Dieta saudável: afinal, o que é isso?

 

 

Nunca tivemos tanta informação sobre alimentação. E, paradoxalmente, talvez nunca tenha sido tão difícil saber o que comer.

Diante de dietas milagrosas, gurus da saúde e restrições sem sentido, a pergunta mais importante continua sendo a mais simples: afinal, o que é uma alimentação saudável?

Uma semana, o vilão é o carboidrato. Na seguinte, é o glúten. Depois, o leite. Depois o ovo. A seguir, todas as frutas depois das 18 horas… Essa lista parece não ter fim!

Em algum momento alguém descobre que devemos comer exclusivamente proteínas. Outro “especialista” determina que só podemos comer alimentos “alcalinos”.

Surgem exames e testes que supostamente revelam dezenas de intolerâncias alimentares e listas intermináveis de alimentos proibidos.

Uma dieta pode parecer sofisticada, milimetricamente calculada e, ainda assim, ser nutricionalmente inadequada.

Por outro lado, um padrão alimentar simples — baseado em alimentos minimamente processados, predominantemente de origem vegetal, variado e ajustado à individualidade biológica — pode ser extraordinariamente protetor.

A ciência nutricional séria não impõe uma cartilha dogmática e universal. Em vez disso, oferece algo infinitamente mais valioso: princípios bem testados, com ênfase à individualização.

Após décadas acompanhando pessoas com as mais diversas histórias clínicas, idades e demandas metabólicas, estou convencido de que uma alimentação saudável precisa respeitar pelo menos sete princípios fundamentais, e é sobre isso que vamos falar na sequência.

 

  1. Primeiro: a dieta precisa nutrir – o óbvio mal compreendido

Uma dieta saudável deve, essencialmente, fornecer o que o organismo necessita — sem faltas e sem excessos. No entanto, a ciência da boa alimentação vai além de atingir metas de nutrientes; ela também envolve a fisiologia do comer, como a mastigação e o fracionamento das refeições.

Na urgência de garantir substâncias específicas — com destaque atual para as vitaminas D e B12 —, muitos recorrem à suplementação exagerada. O problema é que o excesso é nocivo: as hipervitaminoses podem desencadear estresse oxidativo e diversos efeitos deletérios.

O ponto de partida consensual é suprir as necessidades de macro e micronutrientes: energia, proteínas, carboidratos, gorduras essenciais, fibras, vitaminas, minerais e água. Naturalmente, essa entrega deve respeitar as individualidades de idade, sexo, nível de atividade física, composição corporal e condições clínicas.

Para nortear esse equilíbrio, as Dietary Reference Intakes (DRIs), desenvolvidas pelas National Academies, estabelecem parâmetros como EAR, RDA, AI e UL. Elas não funcionam como uma “bula universal”, mas sim como ferramentas científicas para planejar a adequação nutricional.

Isso nos leva a uma regra fundamental: mais não significa melhor. O excesso de proteínas não torna um padrão alimentar saudável por si só, e megadoses de vitaminas não trazem superpoderes. Pelo contrário, dependendo do nutriente, o exagero resulta em toxicidade. Até mesmo gorduras benéficas são calóricas, e água em demasia pode ser prejudicial. O verdadeiro objetivo é, sempre, a adequação nutricional.

 

E a hidratação?

Água faz parte da alimentação saudável. A necessidade varia conforme temperatura, atividade física, alimentação, idade, composição corporal, gestação, lactação e condições clínicas. As DRIs consideram a água proveniente tanto das bebidas quanto dos alimentos e reconhecem que necessidades maiores ocorrem, por exemplo, durante atividade física ou exposição ao calor.

Portanto, não existe uma quantidade mágica de água que sirva para todos. Beber adequadamente é importante. Beber compulsivamente não é sinônimo de saúde.

 

  1. Qualidade: comida de verdade antes de produtos alimentícios

Se tivéssemos que resumir uma alimentação saudável em uma expressão, uma das melhores seria: “comida de verdade”.

Vegetais, frutas, legumes, feijões, lentilhas, grão-de-bico, cereais integrais, castanhas, nozes, sementes, azeite de oliva, ervas e temperos naturais.

Dependendo da preferência e das escolhas individuais, também podem fazer parte ovos, peixes, carnes, leite e derivados.

É justamente aqui que entra o conceito de plant-based diet. Mas é importante compreender corretamente essa expressão. Plant-based não significa necessariamente vegetariano.

Uma alimentação predominantemente baseada em vegetais pode conter pequenas ou moderadas quantidades de alimentos de origem animal.

O conceito fundamental é que os vegetais sejam protagonistas, e não necessariamente que os alimentos animais sejam proibidos. Na minha visão, um padrão ovo-lacto-vegetariano, predominantemente plant-based, é uma excelente referência para uma alimentação saudável, sem que isso implique proibir carnes. Para quem as consome, podem fazer parte da alimentação em quantidades adequadas, preferencialmente cortes magros e dentro de um padrão alimentar predominantemente vegetal.

E existe uma diferença enorme entre plant-based saudável e plant-based de baixa qualidade.

Uma pessoa pode ser vegana e alimentar-se predominantemente de refrigerantes, biscoitos, batatas fritas, doces, massas refinadas e produtos ultraprocessados. Tudo isso pode ser “vegano”. Mas não transforma a dieta em saudável.

Essa distinção aparece com força crescente na literatura científica. Em uma metanálise publicada em 2025, Mo et al. analisaram 11 estudos de coorte e encontraram menor mortalidade entre pessoas com maior adesão a padrões plant-based, especialmente aos padrões classificados como saudáveis. Já o padrão plant-based não saudável apresentou associação com maior mortalidade (Mo et al., 2025).

Outra grande revisão publicada no mesmo ano, envolvendo 25 estudos prospectivos, encontrou resultado semelhante: maior adesão a um padrão plant-based saudável associou-se a menor mortalidade, enquanto o padrão plant-based não saudável apresentou associação inversa (Etesami et al., 2025). Não basta retirar a carne. É preciso colocar alimentos bons no lugar dela.

 

  1. Harmonia: não basta escolher bons alimentos

Imagine um almoço composto por arroz, macarrão integral, batata, mandioca, pão integral e sobremesa. Todos podem ser alimentos aceitáveis. O problema é outro: todos estão ocupando praticamente o mesmo espaço nutricional da refeição.

