TDAH em Crianças e Adultos: Muito Além da Falta de Atenção – Parte 3 de 3

 

Parte 3 — O Eixo Intestino-Cérebro, a Microbiota e as Novas Fronteiras da Ciência

Nos últimos anos, uma das áreas mais fascinantes da pesquisa biomédica tem sido a investigação da comunicação entre intestino e cérebro. Durante muito tempo, acreditava-se que o cérebro funcionava de maneira relativamente isolada. Hoje sabemos que existe uma intensa comunicação bidirecional entre sistema nervoso central, sistema imunológico, sistema endócrino e microbiota intestinal.

Esse sistema de comunicação recebeu o nome de eixo intestino-cérebro (gut-brain axis) (CRYAN et al., 2019).

Embora a pesquisa ainda esteja em evolução, evidências crescentes sugerem que alterações da microbiota intestinal podem influenciar o desenvolvimento cerebral, o comportamento, a cognição e até mesmo algumas condições neuropsiquiátricas, incluindo o TDAH (SHIRVANI-RAD et al., 2022).

 

O Que é a Microbiota Intestinal?

O intestino humano abriga trilhões de microrganismos, incluindo bactérias, fungos, vírus e arqueias.

Longe de serem apenas passageiros, esses organismos participam de funções fundamentais:

  • digestão de nutrientes;
  • produção de vitaminas;
  • regulação imunológica;
  • manutenção da barreira intestinal;
  • produção de metabólitos biologicamente ativos;
  • comunicação com o sistema nervoso.

Estima-se que o número total de genes presentes na microbiota seja centenas de vezes superior ao número de genes humanos, formando aquilo que alguns pesquisadores chamam de “órgão metabólico adicional” (CRYAN et al., 2019).

 

Como o Intestino Conversa com o Cérebro?

A comunicação ocorre por múltiplas vias simultâneas.

  1. Via Neural: o Nervo Vago

O nervo vago conecta diretamente intestino e cérebro.

Informações geradas no trato gastrointestinal podem influenciar áreas cerebrais relacionadas ao humor, atenção, estresse e comportamento.

Alguns experimentos em animais demonstram que alterações da microbiota podem modificar o comportamento através dessa via neural (CRYAN et al., 2019).

 

  1. Via Imunológica

Aproximadamente 70% do sistema imunológico encontra-se associado ao trato gastrointestinal.

Quando a microbiota está equilibrada, ocorre adequada regulação da resposta inflamatória.

Quando há disbiose — desequilíbrio da microbiota — pode ocorrer aumento da produção de citocinas pró-inflamatórias.

Essas moléculas inflamatórias conseguem influenciar o sistema nervoso central e potencialmente modificar processos relacionados à atenção, ao humor e ao comportamento (CRYAN et al., 2019).

Embora o TDAH não seja considerado uma doença inflamatória clássica, alguns estudos identificaram níveis discretamente aumentados de marcadores inflamatórios em determinados grupos de pacientes (FARAONE et al., 2021).

 

  1. Produção de Neurotransmissores e Neuromoduladores

Talvez o aspecto mais surpreendente seja a capacidade da microbiota de participar da produção ou modulação de substâncias neuroativas.

Diversas bactérias intestinais estão envolvidas na síntese ou metabolismo de compostos como:

  • serotonina;
  • dopamina;
  • ácido gama-aminobutírico (GABA);
  • noradrenalina;
  • acetilcolina.

Embora a maior parte desses neurotransmissores não atravesse diretamente a barreira hematoencefálica, eles podem influenciar vias metabólicas, imunológicas e neurais que afetam o funcionamento cerebral (SARKAR et al., 2016).

 

  1. Ácidos Graxos de Cadeia Curta

Quando bactérias benéficas fermentam fibras alimentares, produzem substâncias chamadas ácidos graxos de cadeia curta:

  • butirato;
  • acetato;
  • propionato.

Essas moléculas exercem múltiplas funções:

  • nutrem células intestinais;
  • fortalecem a barreira intestinal;
  • modulam inflamação;
  • influenciam a expressão gênica;
  • participam da comunicação intestino-cérebro.

O butirato, em particular, vem recebendo grande atenção por seus potenciais efeitos neuroprotetores (CRYAN et al., 2019).

 

Existe uma Microbiota Típica do TDAH?

A resposta curta é: ainda não sabemos.

Diversos estudos encontraram diferenças entre a microbiota de indivíduos com TDAH e controles saudáveis (AARTS et al., 2017; WANG et al., 2020).

Entretanto, os resultados nem sempre são consistentes.

Algumas pesquisas identificaram alterações em grupos bacterianos relacionados ao metabolismo da dopamina e de outros neurotransmissores.

Outros estudos encontraram diferenças relacionadas à produção de metabólitos inflamatórios ou neuroativos.

Uma revisão sistemática recente concluiu que existe evidência crescente de associação entre microbiota intestinal e TDAH, mas ainda não há um perfil microbiológico universalmente aceito para diagnóstico ou tratamento da condição (SHIRVANI-RAD et al., 2022; KIM et al., 2024).

Portanto, a ciência ainda está na fase de compreensão dos mecanismos, não de aplicação clínica rotineira.

 

Psicobióticos: Uma Nova Classe de Intervenções?

O termo psicobiótico foi proposto para descrever microrganismos vivos que, quando administrados em quantidades adequadas, podem produzir benefícios sobre a saúde mental e o funcionamento cerebral (DINAN; STANTON; CRYAN, 2013).

Os psicobióticos normalmente pertencem aos gêneros:

  • Lactobacillus;
  • Bifidobacterium.

Em modelos experimentais, algumas cepas demonstraram capacidade de:

  • modular neurotransmissores;
  • reduzir inflamação;
  • influenciar respostas ao estresse;
  • melhorar aspectos comportamentais.

