilância ativa, ou apresentam contraindicação ao tratamento cirúrgico. Entretanto, a cirurgia continua sendo o tratamento padrão na maioria dos casos, e a radiofrequência ainda deve ser indicada apenas por equipes experientes e após decisão compartilhada.

 

Medicina de precisão

Outro avanço importante foi o desenvolvimento dos testes moleculares. Hoje é possível pesquisar mutações como:

  • BRAF V600E
  • RAS
  • RET
  • NTRK
  • TERT

Essas informações ajudam principalmente quando a punção apresenta resultado indeterminado, permitindo selecionar melhor os pacientes que realmente se beneficiarão da cirurgia.

Apesar desse avanço, esses exames não substituem a avaliação clínica nem o ultrassom.

 

Existe relação com a microbiota intestinal?

A microbiota intestinal tem despertado enorme interesse em praticamente todas as áreas da medicina. No caso dos nódulos da tireoide, entretanto, as evidências ainda são iniciais.

Alguns estudos sugerem alterações no perfil da microbiota em pacientes com doenças tireoidianas, mas ainda não existe demonstração de que modificar a microbiota reduza nódulos ou previna câncer da tireoide. Por enquanto, trata-se de um campo promissor, porém experimental.

 

O estilo de vida pode ajudar?

Pode, embora não faça um nódulo desaparecer. As recomendações mais importantes continuam sendo:

  • alimentação equilibrada;
  • ingestão adequada (e não excessiva) de iodo;
  • cessar o tabagismo;
  • manter peso saudável;
  • praticar atividade física regularmente;
  • controlar doenças metabólicas;
  • evitar suplementação indiscriminada de iodo ou hormônios tireoidianos.

Essas medidas não eliminam um nódulo já formado, mas contribuem para a saúde geral e reduzem diversos fatores de risco.

 

Tratamentos complementares

É comum surgirem propostas de fitoterápicos, suplementos, acupuntura, ozonioterapia ou “dietas para dissolver nódulos”.

Até o momento, não existem evidências científicas robustas de que essas abordagens façam um nódulo benigno desaparecer ou previnam câncer de tireoide.

Algumas práticas integrativas podem contribuir para redução do estresse, melhora do bem-estar e qualidade de vida, mas devem ser vistas como complementares e jamais substituir o acompanhamento médico.

 

Mitos e verdades

“Todo nódulo é câncer.”
❌ Mito. Mais de 90% são benignos.

 

“Toda pessoa com câncer de tireoide precisa ser operada imediatamente.”
❌ Não necessariamente. Alguns microcarcinomas de baixo risco podem ser acompanhados com segurança em pacientes selecionados.

 

“Punção espalha o câncer.”
❌ Mito. A PAAF é considerada um procedimento seguro e não aumenta o risco de disseminação tumoral.

 

“Se o nódulo crescer um pouco, é porque virou câncer.”
❌ Nem sempre. Muitos nódulos benignos aumentam discretamente ao longo dos anos.

 

O que a ciência demonstra

✔ A maioria dos nódulos da tireoide é benigna.

✔ O ultrassom e a PAAF permitem excelente estratificação de risco.

✔ Nem todo nódulo precisa de cirurgia.

✔ A vigilância ativa é uma opção segura para pacientes cuidadosamente selecionados com microcarcinoma papilífero de baixo risco.

✔ A radiofrequência tornou-se uma alternativa consolidada para muitos nódulos benignos sintomáticos.

 

O que ainda é mais promessa do que evidência

✘ Dietas capazes de eliminar nódulos.

✘ Fitoterápicos que façam um nódulo desaparecer.

✘ Modulação da microbiota como tratamento dos nódulos tireoidianos.

✘ Testes genéticos indicados para todos os pacientes.

 

Mensagem final

Talvez a maior lição deixada pelos estudos mais recentes seja que a medicina moderna está cada vez mais personalizada. O objetivo já não é tratar todos os pacientes da mesma maneira, mas compreender o risco individual de cada nódulo e escolher a estratégia mais adequada para aquela pessoa. Em muitos casos, isso significa operar; em outros, significa apenas acompanhar. Saber diferenciar essas situações é um dos maiores avanços da endocrinologia nas últimas décadas.

 

Disclaimer

Este artigo tem finalidade exclusivamente educativa e não substitui avaliação médica. O diagnóstico e o tratamento dos nódulos da tireoide devem ser individualizados, levando em consideração a história clínica, o exame físico, os exames laboratoriais, a ultrassonografia, a citologia e as preferências do paciente.

 

Referências

AMERICAN THYROID ASSOCIATION. 2025 American Thyroid Association Management Guidelines for Adult Patients with Differentiated Thyroid Cancer. Thyroid, 2025.

HAUGEN, B. R. et al. 2015 American Thyroid Association Management Guidelines for Adult Patients with Thyroid Nodules and Differentiated Thyroid Cancer. Thyroid, v. 26, n. 1, p. 1-133, 2016.

EUROPEAN THYROID ASSOCIATION (ETA). 2023 European Thyroid Association Clinical Practice Guidelines for Thyroid Nodule Management. European Thyroid Journal, 2023.

SINCLAIR, C. F. et al. General Principles for the Safe Performance, Training, and Adoption of Ablation Techniques for Benign Thyroid Nodules: An American Thyroid Association Statement. Thyroid, v. 33, n. 10, 2023.

ORLOFF, L. A. et al. Radiofrequency Ablation and Related Ultrasound-Guided Ablation Technologies for Treatment of Benign and Malignant Thyroid Disease: An International Multidisciplinary Consensus Statement. Head & Neck, v. 44, p. 633-660, 2022.

2024 International Expert Consensus on Ultrasound-Guided Thermal Ablation for T1N0M0 Papillary Thyroid Cancer. Radiology, 2025 (consenso internacional publicado eletronicamente com atualização de 2025).

 

 

 

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