Uma alimentação saudável não depende apenas da qualidade individual dos alimentos, mas também da proporção entre eles.

É preciso pensar em:

  • quantidade;
  • variedade;
  • proporção;
  • densidade nutricional;
  • necessidade energética individual.

Uma refeição equilibrada normalmente combina diferentes grupos alimentares. Por exemplo: vegetais + leguminosa + cereal integral + fonte proteica + gordura saudável + fruta.

Isso pode ser representado por incontáveis combinações. Alguns exemplos, entre muitas outras possibilidades:

Arroz integral com feijão e legumes.

Quinoa com grão-de-bico e salada.

Lentilha com vegetais e ovo.

Tofu com quinoa e vegetais.

E, para quem não é vegetariano, uma fonte de carne magra com legumes e pequena porção de arroz integral.

Não existe uma combinação única. Existe um princípio de equilíbrio.

E aqui aparece outro erro frequente: “Esse alimento é saudável, portanto posso comer quanto quiser.” Não.

Castanhas são saudáveis. Azeite de oliva é saudável. Abacate é saudável. Nibs de cacau podem fazer parte de uma alimentação saudável. Mas todos fornecem energia. Saudável não significa ilimitado.

 

  1. Modal: não basta o que comemos. Importa também como comemos

Uma refeição não deveria ser simplesmente uma operação de abastecimento.

Sentar-se à mesa, respirar, observar a comida, comer devagar, mastigar adequadamente e perceber os sinais de fome e saciedade são comportamentos que podem ajudar a construir uma relação mais saudável com a alimentação. É o princípio que podemos chamar de modal: o modo de comer.

Evitar comer diante do computador ou da televisão sempre que possível. Evitar transformar todas as refeições em uma corrida. Prestar atenção ao sabor, à textura e à saciedade. Preparar-se para a refeição.

E, por que não, comer com gratidão? Isso não significa transformar a alimentação em um ritual rígido. Significa recuperar uma dimensão frequentemente perdida na vida moderna: comer é também uma experiência humana. É o território do mindful eating: estar presente durante a refeição.

 

  1. Fracional: precisamos realmente comer a cada três horas?

Essa é uma das crenças nutricionais mais difundidas — e menos universais. Não existe uma regra científica que obrigue uma pessoa saudável a comer a cada três horas.

A frequência alimentar deve considerar fome, rotina, necessidades energéticas, atividade física, condições clínicas e preferência individual.

Para muitas pessoas, três refeições bem estruturadas podem ser suficientes. Para outras, pequenos lanches podem ser úteis. Algumas pessoas preferem quatro refeições. Outras se adaptam muito bem a intervalos mais longos.

Em situações específicas — como determinadas condições gastrointestinais, gastrectomia, algumas situações após cirurgia bariátrica, necessidades esportivas ou determinadas condições metabólicas — a frequência pode precisar ser maior.

Mas isso não significa que todos precisem comer seis vezes ao dia. Comer mais frequentemente não transforma uma alimentação ruim em boa. Também não significa que comer menos vezes seja automaticamente melhor.

A pergunta correta não é: “Quantas vezes devo comer?” É: “Qual frequência me permite manter uma alimentação nutricionalmente adequada, equilibrada e sustentável?”

 

  1. Temporal: também importa quando comemos

Aqui entramos em um campo fascinante da ciência nutricional: a crononutrição. Não existe apenas “tempo de comer”. Existe também tempo de não comer.

O organismo possui ritmos circadianos que influenciam metabolismo, sono, hormônios e comportamento alimentar. Por isso, uma janela noturna adequada sem ingestão calórica pode fazer sentido para muitas pessoas.

É uma das bases do conceito de time-restricted eating (TRE), ou alimentação com restrição de tempo. Mas, novamente, isso não significa que todos precisem fazer jejum de 16 horas.

A evidência atual sugere benefícios metabólicos modestos do TRE em determinadas populações, mas também mostra que a qualidade da alimentação continua fundamental. Uma revisão sistemática publicada em 2026 encontrou resultados inconsistentes quanto à melhora da qualidade da dieta com TRE isolado (Flynn, Parr e Devlin, 2026).

Mais interessante ainda é a questão do horário. Uma revisão sistemática com metanálise em rede publicada em 2026 encontrou que a alimentação mais precoce no dia parece apresentar vantagens em relação ao TRE tardio, incluindo efeitos mais favoráveis sobre peso e insulina de jejum (Chen et al., 2026).

Isso reforça uma ideia que merece ser lembrada: não é apenas quantas horas ficamos sem comer; pode importar também quando comemos.

Portanto, para algumas pessoas, simplesmente evitar o hábito de jantar muito tarde e manter um período razoável de jejum noturno já pode ser uma estratégia interessante.

 

  1. Individual: talvez o princípio mais importante de todos

Uma dieta saudável não existe no vácuo. Existe uma pessoa. E pessoas são diferentes.

A dieta de uma criança não é a dieta de um idoso. A alimentação de uma gestante não é a alimentação de um adulto sedentário. O atleta possui necessidades diferentes das de uma pessoa fisicamente inativa.

Quem tem doença renal precisa de cuidados diferentes de quem tem função renal normal. Quem tem diabetes, doença celíaca, síndrome do intestino irritável, alergia alimentar, cirurgia bariátrica ou outra condição clínica pode necessitar de adaptações específicas.

Até mesmo preferências culturais, econômicas, religiosas e culinárias precisam ser consideradas. Por isso, uma dieta saudável deve ser individualizada.

E há uma palavra particularmente importante aqui: sustentabilidade. A melhor dieta não é necessariamente a que produz o resultado mais rápido. É aquela que a pessoa consegue manter.

 

E onde entra a microbiota do intestino?

Aqui está uma das razões pelas quais uma alimentação predominantemente vegetal desperta tanto interesse científico. Nosso intestino abriga uma enorme comunidade de microrganismos que interage continuamente com aquilo que comemos.

E a microbiota não existe separada da dieta. Ela responde aos substratos que oferecemos a ela.

Fibras e diferentes componentes dos vegetais podem ser utilizados por bactérias intestinais e contribuir para a produção de ácidos graxos de cadeia curta (SCFAs), como acetato, propionato e butirato.

Esses metabólitos participam de mecanismos relacionados à integridade intestinal, metabolismo energético, imunidade e inflamação.

