MEDIDAS DO ESTILO DE VIDA: SEMPRE NECESSÁRIAS, NEM SEMPRE SUFICIENTES – Parte 1 de 2

 

 

A ciência moderna mostra que alimentação adequada, atividade física regular, sono de qualidade, manejo do estresse e abstinência de vícios constituem pilares indispensáveis da saúde. Em muitos casos, essas medidas conseguem prevenir doenças, retardar sua progressão e até promover remissão clínica. Entretanto, também aprendemos que há situações nas quais elas não bastam (GBD 2019 Risk Factors Collaborators, 2020; WHO, 2020).

 

O Tripé do Autocuidado

Embora existam inúmeras estratégias para promover saúde, três pilares aparecem repetidamente nas grandes diretrizes médicas e nos estudos de maior qualidade: alimentação adequada, movimento corporal e equilíbrio mental associado à recuperação fisiológica, especialmente sono adequado (WHO, 2020; Fakih et al., 2024).

Esses pilares não funcionam isoladamente. Operam em incrível sincronismo. Uma alimentação inadequada prejudica o sono. O sono insuficiente favorece ganho de peso e resistência à insulina. O sedentarismo aumenta o risco de doenças cardiovasculares e metabólicas. O estresse crônico pode comprometer tanto a saúde mental quanto a física (Cappuccio et al., 2010; Fakih et al., 2024).

 

Quando o Movimento se Torna Medicina

Entre todas as intervenções relacionadas ao estilo de vida, poucas possuem um volume de evidências tão impressionante quanto a atividade física.

Um interessante estudo envolvendo mais de 116 mil adultos, acompanhado por cerca de 30 anos e publicado no Circulation, mostrou que indivíduos que realizavam entre duas e quatro vezes a quantidade mínima recomendada de atividade física apresentavam reduções substanciais da mortalidade por todas as causas e por doenças cardiovasculares, sem evidência de prejuízo decorrente de níveis elevados de exercício aeróbico (Lee et al., 2022).

Mais recentemente, uma grande revisão sistemática e meta-análise publicada no Sports Medicine avaliou 148 ensaios clínicos randomizados, envolvendo mais de 8.600 participantes, e demonstrou que o treinamento físico melhora significativamente o perfil lipídico, reduzindo colesterol total, LDL-colesterol e triglicerídeos, além de elevar os níveis de HDL-colesterol (Van de Velde et al., 2024).

Isso significa que exercícios podem substituir estatinas? Nem sempre.

Um indivíduo com LDL discretamente elevado em decorrência de hábitos inadequados pode obter excelente resposta apenas com mudanças comportamentais. Entretanto, pacientes com hipercolesterolemia familiar, doença coronariana estabelecida ou risco cardiovascular elevado frequentemente necessitam de tratamento farmacológico adicional para atingir metas seguras de LDL-colesterol (Mach et al., 2020).

Não se trata de uma derrota do estilo de vida. Trata-se do reconhecimento de que genética, fisiologia e doença nem sempre respondem integralmente às intervenções comportamentais.

 

Quando a Dieta Não Resolve Tudo

O mesmo raciocínio vale para a alimentação.

Uma alimentação saudável permanece como uma das intervenções mais poderosas da medicina preventiva. Um importante estudo publicado no New England Journal of Medicine, envolvendo participantes de alto risco cardiovascular, demonstrou que a dieta mediterrânea reduziu significativamente eventos cardiovasculares maiores quando comparada a dietas controle (Estruch et al., 2018).

Porém, mesmo uma dieta excelente possui limitações biológicas. Indivíduos com hipercolesterolemia familiar podem manter níveis elevados de LDL-colesterol apesar de hábitos exemplares. Da mesma forma, pessoas com diabetes tipo 2 mais avançado frequentemente necessitam de medicamentos para alcançar adequado controle glicêmico (American Diabetes Association, 2025).

Na prática clínica, os melhores resultados costumam surgir justamente da combinação entre mudanças sustentáveis de estilo de vida e terapias médicas quando indicadas.

Leia a continuação em Parte 2.

 

Referências

AMERICAN DIABETES ASSOCIATION. Standards of Care in Diabetes—2025. Diabetes Care, Alexandria, v. 48, Suppl. 1, 2025.

CAPPUCCIO, F. P. et al. Quantity and quality of sleep and incidence of type 2 diabetes: a systematic review and meta-analysis. Diabetes Care, Alexandria, v. 33, n. 2, p. 414-420, 2010.

ESTRUCH, R. et al. Primary prevention of cardiovascular disease with a Mediterranean diet supplemented with extra-virgin olive oil or nuts. New England Journal of Medicine, Boston, v. 378, n. 25, p. e34, 2018.

FAKIH, M. G. et al. Lifestyle medicine: the bridge between prevention and treatment of chronic diseases. BMJ, Londres, v. 384, 2024.

GBD 2019 RISK FACTORS COLLABORATORS. Global burden of 87 risk factors in 204 countries and territories, 1990–2019: a systematic analysis. The Lancet, Londres, v. 396, n. 10258, p. 1223-1249, 2020.

LEE, I. M. et al. Long-term leisure-time physical activity intensity and all-cause and cause-specific mortality: prospective cohort study. Circulation, Dallas, v. 146, n. 7, p. 523-534, 2022.

MACH, F. et al. 2019 ESC/EAS Guidelines for the management of dyslipidaemias. European Heart Journal, Oxford, v. 41, n. 1, p. 111-188, 2020.

VAN DE VELDE, T. et al. The effect of exercise training on blood lipids: a systematic review and meta-analysis. Sports Medicine, Auckland, v. 54, p. 1047-1068, 2024.

WORLD HEALTH ORGANIZATION. WHO Guidelines on Physical Activity and Sedentary Behaviour. Geneva: WHO, 2020.

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