MEDIDAS DO ESTILO DE VIDA: SEMPRE NECESSÁRIAS, NEM SEMPRE SUFICIENTES – Parte 2 de 2

 

 

Parte 2– Quando o Estilo de Vida Precisa de Ajuda

 

Na primeira parte deste artigo, vimos que alimentação adequada, atividade física regular, sono reparador, equilíbrio emocional e abstinência de vícios constituem a base da saúde humana. Essa afirmação não é apenas uma opinião: trata-se de uma das conclusões mais consistentes da medicina moderna.

Mas existe uma pergunta que inevitavelmente surge na prática clínica:

Se o estilo de vida é tão importante, por que tantas pessoas ainda precisam de medicamentos, cirurgias ou outros tratamentos?

A resposta está na própria complexidade da biologia humana.

O organismo não é uma máquina simples. Genética, idade, fatores ambientais, exposições acumuladas ao longo da vida, doenças pré-existentes e até eventos ocorridos durante a gestação influenciam a maneira como cada pessoa responde aos hábitos saudáveis.

Por isso, embora o estilo de vida seja quase sempre necessário, ele nem sempre é suficiente.

 

Importante – Disclaimer

Este artigo tem finalidade exclusivamente educativa e informativa. Não se destina a diagnosticar doenças, substituir consultas médicas ou estabelecer condutas terapêuticas. Decisões relacionadas a medicamentos, suplementos, exames, cirurgias ou quaisquer tratamentos devem ser tomadas em conjunto com médicos e outros profissionais de saúde devidamente habilitados, considerando as características individuais de cada pessoa.

 

Obesidade: Um dos Melhores Exemplos

Poucas condições ilustram tão bem essa realidade quanto a obesidade.

Durante muitos anos acreditou-se que excesso de peso era apenas consequência de escolhas inadequadas. Hoje sabemos que essa visão é simplista. A obesidade é reconhecida como uma doença crônica complexa, multifatorial, influenciada por fatores genéticos, neuroendócrinos, metabólicos, psicológicos, sociais e ambientais (Rubino et al., 2020).

Isso não significa que alimentação e exercício deixaram de ser importantes.

Muito pelo contrário.

Eles continuam sendo o alicerce de qualquer tratamento bem-sucedido.

No entanto, nem sempre conseguem produzir, sozinhos, a magnitude de perda de peso necessária para reverter riscos metabólicos importantes.

Um dos estudos mais impactantes dos últimos anos foi o STEP-1, publicado no New England Journal of Medicine. Nesse ensaio clínico randomizado envolvendo quase 2.000 adultos com obesidade ou sobrepeso, a semaglutida associada às medidas de estilo de vida promoveu perda média de aproximadamente 15% do peso corporal, resultado significativamente superior ao obtido apenas com intervenções comportamentais (Wilding et al., 2021).

Outro estudo marcante, o SURMOUNT-1, também publicado no New England Journal of Medicine, demonstrou que a tirzepatida proporcionou perdas superiores a 20% do peso corporal em parte dos participantes, resultados antes observados principalmente com cirurgia bariátrica (Jastreboff et al., 2022).

Esses estudos não diminuem a importância da alimentação e da atividade física.

Demonstram, na verdade, que em determinados pacientes a combinação entre mudanças comportamentais e recursos farmacológicos pode produzir resultados que dificilmente seriam alcançados por qualquer uma das estratégias isoladamente.

 

Quando Nem os Medicamentos São Suficientes

Existe ainda um grupo de pacientes para os quais mesmo o tratamento medicamentoso pode não ser suficiente.

Nesses casos, a cirurgia bariátrica ou metabólica pode representar a alternativa mais eficaz.

Um dos estudos mais importantes já realizados nessa área foi o Swedish Obese Subjects (SOS). Após décadas de acompanhamento, os pesquisadores observaram reduções significativas da mortalidade global, dos eventos cardiovasculares e da incidência de diabetes em indivíduos submetidos à cirurgia bariátrica quando comparados a controles tratados de forma convencional (Sjöström et al., 2012).

Mais recentemente, um acompanhamento de dez anos publicado no The Lancet demonstrou que pacientes obesos com diabetes tipo 2 submetidos à cirurgia metabólica apresentaram taxas superiores de remissão da doença e melhor controle metabólico quando comparados ao tratamento clínico convencional (Mingrone et al., 2021).

Mais uma vez, vale destacar:

A cirurgia não substitui o estilo de vida.