Uma revisão sistemática publicada em 2026, reunindo 80 ensaios clínicos controlados, encontrou associações entre diferentes intervenções dietéticas e mudanças na composição da microbiota. Dietas mediterrânea, rica em fibras, rica em polifenóis e plant-based, entre outras, foram associadas em diferentes estudos a aumento de bactérias produtoras de SCFAs ou ácido lático e/ou redução de bactérias oportunistas. Entretanto, os resultados não foram uniformes, e não houve uma alteração consistente da diversidade microbiana em todas as intervenções (Aslam et al., 2026).

Revisões de estudos de intervenção também sugerem que dietas plant-based podem produzir alterações favoráveis na microbiota, embora ainda existam resultados contraditórios e muitas perguntas sem resposta (Tomova et al., 2023).

Isso é importante porque impede que transformemos a microbiota em mais uma moda nutricional.

Não existe ainda uma “microbiota ideal” que possa ser prescrita como uma fórmula universal.

Mas existe uma hipótese biologicamente plausível e cada vez mais estudada: uma alimentação rica e variada em vegetais fornece substratos que podem favorecer uma comunidade microbiana metabolicamente mais saudável.

Isso não significa que “alimentar a microbiota” seja uma garantia de longevidade. Significa que uma alimentação rica e variada em vegetais pode alimentar não apenas o ser humano, mas também os microrganismos que vivem com ele.

 

Exemplos de como uma dieta pode parecer saudável — e não ser

 

  1. Dieta hiperproteica

Vamos imaginar Ana. Ela deseja emagrecer e encontra na internet uma dieta “hiperproteica”.

A recomendação é consumir enorme quantidade de carnes, ovos e suplementos proteicos, enquanto vegetais e carboidratos são reduzidos ao mínimo.

No começo, funciona. Ana sente menos fome e perde peso. A proteína realmente pode aumentar a saciedade e ajudar na preservação da massa magra durante o emagrecimento. Mas comer carne com folhas todos os dias torna-se monótono.

Depois de algumas semanas, Ana abandona a dieta. Vem uma crise de compulsão alimentar. Ela recupera o peso perdido — e talvez um pouco mais.

O problema foi acreditar que um único componente da alimentação, proteína, poderia substituir uma estratégia nutricional completa e sustentável.

Proteína de menos pode ser inadequada. Proteína demais também pode ser inadequada. O objetivo é a quantidade apropriada para aquela pessoa.

 

  1. Outro erro: “sou vegano, portanto minha dieta é saudável”

Agora imaginemos Carlos. Por razões éticas, decidiu tornar-se vegano. Uma decisão perfeitamente legítima. Mas não procurou orientação adequada.

Seu café da manhã passou a ser pão branco com geleia. No almoço, massa. À tarde, biscoitos. À noite, batata frita, hambúrguer vegetal ultraprocessado e sobremesa.

Tudo vegano. Mas pouca fibra de qualidade, pouca variedade, baixa densidade nutricional e possível inadequação de micronutrientes.

Depois de algum tempo, desenvolveu anemia e sinais de inadequação nutricional. Ao mesmo tempo, ganhou peso! A história é importante porque demonstra algo fundamental: veganismo não é sinônimo de alimentação saudável.

Uma dieta vegana bem planejada pode ser nutricionalmente adequada, mas exige atenção especial a nutrientes como vitamina B12 e, dependendo do padrão alimentar, ferro, cálcio, vitamina D, iodo, zinco e ácidos graxos ômega-3. O mesmo raciocínio vale para qualquer padrão alimentar.

O rótulo da dieta não determina sua qualidade. O que está dentro do prato determina.

 

  1. Quando uma dieta “saudável” começa a adoecer

Imagine agora Fátima. Ela “passava mal com quase tudo”. Encontrou na internet a dieta FODMAP e começou a eliminar alimentos.

Primeiro, cebola. Depois, alho. Depois, trigo. Depois, lácteos. Depois, várias frutas. Depois, leguminosas. Depois, vários vegetais. A lista de alimentos proibidos foi crescendo. Até que comer tornou-se uma espécie de campo minado.

Nesse ponto, uma dieta terapêutica que deveria ser utilizada de maneira temporária e estruturada transformou-se em uma dieta permanentemente restritiva.

O problema não é o protocolo low-FODMAP. Ele possui evidência para pacientes selecionados, particularmente na síndrome do intestino irritável, e diretrizes do American College of Gastroenterology recomendam um teste limitado da dieta para melhora dos sintomas globais (Lacy et al., 2021).

O problema é transformar uma intervenção terapêutica em estilo de vida permanente sem necessidade.

A abordagem adequada envolve identificar alimentos desencadeadores e, quando possível, reintroduzir e ampliar progressivamente a variedade alimentar.

Quanto mais alimentos saudáveis são excluídos sem necessidade, maior a possibilidade de inadequação nutricional e de uma relação excessivamente ansiosa com a alimentação.

 

Quando comer “perfeitamente saudável” vira uma doença – ortorexia nervosa

Existe ainda uma situação mais delicada.

A pessoa começa querendo comer melhor. Depois quer eliminar açúcar. Depois glúten. Depois leite. Depois carne. Depois alimentos industrializados. Depois alimentos com conservantes. Depois alimentos “inflamatórios”. Depois qualquer coisa que tenha recebido algum tipo de processamento.

Até chegar ao ponto em que praticamente nada parece suficientemente puro ou saudável. É nesse contexto que surge o termo ortorexia nervosa, usado para descrever uma preocupação patológica com a “pureza” ou a qualidade dos alimentos.

É importante fazer uma ressalva: ortorexia nervosa ainda não é um diagnóstico formalmente reconhecido nos principais sistemas classificatórios, e os critérios diagnósticos e instrumentos de avaliação permanecem controversos. Uma revisão sistemática de revisões publicada em 2024 destacou justamente essa falta de consenso (Ng et al., 2024).

Portanto, não devemos chamar simplesmente de “ortoréxico” alguém que gosta de alimentação saudável. A questão é outra e merece toda atenção:

Quando a busca por uma alimentação saudável começa a produzir sofrimento, ansiedade, isolamento social, restrição excessiva ou prejuízo nutricional, deixou de ser saudável.

A comida deve contribuir para a saúde. Não deve transformar a vida em uma prisão.

 

E os famosos testes (ou exames) de intolerância alimentar?

