Da frustração ao entusiasmo: como os novos medicamentos transformaram o tratamento da obesidade — e por que ainda precisamos de equilíbrio
Disclaimer
Este artigo tem finalidade exclusivamente educativa e não substitui consulta médica. Medicamentos para tratamento da obesidade devem ser prescritos apenas após avaliação individualizada, considerando benefícios, riscos, contraindicações e acompanhamento contínuo. Nenhum medicamento substitui uma alimentação saudável, atividade física regular e outras mudanças no estilo de vida.
Confesso: durante muitos anos tratar a obesidade era frustrante
Há mais de quarenta anos acompanho pessoas que desejam emagrecer. Ao longo desse período, vi milhares de histórias. Algumas extremamente bem-sucedidas.
Muitas, infelizmente, repetiam o mesmo roteiro. O paciente conseguia perder alguns quilos. Sentia-se motivado. Depois surgiam as dificuldades da rotina. A fome aumentava. O organismo reagia. O peso voltava. Frequentemente maior do que antes.
Era o conhecido efeito sanfona. Como médico, poucas situações produziam tanta frustração.
Sabíamos orientar alimentação. Incentivávamos atividade física. Tratávamos ansiedade quando necessário. Prescrevíamos os medicamentos disponíveis. Mesmo assim, grande parte dos pacientes não conseguia manter resultados duradouros.
Hoje compreendemos que isso não acontecia por falta de força de vontade. A ciência mudou profundamente nossa compreensão da obesidade.
A maior mudança foi compreender que obesidade é uma doença
Durante muitos anos a obesidade foi interpretada quase exclusivamente como consequência de escolhas individuais.
Quem engordava era frequentemente visto como alguém sem disciplina. Esse pensamento mostrou-se profundamente simplista.
Hoje sabemos que a obesidade é uma doença crônica, complexa e multifatorial, influenciada por genética, ambiente, hormônios, microbiota intestinal, sono, estresse, saúde mental, disponibilidade de alimentos ultraprocessados e inúmeros outros fatores (Rubino et al., 2025).
O cérebro possui sistemas extremamente sofisticados para defender as reservas de energia.
Quando uma pessoa emagrece, o organismo frequentemente responde aumentando a fome, reduzindo o gasto energético e estimulando mecanismos biológicos que favorecem a recuperação do peso.
Em outras palavras: o corpo humano foi programado para evitar perder peso, não para evitar ganhar peso. Essa descoberta mudou completamente a forma como encaramos o tratamento.
Resumo Prático
Obesidade não é simplesmente falta de força de vontade. É uma doença crônica na qual fatores biológicos, psicológicos, sociais e ambientais interagem continuamente.
Uma breve história dos medicamentos para emagrecer
A busca por medicamentos capazes de reduzir o peso corporal acompanha a medicina há muitas décadas. Alguns trouxeram benefícios importantes. Outros acabaram abandonados por falta de eficácia ou por problemas de segurança.
Conhecer essa história ajuda a entender por que as chamadas “canetinhas” representam um momento tão especial.
Os primeiros anorexígenos: muito entusiasmo, muitos problemas
Na década de 1940 começaram a surgir os derivados anfetamínicos. Eles reduziam o apetite estimulando diretamente o sistema nervoso central. Inicialmente pareciam revolucionários.
Entretanto, logo ficaram evidentes diversos problemas:
- aumento da pressão arterial;
- insônia;
- ansiedade;
- taquicardia;
- risco de dependência;
- abuso recreativo.
Muitos desses medicamentos foram posteriormente retirados do mercado ou tiveram seu uso severamente restringido. Eles ensinaram uma importante lição: reduzir o apetite não basta; o tratamento também precisa ser seguro.
Sibutramina: um avanço importante, mas limitado
No final da década de 1990 surgiu a sibutramina. Seu mecanismo de ação era diferente. Ela aumentava a disponibilidade cerebral de serotonina e noradrenalina, promovendo maior sensação de saciedade. Durante muitos anos representou um dos principais tratamentos farmacológicos da obesidade.
Ainda hoje permanece disponível em diversos países, inclusive no Brasil, com critérios rigorosos de prescrição.
Embora muitos pacientes apresentassem boa resposta, a perda média de peso costumava situar-se entre 5% e 10% do peso corporal, além de haver preocupações quanto ao uso em pacientes com doença cardiovascular estabelecida, especialmente após a publicação do estudo SCOUT (James et al., 2010). Para muitos indivíduos, ainda era pouco.
Orlistate: uma estratégia completamente diferente
Enquanto os medicamentos anteriores atuavam principalmente sobre o cérebro, o orlistate passou a agir no intestino.
