COMO GANHAR MÚSCULOS – O Descanso Constrói o que o Treino Apenas Inicia – VERSÃO APROFUNDADA – PARTE 5

 

 “A musculação não faz o músculo crescer. Ela apenas convence o organismo de que será necessário construir um músculo maior.”

 

O treino acende a faísca; a recuperação mantém o fogo

É comum ouvir alguém dizer que “o músculo cresce durante o treino”. A frase é atraente, mas biologicamente incorreta.

Na realidade, o treinamento representa apenas o início do processo. Ao submeter as fibras musculares a uma carga suficientemente intensa, desencadeamos uma série de sinais bioquímicos que informam ao organismo que aquele tecido precisará adaptar-se. Entretanto, a maior parte da construção de novas proteínas musculares ocorrerá nas horas e dias seguintes, durante o período de recuperação (Phillips; Winett, 2010).

Essa constatação ajuda a compreender por que programas de treinamento excessivamente intensos, sem tempo adequado para recuperação, frequentemente produzem resultados inferiores aos de programas mais equilibrados. O músculo necessita de estímulo, mas também precisa de tempo para responder a ele.

Em certo sentido, poderíamos dizer que o treino cria a necessidade; o descanso permite a adaptação.

Essa ideia vale não apenas para atletas, mas também para pessoas que desejam envelhecer com saúde. O organismo responde muito melhor a estímulos consistentes e repetidos do que a esforços esporádicos e extenuantes.

 

Dormir bem é uma estratégia anabólica – Quem não dorme bem, não treina bem

Entre todos os fatores relacionados à recuperação muscular, talvez nenhum seja tão subestimado quanto o sono.

Enquanto dormimos, especialmente durante as fases mais profundas do sono não REM, ocorre intensa reorganização metabólica. Diversos hormônios envolvidos na recuperação tecidual apresentam secreção aumentada, enquanto processos inflamatórios desencadeados pelo exercício começam gradualmente a ser resolvidos (Dattilo et al., 2011).

Além disso, a privação crônica de sono altera profundamente o ambiente hormonal. Estudos demonstram que noites insuficientes de descanso podem aumentar os níveis de cortisol, reduzir a sensibilidade à insulina, comprometer a síntese proteica e dificultar tanto a recuperação quanto o desempenho físico (Knowles et al., 2018).

Na prática clínica, isso significa que indivíduos que treinam intensamente, mas dormem apenas quatro ou cinco horas por noite, frequentemente obtêm resultados inferiores aos daqueles que conciliam treinamento, alimentação adequada e sono regular.

Talvez seja por isso que muitos treinadores experientes repetem uma frase aparentemente simples:

“Quem não dorme bem também não treina bem.”

Na verdade, poderíamos ir além. Quem não dorme adequadamente também encontra maior dificuldade para construir músculos.

 

Proteínas: matéria-prima indispensável, mas não ilimitada

Poucos nutrientes receberam tanta atenção nos últimos anos quanto as proteínas. Essa popularidade é plenamente justificável. Afinal, os aminoácidos que compõem as proteínas são os blocos estruturais utilizados pelo organismo para sintetizar novas fibras musculares.

Entretanto, dessa constatação surgiu um equívoco frequente: imaginar que, se uma determinada quantidade de proteína é benéfica, o dobro produzirá resultados duas vezes maiores.

A fisiologia demonstra exatamente o contrário.

Após uma refeição contendo quantidade suficiente de proteínas de boa qualidade, especialmente ricas em aminoácidos essenciais, ocorre aumento transitório da síntese proteica muscular. Esse efeito, porém, não permanece indefinidamente. Algumas horas depois, mesmo que ainda existam aminoácidos circulando na corrente sanguínea, a velocidade de síntese tende a retornar aos níveis basais. Esse fenômeno é conhecido como muscle full effect, sugerindo que existe um limite fisiológico para a utilização aguda dos aminoácidos pelo músculo (Atherton; Smith, 2012).

Essa descoberta ajuda a explicar por que distribuir adequadamente a ingestão proteica ao longo do dia costuma ser mais eficiente do que concentrá-la em uma única refeição muito volumosa.

Também explica por que consumir quantidades extremamente elevadas de proteínas não produz crescimento muscular ilimitado.

O organismo utiliza aquilo de que necessita. O excedente poderá ser oxidado para obtenção de energia, convertido em outros compostos metabólicos ou simplesmente eliminado, dependendo do contexto nutricional.