Ela funciona melhor quando apoiada por hábitos saudáveis duradouros.

 

Colesterol Alto: Quando a Esteira Não Basta

O exercício físico melhora o perfil lipídico.

A dieta adequada também.

Uma grande meta-análise publicada em 2024 no Sports Medicine, reunindo 148 ensaios clínicos randomizados e mais de 8.600 participantes, demonstrou reduções significativas do colesterol total, LDL-colesterol e triglicerídeos em indivíduos submetidos a programas estruturados de treinamento físico (Van de Velde et al., 2024).

Isso é uma excelente notícia.

Mas existe uma armadilha frequente: acreditar que todos os casos de colesterol elevado podem ser resolvidos apenas com dieta e exercício.

Pacientes com hipercolesterolemia familiar, por exemplo, frequentemente apresentam níveis muito elevados de LDL-colesterol apesar de hábitos exemplares.

Nesses casos, depender exclusivamente da alimentação e da atividade física pode significar anos de exposição vascular desnecessária.

Uma das maiores colaborações científicas da cardiologia, a Cholesterol Treatment Trialists’ Collaboration, reuniu dados de aproximadamente 170 mil participantes de 26 ensaios clínicos randomizados e demonstrou que a redução intensiva do LDL-colesterol por meio de estatinas diminui significativamente o risco de infarto, acidente vascular cerebral e mortalidade cardiovascular (CTT Collaboration, 2010).

A mensagem é simples:

A esteira ajuda. A alimentação ajuda. Mas, para alguns indivíduos, elas precisam da companhia da estatina.

 

Diabetes Tipo 2: A Soma Vence a Disputa

O diabetes tipo 2 oferece outro excelente exemplo.

Mudanças alimentares, perda de peso e atividade física podem melhorar dramaticamente o controle glicêmico.

O clássico Diabetes Prevention Program, publicado no New England Journal of Medicine, acompanhou mais de 3.200 indivíduos com alto risco para diabetes e demonstrou que intervenções intensivas no estilo de vida reduziram em 58% a incidência da doença, desempenho superior ao obtido com metformina isoladamente (Knowler et al., 2002).

Os benefícios mostraram-se duradouros. No seguimento de longo prazo do estudo, publicado posteriormente, os participantes continuaram apresentando redução significativa do risco de desenvolver diabetes mesmo após muitos anos (Diabetes Prevention Program Research Group, 2015).

Entretanto, uma vez instalada a doença, especialmente em estágios mais avançados, muitos pacientes necessitam de tratamento medicamentoso.

As diretrizes mais recentes da American Diabetes Association destacam que medicamentos como agonistas do receptor de GLP-1 e inibidores de SGLT2 podem reduzir não apenas a glicemia, mas também eventos cardiovasculares, insuficiência cardíaca e progressão da doença renal crônica (ADA, 2025).

Mais uma vez, não se trata de escolher entre hábitos saudáveis ou medicamentos.

Trata-se de utilizar as duas ferramentas.

 

A Fobia de Medicamentos

Existe um fenômeno relativamente comum na prática clínica: pessoas que aceitam qualquer suplemento, fitoterápico ou estratégia alternativa, mas rejeitam imediatamente medicamentos prescritos.

Muitas vezes essa resistência nasce de experiências negativas anteriores, relatos de terceiros ou receio de efeitos adversos.

É importante reconhecer que nenhum tratamento é completamente isento de riscos.

Isso vale para medicamentos.

Mas também vale para suplementos, fitoterápicos, cirurgias e até para a ausência de tratamento.

Quando uma pessoa com alto risco cardiovascular evita estatinas apesar de indicação clara, ela não está escolhendo entre risco e segurança.

Está escolhendo entre diferentes tipos de risco.

O mesmo raciocínio vale para hipertensão grave, diabetes descontrolado ou câncer.

O objetivo da medicina baseada em evidências não é eliminar todos os riscos — algo impossível —, mas reduzir os riscos globais da forma mais racional possível.

 

Fitoterápicos e Suplementos: Aliados, Não Substitutos

Suplementos nutricionais e fitoterápicos podem desempenhar papéis úteis em situações específicas.

A creatina, por exemplo, possui uma das bases científicas mais robustas da nutrição esportiva. O posicionamento oficial da International Society of Sports Nutrition concluiu que ela apresenta perfil de segurança favorável e eficácia comprovada para aumento de desempenho em exercícios de alta intensidade e preservação de massa muscular em diversas populações (Kreider et al., 2017).