Esse é outro terreno fértil para erros. Imagine alguém que não apresenta sintomas ao comer ovo, tomate ou frutas. Faz um painel de “intolerância alimentar” baseado em IgG. O resultado aponta dezenas de alimentos.

A pessoa acredita no exame e passa a excluir tudo. O problema? O teste não demonstrou que aqueles alimentos faziam mal a ela.

A presença de IgG contra alimentos, especialmente IgG4, pode simplesmente refletir exposição e tolerância imunológica.

A American Academy of Allergy, Asthma & Immunology (AAAAI) não recomenda a utilização de testes de IgG para diagnosticar alergia, intolerância ou “sensibilidade” alimentar.

Um exame sem indicação pode transformar alimentos perfeitamente saudáveis em alimentos “proibidos”.

E quanto mais alimentos desnecessariamente eliminamos, maior o risco de comprometer a qualidade nutricional e a variedade da dieta. Nem todo resultado de laboratório merece virar uma restrição alimentar.

 

Então, como seria uma alimentação saudável na prática?

Vamos imaginar uma pessoa saudável, ovo-lacto-vegetariana, sem restrições alimentares específicas.

Um exemplo possível seria:

 

Café da manhã

Aveia ou outro cereal integral, frutas variadas, nozes, castanhas ou amêndoas e iogurte natural.

 

Almoço

Grande variedade de saladas e vegetais cozidos, azeite de oliva, uma porção de cereal integral, como arroz integral ou quinoa, uma leguminosa — feijão, lentilha ou grão-de-bico — e uma fonte proteica, como ovo ou tofu.

Uma fruta pode completar a refeição.

 

Jantar

Sopa ou creme de legumes, pão integral e uma omelete preparada sem fritura, acompanhada de vegetais.

 

E entre as refeições?

Depende. Talvez nada seja necessário. Muitas vezes não.  Talvez uma fruta.

Atletas ou pessoas com alta demanda energética, como aquelas submetidas a trabalho físico intenso, poderão precisar de complementos ou suplementos, conforme suas necessidades: iogurte, algumas castanhas, whey protein, frutas ou outros alimentos.

Não existe obrigação de fazer lanches simplesmente porque “já passaram três horas”. O que importa é que, ao final do dia e da semana, a alimentação seja nutricionalmente adequada, variada e sustentável.

 

Uma regra simples para começar amanhã

Se toda essa discussão parecer complicada, existe uma maneira muito mais simples de começar.

Antes de pensar em “qual dieta devo fazer?”, pergunte:

  1. Estou comendo comida de verdade?
  2. Há variedade de vegetais e frutas?
  3. Como estão as fibras e as leguminosas, ou sofro de intolerância a estes componentes alimentares?
  4. Tenho fontes adequadas de proteína?
  5. Estou consumindo cereais integrais e outras fontes de carboidratos de boa qualidade?
  6. Estou usando gorduras predominantemente insaturadas, como azeite, castanhas e sementes?
  7. Estou exagerando em ultraprocessados, açúcar, sal? Consumo álcool?
  8. Minha quantidade de comida corresponde às minhas necessidades?
  9. Estou bebendo água adequadamente — nem de mais, nem de menos?
  10. Minha alimentação é sustentável — consigo mantê-la por anos?

Conforme a resposta para a maior parte dessas perguntas, se nutrologicamente corretas, provavelmente estamos muito mais próximos de uma alimentação saudável do que qualquer dieta da moda poderia nos levar.

 

Afinal, o que é uma dieta saudável?

Talvez a definição mais útil seja esta:

Dieta saudável é aquela que nutre adequadamente, prioriza alimentos de boa qualidade, respeita quantidades e proporções, oferece variedade, favorece uma microbiota saudável, é compatível com a fisiologia humana, respeita o indivíduo e pode ser mantida ao longo da vida.

Ela pode ser vegetariana, pode conter ovos. Pode, para quem optar, conter carnes, de preferência magras, em quantidades adequadas, não excessivas.

Pode incluir leite e derivados (para quem tolera). Pode incluir pão (de preferência integral). Pode incluir arroz (de preferência integral).

Pode incluir sobremesa — fruta, de preferência, ou um preparado saudável. Pode incluir cacau.

Já o álcool, bom lembrar, não é necessário para uma dieta saudável.

Saúde não exige perfeição. Exige coerência. E talvez essa seja uma das mensagens mais importantes diante do excesso de informações que recebemos todos os dias:

Uma dieta saudável não é a que proíbe mais alimentos. É a que consegue fornecer tudo aquilo de que o organismo precisa, com qualidade, equilíbrio, prazer e sustentabilidade.

 

Resumo prático: os 7 princípios da alimentação saudável

  1. Nutricional — fornecer energia, proteínas, gorduras, carboidratos, fibras, vitaminas, minerais e água em quantidades adequadas.
  2. Qualitativo — privilegiar alimentos in natura ou minimamente processados, com predominância de vegetais.
  3. Harmônico — respeitar quantidade, variedade e proporções, evitando tanto excessos quanto deficiências.
  4. Modal — comer com atenção, devagar, mastigando adequadamente e reduzindo distrações.
  5. Fracional — não existe obrigação de comer a cada três horas; a frequência deve ser individualizada.
  6. Temporal — considerar também o período sem ingestão alimentar, especialmente durante a noite, quando apropriado.
  7. Individual — adaptar a alimentação à idade, fase da vida, atividade física, condições clínicas, preferências e necessidades nutricionais.

E uma oitava regra, talvez a mais importante:

  1. Sustentável — uma alimentação que não pode ser mantida provavelmente não é uma boa estratégia para a vida inteira.

Disclaimer

Este texto tem finalidade educativa e não substitui avaliação médica ou nutricional individualizada. Necessidades alimentares variam conforme idade, sexo, composição corporal, atividade física, gestação, lactação, doenças, uso de medicamentos e outras características individuais. Dietas restritivas ou terapêuticas devem ser realizadas com orientação profissional adequada.

 

Referências

ASLAM, H. et al. Dietary interventions and the gut microbiota: a systematic literature review of 80 controlled clinical trials. Journal of Translational Medicine, v. 24, n. 1, p. 39, 2026. DOI: 10.1186/s12967-025-07428-9.

CHEN, Y.-E. et al. Effects of timing and eating duration of time restricted eating on metabolic outcomes: systematic review and network meta-analysis. BMJ Medicine, v. 5, n. 1, e001071, 2026. DOI: 10.1136/bmjmed-2024-001071.