Seu mecanismo consiste em bloquear parte da ação das lipases pancreáticas, reduzindo a absorção de aproximadamente 30% da gordura ingerida. A estratégia mostrou-se segura do ponto de vista cardiovascular.
Entretanto, os efeitos colaterais gastrointestinais — como evacuações oleosas, urgência evacuatória e flatulência com eliminação de gordura — limitaram bastante sua aceitação. Mesmo assim, permanece uma alternativa útil em situações específicas.
Novas combinações: tentando aumentar a eficácia
Nas décadas seguintes surgiram associações medicamentosas buscando atuar simultaneamente sobre diferentes mecanismos cerebrais envolvidos no apetite.
Entre elas destacam-se:
- Fentermina + Topiramato, aprovada em diversos países e capaz de produzir perdas de peso superiores às observadas com muitos medicamentos anteriores.
- Naltrexona + Bupropiona, combinação que atua sobre centros cerebrais relacionados tanto à fome quanto ao comportamento alimentar, sendo particularmente útil para alguns pacientes com episódios de compulsão alimentar.
Lorcaserina – acabou sendo retirada do mercado
Outro medicamento que despertou grande interesse foi a lorcaserina, agonista seletivo dos receptores serotoninérgicos 5-HT2C.
Inicialmente considerada bastante promissora, acabou sendo retirada do mercado norte-americano em 2020 após análises sugerirem um possível aumento da incidência de alguns tipos de câncer em estudos de acompanhamento prolongado.
Até hoje, essa decisão continua sendo discutida na literatura científica, mas ilustra um princípio fundamental da farmacoterapia: a segurança em longo prazo é tão importante quanto a eficácia (FDA, 2020).
Apesar dos avanços, ainda faltava alguma coisa…
Todos esses medicamentos ajudaram milhares de pessoas. Mas havia um problema. Na maioria dos casos, a perda de peso permanecia modesta. Muitos pacientes continuavam frustrados. Era comum observar reduções de 5%, 8% ou 10% do peso corporal.
Esses resultados já produziam benefícios metabólicos importantes. Mas ainda estavam muito distantes das perdas frequentemente observadas após uma cirurgia bariátrica.
Foi então que a endocrinologia encontrou um caminho completamente diferente. Em vez de apenas reduzir artificialmente o apetite, pesquisadores passaram a estudar um sofisticado sistema hormonal que o próprio organismo utiliza diariamente para controlar fome, saciedade e metabolismo.
Esses hormônios receberam o nome de incretinas. Poucos imaginavam que eles iniciariam uma das maiores revoluções da história do tratamento da obesidade.
Resumo da Parte I
✔ Durante décadas, os médicos conviveram com resultados modestos no tratamento farmacológico da obesidade.
✔ A maior mudança científica foi reconhecer que a obesidade é uma doença crônica e multifatorial, e não uma simples falta de disciplina.
✔ Diversos medicamentos contribuíram para a evolução do tratamento, mas apresentavam eficácia limitada ou problemas de segurança.
✔ A verdadeira transformação começou quando a pesquisa voltou sua atenção para hormônios naturalmente produzidos pelo intestino: as incretinas.
✔ Sempre vale lembrar e enfatizar que os medicamente jamais substituem as mudanças comportamentais, um estilo de vida saudável.
Na Parte II, conheceremos os hormônios GLP-1 e GIP, entenderemos como nasceram as “canetinhas emagrecedoras” e veremos por que medicamentos como liraglutida, semaglutida, tirzepatida e, futuramente, retatrutida estão mudando a história do tratamento da obesidade.
Referências – Parte 1
FOOD AND DRUG ADMINISTRATION (FDA). FDA requests the withdrawal of the weight-loss drug Belviq (lorcaserin) from the market. Silver Spring: FDA, 2020.
JAMES, W. P. T. et al. Effect of sibutramine on cardiovascular outcomes in overweight and obese subjects. New England Journal of Medicine, Boston, v. 363, n. 10, p. 905–917, 2010.
RUBINO, D. et al. (em nome das principais sociedades internacionais de obesidade). Definition and diagnostic criteria of clinical obesity. The Lancet Diabetes & Endocrinology, 2025.
YANOVSKI, S. Z.; YANOVSKI, J. A. Long-term drug treatment for obesity: a systematic and clinical review. JAMA, Chicago, v. 311, n. 1, p. 74–86, 2014.
WEINTRAUB, M. Long-term weight control study: conclusions. Clinical Pharmacology & Therapeutics, v. 51, n. 5, p. 642–646, 1992.