 

Existem Psicobióticos Comprovadamente Eficazes para TDAH?

Até o momento, não.

Essa é uma área extremamente promissora, mas ainda em desenvolvimento.

Alguns estudos pequenos sugerem potenciais benefícios de determinadas cepas probióticas sobre aspectos comportamentais e emocionais.

Entretanto, os resultados ainda são heterogêneos e insuficientes para recomendar qualquer probiótico como tratamento estabelecido para TDAH (SKOTNICKA et al., 2021; KIM et al., 2024).

Em outras palavras:

A hipótese é biologicamente plausível.

Os resultados iniciais são interessantes.

Mas a evidência atual ainda não justifica substituir terapias convencionais por probióticos.

 

O Que Podemos Fazer na Prática?

Embora a ciência ainda esteja longe de prescrever um “tratamento microbiológico” para o TDAH, algumas medidas apresentam benefícios gerais para saúde intestinal e cerebral:

  • alimentação rica em fibras;
  • frutas e vegetais variados;
  • consumo adequado de proteínas;
  • redução de ultraprocessados;
  • atividade física regular;
  • sono adequado;
  • manejo do estresse.

Curiosamente, essas mesmas medidas também aparecem entre as estratégias mais importantes para melhorar a saúde global dos indivíduos com TDAH.

 

Conclusão Geral: Integrando as Três Partes

Ao longo deste artigo, vimos que o TDAH está longe de ser simplesmente uma dificuldade de prestar atenção.

Trata-se de uma condição complexa do neurodesenvolvimento, influenciada por fatores genéticos, neurobiológicos, ambientais e comportamentais.

Na infância, os sintomas frequentemente aparecem sob a forma de inquietação, impulsividade e dificuldades escolares.

Na vida adulta, tendem a manifestar-se através de procrastinação, desorganização, dificuldades de planejamento, impulsividade e problemas de gerenciamento do tempo.

As evidências científicas atuais demonstram que:

  • o TDAH possui forte componente hereditário;
  • envolve alterações em circuitos relacionados à dopamina e à noradrenalina;
  • pode persistir ao longo de toda a vida;
  • frequentemente responde bem ao tratamento.

Também vimos que o estilo de vida exerce papel muito maior do que se imaginava no passado.

Sono adequado, atividade física regular, alimentação equilibrada e redução do sedentarismo não substituem necessariamente o tratamento médico, mas podem potencializar significativamente seus resultados.

Os medicamentos estimulantes — especialmente metilfenidato e lisdexanfetamina — permanecem como as intervenções isoladas mais eficazes para os sintomas centrais do transtorno (CORTESE et al., 2018).

Por fim, exploramos uma das áreas mais promissoras da neurociência moderna: o eixo intestino-cérebro.

Embora ainda existam muitas perguntas sem resposta, as pesquisas atuais reforçam uma visão cada vez mais integrada do ser humano.

O cérebro não funciona isoladamente.

Ele está em constante diálogo com o intestino, o sistema imunológico, os hábitos de vida e o ambiente.

Talvez uma das maiores lições da ciência contemporânea seja justamente esta: compreender o TDAH exige olhar não apenas para os neurotransmissores, mas para o indivíduo como um todo.

 

Observação científica final

A mensagem central que emerge das melhores evidências disponíveis é que o tratamento do TDAH não deve ser reduzido a uma dicotomia entre “medicação” ou “estilo de vida”. A literatura atual favorece uma abordagem integrada: diagnóstico correto, educação do paciente e da família, intervenções comportamentais, promoção de hábitos saudáveis e, quando indicado, farmacoterapia baseada em evidências. A pesquisa sobre microbiota e psicobióticos é promissora, mas ainda não alcançou o nível de evidência necessário para recomendações clínicas fortes. Contudo, ela reforça um conceito cada vez mais sólido na medicina moderna: saúde cerebral, saúde intestinal e estilo de vida estão profundamente interligados.

 

REFERÊNCIAS

AARTS, Esther et al. Gut microbiome in ADHD and its relation to neural reward anticipation. PLOS ONE, San Francisco, v. 12, n. 9, e0183509, 2017. DOI: 10.1371/journal.pone.0183509.

CRYAN, John F. et al. The microbiota-gut-brain axis. Physiological Reviews, Bethesda, v. 99, n. 4, p. 1877–2013, 2019. DOI: 10.1152/physrev.00018.2018.

DINAN, Timothy G.; STANTON, Catherine; CRYAN, John F. Psychobiotics: a novel class of psychotropic. Biological Psychiatry, New York, v. 74, n. 10, p. 720–726, 2013. DOI: 10.1016/j.biopsych.2013.05.001.

KIM, Ji Hyun et al. Gut microbiota and attention deficit hyperactivity disorder: a systematic review. Microorganisms, Basel, v. 12, n. 1, 2024.

SARKAR, Aditi et al. Psychobiotics and the manipulation of bacteria-gut-brain signals. Trends in Neurosciences, Cambridge, v. 39, n. 11, p. 763–781, 2016. DOI: 10.1016/j.tins.2016.09.002.

SHIRVANI-RAD, Samira et al. The role of gut microbiota-brain axis in attention-deficit/hyperactivity disorder: a systematic review. Journal of Attention Disorders, Thousand Oaks, v. 26, n. 6, p. 796–815, 2022.

SKOTNICKA, Magdalena et al. Gut microbiota, executive functions and attention deficit/hyperactivity disorder: a review of current evidence. Nutrients, Basel, v. 13, n. 10, 2021.

WANG, Li-Jung et al. Gut microbiota and dietary patterns in children with attention-deficit/hyperactivity disorder. European Child & Adolescent Psychiatry, Heidelberg, v. 29, p. 287–297, 2020.

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