ETESAMI, E. et al. The association between overall, healthy, and unhealthy plant-based diet indexes and risk of all-cause and cause-specific mortality: a systematic review and dose-response meta-analysis of prospective cohort studies. Food & Function, v. 16, n. 6, p. 2194–2212, 2025. DOI: 10.1039/D4FO04741A.

FLYNN, M. K.; PARR, E. B.; DEVLIN, B. L. The impact of time-restricted eating on diet quality in humans: a systematic review. Nutrition Reviews, v. 84, n. 3, p. 633–645, 2026. DOI: 10.1093/nutrit/nuaf301.

LACY, B. E. et al. ACG Clinical Guideline: Management of Irritable Bowel Syndrome. The American Journal of Gastroenterology, v. 116, n. 1, p. 17–44, 2021. DOI: 10.14309/ajg.0000000000001036.

MO, Q. et al. Plant-based diets and total and cause-specific mortality: a meta-analysis of prospective studies. Frontiers in Nutrition, v. 12, 1518519, 2025. DOI: 10.3389/fnut.2025.1518519.

NATIONAL ACADEMIES OF SCIENCES, ENGINEERING, AND MEDICINE. Dietary Reference Intakes. Washington, DC: National Academies Press.

NG, Q. X. et al. On Orthorexia Nervosa: A Systematic Review of Reviews. Psychopathology, v. 57, n. 4, p. 345–358, 2024. DOI: 10.1159/000536379.

TOMOVA, A. et al. Effect of Plant-Based Diets on Gut Microbiota: A Systematic Review of Interventional Studies. Nutrients, v. 15, n. 6, 1370, 2023.

U.S. DEPARTMENT OF HEALTH AND HUMAN SERVICES; U.S. DEPARTMENT OF AGRICULTURE. Dietary Guidelines for Americans, 2025–2030. 10. ed. Washington, DC, 2026.

Qual é o seu risco de sofrer um infarto ou um derrame? – Como reduzir o risco cardiovascular? – Parte 3

 

 

“O melhor tratamento para um infarto continua sendo evitar que ele aconteça.”

Nas duas primeiras partes vimos que a aterosclerose é uma doença silenciosa, que se desenvolve lentamente ao longo de décadas, e que o colesterol LDL exerce um papel central nesse processo. A boa notícia é que hoje dispomos de um amplo conjunto de estratégias capazes de reduzir significativamente o risco de infarto, derrame (AVC) e morte cardiovascular. Curiosamente, nenhuma delas, isoladamente, faz milagres.

Os melhores resultados surgem quando mudanças consistentes no estilo de vida são combinadas, quando necessário, com medicamentos baseados em evidências científicas. Essa é justamente a filosofia da Medicina do Estilo de Vida.

 

A primeira receita continua sendo o estilo de vida

Quando um paciente recebe o diagnóstico de colesterol elevado, é comum perguntar: “Doutor, vou precisar tomar remédio?” A resposta, muitas vezes, é: “Antes de pensar no medicamento, vamos cuidar das causas.” A aterosclerose é influenciada por diversos fatores que podem ser modificados. Entre eles destacam-se:

  • alimentação;
  • atividade física;
  • excesso de gordura corporal, especialmente visceral;
  • tabagismo;
  • pressão arterial;
  • diabetes;
  • qualidade do sono;
  • estresse crônico;
  • consumo abusivo de álcool.

Em muitos indivíduos de baixo risco cardiovascular, essas mudanças podem ser suficientes para controlar os fatores de risco.

Em outros, especialmente aqueles de alto ou muito alto risco, elas continuam sendo indispensáveis, mas geralmente precisam ser associadas ao tratamento medicamentoso.

 

Alimentação: não existe um único modelo perfeito

A ciência da nutrição evoluiu muito nas últimas décadas. Hoje sabemos que o padrão alimentar como um todo importa mais do que um alimento isolado.

Diversos estudos demonstram benefícios consistentes de padrões alimentares ricos em alimentos naturais e minimamente processados, com abundância de vegetais, frutas, leguminosas, oleaginosas, grãos integrais e gorduras insaturadas (Estruch et al., 2018; Ludwig et al., 2024).

Entre os modelos mais estudados destacam-se:

  • dieta mediterrânea;
  • alimentação predominantemente baseada em vegetais;
  • dieta DASH;
  • alimentação rica em fibras e pobre em ultraprocessados.

Independentemente do modelo escolhido, alguns princípios permanecem praticamente universais:

  • reduzir alimentos ultraprocessados;
  • limitar gorduras trans;
  • controlar o consumo de açúcares adicionados;
  • preferir alimentos integrais;
  • consumir fibras diariamente.

 

Exercício físico: um dos medicamentos mais poderosos

Poucas intervenções apresentam impacto tão amplo quanto o exercício físico. A prática regular melhora simultaneamente:

  • pressão arterial;
  • resistência à insulina;
  • peso corporal;
  • composição corporal;
  • inflamação sistêmica;
  • função endotelial;
  • qualidade do sono;
  • saúde mental.

Além disso, reduz mortalidade cardiovascular e mortalidade por todas as causas.

As diretrizes recomendam, como regra geral:

  • pelo menos 150 a 300 minutos semanais de atividade aeróbica moderada;

ou

  • 75 a 150 minutos de atividade vigorosa.

Também é recomendável incluir treinamento de força pelo menos duas vezes por semana. Mais importante do que escolher o “melhor exercício” é encontrar uma atividade que possa ser mantida por muitos anos.

 

O cigarro continua sendo um dos maiores inimigos do coração

O tabagismo acelera praticamente todas as etapas da aterosclerose. Favorece:

  • inflamação;
  • estresse oxidativo;
  • lesão do endotélio;
  • trombose;
  • instabilidade das placas.

Parar de fumar reduz progressivamente o risco cardiovascular. Nunca é tarde para abandonar o cigarro.

 

E o álcool?

Durante muitos anos acreditou-se que pequenas quantidades de vinho poderiam proteger o coração. Hoje essa interpretação mudou completamente. Não há dose segura para o álcool, é conclusão atual.

Embora alguns estudos observacionais tenham sugerido, há décadas, algum possível benefício, pesquisas mais recentes indicam que grande parte desse aparente efeito protetor pode ser explicada por fatores de confusão, como estilo de vida, condição socioeconômica e padrão alimentar. Por exemplo, nos estudos observacionais que envolveram a dieta mediterrânea.