 

Quanto de proteína realmente precisamos?

Essa talvez seja uma das perguntas mais frequentes em consultórios e academias.

Durante muitos anos, propagou-se a ideia de que qualquer pessoa interessada em musculação deveria consumir cerca de 2 gramas de proteína por quilograma de peso corporal por dia. Embora essa recomendação tenha algum fundamento em contextos específicos, ela acabou sendo generalizada de forma inadequada.

As diretrizes da International Society of Sports Nutrition (ISSN) indicam que indivíduos submetidos a treinamento resistido realizado com regularidade, intensidade e volume suficientes para promover hipertrofia costumam obter excelentes resultados com ingestões entre aproximadamente 1,4 e 2,0 g/kg/dia (Jäger et al., 2017).

Entretanto, esse intervalo não deve ser interpretado como uma recomendação universal.

Uma pessoa que frequenta a academia uma ou duas vezes por semana, realizando exercícios leves ou moderados, provavelmente não necessita dessa ingestão elevada. Em muitos desses casos, uma alimentação equilibrada já fornece proteínas suficientes para atender às necessidades fisiológicas.

Por outro lado, existem situações em que necessidades superiores podem ser justificadas, como atletas submetidos a treinamento de alto volume, indivíduos em restrição calórica prolongada, idosos com resistência anabólica, pacientes em recuperação clínica ou pessoas com determinadas condições metabólicas. Da mesma forma, indivíduos com doença renal avançada, hepatopatias específicas ou outras condições clínicas podem exigir ajustes individualizados, sempre sob acompanhamento profissional.

Em outras palavras, a quantidade ideal de proteína depende do indivíduo, do tipo de treinamento, da idade, do estado nutricional e dos objetivos clínicos.

Não existe um número mágico. Existe individualização.

 

A leucina: o “interruptor” da síntese proteica?

Entre todos os aminoácidos, poucos despertaram tanto interesse quanto a leucina.

Esse aminoácido essencial participa da ativação da via mTOR, funcionando como um importante sinalizador de disponibilidade nutricional. Em presença de estímulo mecânico adequado, níveis suficientes de leucina favorecem a ativação dos mecanismos envolvidos na síntese proteica muscular (Norton; Layman, 2006).

Essa descoberta levou muitos fabricantes a promoverem suplementos isolados de leucina como solução para hipertrofia. Entretanto, novamente a fisiologia impõe limites. A leucina funciona como um sinalizador, não como um construtor.

Ela ajuda a “ligar o interruptor”, mas a construção das novas proteínas musculares depende da presença de todos os demais aminoácidos essenciais, além do treinamento, da energia disponível e da recuperação adequada.

É como acender as luzes de uma obra. A iluminação permite iniciar o trabalho. Mas não substitui os tijolos, os operários nem o projeto arquitetônico.

Por isso, a maioria das diretrizes atuais recomenda priorizar proteínas alimentares completas ou suplementos proteicos de alta qualidade, reservando aminoácidos isolados para situações bastante específicas.

 

A fisiologia não negocia

Talvez a principal mensagem deste capítulo possa ser resumida em uma única frase:

O organismo não constrói músculos porque alguém deseja ficar mais forte. Ele constrói músculos porque foi convencido, pelo treinamento, de que precisará deles.

Toda a nutrição esportiva moderna gira em torno dessa realidade. Se pudéssemos resumir e sequenciar esse processo, faríamos da seguinte forma:

  1. Proteínas fornecem matéria-prima.
  2. Aminoácidos sinalizam disponibilidade.
  3. Hormônios modulam o ambiente metabólico.
  4. O sono favorece a recuperação.
  5. Mas quem inicia todo esse processo continua sendo o exercício.
  6. É por isso que nenhuma cápsula consegue substituir um treino bem executado.

Enfim, essa extraordinária inteligência fisiológica torna a hipertrofia um processo tão fascinante.

CONTINUA NA PARTE 6…

Ali abordaremos:

A creatina, provavelmente o suplemento com maior nível de evidência científica para aumento do desempenho em exercícios de alta intensidade;

O whey protein, esclarecendo quando realmente faz diferença e quando representa apenas comodidade alimentar;

Os suplementos com evidência fraca ou inconsistente (BCAA isolado, glutamina para hipertrofia, “testosterone boosters”, HMB em populações gerais, entre outros);

Um quadro com “O que a ciência realmente demonstra”, classificando cada suplemento conforme o grau de evidência;

E as referências completas.

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