Entretanto, o problema surge quando suplementos ou fitoterápicos passam a substituir tratamentos cuja eficácia foi demonstrada em estudos muito mais robustos.

Em geral, a hierarquia das evidências deve ser respeitada.

Uma meta-análise bem conduzida, um grande ensaio clínico randomizado ou décadas de observação consistente costumam fornecer informações mais confiáveis do que relatos isolados ou experiências pessoais.

 

A Medicina do “E” e Não do “Ou”

Talvez a principal mensagem deste artigo seja esta:

A discussão raramente deveria ser:

  • estilo de vida ou medicamento;
  • alimentação ou cirurgia;
  • exercício ou tratamento médico.

Na maioria das situações reais, a pergunta correta é:

Como integrar essas abordagens da melhor maneira possível?

A medicina moderna produz seus melhores resultados quando combina medidas autoinduzidas — aquelas que dependem das escolhas diárias do indivíduo — com intervenções externas fundamentadas em evidências científicas.

O exercício potencializa os benefícios dos medicamentos.

A alimentação adequada melhora os resultados da cirurgia.

O sono adequado favorece o controle metabólico.

O tratamento médico aumenta a capacidade do organismo de responder aos hábitos saudáveis.

Não são estratégias concorrentes.

São estratégias complementares.

 

Conclusão

O estilo de vida continua sendo a base da saúde.

Nenhum medicamento substitui integralmente uma alimentação adequada.

Nenhuma cirurgia substitui a prática regular de atividade física.

Nenhum suplemento substitui um sono de qualidade.

Mas também é verdade que hábitos saudáveis nem sempre anulam a necessidade de medicamentos, procedimentos ou outras intervenções médicas.

A sabedoria talvez esteja justamente em evitar os extremos.

Nem a crença de que existe uma pílula capaz de resolver tudo.

Nem a ilusão de que todas as doenças podem ser vencidas apenas pela força de vontade.

A melhor medicina continua sendo aquela que une responsabilidade pessoal, conhecimento científico e uso criterioso das ferramentas terapêuticas disponíveis.

 

Referências

AMERICAN DIABETES ASSOCIATION. Standards of Care in Diabetes—2025. Diabetes Care, Alexandria, v. 48, Suppl. 1, 2025.

CHOLESTEROL TREATMENT TRIALISTS’ (CTT) COLLABORATION. Efficacy and safety of more intensive lowering of LDL cholesterol: a meta-analysis of data from 170,000 participants in 26 randomised trials. The Lancet, London, v. 376, n. 9753, p. 1670-1681, 2010.

DIABETES PREVENTION PROGRAM RESEARCH GROUP. Long-term effects of lifestyle intervention or metformin on diabetes development and microvascular complications over 15-year follow-up: the Diabetes Prevention Program Outcomes Study. The Lancet Diabetes & Endocrinology, London, v. 3, n. 11, p. 866-875, 2015.

JASTREBOFF, A. M. et al. Tirzepatide once weekly for the treatment of obesity. New England Journal of Medicine, Boston, v. 387, n. 3, p. 205-216, 2022.

KNOWLER, W. C. et al. Reduction in the incidence of type 2 diabetes with lifestyle intervention or metformin. New England Journal of Medicine, Boston, v. 346, n. 6, p. 393-403, 2002.

KREIDER, R. B. et al. International Society of Sports Nutrition position stand: safety and efficacy of creatine supplementation in exercise, sport, and medicine. Journal of the International Society of Sports Nutrition, London, v. 14, art. 18, 2017.

MINGRONE, G. et al. Bariatric-metabolic surgery versus conventional medical treatment in obese patients with type 2 diabetes: 10-year follow-up of an open-label, single-centre, randomised controlled trial. The Lancet, London, v. 397, n. 10271, p. 293-304, 2021.

RUBINO, F. et al. Joint international consensus statement for ending stigma of obesity. Nature Medicine, New York, v. 26, p. 485-497, 2020.

SJÖSTRÖM, L. et al. Bariatric surgery and long-term cardiovascular events. JAMA, Chicago, v. 307, n. 1, p. 56-65, 2012.

VAN DE VELDE, T. et al. The effect of exercise training on blood lipids: a systematic review and meta-analysis. Sports Medicine, Auckland, v. 54, 2024.

WILDING, J. P. H. et al. Once-weekly semaglutide in adults with overweight or obesity. New England Journal of Medicine, Boston, v. 384, n. 11, p. 989-1002, 2021.

 

 

 

 

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