Assim, não existe recomendação médica para iniciar o consumo de bebidas alcoólicas visando proteção cardiovascular..

 

O peso corporal importa — mas a composição corporal importa ainda mais

Nem todo excesso de peso representa o mesmo risco. O acúmulo de gordura visceral — aquela localizada profundamente no abdome — está fortemente associado à inflamação crônica, resistência à insulina, hipertensão e dislipidemia.

Por outro lado, preservar a massa muscular tornou-se uma prioridade, especialmente após os 50 anos.

Perder peso à custa de músculo pode trazer consequências importantes para a saúde e para a longevidade. O objetivo não deve ser apenas emagrecer. Deve ser melhorar a composição corporal.

 

Microbiota intestinal: uma nova fronteira da Cardiologia

Nos últimos anos surgiu um protagonista inesperado. Os trilhões de micro-organismos que habitam nosso intestino parecem participar de diversos mecanismos relacionados ao risco cardiovascular.

Uma microbiota saudável favorece a produção de ácidos graxos de cadeia curta, ajuda na integridade da barreira intestinal e modula respostas inflamatórias.

Por outro lado, determinados padrões alimentares podem favorecer a produção de metabólitos potencialmente prejudiciais, como o TMAO (óxido de trimetilamina), associado em diversos estudos a maior risco cardiovascular, embora ainda existam aspectos em investigação (Tang et al., 2013).

Esse é um campo em rápida evolução. Ainda não tratamos pacientes com base exclusivamente na microbiota. Mas ela provavelmente fará parte da Cardiologia Preventiva do futuro.

 

Estatinas: uma das maiores conquistas da Medicina

Poucos medicamentos salvaram tantas vidas quanto as estatinas. Desde a introdução da lovastatina, no final da década de 1980, dezenas de grandes estudos clínicos demonstraram redução consistente de:

  • infarto;
  • AVC;
  • necessidade de angioplastia;
  • cirurgia de revascularização;
  • mortalidade cardiovascular.

As estatinas reduzem a produção hepática de colesterol por meio da inibição da enzima HMG-CoA redutase, aumentando a remoção de LDL da circulação.

Em média, cada redução de aproximadamente 39 mg/dL (1 mmol/L) no LDL-colesterol está associada a uma redução próxima de 20% a 25% nos eventos cardiovasculares maiores, segundo grandes metanálises da Cholesterol Treatment Trialists’ Collaboration (CTT Collaboration, 2010).

 

Estatinas: nem todas são iguais

Embora pertençam à mesma classe, diferem em potência.

 

Menor potência

  • pravastatina;
  • fluvastatina.

 

Potência intermediária

  • sinvastatina;
  • pitavastatina.

 

Maior potência

  • atorvastatina;
  • rosuvastatina.

 

Essa classificação ajuda o médico a escolher a intensidade do tratamento conforme o risco cardiovascular e a meta de LDL.

 

O medo das estatinas: realidade ou mito?

Poucos medicamentos geram tanta desconfiança quanto as estatinas. Na internet circulam relatos alarmantes sobre dores musculares, problemas de memória, lesão hepática e inúmeros outros efeitos adversos.

A ciência mostra um cenário mais equilibrado. Como qualquer medicamento, estatinas podem provocar efeitos adversos. Entretanto, eles são muito menos frequentes do que geralmente se imagina.

Além disso, estudos duplo-cegos demonstraram um fenômeno muito interessante. Quando pacientes não sabem se estão tomando estatina ou placebo, grande parte das dores musculares ocorre com frequência semelhante nos dois grupos.

Esse fenômeno recebeu o nome de efeito nocebo. Assim como o efeito placebo produz benefícios pela expectativa positiva, o efeito nocebo pode produzir sintomas desencadeados pela expectativa negativa (Wood et al., 2020). Isso não significa que todos os sintomas sejam imaginários.

Significa apenas que muitos pacientes conseguem utilizar outra estatina, em dose diferente ou em esquema alternativo após adequada reavaliação médica.

 

É mais perigoso tomar ou deixar de tomar?

Essa talvez seja uma das perguntas mais importantes da prevenção cardiovascular. Em um indivíduo jovem, saudável e de baixo risco, muitas vezes nenhuma estatina será necessária.

Entretanto, para um paciente que já sofreu infarto, possui diabetes associado a alto risco, hipercolesterolemia familiar ou doença aterosclerótica estabelecida, deixar de tratar o LDL pode representar um risco muito maior do que utilizar uma estatina corretamente indicada. Toda decisão médica envolve avaliar riscos e benefícios.

Nesse contexto, inúmeros estudos demonstram que, para pacientes com indicação adequada, os benefícios superam amplamente os riscos.

 

Quando a estatina não basta

Mesmo utilizando estatinas de alta potência, alguns pacientes não atingem a meta de LDL. Nesses casos podem ser associados outros medicamentos.

 

Ezetimiba

Reduz a absorção intestinal de colesterol. É geralmente a primeira medicação associada às estatinas. Apresenta excelente perfil de segurança.

 

Ácido bempedoico

Atua antes da HMG-CoA redutase, em uma enzima chamada ATP-citrato liase. Como é ativado principalmente no fígado, tende a produzir menos sintomas musculares. Representa excelente opção para pacientes intolerantes às estatinas ou que necessitam redução adicional do LDL.

O estudo CLEAR Outcomes demonstrou redução significativa de eventos cardiovasculares em pacientes com intolerância às estatinas (Nissen et al., 2023).

 

Inibidores de PCSK9

Medicamentos como evolocumabe e alirocumabe promovem reduções muito expressivas do LDL, frequentemente superiores a 50%. São particularmente úteis em:

  • hipercolesterolemia familiar;
  • prevenção secundária;
  • pacientes que permanecem acima da meta apesar do tratamento convencional.

 

Inclisirana

É uma terapia baseada em RNA de interferência. Sua principal vantagem é a comodidade. Após a fase inicial, costuma ser administrada apenas duas vezes por ano. Representa um dos avanços mais interessantes da Medicina de Precisão aplicada às dislipidemias.

 

A prevenção personalizada

Cada vez mais o tratamento deixa de seguir uma fórmula única. Hoje o médico considera simultaneamente:

  • risco cardiovascular global;
  • idade;
  • expectativa de vida;
  • presença de diabetes;
  • função renal;
  • histórico familiar;
  • Lp(a);
  • tolerância às medicações;
  • preferências do paciente.

Essa abordagem individualizada melhora a adesão e aumenta as chances de sucesso a longo prazo.

 

Resumo prático

A redução do risco cardiovascular começa pelo estilo de vida: alimentação saudável, atividade física regular, abandono do tabagismo, sono adequado, controle do peso e manejo do estresse continuam sendo pilares fundamentais.

Quando essas medidas não são suficientes — ou quando o risco cardiovascular já é elevado — os medicamentos tornam-se aliados importantes. Entre eles, as estatinas permanecem como o tratamento de primeira linha devido à robustez das evidências científicas.

Para pacientes que não atingem as metas ou apresentam intolerância, hoje existem alternativas eficazes, como ezetimiba, ácido bempedoico, inibidores de PCSK9 e inclisirana.

Mais do que escolher um medicamento, o objetivo é reduzir o risco de infarto, AVC e morte cardiovascular, preservando qualidade e expectativa de vida.

 

Referências

BAIGENT, C. et al. Efficacy and safety of cholesterol-lowering treatment: prospective meta-analysis of data from 90,056 participants in 14 randomised trials of statins. The Lancet. 2005.

CTT (Cholesterol Treatment Trialists’) Collaboration. Efficacy and safety of more intensive lowering of LDL cholesterol. The Lancet. 2010.

ESTRUCH, R. et al. Primary Prevention of Cardiovascular Disease with a Mediterranean Diet Supplemented with Extra-Virgin Olive Oil or Nuts. New England Journal of Medicine. Reanálise publicada em 2018.

LUDWIG, D. S. et al. Nutrition science at a crossroads: modern evidence for dietary patterns and cardiometabolic health. Nature Medicine. 2024.

NISSEN, S. E. et al. Bempedoic Acid and Cardiovascular Outcomes in Statin-Intolerant Patients. New England Journal of Medicine. 2023.

TANG, W. H. W. et al. Intestinal microbial metabolism of phosphatidylcholine and cardiovascular risk. New England Journal of Medicine. 2013.

WOOD, F. A. et al. Effects of statin therapy, placebo, and no treatment on muscle symptoms: the SAMSON trial. New England Journal of Medicine. 2020.

Qual é o seu risco de sofrer um infarto ou um derrame? – O colesterol é realmente o vilão? – Parte 2

 

Na primeira parte vimos que o risco cardiovascular não depende apenas do colesterol. Idade, pressão arterial, diabetes, tabagismo, obesidade, história familiar e diversos outros fatores contribuem para determinar a probabilidade de um infarto ou derrame. Mas isso não diminui a importância do colesterol. Pelo contrário. Hoje existe um dos consensos científicos mais sólidos da Cardiologia moderna: O colesterol LDL participa diretamente da formação das placas de aterosclerose.

Isso não significa que ele seja o único responsável. Também não significa que todas as pessoas devam apresentar níveis extremamente baixos. Significa apenas que existe uma relação causal muito bem estabelecida entre LDL elevado e maior risco cardiovascular (Ference et al., 2017).

 

O colesterol não é um inimigo

Muitas pessoas acreditam que colesterol é uma substância prejudicial. Na realidade ocorre exatamente o oposto. Sem colesterol não haveria vida. O colesterol participa da formação:

  • das membranas celulares;
  • da bainha de mielina que envolve os nervos;
  • dos hormônios sexuais;
  • do cortisol;
  • da vitamina D;
  • dos ácidos biliares.

O problema não é produzir colesterol. O problema é quando determinadas partículas permanecem circulando em excesso durante muitos anos.

 

LDL: o verdadeiro protagonista da aterosclerose

O LDL significa Lipoproteína de Baixa Densidade (Low Density Lipoprotein). Na prática, trata-se do principal veículo de transporte de colesterol do fígado para os tecidos.

Quando sua concentração permanece elevada por muitos anos, parte dessas partículas consegue penetrar na parede das artérias. Ali inicia-se um processo inflamatório lento e progressivo.

Macrófagos passam a acumular colesterol. Formam-se as chamadas células espumosas. Com o passar dos anos surgem as placas de aterosclerose. Essas placas podem permanecer silenciosas durante décadas.

Quando uma delas rompe, forma-se um trombo que pode interromper completamente o fluxo sanguíneo. Dependendo do local, ocorre:

  • infarto do miocárdio;
  • AVC isquêmico;
  • obstrução das artérias das pernas;
  • outras manifestações da doença aterosclerótica.

É por isso que muitos especialistas costumam dizer: “O infarto começa vinte ou trinta anos antes da dor no peito.”

 

Quanto menor o LDL, melhor?

Durante muitos anos discutiu-se se existiria um limite abaixo do qual reduzir o LDL deixaria de trazer benefícios.

Hoje sabemos que, para pessoas de alto risco cardiovascular, níveis progressivamente menores de LDL continuam associados à redução de eventos cardiovasculares, sem evidências consistentes de prejuízo decorrente de valores muito baixos alcançados com tratamento adequado (CTT Collaboration, 2010; Mach et al., 2020).

Entretanto, isso não significa que todas as pessoas devam buscar o menor LDL possível. A meta depende do risco cardiovascular individual. Esse é um conceito fundamental. A Medicina moderna não trata apenas números. Ela trata pessoas.

 

As metas atuais de LDL

As diretrizes mais recentes da Sociedade Europeia de Cardiologia (ESC) e da Sociedade Brasileira de Cardiologia recomendam individualizar as metas conforme o risco cardiovascular. De forma simplificada:

 

Categoria de risco

 

Meta aproximada de LDL

Baixo risco <116 mg/dL
Risco moderado <100 mg/dL
Alto risco <70 mg/dL
Muito alto risco <55 mg/dL
Alguns pacientes de risco extremamente elevado e eventos recorrentes <40 mg/dL pode ser considerado em situações selecionadas

 

Essas metas podem sofrer pequenos ajustes conforme a diretriz utilizada e as características clínicas do paciente.

O princípio, entretanto, permanece o mesmo: Quanto maior o risco cardiovascular, mais rigoroso costuma ser o controle do LDL.

 

HDL: o famoso “colesterol bom”

Durante décadas o HDL foi chamado de “colesterol bom”. Existe um fundo de verdade nessa afirmação. O HDL participa do chamado transporte reverso de colesterol, removendo parte do colesterol da parede arterial e levando-o de volta ao fígado.

Pessoas com HDL naturalmente mais elevado costumam apresentar menor incidência de doença cardiovascular em estudos observacionais. Entretanto, surgiu uma surpresa.

Diversos medicamentos conseguiram aumentar bastante o HDL. Mesmo assim, não reduziram infartos nem mortalidade. Isso mostrou que: Mais importante do que a quantidade de HDL parece ser sua qualidade e funcionalidade.

Hoje o HDL continua sendo um marcador útil de risco. Mas deixou de ser um alvo terapêutico isolado.

 

Triglicerídeos – para que servem e o que revelam?

Os triglicerídeos representam outra forma de transporte de gordura. Valores elevados frequentemente refletem:

  • excesso de peso;
  • resistência à insulina;
  • diabetes;
  • abuso de álcool;
  • excesso de carboidratos refinados;
  • sedentarismo.

Além disso, partículas ricas em triglicerídeos também parecem contribuir para o desenvolvimento da aterosclerose. Na prática clínica, triglicerídeos elevados costumam sinalizar que o metabolismo merece atenção mais ampla.

Convém destacar que pessoas magras também podem apresentar triglicerídeos elevados.

 

Não-HDL e ApoB: os novos protagonistas

Durante muitos anos praticamente toda a atenção foi dirigida ao LDL. Hoje cresce o interesse por dois marcadores adicionais.

Colesterol não-HDL – É obtido simplesmente subtraindo o HDL do colesterol total. Representa todas as partículas potencialmente aterogênicas. Sua interpretação é especialmente útil quando os triglicerídeos estão elevados.

 

 

ApoB – Cada partícula aterogênica contém aproximadamente uma molécula de Apolipoproteína B (ApoB). Por isso muitos pesquisadores acreditam que a ApoB representa uma estimativa ainda mais precisa da quantidade de partículas capazes de penetrar na parede arterial.

Nos últimos anos esse marcador ganhou destaque crescente em diretrizes internacionais, especialmente para pacientes com síndrome metabólica, diabetes ou hipertrigliceridemia. Provavelmente veremos sua utilização tornar-se cada vez mais frequente.

 

Lipoproteína(a) ou Lp(a): um fator de risco que nasce conosco

Entre todas as novidades da Cardiologia Preventiva, poucas despertaram tanto interesse quanto a lipoproteína(a), conhecida como Lp(a). Ela se parece com uma partícula de LDL.

Entretanto, possui uma proteína adicional chamada apolipoproteína(a). Na maioria das pessoas seu nível é determinado principalmente pela genética. Dieta e exercício físico exercem pouca influência sobre ela. Valores elevados estão associados a maior risco de:

  • infarto;
  • AVC;
  • estenose da válvula aórtica.

Atualmente recomenda-se que, pelo menos uma vez na vida, especialmente em indivíduos com história familiar de doença cardiovascular precoce, seja considerada a dosagem da Lp(a).

Novos medicamentos especificamente direcionados à redução da Lp(a) encontram-se em fase avançada de pesquisa clínica e representam uma das áreas mais promissoras da Cardiologia.

 

O colesterol é apenas uma parte da história

É perfeitamente possível encontrar pessoas com colesterol relativamente elevado e baixo risco cardiovascular. Também encontramos indivíduos com colesterol apenas discretamente aumentado, mas risco muito elevado. Isso acontece porque a aterosclerose resulta da interação de inúmeros fatores. Entre eles:

  • genética;
  • inflamação;
  • hipertensão;
  • diabetes;
  • tabagismo;
  • obesidade visceral;
  • sedentarismo;
  • qualidade da alimentação;
  • microbiota intestinal;
  • função renal;
  • idade.

Essa visão integrada representa uma das maiores mudanças da Cardiologia moderna.

 

Resumo prático

O colesterol continua sendo um dos principais fatores envolvidos na aterosclerose, mas não deve ser interpretado isoladamente.

O LDL permanece como o principal alvo do tratamento preventivo, especialmente em pessoas de maior risco cardiovascular.

O HDL continua sendo um importante marcador, embora seu aumento isolado não garanta proteção.

Triglicerídeos, colesterol não-HDL, ApoB e lipoproteína(a) ampliam nossa capacidade de compreender o risco individual e, cada vez mais, ajudam a personalizar a prevenção.

Na próxima parte veremos como reduzir efetivamente esse risco por meio da alimentação, atividade física, controle do peso, abandono do tabagismo e dos medicamentos atualmente disponíveis — das estatinas aos inibidores de PCSK9, passando pela ezetimiba, pelo ácido bempedoico e pelas novas terapias que estão transformando a prevenção cardiovascular.

 

Referências

CTT (Cholesterol Treatment Trialists’) Collaboration. Efficacy and safety of more intensive lowering of LDL cholesterol: a meta-analysis of data from 170,000 participants in 26 randomised trials. The Lancet. 2010.

FERENCE, B. A. et al. Low-density lipoproteins cause atherosclerotic cardiovascular disease. European Heart Journal. 2017.

MACH, F. et al. 2019 ESC/EAS Guidelines for the management of dyslipidaemias. European Heart Journal. 2020.

GRUNDY, S. M. et al. 2018 AHA/ACC Guideline on the Management of Blood Cholesterol. Circulation. 2019.

NORDESTGAARD, B. G. et al. Lipoprotein(a) as a cardiovascular risk factor: current status. European Heart Journal. 2010.

Sociedade Brasileira de Cardiologia. Atualização da Diretriz Brasileira de Dislipidemias e Prevenção da Aterosclerose. Arquivos Brasileiros de Cardiologia. Versão mais recente disponível.

Receba nosso conteúdo

Tenha acesso em primeira mão às nossas novidades e programações especiais

A Lapinha se compromete em proteger e respeitar sua privacidade. Usaremos suas informações pessoais apenas para administrar sua conta e fornecer os produtos e serviços que você nos solicitou. Ocasionalmente, gostaríamos de entrar em contato sobre nossas ofertas, bem como sobre outros conteúdos que possam ser de seu interesse. Você pode optar por desinscrever-se de nosso mailing a qualquer momento.

Lar Lapeano de Saúde LTDA - CNPJ 75.189.597/0001-63. Todos os direitos reservados.